{"id":77582,"date":"2023-10-26T03:20:07","date_gmt":"2023-10-26T06:20:07","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=77582"},"modified":"2023-12-11T02:41:51","modified_gmt":"2023-12-11T05:41:51","slug":"musica-perola-perdida-do-experimental-brasileiro-album-ruinas-circulares-do-alpha-iii-completa-35-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/26\/musica-perola-perdida-do-experimental-brasileiro-album-ruinas-circulares-do-alpha-iii-completa-35-anos\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: P\u00e9rola perdida do experimental brasileiro, \u00e1lbum \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d, do Alpha III, completa 35 anos"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/BrunoPinguim47\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b><span class=\"il\">Bruno<\/span>\u00a0de Sousa\u00a0<span class=\"il\">Moraes<\/span><\/b><\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em setembro de 2023, o disco independente \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=M_l74rO7vfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ru\u00ednas Circulares<\/a>\u201d, do Alpha III, projeto de rock progressivo e m\u00fasica eletr\u00f4nica experimental de Campinas (SP), fez seu 35\u00ba anivers\u00e1rio. Inspirado em <a href=\"https:\/\/www.imagomundi.com.br\/arte\/borges_ruinas.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">um dos contos mais aclamados<\/a> do escritor argentino Jorge Lu\u00eds Borges (1899-1986), o \u00e1lbum mistura m\u00fasica erudita vanguardista, sintetizadores, samples e pitadas de rock progressivo para construir uma sonoridade com poucos pares na m\u00fasica brasileira: o disco re\u00fane elementos de artistas como Vangelis, Jean Michel Jarre, Wendy Carlos e Tangerine Dream, com passagens que devem agradar a f\u00e3s de ELP e Rick Wakeman. Mas, mesmo que essa n\u00e3o seja sua praia, arrisco a promessa de que tanto o cat\u00e1logo do Alpha III quanto esta reportagem \u2014 fruto de uma entrevista com o artista por tr\u00e1s de \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d e de MUITAS escutadas do disco \u2014 ter\u00e3o hist\u00f3rias e momentos interessantes para qualquer pessoa que aprecie m\u00fasica ou trabalhe com produ\u00e7\u00e3o independente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos nessa?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"RUINAS CIRCULARES ( Alpha III- LP  1988 ) Full Remaster  CD 2023 -MP3 High 320.\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/M_l74rO7vfw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Amyr Cant\u00fasio Jr, \u201cum c\u00e3o sem dono\u201d<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando comprei minha c\u00f3pia em vinil do \u00e1lbum &#8220;Ru\u00ednas Circulares&#8221;, o Afonso Cappellaro, da <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/fifodiscos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fifo Discos<\/a>, disse que conseguia combinar para que eu conhecesse e pegasse um aut\u00f3grafo com Amyr Cant\u00fasio Jr, o artista por tr\u00e1s do Alpha III. Uma semana depois, decidido a transformar o pedido de aut\u00f3grafos nesta mat\u00e9ria, entendi o que Afonso quis dizer com \u201cO cara \u00e9 bom de contar hist\u00f3rias\u201d: a conversa durou pouco mais de duas horas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascido em Campinas, interior de S\u00e3o Paulo, em 1957, Amyr Von Bathel Cant\u00fasio Jr \u00e9 primariamente descendente de fam\u00edlia italiana, de onde herdou o sobrenome Cant\u00fasio \u2014 tamb\u00e9m nome de um antigo curtume da fam\u00edlia paterna, que operou na Vila Industrial de Campinas <a href=\"https:\/\/repositorio.unesp.br\/items\/39486bf5-ac97-49fc-a57a-16dbcba47468\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">por mais de oitenta anos<\/a>. O nome do meio, diferente, \u201cVon Bathel\u201d, veio da bisav\u00f3 paterna austr\u00edaca. Mas foi de sua m\u00e3e, tamb\u00e9m \u00edtalo-brasileira, que Cant\u00fasio herdou o interesse pela m\u00fasica e a proximidade com o piano.<\/p>\n<figure id=\"attachment_77591\" aria-describedby=\"caption-attachment-77591\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-77591\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-09-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-09-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-09-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-77591\" class=\"wp-caption-text\"><em>Amyr Cant\u00fasio Jr<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMinha m\u00e3e era pianista, ela foi professora da USP e da PUC Campinas. Com cinco, seis anos de idade eu estava ouvindo bastante Beethoven, Chopin, Bach\u2026 Com nove eu j\u00e1 estava tocando\u201d, conta o criador do Alpha III. Mas essa base de m\u00fasica erudita, como no caso de muitos jovens nascidos no p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, logo iria colidir com a eletricidade real e metaf\u00f3rica do rock and roll, a partir de compactos dos Beatles, Rolling Stones e vinis do Black Sabbath trazidos da Europa por alguns primos mais velhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a chegada da adolesc\u00eancia, a m\u00fasica poderosa e irreverente somada \u00e0 revolta contra os sistemas de cren\u00e7a dos pais fez com que o pr\u00f3ximo passo da metamorfose biogr\u00e1fica e musical de Cant\u00fasio fosse dr\u00e1stico. Na biografia, a sa\u00edda de casa para morar numa comunidade alternativa na cidade vizinha, Holambra, no s\u00edtio da tia do amigo e baixista M\u00e1rio Jorge; na m\u00fasica, e acompanhado do mesmo M\u00e1rio Jorge, a funda\u00e7\u00e3o do grupo de rock progressivo Spectro, em 1974.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"SPECTRO 1974- Raridade Definitiva- Remaster 2023-Rock Progressivo Nacional.\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JWHQ8Rbpf1s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sala de estar, ao lado de est\u00e1tuas de Buda, livros e da cachorra vira-lata Pretinha, deitada no ch\u00e3o e escutando atentamente \u00e0 conversa, Amyr relembra o clima da \u00e9poca:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCom esses caras a coisa rolava de uma maneira diferente do que \u00e9 hoje. O contexto sociol\u00f3gico de Campinas nos anos 1970, com 250 mil habitantes, era o de uma cidade preconceituosa, racista, limitada, careta\u201d, conta. Ele lembra que a virada dos anos 1960 para os 1970 veio com muita influ\u00eancia dos movimentos beatnik e hippie. Jovens cabeludos, com roupa colorida, em plena ditadura. Ele completa: \u201cA gente n\u00e3o s\u00f3 se vestia assim, a gente era assim. N\u00e3o gostava de como nossos pais agiam mais. A gente n\u00e3o tinha apre\u00e7o pelo conservadorismo deles, o pedantismo, apego aos bens materiais. N\u00e3o, cara! \u00c9 de todo mundo, o planeta Terra \u00e9 c\u00f3smico. A gente n\u00e3o vai durar muito tempo aqui. Pra que uma fam\u00edlia vai ter dez casas enquanto tem gente que n\u00e3o tem nenhuma?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cant\u00fasio explica que, apesar de manter essa vis\u00e3o at\u00e9 hoje, a preocupa\u00e7\u00e3o principal de sua vida e de sua m\u00fasica nunca foi com pol\u00edtica \u2014 o que talvez tenha evitado confronta\u00e7\u00e3o mais direta com o regime militar da \u00e9poca. Seu ativismo \u00e9 ecol\u00f3gico, metaf\u00edsico e espiritual, apesar de quase sempre com uma roupagem sombria. Isto se reflete inclusive no nome da banda de estreia, Spectro, derivado da composi\u00e7\u00e3o \u201cSpectral\u201d, com a qual Amyr ganhou um pr\u00eamio de arranjo e composi\u00e7\u00e3o do Projeto Guarani no Teatro Municipal Castro Mendes, em 1974.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77595\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-05-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-05-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-05-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mistura do rock com a m\u00fasica erudita, por\u00e9m, n\u00e3o agradou todo mundo: \u201cTeve gente que me chamava de \u2018Multinacional\u2019. E eu gritava de volta uma grosseria!\u201d (risos) \u201cMas tem que pensar que at\u00e9 bem pouco tempo antes dessa \u00e9poca, n\u00e3o tinha um nome pra quem fazia essa mistura. Hoje identificam esse som como rock progressivo. Mas na virada para os anos setenta n\u00e3o existia essa terminologia.\u201d Esta rea\u00e7\u00e3o hostil de algumas pessoas foi ecoada em outros lugares do mundo, como o caso famoso da resposta \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o de \u201cPictures At an Exhibition\u201d de Mussorgsky pelo Emerson Lake and Palmer, <a href=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20071211144525\/http:\/www.rollingstone.com\/artists\/emersonlakepalmer\/albums\/album\/191801\/review\/5944649\/pictures_at_an_exhibition\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que foi criticado em 1972 por Lester Bangs na Rolling Stone<\/a> pelo que o \u00e1lbum ao vivo fazia tanto com o rock quanto com as composi\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO pessoal do rock progressivo no Brasil, desde os Mutantes at\u00e9 Rock da Mortalha, Som Nosso de Cada Dia e o pr\u00f3prio Spectro, estava fazendo esse som em paralelo com o que acontecia no mundo: Por exemplo, na Alemanha, a banda CAN treinou com o compositor erudito e experimentador eletr\u00f4nico Karlheinz Stockhausen. Quando eu ganhei o pr\u00eamio que levou ao Spectro, em 1974, j\u00e1 tinha mais informa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 tinham os LPs do Yes, Genesis. A\u00ed eu sabia que a gente estava fazendo uma coisa que os caras tamb\u00e9m estavam fazendo\u201d, conta o m\u00fasico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A banda durou at\u00e9 1979, e Cant\u00fasio acrescenta que divergiu do rock progressivo setentista razoavelmente r\u00e1pido. N\u00e3o exatamente por se desencantar com o g\u00eanero \u2014 que ainda escuta bastante \u2014 mas por querer explorar outras abordagens para a m\u00fasica. Influenciado pelo mesmo Stockhausen, voltou-se para a experimenta\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica e, na virada para os anos oitenta, criou o Alpha III, onde explora at\u00e9 hoje in\u00fameras sonoridades, bebendo de fontes que v\u00e3o da m\u00fasica techno ao death e black metal. \u201cEu fa\u00e7o m\u00fasica erudita de vanguarda. Se voc\u00ea me enquadrar dentro do rock progressivo, tudo bem. Se me enquadrar com a m\u00fasica experimental do Egberto Gismonti, tudo bem. Rock in Opposition, adoro! Eu sou um cara livre, sabe?\u201d, comenta Cant\u00fasio. E encerra, com uma risada: \u201cEu sou um c\u00e3o sem dono!\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77596\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-04-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"473\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-04-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-04-copiar-300x189.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>\u201cTecer uma corda de areia\u201d: O nascimento de &#8220;Ru\u00ednas Circulares&#8221;<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encerrada sua participa\u00e7\u00e3o no Spectro e a vida em comunidades alternativas, Cant\u00fasio voltou a Campinas, casou-se e teve o primeiro e \u00fanico filho. A paternidade se deu em meio ao curso de Extens\u00e3o Universit\u00e1ria em M\u00fasica, na Unicamp, ao final do qual foi produzido \u201cMar de Cristal\u201d, o disco de estreia do Alpha III. Com o primeiro \u00e1lbum lan\u00e7ado, e j\u00e1 come\u00e7ando a circular mais pela capital paulista, Cant\u00fasio fez amizades na Galeria do Rock, incluindo Jos\u00e9 Carlos Grij\u00f3, o famoso Z\u00e9 do Disco. Cant\u00fasio lembra que, em 1986, ele e Grij\u00f3 fundaram o selo Faunus Discos, especializado na produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de rock progressivo e m\u00fasica experimental.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Alpha III - Mar de Cristal (1983)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/onV7SyUsBBs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi pela Faunus que foram lan\u00e7ados \u201cSombras\u201d e \u201cAgartha\u201d, os discos subsequentes do Alpha III. Tamb\u00e9m por este selo, saiu o disco que deu origem a este texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o de \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d \u00e9 um absurdo de engenhosidade, gambiarra e for\u00e7a de vontade. \u00c9 uma hist\u00f3ria com tanta cara de Brasil que n\u00e3o acredito at\u00e9 agora que \u00e9 a primeira vez que ela \u00e9 contada numa reportagem (ao menos na internet brasileira). No final dos anos 1980, Amyr Cant\u00fasio Jr trabalhava como freelancer compondo vinhetas para a TV Bandeirantes e nos Est\u00fadios Juratel, parte da Junta de R\u00e1dio e Televis\u00e3o de Campinas, de propriedade Batista. Neste \u00faltimo, fez amizade com o t\u00e9cnico de som Mois\u00e9s Leite, que admirava os trabalhos do Alpha III e come\u00e7ou a montar um plano para que Amyr lan\u00e7asse seu quarto disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCompondo vinhetas, o meu dinheiro n\u00e3o dava nem pra comer direito. A\u00ed o Mois\u00e9s falou assim pra mim: \u2018Amyr, voc\u00ea n\u00e3o tem grana pra pagar est\u00fadio. Eu vou guardar os peda\u00e7os que sobrarem de fita de rolo de todas as bandas que t\u00eam grana, de m\u00fasica gospel, sertanejo e o caramba\u2026 Sobrando fita pra dois, cinco minutos de m\u00fasica, eu guardo&#8217;\u201d, relembra o m\u00fasico. Nas sobras de tempo de est\u00fadio, a dupla utilizava as sobras de fita Scotch 226 para gravar trechos do disco. Primeiro as bases no piano de cauda, que Amyr chama de \u201cum puta Grand Piano Yamaha!\u201d e depois as linhas de sintetizador, drum-machines, baixo e bateria. Tamb\u00e9m gravadas com, al\u00e9m de talento, muito jeitinho:<\/p>\n<figure id=\"attachment_77597\" aria-describedby=\"caption-attachment-77597\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-77597\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Amyr-Yamaha-Studio-1987-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"545\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Amyr-Yamaha-Studio-1987-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Amyr-Yamaha-Studio-1987-copiar-300x218.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-77597\" class=\"wp-caption-text\"><em>Amyr Cant\u00fasio Jr no est\u00fadio em 1987<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTinha um Hammond estourado jogado num canto, eu peguei. Tinha um Mellotron, usei tamb\u00e9m. Uma bateria Luthier que tinha no est\u00fadio, eu fui e toquei tamb\u00e9m\u2026 eu gravei todos os instrumentos, esse disco n\u00e3o teve nenhum outro m\u00fasico. O Mois\u00e9s falava \u2018Olha, um cara vai deixar tr\u00eas sintetizadores aqui por cinco dias! Tem um DW-8000, tem um Moog\u2026\u2019 de manh\u00e3 cedo eu j\u00e1 tava no est\u00fadio.\u201d (risos) \u201cEu n\u00e3o tinha dinheiro pra ter aqueles teclados. O Mois\u00e9s Leite foi um irm\u00e3o pra mim, que permitiu que esse disco existisse.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cant\u00fasio conta que a esta altura, em 1987, ele havia entrado em contato com a literatura do autor argentino de realismo m\u00e1gico e fantasia Jorge Luis Borges, ficando fascinado pela atmosfera metaf\u00edsica e ocultista de contos reunidos nos livros \u201cFic\u00e7\u00f5es\u201d (editado entre 1941 e 1956) e \u201cO Aleph\u201d (editado entre 1949 e 1966). Conta que escolheu o conto \u201cAs Ru\u00ednas Circulares\u201d (<a href=\"https:\/\/www.imagomundi.com.br\/arte\/borges_ruinas.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">leia na \u00edntegra aqui<\/a>) como tema de seu pr\u00f3ximo \u00e1lbum pela pot\u00eancia da hist\u00f3ria, que trata de uma s\u00e9rie de temas pesados como a distin\u00e7\u00e3o entre sonho e realidade, entre causa e efeito, a identidade em um universo imposs\u00edvel de compreender, e o pr\u00f3prio processo criativo. Sem dar muitos spoilers relevantes, \u201cAs Ru\u00ednas Circulares\u201d \u00e9 uma hist\u00f3ria curta de fantasia sobre um mago que decide construir uma pessoa a partir de seus sonhos, e depois inserir essa pessoa on\u00edrica na realidade. Para isso, ele viaja at\u00e9 as ru\u00ednas de um templo antigo, dedicado a uma divindade esquecida, e se p\u00f5e a tentar sonhar e a pensar sobre como funcionaria a identidade de um ser feito puramente desses sonhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando li o conto, comecei a pensar sobre sonhos que eu tinha que eram assim: eu n\u00e3o tinha certeza se eu tinha despertado de um sonho ou se eu \u00e9 que estava sendo sonhado. Como naquela <a href=\"https:\/\/medium.com\/@igorteo\/uma-borboleta-que-sonhava-a37300ef3859\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hist\u00f3ria do Chuang-Tzu<\/a>: \u2018Eu sou um s\u00e1bio que sonhou que era uma borboleta? Ou eu sou uma borboleta sonhando que \u00e9 um s\u00e1bio?\u2019\u201d, conta Amyr. &#8220;Essa \u00e9 uma experi\u00eancia que acontece com muitas pessoas, e eu queria pensar numa maneira de representar a hist\u00f3ria musicalmente.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conto se inicia descrevendo a chegada do mago \u00e0 floresta pantanosa na qual o templo abandonado repousa. Ele anda sozinho pela terra encharcada, procurando as ru\u00ednas na escurid\u00e3o da noite. Para ilustrar este vagueio, o disco abre com \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=M_l74rO7vfw&amp;t=0s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Viagem<\/a>\u201d, uma composi\u00e7\u00e3o lenta de sintetizadores, que conta com sons que parecem o canto de pequenos p\u00e1ssaros, mas que Amyr esclarece n\u00e3o serem samples com efeito: \u201cEu fiz aquilo no sintetizador Yamaha CS-30. Fiz mexendo no oscilador de onda, aplicando delay. Tudo feito \u00e0 m\u00e3o. Desde a capa do disco at\u00e9 a minha m\u00fasica, foi tudo feito artesanalmente \u00e0 m\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amyr conta inclusive que a capa, desenhada por Oswaldo H. Vasconcelos Filho, aparece no <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Album-Cover-5-Dean-Thorgerson\/dp\/1850280770\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">quinto volume do \u201cThe Album Cover Album\u201d<\/a>, organizado por dois dos maiores capistas da hist\u00f3ria do rock: Roger Dean (que fez capas para o Yes, Asia e Focus) e Storm Thorgerson (respons\u00e1vel pela famosa capa do \u201cThe Dark Side of the Moon\u201d, que tamb\u00e9m trabalhou com o Genesis, Peter Gabriel e The Mars Volta).<\/p>\n<figure id=\"attachment_77589\" aria-describedby=\"caption-attachment-77589\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-77589\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/RUINAS-CIRCULARES-LP-NO-LIVRO-DE-ROGER-DEAN-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"890\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/RUINAS-CIRCULARES-LP-NO-LIVRO-DE-ROGER-DEAN-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/RUINAS-CIRCULARES-LP-NO-LIVRO-DE-ROGER-DEAN-copiar-253x300.jpg 253w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-77589\" class=\"wp-caption-text\"><em>&#8220;Ruinas Circulares&#8221; dividindo a p\u00e1gina do livro de Roger Dean com Iron Maiden e Guns N&#8217; Roses<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O disco divaga pelas etapas do conto, com faixas que mudam de atmosfera e que, a princ\u00edpio, podem dar a \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d a apar\u00eancia de ser uma obra pouco coesa. Al\u00e9m do eletr\u00f4nico espacial com toadas de Klaus Schulze, Tangerine Dream e Vangelis, encontram-se no \u00e1lbum toccatas de piano, faixas que lembram obras de Rick Wakeman e pe\u00e7as cl\u00e1ssicas, outra com uma guitarra bastante rasgada que quase puxa para um prog metal. Esta \u00faltima faixa, denominada \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=M_l74rO7vfw&amp;t=1869s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Holocausto Final<\/a>\u201d, incorpora ainda um exemplo muito inicial do uso de uma colagem de breakbeats \u2014 montada pelo pr\u00f3prio Cant\u00fasio com um gravador caseiro \u2014 que eu creio ter como base a \u201c<a href=\"https:\/\/popfantasma.com.br\/amen-break\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Amen Break<\/a>\u201d, sampleada em centenas de m\u00fasicas de g\u00eaneros que v\u00e3o do hip-hop ao drum\u2019n\u2019bass e hardcore breakbeat. De fato esta descri\u00e7\u00e3o sugere que o disco \u00e9 um caos de estilos em contraste, mas ap\u00f3s retornar diversas vezes para escrever essa an\u00e1lise, minha impress\u00e3o \u00e9 a de que h\u00e1 uma coes\u00e3o forte no &#8220;Ru\u00ednas Circulares&#8221;, uma coes\u00e3o que se extrai da atmosfera, de alguns toques sutis de composi\u00e7\u00e3o que conversam entre si, e da abordagem experimental constante do Alpha III.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jorge Luis Borges nunca escrevia contos apenas sobre as hist\u00f3rias sendo contadas. Pelo contr\u00e1rio, an\u00e1lises de sua obra muitas vezes identificam mais de um significado ancorado em cada uma de suas met\u00e1foras. A pesquisadora argentina Leonor Fleming chama aten\u00e7\u00e3o em um <a href=\"https:\/\/www.borges.pitt.edu\/sites\/default\/files\/Fleming.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ensaio acad\u00eamico, em espanhol<\/a>, para o fato de que \u201cAs Ru\u00ednas Circulares\u201d \u00e9 muito mais do que um misto de sci-fi c\u00f3smico e fantasia sobre Magia com \u201cM\u201d mai\u00fasculo: al\u00e9m de poder ser encarado como uma medita\u00e7\u00e3o sobre a natureza da exist\u00eancia e o ato de criar uma vida, o conto \u00e9 tamb\u00e9m um ensaio sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. A pesquisadora associada da Universidad Nacional de San Mart\u00edn destaca inclusive que, quando Borges cita que o projeto on\u00edrico e m\u00edstico do mago \u201cesgotara o inteiro espa\u00e7o de sua alma\u201d, estaria se referindo \u00e0 caracter\u00edstica obsessiva de projetos art\u00edsticos. Com base no apontamento de Fleming, pode-se interpretar que a compara\u00e7\u00e3o do ato de sonhar uma nova vida a algo \u201cmuito mais \u00e1rduo que tecer uma corda de areia ou cunhar em moeda o vento sem ef\u00edgie\u201d, tamb\u00e9m pode estar chamando aten\u00e7\u00e3o para as dificuldades de se construir uma obra liter\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E como estas dificuldades e obsess\u00f5es influenciaram a cria\u00e7\u00e3o de uma obra musical como a adapta\u00e7\u00e3o do Alpha III?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cant\u00fasio atribui muito da diversidade criativa do disco \u00e0s limita\u00e7\u00f5es de se fazer m\u00fasica eletr\u00f4nica independente \u2014 com fitas coladas com durex e instrumentos \u201cemprestados\u201d \u2014 no Brasil dos anos oitenta. \u201cA dificuldade que n\u00f3s t\u00ednhamos para fazer m\u00fasica melhorava a nossa possibilidade musical. As coisas antigamente eram a pau e pedra\u201d, diz o m\u00fasico. E completa, comentando o quanto \u00e9 empolgante que hoje muito do cen\u00e1rio da produ\u00e7\u00e3o de m\u00fasica tenha uma marca da independ\u00eancia que ressoa (e contrasta) com a hist\u00f3ria do \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d: \u201cHoje os artistas j\u00e1 t\u00eam mais acesso a ter tudo o que precisam para produzir um disco na pr\u00f3pria casa, eu mesmo tenho aqui: brincando aqui em casa hoje eu fa\u00e7o m\u00fasica com um puta som digital!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele reflete ainda que \u00e9 importante aliar essa facilidade tecnol\u00f3gica e as menores barreiras pra espalhar sua m\u00fasica na internet com a abordagem experimental e \u201cDo It Yourself\u201d imposta pelas dificuldades do passado: \u201cEu sei linguagem de m\u00e1quina, aprendi Fortran e Cobol t\u00e9cnicos, ent\u00e3o sei programar sintetizadores. Trabalhei para a Yamaha como endorser. Tenho muita vontade de dar uns cursos sobre esse tipo de abordagem, resgatar um eletr\u00f4nico que realmente ouse. Mostrar como se faz um sample, mas um sample louco!\u201d (risos) \u201cA meu ver, n\u00e3o se pode simplesmente pegar um sample pronto pra fazer uma m\u00fasica! Se batuco aqui qualquer coisa na pr\u00f3pria perna e gravo, isso pode ser trabalhado e virar um sample. Se dou uma tossida e gravo\u2026 D\u00e1 um loop nisso a\u00ed, distorce, coloca um monte de efeito! Isso \u00e9 um sample! O pessoal n\u00e3o arrisca\u201d, comenta Cant\u00fasio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntado sobre as similaridades entre fazer o disco e construir uma prole sonhada \u201centranha por entranha e tra\u00e7o por tra\u00e7o, em mil e uma noites secretas\u201d, ele responde que, de certa maneira, tem muito menos controle sobre as entranhas de sua m\u00fasica do que isso. Lidar com m\u00fasica sintetizada baseada em osciladores \u00e9 muito mais parecido com \u201ctecer uma corda de areia\u201d, pois os efeitos acontecem em tempo real. \u201cO efeito est\u00e1 saindo de mim enquanto controlo o instrumento. Mas ele tamb\u00e9m volta pra mim, passa por mim enquanto controlo e toco. Compondo no piano at\u00e9 tive esse controle dos m\u00ednimos detalhes. Mas quando chega a hora dos sintetizadores e efeitos, n\u00e3o d\u00e1! A faixa-t\u00edtulo do disco mesmo tem apitos de osso (tradicionais de Pueblos do Novo M\u00e9xico) que foram processados com delay enquanto eram tocados.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com tudo gravado, Cant\u00fasio levou o conte\u00fado bruto do disco para mostrar a Jos\u00e9 Grij\u00f3, o Z\u00e9 do Disco. Segundo o m\u00fasico, o co-fundador da Faunus ficou louco com o resultado, afirmando \u201cPorra, velho! Esse vai ser o melhor disco do Alpha III!\u201d. O compositor sorri nost\u00e1lgico, acrescentando: \u201cE foi!\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77600\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/alphaIII.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/alphaIII.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/alphaIII-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/alphaIII-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Faunus dan\u00e7a em toca-discos<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vers\u00e3o em vinil de \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d foi lan\u00e7ado pela Faunus, com prensagem da \u201cGrava\u00e7\u00f5es El\u00e9tricas LTDA\u201d, raz\u00e3o social da Continental. Com a popularidade restrita da m\u00fasica instrumental no Brasil e a dificuldade de concorrer de frente com os discos de gravadoras maiores e artistas mais populares, o disco vendeu razoavelmente pouco no Brasil \u2014 mas Amyr n\u00e3o tem uma estimativa destes n\u00fameros. Fora daqui, por\u00e9m, o disco teve uma boa aceita\u00e7\u00e3o em pa\u00edses como a Gr\u00e9cia e tamb\u00e9m o Jap\u00e3o, onde chegou a ganhar uma an\u00e1lise na revista-cat\u00e1logo Marquee (antiga Marquee Moon), junto a gigantes como Keith Emerson e Gentle Giant. Talvez parte da difus\u00e3o limitada do \u00e1lbum em seu pa\u00eds de origem seja por sua sonoridade um tanto solit\u00e1ria no cen\u00e1rio brasileiro da \u00e9poca. No mundo da m\u00fasica focada em sintetizadores, Alpha III tinha na Gr\u00e9cia a companhia de Vangelis, e no Jap\u00e3o a de Tomita.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77601\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/ruinas1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"371\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/ruinas1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/ruinas1-300x148.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma quest\u00e3o interessante \u00e9 que deixaram passar um fato important\u00edssimo no design do encarte e da etiqueta de \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d: a data de lan\u00e7amento. As \u00fanicas datas que aparecem no encarte s\u00e3o as das sess\u00f5es de grava\u00e7\u00e3o, entre 4 de Julho e 4 de Agosto de 1987. Gra\u00e7as a este fato, n\u00e3o \u00e9 incomum ver men\u00e7\u00f5es ao lan\u00e7amento do \u00e1lbum datando de um ano antes de seu lan\u00e7amento real, como no site de cataloga\u00e7\u00e3o de m\u00fasica Discogs. A imprecis\u00e3o do disco no tempo \u00e9 apenas mais um aspecto de sua atmosfera m\u00e1gica e Borgiana. O deus romano Faunus afinal, al\u00e9m de ser uma divindade da natureza, foi sincretizado com o grego Pan que, assim como seu pai Hermes, era um embusteiro acostumado a pregar pe\u00e7as.<\/p>\n<figure id=\"attachment_77602\" aria-describedby=\"caption-attachment-77602\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-77602\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/ruinas2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"370\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/ruinas2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/ruinas2-300x148.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-77602\" class=\"wp-caption-text\"><em>O encarte do vinil da \u00e9poca e a adapta\u00e7\u00e3o para o relan\u00e7amento em CD<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do lan\u00e7amento em vinil, \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d foi relan\u00e7ado algumas vezes. A primeira delas em CD pela Rock Symphony, <a href=\"http:\/\/www.rocksymphony.com\/detalhes_noticias.asp?noticia=171\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">no ano de 2005<\/a>, contando com duas faixas-b\u00f4nus in\u00e9ditas. Para este relan\u00e7amento, Cant\u00fasio conta que tiveram de usar como base o \u00e1udio do vinil, pois as masters haviam se perdido devido \u00e0 cola da fita adesiva utilizada para emendar as sobras de Scotch 226. O relan\u00e7amento permitiu ao m\u00fasico dividir a faixa \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=M_l74rO7vfw&amp;t=469s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Filho de Deuses<\/a>\u201d em seus tr\u00eas movimentos, que haviam ficado sem nome na edi\u00e7\u00e3o original em vinil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m foi a partir desta vers\u00e3o que ele trabalhou nos outros dois relan\u00e7amentos do \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"ALPHA III- RUINAS CIRCULARES FULL CD (Inedit REmix DRum Beats by Amyr Cantusio Jr- 2023)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ezaNMLK05zs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro foi um remix (acima), no qual algumas m\u00fasicas tiveram seus tempos alterados e receberam novas linhas de baterias, drum-machines e guitarras. Algumas vers\u00f5es desse remix foram inclusive utilizadas na \u201clive\u201d do \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d (abaixo), uma obra audiovisual independente de est\u00e9tica maravilhosamente bizarra que grita ocultismo, experimentalismo e baixo or\u00e7amento, upada em 2020 <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@legatus1000\/videos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">no canal de YouTube de Cant\u00fasio<\/a>. O segundo relan\u00e7amento foi a remasteriza\u00e7\u00e3o recente (a mesma linkada no in\u00edcio desta mat\u00e9ria), para a qual Cant\u00fasio utilizou-se de softwares de tratamento de \u00e1udio com aprendizado de m\u00e1quina \u2014 vulgo, \u201cintelig\u00eancias artificiais\u201d ou IA \u2014 para chegar a uma sonoridade que mais lhe agradasse.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&quot;LIVE &quot;RUINAS CIRCULARES LP\/ Amyr Cantusio Jr-Alpha III\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/c4HH3IsUgD0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTrabalhar com outros produtores \u00e0s vezes traz alguns conflitos, \u00e0s vezes tem alguns sons que os caras acham que s\u00e3o ru\u00eddo acidental. Se tem alguns sons que eu quero que fiquem assim, \u00e9 porque eles foram feitos pra ficar assim, s\u00e3o de prop\u00f3sito!\u201d, desabafa. \u201c\u00c9 tudo parte de uma abordagem de m\u00fasica concreta, eletr\u00f4nica. Estou usando os ru\u00eddos, os chiados! Mas os produtores acham que \u00e9 um defeito.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amyr conta tamb\u00e9m que, nesta mesma filosofia, ele n\u00e3o altera ou conserta nada ao revisitar seus \u00e1lbuns para remasteriz\u00e1-los com IA \u2014 a n\u00e3o ser quando se trata de uma desconstru\u00e7\u00e3o e remontagem como o remix do \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d. \u201cAt\u00e9 erro eu mantenho! Se errei vai ficar assim. Porque \u00e9 um momento \u00fanico no espa\u00e7o tempo. Gosto dessa espontaneidade. \u00c9 arte zen. Voc\u00ea n\u00e3o pode premeditar, e tamb\u00e9m \u00e9 assim com os efeitos aleat\u00f3rios de m\u00fasica eletr\u00f4nica: o oscilador est\u00e1 virando em loop infinito. Voc\u00ea n\u00e3o sabe em que ponto de bilh\u00f5es de harm\u00f4nicos ele vai estar! Cada \u00e1lbum \u00e9 tamb\u00e9m uma improvisa\u00e7\u00e3o, est\u00e1 l\u00e1 gravado.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma \u00faltima anedota sobre o \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d s\u00e3o seus vocais: A terceira parte de \u201cFilho de Deuses\u201d, com o subt\u00edtulo de \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=M_l74rO7vfw&amp;t=871s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Vis\u00e3o<\/a>\u201d, encerra o Lado A do vinil com a repeti\u00e7\u00e3o de palavras misteriosas. Algo que soa como \u2018Xix Tis Rais Tix\u2019. Este marca o primeiro dos dois \u00fanicos momentos do disco com vozes, e eu perguntei em que l\u00edngua est\u00e1 o trecho e o que significava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cIsso a\u00ed na realidade n\u00e3o \u00e9 nada. \u00c9 uma linguagem inventada, que nem o Magma fez\u201d, explica, referindo-se \u00e0 linguagem \u2018Koba\u00efan\u2019 criada pelo baterista e compositor Christian Vander para acompanhar as m\u00fasicas da banda francesa. \u201cNa realidade, eu estava falando \u2018Foda-se! Foda-se tudo!\u2019, mas eu n\u00e3o falei diretamente porque poderia ser censurado. O Mois\u00e9s, na \u00e9poca chamou aten\u00e7\u00e3o para o fato de que ali tinha muita gente religiosa, e eu respondi de novo \u2018Foda-se\u2019\u201d (risos) \u201cO Grij\u00f3 tamb\u00e9m se preocupou, porque poderia ser ruim para a Faunus, que tamb\u00e9m era uma loja. \u2018V\u00e3o fechar minha loja!\u2019 A\u00ed eu criei esse \u2018Xix Tis Rais Tix\u2019 e usei um flanger de guitarra por cima. Mas o que eu estava pensando enquanto eu entoava era \u2018Foda-se! Foda-se!\u2019. Porque ali acabou tudo! N\u00e3o s\u00f3 o primeiro lado do disco: era a conclus\u00e3o de que a humanidade n\u00e3o entendia nada, ningu\u00e9m tava entendendo nada e eu tamb\u00e9m n\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A solu\u00e7\u00e3o foi engenhosa, mas a estranheza das s\u00edlabas em um disco com \u00f3rg\u00e3os e sintetizadores executando melodias t\u00e3o sombrias tamb\u00e9m n\u00e3o deve ter agradado os religiosos que circulavam na gravadora. \u201cNo fim, deve ter sa\u00eddo at\u00e9 pior. Ao inv\u00e9s de boca-suja, pareceu que era algo sat\u00e2nico!\u201d (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo momento com vocais do disco, a faixa apropriadamente intitulada \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=M_l74rO7vfw&amp;t=1742s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vozes no Infinito<\/a>\u201d, tamb\u00e9m n\u00e3o tem letras. Cant\u00fasio afirma que a inten\u00e7\u00e3o destes vocais era uma vers\u00e3o mais positiva do mesmo &#8220;foda-se&#8221;: \u201cDizer que a vida \u00e9 isso: a gente nasce, cresce, desaparece\u2026 Cada pessoa tem suas cren\u00e7as, uma acredita na sobreviv\u00eancia da alma, outra acredita que a vida \u00e9 um sonho, uma ilus\u00e3o. E no fim, \u2018foda-se\u2019, porque o importante \u00e9 ter vivido e vindo nesse plano, trocado ideia, adquirido uma certa consci\u00eancia. E tchau, n\u00e9?\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_77598\" aria-describedby=\"caption-attachment-77598\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-77598\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-03-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-03-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-03-copiar-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-77598\" class=\"wp-caption-text\"><em>Amyr Cant\u00fasio Jr gravando em casa em 2023<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Uma consequ\u00eancia que tamb\u00e9m \u00e9 causa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d, Amyr Cant\u00fasio Jr continuou fazendo m\u00fasica. No ano seguinte, ap\u00f3s uma breve \u201cmudan\u00e7a de assunto\u201d com \u201cTemple of Delphos\u201d, comp\u00f4s a trilha sonora para outro conto de Borges, \u201cO Aleph\u201d. O resultado foi o disco hom\u00f4nimo, que o compositor comenta ser a consequ\u00eancia direta do \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d, e pessoalmente seu preferido. O \u00faltimo lan\u00e7amento em vinil do Alpha III foi \u201cThe Seven Spheres\u201d, e desde ent\u00e3o, compilou e remasterizou grava\u00e7\u00f5es da obra completa de Carlos Gomes, escreveu livros sobre m\u00fasica e outros t\u00f3picos, al\u00e9m de ter lan\u00e7ado independentemente mais de 50 CDs. At\u00e9 hoje, Cant\u00fasio lan\u00e7a composi\u00e7\u00f5es novas, grava\u00e7\u00f5es de shows e remasteriza\u00e7\u00f5es gratuitamente <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@legatus1000\/videos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">no YouTube<\/a>. Se voc\u00ea n\u00e3o gosta nada de progressivo ou do tipo de eletr\u00f4nica mais ambiente com a qual comparei o \u201cRu\u00ednas Circulares\u201d, agrade\u00e7o por ler at\u00e9 aqui com algo completamente diferente: o single \u201cPenumbra\u201d, de 2021, consiste em 30 minutos de uma esp\u00e9cie de darkwave instrumental que evocam paisagens cyberpunk e portos lotados sob c\u00e9us com \u201c<a href=\"https:\/\/editoraaleph.com.br\/produto\/neuromancer\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cor de televis\u00e3o num canal fora do ar<\/a>\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"ALPHA III-Penumbra EXperimental 30 minutes  Electronic Track by Amyr CAntusio Jr\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QG2icLfOMbE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O nome \u201cAlpha III\u201d foi criado em refer\u00eancia \u00e0 estrela mais pr\u00f3xima do nosso sol, a Proxima Centauri ou Alpha Centauri C, uma an\u00e3-vermelha que orbita em torno de outras duas estrelas e, por conta de seu brilho de baixa intensidade, n\u00e3o pode ser vista a olho nu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seus primeiros 35 anos, o disco &#8220;Ru\u00ednas Circulares&#8221; tamb\u00e9m brilhou com baixa intensidade pelo Brasil, e foi ouvido em seu pa\u00eds-natal por um n\u00famero muito menor de pessoas do que merecia. Sem d\u00favida h\u00e1 por aqui muitos ouvidos acostumados a discos que tamb\u00e9m usam a paleta do eletr\u00f4nico para construir obras c\u00f3smicas. Falando em c\u00f3smico, devido \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o da constela\u00e7\u00e3o de Centauro, o brilho t\u00edmido da Alpha Centauri C s\u00f3 pode ser enxergado do hemisf\u00e9rio Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso \u00e9 uma met\u00e1fora muito boa para o projeto musical batizado em homenagem \u00e0 estrela: por mais que tenha sido mais reconhecida no exterior \u00e0 sua \u00e9poca, creio que a dist\u00e2ncia hist\u00f3rica de 35 anos faz com que esta obra do \u201cAlpha III\u201d seja melhor apreciada por uma nova onda brasileira de f\u00e3s. Ningu\u00e9m sabe melhor que n\u00f3s do hemisf\u00e9rio Sul dos perrengues da nossa hist\u00f3ria latino-americana para valorizar quando algu\u00e9m daqui trabalha na vanguarda, sem acesso a est\u00fadios como \u201c<a href=\"https:\/\/www.infomoney.com.br\/perfil\/richard-branson\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Mans\u00e3o\u201d (The Manor)<\/a> da Virgin onde o Tangerine Dream comp\u00f4s alguns dos seus discos mais aclamados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das inten\u00e7\u00f5es desta mat\u00e9ria \u00e9 a de que o disco alcance mais pessoas nos pr\u00f3ximos 35 anos. Consigo imaginar esse cl\u00e1ssico perdido sendo revisitado de in\u00fameras formas, como covers ou mesmo samples: as faixas \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=M_l74rO7vfw&amp;t=317s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Sonho<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=M_l74rO7vfw&amp;t=1954s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dan\u00e7a para a Eternidade<\/a>\u201d poderiam ser usadas em colagens, respectivamente de lo-fi e hip hop experimental. Sua m\u00fasica tamb\u00e9m poderia ser usada em trilhas sonoras para outras m\u00eddias que n\u00e3o contos e livros. Al\u00e9m da mesma \u201cDan\u00e7a para a Eternidade\u201d, que faz pensar inevitavelmente no que aconteceria se David Lynch dirigisse um thriller de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e est\u00e9tica n\u00e9on, penso que muitas das composi\u00e7\u00f5es de Amyr Cant\u00fasio Jr t\u00eam algo de cinematogr\u00e1fico. E a constru\u00e7\u00e3o sombria das linhas de \u00f3rg\u00e3o em &#8220;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=M_l74rO7vfw&amp;t=469s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Filho de Deuses<\/a>&#8221; me remetem \u00e0 trilha de jogos eletr\u00f4nicos como &#8220;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5HnhPNS0rqM\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Castlevania: Symphony of the Night<\/a>&#8221; e &#8220;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=PsCPOJA8MCg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Demons Crest<\/a>&#8220;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As possibilidades para o futuro do \u00e1lbum s\u00e3o m\u00faltiplas. E isto combina com tudo mais no disco, como lembra Cant\u00fasio: \u201cEu senti que o Borges estava passando isso pras pessoas: a vida \u00e9 um sonho onde n\u00e3o se sabe se voc\u00ea \u00e9 quem sonha ou quem \u00e9 sonhado. Ou as duas coisas! Um efeito de uma causa, que tamb\u00e9m \u00e9 causa de um outro efeito\u201d, comenta por fim. \u201cN\u00f3s n\u00e3o somos algo no presente: n\u00f3s estamos sempre sendo, n\u00f3s somos algo em ger\u00fandio.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_77592\" aria-describedby=\"caption-attachment-77592\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-77592\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-06-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"569\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-06-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-06-copiar-300x228.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-77592\" class=\"wp-caption-text\"><em>Bruno de Sousa Moraes e Amyr Cant\u00fasio Jr<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77593\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-07-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"969\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-07-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Ruinas_Circulares_-_Foto-_Giovanna_Romaro-07-copiar-232x300.jpg 232w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; <a href=\"https:\/\/twitter.com\/BrunoPinguim47\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno de Sousa Moraes<\/a> migrou das ci\u00eancias biol\u00f3gicas para a comunica\u00e7\u00e3o depois de um curso de jornalismo cient\u00edfico. Desde ent\u00e3o, publica mat\u00e9rias sobre ecologia e conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, e est\u00e1 se arriscando pelo jornalismo musical. Declara\u00e7\u00e3o de Conflito de Interesse para esta reportagem: o sorriso enquanto recebia o aut\u00f3grafo n\u00e3o deixa negar que \u00e9 f\u00e3 do Alpha III. As fotos da reportagem s\u00e3o de Giovanna Romaro.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Inspirado em um dos contos mais aclamados do escritor argentino Jorge Lu\u00eds Borges, o \u00e1lbum mistura m\u00fasica erudita vanguardista, sintetizadores, samples e pitadas de rock progressivo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/26\/musica-perola-perdida-do-experimental-brasileiro-album-ruinas-circulares-do-alpha-iii-completa-35-anos\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":136,"featured_media":77603,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[6876],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77582"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/136"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77582"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77582\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":77608,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77582\/revisions\/77608"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77603"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77582"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77582"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77582"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}