{"id":77466,"date":"2023-10-25T00:01:04","date_gmt":"2023-10-25T03:01:04","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=77466"},"modified":"2023-11-10T00:09:07","modified_gmt":"2023-11-10T03:09:07","slug":"critica-hackney-diamonds-nao-e-uma-obra-prima-mas-e-um-trabalho-respeitavel-dos-stones","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/25\/critica-hackney-diamonds-nao-e-uma-obra-prima-mas-e-um-trabalho-respeitavel-dos-stones\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica: \u201cHackney Diamonds\u201d, dos Stones, n\u00e3o \u00e9 uma obra-prima, mas \u00e9 respeit\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo o f\u00e3 mais dedicado h\u00e1 de concordar que ningu\u00e9m esperava (ou precisava de) um novo disco dos Stones em 2023. Afinal, estamos falando da banda de rock mais longeva da hist\u00f3ria, um grupo que, contra todas as expectativas, perdurou mais do que praticamente todos seus contempor\u00e2neos. Interessante observar que, diferente dos Beatles, o grupo de Mick Jagger acabou por produzir uma discografia que, apesar de extensa, tem poucos \u00e1lbuns que chegam ao n\u00edvel de influ\u00eancia de qualquer disco, por mais controverso que seja, dos Fab Four. Mas c\u00e1 estamos, 17 anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/09\/21\/critica-a-bigger-bang-um-discaco-de-rock-dos-stones\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Bigger Bang<\/a>\u201d (2006), e, mais uma vez contrariando quaisquer expectativas, com um novo disco de Jagger &amp; Richards: \u201cHackney Diamonds\u201d (2023).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inevit\u00e1vel falar sobre como o disco, o vig\u00e9simo quarto da banda e sucessor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/10\/24\/o-blues-dos-rolling-stones\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Blue &amp; Lonesome<\/a>\u201d (composto s\u00f3 de covers, de 2016), \u00e9 o primeiro a ser lan\u00e7ado desde o falecimento do baterista e membro fundador Charlie Watts, em 2021, e vem ao p\u00fablico curiosamente tr\u00eas d\u00e9cadas depois da sa\u00edda do longevo baixista Bill Wyman, que participa de uma m\u00fasica do disco&#8230; com Charlie. Agora um trio, com Jagger (voz e guitarras), Keith Richards (guitarra, voz, baixo) e Ronnie Wood (guitarras), os veteranos decidiram empregar uma estrat\u00e9gia que j\u00e1 funcionou muito bem em trabalhos anteriores, e compilar faixas registradas em sess\u00f5es que remontam \u00e0 2019 e se estenderam at\u00e9 janeiro deste ano. Contando com Watts em duas can\u00e7\u00f5es, a lista de faixas tamb\u00e9m traz o \u201csuplente\u201d Steve Jordan (que vem assumindo as baquetas nas turn\u00eas dos Stones), enquanto o baixo \u00e9 dividido por Richards, Wood e o produtor Andrew Watt \u2013 isso sem falar nas participa\u00e7\u00f5es especiais. J\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 creditada \u00e0 Andrew Watt, que tem um curr\u00edculo que lista desde Iggy Pop e Miley Cyrus \u00e0 Eddie Vedder e Justin Bieber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante salientar a organiza\u00e7\u00e3o do repert\u00f3rio: a palavra \u201cprotocolar\u201d, que pode flutuar na cabe\u00e7a de muitos ao escutarem as novas in\u00e9ditas, perde for\u00e7a quando se leva em considera\u00e7\u00e3o se tratar de um repert\u00f3rio s\u00f3lido, trazido por m\u00fasicos na casa dos 80 anos, respons\u00e1veis por influenciarem de formas \u00f3bvias, e muitas vezes nem tanto, tantas movimenta\u00e7\u00f5es em torno da m\u00fasica popular nas \u00faltimas seis d\u00e9cadas. \u201cHackney Diamonds\u201d, muitas vezes, parece ser projetado minuciosamente para soar o mais familiar e acolhedor poss\u00edvel \u00e0queles que viram a vida passar ao som dos discos dos Stones, mesmo que nunca alcance os gloriosos momentos das grandes obras-primas dos brit\u00e2nicos, e que dificilmente se torne um de seus registros mais memor\u00e1veis no futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria escolha dos dois singles que precederam o lan\u00e7amento do disco diz muito sobre como os Stones conhecem, e sabem envolver, seu p\u00fablico cativo. \u201cAngry\u201d, disponibilizado em setembro e selecionado tamb\u00e9m como faixa de abertura, foi bem recebido gra\u00e7as ao apropriado t\u00edtulo: trata-se de um rock raivoso, de guitarras rasgantes daquelas que Keith parece trazer diretamente de 1972, e que pode habitar o mesmo universo criativo de \u201cEasy Sleazy\u201d, colabora\u00e7\u00e3o do vocalista com Dave Grohl, de 2021. E, se a agressividade impera na primeira m\u00fasica, a segunda e mais moderada \u201cGet Close\u201d n\u00e3o mant\u00e9m o mesmo n\u00edvel. Apesar de contar com a estelar participa\u00e7\u00e3o de Elton John no piano, a nostalgia aqui n\u00e3o faz o mesmo efeito, com um refr\u00e3o menos inspirado que s\u00f3 se salva do esquecimento com uma ajudinha dos ritmos guitarr\u00edsticos de Richards e Wood.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDepending On You\u201d melhora o astral, mesmo n\u00e3o ficando t\u00e3o distante do formato de balada ac\u00fastica que Keith poderia escrever dormindo. Chama menos a aten\u00e7\u00e3o em compara\u00e7\u00e3o com a inquieta \u201cBite My Head Off\u201d: andamentos furiosos e um endiabrado desempenho de Jagger fazem dessa uma das mais marcantes entre as novas m\u00fasicas, contando ainda com a participa\u00e7\u00e3o de Paul McCartney no baixo (ainda que Macca pudesse estar mais alto no mix). J\u00e1 \u201cWhole Wide World\u201d tem uma roupagem mais moderna e interessante, e at\u00e9 ajuda a lembrar dos bons momentos de trabalhos como \u201cVoodoo Lounge\u201d (1994). \u00c9 claro que, se tratando dos Stones, o tradicional \u201cmomento blues\u201d n\u00e3o poderia faltar, e eles poderiam ter feito mais feio do que fizeram com \u201cDreamy Skies\u201d, citando Hank Williams e construindo um bem humorado pastiche do som que a banda vem copiando descaradamente desde sua origem. E \u201cMess It Up\u201d \u00e9 mais do mesmo, com backing vocals que complementam bem os refr\u00e3os sem soarem cansativos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77470\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hd2-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"510\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hd2-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hd2-1-300x204.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cLive By The Sword\u201d, al\u00e9m de trazer de volta o convidado Elton John, tamb\u00e9m marca a reuni\u00e3o (e \u00faltimo registro) da forma\u00e7\u00e3o de 1976-1993 dos Rolling Stones, tendo n\u00e3o apenas mais um dos registros derradeiros de Charlie Watts (que tamb\u00e9m agracia \u201cMess It Up\u201d com sua presen\u00e7a) como tamb\u00e9m uma apari\u00e7\u00e3o do j\u00e1 citado ex-baixista Bill Wyman, cujas linhas de quatro cordas, mesmo que ainda discretas, amparam as melodias e o belo solo de Richards. Fica clara, aqui, a import\u00e2ncia que Watts representava tanto para a sonoridade hoje t\u00e3o marcante do grupo quanto para Steve Jordan, que procura n\u00e3o fugir muito das marcas registradas de seu antecessor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As boas melodias de \u201cDriving Me Too Hard\u201d, com direito a um sutil slide, podem passar despercebidas em meio ao repert\u00f3rio, mas podem soar \u00f3timas ao vivo. O mesmo vale para \u201cTell Me Straight\u201d, \u00fanico momento vocal de Richards, que surpreende n\u00e3o apenas pela ineg\u00e1vel qualidade do vocal do lend\u00e1rio m\u00fasico, mas tamb\u00e9m pela sonoridade mais densa, e pela letra, uma poss\u00edvel reflex\u00e3o sobre a posi\u00e7\u00e3o que a banda assumiu aos olhos de seus fi\u00e9is seguidores e da m\u00eddia em geral \u2013 ou talvez uma mensagem cifrada a respeito do futuro do agora-trio: \u201cTodos est\u00e3o fazendo perguntas \/ Respostas n\u00e3o s\u00e3o suficientes \/ Preciso de um tempo para clarear as ideias \/ Descobrir se \u00e9 verdade\u201d, segue o refr\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O momento mais \u201cestrelar\u201d de \u201cHackney Diamonds\u201d, no entanto, \u00e9 a pen\u00faltima faixa (e segundo single) \u201cSweet Sounds of Heaven\u201d, com Stevie Wonder ao piano e Lady Gaga fazendo vocais em um momento mais baladeiro, onde o primeiro brilha em um arranjo lindo (que deixaria os antigos colaboradores Ian Stewart e Billy Preston de queixo ca\u00eddo) e a segunda vence um aparente histrionismo e consegue se sobressair em uma din\u00e2mica de quase-dueto parecida com o cl\u00edmax da imortal \u201cGimme Shelter\u201d. N\u00e3o desagrada, ainda que seja a faixa mais longa do \u00e1lbum, com quase 8 minutos (n\u00e3o \u00e0 toa, h\u00e1 um mix de 5 minutos da can\u00e7\u00e3o nas plataformas e nas r\u00e1dios). A m\u00fasica seguinte, \u201cRolling Stone Blues\u201d, serve como um respiro, e um quase ep\u00edlogo depois do excesso de \u201cSweet Sounds of Heaven\u201d. S\u00f3 Mick, com vocais propositalmente distorcidos (mesmo que pouco) e uma gaita, acompanhados dos dois guitarristas. Apesar de enxuto, o arranjo funciona, e muito bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cHackney Diamonds\u201d \u00e9, acima de qualquer coisa, um \u00e1lbum para os mais devotos. Sejam aqueles que escutam animados cada registro ao vivo sazonal, ou os que acompanham de maneira fervorosa cada reedi\u00e7\u00e3o com faixas b\u00f4nus de algum disco dos anos 1970, ou os muitos que seguem acompanhando os Rolling Stones ao vivo. Os tr\u00eas remanescentes seguem, inclusive, viajando e tocando de forma consistente, e demonstram ao vivo um n\u00edvel de vitalidade que muitos dir\u00e3o faltar no tracklist de seu mais novo disco. E, por mais que seja um exerc\u00edcio de extrema generosidade assemelhar \u201cHackney\u201d a \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/05\/11\/garimpo-sonoro-os-50-anos-de-exile-on-main-street-dos-rolling-stones\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Exile on Main Street<\/a>\u201d, ou \u201cSome Girls\u201d, ou por mais \u201cburocr\u00e1tico\u201d ou \u201cprevis\u00edvel\u201d que as doze novas can\u00e7\u00f5es possam soar, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o demonstrar um tiquinho de admira\u00e7\u00e3o pelo que Jagger, Richards e Wood seguem fazendo. Nenhum dos tr\u00eas aparenta precisar subir a um palco, quem dir\u00e1 adentrar um est\u00fadio; qualquer um j\u00e1 teria se aposentado, dadas as mesmas condi\u00e7\u00f5es. \u201cHackney Diamonds\u201d n\u00e3o \u00e9 uma obra-prima, e nem precisa ser; trata-se de um trabalho respeit\u00e1vel, ainda que em nada inovador, de uma banda que construiu uma carreira invej\u00e1vel contrariando as expectativas de todos. Algo no qual, diga-se de passagem, os Rolling Stones seguem sendo os melhores.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/25\/critica-hackney-diamonds-um-bom-disco-dos-stones-com-producao-porca\/\"><em>Leia tamb\u00e9m: \u201cHackney Diamonds\u201d, dos Stones, padece do mal do produtor hypado, por Marcelo Costa<\/em><\/a><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Rolling Stones - Angry (Official Music Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_mEC54eTuGw?list=OLAK5uy_nsgVCCHAcnZQSMaZXY62TYNUrtLifHMHM\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a>\u00a0\u00e9 professor, tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cHackney Diamonds\u201d \u00e9 um \u00e1lbum para os mais devotos. 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