{"id":77372,"date":"2023-10-20T17:10:55","date_gmt":"2023-10-20T20:10:55","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=77372"},"modified":"2023-11-16T16:40:42","modified_gmt":"2023-11-16T19:40:42","slug":"entrevista-gritando-hc-e-a-fina-da-arte-da-reinvencao-em-dogmas-e-digitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/20\/entrevista-gritando-hc-e-a-fina-da-arte-da-reinvencao-em-dogmas-e-digitos\/","title":{"rendered":"Entrevista: Gritando HC e a fina arte da reinven\u00e7\u00e3o em &#8220;Dogmas e D\u00edgitos&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/lage.guilherme66\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Guilherme Lage<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Punk ae, tem punk ae?&#8221; Que perdoem o clich\u00ea, mas \u00e9 imposs\u00edvel apresentar o Gritando HC de qualquer outra forma. A banda paulistana, que h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas mescla as ideologias iconoclastas do punk rock \u00e0 f\u00faria jovem do skate, anunciou um novo \u00e1lbum &#8220;Dogmas e D\u00edgitos&#8221;, o primeiro em seis anos, seguindo &#8220;Terra de Lobisomens&#8221; (2017). Com o primeiro single &#8220;Se Reinventar&#8221;, lan\u00e7ado em julho, a banda ofereceu a primeira degusta\u00e7\u00e3o do vindouro disco, previsto para debutar em streamings e prateleiras em dezembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Dogmas e D\u00edgitos&#8221; o marca mais uma das grandes revolu\u00e7\u00f5es internas que sempre permearam a din\u00e2mica do grupo. Em 2001, a primeira ressurrei\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s a morte precoce do ent\u00e3o co-vocalista, Donald. De l\u00e1 para c\u00e1, a banda viu in\u00fameras forma\u00e7\u00f5es, renasceu em novos discos, se exp\u00f4s de corpo e alma <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/06\/21\/entrevista-alexandre-mapa-fala-do-documentario-sobre-a-banda-gritando-hc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em um document\u00e1rio<\/a>, que foi o segundo mais assistindo no In-Edit Brasil 2021: &#8220;Secos e Molhados e Gritando HC, fiquei at\u00e9 mais feliz com o segundo lugar, porque \u00e9 uma honra! (risos)&#8221;, comenta L\u00ea, a \u00fanica integrante da forma\u00e7\u00e3o original da banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Forjado por sangue, muito suor e l\u00e1grimas que h\u00e1 muito precisavam cair, &#8220;Dogmas e D\u00edgitos&#8221; d\u00e1 as caras no mundo com reinven\u00e7\u00e3o sonora, parcerias, uma nova forma\u00e7\u00e3o, mas atitude an\u00e1rquica intacta. A vocalista\u00a0 comentou sobre o processo \u00e1rduo e 100% DIY de composi\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum. &#8220;\u00c9 um disco autobiogr\u00e1fico e cada m\u00fasica tem uma hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o, de batalha, de dor. Eu passei por isso pra caralho&#8221;, conta L\u00ea. &#8220;\u00c9 aquele disco bom de pegar o carro e curtir&#8221;, acredita. Leia a entrevista abaixo!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Se Reinventar\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BBmCQTviBR0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda que ap\u00f3s tantos anos e passadas tantas reinven\u00e7\u00f5es, ainda \u00e9 poss\u00edvel notar uma veia muito caracter\u00edstica na m\u00fasica do Gritando HC. A que voc\u00ea acha que se deve essa assinatura sonora?<\/strong><br \/>\nAcho que vem muito do jeito de compor, acho que o jeito de escrever acaba trazendo esta identidade de que voc\u00ea fala. Especificamente dessa m\u00fasica. \u201cHinos\u201d \u00e9 uma faixa em que a veia hardcore \u00e9 gritante. Veio da influ\u00eancia do Gritando HC, j\u00e1 pegando uma tonalidade dos dois primeiros discos. O \u201cFase Adulta\u201d (2010) e o \u201cTerra de Lobisomens\u201d (2017), que ficaram entre um e outro, trazem talvez algumas outras din\u00e2micas, acho que a forma de compor soma muito. H\u00e1 muitas m\u00fasicas que componho j\u00e1 musicalizadas, ent\u00e3o os outros m\u00fasicos na banda interpretam da formam que acham que v\u00e1 fazer sentido. J\u00e1 em outras m\u00fasicas, primeiro vem a base para depois a letra. \u201cAlomorfia\u201d, por exemplo, a composi\u00e7\u00e3o veio de todos n\u00f3s, das nossas influ\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Gritando nunca foi uma banda muito dada a dogmas, sempre fez quest\u00e3o de abordar assuntos diversos. De certa forma, o novo disco \u00e9 autobiogr\u00e1fico?<\/strong><br \/>\n\u00c9 bem autobiogr\u00e1fico. Tanto o disco todo que gravamos, quanto a &#8220;Se Reinventar&#8221;. H\u00e1 a parte pol\u00edtica, de protesto, mas tamb\u00e9m h\u00e1 essa necessidade por renova\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 muito a identidade do Gritando. Tudo isso representa muito a hist\u00f3ria da banda, tem muito de mim ali. Eu estou na banda desde o come\u00e7o, vieram muitas mudan\u00e7as, todas as coisas que a gente j\u00e1 passou. A vida muda, e levando em considera\u00e7\u00e3o a nossa trajet\u00f3ria desde o come\u00e7o, quantas vezes n\u00e3o tive que me reinventar? Durante o \u201cFase Adulta\u201d lidei com muitas coisas que me traziam lembran\u00e7as boas, do Donald, de outras pessoas. Tive que passar um filtro em mim, recome\u00e7ar e me ver em dois caminhos bem legais. Nesse disco eu me reencontro novamente, vejo que \u00e9 hora de mudar e, como toda mudan\u00e7a, \u00e9 dif\u00edcil, pesado, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil se reconectar com seu pr\u00f3prio eu. Al\u00e9m disso, tem todas as coisas que eu vivi de 2017 a 2019, muitos relatos pessoais de perdas de pessoas que amei muito. H\u00e1 uma necessidade de mudan\u00e7a para o pr\u00f3prio bem da banda e tamb\u00e9m para o meu pr\u00f3prio bem. Vivo o Gritando HC 48 horas por dia, h\u00e1 a l\u00f3gica da divers\u00e3o, mas tamb\u00e9m existe uma responsabilidade muito grande que carrego e que faz eu me conectar com o mundo. \u00c9 isso que eu gosto e que me faz bem, eu precisava dessa renova\u00e7\u00e3o, dentro de mim e musicalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea entrou em contato com o punk rock e o hardcore? Foi ainda quando era nova? Conta como foi essa experi\u00eancia.<\/strong><br \/>\nBom, o som vem desde nova, comecei a ouvir esse tipo de m\u00fasica quando entrei no meio alternativo. Conheci o punk, o que se chama hoje de alternativo, o post-punk, o industrial, toda essa coisa maluca, meio que de uma vez s\u00f3. Eu tinha de 13 para 14 anos e minha rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica era meio maluca, sou total ovelha negra da fam\u00edlia (risos). Venho de uma fam\u00edlia muito grande, 5 irm\u00e3os, alguns que j\u00e1 infelizmente faleceram. Como sou a ca\u00e7ula, cresci em uma casa com muitos vinis de v\u00e1rios g\u00eaneros musicais. Nascemos na cultura nordestina e em casa t\u00ednhamos toda essa cultura de fogueira de S\u00e3o Jo\u00e3o e tudo isso. Ent\u00e3o tinha vinis de forr\u00f3, de MPB, toda a cultura brasileira. Quando nasci, meus irm\u00e3os j\u00e1 tinham pego muita coisa de black music, som de preto mesmo, minha irm\u00e3 curtia pra caralho! Um dos meus irm\u00e3os j\u00e1 tinha passado para Sabbath, Def Leppard, Alice Cooper, tudo que rolava nessa gera\u00e7\u00e3o dos anos 60 e 70. Tudo isso me influenciou muito. Eu era bem piveta, tinha que ouvir escondido, porque se arranhasse algum disco, o pau ia comer (risos). Ent\u00e3o, como te contei, eu j\u00e1 curtia muita m\u00fasica. Quando descobri o punk rock aos 13 pra 14, eu j\u00e1 destoava totalmente do bairro em que eu morava. A galera achava estranho uma mina de cabe\u00e7a raspada, franj\u00e3o. Naquela \u00e9poca tinha as r\u00e1dios alternativas em S\u00e3o Paulo, era dif\u00edcil pra caralho fazer pegar. Mas numa dessas, acabei ouvindo Joy Division e aquele baixo me pegou. Na \u00e9poca, S\u00e3o Paulo era uma cidade mais fria, mais cinza, o bagulho era mais pesado, meio depr\u00ea mesmo. Eu j\u00e1 come\u00e7ava a ter meus autoquestionamentos, rebeldia, batia de frente com algumas coisas. Logo depois do Joy Division eu j\u00e1 trupiquei no Dead Kennedys e a\u00ed o skate entrou na minha vida. Comecei na \u00e9poca do Grito da Rua, em 87 ou 88, ainda era shape tubar\u00e3o, na transi\u00e7\u00e3o pro shape street. Era o m\u00e1ximo! Todo mundo muito novo, todo mundo muito junto e todo muito prego (risos). Foi a\u00ed que a gente saiu no rol\u00ea. Tinha tamb\u00e9m o Boca Livre, do Kid Vinil, um programa (da Tv Cultura) que (era gravado no teatro Franco Zampari, no metr\u00f4 Tirandentes e) tinha que chegar bem cedo pra assistir (a entrada era de gra\u00e7a, mas a capacidade era limitada). Passei um ano indo l\u00e1, quase bombei na escola, cabulei aula pra caralho (risos). Vi muita banda ali, mas n\u00e3o vi o C\u00f3lera. S\u00f3 vi eles depois de adulta, quando voltaram e o primeiro show foi justo com o Gritando HC. Naquela \u00e9poca tamb\u00e9m tinha muita gangue, muita treta. Ent\u00e3o, como eu te contei, foi tudo ao mesmo tempo, sabe? N\u00e3o foi aquela coisa de um brother mostrar um som legal, minha realidade \u00e9 outra, foi por acaso e isso me fez virar uma chave. Foi um acaso que eu meio que procurava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como voc\u00ea encara a realidade do underground hoje em dia? O que mudou e o que melhorou em rela\u00e7\u00e3o ao in\u00edcio da banda?<\/strong><br \/>\nTenho boas recorda\u00e7\u00f5es, \u00e9 algo que faz parte da nossa hist\u00f3ria e da minha vida, mas n\u00e3o era f\u00e1cil. Antes da exist\u00eancia do Hangar, se voc\u00ea quisesse tocar, era uma outra realidade. Pra tocar em algum lugar, tinha que aguardar uma oportunidade. Tinha o Blackjack em Santo Amaro, tinha os picos pra tocar, obviamente, a quest\u00e3o era a precariedade do equipamento. Se quisesse ir um pouco mais al\u00e9m, tinha que se arriscar. Eu me arrisquei pra caralho, na \u00e9poca eu j\u00e1 era CLT e tinha que alugar equipamento, fazer cartaz, ingresso, lambe-lambe, ficar na responsa do aluguel do equipamento, porque tinha prazo pra devolver. Tudo isso pra elas por elas e n\u00e3o sair no preju, e mesmo assim, \u00e0s vezes ficava. Depois que o Hangar abriu a gente sabia que tinha um ponto, um lugar que todo fim de semana ia tocar ou ver show, algo que realmente ia voltar pra cena. Antes existia uma dificuldade, uma bronca pra voc\u00ea poder tocar, levar a galera pra conhecer seu som, sua banda, proporcionar um rol\u00ea. Tudo tem sua trajet\u00f3ria, sua caminhada, e \u00e9 preciso assumir a responsa que \u00e9 poder ter uma abertura pra criar sua pr\u00f3pria cena. O Gritando HC criou um esquema muito natural, mas deu certo porque a galera entendeu a nossa proposta e isso criou um legado muito legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu vi o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/06\/21\/entrevista-alexandre-mapa-fala-do-documentario-sobre-a-banda-gritando-hc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gritando. Punk Rock, Skate e Underground: A Hist\u00f3ria do Gritando HC.<\/a>\u201d, document\u00e1rio de voc\u00eas. Como foi a ideia de fazer o filme e como foram essas etapas?<\/strong><br \/>\nOlha, quando aconteceu aquilo com o Donald, ele veio a falecer em 2001, j\u00e1 havia um diferencial na hist\u00f3ria do Gritando HC. A gente estava numa ascens\u00e3o que foi interrompida de um jeito muito dr\u00e1stico. Ainda mais pra mim, ele era meu companheiro, a gente estava junto h\u00e1 9 anos. Nunca na minha vida imaginei que ia passar por uma dor t\u00e3o profunda, naquela idade. Ali j\u00e1 deu aquela coisa de parar e falar: putz, j\u00e1 \u00e9 diferente! Era imposs\u00edvel fazer algo naquela \u00e9poca, por causa da estrutura. O Gritando HC ia ter uma continuidade, tinha minha veia ali, da liga\u00e7\u00e3o que tenho com a m\u00fasica e eu sabia que a hist\u00f3ria tinha que se concluir por pelo menos mais uma d\u00e9cada para ser contada. Ter a paci\u00eancia de que o tempo ia contar essa hist\u00f3ria, a continuidade pode fazer isso. At\u00e9 que chegamos aos 20 anos! Com 20 anos existe uma continuidade, tenho hist\u00f3ria. A gente fez uma turn\u00ea de 20 anos j\u00e1 com a inten\u00e7\u00e3o de fazer um document\u00e1rio. A gente \u00e9 uma das bandas que mais foi pra regi\u00e3o Nordeste, turn\u00ea de 30 dias por l\u00e1. Foram tr\u00eas ou quatro turn\u00eas nos \u00faltimos 10 anos. Uma vez conhecemos esse cara, que ficou respons\u00e1vel de fazer as filmagens. E depois de um show, um dos nossos melhores shows, em um lugar que a gente n\u00e3o ia h\u00e1 anos, veio o banho de \u00e1gua fria. O cara sumiu com as minhas filmagens, de sacanagem, coisa de pilantra mesmo. Passou um ano, fomos em Recife, a\u00ed o Pablo, um amigo nosso, j\u00e1 tocou com a gente, disse: eu tenho um amigo, o Paulista, ele t\u00e1 fazendo faculdade de cinema. Eu disse: preciso conhecer ele agora! (risos). Fui na casa do Paulista, a gente bateu um papo e ele disse que queria faze pro TCC dele: &#8220;Seria legal contar a hist\u00f3ria, vamo junto?&#8221; Foram uns quatro anos. O cara pegando avi\u00e3o pra pegar depoimento, eu e o Pablo passando todos os depoimentos importantes e hist\u00f3rias pra ele. No final de tudo, entrou uma equipe, o que fez ganhar toda uma robustez. Foi quando o Paulista chegou e me disse: &#8220;L\u00ea, t\u00e1 pronto! Vamos mandar pro In-Edit Brasil&#8221;. Faltava uma coisinha ou outra, saiu bonitinho e ele mandou para um festival na categoria amostra. E antes de qualquer coisa, ele apresentou na facul e arrega\u00e7ou, tirou uma nota alta e eu falei: agora vai. Era o que precisava para a gente passar na curadoria (do In-Edit) e passamos! Pensei naquele ano anterior, a gente conseguiu. Eu me fodi, velho, tomei no cu, o outro cara fodeu meu ano, fiquei arrasada com a situa\u00e7\u00e3o e nem precisava. Um ano depois chegou um cara que falou &#8220;vamo junto&#8221; e resolveu tudo! Na mostra de cinema foi logo arrebentando, o segundo mais assistido. Secos e Molhados e Gritando HC, fiquei at\u00e9 mais feliz com o segundo lugar, porque \u00e9 uma honra! (risos). Eu tinha aquele disco dos Secos e Molhados, das cabe\u00e7as, a primeira tiragem. Amava Ney Matogrosso, Rita Lee, tinha tudo aquilo. Aquele disco \u00e9 um cl\u00e1ssico e, para a \u00e9poca, \u00e9 revolucion\u00e1rio. Toda aquela frustra\u00e7\u00e3o que eu senti pelo que aconteceu, curou. Viver aquele momento t\u00e3o especial para todos n\u00f3s, para nossa hist\u00f3ria, em um momento de tanta dor como a pandemia, foi um alento. Sei que chegou no cora\u00e7\u00e3o de muita gente. Parece que se tivesse sa\u00eddo antes, n\u00e3o seria t\u00e3o especial. Muita gente me procurou e agradeceu, poder ver lembran\u00e7as t\u00e3o boas, coisas t\u00e3o gostosas de amigos naquela \u00e9poca. Foi muito especial. A gente ainda planeja lan\u00e7ar mais coisas, estamos trabalhando um roteiro. Muita gente vem me perguntar sobre o document\u00e1rio, porque n\u00e3o acha ele em lugar nenhum. Acontece que ele foi feito para festivais, estamos tentando disponibilizar em uma plataforma, mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Conseguir um espa\u00e7o em uma RockTV ou canal de streaming n\u00e3o \u00e9 um processo f\u00e1cil, mas, poxa, o g\u00eanero punk rock, o hardcore, o crust, \u00e9 um mercado enorme. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds gigantesco, qualquer lugar tem sempre algu\u00e9m que faz movimentar todo um lado comercial, que tem selos que promovem shows. As bandas, o dono do lugar que vende cerveja pra caralho faz girar e tamb\u00e9m gera um v\u00ednculo empregat\u00edcio enorme. Tem t\u00e9cnicos de P.A, fot\u00f3grafos, videomakers, galera da limpeza, da comida. Est\u00e1 na hora das plataformas olharem para isso e darem espa\u00e7o, porque existe um p\u00fablico consumidor enorme. Tem um monte de document\u00e1rio legal. O mercado aqui \u00e9 forte, bandas daqui v\u00e3o para fora e muitas bandas de fora v\u00eam tocar aqui, no Lollapalooza, por exemplo. Quem come\u00e7ou a consumir tudo isso foi a galera do undeground e ningu\u00e9m olha pra isso, \u00e9 preciso furar essa bolha, abrir a mente. A galera do rock mainstream n\u00e3o olha pra isso, sentou no trono e n\u00e3o abre espa\u00e7o para musicalidade, atualidade, ideais. Tudo isso \u00e9 muito rico e n\u00e3o se d\u00e1 o valor merecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas est\u00e3o h\u00e1 quase 30 anos na estrada, notam uma certa renova\u00e7\u00e3o no p\u00fablico da banda? Pessoas de diferentes idades que frequentam os shows? Como \u00e9 atingir tantas gera\u00e7\u00f5es diferentes com o hardcore?<\/strong><br \/>\nIsso est\u00e1 sendo muito vis\u00edvel hoje. Voc\u00ea descreveu exatamente o que vou te responder! Principalmente depois da pandemia veio uma gera\u00e7\u00e3o de bandas mais jovens. Eu mesma vi v\u00e1rias. Antes da pandemia voc\u00ea via uma galera mais velha nos shows, hoje em dia \u00e9 um p\u00fablico mais jovem. Essa \u00e9 a renova\u00e7\u00e3o que muitas bandas falavam e n\u00e3o acontecia, talvez porque essa galera jovem ainda n\u00e3o se ligasse tanto, mas agora est\u00e1 acontecendo muito. Teve uma \u00e9poca em que havia mais banda do que p\u00fablico, agora eu acredito que deu uma boa equilibrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E para finalizar, sobre o disco novo, essa renova\u00e7\u00e3o. O que voc\u00eas conseguiram fazer que era uma vontade antiga? Voc\u00ea se sente realizada com o novo trabalho? O que mais te tocou nesse processo todo?<\/strong><br \/>\nOlha, trazer participa\u00e7\u00f5es foi algo que eu sempre quis e nunca consegui fazer. Nesse disco a gente conseguiu fazer exatamente tudo o que planejou, tudo deu certo. Todas as participa\u00e7\u00f5es. Nas m\u00fasicas que eu estava escrevendo, eu precisava trazer essas vozes. Elas foram escolhidas n\u00e3o s\u00f3 por ser quem s\u00e3o, a quest\u00e3o da voz, a parte t\u00e9cnica. Mas por pensar na m\u00fasica &#8220;esse refr\u00e3o precisa dessa voz&#8221;. Por isso consegui furar essa bolha e finalmente contar com a participa\u00e7\u00e3o feminina. Trazer as meninas ajudou a quebrar v\u00e1rias barreiras que tinha, como a pr\u00f3pria mudan\u00e7a de forma\u00e7\u00e3o e as melodias. As participa\u00e7\u00f5es das meninas se tornam especiais, principalmente porque tem uma m\u00fasica chamada &#8220;Sufocar N\u00e3o&#8221;, que fala muito sobre quest\u00f5es de rela\u00e7\u00f5es abusivas. N\u00e3o \u00e9 uma coisa muito falada. Eu criei uma p\u00e1gina chamada &#8220;Proteja-se de Abusadores&#8221;. J\u00e1 tinha todo o instrumental feito e a letra na vinha, foi uma base que encasquetei e muitas meninas vieram conversar comigo e disseram &#8220;L\u00ea, voc\u00ea tem voz, d\u00e1 pra gente!&#8221; Essa quest\u00e3o que n\u00f3s passamos, mulheres muito mais, s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es graves de minas que eu conhe\u00e7o, que por causa de uma rela\u00e7\u00e3o abusiva tomam antidepressivos, gastam dinheiro com terapia. Outras tendo um puta gasto jur\u00eddico. Mulheres que est\u00e3o h\u00e1 cinco, seis anos sem se relacionar. Essa p\u00e1gina que eu criei explica, trazendo mat\u00e9rias de terapeutas e psic\u00f3logos sobre o que est\u00e1 acontecendo e que muita gente n\u00e3o conhece, que se chama narcisismo. Muitas mulheres s\u00e3o v\u00edtimas dessas pessoas narcisistas. Eu falo muito sobre esse assunto, sobre problemas de sa\u00fade, pois se voc\u00ea conseguir salvar pelo menos uma pessoa, muitas mulheres como eu e v\u00e1rias outras n\u00e3o ter\u00edamos passado pelo que passamos. Voc\u00ea enxerga a pessoa se afogando, ela deixa de ser ela mesma, at\u00e9 quando chega \u00e0 viol\u00eancia f\u00edsica de fato e dependendo do caso, a um feminic\u00eddio, como foi com a minha irm\u00e3, em 2017. Foi uma das situa\u00e7\u00f5es que me inspirou e eu que preciso que as minas venham cantar esse som comigo. S\u00e3o motivos graves, e isso \u00e9 preciso ser levado a s\u00e9rio. A gente que tem um pouco de voz, precisa usar o m\u00e1ximo que tem. N\u00e3o precisa salvar o mundo, mas n\u00e3o me acovardei, fiz independentemente das consequ\u00eancias e de quem gosta ou n\u00e3o. \u00c9 um disco autobiogr\u00e1fico e cada m\u00fasica tem uma hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o, de batalha, de dor. Eu passei por isso pra caralho, um relacionamento abusivo, houve exposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito doloroso o que aconteceu. Estou aqui dando essa entrevista e me lembrando do per\u00edodo de pandemia. Eu disse &#8220;eu n\u00e3o quero pegar e fazer um disco que seja um carma coletivo, quero que a pessoa coloque o disco ali e curta. Aquela pessoa que precisa de um up, &#8216;vou levantar a cabe\u00e7a e sair dessa&#8217; e a gente conseguiu! \u00c9 aquele disco bom de pegar o carro e curtir, tem uma m\u00fasica bem l\u00fadica, fala de abdu\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 contada de um jeito l\u00fadico numa levada punk rock legal pra caralho. \u00c9 \u201cVoyage 87\u201d, que \u00e9 um carro que realmente existiu, que eu comprei pra levar a banda pra tocar. As m\u00fasicas de protesto tamb\u00e9m est\u00e3o legais pra caralho, deu pra trabalhar as letras de forma bem direta.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trailer do  document\u00e1rio: Gritando! Punk Rock, Skate Underground: A hist\u00f3ria do Gritando HC\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ct9vLC_aRcw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Show: GRITANDO HC! | Em comemora\u00e7\u00e3o ao lan\u00e7amento do document\u00e1rio &quot;Gritando!&quot; | In-Edit Brasil 2021\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zEG8YzugBoA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ande de Skate e Destrua (Ao Vivo)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qeRR9wPS1nk?list=OLAK5uy_m6xrNINVx4B4Q0BBRmdn3HHVHLOeP-nvs\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Guilherme Lage (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/lage.guilherme66\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fb.com\/lage.guilherme66<\/a>) \u00e9 jornalista e mora em Vila Velha, ES.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;(O novo disco) \u00c9 bem autobiogr\u00e1fico&#8221;, diz L\u00ea. &#8220;H\u00e1 a parte pol\u00edtica, de protesto, mas tamb\u00e9m h\u00e1 essa necessidade por renova\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 muito a identidade do Gritando&#8221;, explica a vocalista.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/20\/entrevista-gritando-hc-e-a-fina-da-arte-da-reinvencao-em-dogmas-e-digitos\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":58,"featured_media":77373,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[5231],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77372"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/58"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77372"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77372\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":77406,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77372\/revisions\/77406"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77373"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77372"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77372"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77372"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}