{"id":77293,"date":"2023-10-16T00:14:59","date_gmt":"2023-10-16T03:14:59","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=77293"},"modified":"2023-11-01T02:23:40","modified_gmt":"2023-11-01T05:23:40","slug":"cinema-o-exorcista-o-devoto-e-confuso-incoerente-entediante-e-indigno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/16\/cinema-o-exorcista-o-devoto-e-confuso-incoerente-entediante-e-indigno\/","title":{"rendered":"Cinema: \u201cO Exorcista: O Devoto\u201d \u00e9 confuso, incoerente, entediante e indigno"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77296 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/exorcista6.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"753\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/exorcista6.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/exorcista6-199x300.jpg 199w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\">texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 quem diga que o cinema de horror vem passando por uma esp\u00e9cie de entressafra. \u00c0 medida que novas produ\u00e7\u00f5es prezem por inova\u00e7\u00f5es em suas tramas e desenvolvimento de personagens (\u00e0 moda dos filmes recentes de Jordan Peele, com \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/01\/24\/tres-filmes-baby-driver-corra-e-paterson\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Corra!<\/a>\u201d, de 2018, como destaque; ou \u201cX\u201d e \u201cPearl\u201d, lan\u00e7ados pela A24, que elevaram o perfil de Mia Goth ao status de superstar), velhas franquias v\u00eam sido revisitadas e, na medida do poss\u00edvel, revitalizadas com graus diferentes de sucesso \u2013 caso de \u201cO Massacre da Serra El\u00e9trica\u201d (2023), que continua a trama do original de 1974 sem conseguir sequer arranhar o primor da obra prima de Tobe Hooper. E \u00e9 not\u00e1vel o qu\u00e3o, ao longo dos \u00faltimos anos, esta \u00faltima categoria (que se encaixa bem no recentemente popularizado conceito de \u201clegacyquel\u201d, onde uma mitologia ou universo de personagens \u00e9 retomado e modernizado) v\u00eam perdendo for\u00e7a, principalmente quando colocada em compara\u00e7\u00e3o com filmes originais, desafiadores e memor\u00e1veis em sua coragem e capacidade de subvers\u00e3o de valores j\u00e1 estabelecidos e gastos. E, infelizmente, talvez n\u00e3o exista melhor exemplo deste esgotamento e desgaste quanto \u201cO Exorcista: O Devoto\u201d (\u201cThe Exorcist: Believer\u201d, 2023), dirigido por David Gordon Green.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gordon Green, os mais atentos devem se lembrar, foi um dos respons\u00e1veis pelo ressurgimento de velhos personagens sendo trazidos de volta \u00e0s telas na tentativa de apelar para novos p\u00fablicos; afinal, seu \u201cHalloween\u201d (2018) praticamente lan\u00e7ou esta tend\u00eancia aplicada ao cinema de terror, e conseguiu o impens\u00e1vel feito de ser o \u00fanico dos filmes da saga de Michael Myers capazes de fazer frente ao aterrorizante thriller concebido por John Carpenter em 1978, ignorando todas as outras sequ\u00eancias feitas nesse \u00ednterim. Por\u00e9m, o golpe de sorte n\u00e3o durou para sempre, e os dois longas que deram sequ\u00eancia, \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/10\/17\/cinema-halloween-kills-e-o-mal-como-essencia-da-natureza-humana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Halloween Kills<\/a>\u201d (2019) e \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/10\/19\/cinema-halloween-ends-e-desnecessario-forcado-e-irregular\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Halloween Ends<\/a>\u201d (2022) se perderam na mesma mediocridade que significou a derrocada do assassino com a m\u00e1scara de William Shatner no imagin\u00e1rio pop. Al\u00e7ar o mesmo diretor a uma nova produ\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m ignora outros filmes que se passam no mesmo universo em favor de uma nova narrativa, poderia desde o in\u00edcio significar uma decis\u00e3o arriscada. A boa not\u00edcia \u00e9 que tal aposta resultou em um filme em muitos momentos hilariante; a m\u00e1 not\u00edcia \u00e9 que tal efeito n\u00e3o parece, em qualquer momento, proposital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 v\u00e1lido afirmar que, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/09\/30\/os-50-anos-de-o-exorcista-ate-hoje-uma-experiencia-assustadora\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cinco d\u00e9cadas ap\u00f3s a chegada do primeiro filme<\/a> \u2013 dirigido por William Friedkin \u2013 muitos dos elementos introduzidos ent\u00e3o tenham se tornado clich\u00eas no que diz respeito a contos relacionados \u00e0 possess\u00e3o demon\u00edaca. Portanto, citando um velho cantor de Manchester, interrompa se j\u00e1 tiver ouvido isso antes: duas jovens amigas de escola, Angela (Lidya Jewett) e Katherine (Olivia O\u2019Neill) um dia desaparecem ap\u00f3s se embrenharem na floresta pr\u00f3xima ao col\u00e9gio que frequentam. Tr\u00eas dias de nervosismo assolam os pensamentos dos respectivos pais, o vi\u00favo Victor (Leslie Odom Jr.) e o casal Miranda (Jennifer Nettles) e Tony (Norbert Leo Butz), at\u00e9 que as duas crian\u00e7as reaparecem, sem qualquer explica\u00e7\u00e3o, dentro de um celeiro a mais de 50 km de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem qualquer mem\u00f3ria do que ocorreu ao longo do per\u00edodo, e trazendo estranhos ferimentos, as meninas passam a demonstrar comportamentos estranhos que v\u00e3o de agress\u00f5es aos pais at\u00e9 profanidades dentro de igrejas (Katherine, assim como os pais, \u00e9 crist\u00e3 \u2013 Victor n\u00e3o possui religi\u00e3o). Desesperado para se livrar do obscuro mal que parece ter tomado conta de sua filha, este \u00faltimo acaba, por meio de uma vizinha enfermeira, entrando em contato com Chris McNeil (Ellen Burnstyn), autora de um livro no qual relata o inferno vivido durante a possess\u00e3o da pr\u00f3pria filha, Regan, da qual tem estado distante. Contando com a ajuda da experiente idosa, o grupo deve correr contra o tempo para extinguir a mal\u00e9fica entidade que, cada vez mais, parece tomar conta das duas inocentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 sintom\u00e1tico que toda a apresenta\u00e7\u00e3o da trama discorra dentro de pouco menos de uma hora. Excetuando um interessante, por\u00e9m sup\u00e9rfluo, flashback de Victor com a falecida esposa no Haiti, pouco ou nada na primeira metade do filme deixa de soar familiar, mesmo que vagamente. Se escorando em solu\u00e7\u00f5es formulaicas e passagens que miram no aterrorizante e acertam no incoerente, o restante da hist\u00f3ria transcorre em momentos que se aproximam do entediante; tirando um ou outro susto, pouco \u00e9 memor\u00e1vel em uma s\u00e9rie de momentos que parecem requentados e for\u00e7ados. A presen\u00e7a de uma praticante de hoodoo (Okwui Okpokwasili) indica uma subtrama interessante na qual a percep\u00e7\u00e3o de possess\u00f5es e os rituais adotados em casos assim poderiam tomar mais protagonismo \u2013 tudo se perde gra\u00e7as a inclus\u00f5es apressadas e mal-explicadas, em favor de encaixar um pastor evang\u00e9lico sem qualquer experi\u00eancia com exorcismos e um padre incompetente em uma hist\u00f3ria que poderia ser mais curta e melhor adaptada.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77295\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/exorcista5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/exorcista5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/exorcista5-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso sem contar a presen\u00e7a completamente desnecess\u00e1ria do amigo e vizinho de Victor, sob o vazio pretexto de \u201csuporte moral\u201d. Em um filme diretamente conectado com o conceito de exorcismo (e que traz a palavra \u201cExorcista\u201d em seu nome), \u00e9 no m\u00ednimo estranho n\u00e3o haver um especialista sequer \u00e0 vista em qualquer momento da trama. A inclus\u00e3o p\u00edfia da m\u00e3e de Regan \u00e9 completamente desperdi\u00e7ada: qualquer um que imagine sua participa\u00e7\u00e3o como sendo decisiva para o cl\u00edmax sair\u00e1 desapontado e, qui\u00e7\u00e1, ultrajado com a plasticidade e a falta de no\u00e7\u00e3o com as quais o personagem de Burnstyn, outrora vital ao lado dos padres Merrin e Karras, se esvai em favor de recursos pregui\u00e7osos e digress\u00f5es que n\u00e3o levam a lugar algum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meio a isso tudo, \u00e9 importante salientar as atua\u00e7\u00f5es das duas protagonistas: a linguagem corporal de Katherine e Angela, e a forma com a qual a postura das meninas muda ao longo da trama \u00e9 um dos \u00fanicos elementos que se salvam em uma produ\u00e7\u00e3o confusa e que n\u00e3o parece entender a pr\u00f3pria hist\u00f3ria. O restante das atua\u00e7\u00f5es se deslocam, como um p\u00eandulo, entre o indiferente e o exagerado, com poucos momentos de brilho: ainda que a j\u00e1 citada enfermeira (vivida pela talentosa Ann Dowd) consiga trazer um pouco de gravidade ao papel mesmo com suas apressadas passagens, o mesmo n\u00e3o pode ser dito de Leslie Odom Jr., que parece n\u00e3o ter real consci\u00eancia do perigo que sua filha corre ao longo de grande parte do filme, apenas para brilhar contra a inexpressividade somente pr\u00f3ximo do cl\u00edmax. Em algum lugar entre os dois extremos, a (em momentos) surtada participa\u00e7\u00e3o da tamb\u00e9m cantora Jennifer Nettles como a m\u00e3e de Katherine traz resultados interessantes, ainda que n\u00e3o ao ponto de conjurar um desempenho memor\u00e1vel em qualquer n\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falando em (i)memor\u00e1vel, os efeitos especiais, sejam pr\u00e1ticos ou digitais, s\u00e3o um show de horrores \u00e0 parte: ainda que hajam alguns relances de boas ideias e refer\u00eancias ao longa de Friedkin, quase nada se sobressai. Uma das mortes mais grotescas do filme, e que tamb\u00e9m poderia funcionar como um aceno ao original, acaba se perdendo em um final com cortes r\u00e1pidos e resolu\u00e7\u00f5es que em pouco ou nada condizem com a densidade da hist\u00f3ria que o filme pretende contar. Ao misturar diferentes cren\u00e7as e preceitos religiosos, \u201cO Devoto\u201d n\u00e3o faz jus a nenhum e, pior, pode contribuir para a perpetua\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos do tipo que todos j\u00e1 deveriam ter aberto m\u00e3o h\u00e1 muito tempo \u2013 o que deveria ser perturbador se torna, em um sacril\u00e9gio m\u00e1ximo, puramente constrangedor e at\u00e9 ris\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior insatisfa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, chega na conclus\u00e3o do filme: fazendo o poss\u00edvel para evitar spoilers, \u00e9 triste perceber que nenhum, ou quase nenhum dos personagens do filme fez qualquer diferen\u00e7a para o resultado final, tamanha a inconsist\u00eancia da narrativa para consigo mesma. Refer\u00eancias pregui\u00e7osas e retornos previs\u00edveis de personagens que servem como fan service raso podem agradar a alguns poucos, mas nem de longe salvam \u201cO Exorcista: O Devoto\u201d de ser mais do que um filme med\u00edocre. Em compara\u00e7\u00e3o com os outros lan\u00e7amentos da franquia, este talvez seja o pior em muitos anos; mesmo o incompreendido e fren\u00e9tico \u201cO Exorcista II: O Herege\u201d (1977) possui alguns admiradores tardios, e o tenso \u201cO Exorcista III\u201d (1990) v\u00eam angariando sucesso cult entre audi\u00eancias mais receptivas. \u00c9 dif\u00edcil, no entanto, sequer imaginar o mesmo benef\u00edcio sendo concedido a este, com David Gordon Green conduzindo a pr\u00f3pria f\u00f3rmula em dire\u00e7\u00e3o a sua exausta, dolorida, moribunda conclus\u00e3o. Mesmo o f\u00e3 mais devoto (trocadilho n\u00e3o intencional) faria melhor ao ficar longe, por mais compelido que seja pelo poder que somente uma sequ\u00eancia a uma das grandes obras primas do cinema pode exercer. Um t\u00edtulo melhor poderia ter sido \u201cO Exorcista: O Indigno\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/15\/cinema-banal-e-maculador-de-sua-raiz-classica-o-exorcista-o-devoto-tropeca-em-suas-ambicoes\/\"><em>Leia tamb\u00e9m: Banal, \u201cO Exorcista \u2013 O Devoto\u201d trope\u00e7a em suas pr\u00f3prias ambi\u00e7\u00f5es<\/em><\/a><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O EXORCISTA - O DEVOTO | Trailer 2 Oficial (Universal Studios) - HD\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rf3KTNQ8T9c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a>\u00a0\u00e9 professor, tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Se escorando em solu\u00e7\u00f5es formulaicas e passagens que miram no aterrorizante e acertam no incoerente, a hist\u00f3ria transcorre em momentos que se aproximam do entediante&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/16\/cinema-o-exorcista-o-devoto-e-confuso-incoerente-entediante-e-indigno\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":77294,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77293"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77293"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77293\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":77306,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77293\/revisions\/77306"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77294"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77293"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77293"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77293"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}