{"id":77283,"date":"2023-10-15T23:45:46","date_gmt":"2023-10-16T02:45:46","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=77283"},"modified":"2023-10-30T15:38:21","modified_gmt":"2023-10-30T18:38:21","slug":"cinema-banal-e-maculador-de-sua-raiz-classica-o-exorcista-o-devoto-tropeca-em-suas-ambicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/15\/cinema-banal-e-maculador-de-sua-raiz-classica-o-exorcista-o-devoto-tropeca-em-suas-ambicoes\/","title":{"rendered":"Cinema: Banal, &#8220;O Exorcista &#8211; O Devoto&#8221; trope\u00e7a em suas pr\u00f3prias ambi\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77284 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/exorcista1.jpg\" alt=\"\" width=\"505\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/exorcista1.jpg 505w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/exorcista1-189x300.jpg 189w\" sizes=\"(max-width: 505px) 100vw, 505px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tenta\u00e7\u00e3o (palavra apropriada aqui, diga-se de passagem) em iniciar essa cr\u00edtica trazendo um resumo da import\u00e2ncia <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/09\/30\/os-50-anos-de-o-exorcista-ate-hoje-uma-experiencia-assustadora\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que o filme dirigido h\u00e1 meio s\u00e9culo<\/a> pelo rec\u00e9m-falecido William Friedkin possui como obra capitular do Cinema de Terror e Suspense (sim, em letras mai\u00fasculas) \u00e9 grande. Afinal, essa nova abordagem do tema tabu para diversas religi\u00f5es utiliza personagens oriundos diretamente da adapta\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica do livro de William Peter Blatty em um reencontro cinquenta anos depois da primeira imers\u00e3o dos mesmos naquele pesadelo. Por\u00e9m, mesmo possuindo o mesmo nome, estilo de fonte nos cr\u00e9ditos, ao menos dois personagens (tr\u00eas, se contarmos com o pr\u00f3prio \u2018sete pele\u2019 imortal) e a presen\u00e7a marcante da m\u00fasica \u201cTubular Bells\u201d, do brit\u00e2nico Mike Oldfield, em respeito ao que Friedkin construiu como for\u00e7a cinematogr\u00e1fica em 1973, \u00e9 prefer\u00edvel se ater ao que (de pouco ou nada) esse \u201cO Exorcista &#8211; O Devoto\u201d (&#8220;The Exorcist: Believer&#8221;, 2023) tem a oferecer \u00e0 mitologia f\u00edlmica trazida pelo diretor de \u201cOpera\u00e7\u00e3o Fran\u00e7a\u201d (1971).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dirigido pelo mesmo David Gordon Green, cineasta que revitalizou com apuro visual e brutalidade a saga de Michael Myers <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/10\/17\/cinema-halloween-kills-e-o-mal-como-essencia-da-natureza-humana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">nos dois primeiros \u201cHalloween\u201d da nova trilogia<\/a> (o desastre do terceiro filme <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/10\/19\/cinema-halloween-ends-e-desnecessario-forcado-e-irregular\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">comentamos aqui<\/a>), sua presen\u00e7a, aqui, tanto como co-roteirista quanto como diretor, prova que nem sempre a mesma m\u00e1gica se repete. E olha que o pr\u00f3prio fechamento da nova trilogia, \u201cHalloween Ends\u201d (2022), com seu texto pregui\u00e7oso e insosso, j\u00e1 demonstrava isso de forma clara. Infelizmente, \u00e9 justamente um efeito semelhante em rela\u00e7\u00e3o ao roteiro que vemos neste seu novo trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abordando a possess\u00e3o, dessa vez, de duas adolescentes, \u201cO Exorcista &#8211; O Devoto\u201d se inicia parecendo querer emular o mesmo cen\u00e1rio trazido pela presen\u00e7a maligna na escava\u00e7\u00e3o da qual fazia parte o padre Lankester Merrin, no Iraque setentrional do come\u00e7o da d\u00e9cada de 1970. Aqui, por\u00e9m, Porto Pr\u00edncipe, no Haiti, surge nos minutos iniciais trazendo uma briga de c\u00e3es que alude \u00e0 mesma presen\u00e7a nefasta sentida pelo personagem de Max Von Sydow, e um terremoto fatal que pouco acrescenta \u00e0 nova trama no que se refere aos efeitos que o pai da futura possu\u00edda (ainda na barriga da m\u00e3e neste pr\u00f3logo) enfrentar\u00e1 dentro do seu drama de luto e perda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Corta para 13 anos depois e chegamos aos dias atuais, nos quais Victor Fielding (Leslie Odom Jr, do \u00f3timo \u201cUma Noite em Miami\u201d, de 2020), o pai em quest\u00e3o, cria sozinho Angela, sua filha adolescente vivida por Lidya Jewett. Oscilando entre um comportamento normal para uma jovem de treze anos e a introspec\u00e7\u00e3o pela curiosidade em saber mais sobre quem foi sua m\u00e3e, morta no parto, Angela utiliza uma echarpe que pertenceu \u00e0 sua progenitora como modo de manter-se ligada a ela. E \u00e9 quando come\u00e7amos a perceber a fragilidade de \u201cO Devoto\u201d como roteiro. Banalizando um dos pontos centrais (e n\u00e3o ser\u00e1 o \u00fanico, saliento) de seu original, o texto, escrito por Green ao lado de Peter Sattler, parece ignorar a simbologia contida em todo o citado pr\u00f3logo do cl\u00e1ssico de Friedkin, quando a liberta\u00e7\u00e3o de um mal \u00e9 feita por acidente ap\u00f3s uma escava\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica descobrir algo grave enterrado no solo iraquiano. Na nova vers\u00e3o, como se apenas para justificar-se diante de um p\u00fablico adolescente (o filme tem classifica\u00e7\u00e3o indicativa de 16 anos) em uma mastigada f\u00f3rmula que restringe a ideia da possess\u00e3o demon\u00edaca a uma batida brincadeira de cunho sobrenatural feita por adolescentes, o que temos \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, que acontece de modo truncado ap\u00f3s o desaparecimento de Angela e de sua amiga, Katherine (Olivia O&#8217;Neill em seu primeiro papel no cinema).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77285\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/exorcista2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/exorcista2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/exorcista2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto na obra original, todo um aspecto psicol\u00f3gico envolvendo Reagan (personagem de Linda Blair) e seu gradativo sequestro por for\u00e7as malignas era trabalhado pelo roteiro de Blatty de maneira parcimoniosa, criando as imagens simb\u00f3licas do passo a passo do flagelo f\u00edsico e emocional que a menina e sua m\u00e3e (vivida por uma Ellen Burstyn em estado de gra\u00e7a) passariam at\u00e9 serem salvas pelo personagem-t\u00edtulo, neste \u201cDevoto\u201d o que temos \u00e9 basicamente o aparecimento das duas jovens que somem por tr\u00eas dias (em uma pat\u00e9tica e for\u00e7ada refer\u00eancia \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ap\u00f3s a m\u00edtica passagem de Jesus pelo inferno depois de crucificado) e que, sem muito desenvolvimento, algo que confirma a ideia de pregui\u00e7a dos roteiristas, ressurgem possu\u00eddas. E at\u00e9 esse climax vir \u00e0 tona, a obra j\u00e1 come\u00e7a a se perder em suas ambi\u00e7\u00f5es ao inserir flashes de imagens demon\u00edacas e vazias em vis\u00f5es de personagens e que ligam o nada a lugar nenhum e que acrescentam zero \u00e0 trama, denotando exatamente a displic\u00eancia e o banal de seu roteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir desse momento, o longa parece se comportar como uma s\u00e1tira moralista na qual os aspectos marcantes da obra de Friedkin, como a voz, as cicatrizes nos rostos (que, dessa vez, n\u00e3o s\u00e3o resultado de um auto-flagelo, mas surgem digitalmente) s\u00e3o requentados e, infelizmente, banalizados em sustos f\u00e1ceis e efeitos digitais deslocados. Neste ponto, \u00e9 pertinente citar a cena do exorcismo em si, que, em uma deslocada tentativa de parecer querer contemplar diversos credos salvadores e n\u00e3o somente o cat\u00f3lico (em tempos de cancelamento, parece que agradar a todos se faz necess\u00e1rio), descamba para uma sucess\u00e3o de performances constrangedoras nas quais figuras centrais da trama como os pais das jovens (!!), bem como membros de outras tr\u00eas religi\u00f5es, se tornam os exorcistas. Ao menos, visualmente para f\u00e3s do cinema de horror, um rev\u00e9s do dem\u00f4nio contra um insosso padre se torna uma das cenas mais tragic\u00f4micas do longa. E ver que o \u00fanico representante a ser sacrificado \u00e9 o cat\u00f3lico traz uma mensagem subliminar bem evidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a pior surpresa ainda recai sobre a volta de Chris MacNeil, personagem de Ellen Burstyn, \u00e0 trama. Com uma justificativa totalmente deslocada ao inseri-la como uma escritora e pesquisadora de exorcismos na hist\u00f3ria das religi\u00f5es e abordando a pr\u00f3pria experi\u00eancia pessoal em um livro bestseller, \u201cO Exorcista &#8211; O Devoto\u201d se supera em seu absurdo oportunismo por macular exatamente algo que a obra original de Blatty e Friedkin possui como caracter\u00edstica p\u00e9trea. \u00c9 algo que gera um inc\u00f4modo justamente por ir de total e destoante encontro ao que vemos no final do filme original, quando a personagem de Burstyn segue em sua busca por privacidade e tentativa de esquecer o que aconteceu a ela e \u00e0 filha. Aqui, chegamos a ver uma jovem Chris MacNeil dando entrevistas em v\u00eddeos da \u00e9poca, demonstrando, assim, que sua suposta vontade de tornar p\u00fablico o que aconteceu surge pouco tempo depois, algo que, obviamente, destr\u00f3i a rela\u00e7\u00e3o com sua filha. Tratam-se de duas personagens v\u00edtimas, e n\u00e3o aproveitadoras de um fato tr\u00e1gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao sair do cinema, a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 a de um filme que, tendo em seu roteiro a presen\u00e7a de elementos ligados \u00e0 trama original, desperdi\u00e7a a oportunidade de utilizar-se desse fio narrativo em uma trama melhor constru\u00edda e, tamb\u00e9m, ao n\u00e3o se esfor\u00e7ar em criar (nem que seja em forma de tributo) cenas que trouxessem um impacto visual em sua audi\u00eancia. E isso tampouco acontece em seus aspectos t\u00e9cnicos, pontos que se tornaram t\u00e3o marcantes no filme de 1973, como o uso de sons e efeitos cenogr\u00e1ficos pr\u00e1ticos. Uma pena que, mesmo descart\u00e1vel e esquec\u00edvel, \u201cO Exorcista &#8211; O Devoto\u201d tenha conseguido macular uma das personagens centrais de uma obra que, meio s\u00e9culo ap\u00f3s sua estreia, ainda se faz \u00fanica. Mas ao menos ainda temos a jovem Chris MacNeil para revisitar e se tornar solid\u00e1rios com sua dor e mart\u00edrio materno.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/16\/cinema-o-exorcista-o-devoto-e-confuso-incoerente-entediante-e-indigno\/\"><em>Leia tamb\u00e9m: \u201cO Exorcista: O Devoto\u201d \u00e9 confuso, incoerente, entediante e indigno<\/em><\/a><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O EXORCISTA - O DEVOTO | Trailer Oficial (Universal Studios) - HD\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lLAUzNfG_30?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O Exorcista \u2013 O Devoto |Por Tr\u00e1s das C\u00e2meras\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/e3lFiarw83k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O longa parece se comportar como uma s\u00e1tira moralista na qual os aspectos marcantes da obra de Friedkin, como a voz e as cicatrizes nos rostos, s\u00e3o requentados e, infelizmente, banalizados\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/15\/cinema-banal-e-maculador-de-sua-raiz-classica-o-exorcista-o-devoto-tropeca-em-suas-ambicoes\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":77286,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77283"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77283"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77283\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":77305,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77283\/revisions\/77305"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77286"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77283"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77283"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77283"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}