{"id":77136,"date":"2023-10-06T00:14:14","date_gmt":"2023-10-06T03:14:14","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=77136"},"modified":"2023-11-15T00:09:26","modified_gmt":"2023-11-15T03:09:26","slug":"entrevista-wender-zanon-lanca-primeira-hq-gosto-estranho-dando-protagonismo-a-sua-cidade-natal-canoas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/06\/entrevista-wender-zanon-lanca-primeira-hq-gosto-estranho-dando-protagonismo-a-sua-cidade-natal-canoas\/","title":{"rendered":"Entrevista: Wender Zanon lan\u00e7a primeira HQ, \u201cGosto Estranho\u201d, com \u00c9rico Noronha, dando protagonismo \u00e0 sua cidade natal, Canoas"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100001755294131\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Homero Pivotto Jr.<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/wenderzanon\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wender Zanon<\/a> conhece o sabor agridoce de trabalhar em diferentes frentes culturais, onde realiza\u00e7\u00f5es e decep\u00e7\u00f5es est\u00e3o sempre na mesa. Agora, o jornalista de 33 de anos prepara-se para colocar na rua sua primeira hist\u00f3ria em quadrinhos: \u201cGosto Estranho\u201d, baseada na hist\u00f3ria real de uma remessa de peda\u00e7os de bicho morto destinados \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o contaminados em Chernobyl. A publica\u00e7\u00e3o de 40 p\u00e1ginas, capa colorida e miolo em preto e branco, foi feita em parceria com o quadrinista e ilustrador <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ericonoronha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00c9rico Noronha<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dia 10 de outubro, ocorre o lan\u00e7amento oficial da obra com duas atividades presenciais em Canoas. A primeira \u00e9 a Oficina de Zine, \u00e0s 14h, no Sal\u00e3o de Atos Nelson Paim Terra (Pa\u00e7o Municipal), seguida de sess\u00e3o de aut\u00f3grafos, \u00e0s 16h, no Caf\u00e9 Liter\u00e1rio (Pra\u00e7a da Emancipa\u00e7\u00e3o \u2014 R. Quinze de Janeiro, em frente \u00e0 prefeitura). A revista tamb\u00e9m tem divulga\u00e7\u00e3o durante a <a href=\"https:\/\/www.canoas.rs.gov.br\/feiradolivro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">38\u00ba Feira do Livro de Canoas<\/a>, entre 6 a 21 de outubro, na Pra\u00e7a da Emancipa\u00e7\u00e3o. Para quem \u00e9 de fora e tem interesse no trabalho, basta acionar os autores pelo Instagram (perfis linkados no nome de cada um no come\u00e7o desta mat\u00e9ria) ou pelo e-mail wender.zanon@gmail.com. O valor \u00e9 R$ 20.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da estreia no universo dos quadrinhos, Wender n\u00e3o \u00e9 carne nova no rol\u00ea: teve e tem bandas underground (como a Change Your Life, Vida Torta, Paquet\u00e1, Conflito, M\u00e4skara e Mal dos Tr\u00f3picos), produziu shows e eventos em outra searas do entretenimento e \u00e9 realizador audiovisual (dirigiu o document\u00e1rio \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/03\/27\/assista-a-this-is-canoas-not-poa-doc-sobre-o-rock-independente-de-canoas-rs\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">This Is Canoas, Not POA<\/a>\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo firmando-se como ator principal na arte do fa\u00e7a voc\u00ea mesmo, Wender tem como intuito colocar o protagonismo em sua cidade de origem, na regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre. \u201c(&#8230;) Pensei tipo &#8216;a gente tem mesmo que falar sobre o nosso lugar&#8217;. E n\u00e3o s\u00f3 falar, mas mostrar nosso lugar, nosso espa\u00e7o, nossas casas, nossos vizinhos, nossa galera. Sen\u00e3o, cara, as hist\u00f3rias s\u00f3 v\u00e3o se passar nos centros, capitais, na cidade que tem grana e estrutura pra receber uma produ\u00e7\u00e3o audiovisual. Ou as hist\u00f3rias s\u00f3 v\u00e3o ser feitas tamb\u00e9m por quem tem condi\u00e7\u00f5es financeiras de &#8216;tirar um tempo&#8217; pra escrever e financiar aquilo, e a\u00ed a gente presume que quem tenha tempo geralmente n\u00e3o vai morar numa periferia ou num espa\u00e7o fora da \u00e1rea central. Saca?\u201d, reflete Wender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para contaminar o nobre leitor com apetite pela leitura de \u201cGosto Estranho\u201d, oferecemos uma saborosa entrevista com o autor. Nela, Wender fala sobre abordar a pr\u00f3pria aldeia, conta inspira\u00e7\u00f5es, analisa viv\u00eancias na cultura do submundo e exalta o lado prosaico de sua terra natal com olhar atendo, sem bairrismo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77141\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Capa-Gosto-Estranho-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1061\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Capa-Gosto-Estranho-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Capa-Gosto-Estranho-copiar-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu \u00e9s um batalhador que tenta mostrar ao mundo hist\u00f3rias da tua cidade, Canoas. Seja com a Paquet\u00e1 (banda com nome de uma praia de \u00e1gua doce local), com o document\u00e1rio \u2018This is Canoas, Not POA!\u2019 e agora com essa nova empreitada. De onde veio esse \u00edmpeto?<\/strong><br \/>\nVeio de diversos lugares e influ\u00eancia de diversas pessoas. Acho que uma parte desse meu trabalho acaba sendo motivado por eu n\u00e3o ver \u201calguma coisa\u201d ocorrendo na minha cidade, justamente naquele microcosmo especifico que eu t\u00f4 atuando, sabe? Alguma hist\u00f3ria que eu vi, li ou tive acesso e, tipo: \u201cuau, isso daria um filme!\u201d. No caso, quando estava na produ\u00e7\u00e3o do \u201cThis is Canoas, not POA!\u201d, me questionava sobre ningu\u00e9m ter feito esse registro da cena musical da cidade. Ou, se fez, onde foi parar a documenta\u00e7\u00e3o disso? Lembro que eu pensava \u201ctenho que contar essa hist\u00f3ria antes que ela se perca ou at\u00e9 antes que algu\u00e9m fa\u00e7a e conte uma outra vers\u00e3o disso, haha\u201d. Mas eu acho que o \u00edmpeto vem dessa vontade, e at\u00e9 necessidade, mesmo de contar e apresentar hist\u00f3rias que n\u00e3o est\u00e3o sendo t\u00e3o \u201ccontadas\u201d ou documentadas. E a\u00ed as influ\u00eancias s\u00e3o enormes. Uma grande influ\u00eancia pra mim \u00e9 a galera da <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/10\/06\/cinema-em-noite-de-celebracao-em-bh-gabriel-martins-fala-sobre-marte-um-e\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Filmes de Pl\u00e1stico<\/a>, uma produtora de cinema de Contagem, regi\u00e3o metropolitana de Belo Horizonte. Essa galera sempre usa a pr\u00f3pria cidade (que tamb\u00e9m t\u00e1 na regi\u00e3o metropolitana) como tema e pano de fundo das suas hist\u00f3rias. Lembro que entrei nesse teto desde que vi os primeiros curtas desse pessoal e pensei tipo \u201ca gente tem mesmo que falar sobre o nosso lugar\u201d. E n\u00e3o s\u00f3 falar, mas mostrar nosso lugar, nosso espa\u00e7o, nossas casas, nossos vizinhos, nossa galera. Sen\u00e3o, cara, as hist\u00f3rias s\u00f3 v\u00e3o se passar nos centros, capitais, na cidade que tem grana e estrutura pra receber uma produ\u00e7\u00e3o audiovisual. Ou as hist\u00f3rias s\u00f3 v\u00e3o ser feitas tamb\u00e9m por quem tem condi\u00e7\u00f5es financeiras de \u201ctirar um tempo\u201d pra escrever e financiar aquilo, e a\u00ed a gente presume que quem tenha tempo geralmente n\u00e3o vai morar numa periferia ou num espa\u00e7o fora da \u00e1rea central. Saca? E a\u00ed acho que o papo pode ir para outras quest\u00f5es tamb\u00e9m, mas eu vejo que nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas, o cinema brasileiro (n\u00e3o s\u00f3 o cinema, t\u00e1?) teve uma renova\u00e7\u00e3o de vozes que estavam preocupadas e interessadas em mostrar hist\u00f3rias que at\u00e9 ent\u00e3o estavam nas \u201cmargens\u201d, eram essas \u201chist\u00f3rias invis\u00edveis\u201d. Mas acho que essa vontade de contar outras hist\u00f3rias \u00e9 algo que est\u00e1 muito presente em diversos campos das artes brasileiras das \u00faltimas d\u00e9cadas. Uma outra refer\u00eancia bem direta, agora falando em quadrinhos, pra mim, \u00e9 o trabalho que o <a href=\"https:\/\/pablitoaguiar.com.br\/inicio\/publicacoes\/alvorada-em-quadrinhos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pablito<\/a> faz, que \u00e9 algo bem documental, bem entrevista jornal\u00edstica. Ele ganhou visibilidade por fazer isso trazendo hist\u00f3rias de \u201cpequenos personagens\u201d de Alvorada e agora de Porto Alegre. Acho que essas pequenas hist\u00f3rias dizem muito sobre a gente e aqui s\u00f3 pra encerrar a pergunta, de onde vem esse \u00edmpeto, eu cito mais uma vez uma frase que tem guiado muito meu trampo e que eu ouvi numa sess\u00e3o de cinema na Cinemateca Capit\u00f3lio. Era uma exibi\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio \u201cHist\u00f3rias que o Nosso Cinema N\u00e3o Contava\u201d, e a diretora Fernanda Pessoa estava l\u00e1 e comentou que \u201cmesmo no lugar mais improv\u00e1vel \u00e9 poss\u00edvel encontrar tra\u00e7os da Hist\u00f3ria\u201d. Aquilo me tocou de uma maneira que s\u00f3 essa frase tem moldado muito minhas inten\u00e7\u00f5es com todos esses trampos que tenho realizado. De certa forma, resumindo, eu acho que \u00e9 contar hist\u00f3rias pra tentar entender nosso tempo, nossa sociedade, cultura e tamb\u00e9m pra tentar nos entender. \u00c9 tamb\u00e9m fazer um \u201cproduto cultural\u201d pra refletir sobre isso, sobre a gente, sobre nossos lugares e, por meio disso, tamb\u00e9m gerar afetos, momentos e essa sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento, identidade. \u00c9 tipo \u201ct\u00e1, legal demais fazer um som pra galera do meu bairro\u201d. N\u00e3o preciso ir tocar na capital ou depender de frequentar esse centro pra validar o meu trabalho, saca?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \/ quando come\u00e7ou a perceber que o munic\u00edpio tinha boas hist\u00f3rias a serem mostradas? Teve algo a ver com tua viv\u00eancia no underground?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei se tenho um momento chave em que percebi isso. Mas com toda certeza a viv\u00eancia no underground, ter banda, organizar shows de outras bandas e ter participado do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/coletivobil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Coletivo B.I.L<\/a> na cidade de Canoas foram aprendizados e influ\u00eancias enormes pra tudo que fa\u00e7o. S\u00e3o meio que faculdades, sei l\u00e1, n\u00e3o deixa de ser uma atividade formativa, haha. Acho que a gente n\u00e3o tem como tirar algo da nossa hist\u00f3ria, n\u00e9!? Todas as experi\u00eancias somam e te tornam um ser \u00fanico. \u00c9 isso que vai nos diferenciar. O lance n\u00e3o \u00e9 que a minha cidade tenha boas hist\u00f3rias para serem mostradas. Isso todas as cidades tem. A quest\u00e3o \u00e9 que ningu\u00e9m estava fazendo isso naquele \u201cmicrocosmo\u201d especifico ou fazendo isso exatamente com aquela hist\u00f3ria que eu tive acesso. E a\u00ed entendi que eu poderia colaborar com isso por meio de um filme, de uma banda, de uma HQ, de um projeto cultural. Tipo, onde eu posso colaborar nesse contexto maior que \u00e9 a minha cidade? T\u00e1 a\u00ed! Vou fazer uma HQ falando disso, vou fazer um filme falando daquilo. Na real, respondendo a tua pergunta, percebo que n\u00e3o \u00e9 bem um momento, mas sim uma sensa\u00e7\u00e3o mesmo que acho que est\u00e1 muito atrelada ao movimento punk e a essas \u201cpol\u00edticas do fa\u00e7a-voc\u00ea-mesmo\u201d, que s\u00e3o sobre isso: tem vontade, vai l\u00e1 e faz. Ser\u00e1 que preciso ter experi\u00eancia pra come\u00e7ar algo? Olha, experi\u00eancia ajuda bastante, mas n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, n\u00e9? Experi\u00eancia se adquire no caminho. Acho que aqui a viv\u00eancia underground fala mais alto que \u00e9 isso \u201cbora fazer, bora tocar, bora falar dessa historinha da cidade que ningu\u00e9m falou ainda\u201d. Tem aquele lema do M\u00e1rcio Sno no document\u00e1rio \u201c<a href=\"https:\/\/vimeo.com\/19998552\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fanzineiros do s\u00e9culo passado<\/a>\u201d em que ele diz \u201cSe ningu\u00e9m faz, fa\u00e7amos!\u201d. \u00c9 isso, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Do ponto de vista cultural, quais alegrias e quais agruras de se estar situado numa cidade grande (cerca de 350 mil habitantes), mas que costuma ficar relegada, muitas vezes, \u00e0 programa\u00e7\u00e3o cultural da capital?<\/strong><br \/>\nNessas cidades, no caso de Canoas que fica na regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, eu n\u00e3o vejo tanta divis\u00e3o de grupos como vejo numa capital ou em centros maiores e mais movimentados \u2014 no sentindo de ofertarem uma programa\u00e7\u00e3o cultural maior. Meio que aqui todo mundo cola com todo mundo (ou deveria ou eu acho que deveria, haha). Mas creio que isso \u00e9 porque a cidade n\u00e3o oferece uma programa\u00e7\u00e3o cultural constante e n\u00e3o tem muitos espa\u00e7os para a circula\u00e7\u00e3o e encontros dos fazedores e apreciadores de cultura. Ent\u00e3o, quando tem algo, as coisas se tornam meio eventos oficiais e todo mundo cola pra prestigiar. Ou, se n\u00e3o cola, ao menos se mobiliza pra divulgar e rola uma como\u00e7\u00e3o pra aquela coisa dar certo, saca? Talvez, eu esteja romantizando, mas \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o que eu tenho como ponto positivo e, ao mesmo tempo, negativo. Canoas carece de uma gest\u00e3o especializada, de equipamentos culturais ativos, carece de divulga\u00e7\u00e3o e por a\u00ed vai. Em cada troca de governo acabam mudando tamb\u00e9m os profissionais respons\u00e1veis, bem como em cada troca de governo, tu vais ter uma vis\u00e3o diferente do que \u00e9 cultura. Como ter um avan\u00e7o ou uma continuidade assim, se a gest\u00e3o fica ligada aos grupos pol\u00edticos e as diretrizes que v\u00e3o ter? E tipo, em Canoas tem muito grupo de teatro, e eu fico impressionado com isso. Da mesma forma que sempre teve muita banda tamb\u00e9m. S\u00f3 que sabe quantos teatros tem em Canoas? S\u00f3 um, que \u00e9 o teatro do Sesc. E esse teatro foi inaugurado n\u00e3o tem nem dez anos. E sabe quantos espa\u00e7os tem pra um show autoral hoje em Canoas? Nenhum! Um espa\u00e7o que frequentemente role uma programa\u00e7\u00e3o autoral na sua agenda, n\u00e3o tem. Tu vais ter um pub, um xis ou um espa\u00e7o que algu\u00e9m consegue uma data por m\u00eas e olhe l\u00e1! Como uma cidade com tanto potencial carece desses equipamentos e da manuten\u00e7\u00e3o desses equipamentos? Queria entender. Acho que \u00e9 uma roda muito grande pra girar da maneira \u201cperfeita\u201d, mas mesmo girando meio \u201ccapenga\u201d n\u00e3o vai deixa de girar. Enfim, resumindo, acho que a galera nessas cidades parece mais unida e torcendo pelo sucesso coletivo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77144\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Gosto-Estranho-teaser-2-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1061\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Gosto-Estranho-teaser-2-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Gosto-Estranho-teaser-2-copiar-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando tu entraste nessa pilha de divulgador local, como percebeu a rea\u00e7\u00e3o das pessoas? Principalmente de quem tamb\u00e9m faz cultura e do poder p\u00fablico, mas sem esquecer dos amigos que s\u00e3o do rol\u00ea e de poss\u00edveis apoiadores privados?<\/strong><br \/>\nAcho que virar um \u201cdivulgador local\u201d foi um processo normal da minha trajet\u00f3ria. Eu trabalho como assessor de imprensa, social media e produtor executivo pra uma galera da cidade de Canoas. Tipo, hoje tenho 33 anos, e desde os 17 estou envolvido na cena art\u00edstica da cidade. Comecei fazendo um trabalho de comunica\u00e7\u00e3o com o Coletivo B.I.L e hoje, na cidade, participo de um festival de teatro chamado <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/festivalfestia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">FESTIA<\/a> e tamb\u00e9m atuo como produtor de diversos projetos de artistas de diferentes segmentos. Tenho alguns trabalhos desenvolvidos com o pessoal do rap (como o DJ Abu, Negroide MC, Old Dent Bastard, Dio, Subterr\u00e2neo 12), tamb\u00e9m alguns trabalhos com o pessoal mais do rock, que \u00e9 a galera da Cat Arcade, Flyleaves, Marginal Zero, Cor do Invis\u00edvel, V\u00e1. Trampo ainda com Marcelulose, que j\u00e1 \u00e9 do role eletr\u00f4nico, e agora tamb\u00e9m estou fazendo um projeto com o m\u00fasico Paulo Vitor, que j\u00e1 \u00e9 um lance que flerta mais com ritmos brasileiros. Como falei na resposta anterior, acho que n\u00e3o tem muita divis\u00e3o dos grupos, e a galera toda se conhece, se fortalece e tenta esse sucesso coletivo, saca?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bom, s\u00f3 acho que, antes eu era mais produtor, assessor de imprensa e agora estou conseguindo botar pra fora alguns trabalhos autorais em que eu tamb\u00e9m sou autor. Talvez seja essa resposta da pergunta, haha. S\u00f3 que uma coisa leva a outra, n\u00e9? E o trampo como produtor, assessor de imprensa e social media tamb\u00e9m vai acabar exercendo uma influ\u00eancia no trampo como autor. Como falei antes, trabalho nesse festival de teatro chamado FESTIA. Cara, \u00e9 um baita evento! Ocorre h\u00e1 12 anos e durante um per\u00edodo de 15 dias leva teatro, entre outras atividades culturais, para todos os quadrantes da cidade. \u00c9 um evento organizado pelo grupo TIA e conta com o apoio oficial da cidade, mas mesmo assim \u00e9 uma atividade totalmente independente. Meio de guerrilha mesmo, mobilizada por pessoas que querem ofertar cultura e atividades gratuitas pra popula\u00e7\u00e3o. Eu acho que esse meu trampo de \u201cdivulgador local\u201d na real \u00e9 s\u00f3 uma consequ\u00eancia da minha viv\u00eancia e da influ\u00eancia que esses outros divulgadores e agentes culturais exercem sobre mim. No final, a gente s\u00f3 quer falar das coisas que a gente gosta, compartilhar uns tetos que fazem sentindo e tornar o nosso ambiente mais seguro e confort\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nas tuas empreitadas, qual considera que foi a maior dificuldade para levar os projetos adiante?<\/strong><br \/>\nCara, eu acho que a maior dificuldade mesmo \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o, haha. Organizar equipe e ideia. Acordar todo o dia e ter for\u00e7a, motiva\u00e7\u00e3o, tempo, condi\u00e7\u00f5es e grana pra trampar. Essa ideia da HQ, por exemplo, j\u00e1 t\u00e1 em um ano e meio de execu\u00e7\u00e3o desde o momento em que tive a ideia inicial, que foi conhecer a hist\u00f3ria e come\u00e7ar a pensar que isso poderia virar uma hist\u00f3ria em quadrinhos, saca? Acho que a maior dificuldade \u00e9 a de todo e qualquer artista e produtor, que \u00e9 arrumar fontes de financiamento pra coisa rolar. A HQ teve um incentivo de um edital de Canoas que \u00e9 o Microcr\u00e9dito Cultural. S\u00f3 que esse incentivo, digamos, cobre dois meses do nosso trabalho e dedica\u00e7\u00e3o. Pensa agora que a gente t\u00e1 nisso h\u00e1 um ano e meio j\u00e1. A gente t\u00e1 fazendo a HQ com um suporte que serve de empurr\u00e3o e tamb\u00e9m te bota numa responsabilidade pra fazer e entregar um projeto. A\u00ed a gente quer fazer o melhor projeto poss\u00edvel pra tamb\u00e9m aproveitar esse suporte e empurr\u00e3o pra dar passos cada vez maiores. Enfim, dificuldade mesmo eu sinto que \u00e9 gerir a ideia, o projeto, fazer andar e apresentar isso. Tem uma fala <a href=\"https:\/\/youtu.be\/s9QQOOeqh0w?si=J1mhKMjbq-67uaQy&amp;t=4314\">do Jeferson Assun\u00e7\u00e3o no \u201cThis is Canoas, not POA\u201d<\/a> em que ele reflete sobre a dificuldade econ\u00f4mica e social do fazer art\u00edstico. Ele diz sobre isso, a dificuldade em \u201ctransformar tuas inten\u00e7\u00f5es em projetos e teus projetos em algo real, concretizar eles\u201d. Eu vejo muita gente talentosa, com boas ideias, mas que n\u00e3o conseguem chegar e apresentar o resultado final do seu projeto. Elas se perdem ou desistem no meio do caminho. Seja porque precisa arrumar uma outra forma de ganhar dinheiro ou porque n\u00e3o consegue encontrar maneiras ideais de financiamento para o seu projeto ou n\u00e3o consegue organizar o projeto dentro das limita\u00e7\u00f5es impostas por tempo e dinheiro. E, infelizmente, o dinheiro vai ser algo que sempre vai pautar nossas a\u00e7\u00f5es e vai determinar at\u00e9 onde a gente pode ir e quanto tempo investir.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77143\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Gosto-Estranho-teaser-1-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1061\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Gosto-Estranho-teaser-1-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Gosto-Estranho-teaser-1-copiar-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E para fazer a HQ &#8220;Gosto Estranho&#8221;, o que te inspirou? Aproveita e conta pra gente o causo real no qual a hist\u00f3ria \u00e9 baseada.<\/strong><br \/>\nEu acho que a principal inspira\u00e7\u00e3o surgiu por meio do conv\u00edvio e da amizade com o \u00c9rico. A gente tem feito v\u00e1rias coisas juntas nos \u00faltimos anos. Desde 2021, \u00c9rico e eu estamos trabalhando juntos em um selo de rap chamado Parada 12. Em 2022, a gente acabou montando uma banda chamada M\u00e1scara e, junto com Eduarda Linhares, Jos\u00e9 Hansen e Jonas Dala Corte, criamos seis sons que est\u00e3o no \u00e1lbum \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ybBsHOalUds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Agressiva &amp; Top<\/a>\u201d, lan\u00e7ado no \u00faltimo 11 de setembro. \u00c9 tipo assim, tu viras amigo de algu\u00e9m, daqui a pouco voc\u00eas fazem uma banda, haja, e porque n\u00e3o um gibi? O projeto \u201cGosto Estranho\u201d nasceu ali por abril de 2022. Algum dia tava almo\u00e7ando com meu sogro e sei l\u00e1 sobre o que fal\u00e1vamos exatamente, mas ele comentou de um caso que ocorreu nos anos 1980 no Brasil e que acabou sendo conhecido por \u201cCarne de Chernobyl\u201d. Vou tentar resumir. Em 1986, o governo Sarney instituiu o Plano Cruzado e congelou os pre\u00e7os do mercado brasileiro. Com isso, os produtores resolveram parar com o abate de gado e a produ\u00e7\u00e3o de latic\u00ednios. A solu\u00e7\u00e3o foi importar toneladas de alimentos do mercado europeu. Por\u00e9m, todo esse lance ocorreu pr\u00f3ximo da explos\u00e3o do reator de Chernobyl. Essa carne chegou no Brasil em setembro de 1986. Entre idas e vindas dessa hist\u00f3ria toda, entre libera e n\u00e3o libera&#8230; foi vendida uma parcela desse produto (carne e latic\u00ednios) at\u00e9 que algumas medidas impediram a comercializa\u00e7\u00e3o. A gente pesquisou esse material e constatamos que at\u00e9 1992 (!!!), parte dessa carne ainda estava congelada, esperando por determina\u00e7\u00f5es judiciais. E o que foi feita com essa carne? A nossa pesquisa n\u00e3o chegou nessa parte ainda (pois n\u00e3o era do nosso interesse descobrir todo o desdobramento desse epis\u00f3dio), mas as mat\u00e9rias de jornais da \u00e9poca indicavam que essa carne foi processada e vendida para a \u00c1frica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos tetos de toda essa hist\u00f3ria \u00e9 que quando fui pesquisar sobre a \u201ccarne de Chernobyl\u201d, naquele domingo de almo\u00e7o na casa dos sogros e tal, logo descobri que uma boa parte dessa carne ficou congelada em Canoas, minha cidadezinha querida e amada, haha. A\u00ed na hora j\u00e1 passou na cabe\u00e7a mil cenas de filmes incr\u00edveis como \u201cStreet Trash\u201d, \u201cO Incr\u00edvel Homem que Derreteu\u201d, \u201cN\u00e3o se Deve Profanar o Sono dos Mortos\u201d, \u201cO Ex\u00e9rcito do Exterm\u00ednio\u201d (e de todos os outros filmes do Romero), entre outras obras que t\u00e3o principalmente naquelas prateleiras das doideras dos anos 1980. S\u00f3 que fazer cinema custa, e muito caro! (Ou ao menos as cenas que estavam passando na minha cabe\u00e7a). Bom, acho que dormi com essa ideia e na semana seguinte fui falar com o \u00c9rico pra ver se ele pilhava em fazer uma hist\u00f3ria em quadrinhos disso. A\u00ed o bicho abra\u00e7ou a ideia. S\u00f3 que fazer uma hist\u00f3ria em quadrinhos tamb\u00e9m custa, a\u00ed pensamos em formas de financiar esse projeto e resolvemos inscrever em um edital chamado Microcr\u00e9dito Cultural da Secretaria de Cultura de Canoas. Bolamos tudo, organizamos um pr\u00e9-roteiro, sinopse, uma p\u00e1gina de apresenta\u00e7\u00e3o do projeto (que depois acabou n\u00e3o sendo inclu\u00edda na hist\u00f3ria) e a\u00ed ficamos no aguardo. Ali por outubro de 2022, saiu o resultado e a gente tinha sido contemplado. Uhuuu!! Come\u00e7amos a nos encontrar mais, fazer reuni\u00f5es e compartilhar refer\u00eancias, desenvolvemos melhor o argumento e partimos pro roteiro. Da minha parte, eu queria ressaltar como \u00e9 importante ter incentivos (dinheiro, recursos) pra trampar e poder se dedicar a pr\u00e1tica cultural\/art\u00edstica. Eu nunca tinha feito uma hist\u00f3ria em quadrinhos e n\u00e3o sabia por onde come\u00e7ar. Esse \u00e9 um ponto que queria chegar, pois ter sido aprovado no edital cultural tamb\u00e9m nos botou na responsa de entregar um produto foda. Isso agrega pra nossa trajet\u00f3ria e a gente n\u00e3o podia fazer feio, rsrs. Ent\u00e3o, nesse ponto, tive que come\u00e7ar a estudar sobre HQ. Sorte que minha companheira Ana C\u00e2ndida Sommer, que \u00e9 ilustradora e ceramista, tinha um bom material te\u00f3rico sobre HQs. Entre um trampo e outro, passei uns dois meses lendo \u201cReinventando os Quadrinhos\u201d e \u201cDesvendando os Quadrinhos\u201d, ambos do Scott McCloud, \u201cNarrativas Gr\u00e1ficas\u201d de Will Eisner e o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/01\/04\/literatura-hq-e-baloes-de-pensamento-2-dao-aula-sobre-quadrinhos-sem-esquecer-de-divertir\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bal\u00f5es de Pensamento<\/a>\u201d, de \u00c9rico Assis. Al\u00e9m dessas leituras mais te\u00f3ricas, tamb\u00e9m tive acesso a muitos quadrinhos que eu n\u00e3o conhecia e que foram frutos das dicas e empr\u00e9stimos do \u00c9rico e da Ana. Eu passava alguns filmes pro \u00c9rico e ele passava umas HQs. E assim a gente foi construindo e agregando refer\u00eancias pra esse trampo. Da parte do \u00c9rico, acredito que as principais influ\u00eancias v\u00eam do <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2010\/08\/11\/comprando-vinis-com-robert-crumb\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Crumb<\/a>, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/daniel-clowes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Daniel Clowes<\/a>, Walace Wood e <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/02\/07\/tres-hqs-gatilho-imperio-e-angola-janga-uma-historia-de-palmares\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo D&#8217;Salete<\/a>. Uma inspira\u00e7\u00e3o muito forte foi o anime e mang\u00e1 \u201cTekkon Kinkreet\u2019. Esse aqui o \u00c9rico leu e eu vi o filme, mas a gente sacou que a cidade ali \u00e9 que era o personagem principal. Era um lance que a cidade exercia um \u201cpoder\u201d e uma \u201cinflu\u00eancia\u201d sobre os personagens, e a gente sacou que era onde a gente queria chegar com todo esse teto de abordar uma hist\u00f3ria que estava ali na cidade de Canoas, uma regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, esperando pra ser ficcionalizada. E esse \u00e9 um lance que eu venho pensando muito, principalmente depois de ter feito o document\u00e1rio \u201cThis is Canoas, not POA!\u201d, que \u00e9 tipo \u201co que t\u00e1 faltando pra essa cidade virar pano de fundo para outras hist\u00f3rias?\u201d. Talvez falte investimento, financiamento, sei l\u00e1, mas ser\u00e1 que tudo vai depender sempre de dinheiro? Tipo cad\u00ea as nossas hist\u00f3rias nas telas ou nas p\u00e1ginas? Fico fritando sobre o qu\u00e3o importante \u00e9 a gente se sentir representado e pertencente a uma comunidade, se ver na tela, ver o seu bairro ali, os costumes do seu local. No filme \u201c\u00d4R\u00cd\u201d, Beatriz Nascimento diz: \u201c\u00c9 preciso imagem para recuperar a identidade\u201d. Ali, ela fala sobre uma quest\u00e3o racial, mas contextualizando tamb\u00e9m serve perfeitamente para outros espa\u00e7os. Bom, como a gente tinha inten\u00e7\u00e3o de ficcionalizar uma hist\u00f3ria da cidade, quando partimos pro roteiro dessa HQ, um dos locais que mais visitamos foram as bibliotecas p\u00fablicas. Ali ficamos folheando diversos jornais que correspondiam ao per\u00edodo de 1986 at\u00e9 1991\/92. A gente queria entender se realmente esse epis\u00f3dio da carne de Chernobyl tinha sido super comentado na \u00e9poca. E isso foi comprovado com a pesquisa no acervo dos jornais. Al\u00e9m de mat\u00e9rias, tamb\u00e9m encontramos algumas charges que d\u00e3o essa \u201ccertificada de que o assunto tava na boca do povo\u201d. Outro interesse nessa pesquisa era entender temas que estavam sendo falados \u00e0 \u00e9poca, buscar nos jornais refer\u00eancias para os nossos personagens. E isso \u00e9 poss\u00edvel observar em v\u00e1rios pontos nas p\u00e1ginas desse trabalho. Tem uma mat\u00e9ria de tv que abre a HQ, tem posters nas paredes na casa do nosso personagem chapista e no bar do Nena, que s\u00e3o simples detalhes, mas s\u00e3o frutos dessa pesquisa e dessa inten\u00e7\u00e3o de contextualizar e fazer refer\u00eancias a cidade na d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77145\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Sem-Titulo-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"643\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Sem-Titulo-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Sem-Titulo-1-300x257.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma hist\u00f3ria doida por si, mas qual o lance mais louco\/pitoresco envolvendo essa fun\u00e7\u00e3o da carne contaminada que voc\u00eas descobriram?<\/strong><br \/>\nCara, com toda certeza foi descobrir que a carne chegou no Brasil em 1986, ficou congelada at\u00e9 1992 e possivelmente tenha sido processada e vendida para \u00c1frica depois. A nossa pesquisa n\u00e3o foi t\u00e3o longe assim a ponto de descobrir o que realmente aconteceu, mas os jornais da \u00e9poca indicavam que esse seria era o destino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quem s\u00e3o e como foram pensados os personagens principais da trama?<\/strong><br \/>\nO principal personagem acaba sendo a cidade de Canoas mesmo. E a gente acabou percebendo isso durante o processo de fazer a hist\u00f3ria, conforme tamb\u00e9m ia agregando outras refer\u00eancias ao trabalho. Ali\u00e1s, como citei antes, esse teto da cidade como personagem tem muita refer\u00eancia do anime e mang\u00e1 \u201cTekkon Kinkreet\u201d. E uma outra grande influ\u00eancia pra esse lance de abordar a cidade foi ter lido \u201cTrag\u00e9dia Da Rua Da Praia\u201d, de Rafael Guimaraens e Edgar Vasques, e \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/27\/tres-hqs-beco-do-rosario-buscavidas-e-degenerado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Beco do Ros\u00e1rio<\/a>\u201d, de Ana Luiza Koehler. Ali\u00e1s, fui numa palestra do Vasques e da Ana Luiza na Biblioteca P\u00fablica do Estado em que eles falavam sobre a influ\u00eancia da arquitetura para essas hist\u00f3rias. E isso tamb\u00e9m acabou influenciando o nosso gibi. Outro lance de influ\u00eancia pra \u201cGosto Estranho\u201d acho que veio duma pilha que eu estava de assistir a alguns filmes de Hong Kong. Isso de alguma forma est\u00e1 presente, num lance de \u201cn\u00e3o se levar t\u00e3o a s\u00e9rio, mesmo levando\u201d. A hist\u00f3ria no gibi \u00e9 apresentada como se fossem contos em que as a\u00e7\u00f5es da trama v\u00e3o levando e apresentando outros personagens. E por isso tamb\u00e9m acaba que o personagem principal mesmo torna-se a cidade. A gente tem um personagem que abre e fecha a HQ, que \u00e9 o Marcelo, um chapista do Xis Nova Esperan\u00e7a. A\u00ed, depois temos o Jorge, que \u00e9 um trabalhador do bairro, o Nico, que \u00e9 um morador do bairro que n\u00e3o consegue dormir. Temos tamb\u00e9m alguns cachorros que atendem pelo nome de cachorro mesmo, temos a detetive Alice e o Nena e a Raquel, que s\u00e3o propriet\u00e1rios do bar do Nena. Todos de alguma forma s\u00e3o inspirados em pessoas reais ou algum causo que a gente viu. Nena e Raquel eram os donos do armaz\u00e9m que ficava na esquina da minha casa. E a detive Alice \u00e9 inspirada na detetive Aline, uma personagem cl\u00e1ssica que acabou viralizando pelas plaquinhas de propaganda que tem em Porto Alegre e regi\u00e3o metropolitana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Canoas reivindica o titular de \u201ccapital do xis\u201d. E, em \u201cGosto Estranho\u201d, tem um personagem chapista. A escolha dessa profiss\u00e3o para o personagem tem rela\u00e7\u00e3o o lance do xis?<\/strong><br \/>\nSim! Com toda certeza! At\u00e9 o lance de ter uma lancheria de xis na hist\u00f3ria \u00e9 por causa disso. N\u00e3o tinha como escapar disso na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o que seja o objetivo, mas rola algum tipo de reconhecimento por dedicar tempo e energia em um trabalho que divulga a cidade?<\/strong><br \/>\nCara, acho que o reconhecimento mesmo \u00e9, tipo, estar trocando uma ideia aqui e ter a oportunidade de falar e contextualizar sobre o trampo, a cidade e outras quest\u00f5es contigo. Fico feliz com o reconhecimento que rola, mas \u00e9 uma consequ\u00eancia dessa dedica\u00e7\u00e3o e do pr\u00f3prio trabalho. E acho que \u00e9 uma roda tamb\u00e9m, do tipo \u201ceu estou fazendo algo por que algu\u00e9m me estimulou e influenciou e espero que esse trampo que tamb\u00e9m sirva como estimulo pra algu\u00e9m da cidade ou de qualquer outra cidade metropolitana a\u00ed\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por onde o Wender, envolvido com o rol\u00ea DIY h\u00e1 uns bons anos, levaria visitantes de outras cidades para mostrar a movimenta\u00e7\u00e3o cultural de Canoas atualmente (algo que tu j\u00e1 fizeste e segue fazendo, quando poss\u00edvel)?<\/strong><br \/>\nCara, acho que a principal vida cultural da cidade ocorre nas pra\u00e7as, pois s\u00e3o os espa\u00e7os p\u00fablicos mais democr\u00e1ticos \u2014 e isso \u00e9 muito importante salientar. Por mais que Canoas n\u00e3o tenha uma programa\u00e7\u00e3o cultural ativa, p\u00fablica, constante e gratuita, \u00e9 uma cidade que conserva bem (algumas de) suas pra\u00e7as. E \u00e9 importante entender esses espa\u00e7os, pois \u00e9 onde a gente pode frequentar sem gastar dinheiro, sem a imposi\u00e7\u00e3o de participar do evento e ter que consumir. \u00c9 um lugar que tu vais, faz uma pausa, senta ali e troca uma ideia. Eu acho que \u00e9 dali que surgem muitas ideias boas e, pode-se dizer, que \u00e9 um dos pontos de encontros da galera da cidade. Eu levaria esse visitante pra conhecer as pra\u00e7as da cidade e os parques. Tem dois \u00f3timos parques na cidade. Um fica pr\u00f3ximo da esta\u00e7\u00e3o F\u00e1tima do Trensurb, que \u00e9 o Parque Eduardo Gomes. Tem tamb\u00e9m o Cap\u00e3o do Corvo, no bairro Marechal Rondon. E a\u00ed tem eventos espec\u00edficos, como o festival de teatro que mencionei antes, o FESTIA, tem o Canoas Jazz e outros eventos que volta e meia a prefeitura organiza. \u00c0s vezes tem show da B.I.L no Navarro, que n\u00e3o segue t\u00e3o ativo como j\u00e1 foi anteriormente, mas t\u00e1 l\u00e1 em p\u00e9. E tem a programa\u00e7\u00e3o cultural ofertada pelo Sesc, que \u00e9 esse espa\u00e7o f\u00edsico e frequente onde as coisas rolam na cidade. Dependendo do visitante tamb\u00e9m levaria na biblioteca e no Arquivo Hist\u00f3rico da cidade, que s\u00e3o lugares que tenho frequentado bastante, mas a\u00ed mostraria pra pessoa como a cidade j\u00e1 teve outros momentos tamb\u00e9m. Ah! Nesse lance de ocupar espa\u00e7os p\u00fablicos, a galera do movimento hip hop \u00e9 muito organizada e faz isso muito bem. Se tivesse rolando uma batalha, levaria essa pessoa pra batalha de rima tamb\u00e9m. E pra fechar o role tur\u00edstico levaria esse visitante pra comer um xis, n\u00e9!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ali\u00e1s, como anda a cena local da cultura underground na cidade, se comparada h\u00e1 uns 10 anos?<\/strong><br \/>\nCara, acho que estamos novamente naquele ciclo que infelizmente a gente sabe que vai se repetir. Hoje em dia, Canoas segue a sina de muita gente produzindo e pouco espa\u00e7o para encontros e apresenta\u00e7\u00f5es. Tem algumas bandas novas de novos artistas, mas essa galera jovem n\u00e3o t\u00e1 se organizando coletivamente. E n\u00e3o que tenham que se organizar e organizar algo tamb\u00e9m. Ali\u00e1s, tem espa\u00e7os pra tocar, mas pra tocar cover. E esses lugares onde toca cover dificilmente vai abrir a programa\u00e7\u00e3o pra um som autoral. Bom, mas essa falta de espa\u00e7o n\u00e3o reflete na produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica da cidade. At\u00e9 \u00e9 ao contr\u00e1rio, eu mesmo tenho trabalhado com v\u00e1rios artistas locais mais jovens que t\u00e3o a\u00ed querendo mostrar o seu som, t\u00e3o compondo e t\u00e3o superativos. S\u00f3 que a\u00ed \u00e9 outro sintoma. Esse pessoal vai procurar mostrar seu trabalho em outro espa\u00e7o f\u00edsico, geralmente fora da cidade, e tamb\u00e9m vai usar o espa\u00e7o virtual para divulgar e promover seus trabalhos. Pois a pr\u00f3pria cidade n\u00e3o oferece esse espa\u00e7o de encontro comum, al\u00e9m das pra\u00e7as e eventos espec\u00edficos. Talvez isso seja um reflexo do pr\u00f3prio tempo tamb\u00e9m, e eu que fico achando que tenha que ter show pra validar a a\u00e7\u00e3o, mas acredito ainda muito nesse poder do encontro e da experi\u00eancia do contato mais pr\u00f3ximo. Tanto que \u00e9 por ter contato com essa galera mais jovem que tamb\u00e9m descubro e fico atualizado do que t\u00e1 rolando na cidade. E posso dizer que a produ\u00e7\u00e3o musical da cidade t\u00e1 rolando em diferentes segmentos, mas tamb\u00e9m tem muita gente das artes gr\u00e1ficas produzindo e atuando em Canoas, coisa que eu n\u00e3o sentia h\u00e1 dez anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"This is CANOAS, not POA!\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/s9QQOOeqh0w?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100001755294131\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Homero Pivotto Jr.<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista, vocalista da\u00a0<a href=\"https:\/\/diokane.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Diokane<\/a>\u00a0e respons\u00e1vel pelo videocast\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCY71eKJzuBUXpyDV2IFeP8Q\/videos?view_as=subscriber\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O Ben Para Todo Mal<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Wender fala sobre abordar a pr\u00f3pria aldeia, conta inspira\u00e7\u00f5es, analisa viv\u00eancias na cultura do submundo e exalta o lado prosaico de sua terra natal com olhar atendo, sem bairrismo.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/06\/entrevista-wender-zanon-lanca-primeira-hq-gosto-estranho-dando-protagonismo-a-sua-cidade-natal-canoas\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":52,"featured_media":77142,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[6857],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77136"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/52"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77136"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77136\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":77147,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77136\/revisions\/77147"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77142"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77136"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77136"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77136"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}