{"id":77107,"date":"2023-10-04T15:33:14","date_gmt":"2023-10-04T18:33:14","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=77107"},"modified":"2023-11-12T00:31:59","modified_gmt":"2023-11-12T03:31:59","slug":"musica-everything-is-alive-do-slowdive-e-uma-obra-densa-bela-e-com-a-sensacao-agridoce-de-beleza-melancolica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/04\/musica-everything-is-alive-do-slowdive-e-uma-obra-densa-bela-e-com-a-sensacao-agridoce-de-beleza-melancolica\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: &#8220;Everything is Alive&#8221;, do Slowdive, \u00e9 uma obra densa, bela e com a sensa\u00e7\u00e3o agridoce de beleza melanc\u00f3lica"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100016802896941\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Luciano Ferreira<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Menos de dois dias antes que &#8220;Everything is Alive&#8221; (2023), quinto \u00e1lbum do Slowdive, fosse oficialmente lan\u00e7ado, o grupo disponibilizou \u201cAlife\u201d, quarto e \u00faltimo single do novo trabalho. N\u00e3o deixa de ser surpreendente que um \u00e1lbum de oito faixas tenha sido apresentado em exatos cinquenta por cento antes de seu lan\u00e7amento. Essas quatro can\u00e7\u00f5es iniciais &#8211; \u201cKisses\u201d, \u201cThe Slab\u201d, \u201cSkin the Game\u201d e \u201cAlife\u201d &#8211; mostraram um direcionamento musical mais para o lado dreampop do que para o shoegaze ou a ambient-music, vertentes presentes no arcabou\u00e7o musical do grupo e espalhadas em seus quatro \u00e1lbuns com \u00eanfases diversas em cada um deles. Esse direcionamento exposto nas novas faixas parecia contradizer ou pelo menos ir de encontro \u00e0s declara\u00e7\u00f5es de Neil Hastead &#8211; guitarrista, vocalista e principal compositor do grupo &#8211; a respeito das composi\u00e7\u00f5es terem surgido a partir de suas experi\u00eancias com sequenciadores durante a pandemia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 quando somos, enfim, apresentados \u00e0 &#8220;Everything is Alive&#8221; em sua totalidade que \u00e9 poss\u00edvel entender tudo que o vocalista vinha afirmando desde o in\u00edcio do ano (e a banda insinuando j\u00e1 de algum tempo) e encontrar o DNA do novo trabalho. Elas s\u00e3o expostas de forma bastante evidente no protagonismo inicial dos sintetizadores que abrem a introdut\u00f3ria faixa (e tamb\u00e9m o \u00e1lbum) \u201cShanty\u201d. Quando os elementos eletr\u00f4nicos v\u00e3o aos poucos sendo encobertos pelas camadas de guitarras, mixadas em primeiro plano e envoltas em distor\u00e7\u00e3o e reverbera\u00e7\u00f5es, e se misturando aos vocais de Neil e de Rachel Goswell, \u00e9 que se percebe que este \u00e9 realmente um \u00e1lbum do Slowdive &#8211; ainda que seja aqui o momento singular do disco em se tratando do uso de distor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formado por composi\u00e7\u00f5es criadas por Neil durante a pandemia, a partir do que deveria ser um \u00e1lbum solo, esse quinto trabalho do grupo surge marcado pela morte: Rachel perdeu a m\u00e3e e o baterista Simon Scott, o pai. N\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o perceber a atmosfera de melancolia transmitida por boa parte das can\u00e7\u00f5es. Sentimento que se intensifica, por exemplo, na instrumental \u201cPrayer Remembered\u201d, onde camadas de sintetizadores g\u00e9lidos se unem a riffs et\u00e9reos de guitarras e um baixo profundo para compor uma can\u00e7\u00e3o de clima invernal que remete de forma direta ao The Cure de &#8220;Disintegration&#8221; (1989), inclusive na forma como a bateria se insinua no arranjo. Apesar do clima que constr\u00f3i, a faixa foi escrita num momento luminoso, dias ap\u00f3s o nascimento do filho de Neil, Albert.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse mesmo sopro pode ser tamb\u00e9m encontrado nas ambienta\u00e7\u00f5es espaciais da reflexiva \u201cAndalucia Plays\u201d, faixa composta em 2012 e que se conecta ao Slowdive mais viajado e minimalista, caracter\u00edsticas presentes na fase &#8220;Pygmalion&#8221; (1995). H\u00e1 aqui uma proximidade do Slowdive com os trabalhos de Brian Eno (uma das influ\u00eancias da banda), em conex\u00e3o com faixas como \u201cBy This River\u201d, s\u00f3 que com o toque do Slowdive: guitarras reverberantes e baixo denso. Aqui tamb\u00e9m que fica mais evidente o quanto o \u00e1lbum poderia ser tomado como um \u00e1lbum solo de Neil, n\u00e3o fosse a abertura que ele deu para que seus companheiros pudessem dar novos direcionamentos a suas ideias iniciais ou aplicar o \u201cconceito\u201d Slowdive\u201d ao trabalho. Se o instrumental \u00e9 quase minimalista, a faixa \u00e9 a que tem a mais versos em um \u00e1lbum de can\u00e7\u00f5es de versos curtos. A letra \u00e9 bastante pessoal, fala de um relacionamento, e Rachel se recusou a cantar: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 meu anjo \/ Vestindo sua camisa favorita \/ Tecido franc\u00eas e bolinhas \/ &#8216;Andaluzia&#8217; \/ Toca no aparelho de som \/ Eu sonho como uma borboleta \/ Perfeito e tempor\u00e1rio&#8221;, e traz refer\u00eancia a can\u00e7\u00e3o presente em &#8220;Paris 1919&#8221;, <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2011\/05\/29\/primavera-sound-2011-dia-3\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cl\u00e1ssico disco de John Cale<\/a>, lan\u00e7ado em 1979.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Slowdive - alife (Official Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/MhQht-YK8rw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Alife&#8221; surgiu a partir de uma estrutura que se conectava ao krautrock &#8211; \u00e9 a \u00fanica composi\u00e7\u00e3o na qual h\u00e1 um componente externo \u00e0 banda participando, a esposa de Neil, Ingrid. A banda pretendia uma mistura de Smiths com Fleetwood Mac, e acabou se tornando um desafio para Shaun Everett, que assina a mixagem de seis das oitos faixas do disco &#8211; a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 do pr\u00f3prio Hastead. Simples e direta, a faixa abre com o que \u00e9 o refr\u00e3o &#8211; a repeti\u00e7\u00e3o da frase: &#8220;Duas vidas s\u00e3o vidas dif\u00edceis com voc\u00ea&#8221; -, e \u00e9 uma das can\u00e7\u00f5es mais acess\u00edveis e diretas do \u00e1lbum, um dreampop com camadas de teclados recobrindo-a junto de sequenciadores, enquanto os versos s\u00e3o repletos de saudade: &#8220;Onde o rio atravessa \/ A cidade, h\u00e1 uma lembran\u00e7a de voc\u00ea \/ N\u00e3o olhe, n\u00e3o olhe para mim agora \/ O tempo me pegou de alguma forma&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro dos singles, \u201cKisses\u201d \u00e9 tamb\u00e9m um dreampop delicado e grudento, repleto de sutilezas, e de formata\u00e7\u00e3o das mais pop j\u00e1 criadas pelo grupo, &#8220;culpa&#8221; do uso da repeti\u00e7\u00e3o (&#8220;Kisses \/ Born desert sun&#8221;). Pode ser comparada a &#8220;Alison&#8221; &#8211; faixa se &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/05\/08\/esse-voce-precisa-ouvir-os-30-anos-de-souvlaki-um-classico-do-slowdive-que-foi-reconhecido-com-o-passar-dos-anos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Souvlaki<\/a>&#8220;, de 1993 &#8211; em sua for\u00e7a enquanto can\u00e7\u00e3o pop.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Slowdive - kisses (Official Video)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/G9RpHfPyEx8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A participa\u00e7\u00e3o de Rachel nos vocais \u00e9 bastante discreta. Seu trabalho resume-se, em geral, a fazer backing vocals ou adicionar camadas de vozes et\u00e9reas para criar climas on\u00edricos, algo que ela costuma(va) fazer como convidada em trabalhos de outros artistas. E \u00e9 ao analisar sua participa\u00e7\u00e3o nas vozes do \u00e1lbum que a predomin\u00e2ncia de Neil novamente pode direcionar para a ideia de um \u00e1lbum dele com a participa\u00e7\u00e3o dos outros membros do Slowdive. H\u00e1 algum mal nisso? Nenhum. Neil sempre foi e segue sendo o principal compositor do grupo, embora a qu\u00edmica Slowdive funcione efetivamente quando os cinco est\u00e3o reunidos. Importante lembrar que alguns membros est\u00e3o dividindo o Slowdive com outros projetos musicais: Beachy Head, The Soft Cavalry, Minor Victories. Partilhar essas can\u00e7\u00f5es com a banda foi a forma que eles encontraram para manter-se unidos, para reaproximar o grupo num per\u00edodo de v\u00e1rias dificuldades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Everything is Alive&#8221; \u00e9 um \u00e1lbum em que sutileza e for\u00e7a mel\u00f3dica se unem para criar can\u00e7\u00f5es de estrutura relativamente simples, arranjos de base repetitiva e que, por isso, fixam na mente do ouvinte como nenhum outro j\u00e1 composto pelo Slowdive. A melodia eletr\u00f4nica repetitiva que atravessa todo o arranjo da longa e viajada \u201cChained to Cloud\u201d, \u00fanica das faixas em que Rachel \u00e9 a protagonista nos vocais (e uma das duas que n\u00e3o teve a m\u00e3o de Everett no mix, a outra \u00e9 &#8220;Shanty&#8221;), fortalece esse sentimento. A faixa \u00e9 o exemplo mais claro para se entender a forma como muitas das can\u00e7\u00f5es surgiram, j\u00e1 que, conforme o pr\u00f3prio Neil afirmou, ele n\u00e3o tinha vontade alguma de pegar na guitarra na \u00e9poca, preferindo os sintetizadores. Nesse sentido, o trabalho de Everett, ao conseguir equalizar os dois lados presentes na maior parte das composi\u00e7\u00f5es com essas duas faixas de Neil, \u00e9 nada menos que fant\u00e1stico &#8211; e plenamente reconhecido pela banda<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sensa\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 de que o Slowdive promove a jun\u00e7\u00e3o do lado ambient de &#8220;Pygmalion&#8221;, sem cair na armadilha de subestimar a import\u00e2ncia de cada um de seus integrantes, com as texturas mais mel\u00f3dicas de &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/06\/09\/slowdive-o-shoegaze-chega-a-maturidade\/\">Slowdive<\/a>&#8221; (2017), praticamente abandonando as guitarras distorcidas em prol de timbres limpos, cristalinos. \u00c9 uma escolha tamb\u00e9m em &#8220;The Slab&#8221;, encerramento do disco, onde as batidas surgem mais pesadas, mas mantem-se dentro da proposta mais clim\u00e1tica que perpassa todo o disco. A faixa \u00e9 uma mistura de camadas de sintetizadores densos e guitarras et\u00e9reas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de uma obra curta no n\u00famero de can\u00e7\u00f5es, principalmente quando se sabe que a quantidade de demos na qual Neil trabalhou foram cerca de 70, os pouco mais de 40 minutos no qual o \u00e1lbum est\u00e1 assentado n\u00e3o permitem a sensa\u00e7\u00e3o de um \u00e1lbum r\u00e1pido. Pelo contr\u00e1rio, &#8220;Everything is Alive&#8221; \u00e9 uma obra densa, bela e com a sensa\u00e7\u00e3o agridoce de beleza melanc\u00f3lica, enriquecida pelo uso de eletr\u00f4nica e camadas, e emoldurada pelas texturas e timbres de guitarras embebidos em delay, pelas vozes embrulhadas em efeitos de eco. Um \u00e1lbum em que o Slowdive se permite olhar para o passado e para o futuro entendendo que ambos s\u00e3o o presente e que &#8220;tudo est\u00e1 vivo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/09\/02\/faixa-a-faixa-everything-is-alive-do-slowdive-flagra-uma-banda-tentando-expandir-sua-paleta-sonica-sem-perder-a-identidade\/\"><em>Leia tamb\u00e9m: Fernando Yokota comenta &#8220;everything is alive&#8221; faixa a faixa<\/em><\/a><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Everything is Alive\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_kdjLziB4VitnxJ4ks-Ij-OxdbpJAF_oWU\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013<em>\u00a0Luciano Ferreira \u00e9 editor e redator na empresa\u00a0<a href=\"https:\/\/www.urgesite.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Urge :: A Arte nos conforta<\/a>\u00a0e colabora com o Scream &amp; Yell.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Everything is Alive&#8221; \u00e9 um \u00e1lbum em que o Slowdive se permite olhar para o passado e para o futuro entendendo que ambos s\u00e3o o presente e que &#8220;tudo est\u00e1 vivo&#8221;.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/04\/musica-everything-is-alive-do-slowdive-e-uma-obra-densa-bela-e-com-a-sensacao-agridoce-de-beleza-melancolica\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":91,"featured_media":77110,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2026],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77107"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/91"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77107"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77107\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":77111,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77107\/revisions\/77111"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77110"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}