{"id":76919,"date":"2023-09-24T23:10:39","date_gmt":"2023-09-25T02:10:39","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=76919"},"modified":"2023-10-15T23:49:00","modified_gmt":"2023-10-16T02:49:00","slug":"ao-vivo-mesmo-com-suas-falhas-encontro-de-bike-e-tagore-prova-que-existem-muitos-caminhos-para-a-psicodelia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/09\/24\/ao-vivo-mesmo-com-suas-falhas-encontro-de-bike-e-tagore-prova-que-existem-muitos-caminhos-para-a-psicodelia-brasileira\/","title":{"rendered":"Ao vivo: Mesmo com suas falhas, encontro de Bike e Tagore prova que existem muitos caminhos para a psicodelia brasileira"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lvinhas78\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><br \/>\nfotos por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/_cesargallego\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cesar Gallego<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bike e Tagore se apresentaram no Centro da Terra, um espa\u00e7o cultural na zona oeste de S\u00e3o Paulo, no dia 19 de setembro. O show foi concebido como um passeio pela psicodelia brasileira de v\u00e1rios per\u00edodos, com o apropriado t\u00edtulo de \u201cMPB ou LSD?\u201d. Embora ambos os artistas tenham um longo repert\u00f3rio pr\u00f3prio e sejam dignos representantes da boa chapaceira musical atual, o show-tributo n\u00e3o \u00e9 deslocado: o cen\u00e1rio indie vem ganhando cada vez mais nomes que se apresentam como \u201cpsicod\u00e9licos\u201d, mas a maioria se divide entre emular arranjos e estruturas do Tame Impala ou sugar at\u00e9 a \u00faltima gota do caldo lis\u00e9rgico dos anos 70.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro caso, praticamente ningu\u00e9m ultrapassa a fronteira do pastiche, e no segundo, o mais comum \u00e9 vermos bandas que fazem can\u00e7\u00f5es longas e mal resolvidas mascaradas sob o r\u00f3tulo da psicodelia. N\u00e3o \u00e9 o caso da Bike. Influenciados na mesma medida <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/05\/03\/download-um-grito-que-se-espalha-tributo-a-walter-franco-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">por Walter Franco<\/a> e pelo kraut rock, a Bike sabe que emular gringos ou vampirizar o passado pode at\u00e9 trazer algum prazer pessoal, mas buscam (e entregam) mais que isso para que sua m\u00fasica tenha corpo e identidade. Esse \u00e9 um caminho que eles v\u00eam construindo desde 2015, e que se encontra muit\u00edssimo bem resolvido em seu \u00faltimo \u00e1lbum, \u201cArte Bruta\u201d, um dos melhores lan\u00e7amentos nacionais de 2023 (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/07\/03\/faixa-a-faixa-arte-bruta-bike\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">conhe\u00e7a ele aqui faixa a faixa<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o pernambucano Tagore, contempor\u00e2neo do quarteto paulista, come\u00e7ou fortemente influenciado pelo udigrudi pernambucano. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/11\/14\/entrevista-tagore\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fez um primeiro \u00e1lbum excelente<\/a>, \u201cMovido a Vapor\u201d (2014), que veio acompanhado <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2014\/12\/23\/prata-da-casa-27-tagore\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">de excelentes shows<\/a>, mas se perdeu na est\u00e9tica kevinparkeana em \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/03\/21\/entrevista-tagore-2018\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pineal<\/a>\u201d (2018). Conseguiu, por\u00e9m, unir os dois mundos com sucesso no \u00f3timo \u201cMaya\u201d (2021). Parecia um nome adequado para estar ao lado do Bike nessa empreitada. Mas a pr\u00e1tica nem sempre reflete a l\u00f3gica do papel.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-76921\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/tagore2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/tagore2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/tagore2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show come\u00e7a com a grava\u00e7\u00e3o de \u201cLouvado Seja Deus\u201d, sandice sem gra\u00e7a de Arnaldo Baptista, que abre caminhos para uma jam com temas de Tagore. De cara, soa um problema que permeia todo o show: a voz do pernambucano vem muito baixa, soterrada sob os instrumentos, de modo a tornar as letras incompreens\u00edveis. A n\u00e3o ser quando o vocalista subisse muito o volume de seu vocal, seus vocais soariam incompreens\u00edveis \u2013 ou simplesmente n\u00e3o soariam. Uma pena, porque \u00e9 uma voz com personalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show s\u00f3 come\u00e7aria seu voo lis\u00e9rgico pra valer no segundo tema, \u201cUm S\u00f3\u201d, p\u00e9rola de Pedro Sorongo Santos, brilhante m\u00fasico e compositor que havia ca\u00eddo no esquecimento at\u00e9 que gera\u00e7\u00f5es mais recentes revalorizaram seu \u00fanico \u00e1lbum, \u201cKrishnanda\u201d (1968). Na vers\u00e3o original, a can\u00e7\u00e3o \u00e9 conduzida apenas por voz, percuss\u00e3o e metais. Trazer essa m\u00fasica para uma releitura onde a guitarra \u00e9 protagonista foi um belo trabalho da Bike que, mesmo que privilegiando as seis cordas, conseguiu preservar a for\u00e7a percussiva da composi\u00e7\u00e3o, com um bel\u00edssimo trabalho do baterista Daniel \u201cFumega\u201d Dandas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 que enquanto a banda desfilava essa \u00f3tima vers\u00e3o, Tagore estava \u2026 desenhando. O m\u00fasico sentou no ch\u00e3o e ficou fazendo ilustra\u00e7\u00f5es, um ato que se repetiria em v\u00e1rias outras m\u00fasicas do set. Mais perto do fim do show, ele diria que essas obras, \u201cautografadas e numeradas\u201d, eram um presente para o p\u00fablico. Nas vezes em que deixaria o ch\u00e3o para reassumir microfone, partiria para uma performance quase sempre exagerada, estapeando v\u00e1rias vezes o pr\u00f3prio rosto, tremendo, saltando e fazendo aquele quatro com as pernas que o Ian Anderson adorava fazer enquanto tocava flauta no Jethro Tull.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-76923\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/tagore4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/tagore4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/tagore4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repito: Tagore \u00e9 um bom vocalista e um compositor extremamente talentoso, mas seus exageros destoaram bastante da m\u00fasica compenetrada e da postura de palco tranquila da Bike. Quando vieram can\u00e7\u00f5es mais agitadas, como a sequ\u00eancia com \u201cLindo Sonho Delirante\u201d (F\u00e1bio) e \u201cLugar do Caralho\u201d (J\u00fap\u00edter Ma\u00e7\u00e3), essa discrep\u00e2ncia se tornava aguda. Em alguns momentos, parecia a banda certa com o frontman errado. Em outros, um artista solo desconectado de uma excelente banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse descompasso permearia boa parte da apresenta\u00e7\u00e3o, mas, em momentos em que o tom suavizava um pouco, como na excelente recupera\u00e7\u00e3o de \u201cPare\u00e7o Moderno\u201d (C\u00e9rebro Eletr\u00f4nico), dava pra ver qu\u00e3o mais interessante a combina\u00e7\u00e3o entre paulistas e pernambucano poderia ser (e teria sido melhor ainda se a voz de Tagore se fizesse ouvir). Ainda assim, n\u00e3o chegava a ser um problema que impedisse o p\u00fablico de curtir o show. Afinal, havia p\u00e9rolas desencavadas (\u201cN\u00e3o Fale com Paredes\u201d, superior \u00e0 original do M\u00f3dulo 1000) e \u00f3timas vers\u00f5es de temas inescap\u00e1veis (\u201cNas paredes da Pedra Encantada os Segredos Talhados por Sum\u00e9\u201d, de Lula Cortes e Z\u00e9 Ramalho). Nelas, a Bike alternava a constru\u00e7\u00e3o de muralhas de som de efeito m\u00e2ntrico com arranjos mais diretos, quase uma psicodelia \u201ckraut punk\u201d, se tal coisa \u00e9 poss\u00edvel. E o final do show, com a m\u00e3ntrica \u201cSanta Cabe\u00e7a\u201d, composi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do Bike, foi praticamente uma sacramenta\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o desses dois mundos, apropriadamente emendando com \u201cCabe\u00e7a\u201d, preciosidade de Walter Franco.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-76922\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/tagore3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/tagore3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/tagore3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como toda experi\u00eancia psicod\u00e9lica, ela n\u00e3o teve seus efeitos vigentes apenas no \u201cdurante\u201d. Nos dias seguintes, o show acompanharia o resenhista. \u00c9 imposs\u00edvel assistir a uma apresenta\u00e7\u00e3o dessas e n\u00e3o pensar no qu\u00e3o rico e variado \u00e9 o repert\u00f3rio da psicodelia brasileira \u2013 e que \u00e9 ainda melhor quando ele \u00e9 usado como ponto de partida para novas cria\u00e7\u00f5es, em vez de servir de molde para requentar as mesmas ideias. Tamb\u00e9m \u00e9 inevit\u00e1vel pensar na omiss\u00e3o dos anos 1980: se a d\u00e9cada n\u00e3o foi t\u00e3o frut\u00edfera em termos de sons chapadas, pelo menos ela teve o Violeta de Outono, uma das bandas mais decididamente cancioneiras (no sentido pop do termo) do universo lis\u00e9rgico brasileiro \u2013 e que abrasileirou a linguagem brit\u00e2nica do estilo, em vez de beber tanto na fonte norte-americana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, a impress\u00e3o maior \u00e9 que o encontro foi subaproveitado. Tagore \u00e9 um artista interessante e capaz, e sua voz tem registros mais amplos e cheios de possibilidade que o dos dois vocalistas do Bike, os tamb\u00e9m guitarristas Julio Cavalcante e Diego Xavier. Com um som melhor, esse aspecto poderia ter sido ressaltado, talvez at\u00e9 amenizando a estranheza causada pelos excessos perform\u00e1ticos. Por outro lado, as reinven\u00e7\u00f5es t\u00e3o respeitosas quanto personalistas enfatizaram \u2013 como se ainda fosse necess\u00e1rio \u2013 o quanto a Bike \u00e9 uma das bandas mais singulares e inventivas do rock brasileiro atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tudo bem: esse foi um primeiro show conjunto. Ele pode ter sido um primeiro passo para novas colabora\u00e7\u00f5es entre os artistas, e certamente h\u00e1 espa\u00e7o para isso tudo crescer e se tornar uma uni\u00e3o mais amalgamada e menos o choque de dois mundos. E mesmo com suas falhas, foi um show que provou que existem muitos caminhos interessantes para a psicodelia brasileira: passado rico j\u00e1 existe, e d\u00e1 para usar as li\u00e7\u00f5es dele para criar coisas novas e cheias de personalidade. Foi, definitivamente, uma viagem: n\u00e3o a melhor poss\u00edvel, mas uma que valeu ter vivido.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-76924\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/tagore5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/tagore5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/tagore5-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Pode ter sido um primeiro passo para novas colabora\u00e7\u00f5es entre os artistas, e certamente h\u00e1 espa\u00e7o para isso tudo crescer e se tornar uma uni\u00e3o mais amalgamada e menos o choque de dois mundos\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/09\/24\/ao-vivo-mesmo-com-suas-falhas-encontro-de-bike-e-tagore-prova-que-existem-muitos-caminhos-para-a-psicodelia-brasileira\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":76920,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1771,839],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76919"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76919"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76919\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":76925,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76919\/revisions\/76925"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/76920"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76919"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76919"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76919"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}