{"id":76580,"date":"2023-09-04T01:40:20","date_gmt":"2023-09-04T04:40:20","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=76580"},"modified":"2023-12-13T02:01:08","modified_gmt":"2023-12-13T05:01:08","slug":"entrevista-nao-somos-grandes-atores-das-redes-sociais-somos-uma-banda-pra-quem-gosta-de-musica-diz-felipe-kautz-da-dingo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/09\/04\/entrevista-nao-somos-grandes-atores-das-redes-sociais-somos-uma-banda-pra-quem-gosta-de-musica-diz-felipe-kautz-da-dingo\/","title":{"rendered":"Entrevista: \u201cN\u00e3o somos grandes atores das redes sociais, somos uma banda pra quem gosta de m\u00fasica&#8221;, diz Felipe Kautz, da Dingo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">entrevista por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2015, vieram as maravilhas. Quatro anos depois, a possibilidade de uma transforma\u00e7\u00e3o. E ap\u00f3s um per\u00edodo tumultuado, essas mudan\u00e7as se apresentaram em uma explos\u00e3o t\u00e3o significativa que at\u00e9 um novo batismo se tornou necess\u00e1rio. Talvez essa seja uma boa forma de apresentar a trajet\u00f3ria at\u00e9 aqui da Dingo, que muita gente conheceu h\u00e1 algumas temporadas como Dingo Bells. \u201c\u00c9 um nome que tem uma coisa caricata, associa\u00e7\u00e3o com natal, com jingle. Foi nosso nome at\u00e9 aqui, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de outras coisas. Passamos por uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as de vida e no grupo, e achamos mais massa mudar. Dingo \u00e9 n\u00f3is\u201d, explica o baixista Felipe Kautz, um dos respons\u00e1veis <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/12\/19\/apca-escolhe-os-50-melhores-discos-de-2022\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">por um dos grandes discos de 2022<\/a>, \u201c<a href=\"https:\/\/rockambole.com.br\/produto\/vinil-a-vida-e-uma-granada-dingo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Vida \u00c9 Uma Granada<\/a>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ado no come\u00e7o de novembro do ano passado, pouco ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es, o trabalho \u00e9 um retrato da vida de Felipe e seus companheiros Rodrigo Fischmann (bateria e voz), Diogo Brochmann (guitarra e voz) e Fabr\u00edcio Gambogi (guitarra, voz e arranjos) de 2018 para c\u00e1. Uma \u00e9poca conturbada, que teve mudan\u00e7as de cidade (Kautz e Fabr\u00edcio sa\u00edram de Porto Alegre para S\u00e3o Paulo), paternidade (Rodrigo e Diogo se tornaram pais), uma pandemia e o governo Bolsonaro. Ah, e a banda tamb\u00e9m quase chegou ao fim: \u201cO disco \u00e9 aquela cena cl\u00e1ssica de filme, em que estoura uma granada do lado do soldado e ele fica um tempo desorientado. Estivemos a um fio de encerrar o projeto. Teve muito quebra-pau, lava\u00e7\u00e3o de roupa suja e readequa\u00e7\u00e3o de rotas\u201d, lembra Kautz, que vivia s\u00f3 de m\u00fasica at\u00e9 a pandemia e hoje divide seu tempo entre a Dingo e projetos no mercado audiovisual. \u201cGravar o disco, em meio a isso tudo, foi um respiro, que nos lembrou o que nos unia enquanto banda.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gravado no final de 2020, mas s\u00f3 lan\u00e7ado quase dois anos depois, \u201c<a href=\"https:\/\/rockambole.com.br\/produto\/vinil-a-vida-e-uma-granada-dingo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Vida \u00e9 Uma Granada<\/a>\u201d \u00e9 tamb\u00e9m um disco mais aberto e expansivo que o trabalho anterior da banda, \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/06\/28\/entrevista-dingo-bells-2018\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Todo Mundo Vai Mudar<\/a>\u201d, mas n\u00e3o menos reflexivo. \u201c\u00c9 mais f\u00e1cil, de certa forma, fazer um terceiro disco do que fazer um segundo disco, quando a banda estava muito tensa\u201d, diz Kautz. \u201cO novo disco diz bastante respeito \u00e0 nossa fase da vida, j\u00e1 deu tempo de construir coisas, de destruir coisas, de ver imp\u00e9rios surgirem e se desmancharem, de recome\u00e7ar coisas, tentar novos caminhos. \u00c9 um disco de quem j\u00e1 tomou a primeira escaldada da vida\u201d, afirma o baixista, nessa entrevista realizada em janeiro de 2023, mas que s\u00f3 agora v\u00ea a luz do dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concedida na casa do jornalista, o papo foi movido a caf\u00e9, cigarro e \u00e1gua gelada, em meio a um dia quente de ver\u00e3o \u2013 clima prop\u00edcio para que Felipe abrisse o cora\u00e7\u00e3o e falasse n\u00e3o s\u00f3 dos bastidores do disco, mas tamb\u00e9m fizesse cr\u00edticas fortes ao momento do mercado da m\u00fasica, um setor que ainda n\u00e3o possui um sistema de trabalho coordenado. \u201cN\u00e3o existe uma cadeia de produ\u00e7\u00e3o organizada, no qual a galera tenha condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de trabalho e pagamento. Bem ou mal, tem sempre algu\u00e9m na cadeia fazendo alguma coisa s\u00f3 no amor. H\u00e1 uns anos, n\u00e3o me sentiria \u00e0 vontade para falar disso, mas ficando mais velho, acho que tem determinadas coisas que precisam ser ditas\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conversa, Kautz tamb\u00e9m conta hist\u00f3rias da vida adulta e de juventude \u2013 como a de que ele, Fabr\u00edcio e Diogo estudaram m\u00fasica com o graforr\u00e9ico Carlo Pianta, respons\u00e1vel por introduzir bandas como King Crimson, Chic, Steely Dan e Talking Heads na cabe\u00e7a dos jovens ga\u00fachos. Al\u00e9m disso, ele tamb\u00e9m faz um balan\u00e7o da cena nas duas cidades em que morou nos \u00faltimos anos. \u201cEm Porto Alegre, fizemos uma parte de uma cena que n\u00e3o sei muito para onde foi. Hoje, a cidade est\u00e1 num momento de carnaval de rua, samba, maracatu, que \u00e9 bonito de ver\u201d, diz. \u201cJ\u00e1 em S\u00e3o Paulo, sinto que a Dingo \u00e9 uma banda de fideliza\u00e7\u00e3o de p\u00fablico. Demoramos para chegar para as pessoas, mas depois que abrimos a porta, a gente senta e toma um caf\u00e9.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois aproveite o clima, caro leitor, e tamb\u00e9m fique \u00e0 vontade por a\u00ed: esta \u00e9 uma entrevista longa, \u00edntima, cheia de detalhes sobre a hist\u00f3ria de uma banda que se arrisca a fazer can\u00e7\u00f5es pop e discos \u201cpara ficar\u201d em um tempo de consumo veloz de informa\u00e7\u00f5es. \u201cN\u00e3o somos grandes atores das redes sociais, somos uma banda pra quem gosta de m\u00fasica, que ouve disco. \u00c9 nerd, a gente \u00e9 nerd\u201d, brinca o baixista, que tem certa ojeriza \u00e0 din\u00e2mica acelerada de cria\u00e7\u00e3o de conte\u00fado nas redes sociais. \u201cEu n\u00e3o quero ver a panqueca de aveia do Thom Yorke. Prefiro que ele fique na casa dele fazendo as m\u00fasicas e lan\u00e7ando discos a cada tantos anos.\u201d Pegue seu caf\u00e9, sinta-se em casa e venha passear nessa conversa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A Vida \u00e9 Uma Granada\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_k3WuIIP5UQEfCvL0rtl4y4zGmXUAlYayg\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Felipe, vamos come\u00e7ar do come\u00e7o. \u201cA Vida \u00e9 Uma Granada\u201d \u00e9 o primeiro disco da Dingo em quatro anos. O que \u00e9 esse disco? Como foi o caminho entre o lan\u00e7amento do \u201cTodo Mundo Vai Mudar\u201d e esse novo trabalho, considerando que tem uma pandemia e um governo Bolsonaro no meio?<\/strong><br \/>\n\u201cA Vida \u00e9 Uma Granada\u201d \u00e9 um disco cuja simbologia foi mudando muito ao longo do tempo. Embora eu ache que \u00e9 um disco com come\u00e7o, meio e fim, ele era uma coisa antes de ser feito, outra durante o processo e uma terceira depois que estava pronto, mas ainda n\u00e3o tinha sido lan\u00e7ado. N\u00f3s gravamos o disco no final de 2020, mas esperando voltar a ter shows, em fun\u00e7\u00e3o da pandemia. \u00c9 sempre bom lembrar: a pandemia foi agravada pelo governo Bolsonaro. A gente n\u00e3o s\u00f3 viveu o governo Bolsonaro e a pandemia ao mesmo tempo. N\u00f3s vivemos coisas que, infelizmente, se somaram para o lado negativo. Ent\u00e3o, \u201cA Vida \u00e9 uma Granada\u201d era um disco que a gente precisava fazer. Acho que a banda ainda tem lenha para queimar e passamos por muita transforma\u00e7\u00e3o desde o \u201cTodo Mundo Vai Mudar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Todo mundo\u2026 mudou?<\/strong><br \/>\nTodo mundo mudou. Foi algo meio premonit\u00f3rio. Espero que o \u201cA Vida \u00e9 Uma Granada\u201d n\u00e3o seja t\u00e3o literal. (risos). Mas, enfim: de 2018 para c\u00e1, eu e o Fabr\u00edcio mudamos para S\u00e3o Paulo, enquanto os meninos [Rodrigo e Diogo] come\u00e7aram a constituir fam\u00edlia, os dois viraram pais no meio do caminho. A banda precisou virar outra coisa porque o mercado do nosso nicho no Brasil virou outra coisa. O disco simboliza o que aconteceu com a gente. Aquela cena cl\u00e1ssica de filme que estoura uma granada do lado do soldado e ele fica um tempo desorientado, com uma sirene tocando na cabe\u00e7a, enquanto tenta correr para algum lugar que acha mais seguro, e da\u00ed voc\u00ea come\u00e7a a ouvir um \u201cpiiii\u201d. Sinto que o que a gente viveu foi um pouco isso tamb\u00e9m. Foi muito forte o que aconteceu com a banda nos \u00faltimos quatro anos. Estivemos a um fio de encerrar o projeto e ver o que ia acontecer, para talvez retomar um dia. Os discos j\u00e1 estavam a\u00ed, n\u00f3s fizemos discos que s\u00e3o para durar no tempo. \u00c9 algo que a gente pensa para caralho na hora de fazer: os discos tem que durar para al\u00e9m da gente. Nesse meio tempo, teve muito quebra-pau, muita lava\u00e7\u00e3o de roupa suja, readequa\u00e7\u00e3o de rota e de expectativas, amadurecimentos diversos. Tivemos fases dif\u00edceis para todos em diferentes momentos. Aos poucos, as coisas come\u00e7aram a voltar. E o disco foi uma ilha de produtividade, foi um respiro, algo que nos lembrou o que nos unia enquanto banda. As coisas foram voltando, conseguimos ajeitar a m\u00e1quina, organizamos com o selo e estamos seguindo. Mas est\u00e1 bem diferente do que j\u00e1 foi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Engra\u00e7ado isso que voc\u00ea falou da banda quase acabar. H\u00e1 alguns meses, eu ouvi algo parecido do Teago Oliveira, da Maglore, numa entrevista que eu fiz com a banda para o <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/07C7VvxsD2fIBEy3S1ddfC?si=nL1QRxBtTBq-YVyQtZcvtg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie, na R\u00e1dio Eldorado<\/a> . O que teria feito a Dingo acabar? \u00c9 briga? Caminhos diferentes de vida? Falta de grana, porque a gente est\u00e1 falando que a banda est\u00e1 num nicho? O que estava pegando?<\/strong><br \/>\nAh, Bruno\u2026 voc\u00ea j\u00e1 deve ter falado com muitos artistas sobre isso. \u00c9 tudo isso que voc\u00ea falou. \u00c9 treta, s\u00e3o caminhos diferentes, \u00e9 muito tempo junto\u2026 n\u00e3o d\u00e1 para esquecer que a gente toca junto desde os 14 anos \u2013 e hoje a gente tem 34. Tivemos mais tempo na vida com a banda do que sem a banda, bem mais. S\u00e3o caminhos diferentes, \u00e9 a pandemia, \u00e9 a falta de grana no mercado, as diferentes possibilidades de vida e os riscos que cada um pode assumir, porque \u00e9 isso. Tem um lado em banda que \u00e9 muito incr\u00edvel, sensacional, que \u00e9 o que a galera chama de glamour: fazer shows lotados, com a galera cantando as suas m\u00fasicas e tudo mais, hotel, dar entrevistas. Essa \u00e9 a parte maravilhosa. Mas tem um lado do nosso nicho que \u00e9 muito perrengue e isso nunca \u00e9 abordado frontalmente, porque \u00e9 visto como derrotismo, \u00e9 visto como inveja\u2026 N\u00e3o sei, talvez tenha que vir algu\u00e9m com mais bala na agulha ou \u201ca grande uni\u00e3o dos Power Rangers da m\u00fasica\u201d para dizer que \u00e9 uma quest\u00e3o grave, que muitos projetos e artistas ficam no caminho por causa do perrengue. S\u00e3o v\u00e1rias quest\u00f5es: as plataformas de streaming metem uma faca na galera e pagam muito mal. N\u00e3o existe uma cadeia de produ\u00e7\u00e3o organizada, como acontece no audiovisual, na qual a galera tenha condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de trabalho e pagamento. A m\u00fasica tem muito caminho pela frente. Sempre tive medo de abordar essas quest\u00f5es, mas a gente passou por tanta coisa no mundo e no Brasil que eu acho que tem determinadas coisas que tem que ser ditas. P\u00f4, a gente est\u00e1 retomando o Minist\u00e9rio da Cultura agora. H\u00e1 uns anos, eu n\u00e3o me sentiria \u00e0 vontade para falar sobre isso, mas a gente j\u00e1 tem um tempo rodando nesse meio, vai ficando mais velho e vai vendo os absurdos que a gente v\u00ea. Agora que o governo mudou, as coisas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura est\u00e3o sendo bem esperan\u00e7osas, a coisa tende a ficar mais interessante. Mas isso ainda \u00e9 muito longe de sustentar o rol\u00ea como ele deveria ser feito, da maneira profissional que deveria ser feito. Bem ou mal, sempre tem algu\u00e9m na cadeia que est\u00e1 fazendo alguma coisa por amor. Na real, est\u00e1 todo mundo trabalhando com amor tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa discuss\u00e3o \u00e9 boa e a gente vai retom\u00e1-la ao longo da entrevista, mas vamos voltar a falar da banda. No lan\u00e7amento do \u00faltimo disco, a banda ainda morava toda em Porto Alegre. Quando \u00e9 que voc\u00ea e o Fabr\u00edcio v\u00eam para S\u00e3o Paulo?<\/strong><br \/>\nA gente vem para S\u00e3o Paulo\u2026 eu vim em setembro de 2018, o Fabr\u00edcio veio ali por julho, dois ou tr\u00eas meses antes. Isso foi logo depois da gente lan\u00e7ar o \u201cTodo Mundo Vai Mudar\u201d, que \u00e9 de abril.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que voc\u00eas v\u00eam para S\u00e3o Paulo? N\u00e3o sei se voc\u00ea pode falar pelo Fabr\u00edcio, mas por voc\u00ea acho que d\u00e1\u2026<\/strong><br \/>\nVou falar por mim. Eu j\u00e1 tinha vivido coisas suficientes em S\u00e3o Paulo e em Porto Alegre para n\u00e3o me sentir impelido a fazer esse movimento. A vida me mostrou coisas que estavam me interessando e me deixando mais curioso em S\u00e3o Paulo de uma forma ambiciosa \u2013 e sem carga negativa, porque ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 um neg\u00f3cio importante. Em 2018, j\u00e1 fazia uns dois anos que a Dingo estava tocando mais aqui e em lugares mais perto de S\u00e3o Paulo do que no Sul. Porto Alegre \u00e9 uma cidade que a gente sempre fez pouco show.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas tinham at\u00e9 uma estrat\u00e9gia de tocar pouco em Porto Alegre para \u201cgerar demanda\u201d, pelo que eu me lembro&#8230;<\/strong><br \/>\nIsso acontece at\u00e9 hoje, na verdade. Acho que a gente acaba n\u00e3o tocando tanto em S\u00e3o Paulo por um novo momento da banda e da cena, porque n\u00e3o est\u00e3o os quatro aqui, mas em S\u00e3o Paulo existe uma possibilidade muito maior de fazer shows em diferentes regi\u00f5es, para diferentes p\u00fablicos. \u00c9 uma cidade grande, as coisas s\u00e3o t\u00e3o segmentadas, que d\u00e1 para ter essa circula\u00e7\u00e3o mais territorializada. Em Porto Alegre tem que chegar l\u00e1, chamar todo mundo que tem e \u201cvambora\u201d: s\u00e3o duas, tr\u00eas, estourando quatro datas na cidade por ano. \u00c9 outro rol\u00ea, \u00e9 muito diferente. A cena rola toda aqui, estou dando essa entrevista [sozinho] para voc\u00ea porque estou aqui. \u00c9 mais barato sair daqui do que para qualquer outro lugar, ent\u00e3o foi um caminho meio \u00f3bvio. E tem a parte pessoal: eu estava de saco cheio de Porto Alegre, meio confort\u00e1vel e meio desconfort\u00e1vel ao mesmo tempo, que \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de mudan\u00e7a. Voc\u00ea v\u00ea que est\u00e1 tudo certo, mas o que est\u00e1 tudo certo come\u00e7a a incomodar de um jeito que n\u00e3o tem mais como reverter o processo. Foi massa pra caramba, foi dif\u00edcil e \u00e9 dif\u00edcil, mas eu gosto de S\u00e3o Paulo pra caralho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antigamente, quando as bandas vinham para S\u00e3o Paulo, vinha a banda inteira. Nesse caso, voc\u00eas vieram pela metade. Por que o resto da banda ficou?<\/strong><br \/>\nO Diogo e o Rodrigo ficaram. Eles podem falar muito melhor sobre esses detalhes e o que definiu isso, mas eles come\u00e7aram estruturas muito grandes, come\u00e7aram fam\u00edlias. Envolve gravidez, beb\u00eas, envolve ter rede de apoio, fam\u00edlia por perto. E as coisas que me desagradavam ou que estavam me incomodando em Porto Alegre n\u00e3o enchiam o saco deles. Ent\u00e3o, acho que eles estavam num momento mais tranquilo com rela\u00e7\u00e3o ao seu lugar na cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como a banda funciona hoje? Por conta da divis\u00e3o, voc\u00eas nunca t\u00eam um show \u201cbarato\u201d, no m\u00ednimo sempre precisa de duas passagens de avi\u00e3o\u2026<\/strong><br \/>\n\u00c9 por isso que a gente se esfor\u00e7a nos shows! (risos) No momento, sim: se for em Curitiba, de repente vai todo mundo de \u00f4nibus\u2026 mas besteiras \u00e0 parte, \u00e9 assim que funciona. Eu sou o cara que fica mais em contato com o selo, com a Rockambole, mais na parte de produ\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gia de algumas coisas, temos v\u00e1rios parceiros l\u00e1 dentro. Os guris est\u00e3o voltando a pegar junto algumas coisas do lado financeiro e das redes sociais, mas temos essa divis\u00e3o interna. Quando a gente grava, preparamos bastante o repert\u00f3rio antes de gravar. Gravamos muita coisa ao vivo, tentamos aglutinar o m\u00e1ximo de coisas ao mesmo tempo. E como a gente sempre sabe dessa realidade de cidades diferentes, a gente sempre ensaia loucamente antes de gravar e antes de sair em turn\u00ea. Preparamos o show e ele est\u00e1 pronto. E antes de todo show, a gente chega um dia antes na cidade para ensaiar. Sempre ensaiamos onde a gente vai tocar para tirar a poeira, passar o repert\u00f3rio e \u00e9 isso. Se tem outros m\u00fasicos, naipe de sopros ou algum convidado, a gente ensaia junto tamb\u00e9m. E tem sido bom, meu. Se tem show todo final de semana, a gente emenda, mas pelo que eu tenho observado de agendas, da galera do nosso cen\u00e1rio, de um c\u00edrculo parecido, eu vejo que mudou bastante a capacidade e a maneira de circular das bandas, a galera est\u00e1 circulando muito menos, mas melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O primeiro disco da Dingo foi financiado por crowdfunding e o segundo saiu com edital da Natura Musical. O terceiro saiu pela Rockambole. Como a Rockambole aparece para voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nCome\u00e7amos a trabalhar com a Rockambole em 2021, depois de gravar o disco. Ent\u00e3o o disco foi uma iniciativa nossa, foi gravado de maneira independente. Lan\u00e7amos atrav\u00e9s da Rockambole, eles nos ajudaram em toda a quest\u00e3o de lan\u00e7amento, planejamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas podiam ter lan\u00e7ado o disco sozinhos, ent\u00e3o. Por que estar num selo \u00e9 legal?<\/strong><br \/>\nEstar num selo \u00e9 legal porque\u2026 porque o selo tem uma estrutura que \u00e9 dif\u00edcil uma banda ter sozinha. Isso envolve financeiro, merchandising, planejamento de carreira, booking, produ\u00e7\u00e3o, parte t\u00e9cnica, todo aquele rol\u00ea de edi\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas, lan\u00e7amentos, subir nas plataformas, redes sociais. Cada banda tem seu acerto com o selo, as formas s\u00e3o bem variadas. Al\u00e9m disso, como o selo re\u00fane mais bandas, \u00e9 um convite \u00e0 efervesc\u00eancia de cena \u2013 tem noites do selo, d\u00e1 para conectar bandas do selo com bandas de outras cidades, outros lugares, rola um interc\u00e2mbio que \u00e9 sempre interessante pro fomento da cena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma coisa que estava um pouco adormecida quando voc\u00eas come\u00e7aram? Ou pelo menos que n\u00e3o estava t\u00e3o bem configurada, do ponto de vista mais profissional?<\/strong><br \/>\nCara, em S\u00e3o Paulo a gente trabalhou com a Pamela, da Alavanca, no primeiro disco. E a\u00ed no segundo disco trabalhamos com a Erva Doce e agora estamos com a Rockambole. Sempre foi bom conhecer muitos tipos de gente e de trabalho aqui em S\u00e3o Paulo, mas a gente sempre sentiu dificuldade em nos sentir parte da cena daqui, porque a gente \u00e9 de fora. Em Porto Alegre, sim, fizemos parte de uma cena que n\u00e3o sei muito para onde foi. Hoje, Porto Alegre est\u00e1 num momento super de carnaval de rua, de samba, maracatu, que est\u00e1 dando um frescor para a cidade que \u00e9 bonito de ver. Mas o lance de shows e de cena deu muito uma esfriada <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/02\/entrevista-alexandre-kumpinski-fala-sobre-seu-debute-solo-cartilagem-a-sofistificacao-do-funk-politica-apanhador-so-e-muito-mais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">depois de toda a treta da Apanhador S\u00f3<\/a>. Acho que Porto Alegre vinha numa ascens\u00e3o de artistas que era a Apanhador, a Dingo Bells e o Ian Ramil, que tinha ganhado Grammy, os Ramil todos, a galera t\u00e1 l\u00e1, t\u00e1 todo mundo na ativa, o Ian est\u00e1 lan\u00e7ando disco daqui a pouco\u2026 [<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/07\/21\/faixa-a-faixa-tetein-de-ian-ramil-um-belo-disco-criado-entre-o-caos-e-o-afeto-a-leveza-e-a-aspereza-a-crianca-e-o-homem-bomba\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o rec\u00e9m-lan\u00e7ado \u201cTetein\u201d<\/a>] . Mas Porto Alegre, enquanto cena de shows, de fato sentiu esse baque. E eu e o Fabr\u00edcio nos mudamos um pouco depois. Estando aqui em S\u00e3o Paulo, sinto que a Dingo \u00e9 uma banda de fideliza\u00e7\u00e3o de p\u00fablico, sabe? Demoramos para chegar para as pessoas, mas depois que abrimos a porta, a gente senta e toma um caf\u00e9, j\u00e1 ficamos \u00e0 vontade, tem muita gente que fica com a banda. Tem muito ouvinte mensal, sempre tem text\u00e3o direto na p\u00e1gina agradecendo, na pandemia teve mensagem pra caralho, o que foi massa. \u00c0s vezes chegavam umas mensagens lindas, enquanto voc\u00ea tava em casa todo fodido. Era um baita consolo, \u201cpelo menos tem algu\u00e9m um pouco menos fodido por algo que a gente fez\u201d. Acho que a Dingo \u00e9 uma banda de p\u00fablico fiel, mas a expans\u00e3o dela \u00e9 lenta, \u00e9 uma banda de jornada longa. Tendemos a crescer com o passar dos anos, eu boto f\u00e9 nisso.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-76584\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/d1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/d1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/d1-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/d1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Legal. Vamos falar do \u201cA Vida \u00e9 Uma Granada\u201d enquanto disco. Li recentemente que esse era o primeiro disco em que a banda chegou com composi\u00e7\u00f5es mais prontas. N\u00e3o foi um disco coletivo, que todo mundo fez junto no est\u00fadio, como foi o caso do \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/07\/20\/entrevista-dingo-bells\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Maravilhas<\/a>\u201d e do \u201cTodo Mundo\u201d. Isso \u00e9 reflexo da banda n\u00e3o estar toda na mesma cidade ou s\u00e3o coisas separadas?<\/strong><br \/>\nCara\u2026 (pensa um pouco)&#8230; boa pergunta. Acho que as duas coisas, mas uma meio que retroalimenta a outra. \u00c9 o terceiro disco, meu. Tem coisas que se tornam mais f\u00e1ceis. \u00c9 mais f\u00e1cil, de certa forma, fazer um terceiro disco do que fazer um segundo disco. Achei muito dif\u00edcil fazer o segundo disco, acho que a banda tava muita tensa\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pelo cl\u00e1ssico teste do segundo disco?<\/strong><br \/>\nExato, t\u00e1 ligado?! \u201cN\u00f3s fizemos o primeiro, foi massa pra caralho, e agora, sabe?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o primeiro disco s\u00e3o as m\u00fasicas que voc\u00ea fez durante sua vida inteira, agora o segundo\u2026<\/strong><br \/>\nExato, exato. Depois, quando voc\u00ea vai fazer o terceiro, tu v\u00ea que tem que mandar um \u201cfoda-se\u201d para isso. Do tipo, \u201cpara onde estou indo?\u201d Cara, escolhe as m\u00fasicas e est\u00e1 tudo certo. Teve um pouco o lance da liberdade do terceiro disco e teve o lance da gente estar longe, tamb\u00e9m, trancafiado. Por exemplo, \u201cEu Cheguei de Longe\u201d \u00e9 uma m\u00fasica minha, que eu fiz logo que eu cheguei em S\u00e3o Paulo, cuspi ela quase inteira. Mas n\u00e3o sabia direito o que fazer com ela, at\u00e9 que um dia o Thiago Ramil foi para S\u00e3o Paulo, a gente foi num boteco e depois do boteco acabamos terminando a m\u00fasica. E \u00e9 uma m\u00fasica\u2026 que deve ter um intervalo de mais de um ano entre esse embri\u00e3o e ela ser finalizada totalmente. Os guris tamb\u00e9m escreveram sobre coisas que eles estavam vivendo, acho que \u00e9 um disco mais pessoal. Ele \u00e9 mais \u00edntimo, e acho que atrav\u00e9s da intimidade n\u00f3s chegamos em algo mais universal, que \u00e9 um pouco o que a gente gosta de tentar atingir nas nossas letras. Dito isso tudo, chegamos no est\u00fadio com coisas que j\u00e1 estavam meio prontas e j\u00e1 tinham essa cara Dingo \u2013 a cara que a gente aprendeu a escrever m\u00fasica juntos. Da\u00ed foi escolher o repert\u00f3rio e gravar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e3o m\u00fasicas feitas entre 2018 e 2020, ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\u00c9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais s\u00e3o as tuas m\u00fasicas?<\/strong><br \/>\n\u201cEu Cheguei de Longe\u201d e \u201cLindo N\u00e3o\u201d. Eu tamb\u00e9m tenho algumas contribui\u00e7\u00f5es de letras em algumas do Rodrigo. Do Fabr\u00edcio, tem \u201cPra Aliviar o Peito\u201d, \u201cTrope\u00e7o\u201d e as outras todas s\u00e3o do Rodrigo. Diogo tem algumas contribui\u00e7\u00f5es, mas nesse disco o Diogo n\u00e3o escreveu nenhuma. Mas ele gravou um milh\u00e3o de instrumentos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Teoria das compensa\u00e7\u00f5es. Engra\u00e7ado: d\u00e1 para perceber um pouco a m\u00e3o sabendo as hist\u00f3rias de cada um. M\u00fasicas que falam mais de \u201cvida de solteiro\u201d s\u00e3o tuas ou do Fabr\u00edcio\u2026<\/strong><br \/>\nCara, tu sabe que \u201cvida de solteiro\u201d \u00e9 tenso, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Calma, calma: \u201cvida de solteiro\u201d em oposi\u00e7\u00e3o a \u201cvida de casado, com fam\u00edlia e filhos\u2026\u201d<\/strong><br \/>\n\u00c9, \u00e9, porque nesses \u00faltimos quatro anos eu tive um relacionamento, que foi muito massa e profundo, e acho que foi a coisa mais punk que eu j\u00e1 vivi. Mas foi um relacionamento que teve muitas idas e vindas. Quando a gente foi gravar o disco, estava num desses momentos, \u00e9 uma hist\u00f3ria que se arrastou at\u00e9 agora pouco, bastante pessoal. Mas a quais que voc\u00ea se refere?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cTrope\u00e7o\u201d \u00e9 muito uma m\u00fasica de \u201cvida de solteiro\u201d. \u00c9 ficar com algu\u00e9m, n\u00e3o rolou, mas n\u00e3o \u00e9 que a gente se odeia\u2026 Ou sei l\u00e1, \u201cLindo N\u00e3o\u201d \u00e9 muito uma m\u00fasica \u201cmudei de cidade, mudei de vida\u201d. Tem esse feeling, mas posso estar exagerando\u2026<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei se eu colocaria como m\u00fasica de solteiro. Acho que \u201cLindo N\u00e3o\u201d \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o do n\u00e3o, \u00e9 uma exalta\u00e7\u00e3o do n\u00e3o, n\u00e9? \u00c9 uma m\u00fasica que eu fiz quase como uma fincada de bandeira no territ\u00f3rio. N\u00e3o, daqui isso n\u00e3o passa, deixei claro que \u00e9 o meu limite e que daqui eu n\u00e3o vou seguir. \u201cTrope\u00e7o\u201d, que \u00e9 uma m\u00fasica do Fabr\u00edcio, fala sobre uma hist\u00f3ria muito foda e que a vida acabou desmantelando um pouco. \u201cFaz parte, tem um recome\u00e7o pela frente\u201d. Acho que o \u201cA Vida \u00e9 uma Granada\u201d diz bastante respeito \u00e0 nossa fase da vida, j\u00e1 deu tempo de construir coisas, de destruir coisas, de ver imp\u00e9rios surgirem e se desmancharem, de recome\u00e7ar coisas, tentar novos caminhos. \u00c9 um disco de quem j\u00e1 tomou a primeira escaldada da vida. E talvez o lance da solteirice diga mais respeito \u00e0 individualiza\u00e7\u00e3o e individua\u00e7\u00e3o de cada um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Agora voc\u00ea deitou no div\u00e3.<\/strong><br \/>\n\u00c9 um disco que fala muito sobre isso, sobre cada um de n\u00f3s, sobre cada um de n\u00f3s estar vivendo coisas diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu brinquei com terapia, mas \u00e9 tamb\u00e9m um tema que est\u00e1 no disco. \u201cDesconstru\u00e7\u00e3o do Ser\u201d \u00e9 uma m\u00fasica que fala disso, mas essa busca, essa coisa que muita gente busca na terapia, na psicologia, isso aparece bastante no disco \u2013 que \u00e9 uma coisa bem comum para quem t\u00e1 nos 30, 35 anos\u2026<\/strong><br \/>\nAcho que sim. A gente estava h\u00e1 pelo menos meio ano trancafiado, fizemos o disco quando ainda n\u00e3o tinha nem vacina na \u00e9poca. Acho que tinha uma desilus\u00e3o da m\u00fasica, de pensar \u201co que eu fiz dos meus \u00faltimos 18, 20 anos, onde isso vai dar agora\u201d, sabe? Quando a gente foi gravar o disco, a gente foi s\u00f3 abra\u00e7ado pelo som. \u201cT\u00e1, gurizada, era para isso? Lembra como era legal gravar umas m\u00fasica nova, com umas letra massa, fazer sons que n\u00e3o existiam, sons que v\u00e3o ficar?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas gravaram quando?<\/strong><br \/>\nA gente gravou entre outubro e novembro de 2020, se n\u00e3o me engano. Foram 34 dias\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entre sentar, colar as m\u00fasicas, gravar e fazer tudo?<\/strong><br \/>\nN\u00f3s chegamos em Porto Alegre, pegamos as demos, colocamos todas as m\u00fasicas na mesa, ouvimos as demos toscas de celular. Da\u00ed escolhemos 15 m\u00fasicas para trabalhar, montamos o est\u00fadio e come\u00e7amos a ver a primeira. Passamos as 15 m\u00fasicas, cortamos duas ou tr\u00eas, e a\u00ed fizemos pr\u00e9-grava\u00e7\u00e3o valendo das 12 que ficaram. A\u00ed grava\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso tudo foi isolado, foi num s\u00edtio\u2026?<\/strong><br \/>\nFoi no est\u00fadio da Pedra Redonda, que \u00e9 um est\u00fadio que est\u00e1 come\u00e7ando a marcar uma \u00e9poca bem massa em Porto Alegre, muita gente passou por l\u00e1. \u00c9 um est\u00fadio que fica na zona sul da cidade, perto do Rio, uma parte mais relax, ali perto do [Museu] Iber\u00ea Camargo. \u00c9 a galera da zona sul, uma galera que parece que nasceu em Santa Catarina, tem uma vibe mais praia, mais relax, maconheira, \u00e9 massa pra caralho. E a gente ficou l\u00e1, isolados. O Diogo e o Rodrigo moravam em Porto Alegre, o Diogo tinha filho rec\u00e9m-nascido, ent\u00e3o eles iam e voltavam para casa. De resto, toda a equipe ficava no est\u00fadio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eram voc\u00eas quatro e\u2026?<\/strong><br \/>\nN\u00f3s quatro. A\u00ed tinha o Wagner, que era o dono do est\u00fadio e engenheiro de som. O Zelito Ramos, que \u00e9 um puta compositor: o T\u00f3 Brandileone, o Rubel, todo mundo baba um ovo do Zelito, ele \u00e9 um g\u00eanio. O Zelito estava na grava\u00e7\u00e3o como administrador de vibes: ele fazia os rangos da galera, cafezinho, baseadinho, era um curador de climas. Foi maravilhoso. Da\u00ed estava o Helinho [H\u00e9lio Flanders], que n\u00e3o ficou o tempo inteiro, s\u00f3 uma semana, dez dias, mais na parte da concep\u00e7\u00e3o. Tinha o Gilberto Ribeiro J\u00fanior, o Juninho, que \u00e9 o outro produtor do disco, junto com o H\u00e9lio. E estava tamb\u00e9m o Vini Angeli, \u00e9 fot\u00f3grafo e videomaker, que registra a gente h\u00e1 anos \u2013 inclusive tem um document\u00e1rio para sair sobre esse processo, ele ficou l\u00e1 todo o per\u00edodo. Mas era isso, foi essa a turma<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nem imagino quantos HDs v\u00e3o ter de material. Mas \u00e9 isso: 34 dias dos primeiros rascunhos at\u00e9 a grava\u00e7\u00e3o final?<\/strong><br \/>\nS\u00f3 faltou gravar naipe de sopros e naipe de cordas, que a gente gravou aqui em S\u00e3o Paulo, com o Diogo Duarte no trompete, o Douglas Antunes no trombone e o Bira no sax, \u00e9 uma galera muito da pesada que \u00e9 o nosso naipe oficial. Eles tocam com uma galera, eles tocam com O Terno, o J\u00e3o, o Alexandre Pires, \u00e9 uma galera gigante mesmo. E a galera das cordas \u00e9 uma galera que o H\u00e9lio conhece, um quarteto que \u00e9 o Deni Feij\u00f3, o Aramis Rocha, o Robson Rocha e o Daniel Pires.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 falamos de letras, do lado mais \u201cintelectual\u201d do disco. Musicalmente, qual era o norte do \u201cA Vida \u00e9 Uma Granada\u201d? O que voc\u00eas queriam alcan\u00e7ar?<\/strong><br \/>\nCara, isso \u00e9 uma viagem. A gente n\u00e3o pensa numa sonoridade de disco a priori. A gente \u00e9 muito escravo da can\u00e7\u00e3o, meu, pegamos o que a concep\u00e7\u00e3o do som pede. \u00c0s vezes, tu pega o viol\u00e3o e j\u00e1 tem uma levada xis, que somada \u00e0 letra e \u00e0 melodia, j\u00e1 d\u00e1 alguma sugest\u00e3o de arranjo, j\u00e1 come\u00e7a a borbulhar ideia na cabe\u00e7a de todo mundo. Concebemos arranjo e sonoridade das m\u00fasicas individualmente. Eu n\u00e3o sei, isso acaba criando uma cara do disco depois, mas a gente n\u00e3o pensa num bloco. A sonoridade do disco tem a ver com o que todo mundo tava ouvindo no momento e os instrumentos que cada um tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o ali, dando ideias diferentes. Se usar uma guitarra semiac\u00fastica vai dar um resultado diferente do que se usar uma Jackson de metaleiro, sabe? Tem esse aspecto do material dispon\u00edvel, que pode ser um material unificador, mas a gente constr\u00f3i o arranjo e sonoridade de cada m\u00fasica. Por isso que eu acho que a gente \u00e9 uma banda poliestil\u00edstica, por isso que sempre foi uma merda responder \u201cah, que som que voc\u00eas fazem?\u201d. A gente faz as nossas m\u00fasicas! (risos). Pensa em \u201cA Vida \u00e9 Uma Granada\u201d, por exemplo: quando a gente come\u00e7ou a discutir arranjo, eu olhei pro Rodrigo e falei: \u201cmano, eu imagino uma vibe meio \u2018Bennie and the Jets\u2019 pra esse som\u201d. Aquele clima de pian\u00e3o, tudo com ambi\u00eancia, o \u201cao vivo\u201d fake, uma cad\u00eancia que vai te conduzindo pra frente. Mas vai dizer que Elton John \u00e9 influ\u00eancia do disco? Ah, \u00e9 uma influ\u00eancia da vida\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P\u00f4, se voc\u00ea escreve can\u00e7\u00e3o pop com piano voc\u00ea vai acabar passando pelo Elton John!<\/strong><br \/>\n\u00c9, sabe? Mas voc\u00ea entende o que eu quero dizer. Quando \u00e9 uma banda que est\u00e1 surgindo, se faz insistentemente essa pergunta do \u201cde onde \u00e9 que veio?\u201d. Hoje em dia, \u00e9 uma mistura de tudo que a gente ouviu, mano, n\u00e3o tem uma pr\u00e9-concep\u00e7\u00e3o, at\u00e9 porque s\u00e3o quatro anos entre um disco e outro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-76585\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/d2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"937\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/d2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/d2-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 engra\u00e7ado voc\u00ea dizer isso: eu tenho a impress\u00e3o que o \u201cGranada\u201d parece mais com o \u201cMaravilhas\u201d do que com o \u201cTodo Mundo Vai Mudar\u201d. O segundo disco parece meio \u201cfora\u201d, em termos de estilo\u2026 tem uns polirritmos nele que n\u00e3o tem nos outros discos. O primeiro e o terceiro s\u00e3o mais org\u00e2nicos, parece serem discos mais ao vivo.<\/strong><br \/>\nAcho que sim. \u201cTodo Mundo Vai Mudar\u201d, at\u00e9 como consequ\u00eancia inconsciente do primeiro disco, nos fez entrar muito numa vibe de quebra-cabe\u00e7a, de camadas de som. Isso se reflete na capa, que \u00e9 uma colagem. \u00c9 um disco que os arranjos t\u00eam esses encaixes malucos. \u00c9 o nosso disco mais complexo de ser executado ao vivo, porque tem essas coisas. Todo mundo gastou os dedos ali. De certa forma, ele \u00e9 um pouco o primeiro disco anabolizado, a gente se aprofundou nos mandrakes do primeiro disco. J\u00e1 no \u201cGranada\u201d, a gente se libertou mais. Tanto \u00e9 que os meus baixos tem uma concep\u00e7\u00e3o diferente nesse disco. Varia muito de m\u00fasica para m\u00fasica, mas basicamente o baixo varia entre dois cen\u00e1rios. Um cen\u00e1rio acontece quando o baixo \u00e9 uma figura mais condutora, mais protagonista, como \u00e9 o caso de \u201cDoce Del\u00edrio\u201d, que tem um riff que vai conduzindo. O outro \u00e9 eu ficar ali atr\u00e1s da cortina fazendo uma cama com o baixo, que \u00e9 at\u00e9 melhor se ningu\u00e9m ver. O baixo tem que estar ali, tem que sentir, mas n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o o som do baixo ou a melodia do baixo: \u00e9 cama, \u00e9 harmonia, \u00e9 ambi\u00eancia. Eu alternei muito entre esses dois pap\u00e9is. Acho que as can\u00e7\u00f5es deram uma respirada maior, \u00e9 o disco que eu mais gosto de ouvir em termos de sonoridade, \u00e9 o que a gente atingiu o que eu mais tenho interesse de ouvir \u2013 e isso \u00e9 bom, porque atualmente \u00e9 o nosso \u00faltimo disco, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas gravaram o disco no final de 2020, e ele estaria pronto para sair no come\u00e7o de 2021. Por que ele demora um ano e meio para sair? Eu at\u00e9 sei a resposta: \u00e9 culpa do Bolsonaro\u2026<\/strong><br \/>\nSim! Mas passando esse pressuposto, porque isso tem que ser um grande pressuposto\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o valia a pena lan\u00e7ar um disco com tudo fechado.<\/strong><br \/>\nCom tudo fechado, sem ter shows, com muita gente morrendo ainda, em 2021 a galera estava come\u00e7ando a ser vacinada e come\u00e7ando a ter algum suspiro de alguma coisa. O que aconteceu? A gente estava reestruturando o nosso trabalho de organiza\u00e7\u00e3o interna. A gente estava trabalhando com a Carol Zito, que t\u00e1 com o Tagua Tagua, t\u00e1 no Cineclube Cortina, enfim\u2026 e a gente mudou para a Rockambole. Teve a indefini\u00e7\u00e3o dos shows, teve nascimento dos filhos. O Rodrigo teve a Nina, que \u00e9 maravilhosa, nasceu em maio, se n\u00e3o me engano, e teve muita treta tamb\u00e9m. Teve muita treta porque foi a retomada de fato, foi quando j\u00e1 fazia dois anos que a gente tinha gravado o disco, e foi quando estava todo mundo com a corda esticada ao m\u00e1ximo, tendo que se virar, pagando contas e tentando ver o que ia ser da vida, sabe? Ent\u00e3o teve muito esse lance de realinhar os rumos e expectativas, sabe? E da\u00ed foi isso, a\u00ed fizemos o planejamento e\u2026 pronto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que \u201cDoce Del\u00edrio\u201d e \u201cDesconstru\u00e7\u00e3o do Ser\u201d foram os primeiros singles? Tinha algum motivo?<\/strong><br \/>\nS\u00e3o duas m\u00fasicas bem diferentes, n\u00e9? Esse foi um dos crit\u00e9rios. Acho que como a gente estava vindo de muito tempo parado e de um momento em que a gente j\u00e1 estava mais tranquilo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia, j\u00e1 estava quente, e coisa e tal, acho que \u201cDoce Del\u00edrio\u201d \u00e9 uma m\u00fasica que a gente sempre achou forte \u2013 e \u00e9 um conceito subjetivo e que varia para caramba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o sendo t\u00e3o subjetivo, fato \u00e9 que \u201cDoce Del\u00edrio\u201d \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o pop, pra frente.<\/strong><br \/>\nSim, ela tem um beat acelerado, ela \u00e9 para cima, tem uma letra com imagens legais e que te tiram um pouco de uma realidade nua e crua. Por outro lado, \u201cDesconstru\u00e7\u00e3o do Ser\u201d baixa totalmente a bola, come\u00e7a com uma harmonia de vozes em ingl\u00eas, que a gente nunca tinha feito antes, e da\u00ed come\u00e7a uma coisa meio folk, meio soul, sabe? Com uma letra que eu acho super bonita, feita pelo Rodrigo, e que tamb\u00e9m traz os bastidores do disco, de certa forma. Acho que todo mundo teve que mergulhar um pouco nesses processos internos nesse per\u00edodo todo, entre o segundo e o terceiro disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vamos voltar para a parte de pagar contas. J\u00e1 est\u00e1 mais que claro que s\u00e3o poucas as bandas hoje, no Brasil, que vivem s\u00f3 da m\u00fasica. Como \u00e9 que voc\u00eas vivem, o que \u00e9 que cada um faz? (E o que cada um fez durante a pandemia?)<\/strong><br \/>\nCara, \u00e9 muito louco tu ver, da noite para o dia, um decreto dizendo que tua profiss\u00e3o acabou\u2026 bem, n\u00e3o \u00e9 que acabou, mas \u00e9 como se o pescador n\u00e3o pudesse mais ir para a \u00e1gua [durante a pandemia]. Bem, vamos l\u00e1, vou falar de novo por mim: quando eu mudei para S\u00e3o Paulo, eu ganhei uma c\u00e2mera anal\u00f3gica do Rodrigo Marrone, que fez as capas do \u201cMaravilhas\u201d e do \u201cTodo Mundo\u201d. Desde o \u201cMaravilhas\u201d, eu comecei a mergulhar em fotografia com ele, o \u201cMaravilhas\u201d tem um projeto fotogr\u00e1fico lindo. Ali naquela \u00e9poca, eu investiguei o acervo do Rodrigo, ele come\u00e7ou a me mostrar coisas, ensinar as primeiras coisas de fotografia, vasculhei bem a biblioteca dele. E da\u00ed eu comecei a mergulhar nisso, e antes de vir para S\u00e3o Paulo, na minha \u00faltima visita ao Marrone, ele me deu uma c\u00e2mera anal\u00f3gica. Eu comecei a fotografar umas coisas, consegui uma c\u00e2mera emprestada de uma amigona, que \u00e9 fot\u00f3grafa, e da\u00ed comecei a fazer as turn\u00eas levando a c\u00e2mera, ent\u00e3o 2018 e 2019 s\u00e3o anos que a gente circulou bastante, em diversos lugares do Brasil, e eu tava l\u00e1 fotografando. Quando come\u00e7ou a pandemia, comecei a mexer nessas fotos, editar essas fotos, a galera come\u00e7ou a gostar, comecei a vender essas fotos e a\u00ed segurei a onda com isso, al\u00e9m de um ou outro edital, com grava\u00e7\u00e3o de lives, festivais, casas de shows, que teve no primeiro ano de pandemia. Disso, fui estudar fotografia. No segundo ano da pandemia eu fiz um curso de um ano de fotografia no Senac, todos os dias, a manh\u00e3 toda, ent\u00e3o eu mergulhei bastante no lance da fotografia. E no ano passado comecei a trabalhar com audiovisual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas antes da pandemia, era s\u00f3 show?<\/strong><br \/>\nEra s\u00f3 show.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E dava pra pagar as contas?<\/strong><br \/>\nDava, mas muito no limite de uma tens\u00e3o desgra\u00e7ada de que num m\u00eas tinha v\u00e1rios shows e no outro m\u00eas n\u00e3o tinha nada. Aquele esquema que tu n\u00e3o consegue se planejar e est\u00e1 quebrando porquinho sempre. Quando voc\u00ea fica mais velho e a vida fica mais cara, s\u00e3o coisas que v\u00e3o te deixando maluco. Mas at\u00e9 a pandemia, deu. E hoje em dia, ando diversificado pra caramba nas minhas atividades. Sigo fazendo o planejamento das coisas da banda e do selo, e tal, mas confesso que estou num lugar mais saud\u00e1vel para mim. Antes, tudo dependia da banda. E quando todas as tuas coisas dependem de uma coisa s\u00f3, voc\u00ea se d\u00e1 conta, como a pandemia mostrou, de que n\u00e3o se pode fazer isso. Agora, hoje em dia, eu sinto que eu coloco menos press\u00e3o na banda, menos expectativa, e consigo levar meu envolvimento com a banda para um lugar muito mais massa. \u00c9 um lugar de divers\u00e3o, de curti\u00e7\u00e3o do momento, de ver que \u00e9 um projeto autoral meu, que eu posso meter a m\u00e3o onde eu posso me expressar, consigo ter mais carinho com o tro\u00e7o. Antes a cabe\u00e7a tava muito polu\u00edda por tens\u00e3o de pagamentos de contas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os outros caras da banda tamb\u00e9m viviam nesse esquema? Ou eles tinham outras atividades?<\/strong><br \/>\nAntes da pandemia, tava todo mundo s\u00f3 com show. Acho. Hoje em dia, o Rodrigo d\u00e1 aulas de canto, o Fabr\u00edcio tamb\u00e9m d\u00e1 muita aula e toca com uma galera, faz grupos de estudos de m\u00fasica, e o Diogo tem um est\u00fadio em Porto Alegre, grava a galera l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o pr\u00f3ximo disco, grava no est\u00fadio do Diogo?<\/strong><br \/>\nBaaaah! P\u00f4, tem que pensar logo no pr\u00f3ximo disco. A gente \u00e9 uma banda que demora para lan\u00e7ar, mas a gente n\u00e3o gosta de perder viagem. N\u00e3o temos nada nos planos, nem conversamos sobre ter m\u00fasicas novas, n\u00e3o sei se algu\u00e9m tem\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem?<\/strong><br \/>\nEu tenho uns quatro \u201cbiru-biru\u201d, sabe? Gravado no celular, uns blocos de argila que um dia v\u00e3o ganhando alguma forma. Mas n\u00e3o, n\u00e3o tem nada concreto n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vamos voltar pro \u201cGranada\u201d, ent\u00e3o. Na hora de lan\u00e7ar, havia medo do disco n\u00e3o fazer sentido? De parecer datado demais para o contexto, dado que era um disco feito dois anos antes?<\/strong><br \/>\nCara\u2026 (respira). Eu acho que esse risco sempre existe, independentemente de quando o disco for gravado e lan\u00e7ado. Eu entendo essa pergunta porque n\u00e3o \u00e9 comum tu gravar um disco e lan\u00e7ar dois anos depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00f3 se voc\u00ea \u00e9 o Neil Young.<\/strong><br \/>\nMas n\u00e3o \u00e9 comum, ent\u00e3o a pergunta vem a calhar. Volta para um ponto, que pode soar superpretensioso, mas n\u00e3o \u00e9: faz parte um pouco de como a gente pensa e onde a gente mira. Se isso vai se comprovar ou n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 minha responsabilidade. Mas a Dingo se pretende a fazer discos que perdurem. \u00c9 claro que tem alguns aspectos que n\u00e3o d\u00e1 para fugir: um disco gravado nos anos 1950 vai ter sempre aquele som de grava\u00e7\u00e3o de \u00e9poca, n\u00e3o d\u00e1 para ser descolado do tempo. Mas pensamos as nossas composi\u00e7\u00f5es como can\u00e7\u00f5es que possam realmente atravessar um pouco o tempo, para al\u00e9m de quando foram concebidas. Como se faz isso? Um jeito \u00e9 n\u00e3o falando coisas muito espec\u00edficas de uma \u00e9poca, de algum h\u00e1bito, objeto ou institui\u00e7\u00e3o, marca, que tenha essa identifica\u00e7\u00e3o mundana e temporal. Acho que se consegue isso falando de maneira mais existencial, de maneira extremamente abrangente ou espec\u00edfica, ent\u00e3o acho que a gente tem esse tipo de pensamento na hora de fazer os sons, que apontam nesse caminho. Se os discos v\u00e3o perdurar, eu n\u00e3o sei, tem que esperar o tempo passar, ficar velho, morrer\u2026 tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 a resposta que voc\u00eas t\u00eam sentido da galera com esse disco?<\/strong><br \/>\nA resposta da galera est\u00e1 sendo bem massa. Mas \u00e9 outro momento. O primeiro disco, se for comparar, foi crescendo muito r\u00e1pido: teve muito festival, muita regi\u00e3o nova do Brasil, e dentro de todas as propor\u00e7\u00f5es devidas, ele deu uma hypadinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O \u201cMaravilhas\u201d \u00e9 um disco que pega o final de uma \u00e9poca em que ainda havia uma estrutura de festivais pelo Pa\u00eds, um movimento mais organizado.<\/strong><br \/>\n\u00c9. Sinto que hoje em dia o terceiro disco est\u00e1 chegando nas pessoas que j\u00e1 conhecem a gente. \u00c9 um disco que est\u00e1 batendo muito forte na fanbase, a gente recebe muita mensagem, muito text\u00e3o, depois dos shows a galera tem pirado, cantado demais. Cara, todas as m\u00fasicas novas a galera canta. Em quem o disco chega, ele est\u00e1 chegando muito bem. Mas est\u00e1 dif\u00edcil de ampliar o leque, de abrir a bolha. Acho que a gente n\u00e3o \u00e9 uma banda do hype, n\u00e3o temos grandes s\u00edmbolos sexuais ou \u00edcones fashion ou figuras cult na banda. N\u00e3o somos grandes atores das redes sociais, somos uma banda pra quem gosta de m\u00fasica, que ouve disco. \u00c9 nerd, a gente \u00e9 nerd, t\u00e1 ligado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 engra\u00e7ada essa fase ao tirar de contexto: \u201c\u00e9 uma banda pra quem gosta de m\u00fasica\u201d. U\u00e9? (risos)<\/strong><br \/>\n\u00c9, n\u00e9? \u201cIt\u2019s not about the music\u201d, a gente sabe disso. N\u00e3o sei se a gente p\u00f5e as fichas demais nisso [na m\u00fasica], ou esquece de colocar nas outras. Mas poderia se ter uma an\u00e1lise sociol\u00f3gica e psicanal\u00edtica sobre como essas coisas operam. Tu entende, a gente n\u00e3o \u00e9 uma banda de hype. A gente tem um p\u00fablico maravilhoso e muito fiel, tem um p\u00fablico que tem tatuagem inspirada na banda, \u00e9 louco isso. Tem p\u00fablico que come\u00e7a a ter filho e os filhos v\u00e3o no show. Ou filhos que levam os pais no show e o pai virar mais f\u00e3 ainda. Sabe umas coisas assim? No Rio Grande do Sul, tem uma g\u00edria: acho que n\u00f3s somos \u201cuns guri bom\u201d. Sabe uns caras que n\u00e3o fazem mal a ningu\u00e9m, tranquilo ali, fazendo as m\u00fasicas deles. Focamos muito nas m\u00fasicas. O que a gente tem pra oferecer de menos interessante somos n\u00f3s enquanto pessoas. Sabe? O que se tem de rela\u00e7\u00e3o de rede social, ou mesmo no show, \u00e9 pouco, s\u00e3o personas que se criam nos ambientes. Isso nunca vai ser, na minha opini\u00e3o, mais interessante, inteligente, profundo ou rico do que as m\u00fasicas que n\u00f3s quatro fazemos. Foda-se meu caf\u00e9 da manh\u00e3 ou se descolori meu cabelo. Como eu n\u00e3o tenho esse interesse de consumo, fica mais dif\u00edcil de produzir algo. Eu n\u00e3o quero ver a panqueca de aveia do Thom Yorke, cara. Prefiro que ele fique na casa dele fazendo as m\u00fasicas e lan\u00e7ando discos a cada tantos anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que \u00e9 um pouco a l\u00f3gica que a gente tem hoje, \u00e9 a l\u00f3gica de produzir conte\u00fado e estar sempre presente.<\/strong><br \/>\nTa\u00ed, sabe? Pode ser algo s\u00f3 da minha gera\u00e7\u00e3o, ok, pode ter que mudar, de vez em quando ir l\u00e1 e fazer um TikTok, mas para mim n\u00e3o \u00e9 natural, nem nunca foi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 muito bom voc\u00ea falar disso, porque eu tenho prestado aten\u00e7\u00e3o nas redes sociais da banda. E o que voc\u00eas fazem? Ensinam a tocar as m\u00fasicas de voc\u00eas. \u00c9 incr\u00edvel, mas n\u00e3o \u00e9 algo que d\u00e1 pra replicar todo o tempo. Ent\u00e3o tem que fazer mais m\u00fasica para ensinar mais m\u00fasica, \u00e9 uma estrat\u00e9gia de \u201cconte\u00fado\u201d que n\u00e3o vira.<\/strong><br \/>\nExato, exato. Esses tempos eu vi um tu\u00edte que viralizou, algo do tipo \u201cpare de transformar os artistas em produtores de conte\u00fado\u201d. Alguma coisa assim, sabe? Quanta energia se gasta nisso. Ao mesmo tempo, como se luta contra isso? \u00c9 que nem os Minutemen, que faziam m\u00fasica de um minuto, para ter 40 m\u00fasicas num disco e poder tocar v\u00e1rias vezes na r\u00e1dio? N\u00e3o sei, sei l\u00e1, mas ser\u00e1 que agora a gente vai ter que fazer m\u00fasicas de 15 segundos, 30 segundos, m\u00fasicas a cada oito dias? Eu n\u00e3o sei, meu, e n\u00e3o vou decidir nem pensar nisso agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P\u00f4, voc\u00eas deixaram tr\u00eas m\u00fasicas na pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o, cad\u00ea essas m\u00fasicas agora para lan\u00e7ar como single?<\/strong><br \/>\n\u00c9, exato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 um pensamento \u00f3bvio, n\u00e9?<\/strong><br \/>\n\u201cCad\u00ea teu conte\u00fado?\u201d. Mas acho que \u00e9 isso: n\u00f3s quatro temos essa coisa nerd, de consumir disco \u2013 e n\u00f3s consumimos disco pra caramba. Falamos sobre disco, disco sempre foi algo presente nos nossos di\u00e1logos. N\u00e3o \u00e9 a m\u00fasica, \u00e9 o disco! \u00c9 mais raro mostrar uma m\u00fasica solta, tu at\u00e9 mostra, mas \u00e9 sempre uma m\u00fasica muito foda de um tal disco foda. A gente teve isso desde muito cedo, tem a ver com a escola de m\u00fasica e os professores em comum que a gente teve. Sempre piramos muito nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas se conheceram na escola de m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nCara, sim e n\u00e3o. O Rodrigo \u00e9 meu primo. Conhe\u00e7o ele desde que eu nasci, nascemos no mesmo ano. O Diogo foi nosso colega na primeira s\u00e9rie e o Fabr\u00edcio a gente encontrou na escola de m\u00fasica em que os tr\u00eas estudavam. A gente devia ter uns 12 anos e ele devia ter uns 16 \u2013 e ele j\u00e1 era um guitarrista super her\u00f3i nerd da escola, que sabia tocar tudo e estava virando professor. E todos n\u00f3s, tirando o Rodrigo, que fez aula de bateria, tivemos aula com o Carlo Pianta, da Graforreia Xilarm\u00f4nica. E o Carlo sempre foi o animal dos discos. \u201c\u00d3, pega aqui, ouve isso que fizeram do in\u00edcio ao fim num recorte de tempo xis\u201d, e todos aqueles papos de disco que a gente est\u00e1 cansado de ouvir, que s\u00e3o muito massa. O disco n\u00e3o \u00e9 um formato gratuito. [Ignorar o disco] \u00e9 como, de certa forma, querer excluir o romance da literatura. N\u00e3o vai rolar. Pode ser que fique mais nichado, pode ser que a galera consuma outros tipos de coisa, mas sempre vai ter disco e sempre o disco vai ter seu valor, sua narrativa de come\u00e7o, meio e fim. E n\u00f3s sempre fomos uma banda que pirou nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu n\u00e3o lembrava disso do Pianta!<\/strong><br \/>\n\u00c9. Inclusive, cara, foi o Carlo que nos mostrou bandas que mudaram a vida de todos n\u00f3s muito cedo. S\u00e3o bandas mais improv\u00e1veis \u2013 pelo menos no contexto de Porto Alegre, entre os lugares que eu vivia e a galera que eu trocava ideia, ou das camisetas de banda que eu via na rua. Bandas como King Crimson, Chic, Talking Heads, Steely Dan. O que mais? Cara, essas quatro assim, eu diria que s\u00e3o bandas fundamentais pra Dingo, algumas das que a gente tem mais em comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As tr\u00eas \u00faltimas eu entendo f\u00e1cil, mas o King Crimson eu acho mais dif\u00edcil de enxergar.<\/strong><br \/>\nQuer ver onde tem King Crimson? \u201cFugiu do Dia\u201d, do primeiro disco. (faz o som da bateria, da introdu\u00e7\u00e3o). Aquilo ali \u00e9 o nosso King Crimson de Porto Alegre, dentro do formato de can\u00e7\u00e3o pop, que o King Crimson tem pra caralho, eles s\u00e3o uma banda que tem muita can\u00e7\u00e3o. Beach Boys coloca a\u00ed tamb\u00e9m, que o Carlo nos botou goela abaixo, fora Beatles, claro. E a\u00ed coisas mais comuns: Hendrix, Led Zeppelin, tudo certo. Mas essas quatro, eu diria, s\u00e3o as mais improv\u00e1veis que ele botou na cabe\u00e7a da gente e que n\u00f3s quatro pegamos pra caralho, ouvimos at\u00e9 gastar. Se for pensar nos nossos tr\u00eas discos, tem essas quatro bandas, da\u00ed tem umas coisas de folk, de soul music, e n\u00e3o vai t\u00e3o pra longe disso assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aproveitando que a gente voltou pra Porto Alegre, queria entender uma coisa. Voc\u00ea saiu de Porto Alegre logo depois, ent\u00e3o talvez voc\u00ea n\u00e3o tenha tanto a dizer. Mas voc\u00ea falou que a cena deu uma morrida depois da hist\u00f3ria da Apanhador S\u00f3. O que havia de cena em Porto Alegre naquela \u00e9poca? E como as coisas est\u00e3o agora?<\/strong><br \/>\nCara, tinha a Apanhador S\u00f3, que era com certeza o projeto que mais se destacava na \u00e9poca. Eles tinham um show ac\u00fastico-sucateiro, na sala de estar, que era algo diferente. Eles usavam percuss\u00f5es inusitadas, e faziam v\u00e1rios rol\u00eas no parque, na Reden\u00e7\u00e3o, o Parque Farroupilha, que \u00e9 o Ibirapuera de l\u00e1. Juntava uma galera nesses rol\u00eas, eles faziam v\u00e1rias datas nos lugares, e acho que os shows deles ajudaram a puxar a cena. A gente colava junto \u2013 em termos de p\u00fablico, acho que a gente estava logo atr\u00e1s deles. Havia a [ag\u00eancia] Alavanca em comum, t\u00ednhamos lan\u00e7ado nosso disco em 2015 e come\u00e7ou a rolar um movimento massa pra gente. O Ian Ramil veio logo na sequ\u00eancia com o \u201cDerivaciviliza\u00e7\u00e3o\u201d, que \u00e9 um puta disco, que ganhou o Grammy Latino. Ele fazia um puta show tamb\u00e9m, n\u00e9? Ele teve v\u00e1rias forma\u00e7\u00f5es, mas ele tocava com o Martin Estevez na bateria, o Guilherme Ceron no baixo, e o guitarrista variava entre o [Felipe] Zancanaro [, da Apanhador S\u00f3] e o Lorenzo Flach, que \u00e9 um dem\u00f4nio que toca com todo mundo l\u00e1 no Sul. Era uma galera massa, em um momento de efervesc\u00eancia. Est\u00e1vamos organizando um festival, porque identificamos um momento bacana, tanto art\u00edstico quanto de p\u00fablico para todos n\u00f3s. O festival estava sendo organizado e no meio disso teve o epis\u00f3dio da Apanhador. No fim das contas, o festival nunca aconteceu e deu uma arrefecida na cena. Os projetos seguem ativos, tem muita gente massa, a pr\u00f3pria Pedra Redonda \u00e9 um est\u00fadio que grava muito artista, lan\u00e7a muita coisa legal, mas eu sinto que o lance de movimento de p\u00fablico e cultura de ir a shows me parece estar um pouco mais fraco agora. Acho que Porto Alegre est\u00e1 vivendo um momento mais de rua: tem muito bar abrindo, a galera est\u00e1 indo beber na rua, beber na cal\u00e7ada. \u00c9 um momento de samba, de maracatu, de tambor, ritmos brasileiros, e est\u00e1 rolando uma certa descaretiza\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 bem legal. Sendo na casa de shows ou na rua, o importante no fim \u00e9 ter show. Porto Alegre era carente disso e tudo se transforma, mas daqui a pouco eu posso estar falando besteira porque tem uma cena de shows que eu n\u00e3o estou ligado. Provavelmente est\u00e1 rolando, diferentes recortes s\u00e3o poss\u00edveis. Mas da cena alternativa, que a gente sempre acabou fazendo parte, a gente j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais t\u00e3o alternativo em Porto Alegre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E aqui em S\u00e3o Paulo? Voc\u00ea falou no come\u00e7o da entrevista de \u201cnosso nicho\u201d. Quem \u00e9 que t\u00e1 dentro do nicho Dingo?<\/strong><br \/>\nCara, essa \u00e9 uma pergunta que eu gostaria de fazer para ti, mas n\u00e3o \u00e9 assim que funciona uma entrevista. Mas n\u00e3o sei, cara. Acho que tem bandas parceiras nossas, s\u00e3o inclusive amigos nossos, por j\u00e1 termos compartilhado estrada juntos. Maglore e Vanguart, por exemplo, s\u00e3o bandas que focam bastante em can\u00e7\u00e3o, a gente tem isso tamb\u00e9m. Acho que tem algumas bandas que podem ter caras e est\u00e9ticas improv\u00e1veis, mas que eu tamb\u00e9m coloco junto. A Tuyo \u00e9 uma banda que tamb\u00e9m escreve can\u00e7\u00e3o e tem coisas existenciais, vai para alguns lugares de letra e de estruturas que conversam em comum com a gente. Acho que o Boogarins, tamb\u00e9m, em alguns momentos. O Rubel tamb\u00e9m tem alguns momentos assim, essa coisa mais folk, mais trovador em alguns momentos. Mas n\u00e3o sei, \u00e9 a pergunta que eu gostaria de te fazer porque eu sempre achei muito dif\u00edcil entender quem s\u00e3o nossos pares assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 engra\u00e7ado isso, porque os nomes que voc\u00ea falou tem bastante a ver, \u00f3bvio. Acho que o Pluma tem bastante a ver, tem uma sonoridade pr\u00f3xima.<\/strong><br \/>\nSim, eu gosto muito de Pluma.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-76586\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/d3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"664\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/d3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/d3-300x266.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas eu fa\u00e7o essa pergunta porque acho que tem uma coisa de comunidade de bandas, que se frequentam, que se ajudam, que tocam juntas em festivais, de trocar instrumento, de viabilizar log\u00edstica. Acho que n\u00e3o s\u00f3 por conta da pandemia, mas por fatores anteriores, \u00e9 um grupo pequeno de bandas. Pelo menos de quem vem dessa \u201cescola\u201d do rock. <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/0TIu9gQfSaiOHZZLW7s5s3?si=XaNLLZt2S-CNkw_Qy14RUA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lembrei que quando a Dingo foi tocar l\u00e1 na Eldorado<\/a>, voc\u00ea disse que as m\u00fasicas menos roqueiras do disco s\u00e3o as que a galera curte mais. Tem essa pilha? O mundo est\u00e1 menos roqueiro, mesmo para uma banda que parte do formato cl\u00e1ssico do rock?<\/strong><br \/>\nAcho que sim. Acho que a gente parte dessa forma\u00e7\u00e3o, duas guitarras, baixo e bateria, n\u00e9? \u00c9 Beatles, n\u00e9. E quando n\u00e3o tinha o Fabr\u00edcio, era um power trio. E depois evolui, coloca teclas, que os Beatles tamb\u00e9m fizeram, o Led Zeppelin tamb\u00e9m fez. Acho que esse DNA est\u00e1 a\u00ed. Mas acho que resta muito pouca coisa de rock na nossa linguagem. Enxerga-se de onde vem, mas principalmente nesse \u00faltimo disco, o rock aparece pouco. O que aparece de rock j\u00e1 \u00e9 mais umas misturas brasileiras, talvez uma Rita Lee anos 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cDoce Del\u00edrio\u201d para mim \u00e9 uma m\u00fasica bem Rita Lee.<\/strong><br \/>\nSabe, sim! A base tamb\u00e9m \u00e9 de rock, mas ao mesmo tempo, meu Deus do c\u00e9u, a Rita Lee \u00e9 tropicalista, n\u00e3o se esque\u00e7a disso: em tudo que ela faz, ela p\u00f5e a assinatura dela. A gente est\u00e1 aqui falando de uma m\u00fasica dela que serviu de refer\u00eancia, p\u00f4, valeu Rita. Resta pouca coisa desse rock mais bruto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 que o conceito de rock pra muita gente \u00e9 algo mais fechado.<\/strong><br \/>\nO conceito de rock se tornou t\u00e3o abrangente que voc\u00ea tem que ser espec\u00edfico demais para saber do que se est\u00e1 falando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas volta l\u00e1 naquelas bandas que o Pianta colocou na m\u00e3o de voc\u00eas. King Crimson \u00e9 rock, Talking Heads \u00e9 rock. Ok, o Chic n\u00e3o e o Steely Dan \u00e9 mais pop, mas \u00e9 o tal do adult oriented rock, n\u00e3o deixa de ser rock. P\u00f4, Beach Boys \u00e9 rock. Para quem \u00e9 roqueiro, talvez Beatles n\u00e3o seja rock hoje\u2026<\/strong><br \/>\nP\u00f4, a gente \u00e9 uma banda de rock nesse aspecto que tu trouxe, mas a gente est\u00e1 completamente a anos-luz de dist\u00e2ncia, sei l\u00e1, do metal, ou de motocicletas e coletes e sabe? Eu n\u00e3o sei, as coisas de rock que ainda ressoam para n\u00f3s, e que a gente acaba ouvindo, s\u00e3o essas coisas que j\u00e1 s\u00e3o muito misturadas. T\u00e1, o Talking Heads\u2026 como caracteriza? \u00c9 uma banda de p\u00f3s-punk? P\u00f4, o primeiro disco \u00e9, mas depois \u00e9 uma banda de rock-disco, de m\u00fasica global\u2026 come\u00e7a a misturar demais, sabe? \u00c9 isso, a nossa m\u00fasica \u00e9 um pouco nesse sentido: somos ancestrais do rock, mas j\u00e1 est\u00e1 misturado com tanta coisa, que rock \u00e9 o que menos interessa. Ser\u00e1 que a gente n\u00e3o \u00e9 uma banda de pop rock?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antigamente tinha isso, n\u00e9? Lembro do VMB, que tinha a categoria Pop, onde entravam Skank e Pato Fu, e a categoria Rock, onde entravam as bandas mais guitarreiras.<\/strong><br \/>\nSim, sim. A gente volta para aquela dificuldade de responder \u00e0 pergunta de \u201ct\u00e1, qual \u00e9 o som de voc\u00eas?\u201d. Ah, \u00e9 uma mistura de\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>(interrompe) Se voc\u00ea fala que \u00e9 uma mistura, j\u00e1 virou uma frase grande \u2013 e numa entrevista de TV, essa frase nem vai pro ar, o cara vai cortar na edi\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\n\u00c9 louco isso. A gente faz as nossas m\u00fasicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No come\u00e7o da entrevista, voc\u00ea falou que as bandas est\u00e3o circulando melhor, mas circulando menos. A situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 f\u00e1cil: passagens est\u00e3o mais caras, hot\u00e9is est\u00e3o mais caros, comida\u2026 tudo est\u00e1 muito caro. Como \u00e9 que est\u00e1 essa vida para voc\u00eas, ainda mais pelo fato de que a banda nunca est\u00e1 inteira na mesma cidade?<\/strong><br \/>\nAcho que cada artista vai encontrar a sua melhor forma de fazer por estar em diferentes momentos, diferentes estruturas e possibilidades. A gente est\u00e1 achando mais interessante e mais vi\u00e1vel circular menos e melhor. Vejo que, no geral, as bandas est\u00e3o circulando menos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que \u00e9 circular melhor pra voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nCircular melhor \u00e9 ter datas planejadas com mais anteced\u00eancia, em lugares e datas estrat\u00e9gicas que fa\u00e7am sentido, para casar log\u00edsticas, baratear tudo. \u00c9 tocar em lugares com estrutura boa de som e de luz, para entregar um show mais massa, porque da mesma maneira que est\u00e1 caro circular para fazer show, est\u00e1 caro para fazer qualquer rol\u00ea. Est\u00e1 dif\u00edcil de ganhar dinheiro no Brasil. Est\u00e1 f\u00e1cil de gastar e dif\u00edcil de ganhar. Se \u00e9 para tirar as pessoas de casa, fazerem elas comprarem ingresso e pegarem o carro para te ver, tenta entregar o teu melhor. \u00c9 melhor e mais saud\u00e1vel para todo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>At\u00e9 porque, esteticamente, a Dingo n\u00e3o \u00e9 uma banda de garagem. N\u00e3o d\u00e1 para tocar em qualquer boteco fuleiro, em qualquer inferninho.<\/strong><br \/>\nSim. Nas nossas forma\u00e7\u00f5es, estamos tocando entre quatro e oito pessoas. Em Porto Alegre a gente chegou a fazer show com uma orquestra de 34 pessoas, foi animal. Estamos tendo esses formatos com mais gente, tem o lance de harmonia de voz, que tem que saber microfonar direito. Por isso, a ideia \u00e9 circular menos e melhor, em lugares que a gente consiga proporcionar uma experi\u00eancia mais massa para quem vai nos ver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O lado ruim \u00e9 que tem lugares no Brasil que voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o chegar.<\/strong><br \/>\n\u00c9, mas o ponto \u00e9 que a gente n\u00e3o chegaria. No momento atual, a gente n\u00e3o conseguiria chegar mesmo tocando nos lugares com pouca estrutura. Eles s\u00f3 se tornam um agravante. A partir do momento em que uma passagem de Porto Alegre pra S\u00e3o Paulo n\u00e3o custa menos de R$ 1 mil, R$ 1,3 mil, \u00e9 muito dif\u00edcil. Pensar na l\u00f3gica do Brasil \u00e9 muito foda. Talvez editais de circula\u00e7\u00e3o possam ser algo bem interessante, de tentar fazer vingar, agora com o Minist\u00e9rio da Cultura. Est\u00e1 dif\u00edcil circular, mas \u00e9 aquilo: o artista tem que estar onde o povo est\u00e1. Poderia ser uma boa [edital], at\u00e9 porque disco est\u00e1 todo mundo fazendo. A Billie Eilish encheu a prateleira de Grammy gravando dentro do quarto \u2013 com muita grana em equipamento dentro daquele quarto, \u00e9 verdade, mas \u00e9 acess\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dada a estrutura, a banda hoje tem um est\u00fadio. Grava\u00e7\u00e3o se viabiliza.<\/strong><br \/>\nE tem o pr\u00f3prio est\u00fadio da Rockambole\u2026 Mas a verdade \u00e9 que tem que pensar em estrat\u00e9gias. O que sei \u00e9 que circula\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo um grande desafio para os artistas atualmente. Por outro lado, \u00e9 muito louco: o artista tem essa coisa da pompa e do desejo, as pessoas tem que desejar ser o artista ou ter a vida dele. E quando voc\u00ea aponta essa dificuldade de circula\u00e7\u00e3o como uma dificuldade meio b\u00e1sica, voc\u00ea abre uma ferida na vida do artista que \u00e9 dif\u00edcil de lidar, porque parece que quebra um pouco essa magia. Mas olha s\u00f3, adivinhe: os artistas s\u00e3o pessoas normais! Se a classe se unisse para dizer que isso \u00e9 um problema, seria mais f\u00e1cil de viabilizar as coisas do que todo mundo ficar sempre acobertando ou dizendo isso, para n\u00e3o manchar. Baixar o cach\u00ea n\u00e3o pode ser praxe, n\u00e3o d\u00e1 para trabalhar sempre abaixo do limite. Ser artista \u00e9 uma profiss\u00e3o, e \u00e9 uma profiss\u00e3o de um monte de gente, n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 aqueles quatro malucos em cima do palco. Pra come\u00e7ar que nunca s\u00e3o s\u00f3 quatro pessoas em cima do palco, esse n\u00famero pelo menos dobra da coxia para tr\u00e1s. \u00c9 louco que isso nunca seja abordado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Faz uns 10 anos que eu converso com bandas, artistas, e lembro que quando eu comecei, havia sempre a pergunta cl\u00e1ssica: \u201ce a\u00ed, voc\u00ea j\u00e1 consegue viver de m\u00fasica?\u201d. De alguns anos para c\u00e1, o paradigma era outro: o artista que decidia n\u00e3o viver de m\u00fasica, preferia ter uma profiss\u00e3o e fazer m\u00fasica em paralelo \u2013 e s\u00f3 pensava em largar a profiss\u00e3o se a m\u00fasica come\u00e7asse a estourar. \u00c9 legal voc\u00ea falar isso, como se fosse uma resist\u00eancia \u00e0 ideia de que viver s\u00f3 de m\u00fasica \u00e9 imposs\u00edvel. Ao mesmo tempo, \u00e9 foda, porque n\u00e3o \u00e9 algo confort\u00e1vel ter que ter \u201cduas\u201d profiss\u00f5es ou porque parece que a m\u00fasica s\u00f3 pode sobreviver nesse lugar menor, de hobby.<\/strong><br \/>\nExato. \u00c9 outra pilha, n\u00e9? S\u00f3 que\u2026 meu, n\u00e3o sei como mudar isso. \u00c9 dif\u00edcil, n\u00e3o tem como viver esperando uma estrutura\u00e7\u00e3o. Mais do que nunca, tem que pensar em como fazer a circula\u00e7\u00e3o e saber o que tu vai proporcionar. \u00c9 a \u00fanica forma de ter algum controle sobre o que vamos conseguir oferecer para as pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De um lado, eu acho admir\u00e1vel a ideia de entregar um show de boa qualidade, com som bom, luz boa e pagando t\u00e9cnicos direito. Isso \u00e9 foda. Por outro lado, tem aquela pergunta: quantos shows se consegue fazer nessas condi\u00e7\u00f5es? Como se constr\u00f3i p\u00fablico, se voc\u00ea pode fazer shows em boas condi\u00e7\u00f5es, sei l\u00e1, apenas quatro vezes por ano em S\u00e3o Paulo? Como se constr\u00f3i uma cena? Porque no come\u00e7o dos anos 2000, os artistas independentes tocavam muito mais em S\u00e3o Paulo, nem sempre em condi\u00e7\u00f5es boas, mas tocavam, circulavam\u2026 \u00c9 ovo e galinha?<\/strong><br \/>\n\u00c9. Na verdade, estamos falando sobre um bloco de concreto na sociedade brasileira. Cara, n\u00f3s voltamos a ter um Minist\u00e9rio da Cultura agora. Essa frase, por si s\u00f3 \u00e9 surreal, visto que essa entrevista est\u00e1 sendo feita no ano de 2023. Mas ainda bem que temos um Minist\u00e9rio da Cultura de volta. Tem poucos meses de Minist\u00e9rio, a gente n\u00e3o sabe ainda o que vai fazer. Mas isso passa por outras coisas: passa pelo ensino de m\u00fasica nas escolas, passa pelo Minist\u00e9rio da Cultura e o investimento em cultura, passa pelo quanto a m\u00fasica e outras artes est\u00e3o dispon\u00edveis para o povo, na pra\u00e7a, nas ruas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E estar dispon\u00edvel n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 estar l\u00e1 no YouTube\u2026<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 YouTube, puta que te pariu o metaverso! O som tem que bater no teu peito. \u00c9 muito diferente ouvir uma grava\u00e7\u00e3o de 30 tambores ou estar na frente de trinta tambores, o bagulho te leva para outro lugar. \u00c9 f\u00edsico. As pessoas precisam experienciar cultura \u2013 e a\u00ed vai ter mais gente trabalhando. E quando se ver que existe cultura e que tem gente que vive disso, a cultura passa a ser considerada uma possibilidade profissional. Tipo assim: voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea fot\u00f3grafo de lambe lambe em toda esquina, porque n\u00e3o d\u00e1 para viver disso. As pessoas fazem menos o que n\u00e3o vai sustent\u00e1-las. \u00c9 ovo e galinha: se o artista ver que vai ter que ter outra profiss\u00e3o\u2026 n\u00e3o acho que \u00e9 nenhuma trag\u00e9dia, existe uma cultura antiga dessa coisa monol\u00edtica de voc\u00ea s\u00f3 ser uma coisa. Tudo bem ser m\u00fasico e enfermeiro, pode ser fot\u00f3grafo e pintor, \u00e9 mais tranquilo. As pessoas s\u00e3o diversas. Mas, com certeza, voc\u00ea acaba diluindo energias e isso traz outros resultados. Se s\u00e3o melhores ou piores eu n\u00e3o sei dizer, mas \u00e9 outra coisa. Vivemos um momento em que os artistas est\u00e3o tendo que viver para seguir fazendo arte em alguma janela da vida. Fiquei pensando sobre essas coisas, em fazer um levantamento de quantas bandas ou projetos deixaram de existir durante a pandemia, deve ser um n\u00famero brutal. Chegaram a fazer um levantamento sobre casas de show, foi um tro\u00e7o meio impressionante, mas de bandas eu n\u00e3o sei. Volta e meia se via um comunicado oficial, voc\u00ea via as baixas de guerras, foi pesado. Foi paulada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E agora, qual \u00e9 o plano da Dingo? \u00c9 show, \u00e9 document\u00e1rio, \u00e9 cuidar de beb\u00eas?<\/strong><br \/>\nCuidar de beb\u00eas, ainda que o Tom [filho do Diogo] j\u00e1 n\u00e3o seja mais um beb\u00ea, est\u00e1 quase um pi\u00e1, ele est\u00e1 batendo os tr\u00eas anos. Coisa mais querida. A Nina \u00e9 pequena ainda, est\u00e1 fazendo um ano. \u00c9 cuidar dessas crian\u00e7as, fazer shows, descobrir um pouco como vai ser a circula\u00e7\u00e3o. Temos algumas ideias que dependem de parceiros, estamos esperando, mas \u00e9 conseguir viabilizar essa circula\u00e7\u00e3o. Acabamos de lan\u00e7ar o vinil do \u201cA Vida \u00e9 Uma Granada\u201d e estamos preparando o document\u00e1rio, feito pelo Vini Angeli, que estava l\u00e1 durante todo o processo de grava\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o do disco \u2013 inclusive eu e ele dividimos quarto. Ele registrou tudo, fez uma montagem do document\u00e1rio, que est\u00e1 bem bonita. Sendo um cara da banda, \u00e9 um document\u00e1rio dif\u00edcil. Tu nunca consegue exatamente saber o quanto interessante ou massa ou curioso pode ser aquilo, sabe? Mas foi legal, acho que tem algumas imagens, aquela linguagem foi uma das primeiras vezes que eu pude nos observar. Musicalmente, \u00e9 um material rico porque tem muitos registros das sess\u00f5es. Agora que as sess\u00f5es t\u00e3o prontas e a galera ouviu muito o disco, \u00e9 legal voltar aos blocos de argila mais brutos. Espero que a gente lance logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vou repetir uma pergunta que eu fiz para voc\u00eas na r\u00e1dio Eldorado. Voc\u00eas lan\u00e7aram um disco chamado \u201cA Vida \u00e9 uma Granada\u201d, que \u00e9 uma grande aventura. E a Maglore fez a m\u00fasica \u201cA Vida \u00e9 uma Aventura\u201d, mas o disco deles [\u201cV\u201d, tamb\u00e9m lan\u00e7ado em 2022] \u00e9 uma granada para todo lado. N\u00e3o foi de prop\u00f3sito, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9, n\u00e3o \u00e9. A gente adora a Maglore, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/29\/entrevista-maglore-lanca-v-olhando-para-o-passado-e-teago-oliveira-diz-que-a-banda-vive-sua-melhor-fase\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">por sinal esse \u00faltimo disco deles t\u00e1 muito bom<\/a>, tem uma m\u00fasica que chama \u201cTalvez\u201d&#8230; essa m\u00fasica \u00e9 muito massa, ouvi ela muitas vezes. Eles s\u00e3o uma grande banda, que fazem shows muito legais, o Teago \u00e9 um puta compositor e o Luquinhas chegou somando muito bem, tamb\u00e9m \u00e9 um puta compositor. J\u00e1 fomos em muito show uns dos outros, j\u00e1 fizemos muito show junto. E fazer show junto com uma galera que bate a vibe, bate p\u00fablico, bate som, \u00e9 massa. S\u00e3o nossos amigos, a gente tem idades parecidas, ambos s\u00e3o projetos que vem de fora de S\u00e3o Paulo, de extremos diferentes, e s\u00e3o projetos longos j\u00e1. Ambos tiveram mudan\u00e7a de forma\u00e7\u00e3o, acho que a gente tem bastante coisa em comum, mas acho que foi uma coincid\u00eancia mesmo. N\u00e3o foi um movimento coordenado. O nosso disco ia chamar \u201cDingo\u201d, na verdade, porque a gente estava nesse lance de mudar o nome da banda. Ent\u00e3o a gente ia martelar com \u201cDingo\u201d. S\u00f3 que a gente come\u00e7ou a ver a for\u00e7a de \u201cA Vida \u00e9 Uma Granada\u201d. Al\u00e9m disso, tinha o fato de que, embora fa\u00e7a totalmente sentido que essa m\u00fasica esteja no disco, ela \u00e9 um corpo estranho. Eu sinto a m\u00fasica, e n\u00e3o \u00e0 toa que ela \u00e9 uma m\u00fasica de abertura: ela n\u00e3o faz sentido em outro lugar do disco. Ela \u00e9 um pacote.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ela \u00e9 o coro do teatro grego, ela antecipa as quest\u00f5es do disco.<\/strong><br \/>\n\u00c9 um pouco essa onda, sinto ela assim. Esse conceito foi crescendo na nossa cabe\u00e7a: \u201cA Vida \u00e9 uma Granada\u201d \u00e9 o nome da m\u00fasica que aborda essa tem\u00e1tica, mas o resto dos sons, de certa forma, eles s\u00e3o desdobramentos dessa explos\u00e3o. T\u00e1, explodiu, aconteceu tal coisa com aquele relacionamento, tu ficou bem, tu ficou mal, viu que tinha que mudar de cidade, mudar dentro de voc\u00ea mesmo. O disco \u00e9 uma resposta a essa explos\u00e3o da faixa de abertura. E da\u00ed a gente come\u00e7ou a pensar que\u2026 Cara, o primeiro disco \u00e9 o \u201cMaravilhas da Vida Moderna\u201d, o segundo \u00e9 \u201cTodo Mundo Vai Mudar\u201d, e a\u00ed o terceiro ia chamar\u2026 \u201cDingo\u201d? P\u00f4, \u00e9 uma possibilidade, claro, mas tamb\u00e9m foi muito sedutora a ideia de dar um zoom out na carreira e perceber que existem tr\u00eas discos, e que os tr\u00eas fazem sentido, constru\u00eddos com todo mundo. Embora o Bri n\u00e3o assine m\u00fasicas no primeiro disco, ele gravou algumas faixas, fez todos os shows com a gente, desde antes do lan\u00e7amento, esses tr\u00eas discos foram por essas quatro pessoas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que \u00e9 que o Bri n\u00e3o t\u00e1 na banda desde sempre?<\/strong><br \/>\nCara, porque\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ele era o cara mais velho, meio geninho, e voc\u00eas eram os tr\u00eas moleques?<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 uma das coisas, mas a gente j\u00e1 tinha banda desde 2003, no col\u00e9gio. N\u00f3s \u00e9ramos um quarteto originalmente, mas o quarto integrante saiu ali na \u00e9poca do terceiro colegial. A\u00ed ficamos n\u00f3s tr\u00eas de 2005 at\u00e9 2013, talvez. E em 2013, quando a gente come\u00e7ou a se mexer para lan\u00e7ar o primeiro disco, \u00e9 que o Bri come\u00e7ou a tocar com a gente. Bem ou mal, a gente j\u00e1 tinha dez anos de banda s\u00f3 n\u00f3s tr\u00eas, enquanto o Bri tocava com uma galera em Porto Alegre. Ele tocava com a Giselle de Santi, uma cantora foda, com muita coisa boa, um monte de hit de r\u00e1dio. O Bri tinha todo um rol\u00ea dele, enquanto n\u00f3s tr\u00eas est\u00e1vamos mergulhados na Dingo, isso era nossa vida e quem a gente era. E para o Bri, a Dingo era uma esfera menor na vida dele, era mais um dos trampos que ele tinha. S\u00f3 que a\u00ed, \u00f3bvio, ele come\u00e7ou a ser fagocitado num movimento m\u00fatuo. Mas bem ou mal, o Bri j\u00e1 t\u00e1 com a gente h\u00e1 uns nove anos. Oficialmente, ele entra depois do \u201cTodo Mundo Vai Mudar\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sei que a entrevista est\u00e1 acabando, mas n\u00e3o d\u00e1 para n\u00e3o falar da mudan\u00e7a do nome. Por que mudar agora? Dingo Bells j\u00e1 t\u00e1 a\u00ed h\u00e1 um temp\u00e3o, marca constru\u00edda, SEO feitinho no Google, algoritmos ajustados. Por que mudar?<\/strong><br \/>\nComo \u00e9 que eu posso te dizer? Essa tem sido a primeira pergunta de todas as entrevistas, n\u00e9? A gente se fudeu. Antes a pergunta sempre era \u201cpor que Dingo Bells?\u201d e agora a pergunta vai ser sempre \u201cpor que s\u00f3 Dingo?\u201d. A gente n\u00e3o se livrou de falar desse tema, n\u00e9? Brincadeiras \u00e0 parte, a gente tem uma base de f\u00e3s que \u00e9 s\u00f3lida, que est\u00e1 espalhada em diferentes lugares do Brasil e que \u00e9 fiel, que quando a gente vai eles colam no show e \u00e9 muito massa. E j\u00e1 \u00e9, na sua grande maioria, uma galera que nos acompanha desde o primeiro ou segundo disco, o segundo disco j\u00e1 tem quase cinco anos. \u00c9 muita coisa, e n\u00e3o foram anos leves. Nosso segundo disco j\u00e1 tem um monte de coisa existencial. Nosso disco fala de pandemia, fala dessas coisas. Ent\u00e3o, acho que nosso p\u00fablico entende nosso movimento e parte dele j\u00e1 se referia \u00e0 banda como Dingo. A maior parte dos seres humanos no planeta Terra n\u00e3o nos conhece, e quando voc\u00ea come\u00e7a a colocar essas coisas em perspectiva\u2026 eu, pelo menos, j\u00e1 n\u00e3o estava mais muito conforme aquele nome para esse projeto, que tenha esses sons. Dingo Bells tem uma coisa que \u00e9 um pouco caricata, \u00e9 um pouco bem-humorada, tem associa\u00e7\u00e3o com natal, com jingle, com sinos, sabe, \u00e9 uma coisa que quando tu l\u00ea, a grafia gera uma certa pol\u00eamica. E da\u00ed a gente come\u00e7ou a pensar, de ter passado por uma grande mudan\u00e7a de vida, de mudan\u00e7as no grupo, um milh\u00e3o de coisas, e achamos mais massa fazer esse movimento s\u00f3 como Dingo, ponto. Dingo \u00e9 n\u00f3is. Dingo Bells\u2026 \u00e9 uma s\u00e9rie de outras coisas, embora tenha sido a gente at\u00e9 aqui. A gente n\u00e3o mudou para qualquer outra palavra, Banda L\u00e2mpada. A gente \u00e9 a Dingo: s\u00e3o as mesmas m\u00fasicas e as mesmas pessoas, num outro momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas chegaram a cogitar outro nome?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Era s\u00f3 se livrar do Bells, ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAcho que era se livrar do Dingo Bells, do trocadilho. Para mim, era uma coisa que se tornava mais pauta do que a m\u00fasica em si, sabe? Qual \u00e9 o ponto, sabe? \u00c9 um nome que podia se tornar um obst\u00e1culo, porque pode parecer mais infantil ou de uma pilha, at\u00e9 religiosa, que n\u00e3o \u00e9 o que a gente faz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E ainda mais por ser uma banda ga\u00facha com todo o hist\u00f3rico de trocadilhos do rock ga\u00facho.<\/strong><br \/>\nExato. S\u00e3o os alunos do Carlo, n\u00e9, meu? Mas \u00e9 um pouco isso, foi uma coisa\u2026 ningu\u00e9m fincou o p\u00e9. N\u00f3s tivemos v\u00e1rias discuss\u00f5es, tentando ser advogado do diabo da nossa pr\u00f3pria vontade, mas chega uma hora que tu fala t\u00e1, ok, est\u00e1 tudo certo. A mudan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 radical, a gente j\u00e1 vinha de um momento que a banda ia ter que se colocar e se comunicar mais. Fazer isso antes de um disco \u00e9 a melhor coisa que se pode fazer. Foi o que a gente fez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para acabar. No \u201cProvoca\u00e7\u00f5es\u201d, o Antonio Abujamra sempre acabava os programas dele com uma pergunta. \u201cO que \u00e9 a vida\u201d, Felipe Kautz?<\/strong><br \/>\nTu t\u00e1 falando s\u00e9rio que essa \u00e9 a pergunta para acabar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. E n\u00e3o pode responder que a vida \u00e9 uma granada.<\/strong><br \/>\nBah, cara. A vida \u00e9 um absurdo, cara, a vida \u00e9 um absurdo do in\u00edcio ao fim. E o absurdo pode ser a pior das trag\u00e9dias e a maior das gl\u00f3rias. \u00c9 uma palavra que serve para isso. A gente n\u00e3o decide a maioria das coisas, mas a gente tem que tentar puxar a corda para algum lado, do jeito que der. E\u2026 \u00e9 isso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Dingo @ Casa RCKB\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PL6gBQKY5zwa2HV899CBQPsmlAJdkJY99S\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Dingo lan\u00e7a &quot;A Vida \u00e9 uma Granada&quot;\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PL6gBQKY5zwa34FaT_-UiFNI0BSVsulBaG\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Eu Vim Passear (Ac\u00fastico)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3uNn8D5--PM?list=OLAK5uy_mfsIP05Ukm1DbwTdbbWQJSJRmY0cSwkFI\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas)<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista. Apresenta o\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/indieeldorado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>, na Eldorado FM, e escreve a newsletter\u00a0<a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais<\/a>. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Aproveite o clima, caro leitor, e tamb\u00e9m fique \u00e0 vontade por a\u00ed: esta \u00e9 uma entrevista longa, \u00edntima, cheia de detalhes sobre a hist\u00f3ria de uma banda que se arrisca a fazer can\u00e7\u00f5es pop e discos \u201cpara ficar\u201d em um tempo de consumo veloz de informa\u00e7\u00f5es.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/09\/04\/entrevista-nao-somos-grandes-atores-das-redes-sociais-somos-uma-banda-pra-quem-gosta-de-musica-diz-felipe-kautz-da-dingo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":76587,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2457],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76580"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76580"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76580\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":76588,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76580\/revisions\/76588"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/76587"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76580"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76580"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76580"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}