{"id":76532,"date":"2023-08-28T23:56:11","date_gmt":"2023-08-29T02:56:11","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=76532"},"modified":"2023-09-21T00:07:23","modified_gmt":"2023-09-21T03:07:23","slug":"entrevista-tivemos-um-processo-artesao-muito-grande-diz-moacyr-gramacho-diretor-de-arte-do-filme-as-orfas-da-rainha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/08\/28\/entrevista-tivemos-um-processo-artesao-muito-grande-diz-moacyr-gramacho-diretor-de-arte-do-filme-as-orfas-da-rainha\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;Tivemos um processo artes\u00e3o muito grande&#8221;, diz Moacyr Gramacho, diretor de arte do filme &#8220;As Orf\u00e3s da Rainha&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O experiente cen\u00f3grafo e diretor de arte Moacyr Gramacho, e o seu assistente de dire\u00e7\u00e3o de arte Erick Saboya, conversaram com o Scream &amp; Yell logo ap\u00f3s uma sess\u00e3o de imprensa de \u201cAs \u00d3rf\u00e3s da Rainha\u201d (2023). Perceptivelmente impactados pela sess\u00e3o que trouxe o resultado de um longo processo de constru\u00e7\u00e3o c\u00eanica capitaneado pela cineasta Elza Cataldo, Moacyr e Erick detalharam o processo de cria\u00e7\u00e3o e a sintonia que a equipe e diretora tiveram em seu trabalho conjunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um dos pontos da conversa, Gramacho falou sobre a quest\u00e3o de encontrar essa sintonia a partir dos sil\u00eancios propostos pelo ritmo que a dire\u00e7\u00e3o de Elza imprimiu ao resultado final. &#8220;Essa quest\u00e3o dos sil\u00eancios foi algo que a gente buscou muito na dire\u00e7\u00e3o de arte. Um dos conceitos mais importantes que trabalhamos \u00e9 que estamos falando de um pa\u00eds que ainda n\u00e3o era um pa\u00eds. Tivemos todo um trabalho de pesquisa muito mais em cima de fontes escritas, porque voc\u00ea tem pouca iconografia do s\u00e9culo XVI&#8221;, pontua Moacyr.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cen\u00f3grafo e diretor de arte tamb\u00e9m salienta a predomin\u00e2ncia de vazios sobre os cheios e o fato da dire\u00e7\u00e3o de Elsa Cataldo ser a de um filme um tanto atmosf\u00e9rico: \u201cMas isso tem um sentido, tamb\u00e9m, hist\u00f3rico. Porque embora se fale muito que o Brasil nasce no Barroco, no Barroco \u00e9 o contr\u00e1rio. \u00c9 a predomin\u00e2ncia de cheios sobre vazios. Em um plano de filme Barroco, ou no plano de uma pintura Barroca, voc\u00ea n\u00e3o tem um cm\u00b2 de nada sem uma firula, sem uma voluta. Mas a gente est\u00e1 falando do s\u00e9culo XVI. \u00c9 o s\u00e9culo em que a Europa ainda vive o Renascimento. E voc\u00ea v\u00ea muito em detalhes. Por exemplo, aquela santa, que foi feita por Olga Gomes, ela \u00e9 desenhada muito mais a partir de uma influ\u00eancia de Fra Ang\u00e9lico, de Leonardo Da Vinci, de Alberto D\u00fcrer, do que de Caravaggio, por exemplo&#8221;, esclarece Moacyr.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No papo abaixo, Moacyr e Erick detalham melhor esse processo de constru\u00e7\u00e3o de \u201cAs \u00d3rf\u00e3s da Rainha\u201d pelo olhar da dire\u00e7\u00e3o de arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/08\/28\/entrevista_as_orfas_da_rainha_elza_cataldo\/\"><em>Leia tamb\u00e9m entrevista com Elza Cataldo, diretora de &#8220;As Orf\u00e3s da Rainha&#8221;<\/em><\/a><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"As \u00d3rf\u00e3s da Rainha | Trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0UQXlt9dSls?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 percept\u00edvel na dire\u00e7\u00e3o de Elza Cataldo e na escrita do roteiro uma utiliza\u00e7\u00e3o dos sil\u00eancios como elementos de cena. E a ambienta\u00e7\u00e3o advinda da dire\u00e7\u00e3o de arte colabora muito na busca desse equil\u00edbrio de elementos. Como integrantes da equipe de dire\u00e7\u00e3o de arte do filme, voc\u00eas poderiam falar um pouco como foi essa jun\u00e7\u00e3o de pensamentos e como isso refletiu na materializa\u00e7\u00e3o do resultado final?<\/strong><br \/>\nMoacyr Gramacho \u2013 Essa quest\u00e3o que voc\u00ea traz dos sil\u00eancios foi algo que a gente buscou muito na dire\u00e7\u00e3o de arte. Um dos conceitos mais importantes que trabalhamos \u00e9 que estamos falando de um pa\u00eds que ainda n\u00e3o era um pa\u00eds. Pense que se passaram pouco anos da cria\u00e7\u00e3o da cidade de Salvador. Nem Portugal, nem os povos nativos, nem os negros que estavam sendo transportados de forma violenta para c\u00e1, sabiam onde estavam entrando. Ent\u00e3o, a gente teve todo um trabalho de pesquisa. Essa pesquisa \u00e9 muito mais em cima de fontes escritas, porque voc\u00ea tem pouca iconografia do s\u00e9culo XVI. Um dos conceitos da dire\u00e7\u00e3o de arte, por conta da ideia de dire\u00e7\u00e3o de Elsa, que \u00e9 a de um filme um tanto atmosf\u00e9rico, foi a predomin\u00e2ncia de vazios sobre os cheios. Mas isso tem um sentido, tamb\u00e9m, hist\u00f3rico. Porque embora se fale muito que o Brasil nasce no Barroco, no Barroco \u00e9 o contr\u00e1rio. \u00c9 a predomin\u00e2ncia de cheios sobre vazios. Em um plano de filme Barroco, ou no plano de uma pintura Barroca, voc\u00ea n\u00e3o tem um cm\u00b2 de nada sem uma firula, sem uma voluta. Mas a gente est\u00e1 falando do s\u00e9culo XVI. \u00c9 o s\u00e9culo em que a Europa ainda vive o Renascimento. E voc\u00ea v\u00ea muito em detalhes. Por exemplo, aquela santa, que foi feita por Olga Gomes, ela \u00e9 desenhada muito mais a partir de uma influ\u00eancia de Fra Ang\u00e9lico, de Leonardo Da Vinci, de Alberto D\u00fcrer, do que de Caravaggio, por exemplo. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem nos planos da casa do Escobar quase nada. A casa tem um ba\u00fa e um banco, apenas. E quero ressaltar o trabalho que, ap\u00f3s a sess\u00e3o, eu pude ver em seu esplendor, que \u00e9 o da Fernanda Tanaka, diretora de fotografia. Ela compreendeu esse conceito que eu acho que \u00e9 muito importante para a arte. E isso tem muito a ver com o que voc\u00ea estava falando, de ter essa camada do incompleto. Voc\u00ea observou que a capela n\u00e3o tem portas. Que voc\u00ea tem ali o julgamento, que tem aquela pompa, mas o mato e os insetos est\u00e3o l\u00e1 no fundo. Ent\u00e3o, esse vazio \u00e9 ressaltado muito pela fotografia, que \u00e9 o que preenche os espa\u00e7os com luz, com textura, com fuma\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Erick Saboya \u2013 O processo do \u201c\u00d3rf\u00e3s\u201d foi muito de colabora\u00e7\u00e3o do roteiro que Elsa escreveu com a equipe em um aprofundamento hist\u00f3rico das personagens. Desse roteiro inicial para o que o que foi feito, realmente, foi algo fruto de dois anos de trabalho. Ent\u00e3o, ela tamb\u00e9m se impregnou de muitos conceitos que a arte, a fotografia, o som, tamb\u00e9m, vieram ali colaborando. At\u00e9 da prepara\u00e7\u00e3o de elenco de In\u00eas, eu sinto muito que as coisas foram constru\u00eddas, sabe? Que esse sil\u00eancio que voc\u00ea observa, eu vejo muito como um resultado de um processo nosso de colabora\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m. Foi uma experi\u00eancia nossa quanto ao departamento de arte, ao menos para mim, algo muito novo em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel que a gente p\u00f4de acessar. E p\u00f4de, tamb\u00e9m, colaborar para uma certa mudan\u00e7a. E eu senti que Elsa estava aberta para todos os departamentos. E especialmente com a arte, porque come\u00e7amos em um processo f\u00edsico de constru\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m com viabiliza\u00e7\u00e3o dos editais antes, para realizar o filme. Com a dire\u00e7\u00e3o de arte, n\u00f3s tivemos uma participa\u00e7\u00e3o nessa narrativa muito forte durante esses dois anos. Hoje, eu vejo que foi um resultado de uma somat\u00f3ria dessas pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na equipe de dire\u00e7\u00e3o de arte, dentro do processo de cria\u00e7\u00e3o, como \u00e9 lidar com as inser\u00e7\u00f5es digitais que o roteiro traz? H\u00e1 alguma dificuldade em encontrar a mesma sintonia que existe na cria\u00e7\u00e3o f\u00edsica quando diante desse desafio referente aos aspectos dos efeitos visuais?<\/strong><br \/>\nMoacyr \u2013 Acima de tudo, isso \u00e9 um grande desafio. Essa quest\u00e3o que voc\u00ea traz foi algo muito discutido por n\u00f3s. A arte toda possui uma proposta muito org\u00e2nica, realista. Chega a ser at\u00e9 dura, \u00e0s vezes. E a\u00ed, de repente, voc\u00ea tem essa inser\u00e7\u00e3o digital e isso cria um ru\u00eddo. Eu confesso que esse ru\u00eddo, para mim, ele n\u00e3o \u00e9 totalmente diger\u00edvel. Essas inser\u00e7\u00f5es est\u00e3o claramente associadas ao imagin\u00e1rio da personagem de Leonor. O que a diretora traz, e isso \u00e9 muito da dire\u00e7\u00e3o, \u00e9 o pensamento de que Leonor tem uma vis\u00e3o, como a maioria dos estrangeiros que vem para c\u00e1, totalmente descolada da realidade. E essa \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o dessas inser\u00e7\u00f5es digitais. Mas, assim, n\u00e3o \u00e9 um campo pac\u00edfico para a dire\u00e7\u00e3o de arte. \u00c9 um desafio muito grande. Aquela on\u00e7a que aparece no filme j\u00e1 vem de v\u00e1rias materialidades. Folcl\u00f3ricas, reais&#8230; Eu, pessoalmente, gosto muito quando a inser\u00e7\u00e3o digital cola com o naturalismo do resto da arte. Por exemplo, ali quando voc\u00ea tem a cena de degolar a galinha, aquele sangue n\u00e3o \u00e9 real. \u00c9 digital. Isso eu curto muito. O resto \u00e9 o ru\u00eddo. Eu vejo como um ru\u00eddo, mas, reiterando isso que Erick acabou de dizer, esse filme tem um processo colaborativo de discuss\u00e3o profundo. E eu te digo: nunca vivi isso. Digo, essa experi\u00eancia. Elsa me liga, liga para gente, manda relat\u00f3rios. A gente conversa com ela, com a dire\u00e7\u00e3o de fotografia. Foi um processo de muita busca, sabe? Por fazer algo que eu acho que ela conseguiu fazer, que \u00e9 entregar no Brasil um filme hist\u00f3rico de qualidade. Muitos textos t\u00eam pontuado que se trata de um filme e um per\u00edodo hist\u00f3rico do Brasil que os autores nunca viram. E que todo mundo tem que ver porque ele est\u00e1 feito com uma verdade, com uma entrega. Em um dos que li, o cr\u00edtico come\u00e7a dizendo que \u00e9 de uma coragem imensa entregar esse produto. Pensando como um produto cinematogr\u00e1fico. E, claro, n\u00e3o deixa de ser um orgulho enorme a gente ver essa realiza\u00e7\u00e3o ser feita por toda equipe aqui da Bahia. Essa parceria Bahia-Minas-S\u00e3o Paulo e gente do pa\u00eds inteiro, \u00e9 algo que s\u00f3 o cinema produz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em uma obra que se passa em um per\u00edodo hist\u00f3rico t\u00e3o remoto, com poucas refer\u00eancias pict\u00f3ricas, como foi pesquisar os objetos de cena nessa recria\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nErick \u2013 Nesse filme espec\u00edfico, nossa produtora de objetos, Renata Marques, desde o in\u00edcio, falou que ter\u00edamos muita fabrica\u00e7\u00e3o de coisas. Tivemos uma frente de artes\u00f5es fazendo, mesmo, o microuniverso de cada cena. Do que era caneta, de como era o papel, como era o selo. Temos algumas coisas \u00e0s quais temos licen\u00e7a po\u00e9tica porque passa pelo s\u00e9culo XVI, ali, visualmente. Certos utens\u00edlios n\u00e3o mudaram tanto, assim. Mas tivemos um processo artes\u00e3o muito grande.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moacyr \u2013 Isso que Erick est\u00e1 falando \u00e9 fundamental. Nossa diretora levou dez anos pesquisando. Ela leu mais de trezentos livros em sua pesquisa. Contratou assessoria de rabinos para ter um aprofundamento coerente e n\u00e3o cometer erros nem desrespeitos com a cultura judaica. Historiadores e pesquisadores negros e negras para voc\u00ea tamb\u00e9m ter a representa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um desafio enorme. Acho justa, no filme, a representa\u00e7\u00e3o que fazemos aos escravizados, porque, primeiro, eles s\u00e3o mostrados realmente como eles s\u00e3o tratados: como mercadorias. Mas s\u00e3o pessoas personalizadas. E voc\u00ea v\u00ea isso no figurino. N\u00e3o s\u00e3o todas iguais. S\u00e3o especialistas. E isso est\u00e1 no roteiro. \u00c9 muito forte isso. Acontece que o senhor do engenho, personagem do Escobar, vinha a um porto procurar uma m\u00e3o de obra especializada, o que era o mais cruel da escravid\u00e3o. Era comprar um doutor no tempo do a\u00e7\u00facar. Imagine que n\u00edvel de perversidade? E isso est\u00e1 no roteiro. Ent\u00e3o, esse n\u00edvel de pesquisa, e a\u00ed isso se refletindo no objeto, nos fez montar grandes oficinas para reconstruir ao inv\u00e9s de buscar um objeto alugado. Por exemplo, as armas que aparecem ali, com aquele peso, elas foram constru\u00eddas a partir de meses. Tivemos esse luxo de fazer uma estrutura dentro de uma fazenda l\u00e1 em Minas, contar com o trabalho do aderecista Rafael Dias \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o. Ele categorizava na parede do seu ateli\u00ea os tipos de armas, tipos de p\u00f3lvora. Cada objeto desse leva meses de estudo e pesquisa. As armas, por exemplo, em 1580, passaram por uma revolu\u00e7\u00e3o. Um s\u00e9culo depois, em 1680, j\u00e1 existia um tipo de arma que se engatilhava. Mas naquele momento, n\u00e3o tinha essa tecnologia, ainda. \u00c9 uma soma de pesquisa, de muita conversa e dessa op\u00e7\u00e3o de voc\u00ea confeccionar aqueles objetos que n\u00e3o era certeza que \u00edamos conseguir. Eu acho que a principal fonte, a mais direta, de pesquisa do filme s\u00e3o os Autos da Inquisi\u00e7\u00e3o. O que n\u00e3o deixa de ser chocante. Porque aquelas frases que est\u00e3o ali, com todo o texto do julgamento, s\u00e3o textos reais. \u00c9 chocante. Essa fonte de pesquisa est\u00e1 na biblioteca da Torre de Bel\u00e9m, em Portugal. Qualquer pesquisador tem acesso. \u00c9 chocante! \u00c9 assustador perceber que a humanidade chega a esse n\u00edvel de pervers\u00e3o e ainda registrar tudo. Os nazistas fizeram isso, tamb\u00e9m. Parece que quanto mais o ser humano \u00e9 cruel, ele tem a consci\u00eancia dessa crueldade e ainda faz quest\u00e3o de registrar para o futuro. Tem um momento em que o Escobar fala sobre isso, sobre a maldade da inquisi\u00e7\u00e3o. Sua esposa pondera, fala que a av\u00f3 dele j\u00e1 morreu e que as acusa\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao credo deles n\u00e3o v\u00e3o continuar. E ele responde dizendo que ela n\u00e3o tem ideia da maldade que a inquisi\u00e7\u00e3o desperta nas pessoas. Ou seja, a maldade est\u00e1 em n\u00f3s. E a depender de como voc\u00ea se relaciona com o poder, a depender de como poder chega a ele, a maldade \u00e9 aflorada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como surgiu o convite de Elza para o projeto?<\/strong><br \/>\nMoacyr \u2013 Eu sou uma pessoa que estou no mundo do audiovisual, no mundo das artes, como tamb\u00e9m estou como gestor p\u00fablico. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o estou no mercado. Quase todos os \u00faltimos trabalhos que eu tenho feito s\u00e3o trabalhos de amizade. S\u00e3o parcerias. Tem pessoas com quem voc\u00ea vive conversando, que fazem parte da sua vida intelectual, afetiva, tamb\u00e9m. Porque eu acho que o afeto e o pensamento est\u00e3o juntos. Por exemplo, eu n\u00e3o fa\u00e7o nada sem ligar para Luis Parras, para Erick, a gente troca ideias sobre o que essas outras pessoas fazem. Elza \u00e9 uma grande parceira. A gente se conheceu h\u00e1 um temp\u00e3o no processo de realiza\u00e7\u00e3o do filme \u201cA Luneta do Tempo\u201d (2016), do Alceu Valen\u00e7a. Eu fiz a dire\u00e7\u00e3o de arte junto a toda equipe aqui da Bahia. Quem me apresentou a esse filme e ao Alceu Valen\u00e7a foi a Elza Cataldo. Ela \u00e9 uma figura incr\u00edvel. Muito generosa. Muito exigente. Ela tem esse equil\u00edbrio que os mineiros t\u00eam entre dizer que quer o melhor p\u00e3o de queijo e dizer que s\u00f3 tem o melhor p\u00e3o de queijo l\u00e1 (risos). H\u00e1 uma generosidade nessa parceria. Se eu fosse objetivar essa pergunta, eu diria que conheci Elza antes do processo do envolvimento, onde ela trabalhou como assistente de dire\u00e7\u00e3o. Na ocasi\u00e3o, ficamos muito amigos. Compartilhamos ideias. E a\u00ed ela j\u00e1 tinha apresentado a ideia desse filme que, na \u00e9poca, ela queria fazer aqui na Bahia, em Igatu. E tinha uma discuss\u00e3o muito divertida que eu dizia a ela que a hist\u00f3ria se passa no Rec\u00f4ncavo, mas que Igatu \u00e9 cheio de pedra (risos). E a ideia era de que a pedra est\u00e1 associada \u00e0 idade m\u00e9dia, que foi quando veio a Inquisi\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, \u00e9 o resultado de uma parceria de muitos anos. E da\u00ed, depois que eu fiz o filme de Alceu, eu e Elza fomos trocando muitas ideias. Acompanhei de longe a pesquisa e ela me fez esse convite. Abriu essa porta para essa parceria que agora est\u00e1 materializada nas telas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em rela\u00e7\u00e3o ao Figurino, como se deu essa jun\u00e7\u00e3o com a dire\u00e7\u00e3o de arte?<\/strong><br \/>\nMoacyr Gramacho \u2013 No caso do figurino, foi fundamental o olhar de Sayonara Lopes e Ros\u00e2ngela Nascimento, a parceria que elas tiveram. A equipe foi toda para l\u00e1, e a gente teve a oportunidade compor as roupas, de fazer provas de figurino com a atriz dentro das texturas da casa. Ent\u00e3o, a gente p\u00f4de amarelar mais, escurecer mais. No caso da Brites, que vive em uma casa que \u00e9 mais pesada. Dentro da vila, ela tem essa contradi\u00e7\u00e3o. \u00c9 a casa onde acontece um \u00e1pice de viol\u00eancia, mas \u00e9 a casa que seria a melhor. Ent\u00e3o, ela tem fogo de ch\u00e3o. Naquela \u00e9poca, isso era um luxo. Ent\u00e3o, essa \u00e9 uma casa toda feita de taipa, de sap\u00e9, essa t\u00e9cnica tradicional da nossa constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. E a ideia era que a gente tivesse o m\u00e1ximo de contraste, mesmo, entre as texturas e a roupa da Brites. Ela \u00e9 toda dourada. Isso \u00e9 algo que Elza fez quando eu entrei no filme. Ela j\u00e1 tinha feito essa carta de cores das personagens. A Leonor \u00e9 azul, a M\u00e9cia \u00e9 mais para magenta, \u00e9 mais quente e Brites \u00e9 dourada. Ela representa mais a corte. Uma \u00e9 o institucional, a outra \u00e9 mais o emocional e a outra \u00e9 a arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Erick \u2013 Tinha esse contraste de texturas, mas n\u00e3o tinha um contraste de tons.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moacyr \u2013 Isso. Quase um monocrom\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Erick \u2013 \u00c9 quase como se ela fosse enraizada ali naquelas paredes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antes dessa ida para a loca\u00e7\u00e3o em Minas Gerais, como foi o processo inicial de cria\u00e7\u00e3o e pesquisa da dire\u00e7\u00e3o de arte em seu planejamento ainda em Salvador?<\/strong><br \/>\nMoacyr \u2013 Foi muito importante a imers\u00e3o que n\u00f3s fizemos aqui em Salvador. Elza nos deu a possibilidade para isso nesse projeto. Como \u00e9 que foi pesquisa na pr\u00e1tica? Uma coisa \u00e9 pesquisa bibliogr\u00e1fica. Voc\u00ea dizer como \u00e9 que eram feiras as casas. Mas isso \u00e9 um passo anterior. Mas como \u00e9 que voc\u00ea transforma isso em projeto de arte? Elza bancou. Ela alocou verbas, n\u00f3s montamos um ateli\u00ea aqui em Salvador, fizemos v\u00e1rias consultorias, pessoas especializadas em arquitetura, pessoas especializadas em vestimentas. Em paralelo, um outro ateli\u00ea estava sendo montado l\u00e1 em Belo Horizonte, com a Sayonara. E aqui, n\u00f3s desenhamos a arte j\u00e1 a partir do roteiro. Ent\u00e3o, esse momento do projeto de arte foi fundamental. Foram tr\u00eas meses s\u00f3 de pesquisa e desenho, que \u00e9 onde voc\u00ea vai projetar a vila. Como \u00e9 a vila? O que \u00e9 aquela vila? Ela n\u00e3o existia. Aquilo tudo nasceu do zero. E o fundamental foi descobrir uma loca\u00e7\u00e3o que n\u00f3s pud\u00e9ssemos usar. Aquela fazenda da loca\u00e7\u00e3o era um lugar parado no tempo. Ent\u00e3o, temos ali paredes com texturas reais que foram aproveitadas. Tijolos com texturas do tempo que foram aproveitadas. Eu tenho o ch\u00e3o, tenho \u00e1rvores velhas. E eu tenho, acima de tudo, telhas. Toda aquela casa que era do Escobar, a cena da sala, quando, no final, aparecem aqueles pap\u00e9is voando e tem ali todo aquele tabuado, ali era um est\u00e1bulo. Isso da realidade contaminar a interven\u00e7\u00e3o foi muito importante para trazer verdade. Claro que n\u00e3o \u00e9 a pesquisa que faz isso. A\u00ed \u00e9 a pr\u00e1tica. Agora, o que a pesquisa diz: como era o engenho? O engenho era uma m\u00e1quina. O engenho tinha uma fun\u00e7\u00e3o de produzir. Se o cara n\u00e3o produzisse a\u00e7\u00facar, ele estava ferrado. Era a \u00fanica moeda. Anexo a esse engenho, voc\u00ea tinha uma vila de escambo. N\u00e3o existia moeda. O fumo era a moeda, que \u00e9 aquela cena inicial na qual as pessoas estavam trocando. Isso porque Portugal n\u00e3o autorizava as negocia\u00e7\u00f5es. E o que era a moeda? Fumo, peixe, pele. Inclusive, tivemos o requinte de plantar uma ro\u00e7a de fumo que est\u00e1 l\u00e1 impressa no filme. Voc\u00ea v\u00ea aquelas texturas e elas s\u00e3o texturas que plantamos um ano antes. O projeto de arte \u00e9 fundamental. \u00c9 como arquitetura. Voc\u00ea constr\u00f3i depois que tem o projeto. Ent\u00e3o, n\u00f3s projetamos a vila. \u00c9 um trabalho fascinante, sabe? \u00c9 um trabalho onde voc\u00ea cruza informa\u00e7\u00e3o e projeto. E projeto a partir de uma possibilidade de or\u00e7amento. Porque tudo tem que virar um n\u00famero para dizer: &#8220;Elza, eu consigo fazer essa vila com tanto.&#8221; &#8220;Ah, mas a vila vai ter que ser na cidade.&#8221; &#8220;Bom, na cidade eu vou ter que cobrir o ch\u00e3o de terra e vou ter que apagar com efeito digital todos os postes, e vou ter que apagar tudo que \u00e9 esquadria de alum\u00ednio.&#8221; Tudo isso tem um pre\u00e7o. Mas se eu for para uma fazenda onde eu utilize, a\u00ed \u00e9 outra coisa. Est\u00e1 a\u00ed outra coisa que eu achei fundamental e que est\u00e1 atraindo muita gente por conta desse fato que \u00e9 termos constru\u00eddo toda a cenografia usando as t\u00e9cnicas de constru\u00e7\u00e3o em terra. Tabiques, taipa. Principalmente a taipa. A igreja \u00e9 toda feita com taipa de tabique, ou pau a pique, que \u00e9 uma taipa mais robusta. A pesquisa indica que era o que era utilizada. Sabe-se, hoje, atrav\u00e9s de prospec\u00e7\u00f5es, que as primeiras igrejas eram uma estrutura de madeira. Algumas nem tinham porta. O telhado era de sap\u00e9 e depois ia sendo substitu\u00eddo. Entrava telhas, porta. E isso nos edif\u00edcios p\u00fablicos. Os edif\u00edcios civis, como a casa do Tales e da Brites, usamos a taipa de m\u00e3o. Poder ter realizado isso trouxe uma experi\u00eancia que foi \u00fanica. A gente tem, hoje, um contraste que \u00e9 entre os veludos e o requinte do figurino. Essa quase que percep\u00e7\u00e3o t\u00e1ctil da lama, que \u00e9 lama, mesmo, que \u00e9 terra, mesmo. Tem um momento em que a personagem fala: &#8220;essa aqui \u00e9 a minha terra&#8221;. Eu fa\u00e7o um paralelo disso com aquela cenografia. Aquela capela s\u00f3 foi desfeita ap\u00f3s quatro anos. Ficou l\u00e1 em p\u00e9, usada como lugar de visita\u00e7\u00e3o e foi desfeita s\u00f3 agora. Ela \u00e9 constru\u00edda na mata. Por exemplo, n\u00e3o existe, historicamente, uma refer\u00eancia de uma capela constru\u00edda dentro de uma mata. Geralmente, ela \u00e9 feita para ser vista de longe. Aquilo \u00e9 algo que nos ocorreu e a diretora topou porque chegando l\u00e1 naquele lugar, pensamos: &#8220;Caramba! N\u00e3o \u00e9 uma vila de degradados?&#8221; E isso eu acho que \u00e9 um dos elementos mais fortes de toda arte. Essa op\u00e7\u00e3o de fazer tudo escondido.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/08\/28\/entrevista_as_orfas_da_rainha_elza_cataldo\/\"><em>Leia tamb\u00e9m entrevista com Elza Cataldo, diretora de &#8220;As Orf\u00e3s da Rainha&#8221;<\/em><\/a><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-76535\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/asorfas6.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"920\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/asorfas6.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/asorfas6-245x300.jpg 245w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O experiente cen\u00f3grafo e diretor de arte Moacyr Gramacho, e o seu assistente de dire\u00e7\u00e3o de arte Erick Saboya, conversaram com o Scream &#038; Yell logo ap\u00f3s uma sess\u00e3o de imprensa de \u201cAs \u00d3rf\u00e3s da Rainha\u201d (2023).\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/08\/28\/entrevista-tivemos-um-processo-artesao-muito-grande-diz-moacyr-gramacho-diretor-de-arte-do-filme-as-orfas-da-rainha\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":76534,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[6825],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76532"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76532"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76532\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":76537,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76532\/revisions\/76537"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/76534"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76532"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76532"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76532"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}