{"id":76524,"date":"2023-08-28T23:19:24","date_gmt":"2023-08-29T02:19:24","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=76524"},"modified":"2023-10-08T00:38:00","modified_gmt":"2023-10-08T03:38:00","slug":"entrevista_as_orfas_da_rainha_elza_cataldo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/08\/28\/entrevista_as_orfas_da_rainha_elza_cataldo\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;Meu objetivo (com &#8216;As Orf\u00e3s da Rainha&#8217;) sempre foi de tocar nas pessoas de uma forma mais ampla&#8221;, diz Elza Cataldo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe um elemento imprescind\u00edvel no cinema que \u00e9 a sua capacidade de transportar sua audi\u00eancia para o universo no qual a trama de um filme se passa. Uma vez que a uni\u00e3o de elementos como roteiro, dire\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o de arte, figurino, m\u00fasica e atua\u00e7\u00f5es entrem em un\u00edssono, o modo como se torna percept\u00edvel esse elemento, essa citada capacidade da obra de locomover seu p\u00fablico para seu espa\u00e7o f\u00edlmico, \u00e9 recebida pelo espectador atento com regozijo. Conseguir tal intento n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, por\u00e9m. Requer paci\u00eancia, treino, dedica\u00e7\u00e3o e um olhar apurado de pessoas que s\u00e3o chave em uma produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica. \u201cAs \u00d3rf\u00e3s da Rainha\u201d (2023), novo filme da cineasta Elza Cataldo, que conta com a dire\u00e7\u00e3o de arte de Moacyr Gramacho, \u00e9 um exemplo dessa conjun\u00e7\u00e3o feliz de fatores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Situado no Rec\u00f4ncavo Baiano do s\u00e9culo XVI, o longa capta de modo extremamente org\u00e2nico essa capacidade do cinema de nos colocar junto aos seus personagens. Seja por texturas palp\u00e1veis de elementos de cena, bem como pelo uso consciente de sil\u00eancios de maneira a criar uma atmosfera mais intimista, ou pela carga dram\u00e1tica envolvendo os arcos e traumas de suas figuras centrais, \u201cAs \u00d3rf\u00e3s da Rainha\u201d concebe essa sensa\u00e7\u00e3o para o p\u00fablico em uma identifica\u00e7\u00e3o natural com os dramas e dores de suas tr\u00eas protagonistas, nos envolvendo nos pungentes aspectos femininos de sua trama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrito pela pr\u00f3pria diretora Elza Cataldo, em parceria com Pilar Fazito e Newton Cannito, o filme apresenta em sua abertura as irm\u00e3s Leonor (Let\u00edcia Persiles), Brites (Rita Batata) e M\u00e9cia (Camila Botelho), que s\u00e3o enviadas pela rainha de Portugal para o Brasil col\u00f4nia no intuito de se casarem. O duro choque de realidades, juntamente ao ambiente machista e patriarcal, repleto de viol\u00eancia sexual oriunda de uma masculinidade t\u00f3xica, torna aquela jornada um calv\u00e1rio para as tr\u00eas jovens. E isso \u00e9 algo que se amplia exponencialmente com a chegada da inquisi\u00e7\u00e3o religiosa e suas persegui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua pesquisa sobre a inquisi\u00e7\u00e3o no Brasil, Elza, que al\u00e9m de diretora e roteirista, foi professora da UFMG e defendeu sua tese de doutorado em Sorbonne, na Fran\u00e7a, mergulhou em um longo per\u00edodo de estudos. O resultado \u00e9 de uma precis\u00e3o e cuidado percept\u00edveis na abordagem religiosa tanto dos aspectos cat\u00f3licos quando judaicos. &#8220;H\u00e1 quase dez anos, eu me deparei com um verbete em um livro, o Dicion\u00e1rio do Brasil Colonial, do Ronaldo Vainfas&#8221;, relembra Elza. &#8220;O verbete era sobre as \u00f3rf\u00e3s da rainha. Achei um t\u00edtulo instigante. Com isso, comecei uma longa pesquisa sobre a inquisi\u00e7\u00e3o. Tive que ir \u00e0 Espanha, a Portugal, e morei na Bahia por quase dois anos para me inteirar, porque a inquisi\u00e7\u00e3o, factualmente, chega a Salvador e, depois, vai para o Rec\u00f4ncavo. \u00c9 um tema muito complexo, com tr\u00eas protagonistas e v\u00e1rias camadas de hist\u00f3ria, de narrativa. Com isso, eu tive que realmente mergulhar naquele contexto hist\u00f3rico para que pudesse retirar dele um drama hist\u00f3rico ficcional&#8221;, pontua a cineasta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hist\u00f3ria, o trio de roteiristas aborda aspectos denunciat\u00f3rios de um per\u00edodo no qual a mulher era vista como mercadoria, como algo pertencente ao homem em v\u00e1rios aspectos. E nesse sentido, o filme traz de maneira densa a quest\u00e3o das viol\u00eancias pelas quais passam aquelas personagens. E \u00e9 em uma cena densa e dolorosa que um estupro \u00e9 colocado em destaque. Como diretora, Elza Cataldo destaca seu cuidado em abordar aquele momento. &#8220;Eu me aproximei daquelas mulheres em um sentido muito visceral. Queria muito entender o que elas sentiram com essa rela\u00e7\u00e3o com o homem, com a quest\u00e3o feminina, com a quest\u00e3o da viol\u00eancia contra a mulher, o que elas sentiram ao passar aquilo. Procurei atrav\u00e9s de cada uma delas, em situa\u00e7\u00f5es bem diferentes, o que elas poderiam ter vivido&#8221;, destaca Elza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cena em quest\u00e3o traz uma op\u00e7\u00e3o crucial de \u00e2ngulo de c\u00e2mera, com um plong\u00e9e (quando a imagem \u00e9 captada de cima para baixo) que lhe concede uma aspereza ainda mais brutal, mas nem um pouco gratuita. &#8220;A Brites com um marido violento que retrata os homens com essa masculinidade t\u00f3xica, com a quest\u00e3o do patriarcado, com a quest\u00e3o da posse sobre o corpo da mulher. Ela se submete \u00e0quilo por acreditar que aquela era a sua miss\u00e3o, que era o papel, o trabalho dela. Aquilo que a igreja cat\u00f3lica queria e que ela se imbuiu e foi com aquilo at\u00e9 o final, por mais sofrido que tenha sido. A cena do estupro, o plong\u00e9e, era uma tentativa de mostrar ela. N\u00e3o me interessava ver a crueza, a viol\u00eancia especificamente daquele homem. Eu queria entender sobre ela, a partir do seu olhar, o que estava acontecendo ali no corpo dela. Por isso eu fiz um plong\u00e9e&#8221;, detalha Elza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A citada precis\u00e3o na reconstitui\u00e7\u00e3o de \u00e9poca, a partir da dire\u00e7\u00e3o de arte de Moacyr Gramacho, tamb\u00e9m \u00e9 um destaque de \u201cAs \u00d3rf\u00e3s da Rainha\u201d, algo que, nesse un\u00edssono de ideias, conseguiu captar essa necess\u00e1ria organicidade e rimar a Arte com os sil\u00eancios percept\u00edveis de modo natural, como um elemento f\u00edlmico dieg\u00e9tico. Elza explica: &#8220;A organicidade \u00e9 o essencial da nossa arte, de toda a reconstitui\u00e7\u00e3o nossa. E a dire\u00e7\u00e3o de arte est\u00e1 entendendo n\u00e3o s\u00f3 a quest\u00e3o d acenografia, como a quest\u00e3o do figurino e tudo que indica, ali, uma reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Voc\u00ea usou a palavra que eu mais gosto. Uma palavra que eu uso, eu tendo usar, mas voc\u00ea usou antes de mim, e eu fico feliz que isso tenha acontecido: organicidade. A gente a buscou o tempo todo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o espectador atento, \u00e9 bem recompensador perceber a conjun\u00e7\u00e3o exata que o resultado dessa uni\u00e3o de mentes traz. Em um filme cujo ritmo destoa tanto de um acelerado cinema atual, de cortes r\u00e1pidos e herm\u00e9tico, \u00e9 \u00f3timo adentrar em um trabalho que te convida a outro meio de reflex\u00e3o e que prima por essa capacidade de te deslocar no tempo por duas horas. Nesse papo com o Scream &amp; Yell, Elza detalha mais como se deu todo o processo que, agora, se concretiza com o filme. Confira!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/08\/28\/entrevista-tivemos-um-processo-artesao-muito-grande-diz-moacyr-gramacho-diretor-de-arte-do-filme-as-orfas-da-rainha\/\">Leia tamb\u00e9m entrevista com o\u00a0diretor de arte Moacyr Gramacho, e o seu assistente Erick Saboya<\/a><\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"As \u00d3rf\u00e3s da Rainha | Trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0UQXlt9dSls?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cAs \u00d3rf\u00e3s da Rainha\u201d finalmente estreia ap\u00f3s um longo per\u00edodo no qual voc\u00ea realizou uma extensa pesquisa. Poderia falar um pouco sobre como se deu processo e como foi seu embri\u00e3o?<\/strong><br \/>\nO projeto de fazer um filme, em geral, \u00e9 longo. Principalmente um filme hist\u00f3rico. H\u00e1 quase dez anos (ou at\u00e9 mesmo h\u00e1 mais de dez anos), eu me deparei com um verbete em um livro, o Dicion\u00e1rio do Brasil Colonial, do Ronaldo Vainfas, sobre as \u00f3rf\u00e3s da rainha. Naquele momento ali, eu entendi que seria um bom t\u00edtulo de um filme. Um t\u00edtulo instigante, como acho at\u00e9 hoje. Com isso, comecei uma longa pesquisa sobre a inquisi\u00e7\u00e3o. Tive que ir \u00e0 Espanha, a Portugal, e morei na Bahia por quase dois anos para me inteirar, porque a inquisi\u00e7\u00e3o, factualmente, chega a Salvador e, depois, vai para o Rec\u00f4ncavo. \u00c9 um tema muito complexo, com tr\u00eas protagonistas e v\u00e1rias camadas de hist\u00f3ria, de narrativa. Com isso, eu tive que realmente mergulhar naquele contexto hist\u00f3rico para que pudesse retirar dele um drama hist\u00f3rico ficcional. Porque, afinal, \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. Mas, embora seja fic\u00e7\u00e3o, ele est\u00e1 totalmente inspirado e embasado nessa pesquisa factual e hist\u00f3rica. A quest\u00e3o dos anos de pr\u00e9 produ\u00e7\u00e3o tem a ver com a viabiliza\u00e7\u00e3o do filme. Estou falando em termos de viabiliza\u00e7\u00e3o financeira, porque eu sou produtora, tamb\u00e9m. Tive que fazer uma estrat\u00e9gia de forma que pudesse caminhar etapa por etapa. E foi assim que eu consegui fazer. Comecei com a lei estadual de Incentivo \u00e0 Cultura, em 2017. Quando entra o primeiro or\u00e7amento do filme, a primeira viabiliza\u00e7\u00e3o financeira, \u00e9 que a gente come\u00e7a a contar de uma forma mais concreta. Anteriormente, foi pesquisa. Foram v\u00e1rios tratamentos do roteiro at\u00e9 chegar em 2017, quando consegui o primeiro aporte de patroc\u00ednio, que foi via lei estadual de Incentivo \u00e0 Cultura com a empresa Energisa. Com esse aporte, come\u00e7amos realmente em termos de equipe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 bem percept\u00edvel na hist\u00f3ria a import\u00e2ncia do conceito visual daquele lugar que, no filme, representa o Rec\u00f4ncavo Baiano do s\u00e9culo XVI. Na dire\u00e7\u00e3o de arte, voc\u00ea contou com o experiente cen\u00f3grafo e arquiteto, Moacyr Gramacho. Como foi essa parceria?<\/strong><br \/>\nQuando convidei o Moacyr Gramacho, que, por sua vez, convidou a equipe dele, trazendo o Erick Saboya, o Luiz Parras e a Renata Marques, eles come\u00e7aram a se inserir dentro do processo. Foi quando tomamos uma decis\u00e3o muito pertinente para a hist\u00f3ria que quer\u00edamos contar: n\u00f3s decidimos construir uma cidade cenogr\u00e1fica, processo que levou dois anos para ser conclu\u00eddo. A partir da\u00ed \u00e9 que vieram os editais da Ancine, do FSA, do BRDE. Em 2017, come\u00e7amos a constru\u00e7\u00e3o da cidade cenogr\u00e1fica, que foi uma constru\u00e7\u00e3o bastante complexa. Para isso, eu contei com o talento e a compet\u00eancia do Moacyr e dessa equipe da Bahia. O Mooca, al\u00e9m de toda a compet\u00eancia conceitual, de pesquisa, de mergulho, a profundidade que ele tem enquanto profissional, ele era, tamb\u00e9m, muito importante porque ele trazia a Bahia para o filme. A gente acabou fazendo o filme em uma pequena cidade no interior de Minas Gerais chamada Tocantins. Uma localidade bem pequena e, n\u00e3o por acaso, a minha cidade natal. Ent\u00e3o, eu falo que eu peregrinei muito com esse filme. Eu fui para o Rio, fui para a Bahia, at\u00e9 que fui fazer um filme n\u00e3o s\u00f3 em Minas Gerais, que \u00e9 o meu estado, como na minha cidade natal, a cidade de meu pai. L\u00e1, eu tive a oportunidade de ter uma fazenda \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de uma atitude generosa de um propriet\u00e1rio. Acabou que foi l\u00e1 que a gente construiu essa cidade cenogr\u00e1fica. E tivemos o tempo para fazer isso. Porque o tempo, apesar de ser um tempo cruel para quem est\u00e1 ali, principalmente para mim que estou h\u00e1 anos e anos, ele tem benef\u00edcios, tamb\u00e9m. O tempo, para a nossa cidade cenogr\u00e1fica, trouxe a verdade. Tem musgo, tem planta que desce pelo telhado. A regi\u00e3o \u00e9 muito \u00famida e, com isso, floresceu muita coisa naquele per\u00edodo. Acabou que nos dois anos de constru\u00e7\u00e3o da cidade cenogr\u00e1fica, a capela ficou muito mais org\u00e2nica. Isso trouxe uma verdade, tamb\u00e9m. E pouca gente entende que \u00e9 uma cidade cenogr\u00e1fica. Muita gente, quando eu falo, se espanta um pouco. Mas \u00e9 porque a gente optou, tamb\u00e9m, por uma metodologia que unia a constru\u00e7\u00e3o civil e a cenografia. Tanto \u00e9 que, at\u00e9 hoje, grande parte dela est\u00e1 l\u00e1 de p\u00e9. Ficou firme. Ficou verdadeira. Era isso que a gente queria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fisicamente, \u00e9 bem percept\u00edvel o equil\u00edbrio de seu trabalho e o de Moacyr com sua equipe. \u00c9 algo que me fez penetrar naquele per\u00edodo de um modo muito org\u00e2nico, muito espont\u00e2neo. \u00c9 dif\u00edcil conseguir esse resultado na recria\u00e7\u00e3o de \u00e9poca com tamanha organicidade, principalmente por existir poucas imagens. Como foi esse processo de pesquisa?<\/strong><br \/>\nEu acho que voc\u00ea captou o essencial da nossa arte, de toda a reconstitui\u00e7\u00e3o nossa. E a dire\u00e7\u00e3o de arte est\u00e1 entendendo n\u00e3o s\u00f3 a quest\u00e3o da cenografia, como a quest\u00e3o do figurino e tudo que indica, ali, uma reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Voc\u00ea usou a palavra que eu mais gosto. Uma palavra que uso, eu tendo usar, mas voc\u00ea usou antes de mim, e fico feliz que isso tenha acontecido: organicidade. A gente buscou essa organicidade o tempo todo. Aquelas paredes foram todas feita \u00e0 m\u00e3o. O filme tem uma coisa artesanal muito forte. Elas foram todas constru\u00eddas com a m\u00e3o humana, como era na \u00e9poca. Trouxemos os materiais que, tamb\u00e9m, eram usados na \u00e9poca. Trouxemos para os telhados o sap\u00ea, que tamb\u00e9m era usado na \u00e9poca. O tran\u00e7ado do sap\u00ea era exatamente dessa forma que a gente fez? Possivelmente n\u00e3o, porque n\u00e3o temos dado hist\u00f3rico mais detalhado. Mas o resultado era aquele. Para a pesquisa iconogr\u00e1fica, foi bem complicado porque n\u00e3o t\u00ednhamos uma iconografia brasileira sobre o per\u00edodo. \u00c9 um per\u00edodo no qual n\u00e3o t\u00ednhamos representa\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica. A gente vai ter com Hans Staden no livro dele alguns desenhos na quest\u00e3o ind\u00edgena, de tribos e que, tamb\u00e9m, serviu de refer\u00eancia para alguns momentos do filme. Mas a gente n\u00e3o tinha, por exemplo, o que come\u00e7amos a ter no in\u00edcio do s\u00e9culo XVII com Frans Post. Quando ele chegou, no per\u00edodo de Nassau, em Pernambuco, ele retratou de uma forma bem detalhada o Brasil da \u00e9poca, do s\u00e9culo XVII. A gente estabeleceu a hip\u00f3tese de que, no final do s\u00e9culo XVI para o XVII, n\u00e3o teriam ocorrido tantas mudan\u00e7as significativas na forma de construir, na forma de usar os materiais. Ent\u00e3o, o Frans Post foi uma grande refer\u00eancia para n\u00f3s. Era a \u00fanica refer\u00eancia iconogr\u00e1fica poss\u00edvel que a gente tinha. E fizemos algumas adapta\u00e7\u00f5es para ficar mais r\u00fastico, para ficar mais tosco, para ficar mais &#8220;selvagem&#8221;, do jeito que deveria ser no s\u00e9culo XVI. Tivemos muito cuidado com essa pesquisa de como construir, do que construir, qual material usar. Mas, \u00e9 um filme. Ent\u00e3o, o que nos interessava \u00e9 o resultado est\u00e9tico disso. A ambi\u00eancia, a sensa\u00e7\u00e3o que a pessoa vai ter ao ver aquela imagem. A sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento naquela imagem. De entender, de entrar. E, ao mesmo tempo, uma sensa\u00e7\u00e3o de estranhamento. A palavra estranhamento \u00e9 uma palavra da qual eu gosto muito, tamb\u00e9m. De causar na pessoa o estranhamento que causaria \u00e0quelas \u00f3rf\u00e3s da rainha ao chegar ao Brasil no s\u00e9culo XVI. Tanto \u00e9 que, quando o filme come\u00e7a depois dos cr\u00e9ditos e que come\u00e7a com elas chegando a Vila Morena, tem um desamparo ali nelas por estar naquele lugar t\u00e3o in\u00f3spito, t\u00e3o selvagem. Elas eram criadas na corte. Ent\u00e3o, o meu desejo era que, como elas, o espectador chegasse, tamb\u00e9m, naquele lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu filme aborda de maneira forte a quest\u00e3o feminina. A ideia de trazer de modo t\u00e3o pungente a quest\u00e3o do abuso, a quest\u00e3o da masculinidade t\u00f3xica, daquela sociedade patriarcal, na qual as mulheres eram consideradas mercadorias pertencentes \u00e0queles homens. A cena do estupro, quando voc\u00ea opta por capt\u00e1-la naquele \u00e2ngulo plong\u00e9e, \u00e9 uma cena bem forte nesse sentido, para mostrar como o asco daquele momento era percept\u00edvel. Foi doloroso para voc\u00ea como diretora e co-roteirista abordar esses aspectos relacionados \u00e0 viol\u00eancia?<\/strong><br \/>\nEmbora eu estivesse j\u00e1 h\u00e1 alguns anos pesquisando de uma forma mais objetiva, como te falei, em outros pa\u00edses como Espanha e Portugal, e tamb\u00e9m nos mais de trezentos livros que li para escrever o roteiro junto com Pilar (Fazito) e com o Newton (Cannito), o que sinto para te dizer \u00e9 o seguinte: o roteiro vem de um sentimento. E estou usando o verbo n\u00e3o por acaso. Uma tentativa, e acredito que em alguns momentos de uma forma bem-sucedida, de me aproximar daquelas mulheres. E eu me aproximei daquelas mulheres em um sentido muito visceral, tamb\u00e9m. Eu queria muito entender o que elas sentiram. O que elas sentiam com essa rela\u00e7\u00e3o com o homem, com a quest\u00e3o feminina, com a quest\u00e3o da viol\u00eancia contra a mulher, o que elas sentiram ao passar aquilo. Procurei atrav\u00e9s de cada uma delas, em situa\u00e7\u00f5es bem diferentes, o que elas poderiam ter vivido. A Brites com um marido violento, muito violento. E que retrata os homens com essa masculinidade t\u00f3xica, com a quest\u00e3o do patriarcado, com a quest\u00e3o da posse sobre o corpo da mulher. E se apresenta essa mulher, que se submete \u00e0quilo por acreditar que aquela era sua miss\u00e3o dela, o trabalho dela, o papel dela. Aquilo que a igreja cat\u00f3lica queria e que ela se imbuiu e foi com aquilo at\u00e9 o final, por mais sofrido que tenha sido. Ent\u00e3o, a cena do estupro, o plong\u00e9e que voc\u00ea observou muito bem, era uma tentativa de mostrar ela. N\u00e3o me interessava ver a crueza, a viol\u00eancia especificamente daquele homem. Eu queria entender sobre ela, a partir do olhar dela, o que estava acontecendo ali no corpo dela. E por isso eu fiz um plong\u00e9e. \u00c9 muito interessante que quando voc\u00ea escreve e dirige ao mesmo tempo, voc\u00ea escreve e j\u00e1 vai pensando na dire\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, aquele \u00e2ngulo da c\u00e2mera ali, a coloca\u00e7\u00e3o daquela c\u00e2mera ali, desde o in\u00edcio, eu falei com a diretora de fotografia, a Fernanda Tanaka, tamb\u00e9m uma mulher, que eu queria um plong\u00e9e ali. Acho que \u00e9 isso que vai mostrar o corpo dela por inteiro e a sua rea\u00e7\u00e3o visceral \u00e0quela viol\u00eancia que estava sofrendo. Depois, mesmo no caso da Brites, quando ele bate nela, eu n\u00e3o mostrei. A c\u00e2mera ficou do lado de fora da casa. A gente s\u00f3 escuta os ru\u00eddos. A viol\u00eancia vem pelo som. E posso te dizer que, enquanto diretora ali, mesmo captando somente o \u00e1udio, eu, Rita Batata, Alexandre Cioletti, que eram os atores, e mais o Gustavo, que era o t\u00e9cnico de \u00e1udio, s\u00f3 n\u00f3s dentro da casa, e eu trazendo para eles a situa\u00e7\u00e3o daquela cena. E vou te falar: ficamos muito emocionados de captar o \u00e1udio. Somente o \u00e1udio. Era uma coisa muito forte para n\u00f3s. Para n\u00f3s, enquanto mulheres ali, Rita e eu, e para o Alexandre, que \u00e9 um homem contempor\u00e2neo, um homem que tem toda uma vis\u00e3o cr\u00edtica, tamb\u00e9m, a essa quest\u00e3o da viol\u00eancia, foi dif\u00edcil para ele fazer o Thales. Tanto \u00e9 que tem uma coisa muito bonita que aconteceu no processo que o Alexandre e a Rita estabeleceram, uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima entre eles: antes de come\u00e7ar a cena, eles se abra\u00e7aram. Porque sabiam que a cena ia ser muito violenta. Eles se abra\u00e7avam, estabeleciam uma conex\u00e3o entre eles e faziam a cena violenta. Principalmente a cena do estupro que foi bem dif\u00edcil de ser filmada. Eles faziam aquelas cenas violentas, quando cortava pela \u00faltima vez, eles se abra\u00e7avam de novo. Eles se reconhecem ali como seres humanos sens\u00edveis \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A personagem da M\u00e9cia possui aquela deforma\u00e7\u00e3o no p\u00e9 e voc\u00ea cria uma rima visual muito eficiente com aquela imagem da fruta-do-conde, que aqui na Bahia \u00e9 conhecida como pinha. Fiquei com impress\u00e3o daquilo ser resultado de um enfaixamento, por exemplo. E a situa\u00e7\u00e3o f\u00edsica da personagem acaba por delinear muito bem sua personalidade.<\/strong><br \/>\nO caso do p\u00e9 da M\u00e9cia \u00e9, tamb\u00e9m, muito interessante. A M\u00e9cia tinha uma defici\u00eancia no p\u00e9, que n\u00e3o fica muito claro na hist\u00f3ria se seria ali uma quest\u00e3o, como voc\u00ea falou, de enfaixamento, de alguma coisa ligada a alguma a\u00e7\u00e3o que ela teria feito. Mas eu acho, na minha concep\u00e7\u00e3o, mesmo n\u00e3o sendo algo que apare\u00e7a no filme, acho que era uma coisa de nascen\u00e7a. Ela teria nascido daquele jeito. E o fato dela ter nascido daquele jeito, coloca uma for\u00e7a maior porque as mulheres com um tipo de defici\u00eancia f\u00edsica eram consideradas amaldi\u00e7oadas. E essas mulheres n\u00e3o se casavam. Eles falavam que esse tipo de mulher trazia maldi\u00e7\u00e3o para dentro de casa. Ent\u00e3o, a M\u00e9cia acaba n\u00e3o se casando por isso. E por isso tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o dela com um ind\u00edgena, que via aquilo de uma outra forma. Voc\u00ea fez uma rima visual muito interessante, que era a minha inten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m na quest\u00e3o da fruta do conde, que \u00e9 \u00e1spera, enrugada, quase como uma coisa deformada. E o p\u00e9 da M\u00e9cia era deformado. E tinha uma dor tamb\u00e9m naquilo quando ela andava. Ent\u00e3o, a M\u00e9cia, com a rela\u00e7\u00e3o dela com o ind\u00edgena, eu quis retratar um outro tipo de homem. Eu quis colocar tamb\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o do judeu. Busquei uma rela\u00e7\u00e3o com conhecimento. Tem uma parte que eu gosto muito que \u00e9 a hora em que ele fala com ela: &#8220;Aqui, nessa casa, a senhora n\u00e3o precisa esconder vossas leituras.&#8221; Isso \u00e9 uma coisa muito pr\u00f3xima \u00e0 comunidade judaica, que \u00e9 a quest\u00e3o do conhecimento. Eles t\u00eam um respeito muito grande para com a quest\u00e3o da cultura, do conhecimento, da informa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a Leonor, a gente poderia dizer que ela teve uma sorte muito melhor. Como Dona Ana falou para Brites, quando disse que ela n\u00e3o teve sorte no casamento. A Brites, realmente, n\u00e3o teve.<\/p>\n<p>\u00a0<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-76527 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/asorfas2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/asorfas2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/asorfas2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 sempre um caminho delicado o de abordar a religi\u00e3o, seja ela qual for. E \u00e9 bem not\u00e1vel como voc\u00ea traz os aspectos judaicos ao roteiro e ao filme. Do mesmo modo, mesmo havendo necess\u00e1rio o olhar cr\u00edtico contra a inquisi\u00e7\u00e3o e suas persegui\u00e7\u00f5es, a religi\u00e3o cat\u00f3lica n\u00e3o \u00e9 colocada contra a judaica aqui. Como voc\u00ea criou essa estrutura de abordagens de temas t\u00e3o delicados?<\/strong><br \/>\nEu tive muito cuidado na pesquisa da quest\u00e3o judaica. Exatamente porque eu n\u00e3o sou judia, eu sou cat\u00f3lica. E at\u00e9 falei isso quando apresentei o filme para a comunidade judaica em uma sess\u00e3o que foi muito linda, muito emocionante. \u00c9 at\u00e9 meio misterioso esse meu interesse por essa quest\u00e3o, porque eu venho de uma fam\u00edlia cat\u00f3lica. Mas n\u00e3o \u00e9 porque eu venho de uma fam\u00edlia cat\u00f3lica, n\u00e3o \u00e9 porque eu seja cat\u00f3lica, que eu n\u00e3o seja cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao que aconteceu com a crueldade da inquisi\u00e7\u00e3o. O meu olhar sobre a inquisi\u00e7\u00e3o \u00e9 um olhar cr\u00edtico, obviamente. Eu n\u00e3o poderia mostrar aquilo de outra forma. Embora seja sempre bom lembrar que o inquisidor, aqueles que trabalhavam na inquisi\u00e7\u00e3o, eles acreditavam naquilo. Eles tinham aquilo ali como dogma, mesmo, e acreditavam que estavam fazendo o certo. Mas houve um processo muito cruel de persegui\u00e7\u00e3o, de ruptura muito grande por onde a inquisi\u00e7\u00e3o passou. Uma ruptura dos la\u00e7os familiares, dos la\u00e7os amorosos, dos la\u00e7os comerciais. Onde passava a inquisi\u00e7\u00e3o, rompia-se o tecido social. Isso a\u00ed \u00e9 uma coisa que eu entendi muito bem estudando a obra do Ronaldo Vainfas, que \u00e9 um dos grandes especialistas da inquisi\u00e7\u00e3o no Brasil. Ele \u00e9, tamb\u00e9m, consultor do filme, e me trouxe essa obra super profunda, principalmente no livro chamado \u201cConfiss\u00f5es da Bahia\u201d. Ele traz essa an\u00e1lise e, tamb\u00e9m, traz aquilo que foi falado diante do inquisidor. Porque a inquisi\u00e7\u00e3o passou e por onde passou ela perseguiu e registrou. No Brasil, ela registrou nove livros de confiss\u00f5es e denuncia\u00e7\u00f5es. Desses nove, ficaram quatro. O Ronaldo trabalhou especialmente no chamado &#8220;Confiss\u00f5es da Bahia&#8221;, que era um desses livros. E ele fez uma coisa muito importante para mim, claro, para o contexto todo de conhecimento hist\u00f3rico do Brasil. Porque ele adaptou a linguagem do s\u00e9culo XVI a uma linguagem compreens\u00edvel hoje. E essa foi uma op\u00e7\u00e3o que eu fiz de linguagem. Eu queria uma linguagem que fosse compreendida atualmente. Ent\u00e3o, o filme \u00e9 falado em um portugu\u00eas praticamente atual. S\u00f3 tem algumas palavras, como &#8220;cousa&#8221;, que \u00e9 algo que de vez em quando aparece para trazer um pequeno estranhamento. Mas \u00e9 uma linguagem atual. Porque o meu objetivo sempre foi de tocar nas pessoas de uma forma mais ampla. Que n\u00e3o precisasse a pessoa conhecer a hist\u00f3ria da inquisi\u00e7\u00e3o para que entendesse o filme. Porque o que precisa ser entendido da inquisi\u00e7\u00e3o para aquela trama, para aquele arco dram\u00e1tico, estaria contido no pr\u00f3prio filme. Ent\u00e3o, eu procurei trazer, por exemplo, o monit\u00f3rio. O que era considerado heresia? A gente lista isso. A carta de monit\u00f3rio \u00e9 lida. Ela mostra o quanto que \u00e9 quase surrealista e incompreens\u00edvel voc\u00ea perseguir uma pessoa porque ela coloca roupas limpas aos s\u00e1bados. Isso era um ind\u00edcio do juda\u00edsmo, de atos judaizantes. O que \u00e9 bom tamb\u00e9m a gente lembrar que a quest\u00e3o n\u00e3o era ser crist\u00e3o novo. Ser crist\u00e3o novo era uma coisa que foi, de uma certa forma, legalizado. Porque eles foram batizados \u00e0 for\u00e7a. Ent\u00e3o, estavam ali na condi\u00e7\u00e3o que Portugal os colocou. Acontece que o problema eram os atos judaizantes. Era voc\u00ea ser crist\u00e3o novo e continuar a professar a religi\u00e3o judaica em segredo. Esta que era a grande quest\u00e3o. E na carta do monit\u00f3rio vem os ind\u00edcios da religi\u00e3o judaica, como, por exemplo, matar o frango daquela forma. E eu mostro isso. O legal do cinema, tamb\u00e9m, \u00e9 que a gente conta visualmente. Ent\u00e3o, na primeira parte do filme acontecem coisas que a gente vai inserindo ali na vida delas, nessa dif\u00edcil adapta\u00e7\u00e3o delas ao novo mundo. Depois, n\u00f3s vamos perceber que aquele ali \u00e9 o objeto da inquisi\u00e7\u00e3o. Agora, eu me cerquei muito de consultores. Tive consultoria de Ronado Vainfas sobre a inquisi\u00e7\u00e3o, tive consultoria da Mary Del Priori sobre a hist\u00f3ria das mulheres, consultoria da l\u00edngua latina, da quest\u00e3o ind\u00edgena, e uma consultoria muito importante foi a do rabino Uri Lam, que \u00e9 um rabino que nos orientou com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s rezas judaicas e aos ritos judaicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme usa os sil\u00eancios como um dos elementos narrativos, bem como voc\u00ea opta por n\u00e3o usar uma trilha sonora incidental para demarcar cenas de maneira manipuladora do espectador. E isso ajuda muito na cria\u00e7\u00e3o do ritmo que falamos anteriormente.<\/strong><br \/>\nMais uma vez voc\u00ea pegou em um ponto muito importante. Quando pensei na concep\u00e7\u00e3o da trilha sonora, quando eu fui conversar com o David Tygel, que \u00e9 o nosso diretor musical, sobre o conceito musical do filme, eu falei que n\u00e3o queria uma trilha ilustrativa. N\u00e3o quero uma trilha&#8230; voc\u00ea falou a palavra manipuladora, ou condutora do espectador. N\u00e3o quero que a trilha conduza. Eu gostaria que a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica trouxesse esse sentimento. Com isso, voc\u00ea tem um ritmo. N\u00e3o vamos esquecer, tamb\u00e9m, que esse \u00e9 um filme, embora seja com um tema cruel, complexo o bastante, e at\u00e9 visceral em alguns momentos, mas ele pretende, tamb\u00e9m, ter um olhar mais delicado sobre isso. E essa delicadeza vem atrav\u00e9s de algo que&#8230; (pausa) A gente poderia chamar ou n\u00e3o assim, pois \u00e9 uma coisa pol\u00eamica, mas poder\u00edamos dizer ou n\u00e3o que ela vem com a dire\u00e7\u00e3o feminina, que \u00e9 sempre uma coisa um pouco pol\u00eamica. Mas vamos dizer que seria uma tentativa de fazer uma dire\u00e7\u00e3o mais delicada, se voc\u00ea me permitir esse termo, e uma dire\u00e7\u00e3o que desse a chance ao espectador de ver, de contemplar a imagem. E n\u00e3o de ser atropelado por um ritmo muito forte e que uma cena passasse muito r\u00e1pido para a outra. Ent\u00e3o, o sil\u00eancio foi, tamb\u00e9m, um elemento de dramaturgia do filme. Naquele momento em que a M\u00e9cia vai para a floresta, quando ela fica contemplativa, pois a M\u00e9cia tem um pouco essa fun\u00e7\u00e3o de contempla\u00e7\u00e3o, aquilo ali eu deixo o espectador ir junto com ela. Sentir junto \u00e0quela floresta. Para que depois, aos poucos, venha uma trilha, mas sempre uma coisa muito delicada, para poder trazer essa sensa\u00e7\u00e3o. E sempre, tamb\u00e9m, tentando n\u00e3o ficar pegando o espectador pela m\u00e3o, n\u00e3o ficar puxando o espectador. Deixa-lo entrar naquele ritmo e entender. Porque n\u00f3s estamos falando do s\u00e9culo XVI. O espectador tem que ter o tempo dele ali, tamb\u00e9m, para entrar naquele tempo t\u00e3o remoto. Ent\u00e3o, a nossa reconstitui\u00e7\u00e3o foi toda pensada nisso e a dire\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m. Est\u00e1 tudo junto. Porque a dire\u00e7\u00e3o de arte vem \u00e0 servi\u00e7o de uma determinada concep\u00e7\u00e3o mais geral. A trilha, tamb\u00e9m. O figurino, tamb\u00e9m. Tudo tem que conversar. E eu sempre procuro conversar com os v\u00e1rios departamentos e, tamb\u00e9m, n\u00e3o perder \u2013 e isso \u00e9 uma coisa importante \u2013 o foco que eu tinha imaginado desde o in\u00edcio. Porque se perdemos o foco no momento da capta\u00e7\u00e3o da imagem, do \u00e1udio, a gente, depois, n\u00e3o tem o filme que queremos fazer. Ent\u00e3o, ali, tem que ficar bastante firme naquele prop\u00f3sito de deixar a coisa vir e ter esse tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 bem percept\u00edvel essa quest\u00e3o que voc\u00ea fala de alcan\u00e7ar o tempo exato do filme em cenas como a que voc\u00ea consegue captar emo\u00e7\u00f5es genu\u00ednas, como a da crian\u00e7a nativa que chora.<\/strong><br \/>\nSim, a crian\u00e7a curumim. Aquela cena em que a Brites o coloca ali naquele lugar e que depois vem o porco e ele \u00e9 levado. Aquela \u00e9 uma crian\u00e7a ind\u00edgena que nem falava portugu\u00eas. Todas aquelas crian\u00e7as s\u00e3o de tribos que n\u00e3o falam portugu\u00eas. Foi necess\u00e1ria uma pessoa que me ajudou na tradu\u00e7\u00e3o com aquelas crian\u00e7as. E quando a Brites o colocou ali, por sorte ele n\u00e3o correu. E ele chora. Aquele choro permanece um tempo. At\u00e9 foi dif\u00edcil para mim como diretora deixar uma crian\u00e7a chorando na minha frente. Mas como n\u00e3o tinha ningu\u00e9m batendo nele, n\u00e3o tinha nada acontecendo de cruel, ele s\u00f3 estava assustado, eu decidi manter um pouquinho. Depois que cortou a cena, a m\u00e3e veio, acolheu a crian\u00e7a e em um instante ela parou de chorar. Mas aquele choro dele ali \u00e9 muito impactante. E a\u00ed voc\u00ea tem que ter o tempo do choro. Ent\u00e3o, realmente, o filme foi pensando para dar esse tempo para a pessoa entrar naquele universo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a escolha dos efeitos digitais a representar o imagin\u00e1rio do estrangeiro sobre o Brasil? Como voc\u00ea chegou \u00e0quele resultado de inser\u00e7\u00f5es digitais sobre as cenas?<\/strong><br \/>\nO que ajudou nesse processo que foi complexo, como voc\u00ea pode imaginar, foi que eu trabalhei com os t\u00e9cnicos de efeitos digitais muito antes. N\u00f3s come\u00e7amos a trabalhar aquela concep\u00e7\u00e3o de efeitos no roteiro. E em alguns momentos eles me acompanharam nas filmagens, tamb\u00e9m. O conceito, que voc\u00ea captou muito bem, era o imagin\u00e1rio do s\u00e9culo XVI sobre o Brasil. Leonor era uma mulher que sabia ler e escrever. Ela foi criada na corte. Ent\u00e3o, ela teve esse tipo de situa\u00e7\u00e3o, de privil\u00e9gio, pois ela foi criada tendo \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o a biblioteca da corte. E ela lia muito, algo que j\u00e1 era excepcional para uma mulher da \u00e9poca. Ela lia e escrevia. Aquele texto foi inspirado de cronistas da \u00e9poca que viam o Brasil daquele jeito. Ent\u00e3o, esses efeitos foram feitos sempre com a voz em off da Leonor. A Leonor \u00e9 quem traz aquele imagin\u00e1rio, que \u00e9 o do europeu sobre o novo mundo. Eles achavam que era o que estava ali. E a gente criou aquelas figuras com uma liberdade, porque a\u00ed, sim, \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o. Quer\u00edamos que fosse como Leonor conseguiria at\u00e9 desenhar ou visse desenhado. Porque esse livro do Hans Staden, do s\u00e9culo XVI, chegou a Portugal. Foi, inclusive, um livro muito lido e muito visto. E os desenhos eram muito toscos. Ent\u00e3o, eu procurei incorporar \u00e0queles efeitos as refer\u00eancias est\u00e9ticas que eles tinham sobre o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/08\/28\/entrevista-tivemos-um-processo-artesao-muito-grande-diz-moacyr-gramacho-diretor-de-arte-do-filme-as-orfas-da-rainha\/\">Leia tamb\u00e9m entrevista com o\u00a0diretor de arte Moacyr Gramacho, e o seu assistente Erick Saboya<\/a><\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-76525\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/asorfas1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1108\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/asorfas1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/asorfas1-203x300.jpg 203w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Num filme cujo ritmo destoa tanto de um acelerado cinema atual, de cortes r\u00e1pidos e herm\u00e9tico, \u00e9 \u00f3timo adentrar em um trabalho que te convida a outro meio de reflex\u00e3o e que prima por essa capacidade de te deslocar no tempo por duas horas\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/08\/28\/entrevista_as_orfas_da_rainha_elza_cataldo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":76526,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[6825],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76524"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76524"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76524\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":76539,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76524\/revisions\/76539"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/76526"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76524"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76524"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76524"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}