{"id":75850,"date":"2023-07-08T21:24:00","date_gmt":"2023-07-09T00:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=75850"},"modified":"2023-08-01T01:54:39","modified_gmt":"2023-08-01T04:54:39","slug":"entrevista-isabela-sancho-fala-sobre-seu-novo-livro-de-contos-a-nudez-extinta-que-investiga-as-nuances-do-trauma-e-da-perda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/07\/08\/entrevista-isabela-sancho-fala-sobre-seu-novo-livro-de-contos-a-nudez-extinta-que-investiga-as-nuances-do-trauma-e-da-perda\/","title":{"rendered":"Entrevista: Isabela Sancho fala sobre seu novo livro de contos, &#8220;A Nudez Extinta&#8221;, que investiga as nuances do trauma e da perda"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/navionoespaco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcela G\u00fcther<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeira publica\u00e7\u00e3o em prosa da escritora, ilustradora e psicanalista <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/isabela.sancho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Isabela Sancho<\/a>, o livro de contos \u201c<a href=\"https:\/\/editoraurutau.com\/titulo\/a-nudez-extinta\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Nudez Extinta<\/a>\u201d (Editora Urutau, 113 p\u00e1g.) revela um novo processo criativo da escritora, que tamb\u00e9m perpassa sua rela\u00e7\u00e3o com a psican\u00e1lise. Ao trazer as diferentes nuances do trauma, \u201cA Nudez Extinta\u201d explora uma diversidade de temas como o luto e o isolamento familiar, a repress\u00e3o estrutural contra grupos dissidentes, o esvaziamento ps\u00edquico, a idea\u00e7\u00e3o suicida e, at\u00e9 mesmo, a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isabela conta com uma extensa trajet\u00f3ria na poesia, que acumula sete obras, al\u00e9m de um livro infantil. Sancho tamb\u00e9m alcan\u00e7ou certa notoriedade ao longo dos anos, tendo sido vencedora do Pr\u00eamio Literatura e Fechadura com \u201cOlho d&#8217;\u00e1gua, espelho d&#8217;alma\u201d, finalista do Pr\u00eamio Guarulhos de Literatura por \u201cMonstera\u201d (Editora Urutau) e recebido Men\u00e7\u00e3o Honrosa por duas vezes no Pr\u00e9mio Liter\u00e1rio Gl\u00f3ria de Sant&#8217;Anna, de Portugal, com os livros \u201cAs flores se recusam\u201d (Editora Patu\u00e1) e \u201cA depress\u00e3o tem sete andares e um elevador\u201d (Editora Penalux). Tem escritos publicados em jornais, revistas e portais no Brasil, It\u00e1lia, Portugal, Galiza e Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como ilustradora, Sancho \u00e9 mais conhecida por seus trabalhos no livro de poemas \u201cAs Mulheres de Hopper\u201d (Editora Patu\u00e1), obra da poeta K\u00e1tia Marchese \u2014 vencedora do ProAC\/SP na categoria de poesia \u2014, e no livro de contos \u201cTantas que aqui passaram\u201d, da escritora e editora Maria Luiza Machado, idealizadora da Morma\u00e7o Editorial. Sancho tamb\u00e9m ilustrou as pr\u00f3prias obras, incluindo seu mais recente lan\u00e7amento, A Nudez Extinta. Abaixo, ela conta sobre \u201cA Nudez Extinta\u201d, trauma e perda, processos de escrita e muito mais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-75857 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/livro-2-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/livro-2-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/livro-2-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se voc\u00ea pudesse resumir os temas centrais do livro \u201cA Nudez Extinta\u201d, quais seriam?<\/strong><br \/>\nA \u201cNudez Extinta\u201d trata de diferentes nuances do traum\u00e1tico: desde sutilezas quase impercept\u00edveis at\u00e9 atos tanto mais concretos. Nesse gradiente, est\u00e3o inclusas problem\u00e1ticas variadas: os lutos e isolamentos familiares (\u201cTempor\u00e3\u201d, \u201cAgora que setembro de aproxima\u201d, \u201cDa mesma fam\u00edlia\u201d e \u201cLeite de pedra\u201d); as viol\u00eancias contra grupos minorizados, como as restri\u00e7\u00f5es femininas no casamento (\u201cTons quentes\u201d e \u201cBem-casados\u201d), a repress\u00e3o dos g\u00eaneros e sexualidades dissidentes (\u201cModelo vivo\u201d, \u201cA nudez extinta\u201d e \u201cEnt\u00e3o a noite foi aberta\u201d), o racismo (\u201cTopsy-turvy doll\u201d), o gaslighting (\u201cEx libris\u201d) e a importuna\u00e7\u00e3o sexual (\u201cUm nome para chamar\u201d e \u201cTodos os bot\u00f5es\u201d); o esvaziamento ps\u00edquico e a idea\u00e7\u00e3o suicida (\u201cSouvenirs\u201d); a destrui\u00e7\u00e3o da natureza atingindo as plantas (\u201cAs \u00e1rvores atravessam a rua\u201d) e os animais (\u201cUma de n\u00f3s\u2019). As personagens protagonistas s\u00e3o variadas (crian\u00e7as, jovens, adultos, velhos; heterossexuais, homossexuais, cisg\u00eanero, transg\u00eanero; humanos, animais, plantas), mas todas s\u00e3o marcadas por alguma perda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que escolher esses temas?<\/strong><br \/>\nTrabalhando como psicanalista, lido diariamente com o traum\u00e1tico em suas mais diferentes formas, precisando alargar em mim o espa\u00e7o para a alteridade. Esses temas me permitiram um deslocamento para al\u00e9m de mim mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea definiria seu estilo de escrita?<\/strong><br \/>\nO que percebo, ou talvez, o que gostaria de acreditar que predomina na minha escrita \u00e9 algo imag\u00e9tico e detalhista, com algumas aberturas para o brutal e outras para o po\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que motivou a escrita do livro? Como foi o processo de escrita?<\/strong><br \/>\nA partir de certos relances de imagens aterradoras que me atravessaram pessoalmente ou que me afetaram enquanto testemunha, passei a compor um conjunto de narrativas ficcionais. Meu processo de escrita dessa prosa em muito se relacionou com a maneira com que a psican\u00e1lise pensa a produ\u00e7\u00e3o dos sonhos: por meio dos recursos da condensa\u00e7\u00e3o e do deslocamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que \u00e9 mais desafiador em escrever sobre trauma e perda?<\/strong><br \/>\nPensando com ajuda da psican\u00e1lise, o trauma ocorre quando um acontecimento est\u00e1 al\u00e9m de nossa capacidade de assimila\u00e7\u00e3o no momento de sua ocorr\u00eancia, e se instala profundamente quando a tentativa sucessiva de coloc\u00e1-lo em palavras \u00e9 interrompida. Por isso, escrever sobre o trauma \u00e9 uma aproxima\u00e7\u00e3o de regi\u00f5es internas para as quais a palavra \u00e9, na verdade, imposs\u00edvel. Mas independentemente do traum\u00e1tico, escrever \u00e9 sempre incompleto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais s\u00e3o as suas principais influ\u00eancias liter\u00e1rias?<\/strong><br \/>\nHerta M\u00fcller, Clarice Lispector, Ana\u00efs Nin, Sylvia Plath, Anne Sexton, Paul Celan, Franz Kafka, Ismail Kadar\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que livros influenciaram diretamente a obra?<\/strong><br \/>\nSou \u00e1vida pela escrita de Herta M\u00fcller, autora que viveu sob regime ditatorial na Rom\u00eania e que \u00e9 capaz de transmitir a opress\u00e3o constante a partir de descri\u00e7\u00f5es cruas e pontiagudas do campo e da cidade, de intera\u00e7\u00f5es e movimentos truncados entre personagens, bem como pelo seu trabalho com a linguagem, que inclui o desconcerto e a interrup\u00e7\u00e3o. Li tudo o que foi traduzido no Brasil de sua obra e, precisando escolher s\u00f3 alguns t\u00edtulos, citaria os contos de \u201cDepress\u00f5es\u201d, o romance \u201cFera d\u2019alma\u201d, e as entrevistas de \u201cMinha p\u00e1tria era um caro\u00e7o de ma\u00e7\u00e3\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO velho que n\u00e3o sente frio e outras hist\u00f3rias\u201d, de Daniel Francoy, \u00e9 uma prosa inventiva cujo g\u00eanero \u00e9 incerto nomear, e que me impressionou muito pela maneira com que faz as imagens flu\u00edrem de uma personagem para a outra sem se fixarem. Com esse recurso, o autor vai adensando camadas de uma percep\u00e7\u00e3o sens\u00edvel sobre a viol\u00eancia social e pol\u00edtica, com uma pot\u00eancia da singeleza que eu n\u00e3o via acontecer desde \u201cA Hora da Estrela\u201d, de Clarice Lispector, e que tamb\u00e9m ressurge contemporaneamente no conto \u201cVoz\u201d, de Jarid Arraes. Nesse sentido, a cole\u00e7\u00e3o de \u201cSonhos\u201d, de Franz Kafka, \u00e9 outro livro cujas imagens me despertam uma dolorida ternura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAbril despeda\u00e7ado\u201d, de Ismail Kadar\u00e9, \u00e9 um romance que sempre me acompanha, ao narrar, em uma regi\u00e3o montanhosa da Alb\u00e2nia na qual o Estado n\u00e3o chega, a condu\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria de um personagem \u00e0 pr\u00f3pria morte, em um sistema de disputas entre cl\u00e3s familiares dos quais ele se v\u00ea profundamente alheio. No per\u00edodo de escrita de \u201cA nudez extinta\u201d, tamb\u00e9m reli diversas vezes os contos \u201cO olho de Deus\u201d e \u201cQueridos filhos mortos\u201d de Elena Alonso Frayle, narrativas curtas muit\u00edssimo bem trabalhadas sobretudo nos detalhes, t\u00e3o expressivos que permitem que o essencial permane\u00e7a inominado, mas presente em um gritante sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais as suas principais refer\u00eancias psicanal\u00edticas que ajudaram a formar a sua abordagem liter\u00e1ria nos contos do livro?<\/strong><br \/>\nMelanie Klein \u00e9 uma das primeiras psicanalistas cuja escrita me capturou, pela maneira destemida e imag\u00e9tica com que descreveu processos arcaicos no ser humano, e que incluem a voracidade, a hostilidade, a disrup\u00e7\u00e3o, a culpa, dentre outros afetos ligados \u00e0 destrutividade e que, sobretudo ao se aplicarem \u00e0 inf\u00e2ncia mais remota, s\u00e3o pouco digestivos para o senso comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e1ndor Ferenczi \u00e9 outro psicanalista que me comove at\u00e9 a medula, pois foi um dos mais importantes estudiosos sobre o efeito do trauma na constitui\u00e7\u00e3o do psiquismo. Dando seguimento \u00e0s primeiras descobertas de Sigmund Freud, ele considerou que o trauma n\u00e3o se estabelece apenas no momento em que um evento extrapola os recursos ps\u00edquicos de que o sujeito disp\u00f5e para assimila\u00e7\u00e3o. Pensando em crian\u00e7as v\u00edtimas de abuso sexual, ele considerou que \u00e9 necess\u00e1rio um segundo tempo no qual a crian\u00e7a violentada, ao se dirigir a um outro adulto de sua confian\u00e7a para relatar o que lhe ocorreu, tem seu relato negado \u2013 \u00e9 o que ele chama de desmentido, um ataque \u00e0 capacidade de percep\u00e7\u00e3o que abre uma fissura ps\u00edquica, n\u00e3o apenas lan\u00e7ando a crian\u00e7a sozinha no vazio, mas tamb\u00e9m propiciando que ela se identifique com o agressor, deformando-se emocionalmente para conseguir continuar amando-o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E para falar da psican\u00e1lise mais atual, tocam-me os escritos de Ren\u00e9 Roussillon, psicanalista que fala do impacto dos encontros decepcionantes nas experi\u00eancias prim\u00e1rias, e de Marion Minerbo, que prop\u00f5e o conceito de supereu cruel para pensar a inst\u00e2ncia interna que se estabelece no psiquismo de sujeitos cujas figuras de afeto primordiais n\u00e3o puderam conter em si mesmas aquilo que possu\u00edam de mais nefasto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea escreve desde quando? Como come\u00e7ou a escrever?<\/strong><br \/>\nComecei a escrever mais detidamente a partir dos 15 anos. Tinha visto um fac-s\u00edmile do di\u00e1rio de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/04\/02\/charles-cross-e-o-mito-kurt-cobain\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Kurt Cobain<\/a>, e fiquei com vontade de levar sempre comigo um caderno onde tamb\u00e9m pudesse escrever e fazer desenhos. Nessa \u00e9poca, tamb\u00e9m ganhei de amigas alguns livros de Clarice Lispector e George Orwell, e encontrei na biblioteca da escola outros de Milan Kundera e Jean Paul-Sartre. Ao l\u00ea-los, comecei a sentir vontade de escrever algo, sem saber ainda ao certo o que. Estava come\u00e7ando a gostar da banda Radiohead e, um dia, enquanto escutava a can\u00e7\u00e3o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/18\/kid-a-o-radiohead-no-topo-do-mundo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">How to disappear completely<\/a>\u201d, comecei a escrever sobre uma jovem que n\u00e3o tinha um corpo pr\u00f3prio, pois era apenas \u201cum tra\u00e7o, um contorno sem fim\u201d. Depois desse texto, comecei um novo, no qual uma mulher tinha pele transparente e via seu sangue mudar de cor conforme o que sentia &#8211; certo dia, percebeu que seu cora\u00e7\u00e3o tinha ca\u00eddo, indo parar no cotovelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 o seu processo de escrita?<\/strong><br \/>\nCostumo partir de imagens que me impactam, que deixam uma forte marca na mem\u00f3ria. Utilizo desse tipo de impress\u00e3o para escrever poemas, trabalhando o apelo moment\u00e2neo, seu relance visual. Uma vez esbo\u00e7ado o poema, passo a buscar sua sonoridade, tentando afin\u00e1-lo. Na prosa, o ponto de partida \u00e9 semelhante. O que difere \u00e9 o estabelecimento da temporalidade, do espa\u00e7o e das rela\u00e7\u00f5es entre os seres que habitam a narrativa &#8211; processo que me exige um tatear \u00e0s cegas: boa parte do tempo, escrevo \u00e0 revelia do sentido contido no conto, desconhecendo-o, mas querendo crer que est\u00e1 \u00e0 espreita e que, em algum momento, se revelar\u00e1. Quando isso acontece &#8211; se acontece -, retorno ao in\u00edcio do conto, e passo a trabalhar suas entrelinhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que voc\u00ea optou por contar essas hist\u00f3rias no formato de conto?<\/strong><br \/>\nAcho que cada hist\u00f3ria que eu tinha para contar em \u201cA nudez extinta\u201d poderia ser pensada como um caminho que levou a um \u201cbaque\u201d. Como o conto favorece trabalhar, na brevidade, a pot\u00eancia de certos acontecimentos, podendo interromp\u00ea-los em seus pontos mais altos e abandonando o leitor ao seu impacto, o g\u00eanero me conveio especialmente nesse sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como a bagagem dos livros anteriores que voc\u00ea escreveu ajudou na constru\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias?<\/strong><br \/>\nAntes de escrever esse meu primeiro livro de contos, eu havia escrito quatro obras de poesia. Em duas delas, \u201cA depress\u00e3o tem sete andares e um elevador\u201d e \u201cOlho d\u2019\u00e1gua espelho, d\u2019alma\u201d, havia uma forte necessidade de narratividade: na primeira, temos um eu-l\u00edrico que adentra um elevador de descida por um subsolo e que, ao parar em cada um de seus andares, vai se deparando com as dimens\u00f5es de seu vazio \u2013 uma pilha de lou\u00e7as que desmorona, uma planta\u00e7\u00e3o de cebolas que n\u00e3o param de ser cortadas, uma plataforma que faz que vai cair, vertiginosamente; na segunda, temos uma mulher diante de um lago que muda de cor conforme a tentativa de experi\u00eancia amorosa estabelecida com cada homem \u2013 pirata, gondoleiro, velejador -, e que vai adentrando a \u00e1gua cada vez mais profundamente, at\u00e9 encontrar v\u00e1rias vers\u00f5es de si mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 em \u201cAs flores se recusam\u201d e \u201cMonstera\u201d, obras organizadas como colet\u00e2neas, temos poemas que transitam ao redor de temas como a misoginia, a tirania, o silenciamento, o cerceamento, mas tamb\u00e9m a insubordina\u00e7\u00e3o feminina como rea\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. Acho que, nesses livros, muitas vezes precisei de met\u00e1foras que suportassem as viol\u00eancias melhor do que um ser humano, e trabalhei com imagens como flores exaustas de seus vasos, plantas carn\u00edvoras, animais encarcerados, insetos f\u00f3bicos. Tamb\u00e9m havia escrito e ilustrado um livro infantil chamado \u201cA inven\u00e7\u00e3o das Isab\u00e9lulas\u201d, que conta a hist\u00f3ria de uma borboleta que, na verdade, n\u00e3o era bem uma borboleta, mas sim uma mariposa. Ela se v\u00ea expulsa de seu rosado lugar de origem, precisando perder partes de si para vir a ser aquilo que, na verdade, sempre foi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, quando encontrei uma maneira de escrever prosa de fic\u00e7\u00e3o \u2013 desejo persistente desde que comecei a escrever \u2013, o \u00edmpeto de narrar parece ter finalmente vindo a termo, permitindo-me dar lugar para imagens impactantes em outra rela\u00e7\u00e3o com o tempo-espa\u00e7o: para que existissem, era preciso que algu\u00e9m as causasse pela pr\u00f3pria vida \u2013 as personagens. Al\u00e9m disso, descobri com a prosa o quanto n\u00e3o queria mais que temas doloridos fossem encriptados pela met\u00e1fora isolada, nem que sua for\u00e7a se fizesse amb\u00edgua ou rarefeita no sil\u00eancio das cesuras, mas que ganhasse a explicitude das cenas humanas, nas quais as rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas muitas vezes dizem tudo o que precisa ser dito por si mesmas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais as expectativas sobre este lan\u00e7amento e de que maneira voc\u00ea visualiza o impacto de sua obra sobre as pessoas que a lerem?<\/strong><br \/>\nNunca encontro nas leituras do outro algo que eu possa imaginar sozinha antes para meus livros. Por isso, apenas cultivo o desejo de que, se as hist\u00f3rias sensibilizarem algu\u00e9m, que possam abrir o di\u00e1logo entre n\u00f3s. Costumo ficar muito surpreendida com o que minhas palavras cont\u00eam, e que s\u00f3 se me revelam quando um leitor tem a generosidade de me contar sua perspectiva. Por enquanto, tenho recolhido primeiras impress\u00f5es sobre \u201cA nudez extinta\u201d, e descoberto que certos contos j\u00e1 chegaram a causar ang\u00fastia, choque, desespero, enquanto outros t\u00eam como efeito o encantamento pelas transforma\u00e7\u00f5es, ou o entusiasmo pelos debatimentos das personagens. Por exemplo, uma leitora muito sens\u00edvel que o resenhou recentemente, Lureen Asei, colocou em primeiro plano certos \u201cobjetos imanados\u201d e movimentos de presen\u00e7a-aus\u00eancia dos corpos \u2013 aspectos que jamais tinham me ocorrido, mas de um inesperado no qual tamb\u00e9m me reconhe\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais s\u00e3o os seus projetos atuais de escrita? O que vem por a\u00ed?<\/strong><br \/>\nEstou escrevendo meu primeiro romance, que expande e aprofunda algumas quest\u00f5es j\u00e1 esbo\u00e7adas em \u201cA nudez extinta\u201d, como, por exemplo, as forma\u00e7\u00f5es on\u00edricas, o descolamento afetivo no interior da fam\u00edlia, a percep\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es femininas estereotipadas como caricaturas do horror, o masculino enquanto possibilidade de aniquilamento, e a aten\u00e7\u00e3o para os universos vegetal e animal em suas vivacidades e fragilidades. Se nos contos desenvolvi, predominantemente, narrativas que conduzem os protagonistas a desfechos traum\u00e1ticos, impactos brutos a partir dos quais as hist\u00f3rias simplesmente se interrompem, nesse novo projeto venho trabalhando com uma personagem cujos traumas anteriores se presentificam em relances abruptos da mem\u00f3ria, enquanto ela flana no limbo de seu necess\u00e1rio entorpecimento. Espero que eu consiga conduzi-la a algum movimento de sa\u00edda!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-75855 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMGL2045-Copia-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMGL2045-Copia-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMGL2045-Copia-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/navionoespaco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcela G\u00fcther<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista, produtora de conte\u00fado, assessora de imprensa e mediadora do\u00a0<a href=\"https:\/\/leiamulheres.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leia Mulheres<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ao trazer as diferentes nuances do trauma, \u201cA Nudez Extinta\u201d explora uma diversidade de temas como o luto e o isolamento familiar, a repress\u00e3o estrutural contra grupos dissidentes, o esvaziamento ps\u00edquico, a idea\u00e7\u00e3o suicida e a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/07\/08\/entrevista-isabela-sancho-fala-sobre-seu-novo-livro-de-contos-a-nudez-extinta-que-investiga-as-nuances-do-trauma-e-da-perda\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":107,"featured_media":75856,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[6773,6772],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75850"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/107"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75850"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75850\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75859,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75850\/revisions\/75859"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75856"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75850"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75850"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75850"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}