{"id":75817,"date":"2023-07-05T21:25:04","date_gmt":"2023-07-06T00:25:04","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=75817"},"modified":"2024-11-20T11:20:54","modified_gmt":"2024-11-20T14:20:54","slug":"entrevista-entendi-que-era-possivel-escrever-sobre-televisao-usando-as-melhores-ferramentas-do-jornalismo-diz-mauricio-stycer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/07\/05\/entrevista-entendi-que-era-possivel-escrever-sobre-televisao-usando-as-melhores-ferramentas-do-jornalismo-diz-mauricio-stycer\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;Entendi que era poss\u00edvel falar da televis\u00e3o usando as melhores ferramentas do jornalismo&#8221;, diz Mauricio Stycer"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No jornalismo brasileiro, <a href=\"https:\/\/twitter.com\/mauriciostycer\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mauricio Stycer<\/a> \u00e9 um dos poucos a tratar a televis\u00e3o como objeto de seu trabalho. Cabe esclarecer que estamos falando da acep\u00e7\u00e3o mais essencial da palavra, que diz respeito \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o e apura\u00e7\u00e3o, porque gente repercutindo lan\u00e7amentos, \u201cnoticiando\u201d fofocas e capitalizando em cima de pol\u00eamicas tem bastante. Al\u00e9m disso, Stycer escreve v\u00e1rios artigos e pensatas sobre seu objeto de estudo, sempre sem cair nas armadilhas f\u00e1ceis do pedantismo ou elitismo. Ao contr\u00e1rio: examina de perto a programa\u00e7\u00e3o de apelo popular, com o mesmo olhar cuidadoso que dedicada a produtos esquecidos da TV a cabo ou \u00e0 m\u00e1quina de parir programas dos streamings.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante disso, \u00e9 seguro recomendar os livros que escreveu sobre personagens desse universo. \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Adeus-controle-remoto-cr%C3%B4nica-conhecemos\/dp\/8560171738\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Adeus, Controle Remoto \u2013 Uma cr\u00f4nica do fim da TV como a conhecemos<\/a>\u201d (Arquip\u00e9lago Editorial, 2016) flagrou instant\u00e2neos da migra\u00e7\u00e3o do modelo televisivo para o streaming, enquanto \u201c<a href=\"https:\/\/todavialivros.com.br\/livros\/topa-tudo-por-dinheiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Topa Tudo por Dinheiro: As muitas faces do empres\u00e1rio Silvio Santos<\/a>\u201d (Todavia, 2018) examinou de perto as rela\u00e7\u00f5es do apresentador e empres\u00e1rio com os altos escal\u00f5es do poder. E, mais recentemente, chegou \u00e0s livrarias \u201c<a href=\"https:\/\/todavialivros.com.br\/livros\/o-homem-do-sapato-branco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Homem do Sapato Branco: a vida do inventor do mundo c\u00e3o na televis\u00e3o brasileira<\/a>\u201d (tamb\u00e9m pela Todavia, 2023).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro examina a hist\u00f3ria do rep\u00f3rter e apresentador Jacinto Figueira J\u00fanior, que criou para si o personagem que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro, e que alcan\u00e7ou grande popularidade com programas sensacionalistas na TV brasileira ao longo dos anos 1960. A carreira de Jacinto continuaria pelas d\u00e9cadas seguintes, com cada vez menos sucesso popular, at\u00e9 o personagem e seu int\u00e9rprete sucumbirem ao ostracismo, ao ressentimento e \u00e0 p\u00e9ssima administra\u00e7\u00e3o de suas finan\u00e7as. Mas antes disso acontecer, houve um mandato como deputado, a cassa\u00e7\u00e3o pelo governo militar, as tentativas de ressurrei\u00e7\u00e3o de sua carreira e dezenas de \u201cfilhotes\u201d, que extrapolaram a ideia de transformar crime, sofrimento, bizarrices e humilha\u00e7\u00e3o em mat\u00e9ria de entretenimento sensacionalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro serviu de pretexto para uma conversa vespertina com seu autor, na qual n\u00e3o se falou apenas da obra mais recente, mas tamb\u00e9m do retrospecto de sua carreira. Mauricio Stycer sempre quis ser jornalista na \u00e1rea cultural. Passou pelos cadernos de cultura do Jornal do Brasil, Estad\u00e3o e Folha \u2013 isso nos anos 1980, \u00e9poca em que essas publica\u00e7\u00f5es eram a refer\u00eancia maior na cr\u00edtica e cobertura cultural. Tamb\u00e9m esteve \u00e0 frente de editorias de Turismo e Cidades, comandou grande parte da equipe do di\u00e1rio esportivo Lance, foi rep\u00f3rter especial, correspondente em Roma e editor de cultura. S\u00f3 em 2008 come\u00e7ou a atuar na cr\u00f4nica televisiva, em um blog que tinha no hoje extinto portal iG. Nesses 15 anos, Stycer fixou-se como o nome mais interessante a analisar e pensar a TV brasileira na grande m\u00eddia. Por isso, vem comigo que o papo \u00e9 bom!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-75820 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/sapato.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"569\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/sapato.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/sapato-300x228.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea \u00e9 jornalista de TV, n\u00e3o psic\u00f3logo (risos), mas essa \u00e9 uma pergunta que fa\u00e7o pra voc\u00ea como jornalista que se debru\u00e7a sobre o tema: o espectador brasileiro \u00e9 s\u00e1dico?<\/strong><br \/>\nAcho que n\u00e3o \u00e9 exclusivo do brasileiro, n\u00e3o. \u00c9 uma coisa da natureza humana mesmo, esse gosto pelo bizarro. Tem uma coisa meio at\u00e1vica que \u00e9 o lance de curtir ver a mis\u00e9ria alheia, ver o outro se ferrar. N\u00e3o estou dizendo que seja algo bom, mas que \u00e9 da natureza humana. A prova mais expl\u00edcita disso \u00e9 quando voc\u00ea est\u00e1 na numa estrada e tem congestionamento porqu\u00ea do outro lado da pista tem um carro parado. Voc\u00ea nem sabe o que aconteceu, \u00e0s vezes n\u00e3o aconteceu nada, mas o que acaba rolando \u00e9 que todo mundo come\u00e7a a diminuir a velocidade para ver o que aconteceu. E quando voc\u00ea ultrapassa aquilo, sente uma raiva, que \u00e9 uma raiva de voc\u00ea mesmo tamb\u00e9m, que estava curioso para saber o que estava acontecendo ali. Isso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no Brasil, a apela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um privil\u00e9gio brasileiro, as ferramentas usadas para atrair a audi\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o exclusivas do brasileiro. Esses programas lidam muito com o medo, porque provocar medo gera interesse, um certo tipo de satisfa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A TV brasileira sempre bebeu muito nos formatos criados pelas emissoras de outros pa\u00edses, especialmente dos Estados Unidos e da It\u00e1lia. Sei que foi muito dif\u00edcil achar material mais antigo sobre o Jacinto, mas ainda assim, queria saber se ele foi, de fato, pioneiro nesse formato mais popularesco de TV como ele gostava de dizer, ou se tamb\u00e9m copiou os modelos estrangeiros.<\/strong><br \/>\n\u00c9 dif\u00edcil dizer. Eu o trato como pioneiro usando uma autodeclara\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Jacinto. Quando ele assiste ao filme \u201cMondo Cane\u201d (1962), ele fala: \u201cP\u00f4, eu que fiz isso\u201d. Ele se identifica com o filme. N\u00e3o lembro a frase em sua literalidade, mas ele diz algo como \u201ceu que inventei o mundo c\u00e3o\u201d. Acredito que ele foi um dos primeiros, mas n\u00e3o o primeiro. Acho que cabe at\u00e9 uma escava\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica de quem teria sido o primeiro. Olha o caso do Chuck Barris (nota: autor de \u201cConfiss\u00f5es de uma Mente Perigosa\u201d, ex-executivo e apresentador de TV, autor do hit \u201cPalisades Park\u201d e mitoman\u00edaco consumado). O cara inventou o formato do \u201cNamoro na TV\u201d, inventou o \u201cShow de Calouros\u201d, mas o Ary Barroso j\u00e1 tinha feito isso de usar um gongo no r\u00e1dio, depois o Chacrinha pegou isso dele. Isso tudo nos anos 1950! Os programas do Chuck Barris surgiram nos anos 1960. Ent\u00e3o realmente \u00e9 dif\u00edcil precisar um pioneiro. E acredito que sempre existe uma conflu\u00eancia de gente pensando coisas parecidas em diferentes lugares, sabe? Gente que est\u00e1 descobrindo as ferramentas que a televis\u00e3o oferece, que s\u00e3o espec\u00edficas do meio e diferentes do cinema, por exemplo. Essa sua pergunta \u00e9 dif\u00edcil, mas levanta uma boa discuss\u00e3o sobre essa conflu\u00eancia de gente louca, com a cabe\u00e7a a mil, pensando em coisas que podem ser feitas em novos formatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A televis\u00e3o sempre se prop\u00f4s a ser ve\u00edculo de massa. Muitas coisas entram pra hist\u00f3ria como programas cult, claro, mas nada \u00e9 feito pensando em virar cult. Seja como for, sempre que um programa de TV cumpre seu objetivo de falar com a massa, ele j\u00e1 ganha o olhar enviesado da maior parte da imprensa e do meio acad\u00eamico. Seus dois \u00faltimos livros tratam de personagens extremamente populares, Silvio Santos e Jacinto Figueira Junior, nomes sobre quem tinha se escrito muito pouco, ou quase nada mesmo. Ent\u00e3o acho que ainda temos aquela coisa da classe m\u00e9dia ter uma certa soberba, uma dissimula\u00e7\u00e3o no que diz respeito \u00e0 TV. Aquele lance de \u201ceu estava passando pela sala\u201d, \u201ca empregada estava assistindo\u201d (risos).<\/strong><br \/>\nO Jacinto estava embaixo do tapete, sabe? O que ele fez \u00e9 tratado como uma coisa menor, que n\u00e3o presta, mas aquilo existiu, gerou filhotes, teve influ\u00eancia, teve impacto, a audi\u00eancia era enorme\u2026 Quando voc\u00ea olha isso tendo passado tantos anos, v\u00ea que ningu\u00e9m mais fala dele, que ningu\u00e9m conhece direito a hist\u00f3ria dele. J\u00e1 o Silvio \u00e9 incontorn\u00e1vel. Mas ainda assim, existe um certo preconceito, uma vontade de n\u00e3o falar de nada disso. Eu mesmo tive d\u00favida, hesitei se fazia sentido fazer o livro. Mas quando eu mergulhei mesmo, fiquei tr\u00eas meses lendo jornais dos anos 1960, vendo os poucos v\u00eddeos dispon\u00edveis, eu vi que tinha que contar essa hist\u00f3ria, entendeu?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O Homem do Sapato Branco\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Fdm2PvQcKd8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma coisa que me intriga muito \u00e9 que o seu objeto de investiga\u00e7\u00e3o foi um cara popular, extremamente popular, durante alguns anos, e depois caiu no esquecimento. A televis\u00e3o atrai tanta gente para ela, em grande parte, pela fama que ela proporciona, pela notoriedade, pela valida\u00e7\u00e3o que vem com isso tudo, etc. Mas a coisa toda pode ser transit\u00f3ria, ef\u00eamera at\u00e9. Quem hoje lembra do Bolinha, por exemplo, e de tantos outros? A TV \u00e9, de alguma forma, cruel com seus \u00eddolos, ou essa voracidade e fugacidade s\u00e3o parte do funcionamento dela?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o sei se \u00e9 a televis\u00e3o ou a pr\u00f3pria ind\u00fastria cultural. Na ind\u00fastria cultural, esses ciclos s\u00e3o muito intensos, e existe essa permanente busca do novo pela novidade em si, n\u00e9? Veja que, quando o Jacinto retoma em 1979 para fazer o mesmo programa que ele fazia nos anos 60, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais algo novo, tem coisas no ar que s\u00e3o vers\u00f5es melhoradas do que ele j\u00e1 tinha feito. O pr\u00f3prio Jacinto se toca disso, ele come\u00e7a a reclamar dos imitadores, ele tem essa constata\u00e7\u00e3o de que foi superado por pessoas que faziam coisas parecidas. E isso n\u00e3o \u00e9 restrito \u00e0 televis\u00e3o popular. Na m\u00fasica, que voc\u00ea acompanha bem, voc\u00ea tem a ind\u00fastria da m\u00fasica pop que tamb\u00e9m \u00e9 voraz. Poucos conseguem se reciclar. Eu tenho citado muito o caso do Ratinho como um exemplo de quem consegue isso. Ele era um cara que come\u00e7ou na linha do Jacinto, com cassetete na m\u00e3o, mas em dado momento, algu\u00e9m falou para ele que ele era bom em fazer os outros rir \u2013 n\u00e3o lembro quem disse isso para ele. E a\u00ed ele se vira para o entretenimento, e est\u00e1 a\u00ed na televis\u00e3o h\u00e1 mais de 30 anos. Essa guinada dele foi bem aceita pelo p\u00fablico, pela emissora. Mas casos como o dele n\u00e3o s\u00e3o frequentes. O interesse das pessoas diminui muito, alguns poucos t\u00eam um carisma especial, como o Silvio Santos, que tem algo inexplic\u00e1vel, as pessoas acham gra\u00e7a se divertem com ele da mesma forma h\u00e1 anos, sem perder o vi\u00e7o, continuando a causar pol\u00eamica, a atrair audi\u00eancia. Nunca precisou se reciclar: ele mudava os quadros, mas na real, ele fazia sempre a mesma coisa. Mas ele \u00e9 um caso excepcional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No document\u00e1rio \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/07\/05\/alguns-filmes-do-7%C2%BA-in-editbrasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eu Sou Carlos Imperial<\/a>\u201d, o [bi\u00f3grafo] Denilson Monteiro fala que hoje, com tecnologia m\u00f3vel e afins, o Imperial teria um alcance ainda muito maior do que teve\u2026<\/strong><br \/>\nEle era uma m\u00e1quina de criar boatos, n\u00e9? Fake news mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. E \u00e9 um exerc\u00edcio interessante pensar como esses caras, que foram muito populares quando n\u00e3o existiam tantas ferramentas tecnol\u00f3gicas, lidariam hoje com os recursos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Pensando nisso, voc\u00ea acha que o Jacinto seria um cara que talvez tivesse at\u00e9 mais repercuss\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\u00c9 prov\u00e1vel. Realmente prov\u00e1vel. \u00c9 s\u00f3 olhar os tipos que floresceram durante esse per\u00edodo \u2013 vamos chamar de revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, do jornalismo digital, da multiplica\u00e7\u00e3o de formas de express\u00e3o. Olha essas plataformas de v\u00eddeos curtos, elas s\u00e3o uma loucura! Todo mundo faz igual ao Tik Tok, o YouTube tem os Shorts, o Instagram tem o Reels \u2026 Tudo isso \u00e9 linguagem r\u00e1pida, para causar impacto instant\u00e2neo, e que viraliza e \u00e9 esquecido 30 segundos depois. O Jacinto encarnou um personagem mesmo, ele gostava desse personagem que ele representava, e isso \u00e9 uma coisa muito de rede social. Muitos dos que se d\u00e3o bem nas redes sociais s\u00e3o gente que constr\u00f3i um bom personagem, \u00e9 seguem fieis a esse personagem, sem tirar a fantasia. No caso dele, ele vinha com um discurso muitas vezes moralista, preconceituoso, com palavras ofensivas. Ele certamente encontraria um nicho, n\u00e3o sei de que tamanho, mas teria esse nicho para se tornar poderoso e ficar \u00e0 vontade ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como come\u00e7ou essa hist\u00f3ria de ter a TV como foco do seu trabalho? Voc\u00ea tinha passado por v\u00e1rios ve\u00edculos e s\u00f3 come\u00e7ou a escrever sobre TV quando estava no iG, como rep\u00f3rter especial, n\u00e3o cobria. O que te levou a esse caminho?<\/strong><br \/>\nNa \u00e9poca, l\u00e1 por 2008, tinha essa coisa de blog. Todo mundo no iG tinha blog, s\u00f3 eu que n\u00e3o. A\u00ed fizeram um blog pra mim (risos). No meu tempo livre, eu ia ver filme, pe\u00e7a de teatro, exposi\u00e7\u00e3o, assistia TV, e falava dessas coisas no blog. Os posts de televis\u00e3o bombavam! O Twitter estava come\u00e7ando a ganhar import\u00e2ncia no Brasil, e o iG me colocou naquela rede social. Eu comecei a achar muito interessante essa coisa de que estava rolando um programa na TV e a\u00ed tinha 50 pessoas falando ao mesmo tempo no Twitter. Fiquei fascinado mesmo por aquilo, e a\u00ed eu comecei a escrever mais sobre televis\u00e3o, at\u00e9 que em 2010 fui para o UOL. j\u00e1 com a ideia de que a televis\u00e3o era uma coisa muito importante, com um mercado interessante pra trabalhar como jornalista. N\u00e3o tinha muita gente escrevendo daquela forma que eu escrevia, e meus textos iam despertando interesse, gerando repercuss\u00e3o. As pessoas discutiam, respondiam, criticavam. Acabei desenvolvendo um nicho em especial, que foram os reality shows. Enfim, entendi que era poss\u00edvel escrever sobre televis\u00e3o usando as melhores ferramentas do jornalismo. N\u00e3o precisava fazer um neg\u00f3cio de puxa\u00e7\u00e3o de saco, de promo\u00e7\u00e3o de celebridade, eu podia tentar entender televis\u00e3o na sua base: o que est\u00e1 por tr\u00e1s, como ela \u00e9 feita. Talvez seja um pouco de presun\u00e7\u00e3o da minha parte, mas eu achei que estava conseguindo dialogar com algumas pessoas da televis\u00e3o, como se elas tivessem querendo ter um interlocutor do outro lado, sabe? Era como se eu, de alguma maneira, preenchesse algum tipo de vazio. Parecia que precisava existir uma discuss\u00e3o, ter algu\u00e9m que, mesmo que falasse mal, olhasse aquilo de forma s\u00e9ria e respeitosa, falando mal de todo mundo democraticamente (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o, de certa forma, foi uma coisa meio intuitiva.<\/strong><br \/>\nBastante. Eu gostei, me senti muito \u00e0 vontade fazendo, e acho que deu certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse caminho, n\u00e3o foram poucas as vezes que vimos alguns nomes da TV te criticarem publicamente, quando n\u00e3o comprarem briga mesmo. De Walcyr Carrasco a Tiago Leifert, muita gente se incomodou com artigos e reportagens que voc\u00ea fez. O outro lado nunca aconteceu, de voc\u00ea receber um feedback positivo? Porque h\u00e1 pouco voc\u00ea falou que parecia que tinha gente da ind\u00fastria que encontrou no seu trabalho algo que preenchia uma lacuna que eles mesmos identificavam.<\/strong><br \/>\nTeve sim, e esse foi um dos maiores prazeres que eu tive e ainda tenho. Em diferentes subcategorias da profiss\u00e3o, tem gente que curte essa discuss\u00e3o que eu proporciono: atores, roteiristas, diretores, eventualmente at\u00e9 executivos. \u00c9 gente que entende que ali, no meu espa\u00e7o editorial, existe um canal para discutir ideias. Mas s\u00e3o reconhecimentos que quase sempre acontecem por mensagem privada. Tem muito pouca manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica de \u00f3dio tem muita, n\u00e9? (risos) V\u00e1rios casos. At\u00e9 tem quem vai pro Twitter ou Facebook reclamar de mim, falar que eu sou pago para falar mal, umas coisas assim (risos). Mas elogios s\u00e3o internos. \u00c0s vezes, a pr\u00f3pria pessoa que \u00e9 tema de artigo comenta, diz que foi uma coisa respeitosa, mas quase tudo em privado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra fechar, queria te perguntar sobre uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se manifesta apenas na TV, mas em toda a ind\u00fastria cultural, que \u00e9 a falta de mem\u00f3ria hist\u00f3rica e a falta de refer\u00eancias sobre o que veio antes. Seu livro trata de um personagem que ou criou ou ajudou a popularizar v\u00e1rios formatos de programas televisivos, e morreu esquecido, estava praticamente num limbo antes do seu livro ser publicado. Quais os efeitos dessa falta de mem\u00f3ria, desse desapego ao passado?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o vejo nenhum efeito positivo. Pra mim, a mem\u00f3ria \u00e9 uma coisa b\u00e1sica pro conhecimento; Conhecimento sem mem\u00f3ria \u00e9 algo empobrecido, ela \u00e9 uma ferramenta essencial pra gente poder entender o presente e discutir o que pode vir pela frente. Se voc\u00ea est\u00e1 vendo um filme e n\u00e3o tem conhecimento que aquilo ali \u00e9 uma repeti\u00e7\u00e3o de algo que foi feito 20 anos atr\u00e1s, a frui\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente de quem tem essa refer\u00eancia. Com a mem\u00f3ria, voc\u00ea consegue dialogar melhor com os produtos culturais, e pra isso \u00e9 preciso ter algum conhecimento da hist\u00f3ria daquele g\u00eanero ou daquele tipo de produto. \u00c9 empobrecedor voc\u00ea abrir m\u00e3o desse conhecimento hist\u00f3rico. No meu caso em particular, eu descobri na \u00faltima d\u00e9cada que tenho um grande prazer em pesquisar. Eu sempre gostei de saber dos antecedentes das coisas que eu gosto, mas descobri um prazer enorme nesse tipo de trabalho. As ferramentas para se fazer isso s\u00e3o muito melhores tamb\u00e9m, h\u00e1 menos justificativas hoje para voc\u00ea ignorar a hist\u00f3ria, sabe? A revolu\u00e7\u00e3o digital facilitou muita coisa pra quem quer conhecer o passado. O que existe hoje \u00e9 um pouco de pregui\u00e7a, talvez at\u00e9 por parte do jornalismo cultural, \u00e0s vezes, em n\u00e3o querer explicar o contexto das coisas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"AS LOUCURAS DO HOMEM DO SAPATO BRANCO E A HIST\u00d3RIA DO MUNDO C\u00c3O NA TV - COM MAUR\u00cdCIO STYCER\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AKiaJZRnaSA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista, escritor e produtor cultural. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2000, onde tamb\u00e9m assina a coluna\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Conex\u00e3o Latina<\/a>. \u00c9 tamb\u00e9m colaborador eventual dos sites\u00a0<a href=\"https:\/\/musicnonstop.uol.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Music Non Stop<\/a>\u00a0(Brasil) e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.zonadeobras.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zona de Obras<\/a> (Espanha). A foto que abre o texto \u00e9 de Renato Parada \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"No jornalismo brasileiro, Mauricio Stycer \u00e9 um dos poucos a tratar a televis\u00e3o como objeto de seu trabalho escrevendo v\u00e1rios artigos e pensatas sem cair nas armadilhas f\u00e1ceis do pedantismo ou elitismo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/07\/05\/entrevista-entendi-que-era-possivel-escrever-sobre-televisao-usando-as-melhores-ferramentas-do-jornalismo-diz-mauricio-stycer\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":75819,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[6765,2583],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75817"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75817"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75817\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75829,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75817\/revisions\/75829"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75819"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75817"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75817"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75817"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}