{"id":75722,"date":"2023-06-27T00:25:07","date_gmt":"2023-06-27T03:25:07","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=75722"},"modified":"2023-08-02T00:39:56","modified_gmt":"2023-08-02T03:39:56","slug":"entrevista-autor-de-mil-placebos-o-escritor-gaucho-matheus-borges-fala-sobre-tecnologia-literatura-e-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/27\/entrevista-autor-de-mil-placebos-o-escritor-gaucho-matheus-borges-fala-sobre-tecnologia-literatura-e-capitalismo\/","title":{"rendered":"Entrevista: Autor de &#8220;Mil Placebos&#8221;, o escritor ga\u00facho Matheus Borges fala sobre tecnologia, literatura e capitalismo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/navionoespaco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcela G\u00fcther<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">E se o \u2018homem do subsolo\u2019, de Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, tivesse acesso aos f\u00f3runs do 4chan? E se Edgar Allan Poe, na hora de conceber suas novelas policiais, tivesse acesso aos futuros psicopatol\u00f3gicos que povoavam a mente de J. G. Ballard? E se nada disso fosse necess\u00e1rio, pois o capitalismo alienante e o submundo tecnol\u00f3gico estivessem levando, agora mesmo, jovens a percorrerem o percurso tr\u00e1gico da solid\u00e3o do esp\u00edrito \u00e0 desagrega\u00e7\u00e3o mental, culminando em atos de viol\u00eancia impens\u00e1vel?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o quest\u00f5es como essas que surgem levantadas pelo escritor Daniel Galera na orelha do livro \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/dp\/B09V33C4DP\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mil Placebos<\/a>\u201d (Uboro Lopes, 192 p\u00e1g.), obra de estreia do ga\u00facho <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/matheusmedeborg\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Matheus Borges<\/a>. Mescla de neo-noir, fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e ensaio acad\u00eamico, a obra tra\u00e7a uma investiga\u00e7\u00e3o ps\u00edquica do capitalismo tardio ao analisar os impactos da internet e da tecnologia nas rela\u00e7\u00f5es afetivas. \u201cFala de solid\u00e3o e atomiza\u00e7\u00e3o social, de como os processos que organizam o mundo tamb\u00e9m s\u00e3o capazes de afetar nossa cogni\u00e7\u00e3o\u201d, completa o autor, que ressalta como a estrutura da obra foi pensada de forma a ir e voltar no tempo, \u201cquase que replicando a disposi\u00e7\u00e3o que um algoritmo d\u00e1 a uma timeline de rede social\u201d, o que justifica a hibridez de g\u00eaneros adotada no livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascido em Porto Alegre em 1992, Matheus Borges \u00e9 formado no curso de realiza\u00e7\u00e3o audiovisual da Unisinos e egresso da oficina liter\u00e1ria de Luiz Antonio de Assis Brasil, realizada na PUC\/RS. Suas hist\u00f3rias j\u00e1 foram publicadas em revistas liter\u00e1rias brasileiras e no exterior, bem como em colet\u00e2neas e antologias. No cinema, atuou como roteirista em \u201cA Colmeia\u201d, longa-metragem vencedor de cinco pr\u00eamios na edi\u00e7\u00e3o de 2021 do Festival de Cinema de Gramado. Abaixo, Matheus fala sobre processos de escrita, temas e motiva\u00e7\u00f5es que o levaram a escrever &#8220;Mil Placebos&#8221;, um livro &#8220;de escrita elegante e instigante&#8221; (segundo Gabriel Pinheiro <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/11\/11\/literatura-de-escrita-elegante-e-instigante-mil-placebos-de-matheus-borges-soa-como-se-philip-k-dick-encontrasse-a-literatura-noir\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui no Scream &amp; Yell<\/a>). Leia abaixo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-75724\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/capa-mil-placebos-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1169\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/capa-mil-placebos-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/capa-mil-placebos-copiar-192x300.jpg 192w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se voc\u00ea pudesse resumir os temas centrais de \u201cMil Placebos\u201d, quais seriam?<\/strong><br \/>\n\u201cMil Placebos\u201d \u00e9 uma investiga\u00e7\u00e3o ps\u00edquica do capitalismo tardio. Trata de internet e de como nossas rela\u00e7\u00f5es afetivas s\u00e3o tocadas pela intera\u00e7\u00e3o com a tecnologia. Fala de solid\u00e3o e atomiza\u00e7\u00e3o social, de como os processos que organizam o mundo tamb\u00e9m s\u00e3o capazes de afetar nossa cogni\u00e7\u00e3o. Um aspecto importante da escrita de \u201cMil Placebos\u201d foi essa preocupa\u00e7\u00e3o com a estrutura da hist\u00f3ria, essas idas e vindas no tempo, quase que replicando a disposi\u00e7\u00e3o que um algoritmo d\u00e1 a uma timeline de rede social. Dessa maneira, pode-se dizer que a pr\u00f3pria forma do romance (que, me parece, tamb\u00e9m \u00e9 um tipo de cogni\u00e7\u00e3o) \u00e9 afetada por esses processos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que escolher esses temas?<\/strong><br \/>\nPorque me parecem temas importantes para se pensar o presente e o futuro. Tanto num \u00e2mbito pol\u00edtico, pois me parece que a ascens\u00e3o de uma extrema-direita organizada \u00e9 algo que passa por esses processos descritos no livro, mas tamb\u00e9m em n\u00edvel individual: n\u00e3o d\u00e1 pra negar o quanto nossas vidas dependem hoje dessas tecnologias, desses dispositivos, de toda uma rede de ideias e costumes constru\u00edda a partir dessa depend\u00eancia. De que maneira isso afeta nossa cogni\u00e7\u00e3o e a maneira como nos relacionamos com os outros?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que motivou a escrita desse livro? Como foi o processo de escrita?<\/strong><br \/>\nComecei a escrever \u201cMil Placebos\u201d em 2013. \u00c0quela altura, minha inten\u00e7\u00e3o era escrever um thriller que tratasse desse aspecto obscuro, quase m\u00edtico, da deep web, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 banalidade da internet superficial, onde existem as redes sociais e a maioria das ferramentas que usamos no dia a dia. Muito desse interesse inicial estava associado ao cyberpunk, ou \u00e0 ideia de criar um romance dentro dos par\u00e2metros de realismo liter\u00e1rio tendo em mente determinados interesses do cyberpunk. A hist\u00f3ria foi crescendo a partir da\u00ed, mas tamb\u00e9m agregando certos imprevistos, bem como adquirindo outros n\u00edveis de interpreta\u00e7\u00e3o \u2013 especialmente quando f\u00f3runs e chans ganharam alguma relev\u00e2ncia no debate p\u00fablico ap\u00f3s a ascens\u00e3o da nova extrema-direita, bastante h\u00e1bil em cooptar e manipular esses espa\u00e7os de discuss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea v\u00ea a literatura sendo afetada pelos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos?<\/strong><br \/>\nO que eu acho interessante \u00e9 pensar como essas coisas alteram a mat\u00e9ria da fic\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre seres humanos. Fic\u00e7\u00e3o se faz com gente interagindo, se comunicando. Uma vez alterados nossos meios de intera\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o se abre um territ\u00f3rio novo a ser explorado na fic\u00e7\u00e3o. E o contr\u00e1rio tamb\u00e9m acontece. Boa parte desses avan\u00e7os j\u00e1 existia anteriormente, em plano hipot\u00e9tico, quarenta, cinquenta anos atr\u00e1s, em narrativas de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. No meio disso tudo tem um potencial muito grande de pensar na maneira como a literatura trata desses assuntos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que livros influenciaram diretamente a sua obra?<\/strong><br \/>\nNormalmente, tento me isolar das influ\u00eancias, n\u00e3o gosto de pensar em outros autores quando estou sozinho escrevendo, mas imagino que muito do \u201cMil Placebos\u201d passa pelas leituras de Ballard, William Gibson, Don DeLillo e, indo um pouco mais longe, as aventuras de Sherlock Holmes, que li na adolesc\u00eancia, mas foram muito importantes em minha forma\u00e7\u00e3o de leitor. Outras leituras importantes foram de pensadores do capitalismo tardio, em especial Mark Fisher, Franco Berardi e McKenzie Wark.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea escreve desde quando? Como come\u00e7ou a escrever?<\/strong><br \/>\nEscrevo desde crian\u00e7a, quando tive um primeiro contato com a literatura. Em especial, lembro de tentar escrever hist\u00f3rias de detetive, muito influenciado pela leitura do Sherlock Holmes. Mais tarde, durante a faculdade, especializei-me em roteiro cinematogr\u00e1fico, ent\u00e3o foi outro per\u00edodo de contato com a escrita, um tipo muito espec\u00edfico de escrita. Em 2013, comecei a escrever o \u201cMil Placebos\u201d e logo em seguida frequentei a oficina de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria do professor Assis Brasil. Acho que foi a\u00ed que as coisas se encaixaram de fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea definiria seu estilo de escrita?<\/strong><br \/>\nNormalmente, tento equilibrar uma disposi\u00e7\u00e3o natural ao cinismo com um temperamento histri\u00f4nico. Gosto de trabalhar atmosferas densas atrav\u00e9s de cenas longas, de alternar entre momentos de introspec\u00e7\u00e3o e espanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 o seu processo de escrita?<\/strong><br \/>\nGosto de pensar obsessivamente antes de escrever, em temas, imagens ou na estrutura da hist\u00f3ria. \u00c0s vezes, passo alguns meses sem escrever uma linha sequer, esperando as ideias amadurecerem. Quando sinto que as coisas come\u00e7am a se encaixar, a\u00ed me sento e come\u00e7o a dar forma ao texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais s\u00e3o os seus projetos atuais de escrita?<\/strong><br \/>\nPor enquanto, venho desenvolvendo meu projeto de mestrado, que \u00e9 um romance bem diferente do \u201cMil Placebos\u201d, uma hist\u00f3ria que tem muito da minha forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de cinema. Tenho tamb\u00e9m uma compila\u00e7\u00e3o de contos e um outro romance, que trabalhei mais ou menos em simult\u00e2neo ao \u201cMil Placebos\u201d e que foi conclu\u00eddo um pouco depois. Esse romance tamb\u00e9m tem suas distin\u00e7\u00f5es de estilo em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cMil Placebos\u201d, mas compartilha do mesmo DNA.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"MATHEUS BORGES: MIL PLACEBOS - SUB40 17\/06\/2023\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/O-NxZULxKII?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/milplacebos2.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/navionoespaco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcela G\u00fcther<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista, produtora de conte\u00fado, assessora de imprensa e mediadora do\u00a0<a href=\"https:\/\/leiamulheres.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leia Mulheres<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mescla de neo-noir, fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e ensaio acad\u00eamico, a obra tra\u00e7a uma investiga\u00e7\u00e3o ps\u00edquica do capitalismo tardio ao analisar os impactos da internet e da tecnologia nas rela\u00e7\u00f5es afetivas.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/27\/entrevista-autor-de-mil-placebos-o-escritor-gaucho-matheus-borges-fala-sobre-tecnologia-literatura-e-capitalismo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":107,"featured_media":75723,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[6403],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75722"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/107"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75722"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75722\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75725,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75722\/revisions\/75725"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75723"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}