{"id":75596,"date":"2023-06-20T01:10:39","date_gmt":"2023-06-20T04:10:39","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=75596"},"modified":"2023-10-18T12:24:41","modified_gmt":"2023-10-18T15:24:41","slug":"entrevista-hadessa-esta-lancando-fortuna-seu-primeiro-album-e-fala-sobre-a-producao-do-disco-e-a-importancia-das-letras-em-seu-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/20\/entrevista-hadessa-esta-lancando-fortuna-seu-primeiro-album-e-fala-sobre-a-producao-do-disco-e-a-importancia-das-letras-em-seu-trabalho\/","title":{"rendered":"Entrevista: Hadessa lan\u00e7a &#8220;Fortuna&#8221;, seu primeiro disco, e fala da import\u00e2ncia do texto, de artistas brasileiros favoritos e mais"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pedro.m.salgado.5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pedro Salgado<\/a>, especial de Lisboa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA m\u00fasica \u00e9 o ve\u00edculo de excel\u00eancia para a minha express\u00e3o por palavras. \u00c9 no texto que eu gosto de colocar tudo o que eu tenho a dizer e procuro interlig\u00e1-lo com a m\u00fasica\u201d, diz-me Vanessa Borges num come\u00e7o de conversa numa esplanada do Jardim do Pr\u00edncipe Real, em Lisboa, enquanto tomamos um caf\u00e9. De seguida, recordamos as principais etapas do seu percurso que a levaram a assumir a identidade art\u00edstica de Hadessa e, mais recentemente, a lan\u00e7ar o disco \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/album\/4Jr5XZRa4V3nCl3iLFc6KY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fortuna<\/a>\u201d (2023).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vanessa come\u00e7ou a aprender guitarra aos nove anos, escreveu as suas primeiras can\u00e7\u00f5es com 15 e cantou em grupos de m\u00fasica tradicional, devido \u00e1 sua enorme curiosidade pelas sonoridades populares portuguesas e pela world music, nomeadamente a m\u00fasica celta e dos Balc\u00e3s. Em 2004, formou com Alina Sousa o duo lisboeta Ch\u00e3o da Feira, um projeto que mistura as ra\u00edzes musicais portuguesas com a m\u00fasica do mundo e editaria o EP \u201c<a href=\"https:\/\/chaodafeira.bandcamp.com\/album\/das-tripas-cora-o\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Das Tripas Cora\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d (2015) de forma independente. Sobre o grupo, Vanessa considera que \u201cainda tem muitos objetivos para alcan\u00e7ar no futuro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m de contar no seu curr\u00edculo com um curso de m\u00fasica e literatura portuguesa na Universidade de Budapeste (Hungria), onde viria a fazer o mestrado, a artista participou entre Outubro e Novembro de 2021 num curso online, \u201cProcesso Criativo e M\u00e9todo de Trabalho\u201d, ministrado pela rapper Capicua. Durante a forma\u00e7\u00e3o, Vanessa foi desafiada a elaborar um projeto criativo e prop\u00f4s-se a fazer o disco \u201cFortuna\u201d, que seria o passo seguinte na sua carreira. \u201cAl\u00e9m do desenvolvimento do conceito do \u00e1lbum e dos temas principais, o curso ajudou-me imenso a ter uma melhor orienta\u00e7\u00e3o relativamente \u00e0 escrita e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o musical\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A identidade art\u00edstica com que iria encabe\u00e7ar o trabalho, Hadessa, de origem b\u00edblica (representa uma princesa persa, de origem judia, que contra todas as regras estabelecidas usou a sua intelig\u00eancia assumindo a sua ascend\u00eancia para p\u00f4s termo \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o do seu povo), motiva uma aprecia\u00e7\u00e3o curiosa da parte da artista: \u201cA Hadessa \u00e9 aquela parte de mim que na descoberta da minha identidade esteve mais contida, mas talvez seja a pessoa verdadeira que eu gostaria de ser e por vezes n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel por causa das m\u00e1scaras que colocamos no dia-a-dia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00e1lbum conceitual \u201cFortuna\u201d, ligado a uma ideia de sorte, destino e livre arb\u00edtrio percorre diversos estilos musicais como o pop, a m\u00fasica de interven\u00e7\u00e3o portuguesa, o jazz, o rock, o hip-hop e o fado. Dentro das v\u00e1rias m\u00fasicas do disco, produzido por Momma T, destaca-se a ambiciosa faixa-t\u00edtulo, unindo os \u2018spirituals\u2019 americanos ao trip hop e \u00e0 guitarra portuguesa, o hip-hop imaginativo de \u201cFor\u00e7a Motriz\u201d, com a participa\u00e7\u00e3o de Mit\u00f3 Mendes (integrante d\u2019A Naifa e Se\u00f1oritas), a intimista \u201cBandeiras Vermelhas\u201d, a roqueira \u201cTemperan\u00e7a\u201d e a agridoce e dan\u00e7ante \u201cRu\u00edna\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_75597\" aria-describedby=\"caption-attachment-75597\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-75597 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/hadessa1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/hadessa1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/hadessa1-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/hadessa1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-75597\" class=\"wp-caption-text\"><em>Capa de &#8220;Fortuna&#8221;, disco de estreia de Hadessa<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A marca de Hadessa manifesta-se principalmente no poder das suas palavras e nos momentos em que a sua interpreta\u00e7\u00e3o surge mais solta e a mensagem \u00e9 atingida com maior efic\u00e1cia. \u201cO fato de n\u00e3o querer atingir uma voz perfeita e de tentar cantar como sei contribuiu muito para me sentir segura nesta ideia de apresentar a minha voz e a minha impress\u00e3o digital\u201d, comenta a artista e prossegue exprimindo um desejo: \u201cPe\u00e7o que quem escutar o disco se foque mais nas palavras do que no som. Eu sei que \u00e9 dif\u00edcil, porque quando ou\u00e7o m\u00fasica tenho dificuldade em me concentrar nas letras. Foi para ajudar \u00e0 sua compreens\u00e3o que fiz os lyric v\u00eddeos de \u201cM\u00e3e\u201d, \u201cDedos da M\u00e3o\u201d e \u201cFor\u00e7a Motriz\u201d\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tematicamente, \u201cFortuna\u201d aborda de forma honesta t\u00f3picos como maternidade, sexualidade, amor, desigualdades e abandono, entre outros, e a clareza com que interpreta as suas can\u00e7\u00f5es encontra igual tradu\u00e7\u00e3o no modo como expressa o seu pensamento. \u201cGosto bastante de explorar o que podemos controlar e o que n\u00e3o conseguimos, o nosso destino e a nossa vontade. As coisas da vida que s\u00e3o mais complicadas de alterar est\u00e3o relacionadas com o sistema em que vivemos. H\u00e1 muitas injusti\u00e7as que se mant\u00eam na sociedade e isso passa para o plano individual, porque trabalhamos demasiadas horas em ambientes t\u00f3xicos, recebemos sal\u00e1rios baixos e esses fatos afetam bastante a nossa sa\u00fade mental, as nossas fam\u00edlias e at\u00e9 o meio art\u00edstico. O conceito do \u00e1lbum deriva da vontade de quebrar estas normas e a forma conformista de encarar a realidade e inquietarmo-nos. \u00c9 o meu dever enquanto artista p\u00f4r as pessoas a pensar e mexer com aquilo que est\u00e1 adormecido no cora\u00e7\u00e3o delas\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relativamente \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o do disco, Hadessa aponta o m\u00eas de Setembro como a data mais prov\u00e1vel para se apresentar ao vivo, mas salienta que ainda n\u00e3o est\u00e3o definidos os locais e revela a sua opini\u00e3o sobre os shows. \u201cApesar de j\u00e1 ter tocado estas m\u00fasicas ao vivo, o palco ainda \u00e9 um espa\u00e7o onde me sinto sozinha e tenho alguma dificuldade em chegar aos outros. Eu estou muito grata a quem me ajudou, mas o sucesso ou insucesso vai ser sempre meu. No entanto, sinto que em breve vou gostar de poder partilhar o palco com o p\u00fablico, porque isso faz-me falta. O que aprecio mesmo \u00e9 a escrita das can\u00e7\u00f5es. Tudo o que eu fa\u00e7o a seguir \u00e9 motivado pelo fato de n\u00e3o aguentar ver a can\u00e7\u00e3o sozinha e sem chegar \u00e0s pessoas\u201d, confessa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Hadessa, os seus artistas incontorn\u00e1veis s\u00e3o os Beatles, Am\u00e1lia Rodrigues, Ant\u00f3nio Varia\u00e7\u00f5es, A Naifa e os Dead Combo, mas tamb\u00e9m admira o trajeto art\u00edstico da cantora popular Ana Malhoa e aproveita para deixar uma mensagem aos leitores do Scream &amp; Yell: \u201cCada vez mais, a n\u00edvel cultural, o p\u00fablico brasileiro tem tido curiosidade relativamente \u00e0 m\u00fasica portuguesa. De alguma forma, eu gostaria de fazer parte desse caminho. Se calhar n\u00e3o temos t\u00e3o bons artistas, porque o Brasil \u00e9 maior do que Portugal, mas existem m\u00fasicos que merecem ser escutados. Acho que esta partilha entre dois pa\u00edses que est\u00e3o t\u00e3o distantes e ainda assim unidos pela l\u00edngua \u00e9 sempre boa de fazer. Por isso, fa\u00e7amo-la juntos\u201d, conclui. De Lisboa para o Brasil, Hadessa conversou com o Scream &amp; Yell. Confira:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"HADESSA - Fortuna (Official Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9ZYVA1afWtA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No seu disco de estreia, \u201cFortuna\u201d, voc\u00ea percorreu diversos estilos musicais apenas por uma quest\u00e3o de gosto pessoal ou como forma de explorar as suas capacidades art\u00edsticas?<\/strong><br \/>\nQuando eu escrevo as m\u00fasicas, elas s\u00e3o muito parecidas entre si. S\u00e3o um conjunto de acordes, muitos deles tocados da mesma forma na guitarra ou no piano e s\u00f3 quando a can\u00e7\u00e3o est\u00e1 fechada \u00e9 que eu penso na sonoridade que ela me faz lembrar. Algumas m\u00fasicas j\u00e1 tinham sido escritas antes ou cantadas de outras maneiras, muitas vezes na base piano-voz ou guitarra-voz. O que eu fiz neste disco na explora\u00e7\u00e3o de estilos foi o que no Ch\u00e3o da Feira n\u00e3o tive oportunidade para fazer, porque t\u00ednhamos um n\u00famero limitado de instrumentos musicais. Neste caso, como dispomos da tecnologia, permitiu que eu me divertisse mais na explora\u00e7\u00e3o das diversas sonoridades. Normalmente, se dependesse apenas da guitarra e da minha voz para fazer shows, provavelmente n\u00e3o faria tantas m\u00fasicas rock e dificilmente colocaria essa energia. Trata-se de algo que h\u00e1 30 anos s\u00f3 consegu\u00edamos gerar se tiv\u00e9ssemos uma banda. Mas, j\u00e1 consigo explorar essa vertente com a voz e um instrumental e assumir essa atitude. Na faixa \u201cBom o Suficiente\u201d, o processo de composi\u00e7\u00e3o foi diferente e iniciou-se com a melodia. Isso acontece por vezes quando estou a dirigir e parece que sou atingida por um raio e come\u00e7o a cantar. Nesse momento, procurei honrar a forma como me soava na cabe\u00e7a e a m\u00fasica teve uma orienta\u00e7\u00e3o mais jazz\u00edstica. Como este disco \u00e9 muito afirmativo na minha identidade, n\u00e3o quis fech\u00e1-lo numa gaveta, porque tenho dificuldade em escutar \u00e1lbuns que s\u00e3o muito parecidos do princ\u00edpio ao fim. Ainda tenho bastante tempo para mostrar ao p\u00fablico o que eu consigo fazer, mas \u00e9 uma \u2018 trademark\u2019 minha a necessidade de procurar coisas novas e de obter mais est\u00edmulos. Quando estamos a fazer um disco, o processo de descoberta tamb\u00e9m \u00e9 gratificante. Como eu sou uma artista independente e n\u00e3o tenho qualquer constrangimento com o meu p\u00fablico, que ainda est\u00e1 a ser formado, sinto que tenho de aproveitar a liberdade que disponho para fazer o que quero. Isso foi bastante libertador e a diversidade de estilos do \u00e1lbum acaba por refletir essa procura.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"HADESSA - Ru\u00edna (Official Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cE-7OOlBW60?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os seus primeiros clipes (\u201cFortuna\u201d e \u201cRu\u00edna\u201d) possuem uma carga simb\u00f3lica forte e parecem mostr\u00e1-la como uma figura m\u00edstica e singular. Foi essa a motiva\u00e7\u00e3o principal quando escreveu o argumento dos v\u00eddeos?<\/strong><br \/>\nO single \u201cFortuna\u201d tem uma vibe especial e quando o lancei parecia que n\u00e3o havia nada que o igualasse. No fundo, ele mistura v\u00e1rias influ\u00eancias e ningu\u00e9m se tinha lembrado de fazer aquilo. Como essa m\u00fasica foi feita com base na interpreta\u00e7\u00e3o dos textos cl\u00e1ssicos, eu queria que a componente visual fosse ligada \u00e0 pintura das artes pl\u00e1sticas. Ela \u00e9 inspirada em quadros de Josefa de \u00d3bidos, que representam cenas cat\u00f3licas. O primeiro verso da can\u00e7\u00e3o refere-se \u00e0 fortuna como sendo uma m\u00e3e, no segundo verso como uma amante e no terceiro como um filho. Eu inspirei-me nas pinturas de Josefa de \u00d3bidos, das quais gostava e que remetiam para estas figuras. No caso de \u201cRu\u00edna\u201d, a m\u00fasica tem uma letra triste, mas o v\u00eddeo \u00e9 animado e dan\u00e7ante. Por isso, \u00e9 muito importante para mim que haja uma inten\u00e7\u00e3o art\u00edstica expl\u00edcita nos clipes e no que eu transmito. Se eu puder, a minha arte pode ser feita de forma transversal e pretendo que isso se traduza nos v\u00eddeos, nos elementos visuais que acompanham o disco e na performance. Mas, nem sempre dispomos de or\u00e7amento para realizar os clipes mais espetaculares de sempre. No entanto, preocupo-me em transformar a m\u00fasica numa experi\u00eancia global. A forma como me apresento e a mensagem que quero transmitir s\u00e3o aspectos que me importam. \u00c9 dif\u00edcil assumir a postura de &#8216;related diva&#8217; em 2023, porque significa que algu\u00e9m se destaca nas pessoas que fazem m\u00fasica e na l\u00f3gica da ind\u00fastria musical e do mercado art\u00edstico isso \u00e9 algo que \u00e9 necess\u00e1rio fazer. Eu quero deixar bem claro que n\u00e3o \u00e9 para me evidenciar ou estar acima dos outros que fa\u00e7o as coisas do meu jeito. Enquanto puder, pretendo transmitir que a m\u00fasica da Hadessa est\u00e1 ligada a outras formas de arte. A minha escrita tem muita liga\u00e7\u00e3o com a literatura, pintura, filosofia e religi\u00e3o e gostaria de vincar isso para quem me est\u00e1 a ver e ouvir do outro lado.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"HADESSA - Tr\u00edptico [Lyric] - M\u00e3e (elegia) \/ Dedos da M\u00e3o \/ For\u00e7a Motriz (feat. Maria Ant\u00f3nia Mendes)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jqdhWifxNUU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em antecipa\u00e7\u00e3o ao \u00e1lbum, voc\u00ea lan\u00e7ou igualmente um tr\u00edptico de lyric v\u00eddeos e singles centrados nas desigualdades sociais e de g\u00e9nero. Constato que em \u201cM\u00e3e\u201d h\u00e1 uma aparente resigna\u00e7\u00e3o, \u201cDedos da M\u00e3o\u201d exibe a sua consciencializa\u00e7\u00e3o dos fatos e em \u201cFor\u00e7a Motriz\u201d voc\u00ea assume uma postura mais interventiva. Em que medida esta narrativa de protesto no feminino a define enquanto artista?<\/strong><br \/>\nDefine-me completamente. As m\u00fasicas que voc\u00ea falou s\u00e3o as mais interventivas, mas todas elas convidam \u00e0 reflex\u00e3o e ao questionamento num n\u00edvel mais profundo. Porque mais importante do que apontar um caminho \u00e9 p\u00f4r as pessoas a interrogarem-se sobre o pr\u00f3prio caminho. No tr\u00edptico, eu organizei as can\u00e7\u00f5es para que tivessem essa sequ\u00eancia narrativa. Na faixa \u201cM\u00e3e\u201d, que corresponde \u00e0 segunda m\u00fasica do \u00e1lbum, desenvolvi um exerc\u00edcio de escrita a que me propus e consistia apenas em descrever a realidade. As minhas can\u00e7\u00f5es t\u00eam como prop\u00f3sito contar uma hist\u00f3ria, mas nessa m\u00fasica fiz apenas uma pintura do que era essa viv\u00eancia. Por isso, \u201cM\u00e3e\u201d pinta um quadro de observa\u00e7\u00e3o. Eu escrevi a can\u00e7\u00e3o durante a pandemia, numa \u00e9poca em que todos nos comunic\u00e1vamos online e havia muitas conversas na Internet sobre m\u00e3es recentes. Quando falava com amigas verificava que havia uma grande disparidade no trabalho de homens e mulheres relativamente ao cuidado dos filhos e da casa. Embora a letra esteja na primeira pessoa, eu peguei no que me disse uma amiga sobre o fato da situa\u00e7\u00e3o ser m\u00e1 e do filho dela estar a crescer e a ver essa desigualdade em casa e escrevi a m\u00fasica na perspectiva do filho. Em \u201cDedos da M\u00e3o\u201d h\u00e1 uma revolta a subir, como o S\u00e9rgio Godinho diz: \u201cUma raiva a crescer nos dentes\u201d. Isso corresponde a tr\u00eas fases da vida, a inf\u00e2ncia e depois a juventude na qual as pessoas procuram trabalho e por vezes sujeitam-se a condi\u00e7\u00f5es de emprego pouco \u00e9ticas. A \u201cFor\u00e7a Motriz\u201d \u00e9 uma faixa complexa e n\u00e3o posso dizer que seja a terceira fase da tomada de consci\u00eancia. Porque h\u00e1 um interlocutor, ela est\u00e1 a falar com algu\u00e9m e acaba por ser um tributo \u00e0s mulheres que estiveram na resist\u00eancia em Portugal durante o fascismo. Essa hist\u00f3ria e de muitas mulheres \u00e9 muitas vezes apagada porque o trabalho delas era secreto e precisavam manter as casas e as tipografias clandestinas. Houve bastantes mulheres que foram presas com os filhos e torturadas e a can\u00e7\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de homenagem meio zangada, porque elas estiveram sempre a lutar por uma vida melhor e mereciam ter mais visibilidade. Quando falamos das personalidades que se destacaram durante a revolu\u00e7\u00e3o de 25 de Abril de 1974, devia-se falar das mulheres, onde elas estavam e o que faziam. Embora a grande figura tenha sido obviamente o povo portugu\u00eas. O que temos de fazer relativamente aos direitos das mulheres ainda est\u00e1 muito aqu\u00e9m do que precisamos. Isso n\u00e3o est\u00e1 desligado da melhoria da qualidade de vida. Mas, dentro do povo, ainda s\u00e3o elas que auferem rendimentos mais baixos e despedem-nas quanto est\u00e3o gr\u00e1vidas ou a amamentar. Al\u00e9m de serem elementos ativos e \u00fateis, o contributo das mulheres \u00e9 imprescind\u00edvel para mudar a sociedade.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"HADESSA - Temperan\u00e7a\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aIXx7qEg4f8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A sua for\u00e7a interpretativa evidenciou-se na roqueira \u201cTemperan\u00e7a\u201d e sinto que voc\u00ea assinou um mote na estrofe \u201cTer-te aos poucos n\u00e3o me faz menos inteira \/ eu gosto de ser assim\u201d, da intimista \u201cBandeiras Vermelhas\u201d. Gostaria que me falasse destes dois momentos e da import\u00e2ncia que eles representam para o disco.<\/strong><br \/>\nOs singles deste \u00e1lbum n\u00e3o falam de rela\u00e7\u00f5es amorosas ou de amor, mas as can\u00e7\u00f5es que o abordam est\u00e3o guardadas no disco para as pessoas depois escutarem (sorriso). \u201cTemperan\u00e7a\u201d \u00e9 uma m\u00fasica muito interessante e foi inspirada inicialmente nos dois momentos d\u00edspares que a Billie Eilish criou na faixa \u201cHappier Than Ever\u201d. Claro que a minha m\u00fasica acaba posteriormente por n\u00e3o estar relacionada, mas essa composi\u00e7\u00e3o influenciou-me. As duas partes j\u00e1 existiam como can\u00e7\u00f5es independentes. Uma delas era uma m\u00fasica infantil que eu tinha feito para um livro e a outra foi a primeira can\u00e7\u00e3o que escrevi com 15 anos. Na segunda parte de \u201cTemperan\u00e7a, aquilo que escutamos musicalmente foi feito por mim h\u00e1 20 anos atr\u00e1s. O que marca um contraste forte na faixa \u00e9 o fato de haver um momento de soltura e ele ser assumidamente roqueiro. Sinto que me expressei com mais liberdade. Eu tinha muito receio que o \u00e1lbum ficasse bastante \u2018dark\u2019, porque ele vai ser lan\u00e7ado no ver\u00e3o e gostaria que fosse animado. Mas, preciso expiar a negatividade e se eu o fiz neste trabalho foi de forma ligeira. Voltando a \u201cTemperan\u00e7a\u201d, que \u00e9 quase no fim do disco, \u00e9 a\u00ed que eu dou tudo e liberto os fantasmas de 20 anos de m\u00e1goa contida. J\u00e1 \u201cBandeiras Vermelhas\u201d \u00e9 uma m\u00fasica arriscada, porque \u00e9 muito sensual e sexual e estava aterrorizada com aquilo que as pessoas iam pensar (risos). Mas, acabei por fazer o que queria e a interpreta\u00e7\u00e3o fica para o p\u00fablico. A frase \u201cTer-te aos poucos n\u00e3o me faz menos inteira \/ eu gosto de ser assim\u201d \u00e9 engra\u00e7ada e de certa forma \u00e9 alusiva a diferentes tipos de rela\u00e7\u00e3o. Hoje em dia o panorama dos relacionamentos est\u00e1 a mudar, mas todos os modos de nos ligarmos a outra pessoa e que sejam consensuais, abertos e conversados s\u00e3o v\u00e1lidos. Nesta can\u00e7\u00e3o eu falo de um amor que n\u00e3o \u00e9 tradicional, ou seja, s\u00e3o encontros meio fortuitos ou pontuais. Mas, o fato de existirem n\u00e3o me torna a mim menos inteira. A vida \u00e9 composta de tudo o que escolhemos fazer e se optamos pelo amor a conta gotas em vez de uma avalanche a nossa exist\u00eancia tamb\u00e9m pode ficar preenchida. Amar quando nos apetece tamb\u00e9m \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o v\u00e1lida. De certa maneira, acaba por ser a desdramatiza\u00e7\u00e3o do ideal rom\u00e2ntico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dentro da m\u00fasica brasileira, voc\u00ea encontra algum artista ou banda que tenha influenciado o seu trabalho?<\/strong><br \/>\nChico Buarque, sem d\u00favida. Ele \u00e9 um dos meus cantautores preferidos e o Caetano Veloso tamb\u00e9m. Mas, tenho que referir a Rita Lee n\u00e3o s\u00f3 pelo momento presente, porque se eu vivesse no Brasil era algu\u00e9m que eu queria ter visto continuamente a trabalhar. Gostaria de destacar igualmente a Iza. Ela \u00e9 uma boa cantora pop e eu adoro a sua m\u00fasica. A Iza lan\u00e7ou tr\u00eas singles de seguida, em 2022, e fui a\u00ed que eu me inspirei para lan\u00e7ar o tr\u00edptico. Nesse filme que ela fez com as m\u00fasicas \u201cMole\u201d, \u201cM\u00f3 Paz\u201d e \u201cDroga\u201d, existe uma colabora\u00e7\u00e3o com o Evandro (artista portugu\u00eas) em \u201cM\u00f3 Paz\u201d e achei muita gra\u00e7a que na narrativa a Iza discorre sobre tr\u00eas momentos na vida amorosa de uma pessoa. Em primeiro lugar, quando est\u00e1 sozinha \u00e0 procura do amor, depois quando encontra o amor e fica muito feliz e finalmente quando o amor acaba. Ela foi muito inspiradora para mim. Eu tamb\u00e9m gosto imenso da m\u00fasica rom\u00e2ntica brasileira. A minha m\u00e3e \u00e9 superf\u00e3 do Roberto Carlos e h\u00e1 outros artistas dentro desse patamar como a Mar\u00edlia Mendon\u00e7a. Aprecio a coragem lingu\u00edstica que os m\u00fasicos brasileiros t\u00eam de contar hist\u00f3rias. Por vezes, sinto que o portugu\u00eas de Portugal est\u00e1 um pouco preso nas regras e acaba por ser limitador. A tend\u00eancia da l\u00edngua \u00e9 simplificar-se para ser melhor entendida por toda a gente. Em Portugal faz-nos falta isso, ou seja, descomplicar a l\u00edngua para nos entendermos e dar espa\u00e7o a que sejamos criativos e at\u00e9 desafiadores com a linguagem. Acredito que podemos ser mais livres e buscar essa inspira\u00e7\u00e3o nos m\u00fasicos brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 a sua maior ambi\u00e7\u00e3o musical?<\/strong><br \/>\nSer ouvida e compreendida pelo maior n\u00famero de pessoas poss\u00edvel. N\u00e3o tenho qualquer tipo de estrat\u00e9gia ou ambi\u00e7\u00e3o, porque sou muito resistente a esta ideia da m\u00fasica ser uma ind\u00fastria. Faz-me confus\u00e3o que a arte esteja associada a um processo industrial e a m\u00fasica esteja relacionada com um sistema de vendas e marketing. Estas regras que aplicamos aos produtos est\u00e3o a ser transportadas para a m\u00fasica. \u00c9 dif\u00edcil entender isso e perceber que devemos fazer o melhor que podemos neste circuito com os princ\u00edpios que j\u00e1 existem. Mas, eu tenho o maior respeito por todos os artistas, sejam eles independentes ou n\u00e3o. Os m\u00fasicos que t\u00eam uma estrutura \u00e0 volta deles tamb\u00e9m trabalharam imenso para chegar a essa posi\u00e7\u00e3o. No fundo, todos tentamos expressar-nos da maneira que sabemos para termos algu\u00e9m que nos aplauda.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"HADESSA - Bandeiras Vermelhas\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7fAo62Kluq8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Pedro Salgado (siga\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/woorman\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@woorman<\/a>) \u00e9 jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010 contando novidades da m\u00fasica de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/pedro-salgado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>. A foto que abre o texto \u00e9 de Joanna Correia \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O \u00e1lbum conceitual \u201cFortuna\u201d, ligado a uma ideia de sorte, destino e livre arb\u00edtrio percorre diversos estilos musicais como o pop, a m\u00fasica de interven\u00e7\u00e3o portuguesa, o jazz, o rock, o hip-hop e o fado.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/20\/entrevista-hadessa-esta-lancando-fortuna-seu-primeiro-album-e-fala-sobre-a-producao-do-disco-e-a-importancia-das-letras-em-seu-trabalho\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":7,"featured_media":75598,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[6751,47],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75596"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75596"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75596\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75612,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75596\/revisions\/75612"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75598"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75596"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75596"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75596"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}