{"id":75481,"date":"2023-06-17T00:02:11","date_gmt":"2023-06-17T03:02:11","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=75481"},"modified":"2023-07-27T23:07:01","modified_gmt":"2023-07-28T02:07:01","slug":"entrevista-zebrinha-fala-sobre-racismo-invisibilidade-e-ijo-dudu-memorias-da-danca-negra-na-bahia-filme-presente-no-in-edit-2023","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/17\/entrevista-zebrinha-fala-sobre-racismo-invisibilidade-e-ijo-dudu-memorias-da-danca-negra-na-bahia-filme-presente-no-in-edit-2023\/","title":{"rendered":"Entrevista: Zebrinha fala sobre invisibilidade, racismo e o document\u00e1rio &#8220;Ij\u00f3 Dudu &#8211; Mem\u00f3rias da Dan\u00e7a Negra na Bahia&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 Carlos Arandiba, carinhosamente conhecido como Zebrinha, logo nos primeiros minutos dessa entrevista com o Scream &amp; Yell, fala sobre a necessidade de reverberar as hist\u00f3rias de vida que o vasto leque de nomes que seu filme, o document\u00e1rio \u201cIj\u00f3 Dudu &#8211; Mem\u00f3rias da Dan\u00e7a Negra na Bahia\u201d, destaca dentro da express\u00e3o art\u00edstica no nosso estado. Mas, consciente da riqueza e da grandiosidade de seu tema, afirma: &#8220;Gosto de dizer que comecei uma can\u00e7\u00e3o que eu sei que n\u00e3o vou terminar. Mas meus netos ir\u00e3o terminar. Meus alunos ir\u00e3o terminar essa can\u00e7\u00e3o. A gente s\u00f3 est\u00e1 no come\u00e7o. Eu estou com quase 70 anos e estamos no come\u00e7o do contar dessa hist\u00f3ria,&#8221; pontua Zebrinha<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dono de uma biografia impressionante dentro da arte da Dan\u00e7a, com mais de 40 anos dedicados a ela, Zebrinha traz para essa sua estreia como documentarista um olhar agu\u00e7ado para um tema de pesquisa hist\u00f3rica que define sua carreira e muito de sua luta como professor, bailarino, core\u00f3grafo e diretor art\u00edstico: a luta contra o esquecimento das pessoas que ajudaram a construir esse movimento. &#8220;O projeto come\u00e7ou por uma grande coincid\u00eancia. Tinha muito tempo que eu sentia vontade de contar as nossas hist\u00f3rias. As hist\u00f3rias que n\u00e3o s\u00e3o contadas. A\u00ed vem esse termo da invisibilidade que est\u00e1 muito na moda. Mas, \u00e0s vezes, as pessoas n\u00e3o sabem, as pessoas n\u00e3o pretas n\u00e3o sabem o quanto \u00e9 dolorido para a gente se sentir assim&#8221;, explica Zebrinha ao falar sobre como se deu o in\u00edcio da ideia que culminou neste lan\u00e7amento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Lembro de, um dia, na Pra\u00e7a da S\u00e9, em Salvador, encontrar com Amazonas (Altair Amazonas e Silva), que \u00e9 a primeira entrevistada pelo filme. Eu olho para ela e penso: &#8216;Rapaz, como \u00e9 que podemos esquecer essa pessoa? Uma pessoa que nos anos 1970 era o \u00edcone da dan\u00e7a aqui na Bahia?'&#8221;, relembra Zebrinha ao falar do embri\u00e3o de sua hist\u00f3ria. &#8220;Amazonas \u00e9 uma mulher supertalentosa que dan\u00e7ava em muitos grupos folcl\u00f3ricos, como Furac\u00f5es da Bahia, Olodumar\u00e9. Fora isso, era uma mulher que tinha uma altivez. Ela saia ali daquele Teatro Castro Alves e era imposs\u00edvel voc\u00ea n\u00e3o virar para olhar. E eu pensei: &#8216;Como \u00e9 que as pessoas s\u00e3o esquecidas?'&#8221;, complementa o diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partindo desse resgate da mem\u00f3ria, o cineasta elenca um n\u00famero expressivo de \u00edcones da Dan\u00e7a Negra na Bahia. Al\u00e9m de Amazonas, artistas da dan\u00e7a como Clyde Morgan, Luiz Bokanha, Renivaldo Nascimento, conhecido como Flexinha, El\u00edsio Pitta, Edileusa Santos, Inacyra Falc\u00e3o, Ivete Ramos, dentre muitos outros que trazem em seus depoimentos um vislumbre da trajet\u00f3ria daqueles grupos. &#8220;Eu acho que a gente vai ter que fazer um outro filme, um \u2018Mem\u00f3rias da Dan\u00e7a 2\u2019&#8221;, explica Zebrinha. &#8220;Porque n\u00e3o \u00e9 nem quest\u00e3o de agraciar ningu\u00e9m, mas \u00e9 que existem muitas hist\u00f3rias a serem contadas. E via esse caminho. Via preto construindo hist\u00f3rias de outros pretos, e n\u00e3o mais um tratado onde n\u00f3s n\u00e3o somos protagonistas nem roteiristas. Esse \u00e9 o meu grande mote, a minha grande urg\u00eancia, e o que eu acho que \u00e9 importante nesse projeto. Uma pesquisa de olhar para tr\u00e1s com muito cuidado, pois percebi que, por conta da idade, as pessoas estavam indo embora. Ent\u00e3o, a gente tinha que ter uma urg\u00eancia em fazer isso&#8221;.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-75483\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/MDN_CARTAZ_final-1-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1061\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/MDN_CARTAZ_final-1-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/MDN_CARTAZ_final-1-copiar-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cIj\u00f3 Dudu &#8211; Mem\u00f3rias da Dan\u00e7a Negra na Bahia\u201d tem sua for\u00e7a n\u00e3o somente nesse resgate hist\u00f3rico atrav\u00e9s de depoimentos sobre aquele processo de constru\u00e7\u00e3o art\u00edstico, bem como em um rico acervo de imagens de arquivo, mas, tamb\u00e9m, na for\u00e7a das palavras que denunciam o racismo e o preconceito pelo qual muitas daquelas pessoas passaram. Em certo momento do filme, Luiz Bokanha relata o momento em que uma diretora do bal\u00e9 onde ele ainda adolescente estudava, questionou sua presen\u00e7a no local sob o argumento de que o lugar de pessoas como ele era na feira como vendedor de lim\u00e3o, e n\u00e3o sendo artista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele, adolescente, ouvir aquelas palavras daquela senhora. Um adolescente! Talvez seja uma for\u00e7a ancestral que esse cara sai dali e constr\u00f3i uma das carreiras mais bonitas que existem nesse pa\u00eds. Ele vai dan\u00e7ar no bal\u00e9 de Lausanne, no bal\u00e9 de Lyon, em v\u00e1rios lugares, isso depois de tudo aquilo que ele ouviu e tudo o que lhe foi negado na Bahia .Essa den\u00fancia \u00e9 urgente porque ela n\u00e3o acontecia na \u00e9poca&#8221;, explica Zebrinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao final, diante de um depoimento pungente do professor e core\u00f3grafo estadunidense Clyde Morgan, um dos mentores de Zebrinha, este afirma que o outro mestre baiano representa seu investimento para o futuro, sua poupan\u00e7a, como ele bem coloca. O momento \u00e9 coroado com um pedido de ben\u00e7\u00e3o e um abra\u00e7o emocionado. O fechamento tenro ecoa pela frase forte de Spike Lee, citado ao final de maneira a definir o que Zebrinha quis trazer com seu trabalho. &#8220;N\u00e3o acredito que o racismo possa ser eliminado durante o resto da minha vida, na da vida dos meus filhos, nem da dos meus netos. Mas acredito que devemos nos esfor\u00e7ar para isso. Continuarei trabalhando para que este dia chegue&#8221;, diz Spike Lee em suas aspas. O encontro de dois mestres em suas sabedorias e lutas se torna evidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No papo abaixo, Zebrinha aprofunda sua experi\u00eancia de vida \u00e0 frente de t\u00e3o essencial luta e em sua estreia como cineasta. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ij\u00f3 Dudu, Mem\u00f3rias da dan\u00e7a negra na Bahia - teaser\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hYk5FSmpdZ4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ap\u00f3s tantos anos de dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 dan\u00e7a, como surgiu a motiva\u00e7\u00e3o para dirigir o document\u00e1rio \u201cIj\u00f3 Dudu &#8211; Mem\u00f3rias da Dan\u00e7a Negra na Bahia\u201d?<\/strong><br \/>\nTudo come\u00e7ou por uma grande coincid\u00eancia. Tinha muito tempo que eu sentia vontade de contar as nossas hist\u00f3rias. De verdade. As hist\u00f3rias que n\u00e3o s\u00e3o contadas. A\u00ed vem esse termo da invisibilidade que est\u00e1 muito na moda. Mas, \u00e0s vezes, as pessoas n\u00e3o sabem, as pessoas n\u00e3o pretas n\u00e3o sabem o quanto isso \u00e9 dolorido pra gente. O quanto \u00e9 dolorido voc\u00ea se sentir assim. Um dia, andando na Pra\u00e7a da S\u00e9 (N.E. regi\u00e3o localizada no Centro de Salvador), encontrei Amazonas, que \u00e9 a primeira entrevistada pelo filme. Olho para ela e penso: &#8220;Rapaz, como \u00e9 que podemos esquecer essa pessoa? Uma pessoa que, nos anos 1970, era o \u00edcone da dan\u00e7a aqui na Bahia?&#8221; Ela era uma mulher que era supertalentosa, dan\u00e7ava muito nos grupos folcl\u00f3ricos, como Furac\u00f5es da Bahia e Olorumar\u00e9. Fora isso, era uma mulher que tinha uma altivez, velho! Ela saia ali daquele Teatro Castro Alves e era imposs\u00edvel voc\u00ea n\u00e3o virar para olhar. E eu pensei: &#8220;Como \u00e9 que as pessoas s\u00e3o esquecidas?&#8221; E foi a partir da\u00ed que comecei essa pesquisa de olhar para tr\u00e1s. Claro que conhe\u00e7o a maioria dessas pessoas. Foi uma pesquisa de olhar para tr\u00e1s com muito cuidado, pois percebi que, por conta da idade, tamb\u00e9m, as pessoas estavam indo embora. Ent\u00e3o, a gente tinha que ter uma urg\u00eancia em fazer isso. Minha pesquisa come\u00e7ou a\u00ed. E digo uma coisa a voc\u00ea: acho que a gente vai ter que fazer um outro filme, um \u201dMem\u00f3rias da Dan\u00e7a 2&#8243;. Porque n\u00e3o \u00e9 nem quest\u00e3o de agraciar ningu\u00e9m, mas \u00e9 que existem muitas hist\u00f3rias a serem contadas. E via esse caminho. Via preto construindo hist\u00f3rias de outros pretos, e n\u00e3o mais um tratado onde n\u00f3s n\u00e3o somos protagonistas nem roteiristas. Esse e o meu grande mote, a minha grande urg\u00eancia, e o que acho importante nesse projeto. Eu tenho um projeto seguinte e pretendo chegar at\u00e9 os mais novos com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Trata-se, ent\u00e3o, de um document\u00e1rio de resgate hist\u00f3rico tanto do movimento de constru\u00e7\u00e3o da dan\u00e7a na Bahia quanto das pessoas que ajudaram a construi-la.<\/strong><br \/>\nSim. E s\u00e3o muitas as pessoas que participaram desse movimento da constru\u00e7\u00e3o da dan\u00e7a preta na Bahia e eu n\u00e3o as vi mais. E eu pergunto se temos not\u00edcias delas. Nas minhas pesquisas, essas pessoas desapareceram. N\u00e3o existe registro. Um exemplo que eu acho criminoso \u00e9 o do grupo Os Tropicais. Trata-se de um grupo de maior import\u00e2ncia que essa terra teve, que a Bahia teve. N\u00f3s n\u00e3o temos registros dele. No document\u00e1rio, temos poucas falas de algu\u00e9m que participou desse projeto, como Eurico de Jesus, como Lindete Souza, como Luiz Bokanha, mas n\u00e3o existe nenhum documento sobre esse grupo que enchia a Concha Ac\u00fastica, que era disputado na Sala do Coro do Teatro Castro Alves. Todo mundo tinha que ver esses meninos dan\u00e7arem. E n\u00e3o tem registro disso. Por isso que temos que come\u00e7ar a tomar cuidado com isso agora. Se voc\u00ea perceber, no Gloss\u00e1rio da Dan\u00e7a na Bahia, esses registros t\u00eam quase todos. S\u00f3 n\u00e3o existe registros da dan\u00e7a preta. V\u00e1rias pessoas de quem eu n\u00e3o consegui achar rastros. Pessoas que eu n\u00e3o sei se j\u00e1 foram, ou se sa\u00edram do cen\u00e1rio, n\u00e3o d\u00e3o mais not\u00edcias. Muitos deles que poderiam estar a\u00ed, ensinando para os mais novos. E o Estado n\u00e3o deu suporte \u00e0s pessoas para continuarem essa carreira, inclusive servirem de instrutores para os mais jovens. Existem v\u00e1rios hiatos na dan\u00e7a. V\u00e1rios. E isso me deixa preocupado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme traz entrevistas com v\u00e1rias fontes que trazem den\u00fancias relacionadas ao racismo. H\u00e1 exemplo de pessoas entrevistas que passaram por isso, de estarem em locais em que eram vistas pelas pessoas que estavam ali coordenando como intrusos, como bem colocam em suas falas, como pessoas que n\u00e3o pertenciam \u00e0queles lugares. E em resist\u00eancia, em mostrar talento, um talento palp\u00e1vel, conseguiram sobressair-se desse racismo sofrido naqueles locais. O filme, nesse sentido, como den\u00fancia, tamb\u00e9m tem essa miss\u00e3o para voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nN\u00f3s somos muitos baianos e brasileiros pretos. N\u00e3o diria que somos submissos, mas somos muito de aceitar as coisas. Existem hist\u00f3rias cru\u00e9is ali. Eu n\u00e3o sei como essas pessoas n\u00e3o se rebelaram, como essas pessoas n\u00e3o foram bater de frente contra o sistema. Acho que faltou suporte para poder reagir \u00e0quilo. Por exemplo, Luiz Bokanha. Ele adolescente ouvir aquelas palavras daquela senhora. Um adolescente! Talvez seja uma for\u00e7a ancestral que esse cara sai dali e constr\u00f3i uma das carreiras mais bonitas que existem nesse pa\u00eds. Ele vai dan\u00e7ar no bal\u00e9 de Lausanne, de Lyon, em v\u00e1rios lugares, isso depois de tudo aquilo que ele ouviu e tudo o que lhe foi negado na Bahia. Essa den\u00fancia \u00e9 urgente porque ela n\u00e3o acontecia na \u00e9poca. Comigo mesmo. N\u00e3o era nem o caso de aceitar, mas \u00e9 que n\u00e3o havia armas para lutar. N\u00e3o havia internet, tamb\u00e9m. N\u00f3s n\u00e3o \u00e9ramos levados \u00e0 s\u00e9rio. Nossos discursos n\u00e3o eram levados \u00e0 s\u00e9rio. Era tudo muito normal. Eu tive uma experi\u00eancia outro dia, inclusive com Luiz, um encontro que tivemos na escola de dan\u00e7a da universidade e ele contando aquilo tudo que ele conta no filme, e conta um pouco mais. E as pessoas riam. Achavam aquilo engra\u00e7ado. E quando questionei, eles diziam: &#8220;Ah, Zebrinha, voc\u00ea precisa entender que a \u00e9poca ali era outra.&#8221; Existe essa grande desculpa de que a \u00e9poca era outra e que aquilo era permitido fazer. E tem que explicar que aquilo era crime. Foi crime antes e ser\u00e1 crime depois. Mas as pessoas at\u00e9 hoje n\u00e3o encaram isso como se fosse uma falta de respeito, uma agress\u00e3o. Faz com que as pessoas acreditem que esse tipo de racismo faz parte do card\u00e1pio de qualquer preto para sobreviver nesse pa\u00eds. Se voc\u00ea bater de frente, voc\u00ea n\u00e3o vai andar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea encerra o document\u00e1rio com uma fala muito potente do Spike Lee falando sobre n\u00e3o crer que o racismo seja eliminado durante sua vida ou a vida dos seus filhos e netos, mas que a luta \u00e9 constante. O seu filme corrobora muito essa fala como sendo um modo de expressar justamente esse momento. E vendo a fala do Spike Lee ao final, eu lembrei do encerramento de &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/01\/25\/tres-filmes-infiltrado-na-klan-green-book-e-a-favorita\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Infiltrado na Klan<\/a>&#8220;, quando ele encerra com as imagens reais dos crimes de \u00f3dio que aconteceram nos Estados Unidos em 2016. Acaba que o filme do Spike Lee se tornou o documento de uma \u00e9poca que vai ser visto no futuro como um retrato preciso daquele momento. Voc\u00ea me falou agora a pouco sobre a necessidade de resgatar a mem\u00f3ria da arte da dan\u00e7a, das pessoas que a constru\u00edram, pessoas que passam e passaram por situa\u00e7\u00f5es de racismo. E seu filme tem essa for\u00e7a que reverbera para o futuro, podendo ser revisitado do mesmo modo. Na cria\u00e7\u00e3o do seu document\u00e1rio, voc\u00ea percebeu essa for\u00e7a logo de cara?<\/strong><br \/>\nTem alguns pontos em rela\u00e7\u00e3o a isso que voc\u00ea falou que quero abordar. Normalmente, quando n\u00f3s pretos aqui no Brasil falamos as nossas dores, \u00e9 igual voc\u00ea tomar bebida forte. Voc\u00ea tem que diluir isso com alguma coisa para poder se tornar palat\u00e1vel. Uma outra coisa \u00e9 que quando um preto fala das suas pr\u00f3prias dores, ele n\u00e3o \u00e9 ouvido. Quando um branco fala da dor do preto, ele \u00e9 ouvido e ele \u00e9 ovacionado. Outro ponto \u00e9 que existiram 380 anos de escravid\u00e3o e ap\u00f3s isso, nada mudou. Na Bahia e no Brasil, toda vez que a gente vai falar sobre nossas dores, nossa situa\u00e7\u00e3o, sobre n\u00f3s mesmos e nossa hist\u00f3ria, \u00e9 sempre assim: &#8220;De novo?&#8221; Parece que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds cansado de ouvir as nossas hist\u00f3rias. E elas nunca foram contadas. Acho impressionante como a gente vai ao cinema assistir mil vezes a filmes sobre o holocausto. E batemos palmas. E eles est\u00e3o certos. Acho que a comunidade judaica est\u00e1 certa em n\u00e3o deixar que esque\u00e7am o que aconteceu com eles durante a Segunda Guerra Mundial. Com americanos, vejam quantos filmes sobre a escravid\u00e3o e quanta hist\u00f3rias sobre pretos s\u00e3o contadas todos os anos. Centenas de hist\u00f3rias. Voc\u00ea abre qualquer plataforma dessas, voc\u00ea v\u00ea centenas de hist\u00f3rias sobre pessoas pretas. E aqui no Brasil, ainda \u00e9 assim. Eu fui muito corajoso em rela\u00e7\u00e3o a isso, pois as pessoas chegam e dizem: &#8220;de novo?&#8221; De novo o que, gente?! N\u00e3o mudou nada ainda. E a gente tem que contar essas hist\u00f3rias todos os dias. Quando eu sento para pensar em um projeto desses, \u00e9 muito simples: eu quero que em cada canto dessa cidade, cada aluno meu conte suas hist\u00f3rias. Porque \u00e9 a mudan\u00e7a. Eu acho que quando voc\u00ea verbaliza essas coisas, quando voc\u00ea verbaliza a hist\u00f3ria de sucesso ou de insucesso, isso traz mudan\u00e7as para quem ouve. Por isso que eu acho muito necess\u00e1rio que contemos essas hist\u00f3rias. Gosto de dizer que comecei uma can\u00e7\u00e3o que eu sei que n\u00e3o vou terminar. Mas meus netos ir\u00e3o terminar. Meus alunos ir\u00e3o terminar essa can\u00e7\u00e3o. A gente s\u00f3 est\u00e1 no come\u00e7o. Eu estou com quase 70 anos e estamos no come\u00e7o do contar dessa hist\u00f3ria. Um exemplo muito pertinente aqui nessa cidade \u00e9 Mario Gusm\u00e3o. A hist\u00f3ria dele \u00e9 para ser conhecida. A\u00ed quando voc\u00ea fala de Maria Felipa, fala de nossos her\u00f3is negros&#8230; De vez em quando, quando existe uma data em homenagem a isso, que existe a data especial, \u00e9 que se fala dessas pessoas e depois n\u00e3o se fala mais. Uma crian\u00e7a preta n\u00e3o sabe quem foi Maria Felipa. E outros e outros&#8230; Mario Gusm\u00e3o foi o cara que revolucionou a arte preta nessa cidade. Foi o cara que mais influenciou pretos nos anos 1970 e 1980 em Salvador, e esse cara n\u00e3o \u00e9 falado. Escreveu-se um livro, mas ele deveria ser citado a cada vez que voc\u00ea abre a boca para falar de projetos pretos. A cada vez que voc\u00ea abrir a boca em uma sala de aula de teatro, deve come\u00e7ar com &#8220;Am\u00e9m, Mario Gusm\u00e3o.&#8221; E a gente n\u00e3o pensa nisso. \u00c9 uma figura que vai para o ostracismo. Que a gente n\u00e3o fala nessas pessoas. E quando eu falo isso, \u00e9 porque essas pessoas constru\u00edram Hist\u00f3ria. Essas pessoas pavimentaram a estrada que estamos caminhando. N\u00e3o \u00e9 somente a lembran\u00e7a. Inclusive, os bantos t\u00eam um termo que eu acho genial que \u00e9 bakulo. Bakulos s\u00e3o aquelas pessoas que devem ser lembradas sempre depois que se foram. E isso, para mim, \u00e9 crucial. Voc\u00ea deve lembrar dessas pessoas todos os dias. Existem outras hist\u00f3rias que foram contadas e que eu acho pertinente, mas pelo tamanho desse document\u00e1rio, desse tema, deveriam fazer outros filmes em rela\u00e7\u00e3o a isso. Mesmo que a sociedade rejeite assistir, rejeite ouvir, acho que n\u00f3s devemos produzir. Inclusive, produzir para o nosso grupo. Produzir para nossos adolescentes, produzir para o nosso povo. Tamb\u00e9m n\u00e3o estou aqui para agraciar a sociedade como um todo. Eu n\u00e3o quero ser esse cara palat\u00e1vel. N\u00e3o tem como, n\u00e3o tem por qu\u00ea. Eu ando na rua e fico muito triste. Nada mudou. Pode ser den\u00fancia po\u00e9tica assim e assado, mas eu acho que n\u00f3s devemos continuar construindo pe\u00e7as art\u00edsticas que falem de n\u00f3s mesmos. Acho que Tolst\u00f3i, Voltaire, Kant, Goethe, s\u00e3o todos muitos interessantes, mas a gente n\u00e3o estuda n\u00f3s mesmos. Eu pergunto para os atores sobre qual dramaturgo africano que voc\u00eas se lembram? Ningu\u00e9m sabe. E ainda ficam naquela de procurar na Europa nossas inspira\u00e7\u00f5es, tentar mudar nossas hist\u00f3rias do jeito que eles contam. At\u00e9 a mesma forma de contar hist\u00f3rias. Eu estava na Fran\u00e7a h\u00e1 pouco tempo, e eu visitei a fam\u00edlia de meu parceiro, e \u00e9 t\u00e3o comum a conversa \u00e0 mesa. Eles n\u00e3o falam nem de ancestralidade. Na conversa, eles iam at\u00e9 Napole\u00e3o. E aqui eu n\u00e3o chego at\u00e9 a minha bisav\u00f3. Ent\u00e3o, vamos contar hist\u00f3rias. Vamos contar as nossas hist\u00f3rias daqui para frente. E eu espero que esse seja o primeiro. Pretendo fazer outros, porque existem ainda muitas coisas que n\u00e3o foram ditas e que precisam ser conhecidas, e talvez aplaudidas, e talvez renegadas, porque, tamb\u00e9m, n\u00e3o somos donos da verdade. Existem v\u00e1rias verdades, no meu ponto de vista. Existem v\u00e1rios outros pontos de vista, mas as hist\u00f3rias devem ser contadas. E \u00e9 esse o meu grande objetivo agora. Contar a hist\u00f3ria toda da gente. N\u00e3o sou cineasta nem roteirista. Sou s\u00f3 um cara que tem vontade de contar a hist\u00f3ria dessas pessoas que n\u00e3o s\u00e3o ouvidas nunca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mesmo n\u00e3o se considerando cineasta nem roteirista, h\u00e1 muito desse olhar nas imagens captadas para o filme. Nas cenas em que voc\u00ea filma os corpos em movimento, voc\u00ea opta por uma aproxima\u00e7\u00e3o que coloca a audi\u00eancia acompanhando aquelas curvas. E h\u00e1, tamb\u00e9m, a escolha de uma c\u00e2mera mais distante. Como foi encontrar esse equil\u00edbrio no que deveria ser evidenciado?<\/strong><br \/>\nEu sou muito intuitivo. Mas eu tenho bons mestres. E esses bons mestres, na verdade, foram meus alunos. Agora, esse filme tem muito da vis\u00e3o de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/10\/26\/entrevista-lazaro-ramos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">L\u00e1zaro Ramos<\/a>. E eu n\u00e3o conversei muito com ele. Mandei um dos \u00faltimos cortes para ele, ele assistiu uma parte, por causa do tempo. Ele me falou e eu pedi pra ele para n\u00e3o assistir mais (risos). Movimento de c\u00e2mera, por exemplo. Eu estava sempre atr\u00e1s do diretor de fotografia (N.E. Gabriel Teixeira). E a gente ia dirigindo juntos. Mas, sabe, eu vivo isso a minha vida toda. Eu estava assistindo \u00e0 dire\u00e7\u00e3o de L\u00e1zaro especificamente em &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/04\/16\/cinema-medida-provisoria-de-lazaro-ramos-discute-temas-complexos-em-embalagem-pop\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Medida Provis\u00f3ria<\/a>&#8221; e via como as coisas funcionavam. E isso fora da miss\u00e3o dele como artista. Essa quest\u00e3o desse movimento de c\u00e2mera que vem de filmar corpos, e, inclusive, possui uma queixa muito grande aqui no Brasil que \u00e9 a gente n\u00e3o saber filmar a dan\u00e7a. Se voc\u00ea assiste a um filme de dan\u00e7a de fora do Brasil, existe uma diferen\u00e7a enorme. Eu acho que n\u00e3o temos nenhuma pessoa treinada nesse sentido de captar o movimento da dan\u00e7a em imagens. Eu j\u00e1 trabalhei com alguns diretores de Fotografia com quem eu aprendi bastante e que se deixam ouvir. E por se deixarem ouvir, eles fazem um trabalho legal. Mas a maioria, pelo menos para captar os movimentos da dan\u00e7a, n\u00e3o. Eu, como dan\u00e7arino, tenho essa percep\u00e7\u00e3o de como o corpo deve ser filmado. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia que tem uma anca em certos momentos, ou um cotovelo em certos momentos. E se voc\u00ea perceber, nos document\u00e1rios de dan\u00e7a, tem muitos p\u00e9s filmados. Eu n\u00e3o entendo quando o diretor de Fotografia vai filmar a dan\u00e7a e s\u00f3 filma p\u00e9, gente! (risos) Haja p\u00e9! S\u00e3o fascinados pelos p\u00e9s dos dan\u00e7arinos quando tem um monte de coisa para captar em outros lugares do corpo das pessoas. Ent\u00e3o, para mim, isso foi muito org\u00e2nico. Eu j\u00e1 cheguei no set com algo muito org\u00e2nico. Ia descobrindo coisas e captando. Gravamos mais de 20 horas. Captamos movimentos de dan\u00e7a geniais que n\u00e3o puderam ser mostradas dessa vez. Mas eu tenho um plano para um segundo projeto. Outra ideia \u00e9 fazer minidocs individuais com essas pessoas, que eu acho que vai ser genial, tamb\u00e9m. Cada pessoa, individualmente, contando sua hist\u00f3ria na dan\u00e7a e a gente editar isso. E a gente partir para outros projetos nesse sentido. Mas, respondendo sua pergunta, para mim n\u00e3o foi muito complicado, n\u00e3o, porque eu tive bons professores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A ideia de trazer esse minidocs \u00e9 algo bem interessante, pensando no modo como muita coisa do \u00e9 captada hoje, com a rapidez e fugacidade da internet.<\/strong><br \/>\nSim, mas neste document\u00e1rio, eu n\u00e3o me deixei me render muito por essa urg\u00eancia da m\u00eddia, de que agora tudo tem que ser em poucos minutos, segundos. N\u00e3o! Eu me rendi um pouquinho porque n\u00f3s t\u00ednhamos o primeiro corte com duas horas e pouco e ficamos com uma hora e vinte minutos no final. Mas eu te afirmo que eu n\u00e3o me rendo a isso, n\u00e3o. Eu acho que a gente tem que preservar o tempo das coisas. Preservar o tempo da m\u00fasica. Preservar o tempo do movimento. Acho que essa urg\u00eancia est\u00e1 fazendo com que a gente v\u00e1 para um lugar que n\u00e3o \u00e9 muito bacana. Um lugar que n\u00e3o \u00e9 o lugar da observa\u00e7\u00e3o e nem da alimenta\u00e7\u00e3o de produtos como um livro, por exemplo. Eu leio muito e n\u00e3o h\u00e1 nada melhor do que ler. E \u00e9 muito dif\u00edcil hoje em dia voc\u00ea fazer um jovem ler. Porque \u00e9 muito tempo para voc\u00ea se dedicar a ler um livro de 900 p\u00e1ginas. Nenhum desses jovens est\u00e1 disposto a fazer isso. E eu quero dizer com isso que eu n\u00e3o me rendi muito a essa urg\u00eancia da internet. N\u00e3o me rendi. Posso ir at\u00e9 nessa dire\u00e7\u00e3o, mas eu n\u00e3o quero me render \u00e0 urg\u00eancia do TikTok.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"IJ\u00d3 DUDU - MEM\u00d3RIAS DA DAN\u00c7A NEGRA NA BAHIA | BEM BAHIA\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cNvXN4syJP0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Jos\u00e9 Carlos Arandiba, carinhosamente conhecido como Zebrinha, logo nos primeiros minutos dessa entrevista com o Scream &#038; Yell, fala sobre a necessidade de reverberar as hist\u00f3rias de vida que o vasto leque de nomes que seu filme\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/17\/entrevista-zebrinha-fala-sobre-racismo-invisibilidade-e-ijo-dudu-memorias-da-danca-negra-na-bahia-filme-presente-no-in-edit-2023\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":75482,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[3052],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75481"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75481"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75481\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75838,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75481\/revisions\/75838"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75482"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75481"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75481"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75481"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}