{"id":75276,"date":"2023-06-07T00:01:00","date_gmt":"2023-06-07T03:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=75276"},"modified":"2023-07-07T00:14:50","modified_gmt":"2023-07-07T03:14:50","slug":"entrevista-paulo-fontenelle-fala-sobre-a-serie-o-caso-escola-base-canal-brasil-jornalismo-e-fake-news","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/07\/entrevista-paulo-fontenelle-fala-sobre-a-serie-o-caso-escola-base-canal-brasil-jornalismo-e-fake-news\/","title":{"rendered":"Entrevista: Paulo Fontenelle fala sobre a s\u00e9rie \u201cO Caso Escola Base\u201d (Canal Brasil), jornalismo e fake news"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O p\u00fablico n\u00e3o quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade&#8221;, afirmou certa vez o poeta Fernando Pessoa. Em sua cr\u00edtica \u00e1cida \u00e0 sociedade, Pessoa, que morreu em 1935 sem ter visto o decl\u00ednio dessa mesma sociedade a partir das fake news, vai no cerne da quest\u00e3o anal\u00edtica desta mat\u00e9ria. H\u00e1 29 anos, em mar\u00e7o de 1994, muito tempo antes do citado termo fake news se tornar algo t\u00e3o presente nas coberturas jornal\u00edsticas, bem como as evid\u00eancias das suas pr\u00e1ticas e horrores oriundos dos seus males repercutirem de maneira t\u00e3o percept\u00edvel como modo manipulador atrav\u00e9s de redes sociais e aplicativos de mensagens instant\u00e2neas, o caso da Escola Base ilustrou a destrutiva capacidade que um jornalismo irrespons\u00e1vel tem de arrasar vidas inocentes na busca de pontos de Ibope da audi\u00eancia e vendas de jornais e revistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diretor Paulo Henrique Fontenelle estudava justamente Jornalismo \u00e0 \u00e9poca, em 1994, e, em entrevista ao Scream &amp; Yell, lembrou de ver toda a repercuss\u00e3o do caso. &#8220;Eu me lembro de acompanhar o caso na m\u00eddia. Foi algo muito r\u00e1pido. Toda aquela hist\u00f3ria, tudo aconteceu em duas semanas. Aquelas pessoas tiveram suas vidas destru\u00eddas em duas semanas. Mas me lembro que depois veio a indigna\u00e7\u00e3o do pessoal quando todo o caso foi esclarecido. Lembro que me perguntei: &#8216;Mas o que acontece agora com a vida deles? A vida dessas pessoas foi destru\u00edda.&#8217; E eu fiquei com essa ideia na cabe\u00e7a durante muito tempo&#8221;, pontua. A indigna\u00e7\u00e3o se tornou uma pesquisa longa do diretor e montador que, agora, transparece em um resultado que impressiona o espectador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fontenelle, que j\u00e1 dirigiu celebrados document\u00e1rios sobre Arnaldo Baptista (\u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/10\/29\/cinema-loki-paulo-henrique-fontenelle\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Loki<\/a>\u201d) e \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/04\/entrevista-paulo-henrique-fontenelle\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">C\u00e1ssia Eller<\/a>\u201d, est\u00e1 lan\u00e7ando, via Canal Brasil, <a href=\"https:\/\/globoplay.globo.com\/o-caso-escola-base\/t\/cJtX2h61d1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cO Caso Escola Base\u201d<\/a>, s\u00e9rie documental em quatro cap\u00edtulos que revisita em detalhes todo o processo de condena\u00e7\u00e3o sem provas dos donos da escola localizada em S\u00e3o Paulo e de um motorista de van que levava os alunos para as aulas. A s\u00e9rie traz entrevistas com os principais jornalistas que cobriram o caso \u00e0 \u00e9poca, bem como com a ex-dona ainda viva da Escola Base, Paula Milhim; com seu ex-marido e motorista da van citada, Maur\u00edcio Monteiro de Alvarenga; e com o filho do casal Icushiro e Maria Aparecida Shimada, Ricardo Shimada. J\u00e1 falecidos, seus pais nunca se recuperaram de todo processo de linchamento p\u00fablico pelo qual passaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acusados a partir de um depoimento infantil colhido de modo manipulado e tendencioso pela m\u00e3e de um dos alunos, um menino de quatro anos, e condenados como predadores sexuais pela m\u00eddia, pol\u00edcia e pela sociedade sem julgamento e sem oitivas por conta de um laudo err\u00f4neo que atestava que um sangramento oriundo de pris\u00e3o de ventre na crian\u00e7a em quest\u00e3o se tratava de tra\u00e7os de um abuso sexual, Paula, Maur\u00edcio e o casal Shimada viram suas vidas serem esfaceladas em quest\u00e3o de dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos pontos principais que ajudam a criar no espectador esse choque diante dos fatos \u00e9 a estrutura escolhida por Fontenelle, que, al\u00e9m de dirigir, atuou como montador da s\u00e9rie. No primeiro epis\u00f3dio, somos apresentados aos acontecimentos do mesmo modo como as pessoas \u00e0 \u00e9poca foram apresentadas ao caso pela TV e pelos impressos. Com chamadas espalhafatosas, escaladas no Jornal Nacional, manchetes chocantes e ofensivas, as reputa\u00e7\u00f5es e a honra das quatro v\u00edtimas citadas s\u00e3o colocadas sob o escrut\u00ednio midi\u00e1tico. E n\u00f3s, quase tr\u00eas d\u00e9cadas depois, mergulhamos com asco naquela narrativa falaciosa. Mas, friso, a adjetiva\u00e7\u00e3o, aqui, refere-se ao conte\u00fado daquelas imagens de arquivo, e n\u00e3o \u00e0 acertada maneira como Fontenelle optou por desenvolver seu desenvolvimento dos fatos. Apresentando os jornalistas que presenciaram o caso \u00e0 \u00e9poca falando sobre a rela\u00e7\u00e3o que eles t\u00eam com suas profiss\u00f5es, al\u00e9m de ir desmascarando gradativamente a mentira plantada pela m\u00eddia na ocasi\u00e3o, o diretor nos faz permanecer tensos diante de tamanha abomina\u00e7\u00e3o. Ao final do primeiro cap\u00edtulo, as v\u00edtimas se apresentam e, no segundo epis\u00f3dio, conhecemos a via crucis atravessada por eles.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-75283\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/20211123_102153-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"817\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/20211123_102153-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/20211123_102153-copiar-275x300.jpg 275w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Acho importante analisar o nosso papel como p\u00fablico. Quando voc\u00ea chega ao final do primeiro epis\u00f3dio, voc\u00ea percebe que existe um outro lado. Quando o pessoal come\u00e7a a entrar e a se apresentar, voc\u00ea percebe que, no pr\u00f3ximo epis\u00f3dio, voc\u00ea vai ver de um outro \u00e2ngulo. Chegando nesse ponto, eu acho que muita gente pode se sentir como se sentiu naquela \u00e9poca, talvez enganado, talvez um pouco envergonhado por ter julgado pessoas que n\u00e3o tiveram defesa na ocasi\u00e3o. Ent\u00e3o, a minha vontade sempre foi essa. De primeiro mostrar de um lado para levar espectador a ter as mesmas sensa\u00e7\u00f5es da \u00e9poca&#8221;, explica Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos respons\u00e1veis pela condena\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica dos donos da Escola Base e do motorista tamb\u00e9m \u00e9 ouvido pelo diretor. Trata-se do jornalista Valmir Salaro, que, \u00e0 \u00e9poca, atuava como rep\u00f3rter da Rede Globo. \u00c9 fact\u00edvel cham\u00e1-lo de respons\u00e1vel aqui por conta de como a escalada da not\u00edcia sem uma correta apura\u00e7\u00e3o ganhou ap\u00f3s Salaro a apresentar em hor\u00e1rio nobre no Jornal Nacional. A partir dali, n\u00e3o havia mais d\u00favidas para a popula\u00e7\u00e3o de que aquelas pessoas eram as culpadas. Salaro, tantos anos depois, faz mea culpa diante dos fatos, admitindo que errou em diversos momentos de sua apura\u00e7\u00e3o, quando entrevistou pais com a presen\u00e7a dos filhos nos seus colos e sendo orientados sobre o que dizer, bem como n\u00e3o tendo escutado os dois lados da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A for\u00e7a midi\u00e1tica que a apresenta\u00e7\u00e3o pela Rede Globo de apenas um lado da narrativa trouxe, acabou pautando tudo. Desde outros ve\u00edculos impressos, at\u00e9 a convic\u00e7\u00e3o sem provas da pol\u00edcia, cujo delegado Ed\u00e9lcio Lemos, \u00e0 frente do caso, demonstrava uma estranha vaidade e necessidade pessoal de aparecer sob os holofotes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A s\u00e9rie, ao final do quarto e \u00faltimo epis\u00f3dio, chama para a responsabilidade, tamb\u00e9m, o cidad\u00e3o. &#8220;Falamos sobre fake news e come\u00e7amos a listar alguns casos em que as fake news, atrav\u00e9s do WhatsApp, causaram at\u00e9 a morte de pessoas. S\u00e3o v\u00e1rios exemplos de que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 culpar o jornalismo. N\u00f3s, tamb\u00e9m, temos responsabilidade com o que temos nas m\u00e3os. E eu acho que, nesse sentido, o jornalismo ainda \u00e9 a melhor maneira de voc\u00ea se informar&#8221;, pontua o diretor aprofundando sua inten\u00e7\u00e3o tanto de cr\u00edtica a um jornalismo irrespons\u00e1vel e nocivo, quanto de saudar aquele feito com precis\u00e3o e car\u00e1ter. &#8220;Eu acho que a s\u00e9rie, \u00e0 princ\u00edpio, pode parecer que \u00e9 uma cr\u00edtica s\u00f3 ao jornalismo, mas ela, tamb\u00e9m, traz um exemplo do que \u00e9 o bom jornalismo. Porque voc\u00ea v\u00ea que tiveram alguns jornalistas a\u00ed que fizeram o melhor poss\u00edvel, como foi o Florestan Fernandes Jr., que foi atr\u00e1s do outro lado. O pr\u00f3prio Luiz Nassif, que fez um editorial no meio da TV Bandeirantes na \u00e9poca em que estava todo mundo contra os quatro acusados. Teve pessoas que conseguiram ir contra a mar\u00e9 e publicar o outro lado, tamb\u00e9m\u201d, finaliza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre as nossas responsabilidades como cidad\u00e3os em tempos de julgamentos instant\u00e2neos oriundos das redes sociais e do WhatsApp, a fala do poeta Fernando Pessoa, aplicada com exatid\u00e3o na s\u00e9rie, fala por si s\u00f3. Para o Scream &amp; Yell, Paulo Fontenelle falou sobre o processo de pesquisa e constru\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Paulo Henrique Fontenelle e Ariadne Mazzetti comentam a s\u00e9rie &quot;Caso Escola Base&quot; | Cinejornal\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2jQCd4TUPwU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como se deu o processo de desenvolvimento da s\u00e9rie? Em que momento surgiu a fagulha de se debru\u00e7ar sobre o \u201cCaso da Escola Base\u201d?<\/strong><br \/>\nFoi um processo bem longo de constru\u00e7\u00e3o do que chega agora como uma s\u00e9rie em quatro cap\u00edtulos. Eu estava na faculdade de Jornalismo na \u00e9poca, em 1994. Me lembro de acompanhar o caso na m\u00eddia. Foi algo muito r\u00e1pido. Toda aquela hist\u00f3ria, tudo aconteceu em duas semanas. Aquelas pessoas tiveram suas vidas destru\u00eddas em duas semanas. Mas, me lembro que depois veio a indigna\u00e7\u00e3o do pessoal quando todo o caso foi esclarecido. Lembro que me perguntei: &#8216;Mas o que acontece agora com a vida deles? A vida dessas pessoas foi destru\u00edda.&#8217; E eu fiquei com essa ideia na cabe\u00e7a durante muito tempo. Em 2007, eu li o livro do Alex Ribeiro chamado \u201cCaso Escola Base \u2013 Os Abusos da Imprensa\u201d. Quando li, pensei que ali j\u00e1 tinha um roteiro pronto, mas continuei pesquisando. Em 2017, peguei um dinheiro meu mesmo e comecei a ir \u00e0s televis\u00f5es buscar imagens de arquivo. Eu mesmo comecei a pesquisa. E a\u00ed, vendo aquelas imagens todas, tive um panorama maior de como \u00e9 que foi a cobertura na \u00e9poca. No mesmo ano, em 2017, me encontrei com a Ariadne (Mazzetti) e o Marcelo Siqueira, produtores da M\u00edstica, e a gente resolveu fazer uma parceria para levantar o longa. Inscrevemos no Fundo Setorial e ainda demorou bastante tempo para poder ser liberado o dinheiro. Nesse meio tempo, n\u00f3s fomos encontrando as pessoas que participaram na \u00e9poca. Encontramos a Paula Milhim, que abriu a casa para a gente. Conversamos bastante com ela. Encontramos os jornalistas, o pr\u00f3prio Valmir Salaro foi uma das primeiras pessoas que fomos procurar. E pensei em montar a s\u00e9rie de uma forma que o espectador tivesse a mesma no\u00e7\u00e3o do que foi a cobertura na \u00e9poca. Como se tivesse s\u00f3 a vers\u00e3o do jornalista. E que o segundo epis\u00f3dio fosse a mesma hist\u00f3ria pela vis\u00e3o de quem estava do outro lado. Acho que em duas horas de filme n\u00e3o caberiam tantas hist\u00f3rias. E a\u00ed, tendo acesso ao material de arquivo, veio aquele quebra-cabe\u00e7a, de voc\u00ea saber o que colocar, e como colocar. Ent\u00e3o, pensei em fazer no primeiro cap\u00edtulo a vis\u00e3o do jornalista e colocar exatamente como foi a cobertura. Assim, vemos as mesmas manchetes, a mat\u00e9ria da Globo praticamente na \u00edntegra, como \u00e9 que foi a reportagem que deu in\u00edcio ao caso. E depois fui construindo essa hist\u00f3ria atrav\u00e9s dos arquivos. Fiz quest\u00e3o de fazer a checagem dos fatos nesse processo todo. Porque a gente entrevista as pessoas, muita gente prefere n\u00e3o falar sobre determinado assunto, ou ent\u00e3o fala de outra maneira, ou ent\u00e3o as pessoas t\u00eam falsas mem\u00f3rias e n\u00e3o tem boas lembran\u00e7as. E eu tinha conseguido h\u00e1 muito tempo o inqu\u00e9rito policial do caso. Ent\u00e3o, tudo o que as pessoas falavam l\u00e1, eu ia checar no inqu\u00e9rito policial para ver se estava certo. Fui construindo de acordo com o material que ia chegando e tendo essa preocupa\u00e7\u00e3o de tentar mostrar mais fidedignamente como \u00e9 que foi a cobertura na \u00e9poca. E uma coisa que foi bem interessante pra gente \u00e9 que aquele personagem, Richards, no terceiro cap\u00edtulo, aparece uma outra pessoa que foi acusada, tamb\u00e9m. E que n\u00e3o tinha nada a ver com aquele pessoal. E esse cara tinha gravado uma fita de VHS de tudo o que saiu sobre o caso na \u00e9poca. Ent\u00e3o, tinha muita coisa de material das televis\u00f5es que n\u00e3o tinha nem nos arquivos mais antigos das TVs. Havia sido apagado, ou n\u00e3o foi liberado. Ent\u00e3o, ali, com aquela VHS, eu consegui ter uma no\u00e7\u00e3o maior de como \u00e9 que foi a cobertura, de fato, na \u00e9poca, e at\u00e9 a postura de alguns \u00e2ncoras de televis\u00e3o, que foram bem estranhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A ideia sempre foi desenvolver o tema em uma s\u00e9rie?<\/strong><br \/>\nNa verdade, eu queria fazer um filme sobre essa hist\u00f3ria. S\u00f3 que quando eu levei para o Canal Brasil, eles falaram que queriam fazer uma s\u00e9rie. Na hora, eu at\u00e9 fiquei meio chateado, mas foi a melhor coisa que poderia acontecer. E a\u00ed tendo acesso ao material de arquivo, com a s\u00e9rie, eu pude desenvolver a hist\u00f3ria toda. Acho que em duas horas de filme, n\u00e3o caberia tantas hist\u00f3rias.<\/p>\n<figure id=\"attachment_75279\" aria-describedby=\"caption-attachment-75279\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-75279\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Boris-Casoy-ancora-do-Jornal-do-SBT-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Boris-Casoy-ancora-do-Jornal-do-SBT-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Boris-Casoy-ancora-do-Jornal-do-SBT-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-75279\" class=\"wp-caption-text\"><em>O jornalista Boris Casoy sendo entrevistado para a s\u00e9rie &#8220;O Caso Escola Base&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi o processo de localizar as fontes e as pessoas que estavam l\u00e1 \u00e0 \u00e9poca? Houve resist\u00eancia?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, foi at\u00e9 meio surpreendente. Durante muito tempo, tentei encontrar essas pessoas e sempre tive uma certa barreira. O (rep\u00f3rter da Rede Globo) Valmir Salara foi a primeira pessoa com quem fui falar, l\u00e1 em 2009. Depois o reencontrei em 2017 e lhe apresentei o projeto. Ele me disse: &#8220;Interessante. Conversando com voc\u00ea, me senti mais \u00e0 vontade. Mas tenho um contrato com a Globo nesse momento. Ent\u00e3o, n\u00e3o sei se posso falar agora. Tenho que me aposentar antes.&#8221; Fiquei sempre em contato com o Valmir. Ele encontrou com a gente umas tr\u00eas vezes para saber do projeto. Quando come\u00e7amos a fazer, ele resolveu fazer o filme dele, tamb\u00e9m. Mas ele se demonstrou disposto a falar sobre o assunto at\u00e9 porque ele carrega essa culpa. E procuramos todos os jornalistas da \u00e9poca. E por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a maioria topou falar de maneira bem franca, muito tranquila. Aceitaram de pronto o convite. Teve alguns que n\u00e3o quiseram falar, a gente respeitou, tamb\u00e9m. E do lado das v\u00edtimas foi bem complicado. A primeira que a gente encontrou foi a Paula. E depois o filho do Shimada, Ricardo, veio at\u00e9 n\u00f3s atrav\u00e9s de um post que colocamos no Facebook. Ele encontrou a gente e disse que queria falar. O Maur\u00edcio (Monteiro de Alvarenga) n\u00e3o dava entrevista desde a \u00e9poca. Ele tinha desaparecido completamente. Mas a gente conseguiu falar com ele. Depois de muita insist\u00eancia, ele resolver nos dar um depoimento. E tem outras pessoas. No terceiro epis\u00f3dio, outras pessoas aparecem e s\u00e3o bem importantes. Uma psic\u00f3loga que cuidou do caso, um juiz. Muitas pessoas demonstraram resist\u00eancia. Para minha surpresa, os jornalistas toparam falar. A maioria deles topou. E eu acho que isso que \u00e9 bacana. Porque eles conseguem ver essa hist\u00f3ria por v\u00e1rias pessoas diferentes. Ent\u00e3o, tem a vis\u00e3o dos jornalistas, o que eles passaram na \u00e9poca, porque eles deram a not\u00edcia, porque alguns resolveram n\u00e3o dar. Como cada um pensava. Qual era a press\u00e3o dentro do \u00f3rg\u00e3o de imprensa que eles trabalhavam para poder publicar um furo. Ent\u00e3o, tem todo um lado do trabalho do jornalismo, o lado das v\u00edtimas, depois tem o lado da justi\u00e7a, do porqu\u00ea o juiz decretou a pris\u00e3o daquele pessoal. E depois a psic\u00f3loga desvendando o caso. Ent\u00e3o, \u00e9 um caso contado por v\u00e1rios pontos de vistas diferentes. Acho que isso torna a hist\u00f3ria mais completa. A s\u00e9rie tem uma vis\u00e3o plural do caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m da dire\u00e7\u00e3o, voc\u00ea tamb\u00e9m ficou respons\u00e1vel pela montagem da s\u00e9rie. A op\u00e7\u00e3o de trazer os fatos do mesmo modo como a m\u00eddia os apresentou h\u00e1 29 anos sempre foi a sua escolha final na estrutura? Ela funciona muito bem.<\/strong><br \/>\nSempre foi. Acho importante analisar o nosso papel como p\u00fablico. Quando voc\u00ea chega ao final do primeiro epis\u00f3dio, voc\u00ea percebe que existe um outro lado. Quando o pessoal come\u00e7a a entrar e a se apresentar, voc\u00ea percebe que no pr\u00f3ximo epis\u00f3dio voc\u00ea vai ver de um outro \u00e2ngulo. Chegando nesse ponto, eu acho que muita gente pode se sentir como se sentiu naquela \u00e9poca. Talvez enganado, talvez um pouco envergonhado por ter julgado pessoas que n\u00e3o tiveram defesa na ocasi\u00e3o. Ent\u00e3o, a minha vontade sempre foi essa. De primeiro mostrar um lado para levar espectador a ter as mesmas sensa\u00e7\u00f5es da \u00e9poca. O que acho bacana dessa s\u00e9rie \u00e9 que voc\u00ea tem a hist\u00f3ria contada por quem participou. Tanto os jornalistas quanto, principalmente, as v\u00edtimas. Porque foram pessoas que quase n\u00e3o falaram. Ou se falaram, era em mat\u00e9rias sensacionalistas do tipo: &#8220;Como est\u00e1 vivendo Paula, v\u00edtima do caso da Escola Base?&#8221; que saiu no Gugu e em alguns programas assim, para mostrar como \u00e9 que eles est\u00e3o sofrendo e depois s\u00e3o esquecidos. Ent\u00e3o, ali, as pessoas todas foram tratadas com muita dignidade. Tanto os jornalistas, quanto as v\u00edtimas, quanto o pessoal da justi\u00e7a. E eu acho que a gente n\u00e3o s\u00f3 consegue exemplificar atrav\u00e9s dos depoimentos e das manchetes dos jornais e das mat\u00e9rias que eram escritas na \u00e9poca, como, tamb\u00e9m, com os documentos da Justi\u00e7a. Tem bastante coisa l\u00e1 do inqu\u00e9rito que s\u00e3o documentos in\u00e9ditos. Fora o acervo pessoal de todo mundo, como as fotos que trazem uma humaniza\u00e7\u00e3o para cada um deles. N\u00e3o s\u00f3 humanizar as v\u00edtimas, mas, tamb\u00e9m, dos jornalistas, que, no come\u00e7o, falam sobre porqu\u00ea decidiram fazer Jornalismo e qual a import\u00e2ncia disso. Mostra o lado nobre do Jornalismo, tamb\u00e9m.<\/p>\n<figure id=\"attachment_75281\" aria-describedby=\"caption-attachment-75281\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-75281\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Paula-Milhin-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Paula-Milhin-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Paula-Milhin-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-75281\" class=\"wp-caption-text\"><em>Paula Milhim em cena da s\u00e9rie &#8220;O Caso Escola Base&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um dos momentos mais dolorosos foi quando Paula fala sobre o momento em que ela foi agredida fisicamente na pris\u00e3o. As entrevistas contigo tiveram algo de expurgo para todos?<\/strong><br \/>\nAcho que sim. Acho que eles se sentiram mais leves. Essa entrevista da Paula, no dia que a gente a entrevistou&#8230; Eu j\u00e1 sabia dessa hist\u00f3ria. Mas a vendo contar, eu tive que esconder as l\u00e1grimas atr\u00e1s das c\u00e2meras. A equipe inteira come\u00e7ou a ficar muito emocionada. Mas quando acabou a entrevista, ela estava bem aliviada por ter podido falar. A hist\u00f3ria \u00e9 uma coisa bem chocante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pelas imagens e entrevistas concedidas \u00e0 \u00e9poca, \u00e9 percept\u00edvel a atua\u00e7\u00e3o do delegado Ed\u00e9lcio Lemos no caso como uma necessidade constante de estar sob os holofotes. Quase um vil\u00e3o vaidoso. Ele se recusou a participar da s\u00e9rie?<\/strong><br \/>\nNa verdade, n\u00e3o tentei transformar o cara em um vil\u00e3o. At\u00e9 porque, dentro dos depoimentos, todos t\u00eam uma opini\u00e3o sobre o cara que nem sempre \u00e9 muito boa. Falavam que ele queria aparecer e eu tirei todos esses depoimentos que o criticavam e coloquei apenas o que aconteceu na m\u00eddia, mesmo. Eu o deixei falar por ele mesmo. Ele chamava a m\u00eddia para dar depoimento e foi aquilo que ele quis que mostrasse. Ent\u00e3o, foi como voc\u00ea falou, eu n\u00e3o precisei construir um vil\u00e3o. At\u00e9 conseguimos falar com ele e marcamos de encontr\u00e1-lo. No dia marcado, ele ligou desistindo, falando que n\u00e3o queira mais falar sobre isso, que havia sido h\u00e1 muito tempo. Se um dia ele quiser falar, estou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acaba que a s\u00e9rie, apesar de abordar um fato ocorrido h\u00e1 quase 30 anos, reflete uma fase bem atual quanto \u00e0s fake news.<\/strong><br \/>\nVerdade. Inclusive, ao final do quarto e \u00faltimo epis\u00f3dio, a s\u00e9rie chama para a responsabilidade, tamb\u00e9m, o cidad\u00e3o. Falamos sobre fake news e come\u00e7amos a listar alguns casos em que as fake news, atrav\u00e9s do WhatsApp, causaram at\u00e9 a morte de pessoas. S\u00e3o v\u00e1rios exemplos de que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 culpar o jornalismo. N\u00f3s, tamb\u00e9m, temos responsabilidade com o que temos nas m\u00e3os. E eu acho que, nesse sentido, o jornalismo ainda \u00e9 a melhor maneira de voc\u00ea se informar. Acho que a s\u00e9rie, \u00e0 princ\u00edpio, pode parecer uma cr\u00edtica s\u00f3 ao Jornalismo, mas ela, tamb\u00e9m, traz um exemplo do que \u00e9 o bom Jornalismo. Porque voc\u00ea v\u00ea que tiveram alguns jornalistas que fizeram o melhor poss\u00edvel, como foi o Florestan Fernandes Jr., que foi atr\u00e1s do outro lado. O pr\u00f3prio Luiz Nassif, que fez um editorial no meio da TV Bandeirantes na \u00e9poca em que estava todo mundo contra os quatro acusados. Houve pessoas que conseguiram ir contra a mar\u00e9 e publicar o outro lado. Mas espero que esse document\u00e1rio sirva um pouco de reflex\u00e3o para esses jornalistas. Obviamente, todo mundo j\u00e1 estudou esse caso. Mas quando se tem visualmente uma obra dessa, voc\u00ea consegue ter uma carga emocional maior que o faz encontrar uma reflex\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-75282\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/01.-Poster-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1064\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/01.-Poster-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/01.-Poster-copiar-211x300.jpg 211w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Foi um processo bem longo de constru\u00e7\u00e3o do que chega agora como uma s\u00e9rie em quatro cap\u00edtulos. Eu estava na faculdade de Jornalismo na \u00e9poca, em 1994. Me lembro de acompanhar o caso na m\u00eddia&#8221;, relembra Paulo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/07\/entrevista-paulo-fontenelle-fala-sobre-a-serie-o-caso-escola-base-canal-brasil-jornalismo-e-fake-news\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":75280,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[6734,6733],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75276"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75276"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75276\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75284,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75276\/revisions\/75284"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75280"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75276"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75276"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75276"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}