{"id":75142,"date":"2023-06-02T00:51:50","date_gmt":"2023-06-02T03:51:50","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=75142"},"modified":"2023-09-27T00:11:50","modified_gmt":"2023-09-27T03:11:50","slug":"entrevista-alexandre-kumpinski-fala-sobre-seu-debute-solo-cartilagem-a-sofistificacao-do-funk-politica-apanhador-so-e-muito-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/02\/entrevista-alexandre-kumpinski-fala-sobre-seu-debute-solo-cartilagem-a-sofistificacao-do-funk-politica-apanhador-so-e-muito-mais\/","title":{"rendered":"Entrevista: Alexandre Kumpinski fala de seu debute solo, &#8220;Cartilagem&#8221;, a sofistifica\u00e7\u00e3o do funk, pol\u00edtica, Apanhador S\u00f3 e muito mais"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seis anos depois, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/alexandrekumpinski\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre Kumpinski<\/a> est\u00e1 de volta. Mais conhecido como vocalista da Apanhador S\u00f3, banda que marcou o cen\u00e1rio independente brasileiro na d\u00e9cada passada (\u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d, segundo disco da banda, apareceu na 16\u00aa posi\u00e7\u00e3o entre <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/01\/06\/os-50-discos-nacionais-dos-anos-10\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">os melhores discos brasileiros dos anos 10<\/a>), o ga\u00facho de 36 anos lan\u00e7ou seu primeiro \u00e1lbum solo, \u201c<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/kumpinski\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cartilagem<\/a>\u201d. N\u00e3o espere \u201cs\u00f3\u201d um disco de voz e viol\u00e3o: o trabalho busca aliar a proximidade do instrumento de cordas com interfer\u00eancias digitais e anal\u00f3gicas. \u201cEu queria tentar achar o encontro desses dois mundos, do minimalismo eletr\u00f4nico, do funk, com timbres modernos e instigantes, com o mundo mais intimista da voz e do viol\u00e3o\u201d, conta o cantor e compositor ao Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Alexandre, \u201cCartilagem\u201d \u00e9 uma sequ\u00eancia natural de seu \u00faltimo disco cheio \u2013 o pouco escutado \u201cMeio Que Tudo \u00c9 Um\u201d, terceiro trabalho da <a href=\"https:\/\/www.apanhadorso.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Apanhador S\u00f3<\/a> (2017). \u201cS\u00e3o discos que t\u00eam a mesma filosofia de mundo, uma conversa focada na nossa incapacidade geral de di\u00e1logo, uma tend\u00eancia da dificuldade de dialogar com as diferen\u00e7as\u201d, afirma o ga\u00facho. Composto majoritariamente em 2018 e gravado em 2019, o \u00e1lbum-solo estava previsto para sair em 2020, mas a chegada da pandemia fez o cantor adiar os planos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente lan\u00e7ado, \u201cCartilagem\u201d traz oito composi\u00e7\u00f5es de Kumpinski e uma regrava\u00e7\u00e3o que, \u00e0 primeira vista, pode soar inusitada: \u201cAndo S\u00f3\u201d, dos Engenheiros do Hawaii. N\u00e3o para ele, que cresceu ouvindo o grupo de Humberto Gessinger, lado a lado com Chico Buarque e Paralamas: \u201c\u2018Ando S\u00f3\u2019 \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o que representa o sujeito que anda s\u00f3 e n\u00e3o quer se fechar em comunidades, mas sabe que a gente n\u00e3o pode andar sozinho\u201d. \u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o clara em meio ao clima divisivo que o Brasil vive h\u00e1 pelo menos meia d\u00e9cada, mas tamb\u00e9m pode ser uma pr\u00f3pria met\u00e1fora do que aconteceu com a carreira de Alexandre nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_75149\" aria-describedby=\"caption-attachment-75149\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-75149 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/cartilagem1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/cartilagem1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/cartilagem1-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/cartilagem1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-75149\" class=\"wp-caption-text\"><em>Capa de &#8220;Cartilagem&#8221;, primeiro disco solo de Alexandre Kumpinski<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em agosto de 2017, enquanto a Apanhador S\u00f3 se preparava para fazer os shows de lan\u00e7amento de \u201cMeio Que Tudo \u00c9 Um\u201d no Rio de Janeiro, a ex-mulher do guitarrista Felipe Zancanaro publicou um relato no Facebook acusando-o de acumular trai\u00e7\u00f5es, abuso e agress\u00e3o, em um dos primeiros grandes casos de cancelamento do cen\u00e1rio independente da m\u00fasica brasileira \u2013 em um terceiro relato, ela diria que havia \u201cexagerado\u201d nas den\u00fancias; seus tr\u00eas posts sobre o assunto foram apagados. A banda ainda tentou seguir sua carreira por um ano e entrou em hiato em 2018 \u2013 e nesta entrevista, o cantor fala sobre o que aconteceu e d\u00e1 sua vis\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 dos fatos, mas tamb\u00e9m sobre ter vivido na pele essa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFoi uma loucura coletiva. O cancelamento \u00e9 um julgamento sem direito a contradit\u00f3rio, sem provas, testemunhas, advogados, \u00e9 a volta \u00e0 barb\u00e1rie. Sofremos uma viol\u00eancia absurda. Felizmente, anos depois, as pessoas est\u00e3o come\u00e7ando a se dar conta de que n\u00e3o \u00e9 bem por a\u00ed o caminho\u201d, diz Kumpinski, em um trecho que vale especial aten\u00e7\u00e3o nessa entrevista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele tamb\u00e9m reflete sobre a trajet\u00f3ria da Apanhador S\u00f3, rev\u00ea as cr\u00edticas a Tom Z\u00e9 <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/09\/01\/entrevista-a-nova-fase-do-apanhador-so\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em uma conversa neste mesmo Scream &amp; Yell h\u00e1 dez anos<\/a> e diz ter orgulho quando algu\u00e9m pede uma m\u00fasica da banda em seus shows. \u201cA Apanhador \u00e9 a coisa mais legal que eu j\u00e1 fiz na minha vida. \u00c9 o projeto pelo qual eu dediquei mais tempo, mais energia e o que trouxe mais resultados. Toco m\u00fasicas da Apanhador se pedirem, com prazer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por falar em shows, quem quiser ver o m\u00fasico no palco ter\u00e1 de esperar um pouco. Ap\u00f3s duas apresenta\u00e7\u00f5es em Porto Alegre e Florian\u00f3polis em dezembro, o cantor est\u00e1 dedicado a cuidar, junto da mulher L\u00facia Tietboehl, de sua filha rec\u00e9m-nascida. Palco? S\u00f3 para daqui uns meses, diz o cantor (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/alexandrekumpinski\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fique atento em seu Instagram<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Juntos h\u00e1 anos, Alexandre e L\u00facia passaram uma boa parte da pandemia rodando o Brasil em uma Kombi por mais de um ano e meio, em uma viagem que s\u00f3 foi interrompida pela gravidez. \u00c9 uma das muitas hist\u00f3rias que ele conta nessa longa entrevista, que vai al\u00e9m do disco novo e da banda que o projetou, passando por temas como a sofistica\u00e7\u00e3o do funk, Jorge Drexler, Lula e Bolsonaro, \u201cningu\u00e9m solta a m\u00e3o de ningu\u00e9m\u201d, m\u00e9todos de composi\u00e7\u00e3o e a vida de m\u00fasico independente no Brasil. Para ler com calma e aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cartilagem\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_mj4ONlvRTIUscHMUsHReTZJyT68AzoqRs\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cCartilagem\u201d \u00e9 o seu primeiro \u201cdisco cheio\u201d em seis anos, contando desde o \u201cMeio Que Tudo \u00c9 Um\u201d, da Apanhador S\u00f3. O que esse disco representa pra voc\u00ea? Quem \u00e9 esse cantor-compositor que surge nesse novo trabalho?<\/strong><br \/>\nAcho que \u201cCartilagem\u201d \u00e9 uma sequ\u00eancia natural do \u201cMeio Que Tudo \u00c9 Um\u201d. N\u00e3o vejo uma quebra muito grande no meu trabalho como compositor. Na Apanhador S\u00f3, as m\u00fasicas que eu compunha acabavam indo parar na banda. Agora, as m\u00fasicas que eu componho para a vida v\u00e3o parar no meu trabalho solo. Acho que at\u00e9 existe algum di\u00e1logo, se voc\u00ea for ver, uma linha entre o primeiro disco da Apanhador S\u00f3, o \u201cAntes que Tu Conte Outra\u201d, o \u201cMeio Que Tudo \u00e9 Um\u201d e o \u201cCartilagem\u201d. D\u00e1 para ver, eu pelo menos percebo um seguimento de vis\u00e3o de mundo, de filosofia de mundo, do di\u00e1logo que os discos tentam estabelecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que di\u00e1logo \u00e9 esse?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma conversa focada na nossa incapacidade geral de di\u00e1logo, uma tend\u00eancia generalizada da dificuldade de dialogar com as diferen\u00e7as. Essa \u00e9 a t\u00f4nica maior do disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 um tema que j\u00e1 estava presente no \u201cMeio Que Tudo \u00c9 Um\u201d. \u201cTeia\u201d, por exemplo, \u00e9 uma m\u00fasica que j\u00e1 toca nesse assunto\u2026<\/strong><br \/>\n\u201cTeia\u201d \u00e9 exatamente isso. A pr\u00f3pria ideia do t\u00edtulo do disco da Apanhador vem ao encontro da ideia de que n\u00e3o h\u00e1 l\u00f3gica nem sa\u00fade social na pol\u00edtica da inimizade, do sectarismo, da segmenta\u00e7\u00e3o, entre n\u00f3s e eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A primeira vez que voc\u00ea disse que estava gravando um disco solo foi em 2019. Sem querer \u201cbiografar\u201d a obra, o que aconteceu na sua vida at\u00e9 esse disco sair? Por que levou tanto tempo?<\/strong><br \/>\nEm 2019, come\u00e7amos a gravar as m\u00fasicas que eu j\u00e1 estava compondo desde 2018. Estava tudo programado para o disco sair em 2020, o plano inicial era entre maio e junho. Mas em mar\u00e7o veio a pandemia e travou tudo. Ainda faltava a reta final do disco para encarar, basicamente resolver alguns detalhes de arranjo, mais mixagem e masteriza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o achei que fazia sentido lan\u00e7ar o disco naquelas condi\u00e7\u00f5es, ainda mais depois de tanto trabalho e sendo o primeiro \u00e1lbum solo. Poderia ser um desperd\u00edcio de material.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>At\u00e9 porque \u00e9 um disco que voc\u00ea gostaria de rodar com um show depois, mas n\u00e3o ia rolar fazer show depois\u2026<\/strong><br \/>\nExatamente. Mas mais que isso: eu nem conseguia finalizar o disco nas condi\u00e7\u00f5es que eu estava, sozinho, preso dentro de casa e com tudo aquilo acontecendo. O disco ficou pausado at\u00e9 por uma decis\u00e3o de esperar para ver como seria lan\u00e7ar um disco quarentenado. Observei alguns lan\u00e7amentos e parece que eles ca\u00edam num v\u00e3o, num nada. Ent\u00e3o decidi esperar para lan\u00e7ar em tempos melhores, e a\u00ed surgiu um plano de viajar de Kombi pelo Brasil. Era uma ideia que eu e a L\u00facia [Tietboehl, mulher do cantor] j\u00e1 fal\u00e1vamos sobre h\u00e1 algum tempo. Sempre gostei muito de viajar, sempre fiz planos mirabolantes de viajar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A turn\u00ea da Apanhador S\u00f3 para viabilizar o disco, \u201cNa Sala de Estar\u201d, era um plano mirabolante de viajar, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nSim. Sempre pirei em alternativas de circula\u00e7\u00e3o, tentava descobrir como percorrer territ\u00f3rios e ao mesmo tempo fazer disso uma pr\u00e1tica produtiva artisticamente falando. Sempre foi algo que me pilhou muito. E eu gosto muito do exerc\u00edcio de entender o que \u00e9 essencial para se viver. Gosto muito de natureza, de acampar, \u00e9 algo que me mostra o quanto a gente precisa de pouco para viver bem, com uma qualidade de vida boa. Isso se alinhou com o fato de estar preso dentro de casa durante a pandemia e eu e a L\u00facia pensando em como poder\u00edamos viajar juntos. Antes da pandemia, ela tinha viajado para a Chapada dos Veadeiros e viu um casal vendo um p\u00f4r do sol, sentado em cadeiras em cima de um motorhome. Em algum momento, ela olhou aquela imagem e nos viu ali. Durante a pandemia, as condi\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a ficar ideais: ela trabalhava remotamente e eu estava me virando com trabalhos que tamb\u00e9m poderia fazer de forma remota. Resolvemos ir: j\u00e1 que a gente n\u00e3o podia sair de casa por morar num centro urbano cheio de gente, resolvemos criar uma casa m\u00f3vel que a gente pudesse levar para lugares isolados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual foi a rota?<\/strong><br \/>\nSa\u00edmos do Rio Grande do Sul em maio de 2021 e fomos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Chapada dos Veadeiros, subindo por Santa Catarina, Paran\u00e1, S\u00e3o Paulo e a\u00ed direto pra Chapada. Passamos alguns meses l\u00e1 e depois sa\u00edmos pelo norte de Minas Gerais, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Bahia, e ficamos um temp\u00e3o circulando na Bahia. Foi l\u00e1 que a gente descobriu, em agosto de 2022, que est\u00e1vamos gr\u00e1vidos. Nossa ideia era fazer o Nordeste todo antes de pensar em voltar, mas com essa novidade n\u00f3s fizemos contas e decidimos voltar para Porto Alegre, at\u00e9 para achar uma casa para morarmos juntos. Da\u00ed, organizar o lan\u00e7amento do disco entrou no pacote.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse meio tempo, o disco ficou parado?<\/strong><br \/>\nFicou. Teve uma faixa s\u00f3, \u201cOnde Eu N\u00e3o Puder\u201d, que ficou sendo produzida pelo Marcelo Fruet, pelo \u00c1tila Viana e pelo Daniel Roitman. Era uma das m\u00fasicas que n\u00e3o me agradavam no disco, eu estava pronto para tir\u00e1-la, mas o Fruet se ofereceu para participar e fazer algo no \u00e1lbum. Eu achava que essa m\u00fasica tinha um problema de arranjo, mas o Fruet identificou logo que o problema come\u00e7ava na grava\u00e7\u00e3o, na base de viol\u00e3o e voz. Regravei tudo antes de sair de viagem e ele foi produzindo. O resto do disco precisava de um tapa na mixagem. Cheguei a fazer uma mixagem caso quisesse lan\u00e7ar enquanto viajava, mas depois percebi que seria melhor estacionar em algum lugar para fazer um lan\u00e7amento bem organizado. Por mais que d\u00ea para trabalhar dentro de uma Kombi com o celular, lan\u00e7ar um disco \u00e9 um trabalho complicado. Assim, quando voltei, revisei todas as mixagens e o Fruet fez a masteriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que \u00e9 lan\u00e7ar um disco hoje?<\/strong><br \/>\nBasicamente, \u00e9 conseguir subir o disco para as plataformas de streaming e divulgar. Falando assim, parece algo simples.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Poxa, parece at\u00e9 algo que d\u00e1 para fazer com o celular\u2026<\/strong><br \/>\nSim! S\u00f3 que s\u00e3o muitas coisas para fazer e organizar. Precisa organizar o material, fazer o registro das m\u00fasicas, escrever textos, preparar material gr\u00e1fico, editar v\u00eddeos e fotos. S\u00e3o passos importantes para fazer um lan\u00e7amento super independente, como est\u00e1 sendo o meu. \u00c9 um trabalho bem de escrit\u00f3rio, de mandar e-mails, mais dif\u00edcil de fazer no celular. N\u00e3o sei se \u00e9 porque eu n\u00e3o sei mexer direito no celular, sou da velha guarda que prefere ter todas as abas abertas para a coisa fluir melhor.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Alexandre Kumpinski - Neve Firme (Lyric Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VkejDr1y_cY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que m\u00fasico nenhum pensa nesse tipo de tarefa quando come\u00e7a uma carreira. Como \u00e9 assumir esse \u201ctrampo de escrit\u00f3rio\u201d?<\/strong><br \/>\nFoi algo que existiu desde cedo na minha carreira como m\u00fasico independente. Eu ia dizer que \u00e9 algo do Brasil, mas \u00e9 global. Desde cedo, entendi que se quisesse ficar s\u00f3 tocando, n\u00e3o ia conseguir me profissionalizar. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o, \u00e9 uma realidade. A diferen\u00e7a entre algu\u00e9m que \u00e9 um m\u00fasico talentoso e faz \u00f3timas m\u00fasicas para algu\u00e9m que consegue viver da m\u00fasica \u00e9 que o segundo faz esse trabalho de escrit\u00f3rio, que se empenha para divulgar o trabalho, organizar ensaios, alinhar todos os pontos. Quer dizer: ensaio j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 trabalho de escrit\u00f3rio, mas \u00e9 um trabalho de produ\u00e7\u00e3o, de organiza\u00e7\u00e3o. Quando voc\u00ea come\u00e7a a tocar, voc\u00ea marca um ensaio de vez em quando com os amigos para se divertir, \u00e9 que nem marcar um jogo de futebol. Mas para tocar bem, chega uma hora que voc\u00ea tem que ensaiar mais do que o prazer manda. Tem que repetir as partes para deixar todos os trechos redondos. Gravar disco \u00e9 igual: \u00e9 muito prazeroso, \u00e9 das coisas que eu mais gosto de fazer na vida, mas \u00e9 extremamente extenuante. Tem que ouvir muitas vezes a mesma m\u00fasica, \u00e0s vezes tem que gravar muitas vezes as mesmas coisas. \u00c0s vezes voc\u00ea tem sorte, est\u00e1 num dia bom e a voz-guia j\u00e1 funciona, mas \u00e0s vezes precisa ficar doze horas seguidas na frente do computador para tirar um bom resultado. Tem um lado bem nerd de estudar equipamento, plugin, programa de edi\u00e7\u00e3o e mixagem de m\u00fasica, para conseguir tirar um timbre interessante. \u00c9 um um monte de coisa que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 tocar, \u201cfazer um som\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em termos de sonoridade, o que voc\u00ea queria alcan\u00e7ar com o \u201cCartilagem\u201d? Tem refer\u00eancias espec\u00edficas?<\/strong><br \/>\nAlguma coisa em mim n\u00e3o queria que meu primeiro disco solo fosse s\u00f3 de voz e viol\u00e3o. N\u00e3o sei explicar o porqu\u00ea, mas n\u00e3o queria. Por outro lado, por ser um compositor de voz e viol\u00e3o, sabia que n\u00e3o ia conseguir fugir completamente disso. Na \u00e9poca em que eu estava fazendo o disco, ouvi muita m\u00fasica eletr\u00f4nica e muito funk carioca e paulista, especialmente entre 2017 e 2019, prestando aten\u00e7\u00e3o no minimalismo dos arranjos. Antes da onda dos 150bpm, me encantava muito a forma como o funk trabalhava o sil\u00eancio. Eu fazia muito o exerc\u00edcio de ouvir o funk sem ver os v\u00eddeos do canal do Kondzilla, tentando perceber como existia ali uma concep\u00e7\u00e3o muito arrojada de arranjo. As m\u00fasicas conseguiam, com pouqu\u00edssimos elementos, um resultado muito potente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O funk usa o sil\u00eancio quase como uma nota.<\/strong><br \/>\nO sil\u00eancio \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o. Dessa provoca\u00e7\u00e3o, nasce uma motiva\u00e7\u00e3o no corpo, uma promessa que n\u00e3o se cumpre. \u00c9 uma batida que parece que vai estourar, mas nunca estoura. Fica sempre naquele espa\u00e7o que n\u00e3o se cumpre, mas enquanto isso acontece voc\u00ea vai sendo envolvido, e quando v\u00ea, j\u00e1 est\u00e1 dan\u00e7ando. Se isso acontece num ambiente coletivo, est\u00e1 todo mundo indo at\u00e9 o ch\u00e3o com um arranjo que prometeu um estouro que nunca chegou. \u00c9 um preenchimento que n\u00e3o vem. Acho magn\u00edfico. De alguma forma, eu queria tentar achar o encontro desses dois mundos, do minimalismo eletr\u00f4nico, do funk, com timbres modernos e instigantes, com o mundo mais intimista da voz e do viol\u00e3o. Era o primeiro norte est\u00e9tico do disco. N\u00e3o necessariamente consegui chegar nesse resultado, mas essa foi a corda que puxou a can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma abordagem que me lembra muito alguns trabalhos do Jorge Drexler \u2013 uma refer\u00eancia que voc\u00ea j\u00e1 disse ter em outras oportunidades. Foi uma refer\u00eancia?<\/strong><br \/>\nCom certeza. O Drexler \u00e9 um dos artistas mais interessantes do cen\u00e1rio mundial h\u00e1 muitos anos. Tem muito a ver. Um dos singles do disco, \u201cVulc\u00e3o\u201d, que acabou n\u00e3o entrando no \u00e1lbum, tem uma batida de funk 150bpm. Peguei essa est\u00e9tica para colocar como refer\u00eancia, batendo contin\u00eancia para o funk tamb\u00e9m. E no disco mais recente do Drexler [\u201cTinta y Tiempo\u201d, de 2022], tem \u201cTocarte\u201d, que \u00e9 um funk. Bem estudado, bem dentro da linguagem do funk. N\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica que usa s\u00f3 a c\u00e9lula r\u00edtmica do funk, mas toda uma concep\u00e7\u00e3o art\u00edstica dos timbres, do minimalismo. D\u00e1 para ver que o Drexler est\u00e1 atento a isso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Alexandre Kumpinski \u25cf Vulc\u00e3o\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GQKPdHNjkDM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00e1 para perceber essa aten\u00e7\u00e3o na forma que ele canta, em como ele estruturou a melodia de \u201cTocarte\u201d.<\/strong><br \/>\n\u00c9 um canto muito ligado \u00e0 fala, tem ritmo e tem preenchimento. Isso foi algo com que eu me deparei quando estava fazendo meus primeiros testes, descobrindo linguagem. Antes de produzir o disco, fiz alguns funks em casa, nada muito fechado. E uma das coisas que notei foi que o funk traz a can\u00e7\u00e3o com muita presen\u00e7a, sem muito respiro. A melodia e a letra seguram a onda da can\u00e7\u00e3o para que o sil\u00eancio do arranjo consiga se destacar, se estruturar enquanto sil\u00eancio. Para a can\u00e7\u00e3o ficar de p\u00e9, a voz quase n\u00e3o para. \u201cTocarte\u201d \u00e9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No que diz respeito \u00e0s letras, \u201cCartilagem\u201d parece ter dois temas centrais \u2013 e que disputam espa\u00e7o entre si. De um lado, h\u00e1 essa no\u00e7\u00e3o de que essa divis\u00e3o da sociedade n\u00e3o vai dar em boa coisa. Por outro lado, h\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o muito forte de solid\u00e3o, de isolamento, de afastamento do resto do mundo \u2013 e \u00e9 curioso saber que essas composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o at\u00e9 anteriores \u00e0 pandemia. Como essas duas for\u00e7as se equilibram no disco?<\/strong><br \/>\nAcho que isso acontece porque o personagem do disco est\u00e1 sentindo as consequ\u00eancias de um presente cindido, jogando sua esperan\u00e7a na supera\u00e7\u00e3o disso. \u00c9 um sujeito sentindo as agruras de um isolamento, sabendo que a gente n\u00e3o est\u00e1 no caminho certo, em que \u00e9 preciso superar e encontrar a sa\u00fade de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o sei se concordo com essa ideia de supera\u00e7\u00e3o, ainda mais porque o disco acaba com uma releitura de \u201cAndo S\u00f3\u201d, do Engenheiros do Hawaii. O que te fez colocar essa m\u00fasica ao final do disco?<\/strong><br \/>\nSabe que essa m\u00fasica \u00e9 uma m\u00fasica que me acompanha desde a adolesc\u00eancia? Acho muito bonita. Ouvi muito Engenheiros do Hawaii quando era pr\u00e9-adolescente e adolescente, essa letra sempre me tocou muito. Sozinho numa madrugada, eu a gravei em casa com gravador de m\u00e3o. Racionalmente, n\u00e3o sei explicar bem, mas intuitivamente sentia que ela fazia sentido para fechar meu disco. N\u00e3o fiz um desenho racional, s\u00f3 intu\u00ed mesmo. Prestes a lan\u00e7ar, conversando com o Humberto Gessinger para \u201cpedir a b\u00ean\u00e7\u00e3o\u201d, me dei conta que o \u201cs\u00f3\u201d de Apanhador S\u00f3 vem da\u00ed. Foi um nome que me veio \u00e0s pressas: a gente precisava se inscrever num festival de bandas da escola e eu inventei Apanhador S\u00f3 na hora. O \u201cs\u00f3\u201d vem de \u201cAndo S\u00f3\u201d e tamb\u00e9m de \u201cMarinheiro S\u00f3\u201d, duas m\u00fasicas que eu gostava muito. Acho que essa m\u00fasica fecha um ciclo para mim: acabar meu primeiro \u00e1lbum solo depois da Apanhador S\u00f3 com \u201cAndo S\u00f3\u201d, que emprestou seu \u201cs\u00f3\u201d para o nome da banda que me acompanhou durante quase vinte anos da minha vida. \u00c9 algo que abre e fecha um ciclo. Mas n\u00e3o consigo explicar mais do que isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tomei um susto quando vi essa m\u00fasica no disco. Primeiro, por ser uma m\u00fasica que n\u00e3o \u00e9 sua em um disco solo, de compositor. Segundo, por ser justamente Engenheiros do Hawaii essa escolha.<\/strong><br \/>\nPois \u00e9: Engenheiros \u00e9 daqui, de Porto Alegre, alguma coisa tamb\u00e9m me conecta. Tamb\u00e9m n\u00e3o sei explicar exatamente por que, mas sinto que Engenheiros do Hawaii \u00e9 um projeto que n\u00e3o \u00e9 muito respeitado dentro da hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira. Discordo bastante: poucas bandas no Brasil tiveram um trabalho t\u00e3o consistente e t\u00e3o profundo, em termos de dom\u00ednio de obra. \u00c9 uma profundidade de composi\u00e7\u00e3o que faz parte da minha forma\u00e7\u00e3o. Com 12, 13 anos de idade, eu ouvia incessantemente Engenheiros, Paralamas do Sucesso e Chico Buarque. Hoje estou com 36. E olha que n\u00e3o cheguei a pegar o auge da banda, mas cheguei a ir em shows, talvez at\u00e9 o primeiro show que eu tenha ido na vida tenha sido deles. Me peguei revendo v\u00eddeos deles, tem uma participa\u00e7\u00e3o no \u201cPrograma Livre\u201d em que um rapaz pergunta o que eles achavam de uma certa vota\u00e7\u00e3o numa revista espec\u00edfica (nota; Revista Bizz), com Engenheiros sendo o primeiro lugar na escolha do p\u00fablico e o \u00faltimo lugar na escolha da cr\u00edtica. E fiquei pensando nisso: a cr\u00edtica da m\u00fasica brasileira n\u00e3o curte muito Engenheiros, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o.<\/strong><br \/>\nEstou vendo pela tua rea\u00e7\u00e3o que tu mesmo n\u00e3o curte Engenheiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu tenho uma rela\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica com Engenheiros: o Humberto faz o tipo de trocadilho e piada que eu fa\u00e7o. Mas quando ou\u00e7o, n\u00e3o consigo gostar. Talvez seja porque ele est\u00e1 fazendo isso a s\u00e9rio, e eu sinto que seja s\u00f3 piada. Mas tem momentos relevantes no Engenheiros, tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\n(risos) O tipo de piada, de trocadilho, sei. Eu vejo os trocadilhos dele ancorados em profundidade, em quem pinta um quadro geral s\u00f3cio-pol\u00edtico do que era o mundo no in\u00edcio dos anos 1990. Mas eu entendo, muita gente n\u00e3o leva a s\u00e9rio porque n\u00e3o bate. \u201cP\u00f4, o cara fica a\u00ed fazendo joguinho de palavra?\u201d (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Talvez entrando num campo mais psicanal\u00edtico da entrevista, me pareceu significativo que voc\u00ea encerre seu primeiro disco solo com uma m\u00fasica chamada \u201cAndo S\u00f3\u201d, depois de tudo o que aconteceu com a Apanhador S\u00f3. Essa m\u00fasica \u00e9 uma bandeira? Algo como: esse \u00e9 o meu caminho, n\u00e3o \u00e9 mais o caminho da banda?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, eu iria al\u00e9m disso. \u00c9 uma interpreta\u00e7\u00e3o, claro, \u00e9 uma das camadas que est\u00e1 dentro da minha escolha intuitiva. Tem a ver: ando s\u00f3, estou em carreira solo, n\u00e3o ando mais em bando, meu projeto n\u00e3o \u00e9 mais um grupo. Mas vai al\u00e9m, tem for\u00e7as que talvez se contradigam \u2013 e como diz a m\u00fasica \u201cSem Contradi\u00e7\u00f5es\u201d, estou um momento de vida em que eu n\u00e3o estou fugindo das contradi\u00e7\u00f5es. Um lado da interpreta\u00e7\u00e3o mostra que n\u00e3o \u00e9 bem a hora da gente se fechar em bandos. Quando o Bolsonaro venceu as elei\u00e7\u00f5es de 2018 e come\u00e7ou a corrente do \u201cningu\u00e9m solta a m\u00e3o de ningu\u00e9m\u201d, achei aquilo de um descabimento. Quem faz parte desse algu\u00e9m, desse sujeito coletivo que n\u00e3o vai soltar a m\u00e3o dos outros? O mundo \u00e9 vasto, \u00e9 complexo, e o Brasil \u00e9 feito de quase metade de eleitores do Bolsonaro, e naquela \u00e9poca, quase metade de eleitores do Haddad, agora do Lula. O quadro n\u00e3o mudou muito, as duas elei\u00e7\u00f5es foram apertadas. Estamos dentro de um pa\u00eds em que tem muita complexidade acontecendo. Dizer que ningu\u00e9m solta a m\u00e3o de ningu\u00e9m\u2026 ok, \u00e9 a esquerda dizendo que vai se amparar e se fechar num c\u00edrculo de prote\u00e7\u00e3o. Mas a gente sabe que n\u00e3o \u00e9 a esquerda de uma forma ampla. Era um sinal de algo que eu comento no disco: a gente n\u00e3o tem que se fechar em comunidades, entre os nossos. \u00c9 o contr\u00e1rio: o que a gente tem a fazer \u00e9 tentar se abrir o m\u00e1ximo poss\u00edvel para o contato, o di\u00e1logo e o entendimento do diferente. N\u00e3o \u00e9 metade do pa\u00eds que \u00e9 fascista. As pessoas n\u00e3o s\u00e3o fascistas porque votaram no Bolsonaro, elas t\u00eam as suas raz\u00f5es. Preciso tentar entender as raz\u00f5es para tentar dialogar com as pessoas, para da\u00ed tentar influenci\u00e1-las ou ser influenciado. A via de m\u00e3o dupla aqui \u00e9 importante, para chegar num entendimento maior, para conseguir ir al\u00e9m. E aqui surge outro lado da interpreta\u00e7\u00e3o: o sujeito que anda s\u00f3 n\u00e3o quer se fechar em comunidades, mas sabe que a gente n\u00e3o pode andar sozinho. Nem tem como andar sozinho, a gente est\u00e1 sempre junto. A ideia \u00e9 se despir da fantasia de que podemos viver num mundo s\u00f3 entre iguais, uma fantasia afirmada quase todos os dias nas redes sociais. Se fosse pelas minhas redes sociais, o Ol\u00edvio Dutra estava eleito senador no Rio Grande do Sul com folga. Cada vez que damos um passo para nos \u201cbolhificar\u201d mais, estamos mais longe de chegar numa configura\u00e7\u00e3o social que seja saud\u00e1vel. Gra\u00e7as a Deus o Lula ganhou, mas isso n\u00e3o vai resolver nossos problemas, porque a gente continua num pa\u00eds cindido, numa l\u00f3gica de guerra e inimizade. A pol\u00edtica do \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d, que \u00e9 fascista, est\u00e1 disseminada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem quem goste de dizer que quem come\u00e7ou com o \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d foi o Lula \u2013 embora esse \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d do Lula seja mais luta de classes que outra coisa.<\/strong><br \/>\nSim, existem alguns \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d. As lutas s\u00e3o muito complexas, as rela\u00e7\u00f5es de poder entre as partes s\u00e3o muito complexas. \u00c0s vezes existe \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d, e \u201caqueles outros\u201d, e \u201caqueles n\u00f3s\u201d, e os \u201coutros n\u00f3s\u201d, \u00e9 uma rede complexa de rela\u00e7\u00f5es. No momento em que se fala de \u201celes\u201d e \u201cn\u00f3s\u201d, simplificou demais. N\u00e3o estamos num pa\u00eds bom de se viver hoje em dia. Mas \u00e9 isso: \u00e9 talvez andar sozinho e, ao mesmo tempo, tentar andar o mais amplamente acompanhado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vou voltar na ideia do \u201cningu\u00e9m solta a m\u00e3o de ningu\u00e9m\u201d. Ao ler essa entrevista, sei que vai ter gente que vai pensar que quem diz essas coisas \u00e9 algu\u00e9m de quem soltaram a m\u00e3o. Vai ouvir o que voc\u00ea diz com um puta rancor. Soltaram a sua m\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEu sinto que eu mesmo j\u00e1 n\u00e3o vinha fechando essa roda antes. Se tu for ouvir direito, o \u201cMeio Que Tudo \u00c9 Um\u201d j\u00e1 aponta para isso. O \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d n\u00e3o: era um disco que queria ir para a luta, apontava para inimigos. \u201cMordido\u201d \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o-manifesto, agressiva. \u201cAqui na espera \/ a gente t\u00e1 esperando um \/ que sirva pra exemplificar\u201d \u00e9 bem a l\u00f3gica do \u201cn\u00f3s contra eles\u201d, a l\u00f3gica do sangue no olho de 2013, do embate mesmo. Entre 2013 e 2017, quando saiu o \u201cMeio Que Tudo \u00c9 Um\u201d, comecei a ver que o caminho n\u00e3o era bem por a\u00ed, que essa trilha que n\u00e3o era muito saud\u00e1vel socialmente. \u00c9 bem disso que a gente est\u00e1 falando: o fechamento de bolhas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Alexandre Kumpinski | Mordido (ao vivo - Casa Pinheiro)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KP1S-bqVfSY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sonoramente, o \u201cMeio Que Tudo \u00c9 Um\u201d mostra isso. Quando voc\u00eas lan\u00e7aram o disco, todo mundo esperava um disco que fosse ainda mais para a guerra. E ele \u00e9 o contr\u00e1rio.<\/strong><br \/>\n\u00c9 um disco que diz o seguinte: \u201colha, na verdade eu n\u00e3o tenho bem certeza das coisas e vou abra\u00e7ar a minha d\u00favida e vou tentar ampliar o escopo do que est\u00e1 aqui dentro\u201d. \u00c9 um disco de \u201csim\u201d. O \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d \u00e9 um disco de n\u00e3o, do que a gente n\u00e3o vai aturar, do \u201cn\u00e3o passar\u00e1!\u201d. O \u201cMeio\u201d, n\u00e3o: \u00e9 um disco de respiro, de tentar entender as coisas de maneira complexa. Ao fazer esse movimento, j\u00e1 soltamos um pouco a m\u00e3o, para poder abrir a roda. Um c\u00edrculo fechado s\u00f3 pode se abrir e crescer se a gente soltar a m\u00e3o uns dos outros. Claro: se for pensar sobre o que aconteceu com a Apanhador S\u00f3, sim, soltaram a nossa m\u00e3o. Mas a gente j\u00e1 vinha fazendo esse movimento. E bem, n\u00e3o \u00e9 que a gente teve a m\u00e3o soltada. A gente foi apedrejado em pra\u00e7a p\u00fablica. Para nos apedrejar, soltaram a nossa m\u00e3o antes. Mas essa soltada de m\u00e3o \u00e9 bem emancipadora. \u00c9 positiva, no fim das contas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que a gente entrou no assunto, vamos l\u00e1. Como \u00e9 que o processo de cancelamento aconteceu para voc\u00ea? Voltando mesmo para 2017, lembro que voc\u00eas estavam no Rio de Janeiro para fazer os shows de lan\u00e7amento do \u201cMeio Que Tudo \u00c9 Um\u201d e sai o texto no Facebook da Clara Corleone, ex-mulher do Felipe Zancanaro. No relato, ela diz que decidiu escrever sobre esse relacionamento encerrado tr\u00eas anos antes por conta de \u201cLinda, Louca e Livre\u201d, uma m\u00fasica que \u00e9 sua. O texto n\u00e3o \u00e9 sobre voc\u00ea, mas voc\u00ea foi afetado. O que eu quero saber \u00e9: como \u00e9 que voc\u00ea conta essa hist\u00f3ria quando algu\u00e9m te pergunta o que aconteceu?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o conto essa hist\u00f3ria, porque todo mundo viveu essa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voc\u00ea vai ter uma filha agora, que um dia provavelmente vai descobrir e te perguntar sobre o que foi essa hist\u00f3ria. O que voc\u00ea vai dizer?<\/strong><br \/>\nProvavelmente, vou dizer que foi uma loucura coletiva. Foi um momento hist\u00f3rico em que as pessoas estavam coletivamente malucas. Sofremos uma viol\u00eancia absurda, surreal, uma destrui\u00e7\u00e3o de um jeito que, felizmente, anos depois, as pessoas est\u00e3o come\u00e7ando a se dar conta de que n\u00e3o \u00e9 bem por a\u00ed o caminho. As pessoas est\u00e3o entendendo que n\u00e3o \u00e9 justo e n\u00e3o d\u00e1 para acreditar bem em qualquer coisa que se escreve na internet, que as hist\u00f3rias s\u00e3o muito mais complexas do que se pode colocar num post de Facebook. No fim das contas, ningu\u00e9m saiu ganhando com isso. O mundo n\u00e3o nos tornou uma v\u00edrgula melhores por conta do cancelamento da Apanhador S\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Houve um exagero?<\/strong><br \/>\nRolou. Eu n\u00e3o diria nem que \u00e9 exagero. Mas se for para responder de maneira simples a sua pergunta, sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o precisa simplificar, pode deixar complexo.<\/strong><br \/>\n\u00c9 o m\u00ednimo que se pode dizer: rolou um exagero. (pensa). Hoje em dia, gra\u00e7as a Deus, todo mundo j\u00e1 entendeu que essa [cancelamento] n\u00e3o \u00e9 a via e que n\u00e3o tem como saber a verdade. N\u00e3o tem como pegar um relato de algu\u00e9m que tem seus motivos para querer prejudicar outra pessoa, pegar esse relato e utiliz\u00e1-lo como verdade absoluta para destruir uma carreira. Sim: exagero \u00e9 o m\u00ednimo. Rolou uma loucura coletiva, \u00e9 o que eu acho mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 algo de que voc\u00ea, Alexandre, se arrepende no processo todo? De ter feito a m\u00fasica? De n\u00e3o ter conversado com o Felipe, como amigo? Todo relato tem verdades e mentiras, claro, mas muito do que se colocou nos relatos foram hist\u00f3rias que aconteceram na sua presen\u00e7a. Tem algum arrependimento nessa hist\u00f3ria?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Da m\u00fasica eu n\u00e3o me arrependo nem uma v\u00edrgula. \u201cLinda, Louca e Livre\u201d, inclusive, foi feita para a L\u00facia, que \u00e9 a minha companheira e vai ser m\u00e3e da minha filha. \u00c9 a nossa m\u00fasica de amor e talvez a melhor can\u00e7\u00e3o que eu j\u00e1 tenha escrito na minha vida. Falo isso sem muito receio de errar, \u00e9 uma das minhas melhores m\u00fasicas, sen\u00e3o a melhor. O problema nunca foi a m\u00fasica, na verdade. A m\u00fasica era s\u00f3 um ingrediente dentro de uma receita explosiva. Foi um dos primeiros cancelamentos de grande escala no cen\u00e1rio independente brasileiro. De l\u00e1 para c\u00e1, muita gente j\u00e1 aprendeu muita coisa e o pr\u00f3prio processo de cancelamento j\u00e1 mudou. Hoje em dia, todo mundo \u00e9 muito mais maduro para entender que n\u00e3o \u00e9 bem por a\u00ed o caminho, apesar da gente ainda viver uma \u00e9poca de muito cancelamento. J\u00e1 existem muitas cr\u00edticas \u00e0 cultura do cancelamento. Naquela \u00e9poca, era dif\u00edcil saber como lidar. Hoje, todo mundo tem uma opini\u00e3o do que poderia ter sido feito melhor na \u00e9poca. Mas quando uma bomba dessas cai na tua cabe\u00e7a e n\u00e3o existem exemplos pr\u00e9vios, fica dif\u00edcil decidir por qual caminho seguir. Acho que fizemos o correto, n\u00e3o fomos injustos com ningu\u00e9m em nenhum momento. Deito minha cabe\u00e7a no travesseiro tranquilamente todas as noites. N\u00e3o fomos injustos com ningu\u00e9m, n\u00e3o devolvemos viol\u00eancia com viol\u00eancia, nem mentira com mentira. A gente n\u00e3o ajudou o mundo a se tornar um lugar pior dentro desse processo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Apanhador S\u00f3 - Linda, louca e livre\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OwTn5CcIM60?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com Fern\u00e3o e Felipe hoje?<\/strong><br \/>\n\u00c9 boa, n\u00f3s seguimos amigos, nos falamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a banda? Lembro que voc\u00eas chegaram a fazer shows em Porto Alegre depois do cancelamento\u2026<\/strong><br \/>\nA banda seguiu as atividades por um ano depois do cancelamento. \u00c9 uma coisa que ningu\u00e9m se lembra ou se deu conta, mas a gente batalhou arduamente. Mantivemos atividades at\u00e9 agosto de 2018, e a\u00ed decidimos dar uma pausa. N\u00e3o estava dando, n\u00e3o est\u00e1vamos conseguindo girar a roda, mas fizemos mais do que s\u00f3 um show. \u00c9 louco: as pessoas acham que rolou o cancelamento, n\u00f3s tentamos fazer um show e a banda acabou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Daria para voltar com a banda hoje?<\/strong><br \/>\nDaria, acho que sim. Se alinhar fatores que precisam ser alinhados, levando em conta a vida pessoal e profissional dos tr\u00eas, acho que sim. Se os fatores estivessem alinhados, talvez at\u00e9 a gente j\u00e1 tivesse voltado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 interessante voc\u00ea dizer isso: comentei com algumas pessoas que voc\u00ea estava lan\u00e7ando o disco e que ia te entrevistar. E de muita gente ouvi frases como \u201cos caras foram cancelados, esquece isso a\u00ed, n\u00e3o mexe n\u00e3o.\u201d<\/strong><br \/>\n\u00c9 incr\u00edvel como as pessoas t\u00eam uma vis\u00e3o limitada do que \u00e9 a realidade, da vida pessoal e profissional de algu\u00e9m. \u00c0s vezes, vejo algumas pessoas s\u00f3 come\u00e7ando a se dar conta de como as coisas s\u00e3o quando elas sofrem algum tipo de cancelamento, ou arremedo de cancelamento. Ou quando algum amigo sofre. A\u00ed as pessoas veem como a coisa \u00e9 potencialmente injusta, como as coisas n\u00e3o s\u00e3o bem assim, como o cancelamento \u00e9 uma pr\u00e1tica medieval nossa enquanto sociedade. \u00c9 medieval acreditar que algu\u00e9m que foi cancelado deve ser realmente cancelado e ter sua carreira cancelada por conta de alguma coisa que tenha acontecido \u2013 que, normalmente, as pessoas n\u00e3o sabem nem se \u00e9 verdade ou n\u00e3o. Vou dar um exemplo de como as coisas s\u00e3o vol\u00e1teis e irrespons\u00e1veis na internet, de como a gente n\u00e3o pode tirar conclus\u00f5es s\u00e9rias a partir de relatos. Uma das coisas que pegou muito no cancelamento da Apanhador S\u00f3 foi que o Felipe era \u201cagressor de mulher\u201d. O relato dizia que o Felipe tinha quebrado o dedo dela. Mas a pr\u00f3pria pessoa que fez o relato publicou depois que n\u00e3o tinha sido bem assim, que tinha sido uma m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o de texto e que ele nunca tinha feito isso propositalmente. A pr\u00f3pria relatora desmentiu depois a agress\u00e3o, que foi o que mais pegou, mas ningu\u00e9m prestou aten\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m ouviu. Ficou jogado ao vento. O processo de justi\u00e7amento \u00e9 selvagem e o algoritmo n\u00e3o pega o desmentido do mesmo jeito. Cinco anos depois, ainda tem gente que acha que a Apanhador S\u00f3 foi cancelada justamente porque um dos seus integrantes bateu na mulher. Isso nunca aconteceu. Isso \u00e9 uma mentira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Existe uma l\u00f3gica muito complicada na cultura do cancelamento. Vou tra\u00e7ar um paralelo: quando algu\u00e9m comete um crime, esse crime tem uma pena, que deve ser cumprida. Existe uma pecha social para o criminoso, claro, mas a pena foi cumprida e, v\u00e1 l\u00e1, dentro de uma l\u00f3gica judaico-crist\u00e3 h\u00e1 um perd\u00e3o. Um cancelamento n\u00e3o tem essa pena: \u00e9 um carimbo, \u00e9 uma marca que fica. Feito de maneira justa ou injusta, o cancelamento n\u00e3o tem um prazo para terminar.<\/strong><br \/>\nE o cancelamento n\u00e3o tem julgamento, n\u00e3o tem direito a contradit\u00f3rio. Quer dizer: tem um julgamento, feito sem provas, sem testemunhas, sem advogados. \u00c9 a volta \u00e0 barb\u00e1rie, na verdade. Com toda a tecnologia que temos nas m\u00e3os, a gente volta \u00e0 barb\u00e1rie e faz justi\u00e7amento. Existe uma coisa muito b\u00e1sica da justi\u00e7a humana, h\u00e1 muito tempo, que n\u00e3o basta algu\u00e9m te acusar de algo para tu ser culpado. N\u00e3o basta s\u00f3 dizerem que aconteceu o crime para voc\u00ea ser julgado. E naquele momento da cultura do cancelamento, se falava muito sobre \u201cn\u00e3o se pode duvidar do relato da v\u00edtima\u201d. Isso coloca a base da justi\u00e7a humana no lixo, porque qualquer um pode escreve qualquer coisa sobre qualquer um e tu n\u00e3o pode duvidar da v\u00edtima. O relato da v\u00edtima se torna uma verdade absoluta. Tem isso que tu est\u00e1 dizendo, tem quest\u00f5es anteriores e posteriores. Todas as camadas do processo de cancelamento na internet est\u00e3o equivocadas. (respira).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se o cancelamento n\u00e3o tivesse acontecido, onde a Apanhador S\u00f3 estaria hoje?<\/strong><br \/>\nImposs\u00edvel dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que \u00e9 um \u201cexerc\u00edcio\u201d que muita gente j\u00e1 fez \u2013 e acredito ser meio imposs\u00edvel que voc\u00ea, Felipe e Fern\u00e3o n\u00e3o tenham imaginado isso ao menos uma vez.<\/strong><br \/>\nEu realmente n\u00e3o trabalho com essas perspectivas. N\u00e3o \u00e9 algo que eu fa\u00e7a na minha vida. Eu n\u00e3o crio muitas proje\u00e7\u00f5es para o futuro, nem do que seria um futuro se o passado tivesse sido diferente. Eu n\u00e3o estou querendo fugir da pergunta, n\u00e3o (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Agora, na hora de lan\u00e7ar o \u201cCartilagem\u201d, rolou algum medo ou precau\u00e7\u00e3o da sua parte para evitar ru\u00eddos? Houve receio de ser cancelado de novo ou interditarem seu trabalho?<\/strong><br \/>\nAcho que, em 2022, j\u00e1 tendo toda a experi\u00eancia de cultura do cancelamento no Brasil, quem n\u00e3o quiser nenhum papo comigo, eu tamb\u00e9m n\u00e3o vou querer papo com essa pessoa. N\u00e3o \u00e9 o tipo de p\u00fablico que eu estou buscando. Mas de resto, h\u00e1 um entendimento geral \u2013 e eu volto a repetir, acho muito positivo que a gente tenha amadurecido a nossa vis\u00e3o sobre a cultura do cancelamento. Eu me sinto bem confort\u00e1vel de lan\u00e7ar um \u00e1lbum, at\u00e9 porque a gente n\u00e3o pode deixar a cultura do cancelamento vencer. A gente tem que responder com a cultura da vida, de seguir colocando coisas no mundo, fazendo as coisas nascerem e acontecerem. \u00c9 o que a gente precisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como as pessoas t\u00eam recebido o \u201cCartilagem\u201d?<\/strong><br \/>\nA recep\u00e7\u00e3o est\u00e1 \u00f3tima, est\u00e1 maravilhosa. \u00c9 um disco do qual eu fiquei afastado durante um tempo, porque ele foi gravado em 2019. Eu tinha um pouco de d\u00favida se ele n\u00e3o nasceria meio antigo, j\u00e1, se as quest\u00f5es que estavam colocadas nele ou a sonoridade n\u00e3o teriam perdido o frescor, mas n\u00e3o. As pessoas est\u00e3o ouvindo, dando um retorno positivo e emocionado, estou feliz mesmo. E isso abre perspectivas para um planejamento de seguir tocando o barco, tocando a carreira adiante. Eu vou fazer shows em dezembro em Porto Alegre e Floripa, a\u00ed paro e tiro uma licen\u00e7a paternidade porque a minha filha vai nascer. E devo voltar, o planejamento \u00e9 voltar para os shows pelo menos no meio do ano que vem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que o disco n\u00e3o perde o frescor porque o momento do Brasil continua parecido.<\/strong><br \/>\nInfelizmente. Algu\u00e9m veio me dizer que o disco estava super atual \u2013 feliz e infelizmente, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se o resultado da elei\u00e7\u00e3o tivesse sido diferente, o disco seria recebido da mesma forma?<\/strong><br \/>\nAcho que ele bateria diferente, mas ainda faria sentido, porque ele foi composto em 2018, depois da vit\u00f3ria do Bolsonaro. Se o Bolsonaro ganhasse agora de novo, as quest\u00f5es continuariam as mesmas. E com o Lula ganhando, infelizmente as quest\u00f5es continuam as mesmas, porque isso por si s\u00f3 n\u00e3o muda tudo. \u00c9 assim que eu vejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em 2023, o \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d faz 10 anos, assim como o movimento de Junho de 2013 faz 10 anos. H\u00e1 quem acredite que esse movimento tenha sido uma esp\u00e9cie de ovo da serpente do que aconteceu a seguir. Qual \u00e9 o balan\u00e7o que voc\u00ea faz dessa d\u00e9cada \u2013 e claro, do significado daquele disco ao longo do tempo?<\/strong><br \/>\nPrimeiro de tudo: essa narrativa de que Junho de 2013 foi onde tudo come\u00e7ou \u00e9 uma narrativa bem simplificada, \u00e9 uma pregui\u00e7a de vis\u00e3o hist\u00f3rica que vem a calhar para alguns tipos de narrativas. Acho, inclusive, que se a oportunidade que aconteceu em 2013 fosse bem absorvida e bem trabalhada, no \u00e2mbito de governo federal, a gente poderia ter tido uma hist\u00f3ria diferente de l\u00e1 para c\u00e1. Vejo uma cultura muito mais narcisista do que h\u00e1 10 anos. Vejo uma tend\u00eancia da agressividade, da n\u00e3o toler\u00e2ncia e da falta de conviv\u00eancia com diferen\u00e7as mesmo. Vejo um Brasil que est\u00e1 tendo que lidar com dificuldades tremendas de um governo absurdo \u2013 porque o governo Bolsonaro \u00e9 um governo absurdo \u2013 e mesmo depois desse governo absurdo, ainda tem metade do Brasil que vota nele. E eu me pergunto porque isso est\u00e1 acontecendo. Se for pela l\u00f3gica do meu grupo social, o que mais aparece para mim nas redes sociais, \u00e9 simplesmente um absurdo: as pessoas s\u00e3o gado. Usa-se muito esse termo, \u201cgado\u201d. N\u00e3o \u00e9 gado: s\u00e3o pessoas que votam e tem seus porqu\u00eas de votar. \u00c9 muito complexo. Uma das coisas que nos leva a isso \u00e9 um bode generalizado de todo mundo com todo mundo, porque est\u00e1 todo mundo t\u00e1 a fim de apontar o dedo na cara de todo mundo. \u00c9 o que \u201cOnde Eu N\u00e3o Puder\u201d diz: eu quero poder falar, me expressar, trocar ideia, sem medo de errar uma palavra e ser execrado por causa disso. Acho que est\u00e1 todo mundo muito tenso, todo mundo se preocupando em fazer parte de um grupo para tentar se salvar. Muito numa onda de que, para se afirmar como sujeito que tem valor, voc\u00ea tem que desvalorizar os outros. Isso vai criando um clima social que leva ao bolsonarismo. Num momento em que a gente consegue s\u00f3 meter o dedo na cara dos outros, chamar os outros de ignorantes e um monte de coisa ruim, a fenda entre n\u00f3s se aprofunda. Os times se armam e a pol\u00edtica vira um Gre-Nal. Chega a ser meio uma caricatura infantil, a pol\u00edtica infantil\u00f3ide, ter dois grupos: os que se vestem de vermelho e fazem L com a m\u00e3o, e os que se vestem de verde amarelo e chamam o Bolsonaro de mito. Parece que estamos no jardim de inf\u00e2ncia, n\u00e3o \u00e9 nem na quinta s\u00e9rie. \u00c9 como ir num Gre-Nal, mas \u00e9 futebol, s\u00e3o dois times, com azul e vermelho, que se odeiam e se xingam. Pelo amor de deus: estamos em 2022, num pa\u00eds como o Brasil, rico, complexo para caralho e dif\u00edcil, cheio de maravilhas, uma caralhada de gente, um caldeir\u00e3o, e a gente vai se dividir desse jeito? E a\u00ed tem as palavrinhas certas para uns e para outros\u2026 \u00e9 o quadro que eu vejo, sabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Existe uma linha t\u00eanue entre fazer cr\u00edtica e colocar o dedo na cara da pessoa. E vou usar um caso de exemplo no qual a Apanhador S\u00f3 fez parte: o caso do Tom Z\u00e9 que culminou no \u201cTribunal do Feicebuqui\u201d, bastante comentado em uma entrevista que a banda concedeu ao Scream &amp; Yell em 2013. Muita gente na \u00e9poca disse que voc\u00eas n\u00e3o podiam criticar o Tom Z\u00e9, ou que aquilo foi um dedo na cara dele e que n\u00e3o valia a pena conversar com voc\u00eas. Como \u00e9 que voc\u00ea v\u00ea aquele epis\u00f3dio?<\/strong><br \/>\nAh, eu n\u00e3o faria aquelas cr\u00edticas da mesma forma hoje em dia. \u00c9 justamente esse tipo de mudan\u00e7a que aconteceu entre os dois discos. Era uma cr\u00edtica muito juvenil, muito purista. A vida \u00e9 mais complexa do que aquilo e o Tom Z\u00e9 \u00e9 muito maior do que uma propaganda para a Coca-Cola. Era um momento que os nervos estavam \u00e0 flor da pele, a gente estava com aquela postura, uma somat\u00f3ria de fatores. Mas tirando isso, eu diria que era uma cr\u00edtica bem boba e vazia, pelo menos da minha parte. Acho at\u00e9 que naquela \u00e9poca era mais eu que estava falando. Se eu pudesse, se fosse poss\u00edvel, eu voltaria e retiraria as minhas cr\u00edticas. Eu, Alexandre de 2022, parando na frente do Alexandre de 2013, diria que ele n\u00e3o sabe de nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Coca-Cola aparece na tua porta e te oferece uma grana para fazer propaganda. Voc\u00ea topa?<\/strong><br \/>\nNaquela \u00e9poca, eu diria n\u00e3o, certamente. Hoje? Olha\u2026 volta e meia algu\u00e9m me pergunta isso. Eu gostaria de saber quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es. Em troca do qu\u00ea? O que eles t\u00eam a oferecer \u00e9 dinheiro. Quero saber o que o Alexandre Kumpinski vale. Eu n\u00e3o estou valendo nada agora. Se a Coca bater na minha porta, vai oferecer o qu\u00ea? R$ 1 mil? R$ 2 mil? T\u00f4 aqui inventando um n\u00famero, mas vou dizer que n\u00e3o, claro. Lembro que na \u00e9poca o Tom Z\u00e9 ganhou, sei l\u00e1, R$ 80 mil? Lembro at\u00e9 de achar pouco, ficar meio puto at\u00e9 com isso: \u201cp\u00f4, o Tom Z\u00e9 tinha que ter ganhado mais!\u201d. Era uma cr\u00edtica boba, feita de uma forma agressiva, muito mais agressiva do que precisava e desconsiderando a complexidade da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Alexandre Kumpinski - Li\u0301quido Preto\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SulhRRcLC1o?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para fechar o cap\u00edtulo de 2013: com o fim da d\u00e9cada passada, \u00e9 comum que se fa\u00e7a \u2013 especialmente entre cr\u00edticos e jornalistas \u2013 uma s\u00e9rie de listas, de retrospectivas, de rankings dos melhores discos e bandas de uma \u00e9poca. Talvez voc\u00ea n\u00e3o ligue, mas voc\u00ea sente que a Apanhador S\u00f3 \u00e9 deixada de lado nesse tipo de discuss\u00e3o por conta do cancelamento?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o acompanho esse tipo de coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Meu exemplo \u00e9 a pr\u00f3pria lista do Scream &amp; Yell de melhores da d\u00e9cada, feita em 2020. O \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d foi disco do ano em 2013, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/01\/06\/os-50-discos-nacionais-dos-anos-10\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mas ficou fora do top 15 de discos nacionais<\/a> \u2013 e houve uma discuss\u00e3o em redes sociais, na \u00e9poca da lista, que poderia ter rolado um receio de se votar no disco por conta do cancelamento.<\/strong><br \/>\nBah. Vou te dizer que assim, \u00f3: se em 2022, ou 2020, que seja, as pessoas ainda est\u00e3o fomentando a cultura do cancelamento, \u00e9 porque elas n\u00e3o entenderam nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vamos voltar pro futuro. O \u201cCartilagem\u201d tem menos de 40 minutos de dura\u00e7\u00e3o, \u00e9 bem menos do que o tempo normal de um show solo. O que \u00e9 que vai ter no repert\u00f3rio do show para al\u00e9m do disco e de \u201cVulc\u00e3o\u201d, que \u00e9 um single que n\u00e3o entrou?<\/strong><br \/>\nAl\u00e9m do disco e de \u201cVulc\u00e3o\u201d, vai ter m\u00fasicas novas e v\u00e3o ter vers\u00f5es tamb\u00e9m de outras m\u00fasicas, tanto de compositores consagrados quanto de novos compositores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Apanhador S\u00f3 vai ter?<\/strong><br \/>\nSempre me pedem e eu n\u00e3o consigo negar (risos). A Apanhador S\u00f3 \u00e9 uma banda muito importante na vida de muita gente \u2013 e \u00e9 \u00f3bvio que quem vai no meu show solo sabe da hist\u00f3ria da Apanhador. As pessoas sabem da import\u00e2ncia que a banda tem na vida delas e n\u00e3o est\u00e3o a fim de deixar isso para tr\u00e1s. As pessoas pedem as m\u00fasicas. Eu toco, n\u00e3o tem porque n\u00e3o tocar. A Apanhador S\u00f3 n\u00e3o \u00e9 um cap\u00edtulo que eu queira esconder, n\u00e3o \u00e9 algo que eu queira deixar no passado. Muito pelo contr\u00e1rio: \u00e9 um projeto que me d\u00e1 muito orgulho. Sa\u00edmos de ser uma banda independente em Porto Alegre, sem o suporte de grandes gravadoras, estruturas ou produtoras. A gente foi do zero ao muito: teve muita gente trabalhando com a gente, mas n\u00e3o t\u00ednhamos nenhuma grande estrutura nos alavancando. O fato de ter rolado o cancelamento e ter tido que parar o projeto \u00e9 uma vergonha, diria que \u00e9 uma vergonha para n\u00f3s enquanto sociedade, mas n\u00e3o \u00e9 uma vergonha na minha vida. Eu carrego a Apanhador S\u00f3 junto comigo com o m\u00e1ximo de orgulho, \u00e9 a coisa mais legal que eu j\u00e1 fiz na minha vida. \u00c9 o projeto pelo qual eu dediquei mais tempo, mais energia na minha vida, e o que trouxe mais resultados. Eu toco m\u00fasicas da Apanhador se pedirem, com prazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m de voc\u00ea, quem te acompanha no palco?<\/strong><br \/>\nA base do show somos eu e o Bruno Neves, que \u00e9 um dos produtores do disco. Eu fazendo voz, viol\u00e3o\/guitarra e ele na MPC, largando programa\u00e7\u00f5es, samples e eventualmente tocando baixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sem sucata?<\/strong><br \/>\nPercuss\u00e3o de sucata n\u00e3o tem, mas tem alguns experimentos que eu fa\u00e7o. Tenho uma maleta de vinil e fa\u00e7o interfer\u00eancias no vinil, colocando um copo e crio caminhos no vinil com fita, fazendo loops anal\u00f3gicos. O vinil fica rolando e repetindo, virando um elemento do arranjo. Tem tamb\u00e9m uma maleta de vinil que eu acoplei um corpo de lanterna, \u00e9 uma haste com carga de caneta, ela gira e toca um instrumento ou objeto, \u00e9 um elemento de loop anal\u00f3gico, org\u00e2nico. Tem loop do pedal, a gente vai trabalhando com isso, loop anal\u00f3gico, loop digital, lan\u00e7ando samples eletr\u00f4nicos ou n\u00e3o, tem algumas grava\u00e7\u00f5es que s\u00e3o timbres anal\u00f3gicos e dispara na MPC, com isso a gente consegue uma gama bem ampla de possibilidades de arranjo e timbre com poucos elementos e pouca gente no palco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para fechar, a pergunta cl\u00e1ssica de jornalista: o \u201cCartilagem\u201d \u00e9 composto entre 2017 e 2019, gravado quase todo em 2020. J\u00e1 tem dois anos desse processo. Quando vem o pr\u00f3ximo disco?<\/strong><br \/>\n(risos). Olha, eu tenho muita m\u00fasica nova, mas n\u00e3o parei para analisar esse conjunto para ver se tem material para um \u00e1lbum. N\u00e3o estou preocupado com isso agora: estou dedicado ao lan\u00e7amento do disco, ao nascimento da minha filha, e depois vou me debru\u00e7ar sobre as quest\u00f5es do pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Radar | TVE - Kumpinski - 09\/12\/2019\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fCO6YM5AqPY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ou N\u00e3o - Gisele De Santi e Alexandre Kumpinski\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hD5IBqAVFw0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"SARAU EL\u00c9TRICO COME\u00c7OS E RECOME\u00c7OS com DIEGO GRANDO - canja: ALEXANDRE KUMPINSKI\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/nX46rycFbW0?start=4361&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Apanhador S\u00f3: NPR Music Field Recordings\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZhDnRcRml74?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Apanhador S\u00f3 no Cultura Livre\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ii_ozdBiRjU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Apanhador S\u00f3 no Cultura Livre (B\u00f4nus)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/x3Mi-d2YQak?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas)<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista. Apresenta o\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/indieeldorado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>, na Eldorado FM, e escreve a newsletter\u00a0<a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais<\/a>. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Uma longa entrevista que vai al\u00e9m do disco novo e da banda que o projetou, passando por temas como a sofistica\u00e7\u00e3o do funk, Jorge Drexler, Lula e Bolsonaro, m\u00e9todos de composi\u00e7\u00e3o e a vida de m\u00fasico independente no Brasil.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/02\/entrevista-alexandre-kumpinski-fala-sobre-seu-debute-solo-cartilagem-a-sofistificacao-do-funk-politica-apanhador-so-e-muito-mais\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":75148,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[6726,1145],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75142"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75142"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75142\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75226,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75142\/revisions\/75226"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75148"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75142"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75142"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75142"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}