{"id":75050,"date":"2023-05-29T01:37:04","date_gmt":"2023-05-29T04:37:04","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=75050"},"modified":"2023-07-13T00:30:03","modified_gmt":"2023-07-13T03:30:03","slug":"entrevista-ricardo-schott-conta-a-historia-do-terra-trio-em-livro-e-fala-sobre-seu-projeto-pessoal-o-pop-fantasma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/05\/29\/entrevista-ricardo-schott-conta-a-historia-do-terra-trio-em-livro-e-fala-sobre-seu-projeto-pessoal-o-pop-fantasma\/","title":{"rendered":"Entrevista: Ricardo Schott conta a hist\u00f3ria do Terra Trio em livro e fala sobre seu projeto pessoal, o Pop Fantasma"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 f\u00e1cil falar da m\u00fasica brasileira e pensar em seus gigantes \u2013 uma por\u00e7\u00e3o de nomes que, felizmente, passa muito longe de se resumir a uma contagem dos dedos das m\u00e3os e dos p\u00e9s. Mas a for\u00e7a da can\u00e7\u00e3o feita nesse pa\u00eds vai muito al\u00e9m desses grandes nomes, sendo tamb\u00e9m constru\u00edda por coadjuvantes, m\u00fasicos de apoio, letristas desconhecidos e produtores que ficam bem longe dos holofotes. \u00c0s vezes, \u00e9 feita at\u00e9 pela m\u00e3e dos m\u00fasicos, que oferece lanchinhos enquanto todo mundo ensaia. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria de \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/TERRA-TRIO-RICARDO-SCHOTT\/dp\/6588922000\/ref=sr_1_2?qid=1685332503&amp;refinements=p_27%3ARICARDO+SCHOTT&amp;s=books&amp;sr=1-2&amp;text=RICARDO+SCHOTT\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Terra Trio<\/a>\u201d, livro do jornalista Ricardo Schott.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ado pela editora Sonora neste primeiro semestre de 2023, o trabalho investiga a hist\u00f3ria do trio instrumental formado pelos irm\u00e3os Fernando Costa (bateria), Ricardo Costa (baixo) e Jos\u00e9 Maria Rocha, o Z\u00e9 Maria (piano), que lan\u00e7aram apenas um disco solo (&#8220;Terra a Vista&#8221;, de 1969), mas tocaram com um sem-n\u00famero de astros da MPB \u2013 juntos ou separados, eles estiveram nos palcos e em est\u00fadio com gente como Maria Beth\u00e2nia, Nara Le\u00e3o, Rosinha de Valen\u00e7a, Paulinho da Viola, Sidney Miller e muitos outros. Faltava, por\u00e9m, registrar essa trajet\u00f3ria em livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA hist\u00f3ria dessa turma tem que ser contada porque eles fizeram muita coisa que os cantores n\u00e3o poderiam ter feito sozinhos. A Beth\u00e2nia tem uma baita voz, mas ela chegou aonde chegou sendo ajudada por muitos m\u00fasicos\u201d, diz Schott, em entrevista ao Scream &amp; Yell realizada no in\u00edcio de mar\u00e7o. \u201cEscrever esse livro \u00e9 fazer justi\u00e7a. A ficha t\u00e9cnica hoje est\u00e1 sumindo, no streaming nem tem espa\u00e7o para isso, mas as pessoas precisam de cr\u00e9ditos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que apenas uma biografia do grupo, \u201cTerra Trio\u201d tamb\u00e9m \u00e9 a hist\u00f3ria de uma m\u00e3e dedicada \u2013 dona Emilia, a matriarca da fam\u00edlia, maior apoiadora da carreira do grupo. \u00c9 gra\u00e7as a ela tamb\u00e9m que se deve boa parte da pesquisa para o material: al\u00e9m de abrir sua casa para festas e ensaios dos filhos, dona Em\u00edlia tamb\u00e9m guardou toda sorte de recortes de jornais e revistas que envolvessem os filhos, em um \u00e1lbum que serviu de base para o trabalho de Schott.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com mais de duas d\u00e9cadas de carreira, Schott tem em \u201cTerra Trio\u201d apenas seu segundo livro \u2013 o primeiro, \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Her%C3%B3is-Guitarra-Brasileira-Leandro-Rodrigues\/dp\/8574074284\/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=ASFIIXBH08F4&amp;keywords=Her%C3%B3is+da+Guitarra+Brasileira&amp;qid=1685332720&amp;s=books&amp;sprefix=her%C3%B3is+da+guitarra+brasileira%2Cstripbooks%2C212&amp;sr=1-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Her\u00f3is da Guitarra Brasileira<\/a>\u201d, foi feito em parceria com Leandro Souto Maior (autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/24\/entrevista-leandro-souto-maior-fala-sobre-o-livro-jimmy-page-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jimmy Page no Brasil<\/a>\u201d) e saiu em 2014. Al\u00e9m disso, o jornalista tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel por textos enciclop\u00e9dicos em sites como <a href=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20030212051427\/http:\/\/www.discotecabasica.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Discoteca B\u00e1sica<\/a> (n\u00e3o confundir com o podcast) e <a href=\"https:\/\/popfantasma.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pop Fantasma<\/a>, que ajudaram muita gente a mergulhar na carreira de nomes conhecidos ou n\u00e3o \u2013 gra\u00e7as a ele, o entrevistador descobriu obras como as de Antonio Adolfo e a Brazuca, Guilherme Lamounier ou at\u00e9 mesmo ouviu\u2026 \u201cLondon Calling\u201d pela primeira vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista a seguir, Schott fala mais sobre a hist\u00f3ria do Terra Trio, conta detalhes sobre o processo de apura\u00e7\u00e3o (\u201cA Maria Beth\u00e2nia \u00e9 a voz mais bela que eu j\u00e1 ouvi num telefone\u201d, diz) e lista as li\u00e7\u00f5es que a trajet\u00f3ria do grupo pode ensinar a m\u00fasicos novatos e\/ou independentes. Ele tamb\u00e9m conta um pouco sobre o dia a dia do Pop Fantasma e do <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/52QfnG9xyazjz8cheL6W7o\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pop Fantasma Documento<\/a>, site e podcast que toca atualmente \u2013 com \u00f3timas hist\u00f3rias sobre \u201cfatias de vida\u201d de artistas e bandas, o programa de \u00e1udio foi um dos destaques do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/02\/08\/scream-yell-os-melhores-podcasts-de-2022\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Melhores do Ano 2022 do Scream &amp; Yell<\/a>. Ah, e ainda tem cinco discos para levar para a ilha deserta, viu? Com a palavra, Ricardo Schott.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-75054\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/terratrio.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/terratrio.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/terratrio-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como jornalista, acompanho o teu trabalho h\u00e1 muito tempo, talvez mais de duas d\u00e9cadas. Imagino que voc\u00ea tenha tido in\u00fameras ideias de livro ao longo da tua carreira. O que te fez decidir por come\u00e7ar contando essa hist\u00f3ria do Terra Trio?<\/strong><br \/>\nA hist\u00f3ria do Terra Trio entrou na minha vida por um convite do Marcelo Fr\u00f3es, s\u00f3cio da editora Sonora, e do Michel Jamel, que chegaram at\u00e9 mim por uma indica\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/12\/06\/entrevista-chris-fuscaldo-fala-da-garota-fm-books-editora-que-esta-lancando-livros-sobre-manoel-barenbein-os-discos-de-1979-e-muito-mais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Chris Fuscaldo, da editora Garota FM<\/a>. E a hist\u00f3ria do Terra Trio \u00e9 important\u00edssima, contar a hist\u00f3ria deles \u00e9 uma quest\u00e3o de justi\u00e7a. Eles tocaram com gente como a Maria Beth\u00e2nia, a Nara Le\u00e3o, a Marisa Gata Mansa, em uma \u00e9poca de grandes shows com estrutura de musical. \u00c9 uma est\u00e9tica que se v\u00ea em muitos shows de artistas pop l\u00e1 de fora: n\u00e3o h\u00e1 um roteiro escrito, mas um show que conta uma hist\u00f3ria com come\u00e7o, meio e fim. Foi uma est\u00e9tica que perdurou na m\u00fasica brasileira por muitos anos, como eram shows da Beth\u00e2nia naquela \u00e9poca, como o \u201cRosa dos Ventos\u201d e o \u201cA Cena Muda\u201d. Eram cria\u00e7\u00f5es de gente como Fauzi Arap e Herm\u00ednio Bello de Carvalho, que traziam influ\u00eancia do cinema e do teatro e faziam discursos em formas de show \u2013 na \u00e9poca da ditadura, em que n\u00e3o se podia discursar livremente, muita coisa passava pela m\u00fasica, pelas letras, por escolhas do cen\u00e1rio. O Terra Trio foi muito ativo nessa \u00e9poca, ajudando a criar essa est\u00e9tica, um misto entre o que era teatral e o que n\u00e3o era, era um h\u00edbrido \u2013 algo que a Beth\u00e2nia faz at\u00e9 hoje, mas que foi uma est\u00e9tica que vigorou aqui no Brasil, do show dirigido, em formato de temporadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Era um formato que a Elis Regina tamb\u00e9m usou muito, n\u00e9? \u201cFalso Brilhante\u201d e \u201cTransversal do Tempo\u201d s\u00e3o dois casos bem expl\u00edcitos disso&#8230;<\/strong><br \/>\nExatamente. O que eu vejo \u00e9 que quando a m\u00fasica brasileira foi se tornando mais pop, essa l\u00f3gica. foi se perdendo. Se voc\u00ea pensar na Rita Lee, at\u00e9 na Marisa Monte ou na Paula Toller, o lado pop foi pedindo uma certa urg\u00eancia na forma de fazer show, j\u00e1 havia necessidade de outro tipo de linguagem. N\u00e3o havia mais censura, o p\u00fablico era outro, os h\u00e1bitos foram modificados. Mas, voltando para o Terra Trio, \u00e9 importante falar deles porque eles s\u00e3o muito pouco comentados. Na maioria dos livros sobre m\u00fasica brasileira, eles s\u00e3o no m\u00e1ximo mencionados. Tem pouqu\u00edssimas entrevistas com eles em livros. Por outro lado, h\u00e1 essa sorte que poucas bandas t\u00eam de estar todo mundo vivo e l\u00facido, ent\u00e3o d\u00e1 para juntar todo mundo para bater um papo. Como definiu um amigo meu, \u00e9 que nem contar a hist\u00f3ria do Gato de Botas e ele estar no livro para dar um depoimento. No livro, eles contam a hist\u00f3ria deles, sendo que est\u00e3o em atividade at\u00e9 hoje \u2013 o Z\u00e9 Maria toca na noite, o Fernando d\u00e1 aula, o Ricardo \u00e9 baterista do Paulinho da Viola. E eles t\u00eam uma viv\u00eancia muito rica, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a do m\u00fasico criador, mas tamb\u00e9m a de oper\u00e1rios da m\u00fasica, tocando com todo mundo. \u00c9 algo na batuta do jazz: tem at\u00e9 um trecho do livro que eles falam que erram juntos. Se algu\u00e9m acertasse, o resto da banda ia errar, ent\u00e3o todo mundo errava junto pra n\u00e3o ficar diferente, eles entendiam um ao outro na respira\u00e7\u00e3o. Eu tenho outros projetos de livros, talvez algumas coisas de fic\u00e7\u00e3o \u2013 tem muita coisa guardada que eu nunca lancei. Tamb\u00e9m tem o \u201cHer\u00f3is da Guitarra Brasileira\u201d, que eu fiz com o Leandro Souto Maior, mas esse livro pintou pra mim e foi um presente. Era uma hist\u00f3ria que precisava ser contada e felizmente, eu pude contar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Maria Beth\u00e2nia e Terra Trio - TV Cultura 1969 - Re(Verso)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rrcpjKFX0C4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De um lado, voc\u00ea tinha poucos registros sobre a banda. Do outro, eles est\u00e3o vivos e l\u00facidos, contando as hist\u00f3rias, mas muitos fatos com um verniz de mem\u00f3ria de 40 ou 50 anos passados. Como foi o seu processo de apura\u00e7\u00e3o e checagem pro livro?<\/strong><br \/>\nTem muitos registros de \u00e9poca sobre o Terra Trio, o que n\u00e3o tem \u00e9 muita coisa em livro. Eu tive acesso a um material fenomenal que a m\u00e3e do Trio, a dona Em\u00edlia, tinha na casa dela. \u00c9 um \u00e1lbum cheio de recortes de jornal, resenhas, entrevistas, an\u00fancios de show, entrevistas com os artistas com quem eles tocavam. Nos anos 1960 e 1970, eles eram muito procurados pra falar da Beth\u00e2nia e da Nara Le\u00e3o. Na \u00e9poca, havia uma firma que se podia contratar, o Jornal de Recortes, que fazia uma esp\u00e9cie de clipping. A dona Em\u00edlia, uma g\u00eania, contratou essa firma para recortar tudo que sa\u00eda sobre eles. E esse material ficou todo guardado num \u00e1lbum de recortes l\u00e1 em Ipanema. Eu at\u00e9 perguntei para o Z\u00e9 Maria como \u00e9 que isso tinha sido conservado, porque Ipanema tem maresia, tudo corr\u00f3i\u2026 e ele falou que era guardado do jeito mais esculhambado o poss\u00edvel, mas milagrosamente o material t\u00e1 \u00f3timo. Nem tem marca de dedo, mas \u00e9 milagre. T\u00e1 tudo muito bem conservado.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Apanhei-Te Cavaquinho\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1qM-yqlfbm0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que maravilha isso! Eu imagino que voc\u00ea tenha horas de entrevistas com o trio, mas com quem mais voc\u00ea conversou? Tem alguma hist\u00f3ria boa de entrevista?<\/strong><br \/>\nEu queria muito ter conversado com o Chico Buarque e com o Caetano, mas n\u00e3o deu tempo \u2013 eram entrevistas que iam atrasar o processo todo. Mas falei com a C\u00e9lia Vaz, que teve banda com os irm\u00e3os, falei com a Sueli Costa, com o Martinho da Vila, e consegui falar com a Beth\u00e2nia rapidamente. Foi uma conversa muito adiada, e que eu queria que rolasse pessoalmente, mas foi por telefone. Lembro que no dia do papo com ela eu nem sabia direito a hora, s\u00f3 sabia que iam me ligar num n\u00famero tal \u2013 precisei pegar folga no jornal que eu trabalhava e fiquei em casa o dia todo, mas foi um papo bem elucidativo. A Maria Beth\u00e2nia \u00e9 a voz mais bela que eu j\u00e1 ouvi num telefone. Ela fez esclarecimentos bem importantes, mostrou muito carinho por eles. Al\u00e9m disso, eu falei horas e horas com o Herm\u00ednio Bello de Carvalho na casa dele em Botafogo e foi um papo emocionante. Para quem for pesquisar sobre m\u00fasica brasileira, d\u00e1 um jeito de falar com ele. Ele \u00e9 um cara humilde, tranquilo, que fala muita coisa e tem muita hist\u00f3ria para contar, al\u00e9m de muito material. Ele vai falar horas de causos engra\u00e7ados, coisas que ele lembra, coisas que ele viu, hist\u00f3rias de amigos, tudo de uma maneira muito cordial, muito carinhosa mesmo. Eu passei uma tarde na casa dele e sa\u00ed de l\u00e1 achando que n\u00e3o era mais a mesma pessoa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Recital Na Boite Barroco\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_nUYudREfgfMxW9coUGx2mM1j4KgCa0MQ0\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A ind\u00fastria da m\u00fasica no Brasil trata muito mal quem est\u00e1 nos bastidores, nas letras mi\u00fadas das fichas t\u00e9cnicas. D\u00e1 para fazer uma cole\u00e7\u00e3o de livros s\u00f3 sobre os grupos de apoio, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nAcho que d\u00e1, e acho que isso \u00e9 fazer justi\u00e7a. A ficha t\u00e9cnica hoje est\u00e1 sumindo, no streaming nem tem espa\u00e7o, mas as pessoas precisam de cr\u00e9ditos. Cabe ao m\u00fasico apresentar todo mundo, porque as poucas r\u00e1dios que ainda mostram novidades tamb\u00e9m n\u00e3o falam, \u00e9 bem complicado mesmo. A hist\u00f3ria dessa turma tem que ser contada porque eles fizeram muita coisa que os cantores n\u00e3o poderiam ter feito sozinhos. A Beth\u00e2nia tem uma baita voz, mas ela chegou aonde chegou sendo ajudada por muitos m\u00fasicos. Depois de determinado momento, existia o cantautor, o cara que se segura na voz e viol\u00e3o, mas mesmo essa turma n\u00e3o \u00e9 independente [dos m\u00fasicos]. Mas [cantoras como] a Beth\u00e2nia, a Gal, a Elis, elas viviam sob o signo dos grandes espet\u00e1culos, de [ter o apoio de] uma puta banda. E eu fiquei impressionado, por exemplo, com a rela\u00e7\u00e3o do Terra Trio com a hist\u00f3ria da tecnologia de show no Brasil, do jeito de microfonar ou usar luz. A ideia original do Fauzi Arap no primeiro show do Terra Trio com a Beth\u00e2nia \u00e9 que nem tivesse microfone. Ele vem de uma forma\u00e7\u00e3o teatral e achava que o som se seguraria s\u00f3 com a ac\u00fastica do teatro, e eles falaram que n\u00e3o ia dar. Por outro lado, o Herm\u00ednio Bello de Carvalho contou que o Fauzi colocou poucas luzes, mas o pouco que ele colocou parecia que eram 200 luzes. Ele sabia como iluminar bem o espa\u00e7o com pouca coisa. S\u00e3o li\u00e7\u00f5es de como se virar, evitar problemas com equipamento que n\u00e3o era bom, hist\u00f3rias que servem de li\u00e7\u00e3o para jovens produtores, para quem t\u00e1 come\u00e7ando a tocar e produzir. \u00c9 importante que isso seja contado, porque \u00e9 tamb\u00e9m mem\u00f3ria de tecnologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em tempos que a gente vive hoje, em que h\u00e1 tecnologia mas n\u00e3o h\u00e1 muitos recursos, a quantidade de artistas independentes que podem aprender com essas li\u00e7\u00f5es \u00e9 enorme\u2026<\/strong><br \/>\nExatamente. Naquela \u00e9poca, o pessoal se virava com o que podia, os m\u00fasicos mesmos batiam na porta das empresas para pedir patroc\u00ednio: eles montavam guarda e n\u00e3o queriam nem saber, ficavam de guarda ou ligavam o dia todo. Naqueles tempos do Beco das Garrafas, onde se formaram os m\u00fasicos de jazz e bossa do Brasil, se fazia cen\u00e1rio de show com copo de pl\u00e1stico \u2013 e aquilo virava um monstro. Essa no\u00e7\u00e3o de \u201cvira\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 muito importante para todo mundo.]<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Terra Trio\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PL3M6mGqCRZBP2gb92RfytE3c7jWaB51F-\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Apesar de ter sido lan\u00e7ado em 2023, o livro do Terra Trio n\u00e3o foi escrito agora, mas sim antes da pandemia. Como foi esse caminho tortuoso at\u00e9 o lan\u00e7amento?<\/strong><br \/>\nPois \u00e9, a pandemia foi um neg\u00f3cio, nem tem nem o que falar. O livro acabou atrasando: ele foi feito entre 2017 e 2018, era para ter sido algo r\u00e1pido. Lembro que fiz a apura\u00e7\u00e3o toda e escrevi em um per\u00edodo de meses, o lance de procurar a Beth\u00e3nia para conversar tamb\u00e9m acabou atrasando um pouco as coisas. No meio do processo, minha m\u00e3e morreu, e eu pedi um tempo para a editora. N\u00e3o dava para eu escrever um livro que tinha uma m\u00e3e como personagem principal nesse momento, n\u00e3o dava. O livro foi inclusive dedicado a ela, mas eu precisei de um tempo. E \u00e9 curioso: eu estava na metade da escrita do livro e me dei conta de que n\u00e3o conhecia o rosto da dona Em\u00edlia, comentei isso com eles inclusive. Eles quiseram me mandar uma foto e eu disse que n\u00e3o queria \u2013 preferia passar o livro inteiro imaginando o rosto dela. Tentei na minha mente juntar o rosto dos tr\u00eas, imaginei ela loira, com tra\u00e7os espec\u00edficos. No fim das contas, eu vi uma foto dela, \u00e9 uma mistura deles, mas n\u00e3o \u00e9 nada do que eu imaginava. J\u00e1 o pai deles \u00e9 muito parecido com o Fernando, mas o rosto da dona Em\u00edlia \u00e9 uma mistura. Enfim, voltando ao livro em si: os atrasos acontecem, teve a pandemia, todo mundo viu o que o governo Bolsonaro foi para a cultura \u2013 estamos pagando a conta e ainda vamos pagar por um tempo. Por outro lado, acho que o livro saiu na hora certa, num momento que as pessoas est\u00e3o querendo ler muito sobre m\u00fasica brasileira, recentemente saiu muita coisa sobre MPB em livro. O livro do Terra Trio vem para somar, e vai se encaixar numa biblioteca em que a pessoa tamb\u00e9m pode pegar <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/22\/tres-perguntas-o-jornalista-renato-vieira-fala-sobre-o-livro-que-homenageia-o-produtor-manoel-barenbein\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o livro do Renato Vieira sobre o Manoel Bareinbein<\/a> ou o livro da Chris Fuscaldo sobre o Belchior, s\u00e3o hist\u00f3rias que se cruzam, uma coisa complementa a outra. O livro saiu numa hora muito certa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem outros projetos de livro?<\/strong><br \/>\nTenho, mas n\u00e3o sobre m\u00fasica brasileira. Tenho o projeto de um livro sobre o Pop Fantasma, uma colet\u00e2nea do site. N\u00e3o sei quando vai sair isso. Tamb\u00e9m tenho vontade de escrever um livro para jornalistas falando sobre a minha experi\u00eancia ao criar o site. N\u00e3o acho que o Pop Fantasma seja um case de sucesso, acho que \u00e9 um site guerreiro, que n\u00e3o tem tantas visitas quanto deveria ter. Tudo que eu fa\u00e7o ali \u00e9 na base do \u201cp\u00f4, gostei, vou fazer\u201d \u2013 o que faz com que num momento eu fale de reality shows ou novela e no outro momento sobre bandas que ningu\u00e9m conhece. De repente, escrever alguma coisa falando sobre o processo de criar o site, sobre podcasts\u2026 eu queria muito inclusive ser chamado para falar sobre podcasts, que \u00e9 a experi\u00eancia de fazer o Pop Fantasma Documento \u00e9 muito enriquecedora. Fazer roteiro para ser lido em r\u00e1dio, saber o que falar para o outro te ouvir, isso \u00e9 maravilhoso.<\/p>\n<p>\u00a0<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-75062 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/popfantasma.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/popfantasma.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/popfantasma-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vamos falar um pouco mais sobre o podcast, que tem uma escolha curiosa: ele n\u00e3o fala de discos, mas de fases dos artistas. Como \u00e9 isso?<\/strong><br \/>\n\u00c9 um conceito que o pessoal do universo de roteiro fala muito: s\u00e3o fatias de vida. Ent\u00e3o, enquanto estou fazendo roteiro de podcast, penso numa fatia de vida do personagem. Estou olhando aqui para os Tit\u00e3s, vai ter um podcast sobre os Tit\u00e3s nos anos 1990. Mais especificamente, sobre como era a vida dos Tit\u00e3s nessa \u00e9poca, sendo uma banda pop e fazendo um som pesado, num per\u00edodo que o rock brasileiro n\u00e3o tinha acontecido direito? O rock brasileiro dos anos 1990 s\u00f3 vai acontecer com os Raimundos, em 1994, que foi a banda que fez todo mundo perceber que ainda tinha rock sendo feito no Brasil. No caso dos Tit\u00e3s, j\u00e1 entrevistei eles muitas vezes, ent\u00e3o tem essa riqueza. Fiz agora, na \u00faltima temporada, alguns epis\u00f3dios do podcast sobre bandas que acho boas pra caramba, mas que ningu\u00e9m ouviu falar direito, ou ningu\u00e9m liga, <a href=\"https:\/\/popfantasma.com.br\/no-nosso-podcast-tudo-que-voce-sabe-nao-sabe-e-deveria-saber-sobre-o-japan\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">como o Japan<\/a>. Era uma banda muito mal amada na \u00e9poca deles, todo mundo achava a cara do Roxy Music, o David Sylvian ficava puto. \u00c9 uma banda tida como imita\u00e7\u00e3o, mas que eu vejo como uma banda super original. E \u00e9 engra\u00e7ado, porque o Sylvian queria criar uma coisa super nova, mas n\u00e3o dava certo e ele n\u00e3o entendia porque n\u00e3o dava certo. Nossa vida \u00e9 assim: no dia a dia a gente fica tentando fazer uma coisa diferente e vendo que n\u00e3o deu certo. Muito tempo depois voc\u00ea entende porque n\u00e3o deu certo, \u00e9 preciso dar valor pra isso. A\u00ed voc\u00ea aprende e faz o que d\u00e1 certo, vai fazer bem, \u00e9 um aprendizado para todo mundo. Tem muito isso na hist\u00f3ria das bandas, como Japan, Ultravox, Depeche Mode\u2026 n\u00e3o \u00e9 todo mundo que d\u00e1 certo de pronto, como o Led Zeppelin. <a href=\"https:\/\/popfantasma.com.br\/o-1972-do-led-zeppelin-no-podcast-do-pop-fantasma\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eu fiz um epis\u00f3dio sobre o Led Zeppelin em 1972<\/a>, inclusive: \u00e9 um ano engra\u00e7ado, porque o Led n\u00e3o lan\u00e7ou disco, mas foi um ano definitivo para eles. Eles mudaram toda a escrita da hist\u00f3ria de shows com royalties alt\u00edssimos que o Peter Grant, empres\u00e1rio deles, passou a pedir. As pessoas iam pagar porque era o Led Zeppelin. Os Rolling Stones tinham tentado fazer isso antes e n\u00e3o tinha dado certo, mas com o Led Zeppelin deu, porque todo mundo queria ouvir e era uma banda que quase n\u00e3o dava show, n\u00e3o dava entrevista, n\u00e3o aparecia na TV. Foi um ano bem importante, e olha que quase saiu o \u201cHouses of the Holy\u201d, s\u00f3 n\u00e3o saiu porque teve problema com a capa. A capa era para ter sido uma raquete, mas o Jimmy Page n\u00e3o gostou, criou encrenca com o Storm Thorgerson, da Hipgnosis, que era a empresa que fazia todas as capas da \u00e9poca. Enfim, para mim tem sido uma descoberta muito grande poder mostrar fases da vida dessa turma para todo mundo. Esse ano deve ter mais hip hop no podcast, uma coisa que muita gente sente falta, deve ter mais m\u00fasica brasileira, talvez Caetano ou Gal, quem sabe.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/popfantasma.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m do Pop Fantasma e do podcast, o que mais Ricardo Schott tem feito? Como est\u00e1 a vida?<\/strong><br \/>\nA vida est\u00e1 bem braba, cara. Eu estou sempre procurando coisas para fazer, vida de jornalista. Sempre procurando frilas. O podcast tem um crowdfunding, e eu acho que as pessoas que apoiam o crowdfunding se sentem meio abandonadas. Eu entendo \u2013 e se o cara quiser ficar um pouquinho e sair, eu n\u00e3o julgo. Porque n\u00e3o tenho tempo de oferecer mais coisa, esse ano v\u00e3o ter mudan\u00e7as, vou repensar isso ainda. Estava fazendo um podcast exclusivo para quem apoia, mas vou repensar: esse ano, felizmente tive muita coisa para fazer, e acabei n\u00e3o podendo fazer o podcast com a aten\u00e7\u00e3o que eu deveria. Esse ano deve voltar, mas n\u00e3o deve ser semanal, estou pensando nessas novidades. Eu poderia fazer um podcast mensal, mas n\u00e3o quero, quero fazer semanal. Com apoio de quem ouve fica mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o arquivo do Discoteca B\u00e1sica, hein?<\/strong><br \/>\nVou te falar que o arquivo do Discoteca B\u00e1sica eu nem sei onde est\u00e1, deve ter uns CD-ROMs guardados aqui em casa. Vou te dizer que, da \u00faltima vez que olhei esses textos, achei que daria para aproveitar muita coisa. Mas vou te falar que tamb\u00e9m tem muita coisa ali que eu mudaria, reescreveria\u2026 tem muita coisa que eu escrevi com os preconceitos e o machismo que eu tinha naquela \u00e9poca. Valeria a pena revisitar, desde que eu modificasse, desde que eu pudesse editar, de mudar o que poderia ser engra\u00e7ado em 2002 e n\u00e3o \u00e9 mais em 2023. Tem muita coisa que leio hoje que eu n\u00e3o escreveria mais. Hoje, tenho um n\u00edvel de preocupa\u00e7\u00e3o diferente com o leitor, de que ele leia algo que tenha informa\u00e7\u00e3o, emo\u00e7\u00e3o e que ele possa levar algo para a vida dele. Tanto que tem uma \u00e1rea que eu trato com muito cuidado no podcast, que eu chamo de Conselhos do He-Man, como os conselhos do final do desenho. Por exemplo, no epis\u00f3dio do Velvet Underground, eu lembro que quem quiser ter uma banda como o Velvet tem que lembrar que o Lou Reed era maluco, um l\u00edder narcisista, tem que tomar cuidado com certas coisas. Por outro lado, acho que essa tens\u00e3o de ter muita briga, choque de ego, uma despirocada ou outra, isso faz parte de qualquer processo de cria\u00e7\u00e3o. O Iggy Pop \u00e9 quem ele \u00e9 hoje porque ele era doid\u00e3o, claro. Mas \u00e9 importante prestar aten\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o tento meio que mostrar algo que qualquer um possa levar para sua vida. Quando eu tava fazendo o podcast do J\u00fapiter Ma\u00e7\u00e3, fiquei impressionado: ele n\u00e3o estava nem a\u00ed para nada, n\u00e3o ligava para o que pensavam dele. Estava lendo o livro do Cristiano Bastos, vendo entrevistas antigas, e ele fazia o que ele queria, era aquela coisa da alma pura mesmo, sabe? Isso \u00e0s vezes trazia problemas para ele, como quando ele decidiu do nada ser J\u00fapiter Apple e fazer \u201cspace bossa nova\u201d, os m\u00fasicos ficaram putos e reclamaram, a\u00ed ele decidiu largar todo mundo e ficar sozinho. \u00c9 o que eu costumo falar: quando voc\u00ea admira um artista, \u00e9 importante hackear algumas coisas da vida dele para voc\u00ea, entender como ele produziu, como ele encarava a arte dele. Sempre tem algo que voc\u00ea pode aprender, mesmo que voc\u00ea n\u00e3o seja m\u00fasico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Discoteca B\u00e1sica foi important\u00edssimo demais na minha forma\u00e7\u00e3o, seja com coisas mais obscuras, como Antonio Adolfo, ou Guilherme Lamounier\u2026<\/strong><br \/>\nO Guilherme Lamounier foi uma descoberta incr\u00edvel, fico feliz que tem muita gente que descobriu esse disco comigo. O Lamounier \u00e9 um cara que precisa ser muito reverenciado. Eu sou amigo da M\u00e1rcia Weber, a vi\u00fava dele, e sei que o final da vida dele foi de dificuldades. Nunca cheguei a me aproximar dele, mantive dist\u00e2ncia, ele tamb\u00e9m era um cara que n\u00e3o queria aparecer muito. Tem gente at\u00e9 que me pergunta se eu conversei com ele, ele j\u00e1 mandou recados para mim agradecendo textos, mandou CD autografado uma vez, mas nunca cheguei a ter contato. Com certas pessoas, fico feliz em manter uma dist\u00e2ncia respeitosa. N\u00e3o tenho nada contra elas, mas acho que \u00e9 uma quest\u00e3o da imagem na cabe\u00e7a, de se aproximar no m\u00e1ximo num n\u00edvel muito profissional. Recentemente eu falei do Celso Zambel, um m\u00fasico paulistano que gravou um \u00fanico disco pela Som Livre em 1979, o disco \u00e9 um ovni, uma mistura de Arnaldo Baptista e Lou Reed, s\u00f3 ele e o Andr\u00e9 Geraissati tocando. O Celso virou meu amigo, a gente se fala sempre, mas o Celso \u00e9 um cara muito tranquilo, me senti seguro em me aproximar dele. Mas ele \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o, de modo geral, sou um cara t\u00edmido, \u00e9 dif\u00edcil me aproximar tanto de algu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 aquela dist\u00e2ncia do jornalista, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nTem isso tamb\u00e9m. \u00c9 bom voc\u00ea guardar um pouco\u2026 tamb\u00e9m depende muito, n\u00e9? Eu estava conversando com uma amiga minha sobre esses podcasts que tem hoje, de cinco, seis horas, tem meio essa coisa de voc\u00ea criar um clima para que o entrevistado fale coisas pra voc\u00ea que n\u00e3o falaria para a m\u00e3e dele. Eu j\u00e1 tive isso em alguns momentos de entrevistas, de repente estou conversando com um cara que eu crio um clima t\u00e3o bom e ele conta algo que ele nunca contou, isso vira um furo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Animal. Mas \u00e9 isso, o Discoteca B\u00e1sica foi muito importante pra mim. Acho que eu ouvi o \u201cLondon Calling\u201d pela primeira vez por causa de um texto teu.<\/strong><br \/>\nQue legal isso. \u00c9 bem foda voc\u00ea falar dele porque o \u201cLondon Calling\u201d para mim \u00e9 um manual. Ele e o \u201cDark Side of the Moon\u201d s\u00e3o discos como manuais, de m\u00fasica brasileira muitos discos do Gilberto Gil, do Caetano, do Raul e da Rita Lee tem esse papel. Eu ouvi o \u201cLondon Calling\u201d quando tinha 12 anos de idade e eu n\u00e3o sabia uma palavra de ingl\u00eas. Com o tempo, adquiri conhecimento e fui entendendo as letras, fui percebendo o quanto esse disco \u00e9 pol\u00edtico, que \u00e9 algo que voc\u00ea pode ouvir em qualquer fase da sua vida e aquilo vai bater em voc\u00ea, vai falar com as suas inseguran\u00e7as, os problemas que voc\u00ea tem naquele momento. O \u201cHunky Dory\u201d, do David Bowie, o \u201cZiggy Stardust\u201d, tamb\u00e9m s\u00e3o dois manuais pra mim \u2013 e dois discos que eu ouvi sem entender ingl\u00eas. Quando aprendi a l\u00edngua e fui ouvir de novo, percebi que tinha entendido tudo do \u201cZiggy Stardust\u201d. Sabe? \u00c9 engra\u00e7ado: eu n\u00e3o sabia o que aquilo queria dizer mas tinha entendido direitinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Schott, pra gente fechar: cinco discos para a ilha deserta?<\/strong><br \/>\nEssa pergunta \u00e9 complicada porque os meus discos sempre mudam! Cara, eu t\u00f4 muito viciado no disco que a Demi Lovato lan\u00e7ou no ano passado, o \u201cHoly Fvck\u201d. Acho que \u00e9 uma coisa que ningu\u00e9m imaginaria que eu escutaria, algo t\u00e3o pop. Pois \u00e9, mas eu t\u00f4 ouvindo para caramba esse disco. Eu tenho um gosto musical que pega coisas pop. Se eu fosse pensar no meu passado, eu teria que levar o \u201cZiggy Stardust\u201d. Outro \u00e9 de uma banda que nem \u00e9 das minhas preferidas, acho que eles tem v\u00e1rias can\u00e7\u00f5es que s\u00e3o espa\u00e7o desperdi\u00e7ado, mas eu levaria com certeza pra ilha deserta o \u201cCountry Life\u201d, do Roxy Music, \u00e9 um disco perfeito. T\u00f4 escutando bastante o primeiro disco solo do Tom Verlaine, que \u00e9 um disco incr\u00edvel, acho que chama s\u00f3 \u201cTom Verlaine\u201d, eu j\u00e1 vinha ouvindo bastante antes dele morrer. E pra fechar, eu voltei a ouvir recentemente o \u201cDark Side of the Moon\u201d&#8230; o Pink Floyd \u00e9 muito louco. Eu queria muito ser o Pink Floyd! \u00c9 s\u00e9rio: n\u00e3o importa o que aconte\u00e7a, n\u00e3o importa o ano, acho que daqui a cem anos algu\u00e9m vai falar do Pink Floyd \u2013 e eles v\u00e3o dar um jeito de voltar e estar por ali. Fico impressionado com essa banda: \u00e9 um projeto que os caras n\u00e3o se exp\u00f5em tanto, davam entrevista quando queriam, e ao mesmo tempo, \u00e9 uma coisa cabe\u00e7uda mas vende disco pra caramba. Eles conseguiram pegar na veia das pessoas que poucos artistas conseguiram. \u00c9 uma magia, eu queria ser o Pink Floyd.<\/p>\n<figure id=\"attachment_75053\" aria-describedby=\"caption-attachment-75053\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-75053\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/schott.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/schott.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/schott-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-75053\" class=\"wp-caption-text\"><em>Ricardo Schott<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas)<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista. Apresenta o\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/indieeldorado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>, na Eldorado FM, e escreve a newsletter\u00a0<a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais<\/a>. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Lan\u00e7ado pela editora Sonora neste primeiro semestre de 2023, o trabalho investiga a hist\u00f3ria do trio instrumental formado pelos irm\u00e3os Fernando Costa (bateria), Ricardo Costa (baixo) e Jos\u00e9 Maria Rocha, o Z\u00e9 Maria (piano)&#8230;.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/05\/29\/entrevista-ricardo-schott-conta-a-historia-do-terra-trio-em-livro-e-fala-sobre-seu-projeto-pessoal-o-pop-fantasma\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":75057,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,3],"tags":[6719],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75050"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75050"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75050\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75065,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75050\/revisions\/75065"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75057"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75050"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75050"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75050"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}