{"id":74993,"date":"2022-11-03T02:05:00","date_gmt":"2022-11-03T05:05:00","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=74993"},"modified":"2023-05-24T02:19:22","modified_gmt":"2023-05-24T05:19:22","slug":"literatura-a-casa-de-doces-de-jennifer-egan-e-muito-black-mirror","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/11\/03\/literatura-a-casa-de-doces-de-jennifer-egan-e-muito-black-mirror\/","title":{"rendered":"Literatura: &#8220;A Casa de Doces&#8221;, de Jennifer Egan, \u00e9 muito Black Mirror"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-74995 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/acasa1.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/acasa1.jpg 347w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/acasa1-208x300.jpg 208w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco mais de dez anos atr\u00e1s, Jennifer Egan sacudiu o mundo (pop e acad\u00eamico) liter\u00e1rio com &#8220;A visita cruel do tempo&#8221;, trama deliciosamente extravagante e rock \u2018n\u2019 roll que pode tanto ser vista como um romance quanto como uma sele\u00e7\u00e3o inebriante de contos interligados mas estilisticamente diversos, da qual fazia parte um cap\u00edtulo em forma de perfil\/entrevista para uma revista e outro todo apresentado em slides de PowerPoint. O livro que rendeu a Egan o Pulitzer e o National Book Critics Circle Award de Fic\u00e7\u00e3o ganha, agora, n\u00e3o uma sequ\u00eancia, mas um irm\u00e3o, pois, mais do que seguir com a hist\u00f3ria anterior, &#8220;A casa de doces&#8221; (2022) amplifica a lista de personagens (retomando alguns de &#8220;A visita cruel do tempo&#8221;), enquanto se debru\u00e7a sobre quest\u00f5es caras do mundo moderno, tais como privacidade, tecnologia e autenticidade num cotidiano cada vez mais digital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o entre real e virtual \u00e9 um dos pontos marcantes de &#8220;A casa de doces&#8221;, pois um de seus personagens centrais, Bix Bouton (colega de faculdade de Sasha em &#8220;A visita cruel do tempo&#8221;), desfila nas p\u00e1ginas como um Mark Zuckerberg estiloso, criador n\u00e3o s\u00f3 da Mandala, uma esp\u00e9cie de Facebook, s\u00f3 que com um twist inovador: os usu\u00e1rios podem armazenar suas mem\u00f3rias e compartilh\u00e1-las com toda a rede em um banco de dados poss\u00edvel de ser acessado por qualquer um. A consci\u00eancia coletiva permitir\u00e1 que muitos usu\u00e1rios reconstruam lembran\u00e7as e fatos passados, mas n\u00e3o \u00e9 preciso pensar muito para chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que uma ferramenta como essa pode se tornar um objeto de manipula\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os erradas \u2013 ainda que, talvez, pudesse facilitar as consultas de terapia expostas em &#8220;A visita cruel do tempo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, &#8220;A casa de doces&#8221; flerta levemente com o mundo surreal de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/01\/02\/a-temporada-4-de-black-mirror\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Black Mirror,<\/a> uma s\u00e9rie cuja caracter\u00edstica principal \u00e9 questionar com voracidade o poder incontrol\u00e1vel da tecnologia. Se em \u201cThe Entire History of You\u201d, epis\u00f3dio lan\u00e7ado um ano depois de &#8220;A visita cruel do tempo&#8221;, as pessoas implantam um \u201cchip\u201d atr\u00e1s da orelha que lhes permite gravar tudo o que veem e ouvem, com a op\u00e7\u00e3o de reproduzir suas mem\u00f3rias diretamente nos olhos ou em um monitor de v\u00eddeo, em &#8220;A casa de doces&#8221; h\u00e1 o Domine Seu Inconsciente, que tanto poderia ser utilizado para quest\u00f5es pessoais (\u201cQuem era aquele menino que me bateu? Por onde anda aquele professor que me tocou? Quem matou meu amigo?\u201d Ou, sendo mais otimista: \u201cQuem fez aquela massagem nas minhas costas no show do Green Day?\u201d) quanto para que empresas conhe\u00e7am profundamente seu p\u00fablico e produzam produtos espec\u00edficos \u2013 algo como se coment\u00e1ssemos sobre uma determinada marca, e, do nada, f\u00f4ssemos \u201cbombardeados\u201d por propagandas em nossas redes sociais (j\u00e1 aconteceu com voc\u00ea, caro leitor?).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 de se esperar com cria\u00e7\u00f5es inovadoras do tipo de Domine Seu Inconsciente, sempre existir\u00e3o pessoas na contram\u00e3o, que n\u00e3o apenas ir\u00e3o se recusar a participar desse projeto \u201cmanipulativo\u201d, como tamb\u00e9m se tornar\u00e3o soldados numa guerrilha que tentar\u00e1 nublar os dados da rede de maneira a tornar os resultados mais confusos poss\u00edveis. Essa \u00e9 outra premissa explorada em Black Mirror, e que Jennifer Egan aprofunda com per\u00edcia em &#8220;A casa de doces&#8221; atrav\u00e9s da Mondrian, uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos com sede em S\u00e3o Francisco que administra perfis como forma de esconder da realidade que o ocupante original de uma identidade a deixou, para confundir os dados da Mandala. &#8220;A casa de doces&#8221; ainda traz um cap\u00edtulo sobre espionagem (escrito em tweets!) e outro sobre uma personagem que, muito incomodada, busca uma maneira de verificar se n\u00e3o h\u00e1 nenhum objeto (tal qual um chip) implantado em seu corpo que o utilize para espionar outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que isso tudo seja \u201cmuito Black Mirror\u201d (e tamb\u00e9m &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/01\/06\/cinema-matrix-resurrections-de-lana-wachowski\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Matrix Resurrections<\/a>&#8220;), &#8220;A casa de doces&#8221; tamb\u00e9m pincela temas \u201cmundanos\u201d como amor, reden\u00e7\u00e3o, v\u00edcio e a maneira que lidamos com o passado \u2013 algo que &#8220;A visita cruel do tempo&#8221; tamb\u00e9m colocava em discuss\u00e3o \u2013, al\u00e9m de falar sobre a necessidade de desempenharmos um papel na sociedade na era da superexposi\u00e7\u00e3o social. Sobre como vem da\u00ed uma sensa\u00e7\u00e3o que fragmenta em centenas de milhares de pedacinhos tudo o que somos na busca do que queremos ser (ou do que achamos que querem que a gente seja). Replicamos certos padr\u00f5es de comportamento para muitas vezes aparentar algo que n\u00e3o somos, imersos em uma teia delicada e confusa que diz mais sobre o mundo que vivemos do que sobre n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que qualquer outra coisa, por\u00e9m, &#8220;A casa de doces&#8221; busca deixar claro que, seja no mundo real, seja no virtual, n\u00e3o existe almo\u00e7o gr\u00e1tis. O surgimento do Napster e o compartilhamento de MP3 via redes p2p \u2013 atividades que mudaram completamente a rela\u00e7\u00e3o das pessoas com a m\u00fasica e desmoronaram o imp\u00e9rio constru\u00eddo por Lou Kline, um magnata da ind\u00fastria musical presente tanto em &#8220;A visita cruel do tempo&#8221; quanto em &#8220;A casa de doces&#8221;, cuja fam\u00edlia, que inclui a esposa Miranda e as filhas Roxy, Lana e Melora, ser\u00e1 bastante atuante nas p\u00e1ginas do novo livro \u2013 marca tamb\u00e9m o momento em que o benef\u00edcio imediato da m\u00fasica gratuita surge em detrimento da privacidade do usu\u00e1rio, validando a frase: \u201cNunca confie em uma casa de doces!\u201d \u00c9 inoc\u00eancia acreditar em tanta bondade (ainda mais no s\u00e9culo XXI). Uma hora, o boleto chega (principalmente se, a fim de vasculhar as mem\u00f3rias dos outros, voc\u00ea decidir compartilhar a sua).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que funcionem muito bem separadamente, &#8220;A visita cruel do tempo&#8221; e &#8220;A casa de doces&#8221; crescem ainda mais quando colocados lado a lado \u2013 e n\u00e3o estou me referindo apenas ao n\u00famero de personagens, que, somados, deve chegar facilmente a cem nomes! S\u00e3o livros que, mais do que se valer de exemplos t\u00e1teis no mundo moderno, falam de temas caros \u00e0s pessoas sem soarem pedantes, piegas ou explicativos demais. Egan entret\u00e9m enquanto coloca pulgas imagin\u00e1rias atr\u00e1s da orelha do leitor, deixando-o curioso n\u00e3o apenas pela p\u00e1gina seguinte, mas pelo desenrolar daquela sociedade encapsulada nas p\u00e1ginas \u2013 que, bem, pode ser a nossa, ou quem sabe vir a ser. &#8220;A casa de doces&#8221; mant\u00e9m o n\u00edvel de uma escritora que n\u00e3o s\u00f3 parece brincar com as palavras, como tamb\u00e9m com a variedade de t\u00e9cnicas, sem perder o controle da narrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSaber tudo \u00e9 muito parecido com n\u00e3o saber nada: sem hist\u00f3ria, tudo \u00e9 apenas informa\u00e7\u00e3o\u201d, pontua em algum momento um personagem de &#8220;A casa de doces&#8221;. Outro avisa: \u201cTodo labirinto tem uma sa\u00edda.\u201d E um terceiro: \u201cOs finais felizes s\u00e3o pura quest\u00e3o de enquadramento.\u201d Em um tradicional jogo labir\u00edntico de gato e rato em que o leitor, curioso, anseia por antecipar os passos dos protagonistas, Jennifer Egan despista n\u00e3o s\u00f3 com a forma quanto com a profus\u00e3o de protagonistas, e o resultado, delicioso, \u00e9 uma obra que soa constantemente fresca, e que cresce com visitas posteriores. Num mundo em que poucos livros passam ilesos pela segunda leitura, &#8220;A casa de doces&#8221; n\u00e3o parece apenas se expandir; deixa fios propositadamente soltos, prontos para uma trilogia, e ficamos n\u00f3s com aquele sorrisinho de curiosidade, al\u00e9m de muita expectativa. Ser\u00e1?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jennifer Egan | The Candy House\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pukBZXrS2is?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jennifer Egan on Curiosity and Fiction | Standard Speaker Series\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mKDQ1EKNf0Y?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Jennifer Egan despista n\u00e3o s\u00f3 com a forma quanto com a profus\u00e3o de protagonistas, e o resultado, delicioso, \u00e9 uma obra que soa constantemente fresca, e que cresce com visitas posteriores.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/11\/03\/literatura-a-casa-de-doces-de-jennifer-egan-e-muito-black-mirror\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":74996,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,9],"tags":[2536,1305,6713],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74993"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=74993"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74993\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":74997,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74993\/revisions\/74997"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/74996"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=74993"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=74993"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=74993"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}