{"id":74975,"date":"2018-07-11T01:21:00","date_gmt":"2018-07-11T04:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=74975"},"modified":"2023-05-24T01:37:24","modified_gmt":"2023-05-24T04:37:24","slug":"literatura-o-instinto-de-jennifer-egan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/07\/11\/literatura-o-instinto-de-jennifer-egan\/","title":{"rendered":"Literatura: O instinto de Jennifer Egan"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-74979 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/praia1.jpg\" alt=\"\" width=\"348\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/praia1.jpg 348w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/praia1-209x300.jpg 209w\" sizes=\"(max-width: 348px) 100vw, 348px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jennifer Egan decidiu que queria seguir a carreira de escritora no meio de um mochil\u00e3o pela Europa no come\u00e7o dos anos 1980, quando tinha dezenove anos. Ela nasceu em Chicago em 1962, cresceu em S\u00e3o Francisco (quem leu &#8220;Circo invis\u00edvel&#8221; percebe isso com facilidade), fez faculdade na Pensilv\u00e2nia, namorou Steve Jobs (que instalou um iMac em seu quarto) e seguiu a carreira de jornalista, mas nunca abandonou o desejo de ser escritora \u2014 atualmente mora no Brooklyn com o marido diretor de teatro, dois filhos e um gato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/08\/27\/tres-livros-ordem-vermelha-praia-de-manhattan-ideias-para-adiar-o-fim-do-mundo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Praia de Manhattan<\/a>&#8220;, o novo romance de Egan, acaba de ganhar edi\u00e7\u00e3o nacional. O processo de escrita envolveu muita pesquisa jornal\u00edstica e um aprofundamento na hist\u00f3ria de Nova York durante a Segunda Guerra Mundial. \u201cUm livro de \u00e9poca?\u201d, pergunta o leitor. E a resposta \u00e9\u2026 mais ou menos. Egan caminhou por tantos modelos de escrita em vinte e poucos anos de carreira que se sentiu \u00e0 vontade para deixar a hist\u00f3ria conduzi-la, mesmo que n\u00e3o tivesse esse estilo em boa conta quando come\u00e7ou a escrever. Por isso, talvez seja interessante rememorar como ela chegou at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu romance de estreia, &#8220;Circo invis\u00edvel&#8221;, foi lan\u00e7ado em 1995 (repare: entre o desejo de se tornar escritora e a realiza\u00e7\u00e3o foram quase quinze anos!), atraiu boas cr\u00edticas e um contrato de adapta\u00e7\u00e3o para o cinema (lan\u00e7ado em 2001 e estrelado por Cameron Diaz, o filme &#8220;Invisible Circus&#8221; ganhou o nome &#8220;Uma Hist\u00f3ria a Tr\u00eas&#8221; no Brasil). A narrativa se desenrola de modo mais tradicional, direta e sem floreios, mas repleta de cita\u00e7\u00f5es de rock e proto-punk californiano dos anos 1970, refletindo os impactos da contracultura na vida de uma jovem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois mochil\u00f5es pela Europa (bingo!) movem &#8220;Circo invis\u00edvel&#8221; enquanto a personagem Phoebe tenta recriar os passos da irm\u00e3, Faith, encerrados de forma tr\u00e1gica em Cinque Terre, uma das regi\u00f5es mais belas da It\u00e1lia. O leitor segue Egan nesse road book tr\u00e1gico, e a escritora parece refor\u00e7ar a tese de que somos fruto do ambiente em que crescemos, algo que nunca ir\u00e1 se separar de n\u00f3s (ou, como diria Mano Brown, \u201cvoc\u00ea sai do gueto mais o gueto nunca sai de voc\u00ea\u201d), e isso \u00e9 de suma import\u00e2ncia na maneira como cada um lida com o autoconhecimento (bastante profundidade num romance aparentemente tradicional, n\u00e3o \u00e9 mesmo?).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passaram-se seis anos at\u00e9 que Jennifer Egan surgisse com um novo livro: lan\u00e7ado em 2001, &#8220;Olhe para mim&#8221; foi finalista do National Book Award e avan\u00e7ou no territ\u00f3rio que a escritora ainda iria desbravar com os livros futuros. Em entrevista ao jornal ingl\u00eas The Guardian, publicada em setembro de 2017, Egan comentava o quanto a narrativa convencional a incomodava, e, voltando no tempo, fica f\u00e1cil perceber o motivo da trama multicamadas de &#8220;Olhe para mim&#8221;: a escritora n\u00e3o queria se repetir e desejava levar seus personagens a novos caminhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, &#8220;Olhe para mim&#8221; se apoia no drama e no suspense de seus personagens de modo a mostrar o vazio de um mundo ref\u00e9m das expectativas alheias e da imagem que cada pessoa imagina lhe ser imposta. Quase como uma dupla de doppelg\u00e4ngers, duas mulheres chamadas Charlotte passam por arqu\u00e9tipos de trag\u00e9dia pessoal: a primeira, mais velha, \u00e9 uma modelo que sofre um acidente e v\u00ea a estrutura de seu rosto ser tomada por oitenta pinos de tit\u00e2nio. A segunda, mais jovem, se apaixona por um homem enigm\u00e1tico, e o leitor imagina o equivalente a outro acidente conforme a garota se apega. S\u00e3o dois desastres (sociais) inquietantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cinco anos separam &#8220;Olhe para mim&#8221; de &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/12\/25\/tres-livros-mezric-egan-e-oliver\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Torre\u00e3o<\/a>&#8221; (2006), e Egan cria uma reviravolta em sua escrita apoiando-se, desta vez, no romance g\u00f3tico e experimental. O personagem principal \u00e9 Danny, um loser que vai ao encontro do primo na Europa, um cara que planeja transformar um velho castelo num resort espiritual. Em outra dimens\u00e3o encontra-se Ray (o personagem principal\u2026 opa!), um homem preso por assassinato que flerta com a professora Holly. Egan pula de um personagem para outro sem perder o poder de condu\u00e7\u00e3o da narrativa, manipulando o leitor com armadilhas perspicazes em um romance que mistura desespero, ironia e intelig\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As duas hist\u00f3rias (e os dois personagens principais) se fundem e se separam continuamente em &#8220;O Torre\u00e3o&#8221;, uma mescla de real e imagin\u00e1rio que constr\u00f3i uma sala de espelhos na cabe\u00e7a do leitor, que \u00e9 transportado para dentro de um labirinto liter\u00e1rio repleto de \u201cal\u00e7ap\u00f5es metaficcionais e de armadilhas\u201d, como pontuou a divertida cr\u00edtica do The New York Times na \u00e9poca do lan\u00e7amento do livro, e acrescentou que: \u201cEgan sustenta a consci\u00eancia de que o texto est\u00e1 sendo manipulado por seu autor ao mesmo tempo em que transmite car\u00e1ter e hist\u00f3ria com convic\u00e7\u00e3o perfeita e apaixonada.\u201d Uou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jennifer Egan iria ainda mais longe com &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/02\/02\/a-visita-cruel-do-tempo-jennifer-egan\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A visita cruel do tempo<\/a>&#8221; (2010), um livro que conta cinco d\u00e9cadas na vida de diversos personagens, entrela\u00e7ados em pequenos contos. A obra busca exibir as cicatrizes da passagem dos anos e apontar a decad\u00eancia da cultura norte-americana ao mesmo tempo em que investiga tempo e desejo. O pulo do gato foi o formato. Egan exercita uma pirotecnia t\u00e9cnica maluca que, felizmente, deu muito certo, seja quando a trama \u00e9 contada atrav\u00e9s de slides, seja quando o narrador em segunda pessoa assume a voz narrativa. E isso \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A visita cruel do tempo&#8221; transformou Jennifer Egan numa book star, esp\u00e9cie de rock star da literatura (j\u00e1 que a m\u00fasica permeia lindamente as p\u00e1ginas do livro), devido \u00e0 conquista de pr\u00eamios badalados como o National Book Critics Circle Award, o Los Angeles Times Book Prize e o sonhado Pulitzer de fic\u00e7\u00e3o, reconhecimento mais que merecido para uma escritora que n\u00e3o havia repetido f\u00f3rmulas e sempre buscava avan\u00e7ar em sua literatura por caminhos que a instigassem a fugir de uma narrativa convencional. O sucesso de &#8220;A visita cruel do tempo&#8221; tamb\u00e9m a colocou entre os hot writers. Segundo Egan, foi um salto qu\u00e2ntico numa carreira que, enfim, chega ao quinto livro: &#8220;Praia de Manhattan&#8221;, lan\u00e7ado nos Estados Unidos em 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista ao Guardian, Egan conta que pensou em seguir o mesmo modelo que a al\u00e7ou ao sucesso em &#8220;A visita cruel do tempo&#8221;. Em &#8220;Praia de Manhattan&#8221;, sua ideia inicial, ali\u00e1s, era conectar a Segunda Guerra Mundial com 11 de Setembro, o fim de algo que come\u00e7ou com a vit\u00f3ria dos Aliados e a transforma\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos numa superpot\u00eancia. Por\u00e9m, as primeiras tentativas de escrita n\u00e3o a empolgaram, e ela logo deixou que a hist\u00f3ria a levasse, o que fez de &#8220;Praia de Manhattan&#8221; um romance de \u00e9poca de mais de 400 p\u00e1ginas (os ingleses v\u00e3o mais longe e o descrevem como romance vitoriano!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No centro da trama est\u00e1 Anna, uma garota que precisa lidar com o sumi\u00e7o do pai enquanto cuida da irm\u00e3, se envolve com a m\u00e1fia e ainda batalha por uma vaga na equipe de mergulhadores do Arsenal de Marinha, um estaleiro utilizado para recuperar navios danificados na Segunda Guerra Mundial. Retornando aos tempos de jornalista, Egan pesquisou o cen\u00e1rio da \u00e9poca por mais de dez anos, e entrevistou pessoas que viviam em Nova York ou trabalharam no estaleiro, assim como ex-marinheiros e at\u00e9 um mergulhador russo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resultado deste mergulho hist\u00f3rico \u00e9 um livro envolvente com um enorme potencial cinematogr\u00e1fico. Ainda que a escritora tenha abandonado os saltos no tempo e as quebras bruscas de narrativa, isso n\u00e3o quer dizer que &#8220;Praia de Manhattan&#8221; seja completamente convencional, j\u00e1 que a escritora alterna temporalmente alguns per\u00edodos da narrativa (sem se desvencilhar da verossimilhan\u00e7a caracter\u00edstica do estilo) e brinca de maneira inteligente com os personagens que contam a hist\u00f3ria, seja numa casa pobre de uma fam\u00edlia irlandesa no Brooklyn, numa boate frequentada por grandes nomes de Hollywood ou num barco tentando atravessar o Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destaque nas listas de grandes livros de fic\u00e7\u00e3o de 2017 do National Book Award e da revista Time, &#8220;Praia de Manhattan&#8221; flagra Jennifer Egan se despindo das artimanhas inteligentes que fizeram de &#8220;A visita cruel do tempo&#8221; um cl\u00e1ssico moderno e mostra uma escritora fiel ao objetivo de n\u00e3o se repetir, m\u00e9rito raro em um establishment pop que defende a repeti\u00e7\u00e3o de um \u00eaxito at\u00e9 o esgotamento da f\u00f3rmula. Jennifer Egan, por\u00e9m, prefere seguir seu instinto, ainda que mantenha o cerne de sua literatura (a ideia de que o ambiente molda a pessoa) em destaque. Para o leitor, mais um grande livro que soa como o final de um grande ciclo e deixa a quest\u00e3o: O que ela ir\u00e1 fazer no pr\u00f3ximo? Daqui a cinco anos a gente descobre. Por enquanto, volte no tempo e mergulhe nessa praia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-74980\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/praia2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1078\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/praia2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/praia2-209x300.jpg 209w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Jennifer Egan, por\u00e9m, prefere seguir seu instinto, ainda que mantenha o cerne de sua literatura (a ideia de que o ambiente molda a pessoa) em destaque.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/07\/11\/literatura-o-instinto-de-jennifer-egan\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":74977,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[1305,6713],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74975"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=74975"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74975\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":74982,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74975\/revisions\/74982"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/74977"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=74975"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=74975"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=74975"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}