{"id":73937,"date":"2023-04-12T02:21:41","date_gmt":"2023-04-12T05:21:41","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=73937"},"modified":"2023-06-21T02:48:47","modified_gmt":"2023-06-21T05:48:47","slug":"entrevista-jorge-bodanzky-fala-sobre-o-filme-amazonia-a-nova-minamata-e-diz-que-e-preciso-combater-o-garimpo-cercando-os-financiadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/04\/12\/entrevista-jorge-bodanzky-fala-sobre-o-filme-amazonia-a-nova-minamata-e-diz-que-e-preciso-combater-o-garimpo-cercando-os-financiadores\/","title":{"rendered":"Entrevista: Jorge Bodanzky fala sobre o doc &#8220;Amaz\u00f4nia, a Nova Minamata?&#8221;, e diz que \u00e9 preciso combater quem financia o garimpo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lideran\u00e7as Munduruku, percebendo que h\u00e1 algo errado com a sa\u00fade de seu povo, convidam m\u00e9dicos e pesquisadores para investigar se eles est\u00e3o contaminados por merc\u00fario. O diagn\u00f3stico revela altos \u00edndices de contamina\u00e7\u00e3o pelo metal tradicionalmente associado \u00e0 atividade garimpeira de ouro e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da floresta, mas ao m\u00e9dicos enfrentam resist\u00eancia dos garimpeiros e at\u00e9 do governo brasileiro para apresentar os resultados aos Mundurukus. Em \u201cAmaz\u00f4nia, a Nova Minamata?\u201d (2022), Jorge Bodansky acompanha a saga do povo Munduruku para conter a contamina\u00e7\u00e3o que amea\u00e7a a sa\u00fade de todos os habitantes da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O document\u00e1rio mostra o neurologista Erik Jennings tentando alertar os povos Munduruku quanto aos riscos atrelados ao uso do merc\u00fario no garimpo de ouro. Nas imagens, vemos o m\u00e9dico atendendo pacientes ind\u00edgenas cujos filhos passam por s\u00e9rios problemas de sa\u00fade oriundos da toxicidade existente nas \u00e1guas e nos peixes da regi\u00e3o. Do mesmo modo, o filme aborda, em entrevistas locais em Minamata, no Jap\u00e3o, a atual situa\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas do mesmo tipo de contamina\u00e7\u00e3o que atingiu a ba\u00eda do lugar. Indo al\u00e9m, a obra traz um panorama completo da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica daquelas pessoas que passam a depender do garimpo a ponto de defend\u00ea-lo, algo que gerou inseguran\u00e7a e colocou em risco a vida daqueles que registraram as imagens do document\u00e1rio que agora \u00e9 lan\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa conversa com o Scream &amp; Yell, o diretor do cl\u00e1ssico &#8220;Iracema &#8211; Uma Transa Amaz\u00f4nica\u201d (1975) falou sobre a urgente den\u00fancia do uso do merc\u00fario no garimpo ilegal de ouro e como a toxidade do material qu\u00edmico vem contaminando \u00e1guas fluviais e peixes e colocando em risco a vida dos povos ind\u00edgenas, conecta \u201cAmaz\u00f4nia, a Nova Minamata?\u201d com a s\u00e9rie &#8220;Transamaz\u00f4nica &#8211; Uma Estrada para o Passado\u201d (2021), dispon\u00edvel na HBO, conta dos riscos de se filmar na Amaz\u00f4nia (\u201cA amea\u00e7a \u00e9 latente l\u00e1\u201d, diz) relembrando os tr\u00e1gicos assassinatos do jornalista brit\u00e2nico Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira, e revela que, devido a situa\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel da regi\u00e3o, muitos ind\u00edgenas foram cooptados pelos garimpeiros: \u201cO garimpo \u00e9 uma ind\u00fastria car\u00edssima\u201d. Leia entrevista com Bodansky!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Amaz\u00f4nia, A Nova Minamata? (Trailer) | 12\u00aa Mostra Ecofalante de Cinema\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OA5wTb3UmSw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/03\/07\/entrevista-jorge-bodanzky-fala-sobre-a-serie-transamazonica-uma-estrada-para-o-passado-hbo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Na nossa conversa h\u00e1 dois anos<\/a>, voc\u00ea falou sobre a Amaz\u00f4nia ser uma trag\u00e9dia permanente. Neste novo filme, &#8220;Amaz\u00f4nia, A Nova Minamata?&#8221;, a quest\u00e3o da contamina\u00e7\u00e3o dos rios por merc\u00fario e a compara\u00e7\u00e3o com o caso tr\u00e1gico da cidade japonesa de Minamata traz um peso ainda maior a essa trag\u00e9dia representada pelos problemas sociais que afligem a Amaz\u00f4nia. Para algu\u00e9m que j\u00e1 h\u00e1 cinquenta anos foca a lente nos problemas advindos de l\u00e1, essas quest\u00f5es lhe afetam de um modo pesado? Ou a fun\u00e7\u00e3o social do seu trabalho sobressai? Como se d\u00e1 esse equil\u00edbrio?<\/strong><br \/>\nNa verdade, a postura, eu como diretor de cinema, documentarista, a postura \u00e9 a mesma desde o &#8220;Iracema&#8221;. Ent\u00e3o, \u00e9 uma forma de olhar. \u00c9 uma forma de ver as coisas, de retratar as coisas. Uma coisa puxa a outra. Esse novo filme, \u201cAmaz\u00f4nia: A Nova Minamata?\u201d \u00e9 uma consequ\u00eancia da s\u00e9rie da &#8220;Transamaz\u00f4nica &#8211; Uma Estrada para o Passado\u201d. Foi enquanto estava filmando essa s\u00e9rie que encontrei o Dr. Erik Jennings, que \u00e9 o m\u00e9dico que me contou essa hist\u00f3ria. Foi em um evento que aconteceu l\u00e1 na \u00e1rea Munduruku. Havia uma reuni\u00e3o de caciques que aparece no filme e eles estavam discutindo uma quest\u00e3o de uma hidrel\u00e9trica cuja obra conseguiram barrar naquele momento. O Dr. Erik estava l\u00e1 e eu lhe perguntei: &#8220;O que faz um m\u00e9dico aqui?&#8221; Achei estranho. Come\u00e7amos a conversar e ele me disse que j\u00e1 havia um tempo que os m\u00e9dicos estavam desconfiados e examinando a quest\u00e3o do merc\u00fario no cabelo dos ind\u00edgenas. Ele disse que, para a surpresa deles, era coisa mais grave que eles haviam imaginado. Ele fez a compara\u00e7\u00e3o com Minamata e me chamou a aten\u00e7\u00e3o para isso. E eu achei o assunto t\u00e3o importante, t\u00e3o relevante. Isso j\u00e1 tem uns quatro anos. N\u00e3o se falava tanto nesse tema. Hoje em dia, todo mundo est\u00e1 falando sobre a quest\u00e3o do garimpo. Essa compara\u00e7\u00e3o com o que aconteceu em Minamata, eu acho muito importante porque a gente pode prever o futuro. Quer dizer, n\u00e3o adianta querer negar. Est\u00e1 a\u00ed o que acontece com o merc\u00fario. Essa foi a motiva\u00e7\u00e3o do filme. Mas essa motiva\u00e7\u00e3o \u00e9, na realidade, uma continua\u00e7\u00e3o. \u00c9 um modo cont\u00ednuo. N\u00e3o \u00e9 uma coisa que eu parei aqui e come\u00e7o outra ali, entende? Uma coisa puxa a outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Amaz\u00f4nia, A Nova Minamata?&#8221; traz em sua constru\u00e7\u00e3o momentos de tens\u00e3o como aquele em que vemos a equipe ser amea\u00e7ada de morte por ind\u00edgenas. Como foi aquela situa\u00e7\u00e3o para as pessoas envolvidas na produ\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio?<\/strong><br \/>\nO risco l\u00e1 era constante. Aquele momento que conseguimos filmar foi o mais vis\u00edvel desse risco. A amea\u00e7a \u00e9 latente l\u00e1. Veja o que aconteceu com os dois jornalistas assassinados. Nessa viagem que o Dr. Erik fez e que a gente filmou, eu n\u00e3o estava presente. Ela aconteceu durante a pandemia. Foi uma tentativa de fazer o que eles chamam de devolu\u00e7\u00e3o. De levar para as aldeias o resultado dos exames, o que n\u00e3o aconteceu naquele momento. S\u00f3 aconteceu depois. Mas como n\u00e3o tinha lugar no avi\u00e3o do Erik, s\u00f3 mandamos o fot\u00f3grafo e a produtora \u2013 foram eles quem sofreram isso. E o Mak\u00e1 (Paulo Gambale, diretor de Fotografia) teve a presen\u00e7a de esp\u00edrito de deixar o celular ligado no bolso. N\u00f3s conseguimos a sonora dessa amea\u00e7a, que foi real. Foi realmente muito tenso. A gente, inclusive, suspendeu a filmagem a partir dali. Falamos: &#8220;N\u00e3o d\u00e1 para ir mais assim. A gente tem que se preparar de outra forma&#8221;. Inclusive, o pr\u00f3prio Dr. Erik, tamb\u00e9m, interrompeu o trabalho dele porque estava correndo risco de morte. Isso se v\u00ea hoje. As tentativas de se expulsar os garimpeiros da \u00e1rea Yanomami. A amea\u00e7a \u00e9 a mesma. S\u00f3 que, agora, tem o ex\u00e9rcito. Mas os garimpeiros est\u00e3o armados, s\u00e3o violentos. Eles n\u00e3o t\u00eam nada a perder. E o tr\u00e1gico dessa hist\u00f3ria toda \u00e9 porque eu diria que uma boa parte, um ter\u00e7o, ou talvez at\u00e9 mais dos ind\u00edgenas est\u00e3o cooptados pelos garimpeiros. Eles defendem os garimpeiros. E d\u00e1 at\u00e9 para entender o porqu\u00ea. \u00c9 uma regi\u00e3o, vamos dizer, miser\u00e1vel. O meio ambiente est\u00e1 estragado. Eles t\u00eam dificuldades de pescar, de ca\u00e7ar. E a\u00ed surge uma chance de ganhar dinheiro, os jovens compram celular ou um carro, \u00e9 \u00f3bvio que eles v\u00e3o optar a trabalhar junto com os garimpeiros. Essa \u00e9 a realidade. Continua acontecendo e eu diria que de forma at\u00e9 pior. Hoje tem mais \u00edndios favor\u00e1veis ao garimpo do que tinha naquela \u00e9poca. E \u00e9 a realidade. \u00c9 o que est\u00e1 acontecendo. N\u00e3o adianta escamotear. A gente tem que trabalhar com isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ap\u00f3s os quatro anos do governo que terminou ao final de 2022, os problemas se agravaram consideravelmente, deixando para o atual uma urg\u00eancia ainda maior. Com a atua\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas, dos Direitos Humanos e do Meio Ambiente presentes com mais afinco do que no Brasil do &#8220;passar a boiada&#8221; de 2019 em diante, \u00e9 poss\u00edvel uma resolu\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o do envenenamento das \u00e1guas no garimpo?<\/strong><br \/>\nOlha, \u00e9 muito complexo. Claro que o (novo) governo fez um esfor\u00e7o muito grande. Colocou pessoas competentes, lideran\u00e7as ind\u00edgenas em postos chaves. Mas a realidade \u00e9 t\u00e3o brutal ali. Eu sou muito pessimista em rela\u00e7\u00e3o a isso porque&#8230; onde voc\u00ea vai colocar essa gente? \u00c9 muito f\u00e1cil dizer para os garimpeiros: &#8220;N\u00e3o entrem aqui.&#8221; Eles v\u00e3o para outro lugar. Eles t\u00eam que viver. E n\u00e3o s\u00e3o poucos. S\u00e3o milhares. E a gente sabe que isso tudo tem um financiamento. Ainda n\u00e3o se tocou nessa parte. Quem \u00e9 que est\u00e1 pagando essa hist\u00f3ria? Hoje, o garimpo \u00e9 uma ind\u00fastria car\u00edssima. O ouro (encontrado l\u00e1) \u00e9 lavado e depois \u00e9 vendido. E onde ele vai parar? Vai parar nos bancos! Ent\u00e3o, \u00e9 preciso pegar a cadeia toda, (n\u00e3o adianta) s\u00f3 pegar um lado que \u00e9 o lado mais vis\u00edvel, que \u00e9 o garimpo que contamina a \u00e1gua, etc, isso \u00e9 s\u00f3 uma ponta. E a outra? Essa outra ponta ainda n\u00e3o se tocou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou sobre a quest\u00e3o de Minamata ter sido trazida a partir de uma conversa com o Dr. Erik Jennings. Como se desenvolveu, a partir da\u00ed, a constru\u00e7\u00e3o do roteiro focando na compara\u00e7\u00e3o entre a trag\u00e9dia no Jap\u00e3o e a do Brasil?<\/strong><br \/>\nQuem nos chamou aten\u00e7\u00e3o para o caso de Minamata foi o Dr. Erik. N\u00f3s realizamos isso. O Nuno (Godolphim, co-roteirista) tinha um conhecido dele, um japon\u00eas de S\u00e3o Paulo, que tinha uma produtora no Jap\u00e3o. Isso foi no auge da pandemia. N\u00f3s n\u00e3o fomos para l\u00e1. Uma equipe japonesa filmou pra gente. N\u00f3s fizemos a filmagem \u00e0 dist\u00e2ncia. E funcionou muito bem. Deu tudo certo. E devo dizer que os japoneses foram extremamente colaborativos e n\u00e3o tinham a menor ideia de que isso, tamb\u00e9m, estava acontecendo na Amaz\u00f4nia. Eles facilitaram o que puderam para a gente para poder, justamente, divulgar isso para as popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As imagens trazidas pela equipe de filmagem no Jap\u00e3o causam um necess\u00e1rio e urgente choque. Como foi levar isso aos povos ind\u00edgenas para tentar alert\u00e1-los?<\/strong><br \/>\nA gente tamb\u00e9m n\u00e3o queria assustar. Na adianta voc\u00ea mostrar imagens terr\u00edveis. O que eles podem fazer? Eles t\u00eam que comer peixe. N\u00e3o tem outro alimento. Outro alimento custa caro. Eles precisam de dinheiro. De onde vem o dinheiro? S\u00f3 vem do garimpo. N\u00e3o tem outra fonte de renda. Ent\u00e3o, \u00e9 um ciclo perverso. Muito perversa a situa\u00e7\u00e3o. Os japoneses, isso que a gente mostrou no filme, eles tiveram uma luta de trinta anos para conseguir fechar a f\u00e1brica, serem indenizados, receber tratamento m\u00e9dico. Isso foi uma luta longu\u00edssima l\u00e1 no Jap\u00e3o, mas conseguiram. As sequelas continuam, porque s\u00e3o irrevers\u00edveis. Mas eles conseguiram fechar a f\u00e1brica, serem indenizados e parou essa hist\u00f3ria de jogar merc\u00fario na \u00e1gua. Foi descoberto&#8230; N\u00e3o se tinha ideia naquela \u00e9poca, nos anos 1950, do estrago que o merc\u00fario fazia. Mas a partir da den\u00fancia daquela popula\u00e7\u00e3o de pescadores se descobriu. E l\u00e1, tamb\u00e9m, aconteceu uma coisa muito parecida com o que aconteceu agora no Brasil: uma parte da ocupa\u00e7\u00e3o de Minamata, que \u00e9 uma vila de pescadores, era a favor a f\u00e1brica. Porque ela dava emprego, dava renda. Quer dizer, mesmo sabendo o risco que estavam correndo, uma parte deles queria que a f\u00e1brica continuasse funcionando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em certo momento do filme, vemos um delegado falar sobre ser poss\u00edvel a compra de merc\u00fario via internet. Esse tipo de fiscaliza\u00e7\u00e3o dos meios de acesso \u00e0 subst\u00e2ncia pode ser uma solu\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEsse mesmo delegado, um cara muito legal, ele mesmo diz que \u00e9 como voc\u00ea querer combater o tr\u00e1fico de drogas. \u00c9 a mesma coisa. Ent\u00e3o, n\u00e3o se consegue acabar com o tr\u00e1fico de drogas na cidade, quanto mais na Amaz\u00f4nia. O merc\u00fario \u00e9 como se fosse uma droga. \u00c9 negociada pelos traficantes. Est\u00e1 em dom\u00ednio de mil\u00edcias de traficantes n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas em toda Panamaz\u00f4nica. Eu acho que \u00e9 uma luta. E como a luta contra as drogas, \u00e9 uma luta perdida. Eu acho que tem que se trabalhar a outra ponta. A ponta do financiamento. Tem que se criar um sistema de controle da produ\u00e7\u00e3o de ouro e dar um certificado para esse ouro. E fazer com que essas institui\u00e7\u00f5es que compram esse ouro s\u00f3 aceitem ouro certificado. Claro que tudo isso pode ser fraudado, como fazem com a madeira, mas dificulta. E a outra ponta \u00e9 o financiamento. Tem que se fechar a torneira do dinheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mesmo com toda a situa\u00e7\u00e3o entrando em colapso diante da aus\u00eancia de solu\u00e7\u00f5es imediatas, ainda \u00e9 um al\u00edvio perceber a mudan\u00e7a de horizontes em compara\u00e7\u00e3o ao que se passou nos \u00faltimos quatro anos.<\/strong><br \/>\nSim, claro que \u00e9 uma mudan\u00e7a otimista. A gente estava em uma trag\u00e9dia absoluta. E, pelo menos agora, h\u00e1 uma boa inten\u00e7\u00e3o. Mas eu acho que a realidade \u00e9 maior que a boa inten\u00e7\u00e3o. \u00c9 como a droga, entende. Tudo bem, pode chegar um novo governo e dizer: &#8220;vamos acabar com a Cracol\u00e2ndia, em S\u00e3o Paulo&#8221;. Toda vez falam isso. &#8220;Ah, bota servi\u00e7o de sa\u00fade, faz n\u00e3o sei o que&#8230;&#8221; e a Cracol\u00e2ndia s\u00f3 aumenta. \u00c9 muito dif\u00edcil. N\u00e3o \u00e9 uma coisa que voc\u00ea vai combater de um lado s\u00f3. \u00c9 todo um sistema. Tem a quest\u00e3o pol\u00edtica, a quest\u00e3o econ\u00f4mica. \u00c9 uma quest\u00e3o internacional. Porque n\u00e3o adianta resolver o problema no Brasil se a \u00e1gua j\u00e1 entra contaminada pelos pa\u00edses vizinhos, que s\u00e3o as cabeceiras dos rios do Peru, do Equador, da Col\u00f4mbia, da Guiana, da Venezuela. Todos esses pa\u00edses t\u00eam garimpo. Talvez garimpo ainda mais violento at\u00e9 do que no Brasil. Mais dominado pelas mil\u00edcias. Se por um milagre tirarmos os garimpeiros e n\u00e3o sujarmos mais a \u00e1gua no Brasil, n\u00e3o vai adiantar nada, pois ela j\u00e1 est\u00e1 contaminada quando entra no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 uma sa\u00edda que, ao menos, est\u00e1 na informa\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 na possibilidade de usar o Cinema como meio de alerta.<\/strong><br \/>\nOlha, a ideia do filme \u00e9 mostrar o exemplo de Minamata. Eles conseguiram resolver l\u00e1. Hoje, a ba\u00eda est\u00e1 despolu\u00edda. Os pescadores voltaram, est\u00e3o pescando, a f\u00e1brica foi fechada. E a comunidade vai muito bem, obrigado. Ent\u00e3o, \u00e9 um exemplo de uma luta vencedora. Agora, claro que l\u00e1 \u00e9 restrita. Era uma ba\u00eda. Eles conseguiram despoluir o fundo dessa ba\u00eda. \u00c9 um custo muito alto. Como \u00e9 que voc\u00ea vai despoluir os rios da Amaz\u00f4nia? \u00c9 um continente! Mas a gente mostrou que n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. L\u00e1 em Minamata eles conseguiram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea completou 80 anos em dezembro do ano passado. Sessenta anos de carreira dentro do audiovisual. Como \u00e9 contemplar esse momento?<\/strong><br \/>\nProcuro afastar um pouco isso. Felizmente, estou com muito trabalho. Bastante ativo com um monte de projetos novos. Sempre brinco que um produtor independente tem que ter, no m\u00ednimo, dez projetos. Porque se ele tem nove, ele n\u00e3o tem nenhum (risos). Um, eventualmente, funciona. Ent\u00e3o, eu me encontro em plena atividade. Para mim, n\u00e3o \u00e9 uma transi\u00e7\u00e3o. &#8220;Ah, agora estou com 80. O que vai acontecer depois?&#8221; Nada. Eu continuo igual at\u00e9 onde d\u00e1. O meu modelo \u00e9 o do cineasta portugu\u00eas Manoel de Oliveira, que trabalhou at\u00e9 os 104 anos e ainda ficou devendo cinco filmes que ele tinha em projeto. Eu quero chegar nisso (risos).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-73938 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/amazonia1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1057\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/amazonia1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/amazonia1-213x300.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Document\u00e1rio mostra o neurologista Erik Jennings tentando alertar os povos Munduruku quanto a toxicidade existente nas \u00e1guas e nos peixes da regi\u00e3o derivada do uso do merc\u00fario no garimpo de ouro.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/04\/12\/entrevista-jorge-bodanzky-fala-sobre-o-filme-amazonia-a-nova-minamata-e-diz-que-e-preciso-combater-o-garimpo-cercando-os-financiadores\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":73939,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[6623],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73937"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=73937"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73937\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":74675,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73937\/revisions\/74675"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/73939"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=73937"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=73937"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=73937"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}