{"id":73767,"date":"2023-03-30T12:39:00","date_gmt":"2023-03-30T15:39:00","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=73767"},"modified":"2023-05-01T00:53:25","modified_gmt":"2023-05-01T03:53:25","slug":"literatura-mocambique-com-z-de-zarolho-de-manuel-mutimucuio-nos-ajuda-a-lembrar-quem-somos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/03\/30\/literatura-mocambique-com-z-de-zarolho-de-manuel-mutimucuio-nos-ajuda-a-lembrar-quem-somos\/","title":{"rendered":"Literatura: &#8220;Mo\u00e7ambique com Z de zarolho&#8221;, de Manuel Mutimucuio, destaca leveza e um bom humor de fazer rir durante a leitura"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gabriel Pinheiro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">E se um projeto de lei alterasse, de um dia para o outro, o idioma oficial do seu pa\u00eds? Pa\u00eds este onde convivem diferentes dialetos locais e uma l\u00edngua, at\u00e9 ent\u00e3o oficial, imposta pelo antigo colonizador, que voc\u00ea, a duras penas, dedica horas di\u00e1rias de estudo? \u00c9 o que imagina Manuel Mutimucuio em seu novo romance, &#8220;Mo\u00e7ambique com Z de zarolho&#8221;, rec\u00e9m lan\u00e7ado pela Dublinense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hohlo \u00e9 empregado dom\u00e9stico. Mais do que isso, \u00e9 o despertador da fam\u00edlia do deputado Djassi: a rotina do lar s\u00f3 tem in\u00edcio a partir do momento em que o funcion\u00e1rio adentra a casa pela manh\u00e3. Vindo do interior do Mo\u00e7ambique, de Ndindiza, Hohlo busca oportunidades na capital, Maputo. Mas esbarra na barreira da l\u00edngua: se fala de forma fluente o idioma changana, trope\u00e7a no portugu\u00eas, a l\u00edngua oficial da na\u00e7\u00e3o africana. Por isso, se dedica aos estudos noturnos, apesar do cansa\u00e7o do trabalho e das dist\u00e2ncias percorridas em \u00f4nibus cada vez mais cheios. Dominar o portugu\u00eas \u00e9 o primeiro passo para o sonho de ascender socialmente. &#8220;Ele falava changana puro de Gaza, sem qualquer contamina\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas, mas tinha dificuldades igualmente not\u00e1veis quando se expressava na l\u00edngua oficial da na\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a l\u00edngua imposta pelo antigo colonizador, Portugal, ainda encontra barreiras entre a popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, um projeto de lei aprovado pelo parlamento mo\u00e7ambicano vira tudo de cabe\u00e7a pra baixo: a partir de agora, o idioma oficial da na\u00e7\u00e3o \u00e9 o ingl\u00eas. A suposta l\u00edngua universal, adotada por alguns dos pa\u00edses mais desenvolvidos do globo. O gesto \u00e9, tamb\u00e9m, uma tentativa de rompimento com a mem\u00f3ria colonialista de outrora. Mas, que outros colonialismos n\u00e3o se escondem na ado\u00e7\u00e3o for\u00e7ada da l\u00edngua oficial do mercado financeiro e tecnol\u00f3gico global?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhando dois personagens, Hohlo e Djassi, Manuel Mutimucuio descortina a maneira como essa mudan\u00e7a brusca e definitiva se imp\u00f5e sobre classes sociais opostas. &#8220;E como sucesso reproduz sucesso, n\u00e3o devia surpreender ningu\u00e9m que sejam as mesmas elites a tirar partido do advento do ingl\u00eas como a nova l\u00edngua franca de Mo\u00e7ambique&#8221;, conclui o editorial de um jornal contr\u00e1rio \u00e0 nova realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com este romance breve e singular, Manuel Mutimucuio tensiona quest\u00f5es como o colonialismo, a desigualdade social, o racismo e o hist\u00f3rico comum a tantos pa\u00edses no que diz respeito \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica. Apesar de dado como natural, n\u00e3o \u00e9 bem assim o funcionamento de um idioma. Em pa\u00edses com hist\u00f3rico de dom\u00ednio colonial, quantas l\u00ednguas e dialetos de povos origin\u00e1rios foram soterrados para que a l\u00edngua do dominador ascendesse e fosse entregue \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras como oficial?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que lide com o peso dessas quest\u00f5es, &#8220;Mo\u00e7ambique com Z de zarolho&#8221; traz como marca uma leveza impressionante, marcado por um bom humor de fazer rir durante a leitura, talvez por, em alguma medida, nos identificarmos com diferentes quest\u00f5es apontadas por ele. Sobretudo por nosso denominador comum no que diz respeito ao passado colonial. Como diz Reginaldo Pujol Filho na orelha do volume, o romance nos &#8220;ajuda a lembrar que somos t\u00e3o (e muitas vezes mais) pr\u00f3ximos de Mo\u00e7ambique do que de Portugal&#8221;.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-73770 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/zarolho2-Copia.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/zarolho2-Copia.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/zarolho2-Copia-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/zarolho2-Copia-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013 Gabriel Pinheiro \u00e9 jornalista. Escreve sobre suas leituras tamb\u00e9m no Instagram:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@tgpgabriel<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Mo\u00e7ambique com Z de zarolho&#8221; traz como marca uma leveza impressionante, marcado por um bom humor de fazer rir durante a leitura, talvez por, em alguma medida, nos identificarmos com diferentes quest\u00f5es\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/03\/30\/literatura-mocambique-com-z-de-zarolho-de-manuel-mutimucuio-nos-ajuda-a-lembrar-quem-somos\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":112,"featured_media":73769,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[6524,6611],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73767"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=73767"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73767\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73774,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73767\/revisions\/73774"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/73769"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=73767"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=73767"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=73767"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}