{"id":73431,"date":"2023-03-22T01:50:56","date_gmt":"2023-03-22T04:50:56","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=73431"},"modified":"2023-05-16T02:15:38","modified_gmt":"2023-05-16T05:15:38","slug":"entrevista-russo-passapusso-e-antonio-carlos-jocafi-viajam-pelas-varias-bahias-contidas-em-alto-da-maravilha-numa-conversa-que-e-pura-poesia-puro-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/03\/22\/entrevista-russo-passapusso-e-antonio-carlos-jocafi-viajam-pelas-varias-bahias-contidas-em-alto-da-maravilha-numa-conversa-que-e-pura-poesia-puro-amor\/","title":{"rendered":"Entrevista: Russo Passapusso e Antonio Carlos &amp; Jocafi viajam pelas v\u00e1rias Bahias contidas em \u201cAlto da Maravilha\u201d numa conversa que \u00e9 pura poesia, puro amor"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/onelsonoliveira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Nelson Oliveira<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais de 15 anos atr\u00e1s, durante um dia de expediente no extinto sebo Berinjela, localizado no final de linha da Pra\u00e7a da S\u00e9, cora\u00e7\u00e3o de Salvador, Russo Passapusso foi impactado por algo que desconhecia, at\u00e9 ent\u00e3o. Meio despretensiosamente, colocou para tocar o LP \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/playlist?list=OLAK5uy_kVVTynHnYjfSgCjXG18E4zgxmYw5ONIHo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ossos do Of\u00edcio<\/a>\u201d, produzido em 1975 pela dupla Antonio Carlos e Jocafi. Os sambas do disco reviraram a cabe\u00e7a do MC do Minist\u00e9rio P\u00fablico Sistema de Som, coletivo de dancehall que rec\u00e9m-come\u00e7ara as suas atividades, e deram in\u00edcio a uma rela\u00e7\u00e3o de idolatria que impulsionou a caminhada que culminaria no \u00e1lbum \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ksu9n2hkrEw&amp;list=OLAK5uy_n_QcnaDJ0St68QAkjyUo9BE1gP3JIaV3A\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alto da Maravilha<\/a>\u201d, lan\u00e7ado pelos tr\u00eas artistas baianos no final de 2022, com produ\u00e7\u00e3o caprichada de Curumin, Z\u00e9 Nigro e Lucas Martins.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Russo tentou estabelecer um contato com os veteranos da m\u00fasica brasileira por anos, mas s\u00f3 foi conseguir encontr\u00e1-los depois de j\u00e1 ter se estabelecido como vocalista do BaianaSystem e at\u00e9 mesmo ap\u00f3s ter gravado o disco solo \u201cPara\u00edso da Miragem\u201d (2014), recheado de influ\u00eancias estil\u00edsticas da produ\u00e7\u00e3o de Antonio Carlos e Jocafi. Num belo dia de 2016, sua esposa, a apresentadora Pamela Lucciola, entrevistou a dupla num programa de televis\u00e3o e o MC bateu ponto nos bastidores, atacando de f\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No backstage da emissora se formou uma conex\u00e3o que resultou, primeiramente, em composi\u00e7\u00f5es para o pr\u00f3prio BaianaSystem: duas faixas (\u201c\u00c1gua\u201d e \u201cSalve\u201d) foram inclu\u00eddas no disco \u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d (2019), ganhador do Grammy Latino na categoria melhor \u00e1lbum de Rock ou de M\u00fasica Alternativa em L\u00edngua Portuguesa. O futuro, de fato, n\u00e3o tardou: naquele mesmo ano, Russo Passapusso e Antonio Carlos e Jocafi come\u00e7aram a produzir, com apoio do Natura Musical, o \u201cAlto da Maravilha\u201d, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/02\/06\/apca-define-os-premiados-de-2022-em-10-categorias\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que seria escolhido como o melhor de 2022 pela APCA<\/a> \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Cr\u00edticos de Artes e que tamb\u00e9m entraria <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/02\/09\/scream-yell-133-convidados-escolhem-os-melhores-de-2022\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">na lista dos melhores do ano do Scream &amp; Yell<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cerca de quatro meses depois do show de lan\u00e7amento do \u00e1lbum, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/11\/18\/em-sua-sexta-edicao-o-festival-radioca-mostrou-a-potencia-de-um-nordeste-diverso-num-altissimo-nivel-de-grandes-shows\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">realizado no Festival Radioca, em Salvador<\/a>, Russo Passapusso e Antonio Carlos e Jocafi <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/03\/14\/ao-vivo-elogiada-em-estudio-parceria-de-russo-passapusso-com-antonio-carlos-jocafi-se-concretiza-ainda-mais-no-palco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fizeram duas apresenta\u00e7\u00f5es em S\u00e3o Paulo<\/a> e finalmente puseram o \u201cAlto da Maravilha\u201d para viajar. Ou melhor: levaram as andan\u00e7as das v\u00e1rias Bahias, t\u00e3o marcantes no disco, para percorrerem o pa\u00eds. Para a \u201cdupla de tr\u00eas\u201d, n\u00e3o h\u00e1 qualquer d\u00favida de que as m\u00fasicas levam os ouvintes a um passeio por todos os cantos do estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caminhos, viagens e potentes elucubra\u00e7\u00f5es sobre a Bahia, que levaram at\u00e9 a uma compara\u00e7\u00e3o entre as ruas de Salvador e Game of Thrones, adubaram a conversa que Russo Passapusso e Antonio Carlos e Jocafi tiveram com o Scream &amp; Yell, atrav\u00e9s de uma videoconfer\u00eancia que poderia ser descrita como um tratado anticartesiano. Confira, abaixo, o papo repleto de falas cantaroladas e de explica\u00e7\u00f5es gestuais, t\u00e3o caras \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o de oralidade baiana.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Aperta o p\u00e9 - Russo Passapusso &amp; Antonio Carlos &amp; Jocafi (Visualizer)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ksu9n2hkrEw?list=OLAK5uy_n_QcnaDJ0St68QAkjyUo9BE1gP3JIaV3A\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu tive o prazer de assistir \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o de lan\u00e7amento do \u201cAlto da Maravilha\u201d no Radioca, aqui em Salvador (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/11\/18\/em-sua-sexta-edicao-o-festival-radioca-mostrou-a-potencia-de-um-nordeste-diverso-num-altissimo-nivel-de-grandes-shows\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e escrever sobre<\/a>), em novembro de 2022, e tamb\u00e9m vi a grava\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo no Sesc Pinheiros, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=EZOU-FnVJgw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que est\u00e1 dispon\u00edvel no YouTube<\/a> (cortesia Alexandre Matias \/ Trabalho Sujo). Entendendo que eram ocasi\u00f5es diferentes, um festival e um show s\u00f3 de voc\u00eas, notei algumas diferen\u00e7as no encadeamento do repert\u00f3rio entre as duas ocasi\u00f5es. O que voc\u00eas repensaram nesses quase quatro meses de intervalo entre os shows?<\/strong><br \/>\nRusso Passapusso: Vou tomar a ousadia de dar essa resposta inicialmente. Era algo sobre o que eu estava fritando, pensando muito nessas duas rela\u00e7\u00f5es. E em como a poesia, a melodia, a m\u00fasica brasileira, como essa caracter\u00edstica que a gente ama, de timbragens setentistas, de comunica\u00e7\u00e3o entre o vintage e os eletr\u00f4nicos, em como isso iria soar em palcos de festival. Pra mim \u00e9 mais dif\u00edcil em palcos de festival, nesse caso, por causa da influ\u00eancia de sons externos, dessa rela\u00e7\u00e3o do \u201ctiming\u201d de p\u00fablico de festival, que \u00e9 um pouco diferente do \u201ctiming\u201d do p\u00fablico de teatro: algumas palavras n\u00e3o pousam t\u00e3o bem num festival quanto num teatro. \u00c0s vezes voc\u00ea tem que dar um sopro a mais pra que elas cheguem nas pessoas e no processo de comportamento que as pessoas t\u00eam em um festival.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Radioca foi diferente, porque ele j\u00e1 tinha um processo muito enraizado, similar ao que a gente levantou dentro do s\u00edtio, no tempo em que a gente ficou no s\u00edtio, ensaiando. Ent\u00e3o ele j\u00e1 veio formatado atrav\u00e9s de uma conviv\u00eancia musical de reconhecimento das m\u00fasicas. O show de Salvador era como se tivesse sido feito pra gente, como se a gente ainda estivesse no s\u00edtio, na sala, conversando e recebendo as mensagens das nossas pr\u00f3prias m\u00fasicas. Tanto pra gente, que estava ali cantando todas as vozes, todos os coros, quanto para os m\u00fasicos que estavam executando as m\u00fasicas tamb\u00e9m. Ent\u00e3o foi um show bem baiano, bem Salvador, cheio de mem\u00f3rias. A gente terminou com \u201cGlorioso Santo Ant\u00f4nio\u201d, numa esp\u00e9cie de cortejo. Tem o cortejo de entrada de \u201cAperta o P\u00e9\u201d, em que a gente entra falando sobre o corpo, sobre essa entrada do caminho, e sa\u00edmos do palco com esse cortejo de sa\u00edda, evocando as divindades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando viemos para S\u00e3o Paulo, num teatro, a gente come\u00e7ou a entender esse processo, que eu acho o mais bonito do trabalho, que \u00e9 essa rela\u00e7\u00e3o da poesia e das palavras com o espa\u00e7o. Aquela mesa que a gente coloca no centro da cena, que remete a uma mesinha de sala ou de bar, de encontro mesmo, ela se assenta no teatro de uma forma diferente, at\u00e9 pela altura do palco, que \u00e9 mais baixo do que a plateia. S\u00f3 esse posicionamento j\u00e1 muda totalmente o comportamento, em termos de ilumina\u00e7\u00e3o, marca\u00e7\u00f5es e formata\u00e7\u00f5es. \u00c9 um barato que eu gosto muito de ficar pensando a cada show, ent\u00e3o a gente trabalhou o repert\u00f3rio do teatro para encaixar mais ainda o processo de hist\u00f3rias de vida, que vinha guiando o pr\u00f3prio repert\u00f3rio. Tivemos at\u00e9 a participa\u00e7\u00e3o do [ator] Luiz Carlos Bahia, que abriu o show recitando uma passagem, num pr\u00f3logo, como Reimundo, esse personagem maravilhoso que ele criou. Ele tamb\u00e9m estava na apresenta\u00e7\u00e3o de Salvador, mas n\u00e3o se abriu essa perspectiva de ele colocar a poesia dele. A\u00ed voc\u00ea v\u00ea como o teatro abre nuances, te d\u00e1 a chance de experimentar. No segundo show no Sesc Pinheiros, ele at\u00e9 apareceu em outro momento do show e assumiu a terceira cadeira, em que eu passei boa parte do tempo sentado, ratificando essa ideia de encontro, de botequim, de espa\u00e7o em que a gente pode receber algu\u00e9m e fazer m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acredito que a gente vai continuar aproveitando esse potencial de receber pessoas no show e que ele vai se formatar assim, com esse circular de colabora\u00e7\u00f5es de gente que seja muito interessante e consiga chegar ali com a gente, sentar, conversar e fazer m\u00fasica, abra\u00e7ada ao repert\u00f3rio de Antonio Carlos e Jocafi, que \u00e9 o magma e o sopro do trabalho, a esse disco novo que a gente fez \u2013 que \u00e9 o elo de tudo \u2013 e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de \u201cPara\u00edso da Miragem\u201d, que \u00e9 o meu \u00e1lbum anterior e me trouxe at\u00e9 aqui.<\/p>\n<figure id=\"attachment_73432\" aria-describedby=\"caption-attachment-73432\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-73432 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/racj.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/racj.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/racj-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-73432\" class=\"wp-caption-text\"><em>Jocafi, Luiz Carlos Bahia e Antonio Carlos no show de S\u00e3o Paulo \/ Foto de Marcelo Costa <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essas modifica\u00e7\u00f5es est\u00e3o inseridas num contexto de mais tempo de ensaio, j\u00e1 que os shows do Radioca e do Sesc Pinheiros aconteceram num espa\u00e7o de quase quatro meses entre eles?<\/strong><br \/>\nAntonio Carlos: Eu acho fant\u00e1stico que a nossa rela\u00e7\u00e3o com Russo \u00e9 muito forte. E quando voc\u00ea tem uma rela\u00e7\u00e3o forte com uma pessoa, ela se estende pra todo canto. \u00c9 como se Russo j\u00e1 fosse Antonio Carlos e Jocafi mesmo, entendeu? \u00c9 uma coisa que j\u00e1 tinha sido juntada pelo universo, eu diria. Ent\u00e3o eu acho que cada vez mais a gente vai se unir nas m\u00fasicas. A gente pensa igual, n\u00f3s somos da mesma terra, e tudo isso facilita um pouco as coisas. Ele ser baiano, ter as mesmas origens nossas \u00e9 perfeito. Eu amo esse trio, acho tudo muito bacana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Russo Passapusso: Vou acrescentar algo! J\u00e1 existia um estudo muito apurado pela banda e por mim [sobre Antonio Carlos e Jocafi]. A primeira vez que eu fui pra S\u00e3o Paulo, eu j\u00e1 fui falando de Ant\u00f4nio Carlos e Jocafi pra Curumin. Isso tem bem mais de 10 anos. Foi quando eu viajei para l\u00e1 para fazer uma participa\u00e7\u00e3o num show do disco \u201cCalavera\u201d, do Guizado, nem era pra fazer o \u201cPara\u00edso da Miragem\u201d. L\u00e1 eu j\u00e1 estava falando sobre essas coisas. Ent\u00e3o, assim, se voc\u00ea parar pra perceber, j\u00e1 tem uns 15 anos que eu fico repetindo o nome de Antonio Carlos e Jocafi pra todos os m\u00fasicos, pra falar da grandiosidade da composi\u00e7\u00e3o. Isso, pra mim, transborda o sentido de f\u00e3, que eu sou, o sentido de seguidor, que eu sou, de aluno, que eu sou, de mensageiro, que eu sou, e entra no sentido mesmo de estudo, n\u00e9? Ent\u00e3o a gente vem estudando isso e n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil voc\u00ea entender a am\u00e1lgama de respira\u00e7\u00e3o e sotaque da linha de composi\u00e7\u00e3o, de entendimento r\u00edtmico, que Antonio Carlos e Jocafi t\u00eam tem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s marca\u00e7\u00f5es, ao ijex\u00e1, \u00e0 organicidade da m\u00fasica e aos instrumentos que, dentro do mesmo BPM, v\u00e3o estar com o pensamento mais pra frente e os instrumentos que v\u00e3o estar com o pensamento mais atrasado. Isso tudo faz parte desse sotaque: a m\u00fasica vem acompanhada de frases e adjetivos, como \u201cum ijex\u00e1 com mais dengo\u201d, \u201cum ijex\u00e1 com mais atividade, atitude\u201d, \u201cvamos fazer esse samba mais relaxado\u201d ou \u201cn\u00e3o, n\u00e3o a gente est\u00e1 muito alem\u00e3o, batido da cabe\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo em rela\u00e7\u00e3o ao que voc\u00ea falou, sobre a banda ter ensaiado mais, eu diria que essas quest\u00f5es de apura\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, sendo mais objetivo, s\u00e3o uma quest\u00e3o de percep\u00e7\u00e3o e estudo que a banda vem tendo. Porque uma coisa \u00e9 voc\u00ea executar com seu corpo e outra \u00e9 voc\u00ea executar com sua mente. Acho que a gente est\u00e1 chegando agora em um n\u00edvel de um entendimento de executar com a mente: \u201ceu vou pensar para tr\u00e1s pra executar essa m\u00fasica\u201d ou \u201ceu vou para frente nessa aqui\u201d ou ainda \u201caqui eu tenho que estar desleixado, eu n\u00e3o posso estar concentrado, aqui eu tenho at\u00e9 que esquecer amolecer o corpo\u201d, \u201caqui n\u00e3o, aqui eu tenho que estar cheio de ar pra fazer o &#8216;atchi&#8217;, &#8216;atch\u00e1&#8217;\u201d. Cada momento \u00e9 diferente e vai se colocando dentro desse sotaque de nuances e eu acho que essa \u00e9 a grandiosidade da m\u00fasica de Ant\u00f4nio Carlos e Jocafi e \u00e9 uma grandiosidade que acompanha e acompanhou os m\u00fasicos dessa safra maravilhosa brasileira, como Jo\u00e3o Gilberto, Toninho Horta, C\u00e1tia de Fran\u00e7a, Rosinha de Valen\u00e7a. Todas essas pessoas eram acompanhadas de detalhes de sotaque pra poder ter uma execu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica nos shows.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu estou falando muito sobre show porque \u00e9 apenas o segundo show que a gente est\u00e1 fazendo. \u00c9 muito bom voc\u00ea ter visto o primeiro em Salvador. O outro que voc\u00ea viu na internet, numa vis\u00e3o de terceiro plano do que estava acontecendo ali, eu creio que voc\u00ea, com certeza, foi muito racional na sua visualiza\u00e7\u00e3o \u2013 j\u00e1 que na internet, por mais que voc\u00ea sinta, voc\u00ea est\u00e1 agindo racionalmente, por conta dos algoritmos e dessa rela\u00e7\u00e3o toda. O que a gente conseguiu perceber de mais importante da diferen\u00e7a dos dois p\u00fablicos era que um tinha um referencial. \u201cAh, isso j\u00e1 estava aqui dentro de casa e eu estou lembrando da hist\u00f3ria\u201d: foi assim na Bahia. E em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o: em S\u00e3o Paulo soou realmente, por mais que a gente estivesse tocando \u201cVoc\u00ea Abusou\u201d, uma coisa nova.<\/p>\n<figure id=\"attachment_73434\" aria-describedby=\"caption-attachment-73434\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-73434 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/IMG_2921-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/IMG_2921-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/IMG_2921-copiar-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-73434\" class=\"wp-caption-text\"><em>Jocafi, Russo Passapusso e Antonio Carlos no show em S\u00e3o Paulo \/ Foto de Marcelo Costa<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O \u201cAlto da Maravilha\u201d conta com algumas m\u00fasicas que Antonio Carlos e Jocafi j\u00e1 haviam composto h\u00e1 bastante tempo, apesar de ainda n\u00e3o terem gravado, e outras que foram concebidas totalmente depois que a parceria entre voc\u00eas tr\u00eas come\u00e7ou. Como se sucederam os processos de trabalhar novamente nessas composi\u00e7\u00f5es mais antigas, criar outras e at\u00e9 mesmo escolher quais integrariam o \u00e1lbum? Houve uma tentativa de equilibrar faixas mais suingadas e funkeadas, que fazem parte do que Russo chama de Lado P\u00e9, e outras mais mel\u00f3dicas e contemplativas, do Lado M\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAntonio Carlos: Olha, esse disco foi come\u00e7ado quatro anos atr\u00e1s. A pandemia apareceu no meio e, durante a pandemia, n\u00f3s fizemos muitas m\u00fasicas juntos. Ent\u00e3o a gente talvez tivesse uma ideia come\u00e7ando, mas com o advento da pandemia a gente mudou a ideia e foi fazendo, fazendo, fazendo [coisas novas], entendeu? E hoje n\u00f3s temos metade de um pr\u00f3ximo disco pronto, que tem o nome provis\u00f3rio de \u201cDupla de Tr\u00eas\u201d. E compomos outras m\u00fasicas que n\u00f3s pretendemos dar pra outros artistas. Est\u00e1 tudo no ar ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo, tem a primeira m\u00fasica que n\u00f3s tr\u00eas fizemos juntos, que se chama \u201cPandora\u201d, que j\u00e1 tem quatro anos. Essa m\u00fasica ia entrar nesse disco, mas n\u00e3o entrou. N\u00f3s a finalizamos agora, no dia do show [em S\u00e3o Paulo]. Pra gente est\u00e1 sendo muito bacana esse trabalho, que est\u00e1 acontecendo de forma in\u00e9dita. Por exemplo, eu n\u00e3o sei fazer m\u00fasica com Jocafi se ele estiver na casa dele e eu na minha. Com Russo, eu sei. S\u00f3 n\u00e3o sei se eu consigo fazer com Jocafi e Russo juntos, porque n\u00f3s nunca fizemos. Juntos, n\u00f3s tr\u00eas compomos sempre via internet.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jocafi: Eu acho que essas m\u00fasicas que est\u00e3o inseridas nesse \u00e1lbum se relacionam com algumas que a gente fez l\u00e1 no in\u00edcio, como \u201cCatend\u00ea\u201d ou \u201cQuem Vem L\u00e1\u201d. Essas m\u00fasicas foram tidas como afastadas do \u00e2mbito radiof\u00f4nico. As r\u00e1dios n\u00e3o tocavam porque eles [os seus diretores] diziam que essas m\u00fasicas eram uma loucura, que ainda n\u00e3o tinha p\u00fablico pra esse tipo de m\u00fasica. Ent\u00e3o eles preferiram tocar \u201cVoc\u00ea Abusou\u201d, \u201cMudei de Ideia\u201d, os nossos sambas, enfim. Mas, veja bem como \u00e9 interessante: essas m\u00fasicas vieram a aparecer quase 40 anos, 30 anos depois, abra\u00e7adas por essa juventude. E a gente se sente feliz, porque os jovens cantam, sentem, dan\u00e7am. Eu acho que essa m\u00fasica era feita pra agora mesmo. A gente n\u00e3o pode nem acreditar que aquele p\u00fablico fosse dan\u00e7ar uma m\u00fasica meio funkeada, entende como \u00e9 que \u00e9? Um samba funkeado, uma coisa mais moderna. E exatamente, para aquele tempo, talvez tudo isso fosse moderno demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Russo Passapusso: Acho maravilhoso isso que Antonio falou e o complemento de Jocafi, ent\u00e3o, ave Maria, incr\u00edvel. Puxando o link de Tonho sobre a pandemia, tem o seguinte: o disco come\u00e7a com \u201cAperta o P\u00e9\u201d, n\u00e9? Ent\u00e3o o disco come\u00e7a saindo da pandemia. Existe uma coisa nas m\u00fasicas quando elas s\u00e3o feitas a partir de hist\u00f3rias de vida, que \u00e9 o jeito como Antonio Carlos e Jocafi comp\u00f5em.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois do primeiro sentimento que eu coloquei dentro do nosso grupo do WhatsApp, o \u201cDupla de Tr\u00eas\u201d, Antonio Carlos e Jocafi me perguntaram: O que que est\u00e1 acontecendo a\u00ed? Como foi hoje? A\u00ed eu falei \u201copa, a gente estava fazendo a m\u00fasica e me perguntaram como foi hoje aqui na minha vida? [risos]. Quer dizer, eles t\u00eam que ter rela\u00e7\u00e3o direta com voc\u00ea o tempo todo. O que a gente est\u00e1 fazendo aqui [nas composi\u00e7\u00f5es] \u00e9 registro de vida. A gente est\u00e1 olhando as hist\u00f3rias de outras pessoas e, como Jocafi fala, n\u00f3s somos \u201cprestadores de aten\u00e7\u00e3o\u201d. O vento est\u00e1 batendo na janela, na porta&#8230; \u201cah, isso aqui \u00e9 importante\u201d. Isso foi amplificado pela pandemia. O valor da vida foi amplificado imensamente pela pandemia. E a\u00ed, de repente, eu estou no disco, no show cantando \u201ctava esperando a poeira baixar\u201d. Eu falei, \u201coxe!\u201d: a pandemia passou, a poeira baixou. Eu chego perto da mesa e falo: \u201cchega, vem comigo pela estrada, Joj\u00f4\u201d: Jocafi! A\u00ed na segunda m\u00fasica: \u201cquem vem l\u00e1? Sou eu, sou eu\u201d. Quem vem l\u00e1? Antonio \u2013 e vem ele chegando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, \u00e9 o sentido premonit\u00f3rio na m\u00fasica, depois de uma cat\u00e1strofe dessas, como foi a pandemia. Ela preza por ensinar a gente como caminhar. Esse disco trata de caminho. E tratando-se de caminho, ele fala sobre a caminhada e a trajet\u00f3ria de dois grandes compositores \u2013 ou \u201cdois em um\u201d grandes compositores \u2013 que fizeram e que contaram essa hist\u00f3ria, que s\u00e3o carregados de imagens, de m\u00fasicas, de livros, de filmes, de coisas. Eles n\u00e3o param de compor hist\u00f3rias e at\u00e9 conversas s\u00e3o composi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era natural que esse primeiro disco cruzasse hist\u00f3rias de outros tempos. Porque a gente est\u00e1 falando de atemporalidade e fazer isso tudo, vindo de outros tempos, ser atual era o grande barato. Poder tocar \u201cCatend\u00ea\u201d e ver um p\u00fablico que antes queria deixar o romantismo de lado e consumir coisas mais objetivas, nessa imediaticidade, passar a entender que o romantismo n\u00e3o \u00e9 um atraso, n\u00e3o \u00e9 uma lentid\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 nada disso: \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o cheio. Ent\u00e3o a gente est\u00e1 come\u00e7ando a perceber os cantos de \u201cCatend\u00ea\u201d, de \u201cVapor de Cachoeira\u201d, os tempos mais acelerados e mais lentos, como tem no disco essa separa\u00e7\u00e3o. E o pr\u00f3prio disco, como \u00edm\u00e3, foi colocando as m\u00fasicas mais agitadas e que tratavam de caminho no come\u00e7o, at\u00e9 um ponto de muta\u00e7\u00e3o no meio: \u201cMir\u00ea Mir\u00ea\u201d. E esse ponto de muta\u00e7\u00e3o desemboca em outra hist\u00f3ria, como se fosse a correnteza do mar. Mais acelerada no come\u00e7o, porque era Salvador, e quando a gente chega ali em \u201cMir\u00ea Mir\u00ea, os olhos se abrem para esses rios e afluentes da Bahia, que Jocafi tanto conhece \u2013 e sabe o nome de todos eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jocafi: Exatamente. Quando a gente chega nas \u00e1guas de Oxum, a gente v\u00ea que na verdade \u00e9 um remanso, \u00e9 um descanso. Quando voc\u00ea traz pra aquela plateia os acordes de \u201cVapor de Cachoeira\u201d, aquilo relaxa. A gente sente que o p\u00fablico relaxa naquele momento e que come\u00e7a a cantar aquilo como se fosse um poema. Um poema das coisas, um poema do rio, um poema do pr\u00f3prio vapor \u2013 que j\u00e1 \u00e9 um poema por si, com aquela roda girando e levando as pessoas pra suas vidas, pros seus caminhos. \u00c9 uma coisa interessant\u00edssima. \u00c9 s\u00f3 prestar aten\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea presta aten\u00e7\u00e3o e voc\u00ea v\u00ea o povo descansar, o povo que est\u00e1 na tua frente descansar. A\u00ed voc\u00ea diz: \u201cmeu Deus&#8230;\u201d [emocionado]. E ele canta aquilo com toda a suavidade, entende? Canta aquilo como se pertencesse \u00e0quele momento, aquela coisa do vapor de Cachoeira, que eu n\u00e3o conheci, que existia muito antes de eu ter nascido, mas que eu aprendi sobre atrav\u00e9s das cirandas e dos c\u00e2nticos que a mim foram passados por pessoas que amei muito.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Vapor de Cachoeira -  Russo Passapusso &amp; Antonio Carlos &amp; Jocafi\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ohDqKqMP9pk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No fim das contas, o disco percorre os caminhos das v\u00e1rias Bahias. E, principalmente, convida o ouvinte a uma viagem espa\u00e7o-temporal, porque at\u00e9 o velho vapor de Cachoeira, que virou uma esp\u00e9cie de figura mitol\u00f3gica do Rec\u00f4ncavo, foi cantado por voc\u00eas. Essa ideia de transporte e trajet\u00f3ria faz at\u00e9 pensar na estrada de ferro que ligava Feira de Santana, onde Russo nasceu, a Senhor do Bonfim, cidade em que o pr\u00f3prio Russo passou a inf\u00e2ncia e onde est\u00e3o enraizadas parte das origens de Jocafi. Uma ferrovia que, vale destacar, cruza o bairro do Alto da Maravilha. Que tal aprofundar um pouco desse referencial para o p\u00fablico?<\/strong><br \/>\nJocafi: L\u00e1 em Senhor do Bonfim, essa estrada de ferro que passava por esse lugar chamado Alto da Maravilha se bifurcava: um lado ia pra Jacobina e o outro ia direto pra Juazeiro. Russo sabe disso, faz parte da raiz dele. Meu lado era o outro: era o lado das Imburanas, das canoas. \u00c9 o lado oposto, onde fica um lago de \u00e1gua salobra, de uma nascente que existe at\u00e9 hoje nessa cidade gostos\u00edssima. \u00c9 o remanso, como eu falo. \u00c9 muito gostoso de se inteirar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Russo Passapusso: Voc\u00ea falou a\u00ed do trem e eu lembrei minha inf\u00e2ncia toda, at\u00e9 me emocionei. \u00c9 muito bom entender essa coisa geogr\u00e1fica muito forte que Jocafi tem e essas vis\u00f5es metaf\u00f3ricas e po\u00e9ticas muito fortes que Antonio tem. H\u00e1 duas frases que eu falo que eu acho important\u00edssimas pra entender o disco: o caminho que faz a gente e o caminho que nos faz. Lado P\u00e9 e Lado M\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu estava ouvindo e interpretando todo o disco de primeira, pra entender do que ele se tratava, come\u00e7ando com \u201cAperta o P\u00e9\u201d, \u201cVeneno\u201d chegando naquele jardim, falando dos agrot\u00f3xicos, eu vi os transportes: a gente falando do p\u00e9 que sai correndo pra pegar o vapor de Cachoeira. E a\u00ed voc\u00ea pega o vapor de Cachoeira e chega na porta voc\u00ea ouve \u201cMir\u00ea, Mir\u00ea\u201d [cantarola]. \u201cAi, cheguei. Consegui chegar, agora eu tenho que esperar, que ele vai me levar a tal lugar\u201d. E quando voc\u00ea desce, voc\u00ea v\u00ea \u201cPonta P\u00f3len\u201d de novo, voc\u00ea v\u00ea as coisas acontecendo, n\u00e9? Voc\u00ea v\u00ea o \u201cOlhar Pid\u00e3o\u201d, voc\u00ea encontra algu\u00e9m l\u00e1 e depois voc\u00ea vai continuar vivendo e termina l\u00e1 em Catend\u00ea. Eu vi essa hist\u00f3ria muito clara, muito presente em \u201cAlab\u00e1\u201d, quando chegam as crian\u00e7as que v\u00eam ali correndo atr\u00e1s. Crian\u00e7a no interior \u00e9 assim: qualquer coisa que chega tem crian\u00e7a correndo atr\u00e1s. Eu era uma dessas. Chegou um carro? Corre atr\u00e1s do carro. Chegou um boi? Corre atr\u00e1s do boi. Esses s\u00e3o os alab\u00e1s, n\u00e9? S\u00e3o as crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed voc\u00ea tem \u201cPitanga\u201d. \u00c9 aquela coisa: quando voc\u00ea \u00e9 crian\u00e7a, est\u00e1 na ro\u00e7a e senta debaixo de uma \u00e1rvore com seu pai. A\u00ed ele foi l\u00e1 ver os bois e voc\u00ea pega um peda\u00e7o, da\u00ed o peda\u00e7o de pau j\u00e1 virou uma pessoa; pega uma pedra, que j\u00e1 vira um carro e voc\u00ea come\u00e7a a brincar e a se sentir imerso naquela natureza. Vem abelha, a\u00ed vem n\u00e3o sei o qu\u00ea, a\u00ed vem o boi, a\u00ed caiu a jaca do p\u00e9. Ent\u00e3o esse processo todo do Alto da Maravilha [a localidade] era formatado muito fortemente na minha cabe\u00e7a, mas ele era subjetivo \u2013 porque eu n\u00e3o tinha voltado em Bonfim pra fazer o disco. Eu tive a oportunidade de voltar l\u00e1 com o disco pronto. E a\u00ed eu liguei pra Toninho e pra J\u00f4 l\u00e1 da feira em que eu vendia banana. Naquela mesma feira eu olhava pras pessoas e estava todo mundo assim: com bochecha grande, barba e chapeuzinho [aponta para si mesmo]. A\u00ed eu falei: \u201cToninho, J\u00f4, eu entendi porque eu sou assim! Os coroas todos com chap\u00e9u de coco, bochecha grande e preta, de barba \u2013 e carequinha\u201d. Eles dois ficaram brincando comigo e eu fiquei filmando a feira, que fica na entrada da subida da serra do Alto da Maravilha. Eu andava todos os dias com meu pai ali, pra buscar \u00e1gua, que a gente trazia l\u00e1 de cima. Ele me botava no jeguinho, enchia os ca\u00e7u\u00e1s, dava um tapa na bunda do bicho e eu descia s\u00f3 com o jegue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa coisa da \u201cBahia Molhada\u201d e da \u201cBahia Seca\u201d do sert\u00e3o perpassa tamb\u00e9m essa ideia de Lado P\u00e9 e Lado M\u00e3o \u2013 me veio essa luz quando eu ouvi. A\u00ed eu pensei: todas as mais do cora\u00e7\u00e3o v\u00e3o ficar mais pra depois e as mais \u201cde corpo\u201d v\u00e3o vir antes. O disco estava chamando isso. Eu sempre gostei muito de desenhar os discos a partir dessas interpreta\u00e7\u00f5es, acho muito interessante. Tem uma parte em que voc\u00ea faz as m\u00fasicas e voc\u00ea escreve pra elas, e outra parte em que ela fala e escreve pra voc\u00ea. Essa segunda parte, pra mim, \u00e9 o grande barato da situa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o depois que estava tudo pronto, tudo j\u00e1 separado, eu tinha que prestar contas para todos os outros \u2013 Curumin e todo mundo da banda, mais Antonio Carlos e Jocafi. Contar aquela hist\u00f3ria, quase como se eu tivesse que ir num terreiro, numa igreja, num templo budista, ouvir tudo aquilo e falar: \u201c\u00f3, eu fui iluminado, eu entendi, que tem o lado do caminho, primeiro que \u00e9 o Lado P\u00e9 e o Lado M\u00e3o depois\u201d [entoa em canto gregoriano]. Sabe? Eu tinha que mostrar que \u201cCatend\u00ea\u201d entrava no final como uma forma de agradecer \u00e0 vida. Eu tinha que ter esse mantra pra poder me entender dentro desse processo e poder me comunicar com todos eles. Porque eu realmente acredito que eu t\u00f4 vivendo o que eu queria ter vivido se eu fosse da d\u00e9cada de 70. [risos]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O aspecto geogr\u00e1fico de Senhor do Bonfim, que \u00e9 sert\u00e3o, e esse \u00eaxodo que leva a Salvador, que tem essa coisa da \u201cBahia Molhada\u201d, da Ilha de Itaparica, isso foi retratado. E eu n\u00e3o sabia que o sert\u00e3o ia ser mais \u201caaaaaah\u201d [mexe as m\u00e3os, em sinal de compasso agitado] e que, de repente, quando cheg\u00e1ssemos aos mares e na situa\u00e7\u00e3o ali que \u00e9 diasp\u00f3rica, a gente ia de \u201c\u00ea, Mir\u00ea, Mir\u00ea\u201d, que ia de \u201cme d\u00ea um beijo, um cheiro, um aperto de m\u00e3o\u201d, que ia ter \u201cse n\u00e3o for truque, isso \u00e9 m\u00e1gica\u201d [cantarola, suavemente, trechos de can\u00e7\u00f5es do \u00e1lbum]. O disco fala de transporte no lado A, que \u00e9 P\u00e9. Essa rela\u00e7\u00e3o do vapor n\u00e9, do movimento: d\u00e1 pra sentir a imagem dos colibris voando, dos bois transitando, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E depois, no final, a gente chega numa parte que eu s\u00f3 entendi nesse \u00faltimo show. Ali eu peguei essa fita a\u00ed que eu n\u00e3o tinha percebido e nem tinha comentado em outras entrevistas: tem o olho. \u00c9 o olho. Nossa, cara, foi louco como o olho apareceu. P\u00e9, m\u00e3o e o olho. O olho, cara. O olho \u00e9 \u201cMir\u00ea Mir\u00ea\u201d, o olho \u00e9 o pr\u00f3logo de Luiz Carlos Bahia, um dramaturgo, poeta e palha\u00e7o que hoje \u00e9 um personagem muito importante nesse am\u00e1lgama que \u00e9 [o trabalho com] Antonio Carlos e Jocafi. \u201cTudo est\u00e1 no fundo do olho\u201d. Ele est\u00e1 declamando essa poesia agora, nas aberturas dos shows. \u00c9 incr\u00edvel: tudo est\u00e1 no fundo do olho. O olho de \u201cMir\u00ea Mir\u00ea\u201d, o olho dessa hist\u00f3ria: Deus est\u00e1 no olho, a alegria, a tristeza, o inferno&#8230; tudo est\u00e1 no olho. A gente come\u00e7ou a elucubrar muitas dessas rela\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas, estamos profundos depois desse show de S\u00e3o Paulo. A gente est\u00e1 cada vez mais recebendo mensagens da poesia e isso est\u00e1 sendo maravilhoso pra gente. Essa foi uma percep\u00e7\u00e3o atual de entendimento do olho, de quando o disco volta pra gente e ele volta mostrando pra gente que est\u00e1 de olho na gente, que a gente est\u00e1 de olho no pr\u00f3ximo disco, que a gente est\u00e1 de olho em que tudo que t\u00e1 acontecendo, n\u00e9? Essas outras pessoas que circundam a gente, como Luiz Carlos Bahia e outras pessoas que acredito que ainda v\u00e3o chegar nesse angu&#8230; todas elas s\u00e3o olhos. No fim das contas, tem um corpo vivo sendo colocado, unificado, com o p\u00e9, a m\u00e3o \u2013 e o olho como o agente de entendimento.<\/p>\n<figure style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/russo10.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\"><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>Jocafi e Antonio Carlos no show em S\u00e3o Paulo \/ Foto: Marcelo Costa<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quanto o produto final do \u00e1lbum guarda daquele Russo Passapusso que descobriu Antonio Carlos e Jocafi enquanto trabalhava num sebo no Pelourinho?<\/strong><br \/>\nRusso Passapusso: Ele guarda tudo. S\u00f3 que, agora, al\u00e9m de guardar, ele t\u00e1 jogando junto [risos]. A gente est\u00e1 muito seguro, a gente deixou de ser s\u00f3 um de rela\u00e7\u00f5es de transmiss\u00e3o musical e a gente est\u00e1 tendo agora um processo muito forte de correla\u00e7\u00e3o, de seguran\u00e7a, de entendimento do caminho. A gente j\u00e1 sabe as estradas, a gente j\u00e1 sabe as possibilidades. Voc\u00ea fala \u201cRusso\u201d, eu falo \u201ca gente\u201d, porque eu j\u00e1 absorvi essa filosofia de Antonio Carlos e Jocafi de ser v\u00e1rios. De ser corpo de outras cabe\u00e7as e cabe\u00e7a de outros corpos. Cora\u00e7\u00e3o de outro corpo tamb\u00e9m, n\u00e9? Antonio \u00e9 Antonio Carlos e Jocafi, Jocafi \u00e9 Antonio Carlos e Jocafi, eu sou Antonio Carlos e Jocafi. Ent\u00e3o a gente consegue pensar com essa multiplicidade. Ent\u00e3o o que mudou daquele Russo \u00e9 a sa\u00edda do \u201csingular coletivo\u201d pro \u201ccoletivo singular\u201d, a sa\u00edda do \u201ceu para todos\u201d pro \u201ctodos para eu\u201d, sabe? Isso comunica de uma forma mais verdadeira e mais grandiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9poca em que eu vendia discos no [sebo] Berinjela est\u00e1 cada vez mais latente. Tanto que eu estou tendo que voltar muito pra essa minha mem\u00f3ria, essa biblioteca que eu tenho aqui [aponta pra cabe\u00e7a] pra poder fazer as coisas, pra poder me comunicar e entender. Eu estou voltando muito pra esse processo. Porque a gente j\u00e1 descaracterizou o tempo. M\u00fasicas que s\u00e3o antigas j\u00e1 chegam no p\u00fablico como se fossem de hoje e a gente j\u00e1 percebeu que isso acontece assim, \u00f3, num estalar de dedos. Ningu\u00e9m mais precisa saber que isso \u00e9 antigo, que \u00e9 de antes, que \u00e9 de depois, a galera j\u00e1 est\u00e1 tipo \u201cUh! vamos nessa\u201d!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a gente viu isso acontecer, a gente falou \u201copa, entendi\u201d! A mem\u00f3ria \u00e9 eterna, a mem\u00f3ria \u00e9 atualiza\u00e7\u00e3o. Isso realmente aconteceu. Eu falava sobre isso, achando que n\u00e3o ia acontecer, e em S\u00e3o Paulo isso se transformou de uma forma muito forte. Em Salvador a gente ficou mesmo com as rela\u00e7\u00f5es que temos com a cidade. Um conceito que Antonio sempre me coloca \u00e9 que Antonio Carlos e Jocafi sempre se realimentam de um conceito de ancestralidade em todos os m\u00e9todos de composi\u00e7\u00e3o, em tudo. Tudo \u00e9 permeado por uma ancestralidade muito forte, muito enraizada. A gente tem a di\u00e1spora cada vez mais presente. Quando a gente fala de Salvador e da Bahia a gente est\u00e1 falando de uma Salvador, de uma Bahia em que o mundo chegou. Da di\u00e1spora dos navios e dessa terceira di\u00e1spora, que \u00e9 a di\u00e1spora possibilitada pelos fluxos de comunica\u00e7\u00e3o da internet. Agora a gente pode estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o de autoconhecimento a partir dos gri\u00f4s e tudo o mais, percebendo Salvador como o mundo, a Bahia como o mundo; essas placas tect\u00f4nicas flutuantes desse planeta como o mundo. Agora a gente est\u00e1 menos est\u00e1 mais coletivista, no sentido de hiperconex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de a gente lan\u00e7ar o disco, Antonio Carlos e Jocafi viajaram para os Estados Unidos. Fizeram show l\u00e1 com os caras do [movimento] Jazz Is Dead, com os caras do rap que eu ouvi a vida inteira \u2013 A Tribe Called Quest, De La Soul, The Pharcyde, coisas que eu ouvia na Boca do Rio pra poder fazer o BaianSystem e que com certeza Antonio Carlos e Jocafi nunca tinham ouvido. Enfim, esse jazz rap que eu gosto muito. Coisas que com certeza v\u00e3o come\u00e7ar a bombar, porque j\u00e1 estou vendo a descaracteriza\u00e7\u00e3o de um conceito s\u00f3 da trap music, dos ritmos modernos e tal. Ent\u00e3o eu consigo dialogar modernamente com as coisas mais modernas do mundo com esse projeto com Antonio Carlos e Jocafi. Isso descaracteriza aqueles papos do tipo \u201cah, com Antonio Carlos e Jocafi a gente est\u00e1 trabalhando um conceito vintage e com o BaianaSystem a gente coloca as coisas mais novas\u201d. N\u00e3o tem mais isso, isso j\u00e1 foi! J\u00e1 foi a partir do momento que voc\u00ea v\u00ea um gringo fazendo funk e fazendo rimas dentro de um conceito, como o Chali 2na, que era do Jurassic 5, fazendo sample de \u201cKabaluer\u00ea\u201d. Ou Marcelo D2, que tamb\u00e9m bombou com um sample de \u201cKabaluer\u00ea\u201d, anos atr\u00e1s, em \u201cQual \u00c9?\u201d. Ent\u00e3o isso t\u00e1 muito latente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que eu guardo em mim dessa hist\u00f3ria toda \u00e9 que hoje isso deixou de ter o sentido de lembran\u00e7a, de mem\u00f3ria, e passou a ser atual e at\u00e9 meio futur\u00edstico, apesar de eu nem gostar muito de usar essa palavra. Estou vendo que tanto o que vem pela frente quanto o que est\u00e1 ao redor, em outros pa\u00edses, est\u00e1 altamente conectado com essa \u201cBahia-mundo\u201d, que \u00e9 a que eu, Antonio Carlos e Jocafi temos dentro da gente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Antonio Carlos e Jocafi, Edu Casanova e Russo Passapusso -  Glorioso Santo Antonio\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OTKOtsCjFMs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso se relaciona at\u00e9 com o que Jocafi falou anteriormente: talvez a m\u00fasica que eles compunham fosse pra hoje e n\u00e3o pros anos 60 e 70. J\u00e1 vi bastante gente nova viajando e fritando com as vers\u00f5es originais de \u201cGlorioso Santo Ant\u00f4nio\u201de \u201cKabaluer\u00ea\u201d em discotecagens dos coletivos Voodoohop e Nozmoskada, por exemplo. Como foi para voc\u00eas dois, Antonio Carlos e Jocafi, trabalhar com pessoas de uma outra gera\u00e7\u00e3o? Deu para manter os mecanismos de produ\u00e7\u00e3o de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nJocafi: T\u00e1 sendo um aprendizado. \u00c9 como eu falo pra Russo \u00e0s vezes: \u201cRusso, ou\u00e7a muito\u201d. A gente tem que ouvir as outras culturas, saber de uma maneira profunda sobre o que est\u00e1 acontecendo. Prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante. Eu e Antonio Carlos faz\u00edamos muito isso quando jog\u00e1vamos futebol na rua \u2013 hoje, as ruas foram ocupadas pelo autom\u00f3vel, que \u00e9 o dono da rua, e a\u00ed n\u00e3o tem mais jeito. T\u00f4 saindo um pouquinho do assunto da sua pergunta porque, no fundo, tudo vem da rua, porque ela \u00e9 um caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antigamente, nas ruas voc\u00ea tinha muito frequentemente um alto-falante, que tocava as m\u00fasicas de todo mundo. E a\u00ed voc\u00ea podia ouvir a Ave Maria de [Charles] Gounod, ouvir Stevie Wonder, James Brown, entende? E voc\u00ea podia se ligar no trabalho de James Brown, que foi a primeira refer\u00eancia de Michael Jackson, que \u00e9 o pai do pop no mundo \u2013 e transformou a m\u00fasica com sua dan\u00e7a, meio circense, e seu talento incr\u00edvel, de saber como a guitarra funciona, como o piano vai entrar, saber de tudo sem nunca ter tido uma aula. Ele prestou muita aten\u00e7\u00e3o, ele teve a disciplina do pai dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, a gente prestava aten\u00e7\u00e3o na Bahia: as ladeiras, o Mercado Modelo, aquele era o mundo da gente. O Mercado Modelo era um mundo e todas as m\u00fasicas se encontravam nesse mercado, que voc\u00ea e a juventude n\u00e3o conheceram [nota: o antigo Mercado Modelo de Salvador foi totalmente destru\u00eddo num inc\u00eandio, em 1969, e reinaugurado em um pr\u00e9dio bem menor, adjacente a sua constru\u00e7\u00e3o original]. Voc\u00ea n\u00e3o teve a oportunidade de conhecer um dos lugares que eram o alicerce da musicalidade baiana. Era ali que chegavam os sambas duros que vinham de Santo Amaro da Purifica\u00e7\u00e3o, de S\u00e3o F\u00e9lix, de Cachoeira \u2013 essa mesma Cachoeira do vapor, que muitas pessoas n\u00e3o conhecem, essa cidade muito importante para todo o pa\u00eds, porque foi uma das sedes do movimento de Independ\u00eancia da Bahia. Tudo acontecia e terminava ali no Mercado Modelo. E l\u00e1 a gente aprendeu sem querer, a gente aprendeu com o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ainda t\u00ednhamos o aprendizado que Antonio Carlos trazia de um outro lado. N\u00f3s nos unimos nessas duas coisas: ele, pelo lado intelectual, atrav\u00e9s de Ild\u00e1sio Tavares, da cultura da escrita, entende? Ele \u00e9 um escritor de m\u00e3o cheia. J\u00e1 eu venho de uma parte inteiramente \u201cbaga\u00e7a\u201d, daquele pov\u00e3o, daquele neg\u00f3cio do Mercado Modelo, do \u201cvamos fazer samba de roda e toma uma cacha\u00e7a aqui\u201d \u2013 n\u00e3o que ele n\u00e3o tome a dele. A\u00ed tome uma cacha\u00e7a aqui, outra ali, uma cacha\u00e7a com lim\u00e3o \u2013 a bebida mais horr\u00edvel que voc\u00ea pode ter bebido na vida, mas a gente s\u00f3 podia pagar aquela. E quando se juntavam toda a estudantada do Col\u00e9gio Central com os estudantes de Direito, de Engenharia, de Arquitetura e de Filosofia da UFBA? Quando perguntaram a Caetano Veloso: voc\u00ea estuda filosofia pra qu\u00ea? Pra ensinar na faculdade? \u201cN\u00e3o meu filho, eu estudo filosofia pra filosofar\u201d, ele disse. E ele estava certo. Se voc\u00ea n\u00e3o vai estudar filosofia pra filosofar, pra que que \u00e9? E hoje ele \u00e9 o fil\u00f3sofo da gente, ele \u00e9 o fil\u00f3sofo do povo baiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olha como \u00e9 esse peda\u00e7o de terra. O primeiro peda\u00e7o do Brasil que come\u00e7ou a ser explorado pelos portugueses ganha uma import\u00e2ncia cultural intr\u00ednseca, de uma virul\u00eancia que tomou o pa\u00eds inteiro. \u00c9 como se Deus tivesse baixado, botado a m\u00e3o e tivesse dito: \u201c\u00d3, \u00e9 aqui, o lugar \u00e9 esse. Vamos aben\u00e7oar e fazer coisas boas nesse lugar\u201d. \u00c9 como eu digo pra Russo: at\u00e9 santo n\u00f3s produzimos na Bahia, cara. Isso \u00e9 uma coisa muito s\u00e9ria. \u00c9 uma mistura e as ideias antes nascem a\u00ed [na Bahia]. Eu tenho muito orgulho e sorte de ter nascido a\u00ed. Tanto eu quanto Antonio Carlos, que \u00e9 um baiano muito mais baiano do que eu, at\u00e9 os \u00faltimos estertores. Amo muito essa terra e vivo longe dela porque n\u00e3o tive como permanecer nela, por causa do trabalho. Mas estou acreditando que, quando for realmente a hora de parar, eu v\u00e1 terminar meus dias na Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antonio Carlos: Como Jocafi falou, n\u00f3s estamos longe da Bahia, mas a Bahia nunca esteve longe da nossa m\u00fasica. Eu diria que 70, 80% da nossa m\u00fasica, se voc\u00ea analisar, \u00e9 baiana. Eu sou \u201cbaiano-brasileiro\u201d: o lado baiano vem em primeiro lugar e tanto Jocafi quanto Russo sabem disso. A minha m\u00fasica vem da raiz, vem do candombl\u00e9, vem de M\u00e3e Menininha, de M\u00e3e Carmem, dos tambores. A minha primeira m\u00fasica, que Os Tinco\u00e3s gravaram, se chama \u201cO Enterro da Ialorix\u00e1\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sempre estive ligado ao candombl\u00e9, junto com Ild\u00e1sio [Tavares, poeta], Jorge Amado, Caryb\u00e9&#8230; eu frequentava o Il\u00ea Ax\u00e9 Op\u00f4 Afonj\u00e1 [nota: terreiro centen\u00e1rio localizado no bairro do S\u00e3o Gon\u00e7alo do Retiro, em Salvador]. Ent\u00e3o eu sou a Bahia, entendeu? A Bahia est\u00e1 dentro da gente, dentro da nossa m\u00fasica. Voc\u00ea pode ver: a cr\u00edtica carioca e a paulista falavam mal da gente porque a gente usava express\u00f5es como \u201cpresepada\u201d, \u201cbreguete\u201d, \u201ct\u00e1 rebocado\u201d, \u201cperipicado\u201d, que s\u00e3o t\u00edpicas da Bahia. At\u00e9 hoje, mesmo nas nossas composi\u00e7\u00f5es com Russo, a gente fala da Bahia \u2013 como em \u201cMi\u00e7anga\u201d. Tudo que a gente faz fala da Bahia. Saiu de Antonio Carlos e Jocafi, tem Bahia no meio.<\/p>\n<figure style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/russo9.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\"><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>Luiz Carlos Bahia e Russo Passapusso no show em S\u00e3o Paulo \/ Foto de Marcelo Costa<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ali\u00e1s, \u201cdupla de tr\u00eas\u201d tamb\u00e9m \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica bem popular na Bahia e \u00e9 o nome provis\u00f3rio do novo \u00e1lbum que voc\u00eas est\u00e3o produzindo. Quais s\u00e3o os planos de voc\u00eas para esse disco?<\/strong><br \/>\nRusso Passapusso: Rapaz, eu vou te falar uma coisa: eu achava que a gera\u00e7\u00e3o de hoje em dia \u00e9 que era workaholic, que ficava com essa coisa de trabalhar e n\u00e3o ter tempo pra mais nada. Mas Antonio Carlos \u00e9 assim, e eu tenho certeza que o celular vai bombar depois dessa nossa conversa. Ele \u00e9 que nem Luiz Carlos Bahia, que estou conhecendo melhor agora. Luiz Carlos olhou pra mim, antes do show em S\u00e3o Paulo e falou: \u201ceu transpiro s\u00f3 de pensar\u201d. A\u00ed eu virei pra ele e respondi: calma! Antonio Carlos \u00e9 met\u00f3dico. Vai bolando m\u00e9todos, vendo que m\u00e9todos n\u00e3o deram certo, ajustando outros. J\u00e1 Jocafi t\u00e1 ali, prestando aten\u00e7\u00e3o em tudo. E \u00e0s vezes at\u00e9 fingindo que n\u00e3o est\u00e1 prestando \u2013 do jeito que ele est\u00e1 ali, \u00f3. Ele t\u00e1 ali, mas ele est\u00e1 vendo tudo. Qualquer coisa que d\u00ea uma lambuja e v\u00e1 pro lado da m\u00fasica, que v\u00e1 pro lado da arte, ele pegou. Ele t\u00e1 ali, sempre em estado de esponja e de antena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso fez o sentido do \u201cDupla de Tr\u00eas\u201d e foi dentro desse discurso que a gente colocou um termo que pousou na gente e a gente achou engra\u00e7ado \u2013 e a gente tem muito humor nas coisas. Tem muito sentimento, tudo \u00e9 muito s\u00e9rio, mas tamb\u00e9m tem muito humor. Hoje a gente percebe que esse \u00e9 um campo de m\u00e9todos de trabalho que tem v\u00e1rias pessoas ao redor, v\u00e1rios m\u00fasicos, cada vez mais gente chegando \u2013 com outras formas de criar. Instrumentistas, cantores, poetas&#8230; e eu estou vendo muitas outras coisas se aproximarem disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naturalmente, um disco chama o outro: ele olha pro outro, uma m\u00fasica olha pra outra. Uma coisa que eu agrade\u00e7o por ter e que foi muito importante pra poder viver em composi\u00e7\u00e3o com Antonio Carlos e Jocafi \u00e9 o fato de que eu nunca fiquei preso a uma m\u00fasica. Eu fazia uma m\u00fasica, ela criava vida e j\u00e1 ficava parecendo que eu n\u00e3o tinha nem feito ela. Ela estava ali, mas eu j\u00e1 queria saber o que estava acontecendo aqui e agora. Porque, se eu ficasse pensando no que estava acontecendo naquela \u00e9poca n\u00e3o adiantava muito, porque a m\u00fasica era eu naquela \u00e9poca. Mas eu acordei hoje e hoje eu estou de outro jeito. E a\u00ed vem mais m\u00fasica. Elas s\u00e3o fotografias e, agora, a gente est\u00e1 fazendo esse \u00e1lbum de fotografias abra\u00e7ado por essa \u201cdupla de tr\u00eas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o mais bonito desses pr\u00f3ximos trabalhos \u00e9 que a gente come\u00e7a a ver o p\u00fablico cantando as m\u00fasicas que a gente fez no disco anterior. A gente est\u00e1 olhando pra eles e continua fazendo m\u00fasica. Isso est\u00e1 mudando tudo: a gente j\u00e1 conhece o forno e a lenha. Ent\u00e3o a gente j\u00e1 sabe o que a gente vai botar no forno a lenha. Esses s\u00e3o assuntos que a gente estava conversando no backstage dos shows de S\u00e3o Paulo, com Jocafi j\u00e1 falando do pr\u00f3ximo \u00e1lbum. Isso porque a gente recebe do p\u00fablico um h\u00e1lito, um f\u00f4lego, um sotaque. E isso vai acontecer cada vez mais, com a gente rodando o pa\u00eds e entendendo como a plateia de cada local vai cantar os versos \u2013 o Brasil \u00e9 grande e traz pra gente essa riqueza. Agora n\u00f3s estamos num processo n\u00e3o de compor pra mostrarmos algo novo, mas de sermos renovados a cada show pra podermos alimentar esse novo disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antonio Carlos: Eu queria acrescentar uma coisa interessante sobre essa quest\u00e3o do retorno do p\u00fablico. Antigamente, nas minhas m\u00fasicas com Jocafi, as pessoas cantavam os refr\u00f5es mais conhecidos, como \u201cvoc\u00ea abusou\u201d [cantarola]. Hoje \u00e9 diferente: a gente tem m\u00fasica com versos em iorub\u00e1, como \u201c\u00ca, Mir\u00ea-Mir\u00ea \/ Babaolorum, Al\u00e1 \/ Elefim\u00e3, fim\u00e3 oxum bab\u00e1-\u00f4\u201d, ou \u201cKabaluer\u00ea\u201d. E o povo canta, gente! Essa l\u00edngua \u00e9 muito complicada e as pessoas cantam. \u00c9 muito bacana e eu fico muito feliz com isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Russo Passapusso: Nossa, eu vou completar, porque eu acho isso emocionante. Voc\u00ea sabe o que \u00e9 retorno da linguagem? Voc\u00ea sabe o qu\u00e3o importante \u00e9 essa materializa\u00e7\u00e3o na nossa caixa ac\u00fastica, atrav\u00e9s da repeti\u00e7\u00e3o? O que dialoga com a nossa cabe\u00e7a, com o nosso esp\u00edrito? Pronunciar o iorub\u00e1 traz um processo muito forte de reconex\u00e3o \u2013 e eu estou falando do campo extrarreligioso, do racional, de como isso move uma cultura gri\u00f4. \u00c9 maravilhoso eu ver essa l\u00edngua dentro de um funk e todo mundo ali: \u201cKabaluer\u00ea, uh\u201d [cantarola, dan\u00e7ando na cadeira].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jocafi: \u00c9 exatamente como Antonio Carlos est\u00e1 falando a\u00ed, mas eu acredito que ele quer dizer muito mais quando toca nisso. Como \u00e9 que essas pessoas podem estar cantando em iorub\u00e1? Como \u00e9 que elas podem cantar em qualquer coisa? Porque isso \u00e9 a mem\u00f3ria que n\u00f3s temos, essa mem\u00f3ria ancestral que nos foi dada, gra\u00e7as a Deus, pela m\u00e3e \u00c1frica. A m\u00e3e \u00c1frica \u00e9 tudo. Foi de l\u00e1 que veio o come\u00e7o da humanidade e \u00e9 l\u00e1 que n\u00f3s vamos terminar. \u00c9 s\u00f3 prestar aten\u00e7\u00e3o que voc\u00ea v\u00ea que tudo veio de l\u00e1: o funk, o rock, o samba, a guaracha, o mambo. Tudo isso \u00e9 mem\u00f3ria: como quando voc\u00ea fala em iorub\u00e1 e voc\u00ea v\u00ea tamb\u00e9m o cubano cantando em iorub\u00e1, que \u00e9 uma l\u00edngua tribal. \u00c9 que o som \u00e9 universal. Preste aten\u00e7\u00e3o nos sons universais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os vendedores de rua, por exemplo: \u201cMo-co-t\u00f3\u201d, \u201ca-ca-ra-j\u00e9\u201d [come\u00e7a a entoar, imitando os ambulantes]. Olha o som disso a\u00ed! Ela j\u00e1 faz uma melodia! Olha o quanto voc\u00ea pode usar isso a\u00ed como melodia! E isso a\u00ed a Bahia lhe d\u00e1 o tempo inteiro. A Bahia \u00e9 a maior compositora brasileira do ramo musical. \u00c9 a Bahia. Ela n\u00e3o precisa de nenhum compositor. Ela j\u00e1 \u00e9. Quando a pessoa presta aten\u00e7\u00e3o, ela saca essas coisas todas. Por exemplo, eu me lembro de quando eu estava assistindo aquele seriado Game of Thrones. Aquela baixinha guerreira, que \u00e9 um personagem-chave [Arya Stark], quando se sentiu em uma situa\u00e7\u00e3o menor, sem ter como ganhar o dinheirinho dela, ela come\u00e7ou a mercar. Ali eu me senti na Bahia, com aqueles frutos do mar em plena feira e, principalmente, com ela cantando uma melodia que voc\u00ea v\u00ea na Bahia. Voc\u00ea v\u00ea em qualquer lugar do mundo, cara. Isso \u00e9 de uma import\u00e2ncia pra mim, que trabalho com o \u201cprestar aten\u00e7\u00e3o\u201d para iniciar uma composi\u00e7\u00e3o e as melodias. Ela me d\u00e1 essa melodia. Olha a\u00ed a beleza: \u201ca-ca-ra-j\u00e9!\u201d, \u201cmo-co-t\u00f3!\u201d [volta a entoar], olha o poema que essa melodia traz com ela. Ela j\u00e1 traz a levada do ritmo e diz aonde ela quer nos levar. Ela nos mostra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Russo \u00e9 um criador de ritmos incr\u00edveis. Ele pega o ijex\u00e1 e transforma numa coisa que voc\u00ea n\u00e3o acredita. Mas isso \u00e9 pra quem presta aten\u00e7\u00e3o. Quando voc\u00ea presta aten\u00e7\u00e3o, voc\u00ea sabe das coisas. Sempre me perguntam por que eu assisto novela. Ficam assim: \u201cAh, novela? Ningu\u00e9m assiste novela\u201d. E eu assisto, porque ali se manifestam os anseios humanos, as coisas de que eu fa\u00e7o parte \u2013 que \u00e9 o grupo humano, entende? E \u00e9 da\u00ed [dos anseios] que a gente tira toda a musicalidade, todos os pensamentos pra fazer uma letra.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"\u00c1gua \u00b7 BaianaSystem \u00b7 Antonio Carlos &amp; Jocafi \u00b7 Orquestra Afrosinf\u00f4nica\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aacX2NJpMIo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra encerrar, queria falar um pouco sobre as fus\u00f5es entre Antonio Carlos e Jocafi e o BaianaSystem. \u201c\u00c1gua\u201d e \u201cMi\u00e7anga\u201d, al\u00e9m de serem duas das preferidas do p\u00fablico, s\u00e3o fundamentais nas apresenta\u00e7\u00f5es da banda no Carnaval de Salvador. Sem \u00c1gua e Mi\u00e7anga, o trio n\u00e3o anda, o Navio Pirata n\u00e3o navega. Dito isso, pergunto: um dia a gente vai ver Antonio Carlos e Jocafi no trio do Baiana?<\/strong><br \/>\nRusso Passapusso: Vou tentar fazer um pequeno apanhado dessa nossa entrevista, levando em considera\u00e7\u00e3o que a gente est\u00e1 com muitas informa\u00e7\u00f5es na cabe\u00e7a e, muitas vezes, a gente pode ter tornado essas perguntas que voc\u00ea fez numa coisa mais ampla, po\u00e9tica, subjetiva, memorial. Ent\u00e3o, pra falar sobre o Baiana, vou linkar a resposta com os temas pelos quais passeamos na nossa conversa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ancestralidade \u00e9 um po\u00e7o sem fundo em que a gente mergulha. A di\u00e1spora atual e a tecnologia est\u00e3o muito latentes na nossa m\u00fasica, a ponto de serem impulsionadoras dessas novas composi\u00e7\u00f5es, desses novos discos, com novos m\u00e9todos. Antonio Carlos e Jocafi s\u00e3o t\u00e9cnicos de linguagens modernas, ent\u00e3o eles j\u00e1 se adaptaram ao celular, est\u00e3o se jogando mais no ingl\u00eas e no iorub\u00e1, est\u00e3o mergulhando nas rela\u00e7\u00f5es sincr\u00e9ticas religiosas, entendendo as transforma\u00e7\u00f5es sociais e esse mundo unificado, p\u00f3s-globalizado, esse mundo l\u00edquido. Enfim, todos esses processos que dialogam com a nossa po\u00e9tica, que transita por um entendimento mais filos\u00f3fico e geogr\u00e1fico. Ent\u00e3o, essas perguntas que versaram sobre essa rela\u00e7\u00e3o temporal, mostrando que o passado \u00e9 futuro, que o futuro fala sobre o passado, isso sempre foi Antonio Carlos e Jocafi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu conheci Antonio Carlos e Jocafi, eles j\u00e1 trabalhavam as composi\u00e7\u00f5es deles assim. O BaianaSystem tinha essa ideia de trazer uma m\u00fasica universal e a\u00ed a pessoa achava que estava dan\u00e7ando um boom bap \u2013 \u201cQuando a brisa do vento sopra a voz de Deus\u201d [canta o verso inicial de \u201cSalve\u201d] \u2013, mas de repente aquilo era um ijex\u00e1: \u201cOlorum, dandalunda, obatal\u00e1\u201d [canta de novo]. J\u00e1 estava ali a f\u00f3rmula na f\u00f3rmula do disco \u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d, que ganhou o Grammy. J\u00e1 era Antonio Carlos e Jocafi permeando o trabalho com estruturas de composi\u00e7\u00e3o [nota: a dupla de veteranos tamb\u00e9m assina a faixa citada]. \u00c9 um Grammy muito de Antonio Carlos e Jocafi, de Curumin, de Edgar, de Manu Chao. S\u00e3o grandes artistas pregando uma linguagem universal dentro de um disco baiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea olhar, \u201cPara\u00edso da Miragem\u201d, \u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d, \u201cAlto da Maravilha\u201d, todos eles se tratam desse mundo que \u00e9 fantasia e \u00e9 realidade ao mesmo tempo, e se tratam da Bahia para o mundo, do mundo para a Bahia \u2013 do global para o local, do local para o global. \u00c9 algo muito forte e a gente se enxerga nessa m\u00edmica. Isso j\u00e1 vinha se trabalhando em \u201cO Futuro N\u00e3o Demora\u201d e a\u00ed sai o \u201cAlto da Maravilha\u201d, com v\u00e1rias m\u00fasicas sendo colocadas, daqui pra frente, nesse espelho do olho do p\u00fablico. E o BaianaSystem com certeza tamb\u00e9m est\u00e1 funcionando da mesma forma, porque Antonio Carlos e Jocafi j\u00e1 estavam em mim antes de eu conhecer Antonio Carlos e Jocafi \u2013 o que dir\u00e1 agora. A m\u00fasica do Baiana \u00e9 guiada por isso, tem muitas coisas j\u00e1 acontecendo e a gente hoje j\u00e1 entende antes o que \u00e9 Baiana, o que \u00e9 Antonio Carlos e Jocafi e o que \u00e9 \u201cdupla de tr\u00eas\u201d, pela caracteriza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu lembro muito de eu cantando, no trio, \u201co que \u00e9 que \u00e9, aluvi\u00e3o\u201d [entoa o verso inicial de \u201c\u00c1gua\u201d] em momentos em que eu precisava [nesse \u00faltimo carnaval] que o p\u00fablico caminhasse junto, entendendo que \u201cno ponto futuro, o doce e o sal v\u00e3o se misturar\u201d. Essa m\u00fasica eu n\u00e3o preciso nem explicar, eu canto e todo mundo pensava: \u201copa, pera\u00ed, a gente tem que se proteger aqui\u201d, \u201cparece que a rua \u00e9 pequena\u201d, \u201cparece que t\u00e1 rolando uma coisa ali\u201d, \u201cparece que ali fulano se queimou\u201d, \u201cvamos se juntar aqui\u201d. A\u00ed o povo se juntava, ia passando ouvindo a m\u00fasica, at\u00e9 chegar l\u00e1 na frente pra explodir. Essa \u00e9 que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o estamos, sim, trabalhando, arquitetando e vivendo dentro dessa esfera coletivista do BaianaSystem e vem coisa por a\u00ed. Na verdade, j\u00e1 tem coisa pronta por a\u00ed. O neg\u00f3cio t\u00e1 m\u00f3 onda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jocafi: E eu devo dizer muito mais, ainda. Eu acho que eu tive que viver todo esse tempo pra aprender alguma coisa com voc\u00eas. Principalmente com voc\u00ea, Russo, que nos ensinou muito. Principalmente nesses tempos: como diz Antonio, o velho n\u00e3o tem futuro, tem o hoje. Mas o hoje j\u00e1 \u00e9 importante e, se a gente tem o hoje, vamos nos mexer com o hoje. E a gente agradece a voc\u00ea por esse \u00e2nimo, por essa alma que voc\u00ea trouxe pra gente \u2013 porque a alma, ela \u00e9 o \u00e2nimo. E voc\u00ea \u00e9 a nossa alma. Voc\u00ea nos fez enveredar por caminhos em que nunca estivemos: aprendemos a trabalhar dessa forma e a gente se apaixona pelo cooperativismo de todo o grupo. N\u00f3s nos olhamos de uma maneira muito feliz, n\u00f3s nos amamos mesmo. O que a gente v\u00ea ali \u00e9 puro amor, \u00e9 um abra\u00e7o total em todos. At\u00e9 a cozinheira cozinhava melhor, porque era pra gente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mi\u00e7anga \u00b7 BaianaSystem \u00b7 Antonio Carlos &amp; Jocafi.\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GSQLVTuqDxk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/onelsonoliveira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Nelson Oliveira<\/a> \u00e9 graduado pela Faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Bahia, atua como jornalista e fot\u00f3grafo, sobretudo nas \u00e1reas de esporte, cultura e comportamento. \u00c9 diretor e editor-chefe da Calciop\u00e9dia, site especializado em futebol italiano. Foi correspondente de Esportes para o Terra em Salvador e j\u00e1 frilou para Trivela e VICE. A foto que abre o texto \u00e9 de Pedro Soares \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Caminhos, viagens e potentes elucubra\u00e7\u00f5es sobre a Bahia, que levaram at\u00e9 a uma compara\u00e7\u00e3o entre as ruas de Salvador e Game of Thrones, adubaram a conversa que a dupla de tr\u00eas teve conosco\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/03\/22\/entrevista-russo-passapusso-e-antonio-carlos-jocafi-viajam-pelas-varias-bahias-contidas-em-alto-da-maravilha-numa-conversa-que-e-pura-poesia-puro-amor\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":79,"featured_media":73436,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[6413,1949],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73431"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=73431"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73431\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73440,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73431\/revisions\/73440"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/73436"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=73431"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=73431"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=73431"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}