{"id":73415,"date":"2023-03-21T01:46:21","date_gmt":"2023-03-21T04:46:21","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=73415"},"modified":"2023-11-22T00:42:29","modified_gmt":"2023-11-22T03:42:29","slug":"literatura-deborah-levy-escreve-e-reescreve-a-propria-historia-numa-autobiografia-viva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/03\/21\/literatura-deborah-levy-escreve-e-reescreve-a-propria-historia-numa-autobiografia-viva\/","title":{"rendered":"Literatura: Em trilogia de livros lan\u00e7ada no Brasil, Deborah Levy escreve e reescreve a pr\u00f3pria hist\u00f3ria numa \u201cautobiografia viva\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gabriel Pinheiro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A autora sul africana Deborah Levy, radicada no Reino Unido, mergulha nos mares profundos e, por vezes, turbulentos de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e carreira em uma trilogia autobiogr\u00e1fica lan\u00e7ada simultaneamente no Brasil pela Aut\u00eantica Contempor\u00e2nea: \u201cCoisas que n\u00e3o quero saber\u201d (tradu\u00e7\u00e3o de Celina Portocarrero e Rog\u00e9rio Bettoni), \u201cO custo de vida\u201d (tradu\u00e7\u00e3o de Adriana Lisboa) e \u201cBens imobili\u00e1rios\u201d (tradu\u00e7\u00e3o de Adriana Lisboa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Coisas que n\u00e3o quero saber<\/strong> <img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-73418 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Coisas-que-nao-quero-saber-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"370\" height=\"568\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Coisas-que-nao-quero-saber-copiar.jpg 370w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Coisas-que-nao-quero-saber-copiar-195x300.jpg 195w\" sizes=\"(max-width: 370px) 100vw, 370px\" \/><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Coisas que n\u00e3o quero saber&#8221; (\u201cThings I Don&#8217;t Want to Know\u201d, 2014) \u00e9 uma resposta de Deborah Levy ao textp &#8220;Por que escrevo&#8221; do escritor George Orwell, datado de 1946. Neste ensaio, o brit\u00e2nico destaca quais seriam, para ele, os quatro grandes motivos para escrever: &#8220;Objetivo pol\u00edtico&#8221;, &#8220;Impulso hist\u00f3rico&#8221;, &#8220;Puro ego\u00edsmo&#8221; e &#8220;Entusiasmo est\u00e9tico&#8221;. S\u00e3o tamb\u00e9m essas quatro raz\u00f5es que d\u00e3o nome aos cap\u00edtulos que comp\u00f5em o livro de Levy, colocando-as em di\u00e1logo com sua pr\u00f3pria obra e trajet\u00f3ria. Ao longo da leitura, Deborah nos mostra como s\u00e3o justamente as coisas que ela n\u00e3o quer saber, aquelas que prefere esquecer, que impulsionam a sua escrita, desde as primeiras tentativas no universo das letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma mulher chora ao longo da curta trajet\u00f3ria percorrida pela escada rolante de uma esta\u00e7\u00e3o de trem. \u00c9 um choro breve, mas intenso e revelador. A mulher \u00e9 a pr\u00f3pria Deborah Levy. &#8220;Numa fase em que a vida estava muito dif\u00edcil e eu guerreava com a minha sorte e simplesmente n\u00e3o via lugar nenhum para onde ir&#8221;. Ela est\u00e1 em Londres, uma terra conquistada, o ex\u00edlio encontrado ainda na inf\u00e2ncia, em companhia dos pais e do irm\u00e3o ap\u00f3s deixarem a terra natal, a \u00c1frica do Sul. Ao longo de \u201cCoisas que n\u00e3o quero saber\u201d, Levy transita por tr\u00eas lugares, tanto f\u00edsicos quanto simb\u00f3licos, na medida em que uma mem\u00f3ria puxa a outra. A inf\u00e2ncia na \u00c1frica do Sul sob o regime do apartheid, o crescimento e a juventude no sub\u00farbio londrino que se transforma no marco de um recome\u00e7o familiar e a ilha espanhola de Maiorca, um ref\u00fagio descoberto pela escritora na maturidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caminhando entre o passado e o presente, a autora nos revela momentos fundamentais de sua vida. Numa noite de 1964, em Joanesburgo, uma pequena Deborah de apenas cinco anos j\u00e1 est\u00e1 na cama, quando batidas irrompem o pequeno bangal\u00f4 de sua fam\u00edlia. \u00c9 a divis\u00e3o especial da pol\u00edcia sul-africana \u00e0 procura do pai. Ap\u00f3s um curto tempo para que ele arrume uma diminuta mala, os policiais saem levando-o. &#8220;Agora os homens o levam embora a passos largos, homens que torturam outros homens e que \u00e0s vezes t\u00eam su\u00e1sticas tatuadas no pulso, sei disso por causa de conversas de papai e mam\u00e3e que entreouvi&#8221;. A crian\u00e7a s\u00f3 voltar\u00e1 a reencontrar o pai, membro do Congresso Nacional Africano, onde lutava pelos direitos humanos e contra o regime do apartheid, quatro anos depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesses quatro anos de dist\u00e2ncia da figura paterna, o sil\u00eancio se imp\u00f5e como condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Deborah n\u00e3o pode explicar a aus\u00eancia do pai na escola. Tamb\u00e9m, n\u00e3o pode usar o pr\u00f3prio sobrenome, de origem judaica, pelo risco que ele carrega em um estado de exce\u00e7\u00e3o. Aos poucos, a crian\u00e7a se fecha, diminui o tom de voz at\u00e9 quase o completo sil\u00eancio. \u201cO volume da minha voz tinha abaixado, e eu n\u00e3o sabia como aument\u00e1-lo\u201d. Mas \u00e9, ainda na inf\u00e2ncia, que a garota descobrir\u00e1 como transmitir seus pensamentos, emo\u00e7\u00f5es e afli\u00e7\u00f5es. Se n\u00e3o pela voz, seria atrav\u00e9s da escrita. \u201cDisseram-me para expressar meus pensamentos em voz alta e n\u00e3o s\u00f3 na minha cabe\u00e7a, mas resolvi escrev\u00ea-los\u201d. \u00c9 bonito acompanh\u00e1-la jovem, j\u00e1 na Inglaterra, no in\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o de sua persona escritora e os ideais que a acompanham neste in\u00edcio rumo \u00e0 conquista futura da pr\u00f3pria voz. \u201cEu sabia que queria ser escritora mais que qualquer coisa no mundo, mas tudo me oprimia e eu n\u00e3o sabia por onde come\u00e7ar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cCoisas que n\u00e3o quero saber\u201d, Deborah Levy constr\u00f3i uma voz marcante, que fala em alto e bom som, sobre uma hist\u00f3ria pessoal que tamb\u00e9m \u00e9, por diversos momentos, uma hist\u00f3ria maior. Seja a hist\u00f3ria de um pa\u00eds ou de uma gera\u00e7\u00e3o. Os quatro cap\u00edtulos, ou ensaios, trazem, ainda, reflex\u00f5es pungentes sobre o feminino e a escrita. Sobre o patriarcado e a recusa ao sil\u00eancio. \u201cPara me tornar escritora, precisei aprender a interromper, a projetar minha voz, a falar um pouco mais alto, e depois mais alto, e depois a simplesmente usar minha pr\u00f3pria voz, que n\u00e3o \u00e9 nada alta\u201d.<\/p>\n<hr>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>O custo de vida&nbsp;<\/strong><\/em><em> <img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-73419 size-full alignright\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/O-custo-de-vida-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"370\" height=\"568\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/O-custo-de-vida-copiar.jpg 370w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/O-custo-de-vida-copiar-195x300.jpg 195w\" sizes=\"(max-width: 370px) 100vw, 370px\" \/><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deborah Levy d\u00e1 in\u00edcio \u00e0 segunda parte de sua autobiografia viva com uma cita\u00e7\u00e3o de Orson Welles, \u201cse queremos um final feliz, depende de onde paramos a hist\u00f3ria\u201d. Em \u201cO custo de vida\u201d (\u201cThe Cost of Living: A Working Autobiography\u201d, 2018), a autora d\u00e1 mais um passo neste projeto de investiga\u00e7\u00e3o de sua hist\u00f3ria \u00edntima, compartilhando conosco as agruras do fim de um casamento, do falecimento da m\u00e3e, da mudan\u00e7a para uma zona perif\u00e9rica da capital londrina, da cria\u00e7\u00e3o das filhas e do desenvolvimento da carreira enquanto escritora. Ou seja, os muitos pratos a serem equilibrados por uma mulher, entre o pessoal e o profissional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um bar na costa caribenha da Col\u00f4mbia, Deborah v\u00ea um homem e uma mulher conversando em uma mesa. Ele \u00e9 muito mais velho que ela, uma jovem de uns dezenove anos. Enquanto a mulher conta uma hist\u00f3ria pessoal, o homem parece pouco se importar. \u201cO que ela dizia era interessante, intenso e estranho. (&#8230;) N\u00e3o ocorrera a ele que ela talvez n\u00e3o se considerasse o personagem secund\u00e1rio e a ele o personagem principal\u201d. O silenciamento e a imposi\u00e7\u00e3o do patriarcado \u00e0 este lugar secund\u00e1rio para o feminino \u00e9 uma das quest\u00f5es que Levy continua investigando neste volume autobiogr\u00e1fico, tanto na pr\u00f3pria hist\u00f3ria quanto naquilo que ela observa ao seu redor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia que aquela mulher no bar caribenho compartilhava com o acompanhante foi um mergulho em mar aberto. Ao retornar \u00e0 superf\u00edcie, a jovem se deparou com uma tempestade: o mar se tornara um redemoinho. Aflita, ela n\u00e3o sabia se conseguiria retornar ao barco. A hist\u00f3ria de outrem se torna tamb\u00e9m uma met\u00e1fora potente para a pr\u00f3pria hist\u00f3ria de Deborah: \u201cQuando eu tinha meus cinquenta anos e minha vida deveria estar desacelerando, se tornando mais est\u00e1vel e previs\u00edvel, ela se tornou mais veloz, inst\u00e1vel e imprevis\u00edvel. Meu casamento era o barco, e eu sabia que se nadasse de volta para ele iria me afogar. (&#8230;) A melhor coisa que fiz foi n\u00e3o nadar de volta para o barco. Mas onde eu deveria ir?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre a escrita de romances e reuni\u00f5es com representantes de est\u00fadios cinematogr\u00e1ficos para a venda dos direitos de seus livros, encontramos em \u201cO custo de vida\u201d uma Deborah Levy j\u00e1 ocupando o lugar de uma escritora internacionalmente reconhecida. O que n\u00e3o significa que ela n\u00e3o precise se preocupar com aqueles custos de vida que o t\u00edtulo do livro carrega: as contas a pagar, o dinheiro insuficiente, a precariedade tanto do lar quanto do lugar de trabalho &#8211; um dep\u00f3sito onde cabiam poucas coisas al\u00e9m da autora e seu computador. \u201cEra muito importante n\u00e3o chegar atrasada \u00e0quela reuni\u00e3o. Havia viagens com a escola a pagar e a conta do g\u00e1s e tamb\u00e9m o terror do meu computador come\u00e7ando a fazer estranhos estalos quando se recusava a desligar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A morte da m\u00e3e \u00e9 outro dos temas fundamentais da obra. \u201cPerdi todo o senso de orienta\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica durante algumas semanas ap\u00f3s a morte da minha m\u00e3e\u201d. A sensa\u00e7\u00e3o de encontrar-se \u00e0 deriva &#8211; aqui tamb\u00e9m remetendo \u00e0 hist\u00f3ria da jovem e o mar turbulento &#8211; ao perder aquela que era o elo entre os seus dois lugares de funda\u00e7\u00e3o e de forma\u00e7\u00e3o, a \u00c1frica e a Inglaterra. A perda \u00e9 mat\u00e9ria para reflex\u00f5es sens\u00edveis e marcantes acerca da maternidade e do passado compartilhado. Em um cap\u00edtulo, a autora nos descreve um longo di\u00e1logo com a m\u00e3e morta. \u201cFalo com minha m\u00e3e pela primeira vez desde a sua morte. Ela est\u00e1 escutando. Eu estou escutando. Isso faz toda a diferen\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas p\u00e1ginas finais de \u201cO custo de vida\u201d, Deborah Levy comenta: \u201cEstava mais interessada num personagem principal feminino ainda n\u00e3o escrito\u201d. No fim, talvez essa personagem almejada seja a pr\u00f3pria autora transformada em texto. A possibilidade de escrever e reescrever a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, a pr\u00f3pria vida. \u201cA escrita que voc\u00ea est\u00e1 lendo agora \u00e9 feita de custo de vida, e \u00e9 feita com tinta digital\u201d.<\/p>\n<hr>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Bens imobili\u00e1rios&nbsp;<\/strong> <img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-73417 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Bens-imobiliarios-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"370\" height=\"568\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Bens-imobiliarios-copiar.jpg 370w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Bens-imobiliarios-copiar-195x300.jpg 195w\" sizes=\"(max-width: 370px) 100vw, 370px\" \/><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cBens imobili\u00e1rios\u201d (\u201cReal Estate\u201d, 2021) \u00e9 o \u00faltimo volume da \u201cautobiografia viva\u201d de Deborah Levy. Agora, Levy j\u00e1 \u00e9 uma escritora consolidada, um reconhecimento conquistado na casa dos cinquenta anos. Enquanto viaja por diferentes pa\u00edses &#8211; em compromissos de trabalho, para encontrar amigos, para resolver quest\u00f5es acerca do falecimento de sua madrasta &#8211; a autora lida com a partida iminente da filha ca\u00e7ula para a universidade e a poss\u00edvel \u201cs\u00edndrome do ninho vazio\u201d que poder\u00e1 resultar dessa separa\u00e7\u00e3o. Enquanto isso, ela reflete sobre o pr\u00f3prio fazer liter\u00e1rio, o lugar da mulher dentro deste mercado e fantasia um lar dos sonhos, seu bem imobili\u00e1rio ideal. \u201cAt\u00e9 ent\u00e3o, no meu portf\u00f3lio de propriedades, eu possu\u00eda um apartamento no meu malconservado pr\u00e9dio, tr\u00eas bicicletas el\u00e9tricas e tr\u00eas cavalinhos de carrossel, de madeira, do Afeganist\u00e3o\u201d;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quase em paralelo \u00e0 partida da filha mais nova para a universidade, Deborah Levy recebe o convite para uma resid\u00eancia em Paris. Assim, a escritora vive essa separa\u00e7\u00e3o de maneira dupla &#8211; a separa\u00e7\u00e3o da filha, a separa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds &#8211; enquanto mob\u00edlia o pequeno apartamento parisiense onde viver\u00e1 por um breve per\u00edodo para que este se transforme tanto num lar, quanto num espa\u00e7o onde seja poss\u00edvel criar. \u201cOlhei ao redor para o apartamento desguarnecido. Ent\u00e3o era assim um ninho vazio. Ermo. Ou era simplesmente desobstru\u00eddo, leve e espa\u00e7oso?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo a terceira parte de um trilogia, \u00e9 impressionante como Deborah Levy mant\u00e9m o vigor &#8211; na verdade, segue num crescente &#8211; de seu texto aqui. \u201cBens imobili\u00e1rios\u201d \u00e9 o mais fragmentado dos tr\u00eas volumes desta \u201cautobiografia viva\u201d, talvez o mais dif\u00edcil de definir. Mas \u00e9 nele que a autora nos apresenta algumas de suas reflex\u00f5es mais tocantes e sagazes sobre si pr\u00f3pria, sobre seu trabalho e sobre o mundo que a rodeia. \u201cAcho que meu prop\u00f3sito liter\u00e1rio era pensar livremente, ou, antes, que os livros falassem livremente em meu lugar. Se isso parece f\u00e1cil e \u00f3bvio, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, nem na p\u00e1gina nem na vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deborah Levy descreve por diversas vezes o seu lar ideal. Um casar\u00e3o com uma lareira em forma de ovo, numa regi\u00e3o de clima quente, perto de um lago ou do mar. \u201cUma vida sem poder nadar todos dias n\u00e3o era uma vida que eu queria\u201d. Este anseio por um lugar idealizado parece mov\u00ea-la ao longo das p\u00e1ginas. \u201cVenho carregando essa casa dentro de mim a vida inteira\u201d. Se este casar\u00e3o permanece no terreno dos sonhos &#8211; digamos que uma regi\u00e3o tamb\u00e9m de clima quente, al\u00e9m de f\u00e9rtil &#8211; \u00e9 bonita a conclus\u00e3o da autora, nas p\u00e1ginas finais do volume, sobre quais os bens imobili\u00e1rios que ela construiu ao longo da vida e como eles permanecer\u00e3o para al\u00e9m dela pr\u00f3pria, para a posteridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestas tr\u00eas partes de sua \u201cautobiografia viva\u201d, Deborah Levy transforma a si pr\u00f3pria em personagem. Uma personagem mutante, em constante desenvolvimento, que n\u00e3o deixa de nos surpreender ao longo das p\u00e1ginas de cada livro. Seja pelas decis\u00f5es, pelas reflex\u00f5es pungentes e pelo olhar sempre atento para as coisas que a rodeiam. \u201cEnt\u00e3o, agora que eu era um personagem feminino de sessenta anos, ao mesmo tempo ainda n\u00e3o escrito e constantemente reescrevendo o roteiro, o que eu valorizava, possu\u00eda, descartava e legava?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-73420 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Sem-Titulo-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"541\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Sem-Titulo-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Sem-Titulo-1-300x216.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013 Gabriel Pinheiro \u00e9 jornalista. Escreve sobre suas leituras tamb\u00e9m no Instagram:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@tgpgabriel<\/a>.&nbsp;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A autora sul africana Deborah Levy, radicada no Reino Unido, mergulha nos mares profundos e, por vezes, turbulentos de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e carreira em uma trilogia autobiogr\u00e1fica&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/03\/21\/literatura-deborah-levy-escreve-e-reescreve-a-propria-historia-numa-autobiografia-viva\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":112,"featured_media":73427,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[6608],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73415"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=73415"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73415\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73430,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73415\/revisions\/73430"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/73427"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=73415"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=73415"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=73415"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}