{"id":73047,"date":"2023-03-03T02:44:15","date_gmt":"2023-03-03T05:44:15","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=73047"},"modified":"2023-04-30T00:41:36","modified_gmt":"2023-04-30T03:41:36","slug":"entrevista-na-decada-de-1970-eu-era-exatamente-isso-que-sou-hoje-diz-odair-jose-que-aqui-fala-de-passado-presente-e-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/03\/03\/entrevista-na-decada-de-1970-eu-era-exatamente-isso-que-sou-hoje-diz-odair-jose-que-aqui-fala-de-passado-presente-e-futuro\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;Quero ser uma pessoa melhor&#8221;, diz Odair Jos\u00e9, que rememora sucessos e fracassos enquanto pensa no futuro"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">53 anos de carreira em uma trajet\u00f3ria marcada por apogeu, queda e recupera\u00e7\u00e3o, e uma produ\u00e7\u00e3o celebrada e relevante. Esse conjunto de predicados se aplica para poucas pessoas, e mesmo assim s\u00e3o palavras que contam apenas o b\u00e1sico sobre Odair Jos\u00e9 de Ara\u00fajo. Ele \u00e9 talvez o compositor popular que melhor dialogou com o rock. Ou talvez o roqueiro que mais perto chegou de falar com as massas. Suas melodias simples e eficientes conviviam muito bem com o desejo de sofistica\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o que tantas vezes manifestou ao longo da carreira. Mas tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio lembrar que, como ele mesmo diz, boa parte da sua carreira foi sem brilho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso porque a frustra\u00e7\u00e3o com o \u00e1lbum \u201cO Filho de Jos\u00e9 e Maria\u201d (1977) provocou um grande desvio de uma trajet\u00f3ria de enorme sucesso, que at\u00e9 ent\u00e3o o colocava como um dos artistas mais populares do Brasil. Embora chamado de \u201c\u00f3pera rock\u201d, \u201cO Filho de Jos\u00e9 e Maria\u201d era mais um \u00e1lbum conceitual sobre um Jesus contempor\u00e2neo, negro e meio queer. Se hoje isso soa ousado, imagine em plena ditadura militar! Valorizado pela nova gera\u00e7\u00e3o como uma esp\u00e9cie de tesouro perdido da m\u00fasica brasileira, o \u00e1lbum foi massacrado pela cr\u00edtica e teve vendas decepcionantes, provocando um baque do qual Odair levou muitos anos para se recuperar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas muitos eventos recolocaram Odair em seu pr\u00f3prio caminho, tanto na vida pessoal como na art\u00edstica. O livro \u201cEu N\u00e3o Sou Cachorro, N\u00e3o\u201d, de Paulo C\u00e9sar de Ara\u00fajo, foi o primeiro deles. Lan\u00e7ada em 2002, a obra coloca os cantores realmente populares dos anos 1970 \u2013 como Odair, Waldick Soriano, Agnaldo Tim\u00f3teo e outros \u2013 sob uma \u00f3tica at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dita de artistas que se comunicavam com a massa, e que sofreram tanto ou mais censura quanto os medalh\u00f5es da MPB incensados pela intelligentsia da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois veio o celebrado tributo \u201cVou Tirar Voc\u00ea desse Lugar\u201d, lan\u00e7ado pela Allegro Discos, um bom disco em parceria com Zeca Baleiro (\u201cPra\u00e7a Tiradentes\u201d, de 2012), e uma sequ\u00eancia de tr\u00eas discos que eram, literalmente, um melhor que o outro: \u201cDia 16\u201d (2015), \u201cGatos e Ratos\u201d (2016) e \u201cHibernar na Casa das Mo\u00e7as Ouvindo R\u00e1dio\u201d (2019), todos mais pr\u00f3ximos de um est\u00e9tica roqueira, \u201cguitarreira\u201d, com letras que, como nos melhores momentos de sua carreira, cutucaram a hipocrisia da sociedade brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Odair quer mais. Mesmo aos 74 anos, h\u00e1 vontade de fazer algo diferente, maior e mais relevante. E esse disco vindouro foi o pretexto para uma longa conversa, via chamada de v\u00eddeo, com o Scream &amp; Yell. Este rep\u00f3rter havia tido algumas longas conversas com Odair Jos\u00e9 antes de sua apresenta\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/12\/03\/ao-vivo-odair-jose-promove-a-noite-mais-linda-do-mundo-na-festa-das-nacoes-de-paraiso-do-norte-pr\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">na Festa das Na\u00e7\u00f5es de Para\u00edso do Norte<\/a> (PR), e aproveitou as informa\u00e7\u00f5es para fazer uma pauta com Odair que falasse n\u00e3o apenas sobre quest\u00f5es do passado e do presente, mas sobre o porqu\u00ea de uma carreira art\u00edstica, sobre as li\u00e7\u00f5es colhidas na frustra\u00e7\u00e3o, sobre arrependimentos e sobre detalhes que tornam a experi\u00eancia musical mais prazerosa. Enfim, sobre a vida. E Odair tem muito a dizer. Senta que l\u00e1 vem boas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Odair Jos\u00e9 ao Vivo Theatro Municipal S\u00e3o Paulo Filho de Jos\u00e9 e Maria.\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/O_LvipOV1Ck?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea lan\u00e7ou o \u201cHibernar na Casa das Mo\u00e7as Ouvindo R\u00e1dio\u201d em 2019, um disco no qual voc\u00ea colocou muito empenho, e com o qual voc\u00ea estava bastante satisfeito. A turn\u00ea dele estava indo muito bem at\u00e9 que ela foi interrompida pela pandemia. Como isso impactou sua rela\u00e7\u00e3o com esse material? Voc\u00ea tem a inten\u00e7\u00e3o de voltar a explorar esse disco em shows ou acha que o que aconteceu foi uma fatalidade e agora \u00e9 melhor deixar para tr\u00e1s?<\/strong><br \/>\nDeixar para tr\u00e1s, n\u00e3o. Esse disco foi um projeto para 2019, que foi pensado em uma medida que\u2026 Na verdade, eu gosto de dizer que ele \u00e9 o segundo \u201cO Filho de Jos\u00e9 e Maria\u201d, considerando o formato. E que ser\u00e1 tamb\u00e9m o formato do meu novo \u00e1lbum, que eu ainda n\u00e3o gravei, que \u00e9 o \u201cSeres Humanos\u201d. Que formato \u00e9 esse? \u00c9 o de m\u00fasicas que se encaixam em uma ideia \u00fanica. No caso do \u201cFilho de Jos\u00e9 e Maria\u201d, eu falava de um personagem, no \u201cOuvindo R\u00e1dio\u2026\u201d eu falei de um local onde as coisas todas aconteciam, e nesse pr\u00f3ximo que epretendo fazer vou falar da gente como ser humano, de um modo geral. Ou seja, vou fazer uma leitura do ser humano da forma que eu o estou vendo. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/06\/24\/tres-discos-zeca-baleiro-dario-julio-os-franciscanos-odair-jose\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O \u201cHibernar\u201d foi um disco muito oportuno praquele momento<\/a>. Voc\u00ea sabe como s\u00e3o as grava\u00e7\u00f5es de um disco: voc\u00ea pensa uma coisa, vai para o est\u00fadio e, na maioria das vezes, n\u00e3o acontece muito bem o que voc\u00ea pensou. \u00c0s vezes voc\u00ea vai para um outro caminho, se surpreende com coisas que aparecem na hora ali no est\u00fadio, \u00e0s vezes positivamente e outras at\u00e9 negativamente. Mas o \u201cHibernar\u201d chegou num objetivo bem pr\u00f3ximo do que tinha sido pensado, e ia render muito no palco. N\u00f3s fizemos alguns shows antes da pandemia interromper tudo, e as pessoas estavam achando bem legal, o disco crescia bastante no palco, mas a\u00ed aconteceu o que aconteceu. At\u00e9 hoje estou tocando algumas coisas do disco, qualquer m\u00fasica que eu coloco no setlist a banda gosta de tocar. Quando fiz \u201cO Filho de Jos\u00e9 e Maria\u201d, houve uma rejei\u00e7\u00e3o por parte do p\u00fablico e da m\u00eddia \u2013 de tudo, n\u00e9? Uma rejei\u00e7\u00e3o geral, porque era diferente daquilo que as pessoas estavam acostumadas. E a\u00ed, com o \u201cHibernar\u2026\u201d, eu falei \u201cp\u00f4, [essa rejei\u00e7\u00e3o] \u00e9 uma coisa que a gente tem que evitar\u201d. Voc\u00ea tem que lembrar que as pessoas n\u00e3o est\u00e3o acostumadas a ver o diferente. Ao mesmo tempo, j\u00e1 falei v\u00e1rias vezes que, quando voc\u00ea repete f\u00f3rmulas, n\u00e3o est\u00e1 fazendo arte, e sim neg\u00f3cios. N\u00e3o estou aqui para fazer neg\u00f3cio, estou aqui para fazer \u2013 pelo menos no meu entender \u2013 arte. E agora, quando a gente toca as m\u00fasicas do \u201cHibernar\u2026\u201d, como por exemplo, \u201cRapaz Caipira\u201d ou \u201cFora da Tela\u201d, as pessoas gostam. Mesmo elas tendo uma forma harmonicamente nova ou trazendo um modo diferente de dizer as coisas, as pessoas gostam. Para mim, isso j\u00e1 bastou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando se fala nos seus discos mais recentes \u2013 \u201cDia 16\u201d, \u201cGatos e Ratos\u201d e \u201cHibernar\u2026\u201d, eles s\u00e3o sempre apresentados como uma trilogia, por causa de uma suposta identidade est\u00e9tica. Reconhe\u00e7o que, para mim, os tr\u00eas soam diferentes entre si. O que vejo de semelhan\u00e7a entre eles \u00e9 um desenho de produ\u00e7\u00e3o mais contempor\u00e2neo, a proposta mais roqueira. Mas a tem\u00e1tica, at\u00e9 algumas quest\u00f5es est\u00e9ticas, s\u00e3o diferentes, principalmente comparando o \u201cDia 16\u201d com o \u201cHibernar\u2026\u201d. Mas de qualquer forma, voc\u00ea est\u00e1 dizendo que eles n\u00e3o s\u00e3o uma trilogia de verdade, \u00e9 isso?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o. Eles s\u00e3o uma trilogia, sim. A liga\u00e7\u00e3o entre \u201cO Filho de Jos\u00e9 e Maria\u201d, \u201cHibernar\u201d e esse \u201cSeres Humanos\u201d \u00e9 que eles t\u00eam o contexto de uma m\u00fasica ligada na outra. Uma \u00f3pera, n\u00e9? Como se fosse uma operazinha. Mas esses tr\u00eas discos mais recentes s\u00e3o uma trilogia. Concordo com voc\u00ea que s\u00e3o diferentes, mas esteticamente h\u00e1 um eixo comum. Em alguns momentos, acho que \u00e9 at\u00e9 besteira fazer mais discos, penso comigo \u201cn\u00e3o vou gravar mais nada\u201d. Quando fiz o disco \u201cPra\u00e7a Tiradentes\u201d (2012) com o Zeca Baleiro, foi porque ele insistiu para fazermos um disco juntos, que ele queria produzir e tal. Eu falei: \u201cN\u00e3o estou a fim de gravar mais, Zeca. J\u00e1 fiz muita coisa\u201d. Ele retrucou: \u201cEnt\u00e3o vamos fazer mais um, que seja o \u00faltimo\u201d. Fiz. E depois lancei mais tr\u00eas discos, e o Zeca at\u00e9 hoje briga comigo: \u201cP\u00f4, mas n\u00e3o era o \u00faltimo?\u201d (risos) Mas eu fiz porque, quando fui para o \u201cDia 16\u201d, percebi que eu poderia fazer naquele momento um disco como eu fazia no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970: eu penso o disco, fa\u00e7o as can\u00e7\u00f5es, penso a capa e penso como vai ser gravado, como v\u00e3o ser os arranjos e tudo. A\u00ed vou para o est\u00fadio e gravo sem ningu\u00e9m se meter naquilo. Enquanto estou fazendo um disco assim, aceito \u00e0s vezes que o m\u00fasico, o cara que est\u00e1 me ajudando, d\u00ea uma ideia, mas a ideia n\u00e3o pode tirar o meu foco. Quando gravei e fiz sucesso, aquele sucesso muito grande l\u00e1 na d\u00e9cada de 70, foi porque me foi permitido isso, porque conquistei esse direito. Porque quando eu gravava e fazia muito sucesso, n\u00e3o tinha esse neg\u00f3cio do produtor ou da gravadora se meter. Quando isso acontece, meu trabalho deixa de ser interessante \u2013 pelo menos para mim. Do ano de 1980 para a frente, foi quando deixei as pessoas se meterem. Porque depois do \u201cFilho de Jos\u00e9 e Maria\u201d houve aquela rachadura, aquele terremoto, aquela fissura toda. Os dois discos seguintes eu ainda fiz pela minha cabe\u00e7a, que foram o \u201cCoisas Simples\u201d (1978), que acho um disco muito bom e \u00e9 p\u00f3s-\u201dO Filho do Jos\u00e9 e Maria\u201d, e depois fa\u00e7o aquele disco da capa branca, que acho que n\u00e3o tem t\u00edtulo, ou se tem, se chama \u201cAt\u00e9 Parece um Sonho\u201d (nota: na verdade, se chama apenas \u201cOdair Jos\u00e9\u201d, de 1979), que teve umas m\u00fasicas em trilha de novela, essas coisas. At\u00e9 ent\u00e3o, era sempre com o Azymuth. A\u00ed, depois de 1980 para frente, eu deixei a gravadora tomar conta. Ela ia l\u00e1 e contratava, porque dizia que eu era maluco, estava ficando doido, tinha umas ideias que n\u00e3o funcionavam, etc&#8230; Foi quando comecei a fazer discos da maneira que os produtores e as gravadoras queriam. E isso n\u00e3o \u00e9 legal. Agora, do \u201cDia 16\u201d para c\u00e1, voltei a fazer isso. E fa\u00e7o aquilo que me d\u00e1 na telha porque me permito, porque o est\u00fadio \u00e9 meu, a grana \u00e9 minha, quem faz sou eu, quem vai lan\u00e7ar sou eu, ent\u00e3o\u2026 (risos)<br \/>\n.<br \/>\n<strong>Quando voc\u00ea foi tocar em Para\u00edso do Norte em novembro do ano passado, conversamos e voc\u00ea falou que o \u201cSeres Humanos\u201d \u00e9 \u201co disco que voc\u00ea sempre quis fazer\u201d. Mas voc\u00ea acabou de dizer que houve um per\u00edodo em que voc\u00ea fazia os discos segundo a sua cabe\u00e7a, e que voc\u00ea vem fazendo isso novamente desde o \u201cDia 16\u201d. Em que sentido, ent\u00e3o, esse novo disco vai ser diferente?<\/strong><br \/>\nPor que eu vou para o est\u00fadio? Aos 74 anos de idade, 53 gravando, vou para o est\u00fadio para desenvolver aquela ideia. N\u00e3o a ideia que algu\u00e9m est\u00e1 mandando para voc\u00ea participar apenas como um int\u00e9rprete ou coisa do g\u00eanero, ou at\u00e9 mesmo como um cara do mercado. No \u201cSeres Humanos\u201d e nos outros, a ideia \u00e9 sempre passar uma conversa, uma mensagem para as pessoas. Essa \u00e9 a primeira coloca\u00e7\u00e3o: quero fazer m\u00fasicas que consigam levar as pessoas a uma reflex\u00e3o. Geralmente, os meus convites s\u00e3o para refletir sobre si mesmo, esse \u00e9 o primeiro barato. O que acho \u00e9 que agora vou fazer uma reflex\u00e3o nova dentro do meu trabalho. Paralelo a isso, a gente vai tentar fazer uma coisa nova no jeito de gravar, de tocar. N\u00e3o digo de arranjo, porque isso \u00e9 algo que a gente faz muito na base da bandinha mesmo, da coisa de garagem. Evidentemente n\u00e3o vai trazer muita novidade, at\u00e9 porque o mundo todo j\u00e1 fez, e cada um s\u00f3 vai repetir as coisas \u00e0 sua maneira. Mas o que me leva a achar que esse disco vale a pena ser gravado \u00e9 esse pensamento da mensagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda nesse aspecto da mensagem: em v\u00e1rias entrevistas do \u201cHibernar na Casa das Mo\u00e7as\u2026\u201d, voc\u00ea falou que nunca vivemos tempos t\u00e3o ruins como o que ent\u00e3o viv\u00edamos. Passados quatro anos, temos essa ascens\u00e3o do autoritarismo no mundo, um cen\u00e1rio econ\u00f4mico desolador, uma forte explora\u00e7\u00e3o do trabalho, toda a quest\u00e3o clim\u00e1tica, uma s\u00e9rie de coisas muito ruins. J\u00e1 que o \u201cSeres Humanos\u201d se prop\u00f5e a falar da humanidade, a refletir sobre ela, voc\u00ea acha que vai conseguir apontar alguma ideia de esperan\u00e7a pra esses tempos? Ou vai acabar sendo algo mais visceral, de desabafo e cr\u00edtica, como foi \u201cHibernar\u2026\u201d?<\/strong><br \/>\nEu sou uma pessoa otimista. Nasci otimista e sou sempre assim, mesmo quando a coisa desanda. Mas nunca fui otimista demais. Meu otimismo \u00e9 no sentido de \u201cse n\u00e3o tem outro jeito, vamos encarar, e n\u00e3o entrar em desespero\u201d. Mas continuo achando que tanto pol\u00edtica tanto economicamente, o mundo est\u00e1 de ponta-cabe\u00e7a, como digo na can\u00e7\u00e3o \u201cHibernar\u201d. Mas ser\u00e1 que a gente n\u00e3o pode dizer que o mundo est\u00e1 de ponta-cabe\u00e7a desde a Idade da Pedra? Desde as Cruzadas? O planeta, de modo geral, n\u00e3o est\u00e1 legal. Tem coisas que me incomodam profundamente. Por exemplo: n\u00e3o sou contra a agricultura, mas o agroneg\u00f3cio\u2026 Dizem que o Brasil \u00e9 o celeiro do mundo, um grande produtor de alimentos, \u201conde se planta tudo d\u00e1\u201d&#8230; e tem um monte de gente passando fome? Posso estar totalmente enganado, pode ser que as pessoas que me escutem e digam que eu n\u00e3o entendo de nada, mas acho o agroneg\u00f3cio, como \u00e9 hoje, um neg\u00f3cio que vai ser bom s\u00f3 para quem tem grana, malandro. Isso n\u00e3o est\u00e1 melhorando o planeta em nada. O planeta est\u00e1 sendo machucado constantemente, e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a falta de respeito pela \u00e1rvore. N\u00e3o h\u00e1 respeito pelo bicho, n\u00e3o h\u00e1 respeito por nada. O mundo tem uma preocupa\u00e7\u00e3o muito grande com o desmatamento no mundo inteiro, mas voc\u00ea v\u00ea que \u00e9 uma coisa que n\u00e3o tem muito como frear, fica s\u00f3 no bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1, como diz aquela menina que anda pelo mundo protestando (Nota: a Greta Thunberg). Tem um lado da pol\u00edtica que se preocupa com o ser humano, com o planeta. Inclusive acho que agora, no Brasil, foi eleito um governo que se preocupa com isso. Mas essa n\u00e3o \u00e9 a regra, \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sou nem de direita nem de esquerda, eu sou a favor das coisas que acho justas, como a igualdade. N\u00e3o consigo entender a desigualdade. N\u00e3o aceito o cara ser a favor de um regime de governo que n\u00e3o tem consci\u00eancia social. Se voc\u00ea n\u00e3o tem consci\u00eancia social, para mim, voc\u00ea n\u00e3o serve como pessoa, n\u00e3o ser\u00e1 um ser humano legal. Tudo passa pela pol\u00edtica, pelo mundo em que n\u00f3s estamos vivendo, e o \u201cSeres Humanos\u201d vai ser tipo um alerta. N\u00e3o ser\u00e1 apenas um desabafo, como voc\u00ea colocou, mas tamb\u00e9m cr\u00edtica. Eu tamb\u00e9m me coloco a\u00ed como ser humano, fazendo uma cr\u00edtica, mas algo assim: \u201c\u00d3, presta aten\u00e7\u00e3o na hipocrisia da forma que voc\u00ea se comporta, presta aten\u00e7\u00e3o na ambi\u00e7\u00e3o, no ego\u00edsmo e presta aten\u00e7\u00e3o, principalmente, na \u2018involu\u00e7\u00e3o\u2019 do ser humano como pessoa\u201d.<br \/>\n.<br \/>\n<strong>Voc\u00ea citou o governo atual, legitimamente eleito. De alguns anos para c\u00e1, voc\u00ea passou a ter uma atua\u00e7\u00e3o mais direta com quest\u00f5es pol\u00edticas. Sua obra sempre teve um car\u00e1ter social, mas a partir do momento da pris\u00e3o do Lula, voc\u00ea adotou um envolvimento mais direto. Tocou em v\u00e1rios eventos Lula Livre, disse abertamente que a pris\u00e3o foi arbitr\u00e1ria, levou tudo isso como parte da pauta n\u00e3o s\u00f3 de entrevistas, mas tamb\u00e9m em momentos que voc\u00ea falava ao vivo. O que te levou a assumir essa atua\u00e7\u00e3o mais expl\u00edcita e mais direta nesses \u00faltimos tempos?<\/strong><br \/>\nEu achei necess\u00e1rio, vamos colocar assim. Por exemplo, uma vez n\u00f3s est\u00e1vamos na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, em S\u00e3o Paulo, participando do um daqueles momentos do Lula Livre, e eu soube que a Gleisi Hoffmann teria comentado: \u201cah, que interessante, que engra\u00e7ado n\u00e9? Eu n\u00e3o sabia que podia contar com o Odair Jos\u00e9 e agora ele est\u00e1 a\u00ed, ativamente participando e tal\u201d. Eu n\u00e3o estava l\u00e1, mas o meu filho Rafael (nota: tamb\u00e9m produtor dos shows de Odair) estava junto nesse momento e falou: \u201c\u00c9 que a gente s\u00f3 aparece quando realmente achamos necess\u00e1rio aparecer\u201d&#8230; Como voc\u00ea disse, eu participava politicamente com as minhas m\u00fasicas. Sempre bati naquilo que eu acreditava que tinha que bater. N\u00e3o tinha m\u00fasica falando de empregada dom\u00e9stica, isso nem era visto como profiss\u00e3o, e a\u00ed eu fui l\u00e1 falar. A puta estava sendo discriminada, eu fui l\u00e1 falar. A p\u00edlula anticoncepcional era vendida como coisa do diabo, eu fui l\u00e1 falar. A minha fun\u00e7\u00e3o como compositor sempre foi de levar a minha opini\u00e3o, mas de forma a levar o p\u00fablico a prestar aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de pregar. Por exemplo, no caso da p\u00edlula: eu fui at\u00e9 o Governo Federal para tentar liberar a obra, que tinha sido proibida depois de ter sido lan\u00e7ada. Me disseram que tinha sido porque o governo tinha um projeto de distribuir p\u00edlulas anticoncepcionais e que minha m\u00fasica ia contra o projeto. Eu falei que, se deixasse a minha m\u00fasica tocar no r\u00e1dio, o projeto daria super certo. Disse at\u00e9 que podiam usar a m\u00fasica no projeto, se quisessem. Porque eu falo pra pessoas que tem a mente mais fechada, que s\u00e3o mais ressabiadas com as coisas, s\u00e3o mais simples. Elas n\u00e3o t\u00eam informa\u00e7\u00f5es aprofundadas. O que eu estava tentando dizer \u00e9 que o anticoncepcional \u00e9 uma coisa comum, \u00e9 uma coisa apenas pra mulher ter mais liberdade do corpo. Mas n\u00e3o adiantou, a m\u00fasica continuou barrada, e mesmo proibida foi um sucesso. E o projeto deles foi um fracasso danado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voltando \u00e0 quest\u00e3o do engajamento atual\u2026<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o, me incomodava aquilo que eu estava vendo. Conhe\u00e7o o Lula desde a \u00e9poca em que ele apareceu na vida p\u00fablica, como um sindicalista, l\u00e1 por 1978. Foi mais ou menos nessa \u00e9poca que ele apareceu para o Brasil. Eu j\u00e1 tinha visto o Lula andando com Chico Buarque no Rio, em um campo de futebol onde a gente jogava, que era na f\u00e1brica da Polygram. Ent\u00e3o eu j\u00e1 sabia das inten\u00e7\u00f5es dele, e quando ele foi eleito, fez um excelente governo. Por duas vezes. Foi excelente pro povo, pro Brasil, pra todo mundo, tanto que o Lula \u00e9 respeitado no mundo inteiro. A\u00ed, de repente, eu comecei a ver umas coisas que n\u00e3o batiam uma com a outra, e que indicavam que o Lula podia ser preso. E isso era justamente por uma quest\u00e3o pol\u00edtica, tanto que o cara que o prendeu hoje \u00e9 Senador da Rep\u00fablica, n\u00e9? Voc\u00ea v\u00ea como a coisa era mal-intencionada mesmo. A m\u00fasica \u201cGatos e Ratos\u201d foi feita nesse momento, nasceu dessa percep\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o sabia ainda qual era o rolo, porque a coisa s\u00f3 foi ficar clara quando tiraram a Dilma, e ficou mais clara ainda em 2018. Ent\u00e3o eu me envolvi diretamente porque eu acreditei naquilo. Eu acreditei que o Lula n\u00e3o merecia ser preso, que o Brasil estava sendo sacaneado. Eu falava uma frase no palco em todos os Lula Livres que fiz, que era: \u201cN\u00e3o podemos virar as costas para quem sempre nos olhou de frente \u2013 Lula livre!\u201d. At\u00e9 brinquei com ele em Recife, quando ele j\u00e1 tinha sa\u00eddo da pris\u00e3o e a gente se cruzou no \u00faltimo Lula Livre com a presen\u00e7a dele. Nem sei se ele se recorda, era tanta coisa na cabe\u00e7a dele naquele momento, mas eu disse: \u201cN\u00e3o podemos virar as costas pra quem sempre nos olhou de frente \u2013 Lula livre, Lula inocente, e daqui a pouco, Lula presidente\u201d. Ele co\u00e7ou a cabe\u00e7a, disse que n\u00e3o sabia se ia concorrer, que era muito complicado\u2026 Mas sim, me envolvi porque eu acreditei e acredito que \u00e9 a melhor coisa que podia acontecer ao pa\u00eds era o Lula voltar a ser livre. A pris\u00e3o dele foi uma sacanagem de alguns setores da sociedade, e me lembro que eu via muito a m\u00eddia caindo nas hist\u00f3rias do juiz [Sergio Moro] e mostrando aquilo como se fosse uma grande verdade. N\u00e3o era, era uma grande mentira, e eu peguei tudo isso como se fosse uma cruzada. Gra\u00e7as a Deus, deu tudo certo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Odair Jos\u00e9  - Gatos e Ratos (2016)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UXcmTu9xxZc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Diante disso, como foi a sensa\u00e7\u00e3o de tocar em Bras\u00edlia como uma das atra\u00e7\u00f5es da festa da posse?<\/strong><br \/>\nEu sempre acreditei que a posse iria acontecer. Toda a movimenta\u00e7\u00e3o para que ele sa\u00edsse da pris\u00e3o. Ele saiu, rolou, j\u00e1 estava bom. Mas a\u00ed, de repente, recupera os direitos pol\u00edticos. P\u00f4, maravilha! Agora vamos ver se o cara se elege. Mas criou-se uma coisa t\u00e3o forte de que o cara \u00e9 ladr\u00e3o, desonesto, corrupto, n\u00e3o sei o que. Isso \u00e9 tudo inventado! Todo governo tem seus erros, o sistema tem falhas, \u00e0s vezes h\u00e1 falhas na sua pr\u00f3pria administra\u00e7\u00e3o familiar. Ent\u00e3o, quando o Lula ganhou, eu fiquei muito feliz. Nem fazia muita quest\u00e3o de ir tocar na posse, porque eu sabia que j\u00e1 tinha muita gente indo. At\u00e9 comentei com o Beto [Vizzotto, prefeito de Para\u00edso do Norte] que eu n\u00e3o iria, e ele disse que eu tinha que ir, porque tinha tocado em todos os eventos Lula Livre. Ent\u00e3o eu fui e foi muito legal. Fiquei muito feliz de ver aquela multid\u00e3o feliz. Foi um momento \u00fanico e bom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Retomando as quest\u00f5es art\u00edsticas: os seus \u00faltimos discos tiveram a participa\u00e7\u00e3o do seu filho, J\u00fanior Freitas. Ele toca na sua banda h\u00e1 um bom tempo, inclusive. Ele chega a ser um interlocutor musical, algu\u00e9m que est\u00e1 participando do processo criativo junto com voc\u00ea, ou mais um integrante da sua banda, sem tanta participa\u00e7\u00e3o direta na concep\u00e7\u00e3o das coisas?<\/strong><br \/>\nBom voc\u00ea ter tocado nesse assunto. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/05\/25\/entrevista-odair-jose-fala-de-dia-16\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Quando fiz o \u201cDia 16\u201d<\/a>, liguei pro Alexandre Fontanetti [do est\u00fadio Space Blues] e perguntei se ele estava com o est\u00fadio dispon\u00edvel. Ele perguntou como eu pretendia fazer, e eu disse que n\u00e3o precisava de m\u00fasicos, era s\u00f3 arrumar o est\u00fadio e eu ia levar meu baterista e meu filho para tocar. Ele ficou: \u201cComo assim?\u201d. O Junior n\u00e3o \u00e9 tanto um virtuose, mas ele toca bem v\u00e1rios instrumentos. Se voc\u00ea der um tempo para ele, ele toca qualquer coisa. Ainda n\u00e3o se meteu a tocar bateria, mas programa bateria, sabe tudo desses plugins da vida, ele tem uma artilharia de coisas. Ent\u00e3o ele \u00e9 importante, mas n\u00e3o tem uma participa\u00e7\u00e3o direta na cria\u00e7\u00e3o da ideia. A m\u00fasica, os discos, s\u00e3o meus. E ele tamb\u00e9m n\u00e3o decide como eu vou gravar, isso eu decido. Mas os m\u00fasicos sempre d\u00e3o ideias, dizem \u201cpor que voc\u00ea n\u00e3o faz assim em vez de assado?\u201d. E eu os ou\u00e7o, avalio, e \u00e0s vezes mudo. Isso me ajuda. Eu tinha vontade de fazer esse disco agora, o \u201cSeres Humanos\u201d, com o Mam\u00e3o (Ivan Conti), o Alexandre (Malheiros) e o Kiko (Continentino \u2013 todos integrantes do Azymuth). Pretendia ir para o est\u00fadio para tocar com eles, e depois eu ia fazer as partes das guitarras da minha maneira. J\u00e1 ia deixar a base de baixo, bateria e teclado com eles. Mas isso est\u00e1 ficando cada vez mais distante, mais invi\u00e1vel, at\u00e9 pela nossa idade e porque moramos em cidades diferentes. Al\u00e9m disso, hoje em dia as pessoas n\u00e3o est\u00e3o muito a fim de ir para um est\u00fadio. Quando voc\u00ea procura a pessoa, ela diz, \u201cAh, voc\u00ea manda para mim que eu fa\u00e7o aqui no meu home studio, t\u00e1?\u201d As pessoas est\u00e3o muito nessa vibe, ent\u00e3o isso (com o Azymuth) est\u00e1 cada vez mais distante de acontecer. Ent\u00e3o devo gravar esse da forma que eu gravei o \u201cDia 16\u201d e o \u201cGatos e Ratos\u201d, que foi com o J\u00fanior. Ele toca contrabaixo, guitarra, teclados, at\u00e9 programa os metais, como foi no caso do \u201cGatos e Ratos\u201d. S\u00f3 que nesse eu vou usar os instrumentos verdadeiros, com os m\u00fasicos de sopro que eu levo para os shows. Ent\u00e3o, por enquanto, a ideia \u00e9 fazer tudo com o J\u00fanior e depois colocar os sopros. Quando voc\u00ea escreveu sobre o show de Para\u00edso, achei interessante que voc\u00ea falou que n\u00e3o sentia falta do Azymuth nas m\u00fasicas do \u201cFilho de Jos\u00e9 e Maria\u201d. E \u00e9 verdade. Ningu\u00e9m vai esperar que o Azymuth repita no palco aquilo que est\u00e1 no disco. N\u00e3o \u00e9 do perfil deles esse tipo de coisa, eles tocam cada vez de um jeito. V\u00e3o seguir a partitura, v\u00e3o fazer interpreta\u00e7\u00e3o deles. J\u00e1 quando eu toco \u201cO Filho de Jos\u00e9 e Maria\u201d com a minha banda, eles procuram fazer exatamente o que est\u00e1 no disco. Agora mesmo o Rafael tinha me dito que existe umas possibilidades para esse ano de eu fazer alguns festivais com o Azymuth tocando \u201cO Filho de Jos\u00e9 e Maria\u201d, como n\u00f3s fizemos no Sesc em S\u00e3o Paulo. Fico muito feliz com a possibilidade disso acontecer, porque ser\u00e3o momentos maravilhosos, mas trabalhar com m\u00fasico muito virtuoso \u00e9 complicado, porque voc\u00ea pede uma coisa, mas ele n\u00e3o vai fazer como voc\u00ea quer, porque ele acha que do jeito dele \u00e9 melhor. Ele n\u00e3o consegue entender que a ideia da m\u00fasica \u00e9 minha, e que se ele fizer do meu jeito, chega dentro da minha ideia. E se fizer do jeito dele pode ficar muito melhor, mas n\u00e3o \u00e9 a minha ideia, ent\u00e3o tocar com m\u00fasico virtuoso \u00e9 problema. O J\u00fanior \u00e9 cuidadoso com o que ele faz. Se voc\u00ea disser pra ele, \u201cEu quero esse baixo soando igual aquele neg\u00f3cio do Paul McCartney\u201d, ele vai l\u00e1 e vai fazer, entendeu? Como tem um est\u00fadio aqui em casa, possivelmente esse grosso inicial vai ser com o Junior, ent\u00e3o sim, ele tem uma import\u00e2ncia muito grande nesse sentido. Mas no disco \u201cHibernar\u201d, o Junior estava em outra pegada, e quem fez esse papel foi o Marcos Bispo, que \u00e9 o baixista da minha banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando ao \u201cFilho de Jos\u00e9 e Maria\u201d, tem duas coisas sobre ele que eu queria te perguntar. A primeira: voc\u00ea tinha uma ideia original para esse disco, que envolviam 24 can\u00e7\u00f5es, muitas das quais voc\u00ea nunca apresentou. Sei que voc\u00ea \u00e9 um cara que gosta de andar para a frente, mas voc\u00ea nunca cogitou apresentar esse disco da maneira que voc\u00ea idealizou, resgatando inclusive as coisas que nunca foram lan\u00e7adas?<\/strong><br \/>\nSim, at\u00e9 teria vontade de fazer isso. Esse disco foi pensado como uma banda de rock, t\u00e1? Tem pessoas que falam do \u201cTommy\u201d, do The Who, at\u00e9 minha esposa j\u00e1 falou isso, mas eu nem ouvia The Who direito, as refer\u00eancias eram outras. Eu nunca disse que era uma \u00f3pera rock, disse que era uma \u00f3pera (risos). Depois que o Azymuth entrou na jogada, virou uma \u00f3pera soul (risos). Mas a ideia inicial era uma coisa de rock mesmo. Eu tinha visto aquele sucesso enorme do disco \u201cFrampton Comes Alive\u201d, do Peter Frampton, um disco duplo que vendeu 20 milh\u00f5es de c\u00f3pias, e tinha as coisas de rock de guitarra de que sempre gostei muito, sempre segui muito os guitarristas ingleses. As pessoas estranham quando falo isso, mas eu gosto de tudo. Sempre gostei do James Gang, do Jimi Hendrix, gostava da guitarra do Jimmy Page e do Eric Clapton. Montei um grupo que ficou conhecido como grupo P\u00edlula, por causa do sucesso da minha m\u00fasica. Da\u00ed desmontei essa banda, fiquei s\u00f3 com o Mois\u00e9s, tecladista, e montei uma outra banda que tinha Ant\u00f4nio Pedro, que depois foi tocar na Blitz, no baixo. Essa era para ser uma banda de rock, e fiquei ensaiando essa banda num est\u00fadio que tinha ali no Morro do Vidigal, logo na subida, por um temp\u00e3o. Por seis meses fiquei ensaiando com essa banda pra essa \u00f3pera, e j\u00e1 com o contrato assinado na BMG. Quem contatava as pessoas nessa \u00e9poca era o Guilherme Ara\u00fajo, ent\u00e3o meu produtor. Fiquei ensaiando as 18 can\u00e7\u00f5es, mas descobri que v\u00e1rias delas tinham sido mutiladas pela censura, um tal de muda aqui, tira de l\u00e1\u2026 Se fosse para mudar as letras, eu n\u00e3o iria gravar. Ent\u00e3o terminamos gravando 10 faixas, e fora da ordem que eu tinha pensado. O diretor que estava na BMG nessa \u00e9poca j\u00e1 n\u00e3o era o cara que tinha me contratado. Era o Durval Ferreira, da bossa nova, excelente guitarrista, do mesmo n\u00edvel de Roberto Menescal, muito educado, muito gentil, como todo mundo da bossa nova. Ele me dobrou, dizendo que a minha banda n\u00e3o era legal, entendeu? Que a minha banda era uma merda e que eu tinha que gravar com o Azymuth. Ent\u00e3o j\u00e1 desmontou tudo ali, j\u00e1 tinha o neg\u00f3cio da censura ter proibido as m\u00fasicas, mas mesmo assim eu fui para o teatro com a banda. Eu e o Guilherme Ara\u00fajo levamos esse show com a banda para o teatro e foi um fracasso, a imprensa dizia para n\u00e3o assistir porque era uma droga. Chegamos a fazer com o teatro todo vazio, ent\u00e3o aquilo foi ficando muito deprimente. Na \u00e9poca, eu estava tamb\u00e9m cheirando todas (risos), estava meio doid\u00e3o, e fiquei meio estressado com aquilo tudo. E parei. Tempos depois apareceram pessoas que se interessaram em botar isso no palco conforme eu queria. Houve interesse da TV Globo, um dos seus diretores queria transformar o disco num musical, uma Sexta Nobre, fazer ali a operazinha do \u201cFilho de Jos\u00e9 e Maria\u201d na \u00edntegra, com atores, com bal\u00e9, com tudo. Eu achei a ideia \u00f3tima, falei pro Guilherme negociar com eles, e ele pediu uma fortuna. Os caras responderam que, quando a coisa fosse um sucesso danado, a fortuna seria paga (risos). Eles estavam querendo ajudar, mas a coisa n\u00e3o rolou. Mas existe esse interesse sim, e poderia ser feito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A outra quest\u00e3o \u00e9 que esse disco acabou se tornando m\u00edtico, n\u00e9? Tem essa mitologia que se cria em torno daquilo que fica meio proscrito. E toda essa aten\u00e7\u00e3o acaba eclipsando o trabalho que voc\u00ea fez antes, que voc\u00ea e boa parte do seu p\u00fablico consideram t\u00e3o bom, se n\u00e3o melhores, que \u201cO Filho de Jos\u00e9 e Maria\u201d, como o \u201cAssim Sou Eu\u201d (1972) ou o disco de 1973, sem t\u00edtulo. Chega a te incomodar que isso aconte\u00e7a?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o chega a me incomodar, porque aqueles discos s\u00e3o reais, n\u00e9? Eles s\u00e3o reais, s\u00e3o muito bem-feitos. Ali\u00e1s, o \u201cAssim Sou Eu\u201d fez 50 anos agora em 2022, e esse de 73 vai fazer 50 anos agora. Quando eu saio da CBS e vou para a Philips, gravo o \u201cAssim Sou Eu\u201d e saiu um disco acima da m\u00e9dia. Estou falando do n\u00edvel de coisa pop, do meu universo, n\u00e3o estou falando de MPB, de samba. Foi acima da m\u00e9dia nesse meu universo pop, por isso que ele arrebentou tudo. Tem umas parcerias com o Jorge Paiva, que \u00e9 um pianista do Rio de Janeiro, de bossa nova, que me procurava para fazer as letras para as melodias dele. Ele trazia aquelas melodias numa forma dif\u00edcil de entender, mas a gente conseguia fazer umas coisas boas. Esse disco \u00e9 muito bem-feito, tocado por grandes m\u00fasicos. E o disco de 73 \u00e9 um assombro, porque as 12 faixas fizeram sucesso. Com respeito ao \u201cFilho de Jos\u00e9 e Maria\u201d, n\u00e3o me incomoda que ele seja um marco, porque eu acho que eu n\u00e3o seria o Odair Jos\u00e9 que sou hoje se ele n\u00e3o existisse. Eu n\u00e3o seria o Odair Jos\u00e9 de verdade. E tamb\u00e9m n\u00e3o acho que ele apaga esses trabalhos que voc\u00ea citou. Ele \u00e9 mais m\u00edtico, sim, mas voc\u00ea p\u00f5e \u201cO Filho de Jos\u00e9 e Maria\u201d para tocar hoje, n\u00e3o sei se voc\u00ea concorda com isso, mas eu me impressiono com a qualidade da das grava\u00e7\u00f5es. Esse, os que voc\u00ea citou, e tamb\u00e9m os 1974 (\u201cLembran\u00e7as\u201d) e de 1975 (\u201cOdair Jos\u00e9\u201d) s\u00e3o muito bons. Mas a\u00ed j\u00e1 entra o de 1976, \u201cHist\u00f3rias e Pensamentos\u201d, que \u00e9 quando eu j\u00e1 estava percebendo que eu estava repetindo uma f\u00f3rmula, que estava fazendo a mesma coisa, e que isso n\u00e3o estava legal. A\u00ed mudei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esses discos todos trazem mesmo um crescendo, uma identidade. Mas acho que j\u00e1 no de 1975 essa f\u00f3rmula come\u00e7ava a aparecer.<\/strong><br \/>\nOlha, s\u00f3 como informa\u00e7\u00e3o: o disco de 1973 foi um dos primeiros a vender um milh\u00e3o de LPs no Brasil. Isso n\u00e3o era normal, as pessoas vendiam no m\u00e1ximo 500 mil, 400 mil. Nessa \u00e9poca, foi feito um estudo para saber por que o disco vendeu tanto. Isso foi uma iniciativa do Andr\u00e9 Midani, que era o presidente da Philips e um cara al\u00e9m da curva, n\u00e9? Ele botou o Nelson Motta na minha cola para ele fazer uma an\u00e1lise sobre o que eu pensava, o que que eu ouvia. O Nelson ficou indo pra minha casa, fu\u00e7ando nos meus discos, ficava vendo os livros que eu lia, essas coisas. Conversava muito comigo. A\u00ed o Nelson chegou a uma conclus\u00e3o: que eu era um cara cabe\u00e7a e tudo, mas que eu cantava muito mal (risos). O cara vendeu um milh\u00e3o de c\u00f3pias mas canta muito mal, ent\u00e3o tinha que fazer umas aulas de canto (risos). E eu fui fazer. O Nelson n\u00e3o \u00e9 bobo, n\u00e9? Ele devia estar certo. Me indicaram uma professora de canto na G\u00e1vea, a dona Fernanda, uma senhora que dava aula para todos os atores da Globo. Fiz por volta de seis meses de aulas de canto com ela e a\u00ed gravei o \u201cLembran\u00e7as\u201d. Cara, estou cantando muito ali! J\u00e1 \u00e9 um disco diferente do de 1973, mas quando chega 1975, voc\u00ea j\u00e1 v\u00ea essa coisa de repeti\u00e7\u00e3o mesmo. E em 1976 ficou mais claro ainda. Se as pessoas n\u00e3o tivessem implicado tanto com o meu trabalho de 1977, eu teria feito coisas maravilhosas. Mas eles implicaram tanto e, naquela \u00e9poca, voc\u00ea precisava da gravadora, n\u00e3o \u00e9 como hoje em que eu posso vir para casa e fazer meu disco. Naquela \u00e9poca voc\u00ea precisava deles para ir para o est\u00fadio, para lan\u00e7ar. Eles me atrapalharam bastante. Acabei fazendo 20 anos de coisas insignificantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00d3bvio que isso tudo vai te dar um inc\u00f4modo, um desconforto. Isso nem se fala. Mas te d\u00e1 tamb\u00e9m uma sensa\u00e7\u00e3o mais pesada, de \u201cvida jogada fora\u201d, de possibilidades abortadas? Ou voc\u00ea conseguiu chegar a algum tipo de paz com isso?<\/strong><br \/>\nEu diria para voc\u00ea que n\u00e3o chega a ser uma coisa que me assombra. Mas em paz, tamb\u00e9m n\u00e3o. Eu hoje fico olhando a minha vida mesmo, junto com meu trabalho, de 1980 a 2000\u2026 Cara, eu desperdicei tudo. Voc\u00ea pode dizer que tem discos desse per\u00edodo que venderam bem, e tem mesmo, uns que venderam 300 mil, 200 mil c\u00f3pias. Eu tenho um disco de 1990 que vendeu quase 500 mil c\u00f3pias. Ficou ruim? N\u00e3o. Mas n\u00e3o tem nada a ver com nada disso que estamos conversando agora. Me perdoem as pessoas que consumiram o que eu fiz nesse per\u00edodo, mas s\u00e3o discos malfeitos. N\u00e3o malfeitos no sentido musical, porque foram feitos por grandes profissionais, t\u00eam qualidade. Mas n\u00e3o s\u00e3o bem-feitos enquanto trabalho de um artista. Eles s\u00e3o muito fracos, e isso me incomoda bastante. A minha vida, paralela a isso, tamb\u00e9m desandou totalmente. Fiquei muito fragilizado depois do \u201cFilho de Jos\u00e9 e Maria\u201d. E me cobro isso hoje, diretamente. Me cobro com a minha mulher, com todo mundo. Digo: \u201cP\u00f4, cara, fiz besteira pra caramba, eu joguei 20, 25 anos da minha vida fora, nos quais eu poderia ter me enriquecido financeiramente\u201d. N\u00e3o sou rico, mas poderia ser bilion\u00e1rio hoje. Agora, isso me incomoda menos. Claro, gostaria de ter guardado um pouco mais do meu dinheiro para ter uma estrutura melhor, n\u00e3o ficar me desesperando \u00e0s vezes, mas o que me incomoda profundamente \u00e9 o neg\u00f3cio do trabalho em si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea \u00e9 um compositor altamente regravado, n\u00e9? Muita gente gravou suas composi\u00e7\u00f5es em diferentes per\u00edodos da m\u00fasica brasileira. Teve alguma releitura de alguma composi\u00e7\u00e3o sua que te fez pensar, \u201cp\u00f4, esse artista trouxe uma coisa que eu n\u00e3o tinha visto em algo que eu mesmo fiz\u201d? Talvez algo no tributo \u201cVou Tirar Voc\u00ea Desse Lugar\u201d, lan\u00e7ado pela Allegro Discos?<\/strong><br \/>\nEu j\u00e1 me sinto mais \u00e0 vontade para falar sobre isso. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/03\/22\/faixa-a-faixa-vou-tirar-voce-desse-lugar-tributo-a-odair-jose\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Voc\u00ea falou do tributo, e praticamente 90% do que foi feito ali me impressionou<\/a>. Tipo, \u201cporra, mas como \u00e9 que pode?\u201d Ficou muito bom. Eu soube que ia rolar esse tributo pelo Sandro Bello, da Allegro Discos, mas eu n\u00e3o participei de nada. Eu achava que tributo era coisa pra quem j\u00e1 morreu, mas disse pra ele ficar \u00e0 vontade, at\u00e9 porque eu \u00e9 que n\u00e3o ia proibir o cara. A ideia foi dele, ele que lan\u00e7ou. Esse neg\u00f3cio de internet estava come\u00e7ando, ele lan\u00e7ou a ideia, e as pessoas foram fazendo. Ele disse que recebeu mais de 50 grava\u00e7\u00f5es, e escolheu aquelas que est\u00e3o l\u00e1 (nota: ao todo, 18 can\u00e7\u00f5es). Tem Zeca Baleiro, Paulo Miklos, Pato Fu, Momboj\u00f3, Leela, um monte de coisa, me desculpem as pessoas de quem n\u00e3o estou lembrando. Mas s\u00e3o muito bons. Agora, tem um lance curioso sobre uma regrava\u00e7\u00e3o em 1991. Aquele meu disco de 1990 tinha vendido muito, e nessa \u00e9poca, Leandro e Leonardo come\u00e7aram a fazer muito sucesso. At\u00e9 ent\u00e3o eu n\u00e3o os conhecia, mas acabei cruzando com os dois em um programa de televis\u00e3o, e com o empres\u00e1rio deles, que era o Franco (Scornavacca), pai do pessoal do KLB. Ele me apresentou os dois, e o Leandro falou que tinha vontade de regravar uma m\u00fasica minha, e eu disse para ficarem \u00e0 vontade. Eles queriam gravar \u201cCad\u00ea Voc\u00ea\u201d, a faixa 5 daquele disco de 1973. A faixa 5 \u00e9 aquela que ningu\u00e9m acredita, n\u00e9? (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Segundo o Sergio Sampaio, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/02\/15\/download-gratuito-ouca-e-baixe-faixa-seis\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00e9 a \u201cFaixa Seis\u201d<\/a>.<\/strong><br \/>\nOlha, eu poderia explicar uma coisa pro S\u00e9rgio Sampaio \u2013 conhe\u00e7o ele de quando ele era locutor na r\u00e1dio Mau\u00e1, no Rio de Janeiro, e mais tarde o vi na sala do Raulzito (Raul Seixas). \u00c9 o seguinte: a gente aprendia uma coisa com o marketing de vendas, que era sempre colocar m\u00fasicas boas nas faixas 1, 3 e 6, porque eram essas que o lojista colocava a agulha para ouvir. A segunda, quarta e quinta, ele nunca ia ouvir. \u201cCad\u00ea Voc\u00ea\u201d era uma faixa cinco, e mesmo assim eles queriam gravar. Ele me apresentou o Leonardo e ele cantou a m\u00fasica, mas disse que achava que estava faltando um peda\u00e7o de letra. Eu at\u00e9 pensei que ele tinha aprendido a m\u00fasica com aquelas compila\u00e7\u00f5es em que s\u00f3 toca um peda\u00e7o, mas quando ele cantou, vi que a letra estava certa (risos). A\u00ed eles perguntaram: \u201cMas \u00e9 s\u00f3 isso?\u201d (risos)&#8230; Eu falei que era pequenininha mesmo&#8230; A\u00ed ele me disse que precisava de uma exclusividade, que eu deveria falar com a editora para dar a eles uma exclusividade de seis meses para que ningu\u00e9m mais gravasse. N\u00e3o entendi o porqu\u00ea, mas ok, fui l\u00e1 e pedi. A editora tamb\u00e9m n\u00e3o entendeu (risos), mas ele, Leandro, jurava que ia estourar, o Franco tamb\u00e9m. A\u00ed, tempos depois, eu sa\u00ed com a minha esposa para ir a algum lugar, a gente andava muito ali pelo Itaim, e est\u00e1vamos descendo a rua Tabapu\u00e3, acho, quando ainda tinha aquelas lojas de discos que botavam os LPs para tocar na porta \u2013 hoje em dia n\u00e3o existe mais esse tipo de coisa. Mas eu passei e vi o disco deles tocando, e estava ali \u201cCad\u00ea Voc\u00ea\u201d como faixa 1. Depois aquilo come\u00e7ou a tocar no r\u00e1dio, foi a primeira m\u00fasica que eles trabalharam, eles come\u00e7aram a cantar na televis\u00e3o, e estourou, o disco vendeu 4 milh\u00f5es de c\u00f3pias. S\u00f3 que eu achei muito estranho o arranjo. Um compasso que n\u00e3o era nada daquilo, e eu fiquei meio com o p\u00e9 atr\u00e1s, falei: \u201cEsse neg\u00f3cio n\u00e3o ficou legal\u201d. E aquilo s\u00f3 tocando no r\u00e1dio, tocando, tocando\u2026 Passou o tempo, e eu me acostumei tanto com a coisa que hoje, no final dela, eu uso um peda\u00e7o do arranjo deles. Eles mudaram, e realmente ficou muito bom.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cade voc\u00ea\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2G4AS_C-Ipo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passou um tempo, cruzei com o Leandro, que era quem pensava o repert\u00f3rio da dupla, e ele disse que estava procurando m\u00fasicas para gravar, e falei: \u201cCara, regrava outra m\u00fasica minha\u201d. Eu queria que ele gravasse \u201cA Noite Mais Linda do Mundo\u201d, mas ele disse que estava pensando em gravar outra, uma que fiz e o Ney Matogrosso gravou, \u201cCante uma Can\u00e7\u00e3o de Amor S\u00f3 pra Mim\u201d (nota: na verdade, o t\u00edtulo \u00e9 somente \u201cCante uma Can\u00e7\u00e3o de Amor\u201d). O Leandro era uma figura, olha onde esse maluco foi! N\u00e3o sei se voc\u00ea conhece ela, \u00e9 do disco \u201cBandido\u201d (1976): \u201ccante uma can\u00e7\u00e3o de amor s\u00f3 para mim, isso vai me ajudar a viver\u201d&#8230; Na \u00e9poca, o Ney tamb\u00e9m era empresariado pelo Guilherme Ara\u00fajo, que pediu que eu fizesse uma m\u00fasica pra ele. Passei pro Roberto de Carvalho, que era o guitarrista do Ney, e ele pegou no ato. O Leandro queria gravar aquela m\u00fasica, achava que ela tinha que ser regravada, j\u00e1 tinha falado pro Leonardo aprender ela. Mas a\u00ed logo em seguida ele morreu, n\u00e3o regravou e o L\u00e9o tamb\u00e9m n\u00e3o regravou. Agora, eu tive regrava\u00e7\u00f5es que de princ\u00edpio levei um susto. A saudosa \u00c2ngela Maria, minha amiga, regravou uma m\u00fasica minha daquele disco meu de 1979, que tem \u201cAt\u00e9 Parece um Sonho\u201d, foi um disco bem-sucedido depois daquele fracasso que foi \u201cO Filho de Jos\u00e9 e Maria\u201d, que foi uma coisa horr\u00edvel\u2026 Mas, na verdade, \u201cO Filho de Jos\u00e9 e Maria\u201d n\u00e3o foi bem um fracasso. Ele vendeu mais de 100 mil c\u00f3pias, mas para quem estava esperando vender 1 milh\u00e3o, parar o mundo\u2026 Teve o \u201cCoisas Simples\u201d, que passou desapercebido, mas esse at\u00e9 fez sucesso, e a Angela Maria regravou \u201cAt\u00e9 Parece um Sonho\u201d. E eu fui convidado pelo produtor Jos\u00e9 Milton para ir ao est\u00fadio da Som Livre no Rio para ouvir, e eu levei um susto (risos). Porque eu n\u00e3o gostei, entendeu? Fui l\u00e1 \u00e0 espera de uma coisa, e era outra. Eu falei que n\u00e3o gostei, e o Jos\u00e9 Milton ficou bravo! \u201cEla canta assim mesmo?\u201d, eu perguntei, e ele respondeu que sim, aquele era o jeito dela de cantar. Bravo mesmo, sabe? Estou falando esse neg\u00f3cio em aberto pela primeira vez, t\u00e1? Ent\u00e3o, esse neg\u00f3cio de regrava\u00e7\u00e3o \u00e9 complicado.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cante uma can\u00e7\u00e3o de amor\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5jETisa4VUo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"At\u00e9 Parece um Sonho\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XSxsANP0LjY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tanto \u00e9 que eu tenho uma pergunta um tanto delicada para voc\u00ea sobre isso. Dia desses, eu estava em uma loja de discos a\u00ed de S\u00e3o Paulo com um cara que \u00e9 grande f\u00e3 dos seus discos. Falamos de \u201cCade Voc\u00ea\u201d, e ele levantou: \u201calgu\u00e9m j\u00e1 perguntou para o Odair sobre a semelhan\u00e7a entre \u2018Morningside\u2019, do Neil Diamond, com \u2018Cad\u00ea Voc\u00ea\u2019\u201d? Porque as melodias s\u00e3o mesmo bem parecidas. Pesquisei a respeito e n\u00e3o achei nada te indagando diretamente sobre isso, ent\u00e3o fa\u00e7o a pergunta agora: essa semelhan\u00e7a \u00e9 intencional? Porque a can\u00e7\u00e3o do Neil Diamond n\u00e3o era t\u00e3o conhecida quanto os hits dele, e inclusive o Rossini Pinto tinha feito uma vers\u00e3o de \u201cI Am\u2026 I Said\u201d para a Diana (cantora e ex-esposa de Odair), que era \u201cPorque Brigamos\u201d, e ficamos nos perguntando se ele n\u00e3o estava j\u00e1 no seu radar. E nessa \u00e9poca, tinha muitas coisas do Raul Seixas que tinham essa coisa de \u201cparecer\u201d com outras m\u00fasicas\u2026<\/strong><br \/>\nPrimeiro deixa eu contar uma coisa do Raul, depois eu falo do \u201cCad\u00ea Voc\u00ea\u201d. O Raul foi meu amigo na \u00e9poca da CBS, e tamb\u00e9m no come\u00e7o da Polygram. A gente sempre teve carinho um pelo outro, mas depois a gente se afastou, porque cada um vai para seu caminho, do seu jeito. Mas enfim, o Raul um dia virou para mim e disse: \u201cEu tenho uma m\u00fasica que estou terminando e quero que voc\u00ea grave\u201d. Eu disse \u201cclaro\u201d, mas falei pra ele correr, porque eu j\u00e1 estava indo para o est\u00fadio. Mas ele n\u00e3o mandava, n\u00e3o mandava, n\u00e3o mandava. Cruzei com ele de novo, ele disse \u201cestou mandando a m\u00fasica\u201d, e eu falei que j\u00e1 estava fazendo as bases, tinha que mandar logo. A\u00ed depois que eu j\u00e1 estava botando voz, chega o Chocolate, que trabalhava na manuten\u00e7\u00e3o do est\u00fadio da Philips ali na Rio Branco, e me diz: \u201cO Raul esteve a\u00ed e deixou uma m\u00fasica pra voc\u00ea\u201d. S\u00f3 que, cara, eu j\u00e1 estava botando voz, n\u00e3o dava mais pra incluir no disco. Mas \u00e9 l\u00f3gico que fui ouvir, e a can\u00e7\u00e3o era \u201cMedo da Chuva\u201d. (canta) \u201cEu perdi o meu medo, o meu medo, o medo da chuva\u201d. Falei pra ele que era legal e tal, poderia ter gravado, gravaria com o maior prazer porque a m\u00fasica \u00e9 boa, mas eu j\u00e1 estava botando voz, n\u00e3o ia trazer todo mundo de volta. E ele \u201cde boa, eu gravo ela no pr\u00f3ximo disco\u201d, que \u00e9 o disco dele de 1974 (\u201cGita\u201d). E depois eu fui perceber que \u201cMedo da Chuva\u201d \u00e9 um pl\u00e1gio danado! (risos)<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Morningside\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iYn9fd-t3qc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fico imaginando como seria \u201cMedo da Chuva\u201d com a primeira grava\u00e7\u00e3o por voc\u00ea! Mas voltando a \u201cCad\u00ea Voc\u00ea\u201d&#8230;<\/strong><br \/>\nO seu amigo tem raz\u00e3o. Eu tive uma \u00e9poca de ouvir muito Neil Diamond. Quando eu estive em Londres pela primeira vez, acho que em 1972, eu assisti a um show do Neil Diamond por l\u00e1, e trouxe um \u00e1lbum dele que ele vendia nos shows. Era um \u00e1lbum ao vivo que, teoricamente, seria aquele show que eu assisti. Mas \u00e9 uma coisa gravada nos Estados Unidos, sei l\u00e1 (nota: Odair provavelmente se refere a \u201cHot August Nights\u201d, \u00e1lbum duplo ao vivo gravado em Los Angeles). \u201cCad\u00ea Voc\u00ea\u201d estava l\u00e1, quer dizer, era a m\u00fasica do Neil Diamond, uma bem lentinha que, se n\u00e3o me engano, o Moacir Franco tinha gravado uma vers\u00e3o em portugu\u00eas (nota: de fato, \u201cAo Meu Pai\u201d, de Moacir Franco, \u00e9 uma vers\u00e3o de \u201cMorningside\u201d). Quando fiz \u201cCad\u00ea Voc\u00ea\u201d, te confesso que n\u00e3o fiz uma vers\u00e3o e mudei. Acho que fiquei com o neg\u00f3cio do Neil Diamond na cabe\u00e7a e de repente fiz aquilo bem ligeirinho, uma coisa r\u00e1pida. Mas depois que eu fiz, achei parecida mesmo, e cheguei a comentar com o Jairo Pires, que era o meu diretor. Mostrei para ele e disse que achava que estava muito em cima, que eu estava com o p\u00e9 atr\u00e1s. Mas ele me disse que n\u00e3o, que a ideia era outra, mas eu sempre fiquei com o p\u00e9 atr\u00e1s porque estava muito em cima mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra gente encerrar: o David Bowie disse que envelhecer permite que voc\u00ea seja a pessoa que sempre deveria ter sido. Voc\u00ea \u00e9 um cara que falou muito sobre arrependimentos em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es de vida, de carreira. Tem o alcoolismo, a maneira como o \u201cFilho de Jos\u00e9 e Maria\u201d foi percebido, v\u00e1rias quest\u00f5es. Ao mesmo tempo, hoje voc\u00ea passa a impress\u00e3o de ser um cara bastante seguro, confiante e satisfeito dentro dos caminhos que voc\u00ea escolheu. Ent\u00e3o, juntando tudo isso, a pergunta \u00e9: como voc\u00ea espera viver esses pr\u00f3ximos anos da sua vida, considerando tudo o que j\u00e1 passou?<\/strong><br \/>\nBoa essa reflex\u00e3o do David Bowie. Eu n\u00e3o conhecia, mas \u00e9 muito boa. E \u00e9 exatamente isso, a leitura \u00e9 essa mesma. Na d\u00e9cada de 1970, eu era exatamente isso que sou hoje. Evidentemente com menos conhecimento de mim mesmo, mas eu era exatamente isso que voc\u00ea est\u00e1 vendo aqui. Nesses 25 anos que eu joguei fora, se eu tivesse agido diferente, eu teria sido muito maior, teria sido muito mais \u00fatil como ser humano. A minha grande meta \u00e9 sempre essa, ser um ser humano \u00fatil, ser uma pessoa que faz coisas relevantes, ou que, no m\u00ednimo, n\u00e3o atrapalha ningu\u00e9m, n\u00e3o trava o andar da carruagem. Ent\u00e3o acho que hoje estou melhor, muito melhor, e o que eu espero \u00e9 que eu melhore ainda mais. Quando parei de beber, de usar droga, cruzava \u00e0s vezes com algumas pessoas que me diziam que minha vida devia estar uma merda, porque eu estava careta total. Mas percebi que a coisa que eu mais prezo hoje \u00e9 o equil\u00edbrio, e isso \u00e9 a primeira coisa que a bebida e a droga tiram de um sujeito. Na segunda dose de whisky, na primeira cheirada, o equil\u00edbrio vai embora. O que menos afeta \u00e9 a maconha, porque o cara fica meio mol\u00e3o, mas n\u00e3o mais que isso. Ent\u00e3o prezo muito o equil\u00edbrio, e espero daqui para frente ser cada vez mais equilibrado. J\u00e1 estou na idade em que daqui a pouco aparece uma doen\u00e7a, at\u00e9 mesmo uma morte repentina \u2013 porque estou com 74 anos, isso \u00e9 um fato do qual n\u00e3o tenho como fugir. Ent\u00e3o espero que, dentro desse equil\u00edbrio que te falei, eu seja cada vez mais um ser humano melhor, um profissional melhor, um vizinho melhor, um pai melhor, um amigo melhor, um artista melhor. Enquanto tiver condi\u00e7\u00f5es, estarei tentando, 24 horas por dia, ser uma pessoa melhor. Vamos ver se consigo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Odair Jos\u00e9 | Cultura Livre | 26\/10\/2019\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IHAKMXmNtEw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Odair Jos\u00e9 no Cultura Livre (B\u00f4nus)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dbjI15z2MMQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Odair Jos\u00e9 no Est\u00fadio Showlivre - Apresenta\u00e7\u00e3o na \u00edntegra\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BR3k6GmeKao?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"ODAIR  JOS\u00c9 - PROGRAMA ENSAIO - 2006 [COMPLETO]\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fCrYIuCDJKU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista, escritor e produtor cultural. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2000, onde tamb\u00e9m assina a coluna\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Conex\u00e3o Latina<\/a>. \u00c9 tamb\u00e9m colaborador eventual dos sites\u00a0<a href=\"https:\/\/musicnonstop.uol.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Music Non Stop<\/a>\u00a0(Brasil) e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.zonadeobras.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zona de Obras<\/a>\u00a0(Espanha).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ele \u00e9 talvez o compositor popular que melhor dialogou com o rock. Ou talvez o roqueiro que mais perto chegou de falar com as massas\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/03\/03\/entrevista-na-decada-de-1970-eu-era-exatamente-isso-que-sou-hoje-diz-odair-jose-que-aqui-fala-de-passado-presente-e-futuro\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":73049,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1039],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73047"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=73047"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73047\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73057,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73047\/revisions\/73057"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/73049"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=73047"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=73047"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=73047"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}