{"id":72983,"date":"2023-02-27T15:49:54","date_gmt":"2023-02-27T18:49:54","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=72983"},"modified":"2023-05-02T00:13:31","modified_gmt":"2023-05-02T03:13:31","slug":"entrevista-kid-congo-powers-fala-sobre-autobiografia-carreira-solo-e-seus-trabalhos-com-gun-club-the-cramps-e-nick-cave","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/02\/27\/entrevista-kid-congo-powers-fala-sobre-autobiografia-carreira-solo-e-seus-trabalhos-com-gun-club-the-cramps-e-nick-cave\/","title":{"rendered":"Entrevista: Kid Congo Powers fala sobre autobiografia, carreira solo e seus trabalhos com Gun Club, The Cramps e Nick Cave"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/LuizMazetto1986\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Luiz Mazetto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais conhecido como Kid Congo Powers, nome art\u00edstico que adotou durante sua passagem pelo The Cramps no in\u00edcio dos anos 1980, Brian Tristan \u00e9 dono do \u201ccurr\u00edculo mais legal da hist\u00f3ria do rock\u201d, segundo nada menos do que Mark Lanegan. Al\u00e9m de ter tocado na banda liderada por Lux Interior e Poison Ivy, com quem gravou o cl\u00e1ssico \u201cPsychedlic Jungle\u201d (1981), cujo hit \u201cGoo Goo Muck\u201d voltou \u00e0s paradas recentemente <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=NakTu_VZxJ0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">por uma cena marcante<\/a> da s\u00e9rie \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/11\/30\/series-wandinha-resgata-o-humor-tragicomico-e-deliciosamente-bizarro-da-familia-addams\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wandinha<\/a>\u201d (2022), do Netflix, Kid tamb\u00e9m fez parte de uma das melhores forma\u00e7\u00f5es do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/10\/04\/discografia-comentada-nick-cave\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nick Cave and The Bad Seeds<\/a>, com quem gravou o essencial \u201cTender Prey\u201d (1988) e o enigm\u00e1tico \u201cThe Good Son\u201d (1990) \u2013 esse \u00faltimo feito aqui no Brasil, inclusive.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se isso n\u00e3o fosse o bastante, no final dos anos 1970 fundou ao lado de Jeffrey Lee Pierce a cultuada banda de blues punk\/cowpunk The Gun Club, que influenciou o pr\u00f3prio Lanegan e nomes como Jack White. Entre idas e vindas, Kid tocou guitarra na maioria dos discos do grupo, incluindo os indispens\u00e1veis \u201cLas Vegas Story\u201d (1984) e \u201cMother Juno\u201d (1987). Desde o final dos anos 1990, tamb\u00e9m possui uma prol\u00edfica carreira solo, que inclui colabora\u00e7\u00f5es com outros m\u00fasicos, projetos como o <a href=\"https:\/\/wolfmanhattanproject.bandcamp.com\/album\/summer-forever-and-ever\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wolfmanhattan Project<\/a>, discos com o seu nome e com a sua banda principal desde 2006, os Pink Monkey Birds, em que tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel pelos vocais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista abaixo, feita por telefone no final de 2022, um mais do que simp\u00e1tico Kid fala sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o da sua rec\u00e9m-lan\u00e7ada (e imperd\u00edvel) autobiografia, \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Some-New-Kind-Kick-Memoir\/dp\/0306828022\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Some New Kind of Kick: A Memoir<\/a>\u201d (2022, Hachette Books), revela como recebeu dicas de outros m\u00fasicos que j\u00e1 lan\u00e7aram livros, como Lydia Lunch e Bobby Gillespie, relembra a import\u00e2ncia de Jeffrey Lee Pierce em sua vida e em sua jornada para passar de f\u00e3 a m\u00fasico, divide suas mem\u00f3rias sobre as viagens ao Brasil no final dos anos 1980 e conta como discos dos Ramones, Patti Smith, Frank Zappa e Jimi Hendrix mudaram a sua vida.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-72984 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/KidCongoPowers.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1132\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/KidCongoPowers.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/KidCongoPowers-199x300.jpg 199w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando estava fazendo minha pesquisa para essa entrevista, encontrei entrevistas suas de 2009 em que voc\u00ea j\u00e1 falava sobre estar trabalhando em um livro de mem\u00f3rias. Por isso, queria saber quanto tempo voc\u00ea levou para escrever e quais foram os principais desafios nesse processo?<\/strong><br \/>\nFoi um processo muito longo desde o momento em que comecei. Eu sentia que devia aprender como escrever um livro. Comecei com uma ideia, uma linha do tempo, acontecimentos importantes. E ent\u00e3o pensei \u201cAh, vai ser muito simples. Vou apenas preencher tudo isso\u201d. Mas ent\u00e3o percebi que era uma ideia muito maior do que eu achei que seria. Mas fiz muitas coisas: aulas de biografia, participei de workshops, cursos de escrita, falei com muita gente. Parei muitas vezes, \u00e0s vezes quando se tornava muito intenso. Ou se ficava frustrado, eu apenas parava e pensava \u201cAgora \u00e9 melhor gravar um disco e sair em turn\u00ea por um ano e voltar depois (risos)\u201d. Ent\u00e3o foi muito bom para fazer discos porque me senti desconfort\u00e1vel muitas vezes e essa era a minha maneira de sair disso \u2013 parar para fazer um disco e sair em turn\u00ea (risos). Isso tornou o processo mais longo. Mas tamb\u00e9m porque eu queria que fosse bom, que n\u00e3o fosse apenas uma lista das pessoas que eu conheci e coisas que eu fiz. Eu queria entrar mais para dentro da minha mente e dos meus sentimentos e ficar l\u00e1. Foi muito sobre aprender a n\u00e3o colocar avisos nas coisas, como \u201cIsso foi naquela \u00e9poca e agora eu sei mais agora\u201d. Sem coisas morais, queria que a hist\u00f3ria fosse a hist\u00f3ria, como eu a estava vivendo naquela \u00e9poca. Muitas vezes eu apenas pensava \u201cEu odeio esse neg\u00f3cio, quem quer ler essa merda? Quero jogar isso no lixo agora (risos)\u201d. Ent\u00e3o eu tinha que tirar um tempo, porque eu entendia que eram apenas as coisas na minha cabe\u00e7a, quando a coisa simples a ser feita era contar a hist\u00f3ria. Mas eu nunca fa\u00e7o nada simples (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao final do livro, h\u00e1 alguns depoimentos e cita\u00e7\u00f5es de amigos seus e outros m\u00fasicos que tamb\u00e9m j\u00e1 publicaram livros, como o Flea (Red Hot Chilli Peppers), o Bobby Gillespie (Primal Scream) e o Mark Lanegan (Screaming Trees). Voc\u00ea diz que chegou a enviar vers\u00f5es do livro para o Flea e o Bobby Gilespie. Voc\u00ea tamb\u00e9m trocou ideias com eles e outros amigos que tamb\u00e9m s\u00e3o escritores?<\/strong><br \/>\nCom certeza. Definitivamente falei com muitas pessoas que escreveram livros. Pessoas como a Lydia Lunch me deram \u00f3timos conselhos. O Ian Svenonious, do The Make-Up, que j\u00e1 escreveu muitos livros, foi muito gentil e me ajudou muito. O Mark Lanegan foi um dos primeiros para quem eu enviei, porque o livro dele era t\u00e3o pesado (risos). Ent\u00e3o eu pensei que se eu enviasse para o Mark, sabia que ele ia me dizer exatamente o que achou (risos). Mas ele gostou bastante do livro, o que foi bom! Falei com muitas pessoas. Eu tamb\u00e9m tive um editor, Chris Campion, que me ajudou ao longo do caminho, ele \u00e9 um escritor profissional. Ele me ajudou a ver e a focar&#8230; Basicamente, eu enviei para ele o primeiro rascunho do livro e ele falou \u201cIsso est\u00e1 \u00f3timo e voc\u00ea definitivamente n\u00e3o est\u00e1 contando tudo o que precisa contar\u201d (risos). E eu pensei \u201cPuta merda, agora tenho que contar tudo\u201d (risos). Ent\u00e3o ele me ajudou muito com isso. Ent\u00e3o houve muitas pessoas que me ajudaram. E eu respeitava as pessoas, como o Bobby, o livro dele (<a href=\"https:\/\/www.terrenoestranho.com.br\/pagina-de-produto\/garoto-do-corti%C3%A7o\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cGaroto do Corti\u00e7o\u201d, lan\u00e7ado no Brasil pela Terreno Estranho<\/a>) tinha acabado de sair. Pedi essas cita\u00e7\u00f5es apenas para pessoas que eu respeito. O Nick Cave, obviamente, \u00e9 um escritor \u2013 ele estava escrevendo um livro quando eu o conheci. Por isso, ele foi muito gentil de ler o meu livro e enviar uma cita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_72986\" aria-describedby=\"caption-attachment-72986\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-72986 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/cramps1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"484\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/cramps1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/cramps1-300x194.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-72986\" class=\"wp-caption-text\"><em>Kid Congo Powers em atividade com The Cramps<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A linha do tempo do livro termina no final dos anos 1990, em um momento importante, que \u00e9 quando voc\u00ea fica \u201climpo\u201d &#8211; ali\u00e1s, parab\u00e9ns, j\u00e1 que acaba de fazer 25 anos. Por isso, queria saber se voc\u00ea planeja fazer uma segunda parte do livro.<\/strong><br \/>\nObrigado. N\u00e3o sei, estou pensando algumas coisas. Quando terminei tudo, quando a edi\u00e7\u00e3o tinha sido finalizada, pensei que nunca mais queria escrever um livro na minha vida (risos). Porque foi muita coisa. Mas o bom \u00e9 que meus amigos que j\u00e1 escreveram livros disseram que o segundo \u00e9 muito mais f\u00e1cil, que voc\u00ea n\u00e3o precisa passar por aquela tortura de ficar duvidando de si mesmo. Quando estava escrevendo o livro, n\u00e3o sabia realmente sobre o que seria, eu tinha algumas ideias. A ideia era que quando chegasse no final do que estivesse escrevendo, o livro iria me dizer sobre o que era. Tamb\u00e9m fa\u00e7o isso com m\u00fasica, eu meio que apenas vou, fa\u00e7o e decido o que \u00e9 depois \u2013 a m\u00fasica me diz o que \u00e9. \u00c9 um pouco dada\u00edsta, na verdade. E foi a mesma coisa com o livro, eu pensava que o livro iria me dizer sobre o que seria. Ent\u00e3o apenas tinha de confiar nisso e continuar escrevendo, fazendo o trabalho de forma honesta e da melhor forma que eu podia. E ent\u00e3o o livro me daria algum tipo de mensagem, \u00e9 dif\u00edcil olhar para a sua vida e coloc\u00e1-la de forma condensada em uma hist\u00f3ria. A sua vida \u00e9 um milh\u00e3o de hist\u00f3rias, algumas s\u00e3o divertidas, outras s\u00e3o tristes, ou tr\u00e1gicas, ou rid\u00edculas, todas essas coisas (risos). Eu apenas ficava \u201cN\u00e3o tenho a menor ideia do que \u00e9 a ideia aqui\u201d. E eu n\u00e3o tenho certeza de verdade agora do que (o livro) est\u00e1 me dizendo. Mas est\u00e1 me dizendo coisas por meio das outras pessoas, agora que o livro j\u00e1 foi lan\u00e7ado. Estou falando com pessoas que me dizem o que viram no livro, o que tem sido legal porque tem havido muita identifica\u00e7\u00e3o com ele. O que isso me diz \u00e9 que eu escrevi esse livro para as pessoas que normalmente n\u00e3o possuem uma voz no mundo. O meu grupo de pessoas, meus amigos, eles n\u00e3o s\u00e3o nomes conhecidos por todos, eles n\u00e3o s\u00e3o o mainstream. Eles s\u00e3o as minorias, as pessoas queer, os latinos e hisp\u00e2nicos, pessoas autodidatas. E tudo isso alimentando uma grande inseguran\u00e7a sobre si mesmo, porque para mim, ter crescido nos EUA, nos EUA branco, mainstream&#8230; eu n\u00e3o era nenhuma dessas coisas que eu falei, \u00e9 um mundo de machos alfa. Mesmo que voc\u00ea seja um artista e esteja ganhando dinheiro, voc\u00ea est\u00e1 ganhando dinheiro do jeito errado e fazendo as coisas da maneira errada. Mas essa tamb\u00e9m \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o, vindo do punk, de criar a sua pr\u00f3pria linguagem, diferente do mainstream. E de criar o seu pr\u00f3prio mundo, que seja diferente do mainstream. \u00c9 por essas pessoas que eu me atraio, s\u00e3o as pessoas que tem feito parte da minha vida. Eu percebi que s\u00f3 escrevi sobre as pessoas que eu amo (risos). N\u00e3o escrevi sobre as pessoas que odeio. N\u00e3o escrevi sobre o que estava acontecendo no mainstream, at\u00e9 porque nunca soube isso durante toda a minha vida, a n\u00e3o ser que visse algo na TV ou algo assim (risos). Mas eu estava no meu pr\u00f3prio mundo com as minhas pessoas, acho que isso \u00e9 o que torna essa uma hist\u00f3ria meio que \u00fanica.<\/p>\n<figure id=\"attachment_72991\" aria-describedby=\"caption-attachment-72991\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-72991 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/thegunclub750.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"499\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/thegunclub750.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/thegunclub750-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-72991\" class=\"wp-caption-text\"><em>The Gun Club: Kid Congo Powers com Jeffrey Lee<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Mark Lanegan afirma na autobiografia dele, \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/17\/livro-sing-backwards-and-weep-a-dolorosa-biografia-de-mark-lanegan\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sing Backwards and Weep: Mem\u00f3rias<\/a>\u201d (Terreno Estranho), que voc\u00ea tem o melhor curr\u00edculo do rock, por j\u00e1 ter tocado no Gun Club, The Cramps e Nick Cave and The Bad Seeds. Quando o Jeffrey Lee te convidou para tocar com ele pela primeira vez, voc\u00ea j\u00e1 pensava na possibilidade de ter a sua pr\u00f3pria banda e tocar com pessoas que admirava, como Cramps e Nick Cave, e em ter uma carreira na m\u00fasica? Porque geralmente as pessoas n\u00e3o costumam j\u00e1 \u201cdar certo\u201d, vamos dizer, com a primeira banda, mas voc\u00ea logo de cara j\u00e1 montou o Gun Club com o Jeffrey, uma banda que at\u00e9 hoje \u00e9 cultuada e reverenciada. Voc\u00ea j\u00e1 pensou que as coisas poderiam acontecer t\u00e3o r\u00e1pido?<\/strong><br \/>\nNunca, nunca (risos). Nunca pensei nisso mesmo. Eu pensava que poderia ser um jornalista, um assessor de imprensa ou talvez trabalhar em uma gravadora, mas nunca um m\u00fasico. Por isso, quando o Jeffrey&#8230; Na verdade, foram duas coisas. O punk, claro, porque as pessoas estavam pegando em instrumentos e formando bandas. E o Jeffrey realmente me chamando para fazer isso. Antes disso, eu era apenas um f\u00e3 de m\u00fasica. Um jovem f\u00e3 louco, que criava f\u00e3-clubes para os Ramones ou para os Screamers, uma banda de Los Angeles. Eu achava que essa era a minha fun\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m escrever para fanzines, fazer coisas assim. Esse era o meu trabalho, ajudar a relatar e a promover o que acontecia. Mas nunca tinha pensado sobre tocar um instrumento porque nunca tinha feito isso na vida. Talvez fosse um sonho secreto. \u00c9, era um sonho secreto ali no fundo da minha mente, mas nunca achei que isso fosse acontecer. Ent\u00e3o foi preciso o Jeffrey \u201cme for\u00e7ar\u201d a entrar numa banda para fazer isso (risos). E ele acreditava que eu podia fazer isso, o que me fez pensar \u201cBom, imagino que devo tentar porque ele acredita que eu consigo. Ele parece muito confiante de que conseguir\u00e1 me ensinar a tocar\u201d. Isso permitiu que fosse uma possibilidade para mim. E assim que come\u00e7amos a tocar, eu vi que talvez n\u00e3o fosse uma possibilidade porque eu era muito ruim (risos). Mas eu aprendia r\u00e1pido e ent\u00e3o pensei \u201cAh, isso parece muito certo para mim\u201d. E a tarefa de criar algo se tornou um desafio a ser superado. Felizmente eu estava trabalhando com o Jeffrey e os outros integrantes da banda, que eram talentosos. O Jeffrey j\u00e1 tinha uma vis\u00e3o do que iria acontecer em termos musicais. N\u00f3s passamos por coisas diferentes com a banda, inicialmente \u00e9ramos muito influenciados por reggae e soul, coisas como War, essas foram as nossas primeiras ideias. Depois incorporamos o blues e ent\u00e3o decidimos que o blues era um meio melhor \u2013 e \u00e0s vezes mais f\u00e1cil \u2013 para n\u00f3s, ent\u00e3o vimos que algo poderia acontecer e tudo se tornou excitante rapidamente depois disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu entrei para o Cramps, o Gun Club ainda n\u00e3o tinha lan\u00e7ado nenhum disco e toc\u00e1vamos para p\u00fablicos de 10 pessoas \u2013 n\u00e3o era uma banda grande em Los Angeles. Isso aconteceu logo depois que eu fui para o Cramps. Eles j\u00e1 tinham todas as m\u00fasicas prontas, mas acho que as pessoas n\u00e3o sabiam muito bem o que pensar sobre o Gun Club em Los Angeles, era algo muito art rock para quem curtia rock mais raiz, era muito punk para quem curtia art rock. Apenas n\u00e3o era bom para ningu\u00e9m (risos). Eram muitas coisas. Mas assim que o disco saiu eles descobriram que isso n\u00e3o era verdade, que havia pessoas que queriam isso, essa nova linguagem musical. N\u00f3s \u00e9ramos influenciados por muitas bandas, o Cramps, obviamente. Eu e o Jeffrey vivemos em Nova York por um tempo e vimos bandas como James Chance and the Contortions, que misturavam James Brown com free jazz com punk, ou mesmo o Cramps, que misturavam rockabilly com m\u00fasica psicod\u00e9lica. Hoje em dia parece algo f\u00e1cil de se ver em todos os lugares, mas na \u00e9poca era algo bastante revolucion\u00e1rio e que parecia sa\u00eddo de outro planeta \u2013 era tipo \u201cPor que eles est\u00e3o fazendo isso?\u201d (risos). Ent\u00e3o esse foi um bom modelo para a gente misturar blues com punk e ver se voc\u00ea podia misturar country com blues e deixar isso ainda mais estranho com uma atitude punk. Era tudo sobre experimentar e descobrir o que parecia certo. Felizmente n\u00f3s ficamos juntos, n\u00e3o acabamos com a banda antes de encontrar esse som (risos). E n\u00f3s n\u00e3o quer\u00edamos ser apenas mais uma banda punk.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Cramps - Goo Goo Muck (live 1981 SF) Video in Stereo\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/g17I907BAFw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em 1989, voc\u00ea veio ao Brasil com o Nick Cave para tocar nos primeiros shows dele no pa\u00eds \u2013 e depois voltou para gravar o disco \u201cThe Good Son\u201d (1990) em S\u00e3o Paulo. Por isso, gostaria de saber quais s\u00e3o as suas lembran\u00e7as dessas viagens e momentos no Brasil e se houve algo em especial que chamou a sua aten\u00e7\u00e3o na cidade \u2013 e outros pontos, porque sei que voc\u00ea tamb\u00e9m foi para a praia aqui, certo?<\/strong><br \/>\nSim, n\u00f3s fomos para algumas praias e dirigimos por a\u00ed. Achei um pa\u00eds lindo, as pessoas eram muito calorosas. Todo mundo que eu conheci era muito acolhedor, o p\u00fablico nos shows tamb\u00e9m. Tive um sentimento de muita familiaridade. Por eu ser hisp\u00e2nico, a cultura n\u00e3o tinha um sentimento estrangeiro para mim. Estive muito perto da m\u00fasica e de coisas relacionadas \u00e0 m\u00fasica durante quase todo o tempo. Basicamente eu ia assistir a shows ou fazia shows. E isso me lembrou muito da cultura do M\u00e9xico, a maneira como a m\u00fasica \u00e9 muito celebrat\u00f3ria e como as pessoas se relacionam com ela, de uma maneira cultural, como uma express\u00e3o de felicidade principalmente. E uma determinada liberdade, mas n\u00e3o como nas culturas ocidentais brancas. Diferente da cultura alem\u00e3, assim por dizer (risos). Isso foi o que mais amei, com o qual senti uma familiaridade. E o pa\u00eds era muito bonito. Eu notei que havia crime, com certeza. Vi muitas mulheres perseguindo garotos nas ruas para tentar reaver as bolsas delas, coisas assim. Tamb\u00e9m vi muitas armas \u00e0 mostra em p\u00fablico, o que foi um pouco chocante. Mas elas nunca estavam apontadas para mim, ent\u00e3o tudo bem (risos). Mas essas s\u00e3o coisas muito pequenas. A maioria das minhas lembran\u00e7as sobre o Brasil s\u00e3o muito positivas e ador\u00e1veis. E as pessoas que eu conheci eram todas realmente incr\u00edveis, inteligentes e ador\u00e1veis.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nick Cave and the Bad Seeds - Live in S\u00e3o Paulo - Brasil (Projeto SP 15\/04\/1989)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ryfR9eUd93s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea conhece algum artista brasileiro?<\/strong><br \/>\nSim, \u00e9 claro. Bom, a Gal Costa acabou de falecer, adoro ela. N\u00f3s acabamos de tocar em Seattle em um festival com Os Mutantes. N\u00f3s n\u00e3o pudemos ver o show deles, porque o festival aconteceu em diferentes casas de show da cidade e n\u00f3s tocamos no mesmo hor\u00e1rio deles. Mas adoro os discos deles. E todas as coisas dos anos 1960 e 1970 que ficam embaixo do \u201cguarda-chuva\u201d da Tropic\u00e1lia. Quando estive a\u00ed, eu comprei muitos discos. Tamb\u00e9m sou amigo e gravei com uma banda brasileira chamada Garotas Suecas. Fiz alguns vocais em uma m\u00fasica deles. N\u00f3s nos tornamos amigos e fizemos alguns shows juntos quando eles vieram para os Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea viveu a cena punk de Los Angeles intensamente, mas tamb\u00e9m morou em diferentes lugares e tocou com artistas de v\u00e1rios lugares e viu momentos importantes nesses lugares, como Berlim, Nova York, Londres, e, mais recentemente, em Tucson, no Arizona, certo? Voc\u00ea acredita que as cidades em que voc\u00ea viveu te influenciaram de alguma maneira em termos criativos?<\/strong><br \/>\nTotalmente. A cidade e o ambiente realmente influenciam o que acontece na m\u00fasica. Quando eu estava em Nova York, por exemplo, eu sabia o que amava na m\u00fasica de Nova York, e isso acabou influenciando o primeiro disco do Pink Monkey Birds. Isso foi muito antes do lineup atual da banda, a gente teve uma vers\u00e3o em Nova York, que era basicamente uma homenagem \u00e0 m\u00fasica de Nova York que eu amo, como os primeiros discos solo do Lou Reed, as bandas de no wave e p\u00f3s-punk. Em Berlim, com o Bad Seeds, na \u00e9poca em que moramos l\u00e1, se voc\u00ea pensar no David Bowie e no Iggy e nas diferentes pessoas que foram a Berlim para gravar, h\u00e1 uma certa&#8230; eu n\u00e3o quero dizer frieza porque n\u00e3o exatamente frieza. Mas \u00e9, talvez um pouco de frieza. Um modo alem\u00e3o, um modo mais pr\u00e1tico das coisas, talvez um pouco duro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E eu tamb\u00e9m descobri que estando aqui no Arizona, no \u00faltimo disco a minha m\u00fasica se tornou muito mais expansiva e livre, mas realmente muito mais expansiva. A raz\u00e3o pela qual eu queria mudar para o Arizona \u00e9 porque estava vivendo na costa oeste por um tempo, em Nova York, Washington DC, Connecticut, e pensei \u201cEu quero ver um c\u00e9u grande, \u00e9 s\u00f3 o que eu quero. Quero olhar para cima e n\u00e3o ver nada al\u00e9m do c\u00e9u\u201d. E eu sabia que o Arizona tinha uma natureza incr\u00edvel e tamb\u00e9m um p\u00f4r do sol incr\u00edvel. N\u00e3o sabia se isso iria influenciar a minha m\u00fasica, se eu ia virar uma banda de desert rock ou stoner (risos). Mas essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual eu quis mudar para c\u00e1, foi mais uma escolha de vida do que uma escolha musical. Mas isso parece ter influenciado a minha m\u00fasica, as pessoas dizem que est\u00e3o ouvindo o deserto na minha m\u00fasica ultimamente, ent\u00e3o deve ter acontecido (risos).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Gun Club - Moonlight Motel - live 1984\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Xv3IXi526KE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea come\u00e7ou a tocar com o Jeffrey no Gun Club foi tamb\u00e9m quando voc\u00ea come\u00e7ou a tocar guitarra e fez os seus primeiros shows. E com o Cramps foi basicamente quando voc\u00ea estava se provando para si mesmo, j\u00e1 que era um grande f\u00e3 da banda, e para todo mundo, uma vez que estava em uma banda maior. Por isso, eu queria saber quais os maiores aprendizados que voc\u00ea teve ao tocar com o Nick Cave?<\/strong><br \/>\nCom o Nick Cave? Bom, essa foi um tipo de banda muito diferente em rela\u00e7\u00e3o ao Cramps e ao Gun Club. Havia muitas similaridades, mas o Bad Seeds era muito mais experimental naquela \u00e9poca, nos anos de Berlim. Era um som muito direcionado pelo piano, o Nick escrevia muitas m\u00fasicas no piano, ent\u00e3o n\u00e3o eram m\u00fasicas baseadas em blues de 12 compassos como o Gun Club e o Cramps sempre fizeram. Tamb\u00e9m era um som muito direcionado pelo vocal, e em criar uma atmosfera em torno do vocal, era isso que costumava acontecer no Bad Seeds. Al\u00e9m de estar tocando um tipo diferente de m\u00fasica, tamb\u00e9m foi a minha primeira vez tocando com uma cultura diferente. Eu estava em Berlim tocando com australianos e alem\u00e3es, n\u00e3o estava nos Estados Unidos tocando um revival de rock raiz (risos). N\u00e3o era esse o ponto de partida. Mas o Bad Seeds tamb\u00e9m possui isso. Ent\u00e3o foi um aprendizado poder tocar com pessoas que eu n\u00e3o sabia o que estavam buscando. Mas elas tornaram isso f\u00e1cil, desde todo mundo da banda at\u00e9 amigos, engenheiros e o produtor, Tony Cohen, que produzia muitas coisas deles, ele foi realmente fant\u00e1stico. Eles fizeram eu me sentir querido e necess\u00e1rio (risos). E apenas fiz o que eu fazia. O Bad Seeds naquela \u00e9poca \u2013 e acho que eles continuam fazendo isso hoje \u2013, Nick e Mick Harvey, s\u00f3 queriam que voc\u00ea fizesse adicionasse seu cosmos \u00e0 m\u00fasica. Eles escolhiam pessoas que tinham o seu pr\u00f3prio cosmos na hora de tocar, e s\u00f3 queriam que a gente fizesse isso, que adicionasse isso \u00e0 m\u00fasica. Em vez de algo que eles quisessem, por exemplo. O objetivo final era criar uma atmosfera. Ent\u00e3o foi realmente incr\u00edvel aprender a fazer isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o Cramps tinha uma vis\u00e3o muito forte e uniforme do que o Lux (Interior) e a (Poison) Ivy queriam, voc\u00ea sabia como fazer uma m\u00fasica do Cramps (risos). N\u00e3o era preciso ir para fora de nada para fazer nenhum outro tipo de m\u00fasica. E no Gun Club, por conta da minha rela\u00e7\u00e3o com o Jeffrey, n\u00f3s basicamente entend\u00edamos que quer\u00edamos fazer coisas diferentes. Porque tivemos uma ideia no come\u00e7o, era uma vis\u00e3o compartilhada \u2013 ainda que o Jeffrey ocupasse o assento do motorista mais vezes como o compositor principal. A minha rela\u00e7\u00e3o com ele, a minha rela\u00e7\u00e3o musical com ele era muito entendida e muito livre para ver o que acontecia. N\u00f3s t\u00ednhamos nossa maneira de trabalhar em que entend\u00edamos quais eram os nossos papeis. Era uma forma mais atmosf\u00e9rica de tocar, mais uma vez, uma forma muito expressionista de tocar. Tamb\u00e9m foi \u00f3timo nos \u00faltimos discos do Gun Club, como o \u201cMother Juno\u201d (1987), \u201cPastoral Hide and Seek\u201d (1990) e \u201cDivinity\u201d (1991), em que t\u00ednhamos nos tornados m\u00fasicos melhores. N\u00f3s sab\u00edamos fazer aquilo de uma maneira mais profissional, se pudermos chamar assim. Mas tamb\u00e9m mais confiantes e realizados como artistas, em vez de pessoas tentando encontrar alguma coisa no escuro (risos). \u201cSer\u00e1 que isso funciona? Eu n\u00e3o sei! (risos)\u201d. Ainda tinha um pouco disso, mas n\u00f3s confi\u00e1vamos que provavelmente iria funcionar. Trabalhando com o Jeffrey, n\u00f3s t\u00ednhamos uma determinada maneira de trabalhar e nos entender que sempre funcionou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Bad Seeds foi a banda mais diferente em que eu toquei, mas ao mesmo tempo era muito familiar, livre e solid\u00e1ria. Era tudo que voc\u00ea poderia desejar que fosse. Eles realmente expandiram o meu jeito de tocar de diferentes maneiras, porque eu tinha de tocar algumas coisas mais diretas, mas tamb\u00e9m tinha de navegar e tocar como o Blixa Bargeld. \u00c0s vezes n\u00f3s t\u00ednhamos ideias parecidas sobre como tocar algo, com uma abordagem mais expressionista, no sentido de n\u00e3o fazer a mesma coisa. Foi uma experi\u00eancia \u00f3tima. A parte musical era incr\u00edvel, as drogas nem tanto (risos).<\/p>\n<figure id=\"attachment_72987\" aria-describedby=\"caption-attachment-72987\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-72987 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/niccave1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1035\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/niccave1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/niccave1-217x300.jpg 217w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-72987\" class=\"wp-caption-text\"><em>Kid Congo Powers como um Bad Seed de Nick Cave<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sempre gosto de fazer essa pergunta: me diga tr\u00eas discos que mudaram a sua vida e por que eles fizeram isso. N\u00e3o precisam ser os tr\u00eas \u00fanicos discos que mudaram a sua vida, porque sei que isso \u00e9 imposs\u00edvel, mas tr\u00eas dos discos que fizeram isso.<\/strong><br \/>\nTr\u00eas? Ok, isso \u00e9 bem simples. O primeiro \u00e9 o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/12\/30\/um-classico-horses-de-patti-smith\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cHorses\u201d (1975), da Patti Smith<\/a>. Esse disco mudou muito a forma como eu pensava sobre o rock, de uma maneira que adicionou uma liberdade de formatos, algo meio experimental como o Velvet Underground. Mas tamb\u00e9m porque era um disco que misturava poesia e uma constru\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica das m\u00fasicas em torno da poesia da Patti Smith. E ainda pela atitude que ela tinha, que era ao mesmo tempo meio \u201cFoda-se\u201d e cheio de rever\u00eancia. Era apenas algo muito refrescante e inspirador. As pessoas diziam que ela n\u00e3o conseguia cantar, mas ela criou algo que era melhor do que cantar. \u00c9 uma m\u00fasica sublime, mas ao mesmo tempo meio \u201ctrash\u201d e muito bem-feita e inteligente. Incrivelmente inteligente e emocionante. Ter todos esses elementos juntos era algo muito beatnik, muito XXX. Esse foi um disco que mudou a minha vida definitivamente. Quando esse disco saiu, em 1975, eu tinha 15 ou 16 anos. Ent\u00e3o esse disco mudou as coisas em uma idade impression\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro disco dos Ramones (de 1976) tamb\u00e9m mudou a minha vida, com certeza, 100%. Eu estava em um per\u00edodo dif\u00edcil da minha vida, muito triste e fechado e esse disco apenas me abriu para algo incrivelmente excitante, divertido e hist\u00e9rico. E, de novo, era algo revolucion\u00e1rio em sua simplicidade. Era algo t\u00e3o simples que voc\u00ea n\u00e3o podia acreditar que isso estava acontecendo quando colocava o disco pela primeira vez. Fazia o Stooges parecer uma orquestra ou algo assim (risos). Foi algo como \u201cUau, eles descobriram algo diferente que \u00e9 incr\u00edvel e que n\u00e3o soa como nada que esteja por a\u00ed agora ou que eu j\u00e1 escutei antes\u201d. Eles tinham o visual e a atitude tamb\u00e9m, eles eram engra\u00e7ados, idiotas, perigosos, todos os tipos de coisas divertidas que um adolescente iria querer. E bonitos! Ent\u00e3o esse definitivamente foi um disco que mudou a minha vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E um terceiro disco? Bom, vou voltar, vou voltar bastante para as primeiras coisas que eu escutei. Acho que direi o \u201cFreak Out!\u201d (1966), do Frank Zappa and The Mothers of Invention. Porque essa foi a primeira vez que escutei algo t\u00e3o sarc\u00e1stico, um tipo de atitude meio rabugenta na m\u00fasica (risos), que era algo muito estranho. Esse disco me fez descobrir o Captain Beefheart e coisas diferentes. Ent\u00e3o foi um disco que mudou as coisas quando era mais novo, devia ter uns 12, 13 anos quando ouvi esse \u00e1lbum, o que foi incr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tenho mais um. Posso colocar mais um na lista? Quando eu tinha 9 anos de idade, o meu primo tinha o \u201cAxis: Bold as Love\u201d (1967), do Jimi Hendrix Experience. Adorava esse disco quando tinha 9 anos de idade, j\u00e1 sabia todas as letras e realmente gostava da abertura, que era tipo um spoken word, uma jornalista falando com um alien\u00edgena de outro planeta e o alien\u00edgena diz que eles precisam ir embora e ent\u00e3o o Jimi Hendrix faz um monte de microfonia com a guitarra, que parece uma nave indo embora. \u00c9 um feedback louco cheio de camadas e lembro de ser uma crian\u00e7a pequena e pensar \u201cEu consigo ver a nave decolando, consigo imaginar tudo isso e isso est\u00e1 acontecendo por uma guitarra\u201d. E isso \u00e9 algo que ainda amo hoje em dia, posso escutar de novo e me sentir da mesma maneira. E diria que isso foi uma influ\u00eancia direta no meu jeito de tocar guitarra. Todos esses discos mudaram as coisas para mim.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Kid Congo &amp; The Pink Monkey Birds -  Sean DeLear (Official Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/exNjK8NlsqA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea queria ser um jornalista quando era mais novo, certo? Como \u00e9 para voc\u00ea, ser um autor publicado agora? \u00c9 algo que voc\u00ea sempre quis, era um sonho?<\/strong><br \/>\nSabe do que? Eu nunca pensei nisso. Eu pensava em ser um jornalista musical, em escrever para revistas. Nunca pensei em publicar uma biografia. E ainda \u00e9 algo um pouco irreal para mim que isso tenha acontecido, que o livro esteja pelo mundo e que as pessoas estejam falando comigo sobre ele (risos). Ainda \u00e9 um pouco irreal. Mas \u00e9 uma grande realiza\u00e7\u00e3o para mim, me sinto \u00f3timo sobre o livro. E toda vez que fa\u00e7o um evento sobre o livro ou converso com pessoas como voc\u00ea, me sinto ainda melhor sobre ter feito a coisa certa em escrev\u00ea-lo. O fato de as pessoas estarem se conectando com o livro \u00e9 o mais importante. Porque penso que a m\u00fasica \u00e9 uma comunica\u00e7\u00e3o. E isso \u00e9 o que sempre quis que acontecesse entre o p\u00fablico e o artista. Ou apenas entre as pessoas, em termos de criar novas linguagens. Seja com o Cramps, o Nick Cave, o Gun Club, e com todas as bandas que eu gosto, s\u00e3o bandas que criam os seus pr\u00f3prios mundos. E elas criam os seus pr\u00f3prios idiomas e as pessoas entendem essas l\u00ednguas \u2013 isso j\u00e1 \u00e9 algo incr\u00edvel, em primeiro lugar. E ent\u00e3o elas (as pessoas) podem aprender a falar o idioma, que foi o que aconteceu comigo. Eu apenas amava tanto as bandas, sabia tudo sobre elas, aos 9 anos eu sabia todas as letras do Jimi Hendrix. Mas eu n\u00e3o percebi que estava aprendendo a ser um m\u00fasico durante todo aquele tempo, foi algo que apenas aconteceu. Mas \u00e9 uma l\u00edngua, que voc\u00ea pode aprender e que, quem sabe, as pessoas podem falar umas com as outras. Esse livro \u00e9 apenas outra comunica\u00e7\u00e3o com as pessoas, apenas para elas poderem saber o que aconteceu e como aconteceu (risos). E que pode acontecer com elas tamb\u00e9m. Eu sou autodidata, sempre me senti um outsider, sou um homem gay, latino, um artista, um autodidata. E como eu disse, essas s\u00e3o pessoas que normalmente n\u00e3o tem uma voz. Por isso, \u00e9 um privil\u00e9gio poder ter as pessoas lendo e se identificando com o livro. E realmente espero que as pessoas leiam e que pessoas que nunca viveram uma vida remotamente parecida com essa possam aprender algo sobre uma vida como a minha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa \u00e9 a \u00faltima pergunta. Voc\u00ea escreveu e tocou em alguns dos discos melhor e mais amados discos das \u00faltimas d\u00e9cadas, j\u00e1 tocou pelo mundo e agora acaba de lan\u00e7ar sua biografia. Do que voc\u00ea tem mais orgulho na sua carreira?<\/strong><br \/>\nHmm, essa \u00e9 uma escolha dif\u00edcil. Bom, posso dizer que tenho orgulho de todas essas coisas. Tenho orgulho de tudo o que fiz \u2013 e sou agradecido por tudo o que pude fazer. Acho que provavelmente o Gun Club \u00e9 do que tenho mais orgulho, porque \u00e9 algo que come\u00e7ou comigo e com o Jeffrey. Posso dizer que toquei no primeiro e no \u00faltimo show do Gun Club. Mas acho que a minha rela\u00e7\u00e3o com o Jeffrey \u00e9 provavelmente do que mais me orgulho, pelo fato de poder ter tido uma rela\u00e7\u00e3o com aquela pessoa, com ele. Como eu falo no livro, n\u00f3s criamos m\u00e1gica meio que a partir do nada. Por isso, essa \u00e9 uma grande realiza\u00e7\u00e3o para mim. Tenho muito orgulho \u2013 e isso \u00e9 algo que acabo de perceber \u2013 de ter trabalhado com as pessoas com quem pude trabalhar, e com o p\u00fablico e o p\u00fablico que elas tinham. Quando voc\u00ea sai de uma banda \u00e9 como sair de um relacionamento. Sempre h\u00e1 um ou outro sentimento ruim aqui e ali, as coisas nem sempre acontecem da melhor maneira. Mas agora eu tenho apenas sentimentos bons sobre isso. E tenho muito orgulho disso. E do fato de que pude estar na presen\u00e7a de pessoas, como o Jeffrey Lee Pierce, ou como o Lux Interior e o Nick Knox, do The Cramps, pessoas que n\u00e3o est\u00e3o mais vivas. Isso \u00e9 algo para ter orgulho, o fato de que eu fui escolhido por elas para colaborar e fazer m\u00fasica, fazer m\u00e1gica. Ent\u00e3o essas s\u00e3o coisas das quais tenho orgulho.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"He Walked In - Kid Congo &amp; The Pink Monkey Birds (Official Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qdz87nESHaA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nick Cave &amp; The Bad Seeds - The Ship Song\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/T0spQCw35D4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"GUN CLUB vac L.A. 1988 Jeffrey Lee Pierce, Nick Sanderson, Romi Mori, Kid Congo Powers  LApunk13.com\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tLvLWl0pJ6c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Kid Congo Powers - What&#039;s In My Bag?\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8YTweVfuXlg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nick Cave and Kid Congo Powers - 930 Club - 80&#039;s\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0a1uXPq2Lg0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Kid Congo Powers &amp; Dr. Ricky Rodriguez.The Cheech Marin Center for Chicano Art &amp; Culture 02-03-2023\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2GfYW2cZJ-c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/LuizMazetto1986\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Luiz Mazetto<\/a>\u00a0\u00e9 autor dos livros \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Somos-Tempestade-Conversas-Sobre-Alternativo\/dp\/8562885339\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">N\u00f3s Somos a Tempestade \u2013 Conversas Sobre o Metal Alternativo dos EUA<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Somos-Tempestade-Conversas-Sobre-Alternativo\/dp\/8562885649\/ref=pd_lpo_14_t_0\/145-6204651-9007215?_encoding=UTF8&amp;pd_rd_i=8562885649&amp;pd_rd_r=0e02080e-01a3-422c-9e95-933a79ef9d17&amp;pd_rd_w=qJ5vJ&amp;pd_rd_wg=0obt1&amp;pf_rd_p=6102dabe-0e19-4db6-8e11-875a53ad30be&amp;pf_rd_r=K14PYCR8ZPPETTCCKYMH&amp;psc=1&amp;refRID=K14PYCR8ZPPETTCCKYMH\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">N\u00f3s Somos a Tempestade, Vol 2 \u2013 Conversas Sobre o Metal Alternativo pelo Mundo<\/a>\u201d, ambos pela Edi\u00e7\u00f5es Ideal. Tamb\u00e9m colabora coma a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vice.com\/pt_br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Vice Brasil<\/a>, o\u00a0<a href=\"https:\/\/cvltnation.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">CVLT Nation<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.loudmagazine.net\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Loud!<\/a><\/em>\u00a0<em>A foto que abre o texto \u00e9 de Luz Gallardo.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Guitarrista e vocalista norte-americano conta foi escrever o livro \u201cSome New Kind of Kick\u201d, relembra suas visitas ao Brasil com Nick Cave e revela quais discos mudaram a sua vida.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/02\/27\/entrevista-kid-congo-powers-fala-sobre-autobiografia-carreira-solo-e-seus-trabalhos-com-gun-club-the-cramps-e-nick-cave\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":88,"featured_media":72985,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[6581,350,6584,6583,6582],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72983"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/88"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=72983"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72983\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":72995,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72983\/revisions\/72995"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/72985"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=72983"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=72983"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=72983"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}