{"id":72881,"date":"2007-02-02T23:31:00","date_gmt":"2007-02-03T01:31:00","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=72881"},"modified":"2023-02-22T23:41:44","modified_gmt":"2023-02-23T02:41:44","slug":"cinema-babel-encerra-a-trilogia-da-dor-de-alejandro-gonzalez-inarritu-de-maneira-convincente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/02\/02\/cinema-babel-encerra-a-trilogia-da-dor-de-alejandro-gonzalez-inarritu-de-maneira-convincente\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Babel&#8221; encerra a trilogia da dor, de Alejandro Gonz\u00e1lez-I\u00f1\u00e1rritu, de maneira convincente"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-72882 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/babel1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"699\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/babel1.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/babel1-215x300.jpg 215w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marrocos, um sol pra l\u00e1 de 30 graus. Um marroquino vende a outro um presente que ganhou de um gringo: um rifle. O novo dono do rifle deseja o armamento apenas para proteger seu rebanho de ovelhas do ataque carn\u00edvoro dos lobos. Sua nova aquisi\u00e7\u00e3o vem acompanhada de 100 proj\u00e9teis, que podem atingir um alvo distante at\u00e9 5 quil\u00f4metros do tiro. O armamento \u00e9 entregue aos filhos, dois meninos que cuidam do rebanho. O mais jovem \u00e9 mais esperto, atira melhor, e costuma olhar a pr\u00f3pria irm\u00e3 trocar de roupa. O mais velho \u00e9 lento no racioc\u00ednio, na agilidade e na malandragem, o que lhe impinge um sentimento de inferioridade raivosa, que causar\u00e1 um desafio: &#8220;se voc\u00ea \u00e9 bom, e se o tiro pode chegar at\u00e9 5km de dist\u00e2ncia, quero ver voc\u00ea acertar aquele \u00f4nibus&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diretor Alejandro Gonz\u00e1lez-I\u00f1\u00e1rritu \u00e9 bastante calmo na realiza\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica do par\u00e1grafo acima, trecho de abertura de &#8220;Babel&#8221; (2006), filme que fecha a trilogia da dor, composta ainda pelo sensacional &#8220;Amores Brutos&#8221; (2000) e pelo excelente &#8220;21 Gramas&#8221; (2003). Desde seus primeiros segundos, a hist\u00f3ria se desenrola de forma clara e simples, em um tom que ser\u00e1 seguido nos 142 minutos da pel\u00edcula. E tudo o que acontece no desenrolar do bom roteiro de Guillermo Arriaga traz alguma liga\u00e7\u00e3o com o inocente e inconseq\u00fcente apertar de gatilho que fecha o primeiro par\u00e1grafo deste texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como nos dois primeiros filmes de sua trilogia, I\u00f1\u00e1rritu junta tr\u00eas hist\u00f3rias em uma, bate tudo em seu liquidificador dram\u00e1tico, e despeja a mistura no colo do espectador. O resultado deixa a desejar no quesito compara\u00e7\u00e3o (&#8220;Babel&#8221; \u00e9 notadamente inferior a &#8220;21 Gramas&#8221;, que, mesmo excelente, era inferior a &#8220;Amores Brutos&#8221;), mas n\u00e3o pode ser julgado como um filme menor. A dupla I\u00f1\u00e1rritu\/Arraiga costura o roteiro de forma quase brilhante, e a verossimilhan\u00e7a das hist\u00f3rias (que beira o clich\u00ea, positivo, mas mesmo assim clich\u00ea) s\u00f3 esbarra na falta de grandes momentos ao todo. Dos tr\u00eas filmes da dupla mexicana, &#8220;Babel&#8221; \u00e9 o mais linear no quesito emo\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio de seus antecessores, cujo desdobramento do roteiro vinha acompanhado de alguma grande surpresa, &#8220;Babel&#8221; distancia os personagens do espectador, e por mais que os clich\u00eas tentem uma reaproxima\u00e7\u00e3o, falta ao filme algo que consiga colocar o est\u00f4mago do espectador na boca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa pequena falta de emo\u00e7\u00e3o deu a obra, por mais que pare\u00e7a contradit\u00f3rio, um ar de dramalh\u00e3o noveleiro, que muitos ainda apontam ser fatalista em sua forma de ver o mundo, e conservador em observar os acontecimentos sob a \u00f3tica de uma antiquada moral cat\u00f3lica. N\u00e3o sei se concordo, mas acho um absurdo perceberem tudo isso s\u00f3 agora, j\u00e1 que as tr\u00eas obras de I\u00f1\u00e1rritu\/Arraiga usam e abusam do fatalismo. Mais: \u00e9 um fatalismo que beira o clich\u00ea, pois o ditado popular (e quer coisa mais clich\u00ea que um ditado popular) conta que &#8220;desgra\u00e7a pouca \u00e9 bobagem&#8221;. E, no caso das hist\u00f3rias secund\u00e1rias (da empregada mexicana e da estudante japonesa), nem \u00e9 tanta desgra\u00e7a acumulada. No fundo, &#8220;Babel&#8221; \u00e9 um castelo de cartas que desaba, e acaba ferindo a todos aqueles que possuem alguma rela\u00e7\u00e3o com a constru\u00e7\u00e3o de papel. I\u00f1\u00e1rritu pode n\u00e3o ter feito outro filme sensacional, mas passa longe de uma grande decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto que &#8220;Babel&#8221; chega a ser exemplar na constru\u00e7\u00e3o de algumas passagens. Em uma delas, o espectador assiste &#8211; com todas as pe\u00e7as no colo &#8211; ao desenrolar da hist\u00f3ria da norte-americana que recebeu o tiro acidental do jovem marroquino: o tiro acidental ganha ares de atentado terrorista, e uma crise entre dois pa\u00edses amea\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 a vida da personagem baleada, como a pr\u00f3pria economia mundial. No micro, o espectador sabe o qu\u00e3o aquele tiro foi acidental. No macro, pol\u00edticos procuram descobrir o que pode existir atr\u00e1s daquele disparo, culpando primeiro, para averiguar depois. A mesma hist\u00f3ria permite vislumbrar que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a pol\u00edcia brasileira que bate sem provas e sem motivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 na trama da empregada mexicana, h\u00e1 um q de inoc\u00eancia que torna a narrativa um tanto clich\u00ea, mas \u00e9 um clich\u00ea positivo porque abre o leque do tema, que vai al\u00e9m do fato da empregada estar errada em sua atitude (e pagar caro por isso), mas, por ser um erro menor, uma mentira do bem, que n\u00e3o fosse o desenrolar confuso, nada teria afetado na rotina da mulher, e das crian\u00e7as. Por\u00e9m, todos n\u00f3s (passageiros de lota\u00e7\u00e3o, espectadores de cinema, torcedores de futebol em est\u00e1dio) corremos o risco de um desenrolar confuso, por menos obviedade que estejamos enfrentando ao entrar numa van, ao sentar numa cadeira de cinema, ou a nos dirigirmos a um est\u00e1dio para assistir a uma partida de futebol. A fatalidade est\u00e1 ao nosso lado, sempre. N\u00f3s n\u00e3o a enxergamos, e passamos por ela sem a perceber todos os dias. I\u00f1\u00e1rritu as v\u00ea, e as filma. Melhor tomar cuidado com balas perdidas, n\u00e3o?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Babel - Trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yDNa6t-TDrQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<div class=\"entry-content\">\n<p><em>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ao contr\u00e1rio de seus antecessores, cujo desdobramento do roteiro vinha acompanhado de alguma grande surpresa, &#8220;Babel&#8221; distancia os personagens do espectador&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/02\/02\/cinema-babel-encerra-a-trilogia-da-dor-de-alejandro-gonzalez-inarritu-de-maneira-convincente\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":72883,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[6098],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72881"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=72881"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72881\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":72884,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72881\/revisions\/72884"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/72883"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=72881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=72881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=72881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}