{"id":72841,"date":"2023-02-22T00:35:26","date_gmt":"2023-02-22T03:35:26","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=72841"},"modified":"2023-04-30T00:41:57","modified_gmt":"2023-04-30T03:41:57","slug":"entrevista-mike-johnson-relembra-carreira-solo-seus-anos-de-dinosaur-jr-e-sua-prolifica-colaboracao-com-mark-lanegan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/02\/22\/entrevista-mike-johnson-relembra-carreira-solo-seus-anos-de-dinosaur-jr-e-sua-prolifica-colaboracao-com-mark-lanegan\/","title":{"rendered":"Entrevista: Mike Johnson relembra carreira solo, seus anos de Dinosaur Jr. e sua prol\u00edfica colabora\u00e7\u00e3o com Mark Lanegan"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"http:\/\/www.leonardotissot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Tissot<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se dizer que <a href=\"https:\/\/mikejohnson2.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mike Johnson<\/a> \u00e9 um talento pouco reconhecido. Integrante do Dinosaur Jr. durante a fase de maior sucesso comercial do grupo e pe\u00e7a fundamental na aclamada carreira solo de Mark Lanegan, o guitarrista estadunidense vive h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada na Fran\u00e7a, praticamente afastado dos est\u00fadios, das filmagens de videoclipes e dos palcos \u2014 seja de pequenos teatros ou de grandes festivais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Johnson lamenta a falta de interesse e de p\u00fablico para o tipo de som pelo qual ficou conhecido: fraseados de guitarra cristalinos, por vezes et\u00e9reos e, ainda que inspirados no blues, totalmente afastados dos clich\u00eas do g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu \u00faltimo trabalho solo foi lan\u00e7ado em 2006 e, desde ent\u00e3o, pouco se viu ou ouviu a respeito de Johnson. Participou das grava\u00e7\u00f5es do \u00e1lbum de covers \u201cImitations\u201d, de Lanegan, lan\u00e7ado em 2013, e disponibilizou \u201c<a href=\"https:\/\/mikejohnson2.bandcamp.com\/album\/the-uninvited\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Uninvited<\/a>\u201d, uma cole\u00e7\u00e3o de sobras de est\u00fadio, em 2016. E s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No m\u00eas em que se completam 30 anos do lan\u00e7amento de \u201cWhere You Been\u201d (disco de estreia de Johnson como baixista do Dinosaur Jr.), e <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/03\/08\/homenagem-nunca-tivemos-um-artista-como-mark-lanegan-1964-2022\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o primeiro ano da morte de Mark Lanegan<\/a>, o Scream &amp; Yell entrevista o artista e (re)descobre detalhes de sua carreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um papo de aproximadamente uma hora, o guitarrista relembra seus primeiros riffs com a banda Snakepit, os bastidores de sua acidentada passagem pelo grupo de J Mascis, as raz\u00f5es pelas quais n\u00e3o participou do document\u00e1rio sobre a hist\u00f3ria do Dinosaur Jr., como foram gestados os primeiros \u00e1lbuns de Lanegan, curiosidades a respeito de seus discos solo e, finalmente, sua mudan\u00e7a para a Fran\u00e7a e o afastamento do cen\u00e1rio musical.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Dinosaur Jr - Out There on Letterman\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/nmSfEdfvRzA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para in\u00edcio de conversa, como voc\u00ea come\u00e7ou na m\u00fasica? Vem de uma fam\u00edlia de m\u00fasicos ou \u00e9 o primeiro a tocar um instrumento?<\/strong><br \/>\nBem, mais ou menos. Meu irm\u00e3o tocava guitarra. Tenho um irm\u00e3o que \u00e9 sete anos mais velho do que eu, e ele tocava guitarra quando eu ainda era pequeno. Eu ganhei um viol\u00e3o dos meus pais no meu anivers\u00e1rio de 18 anos, quando eu estava saindo de casa pra ir pra faculdade. Sa\u00ed da minha cidade natal [Grants Pass, Oregon] para uma cidade universit\u00e1ria [Eugene, Oregon], a umas duas horas de dist\u00e2ncia. Comecei assim, com o livro Mel Bay [equivalente \u00e0s revistas de cifras muito comuns no Brasil], que quase todo mundo usava na \u00e9poca pra aprender a tocar. Tamb\u00e9m ouvia e tocava junto com os discos do Velvet Underground. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o tocava quando era mais jovem, j\u00e1 comecei meio tarde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Embora ainda n\u00e3o tocasse, voc\u00ea j\u00e1 tinha um interesse por m\u00fasica.<\/strong><br \/>\nSim, eu era fan\u00e1tico por discos e mergulhava profundamente em qualquer coisa que pudesse encontrar. Venho de uma cidade pequena e s\u00f3 tinha umas duas lojas de discos l\u00e1. Eu costumava procurar por qualquer coisa esquisita ou diferente que aparecia. Eu gostava muito da Creem Magazine e estava curtindo punk rock \u2014 isso era entre o fim dos anos 70 e come\u00e7o dos anos 80. E estava interessado em saber de onde o punk vinha, ent\u00e3o gostava de coisas pr\u00e9-punk, tipo Velvet Underground, The Stooges, New York Dolls, coisas desse tipo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua primeira banda foi o Snakepit, certo? Pode contar um pouco sobre a hist\u00f3ria da banda \u2014 como come\u00e7aram, quais foram os lan\u00e7amentos do grupo e como terminaram?<\/strong><br \/>\nSim. Como falei, eu tinha esse viol\u00e3o, fui pra faculdade e morava em alojamentos, o que \u00e9 algo normal no primeiro ano \u2014 usar as acomoda\u00e7\u00f5es da universidade e tal. Conheci um cara chamado Al Larson, que morava no dormit\u00f3rio em frente ao meu. Acabamos nos tornando amigos e fal\u00e1vamos sobre m\u00fasica: Velvet Underground, Modern Lovers, Dream Syndicate, bandas da \u00e9poca\u2026 Um ano depois, no meu segundo ano de faculdade, me mudei para um apartamento e o convidei pra aparecer l\u00e1 e tomar um caf\u00e9. Da\u00ed ele viu meu viol\u00e3o e perguntou: \u201cvoc\u00ea toca?\u201d. Contei que j\u00e1 tinha escrito algumas m\u00fasicas, e ele ficou tipo: \u201ccara, voc\u00ea tem que entrar na minha banda\u201d. Eu nem sabia que ele tocava em bandas, mas descobri que ele tinha duas: Cargo Cult, na qual ele tocava baixo, e Snakepit, que havia come\u00e7ado com seu amigo Robert Christie [j\u00e1 falecido]. Pra mim, a ideia de fazer parte de uma banda parecia algo que ia muito al\u00e9m do que eu tinha imaginado. Fiquei, tipo: \u201cporra, pode crer\u201d. Ele n\u00e3o estava curtindo o caminho que a banda estava seguindo com o guitarrista na \u00e9poca, e n\u00f3s dois t\u00ednhamos gostos musicais muito parecidos. Tipo Velvet Underground, Television, The Modern Lovers, essas coisas. Ent\u00e3o, acabei saindo desse apartamento e fui morar com ele e o Robert Christie, que era o baterista. Na \u00e9poca, era imposs\u00edvel fazer um \u00e1lbum, ent\u00e3o fizemos uma fita cassete e lan\u00e7amos de forma independente [\u201cSoul Like a Goat\u201d]. Isso foi l\u00e1 por 1985. Depois de um tempo o Al saiu, e entraram na banda o Billy Karren [guitarrista e futuro \u00fanico membro masculino do Bikini Kill] e a baixista Laura McDougall \u2014 tivemos v\u00e1rias mudan\u00e7as. Em 86, lan\u00e7amos mais um cassete [\u201cFrom Vegas to Memphis\u201d, na verdade lan\u00e7ado em 1987] e um single de 7 polegadas [\u201cWait\u201d, de 1988] \u2014 o que foi algo bem significativo na \u00e9poca, porque na nossa cidade ningu\u00e9m lan\u00e7ava discos. A banda durou mais algum tempo, mas acabamos encerrando as atividades [em 1990]. Nosso som era similar ao das bandas da \u00e9poca, um tipo de mistura entre punk rock e college rock. Quer\u00edamos soar <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/12\/06\/entrevista-sam-henry-wipers-napalm-beach-the-rats-jenny-dont-and-the-spurs\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">como os Wipers<\/a>, mas n\u00e3o conseguimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nota: saiba mais sobre o Snakepit e ou\u00e7a m\u00fasicas da banda <a href=\"http:\/\/panicon13th.blogspot.com\/2013\/11\/snakepit-1984-1990.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"SNAKEPIT &#039;Wait&#039; - Mike Johnson, Billy Karren, Robert Christie, Laura McDougall\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xgbafDjK2u0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a\u00ed voc\u00ea entrou pro Dinosaur Jr. logo ap\u00f3s deixar o Snakepit ou teve algum outro projeto nesse meio-tempo?<\/strong><br \/>\nBem, enquanto ainda estava no Snakepit, conheci o pessoal dos Screaming Trees. Eles foram a Eugene e conseguimos um show pra eles. Tr\u00eas bandas iriam se apresentar: os Trees, o Beat Happening e o Girl Trouble. No fim das contas, o Girl Trouble n\u00e3o veio e acabamos tocando no show no lugar deles. Ent\u00e3o rolou esse show e os Screaming Trees ficaram hospedados com a gente. Eu e o Mark [Lanegan] nos demos bem logo de cara, nos tornamos amigos rapidamente. Diferentemente de outros m\u00fasicos da \u00e9poca, compartilhamos um gosto em comum por velhos discos de blues e folk. Da\u00ed come\u00e7amos a falar sobre o \u00e1lbum solo dele [\u201cThe Winding Sheet\u201d, lan\u00e7ado em 1990]. Ele me chamou pra tocar no disco \u2014 isso tudo enquanto o Snakepit ainda estava na ativa. Quando a banda acabou, Mark disse que eu deveria me mudar pra Seattle para trabalharmos juntos. Ent\u00e3o, tocar com ele foi minha atividade principal logo que me mudei pra l\u00e1. Eu n\u00e3o tinha emprego, dinheiro, nada, apenas fui pra l\u00e1 e as coisas come\u00e7aram a rolar. E as pessoas com quem eu morava na \u00e9poca eram amigas do J [Mascis, guitarrista e vocalista do Dinosaur Jr.]. Ele se hospedou l\u00e1 uma vez e meio que nos conhecemos, mas s\u00f3 de passagem. Um tempo depois ele me ligou, me convidando pra tocar baixo no Dino. Eu n\u00e3o sabia direito da hist\u00f3ria da banda, da sa\u00edda do Lou [Barlow, baixista original, que formou o Sebadoh nos anos 90 e retornou ao Dinosaur em 2005]. Depois a [baixista] Donna Dresch e o Van Conner [Screaming Trees, falecido em 2023] tamb\u00e9m tocaram com eles\u2026 Eu conhecia a banda, ouvia os discos deles e tal, mas n\u00e3o estava sabendo de tudo que havia rolado. Na real eu n\u00e3o queria entrar pro Dinosaur, mas era obviamente a coisa certa a se fazer. Eu achei o convite estranho na \u00e9poca, porque eu n\u00e3o era baixista, e eles viviam em Massachusetts\u2026 Mas acabou rolando, em paralelo \u00e0s grava\u00e7\u00f5es do segundo \u00e1lbum do Mark [\u201cWhiskey For the Holy Ghost\u201d, lan\u00e7ado em 1994].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OK, ent\u00e3o voc\u00ea entrou pra banda, mesmo que n\u00e3o fosse um baixista, baseado apenas na amizade com o J?<\/strong><br \/>\nBem, na verdade n\u00f3s nem \u00e9ramos amigos ainda. N\u00e3o nos conhec\u00edamos direito. Eu era muito amigo das irm\u00e3s Jasper, Maura [artista visual e cineasta] e Megan [atual CEO da gravadora Sub Pop]. E at\u00e9 hoje eu n\u00e3o sei qual \u00e9 a verdadeira hist\u00f3ria por tr\u00e1s desse convite. Logo depois da morte do Mark, eu tive uma longa conversa com o Van Conner, e ele me contou que foi ele que buzinou no ouvido do J que eu deveria ser convidado. Isso foi na \u00e9poca que o Van estava deixando o Dinosaur e voltando pros Screaming Trees. Mas eu nunca tinha ouvido essa hist\u00f3ria antes, ent\u00e3o n\u00e3o sei. O que eu sei \u00e9 que, uma noite em que est\u00e1vamos na casa da Maura e da Megan, Maura estava falando com o J no telefone. Da\u00ed ela me disse: \u201co J vai te convidar pra entrar na banda\u201d, e me passou o telefone. Eu nunca tinha falado com o cara antes, acho que hav\u00edamos trocado duas frases um com o outro. O convite foi feito, ele me chamou pra ir pra Massachusetts. O Mark me incentivou, disse que eu deveria ir. N\u00e3o sabia direito o que estava fazendo, mas acabou acontecendo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Dinosaur Jr - Feel The Pain\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JXkN3nJyWEA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o fez um teste, nem nada?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o fiz nenhum teste, embora eles estivessem testando alguns m\u00fasicos. Na \u00e9poca eles fizeram uma divulga\u00e7\u00e3o na MTV do tipo: \u201cDinosaur Jr. precisa de baixista\u201d. Quando eu estava ficando na casa do J, ele me mostrou v\u00e1rios curr\u00edculos que recebia por fax. Eu achava que o emprego era meu, mas ao mesmo tempo ele ainda estava recebendo curr\u00edculos. Achei aquilo muito esquisito. E eu ainda dizia pra ele: \u201cJ, eu n\u00e3o sei tocar baixo\u201d. Ele s\u00f3 respondia: \u201cs\u00e3o duas cordas a menos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E logo em seguida voc\u00eas sa\u00edram em turn\u00ea para promover o \u201cGreen Mind\u201d (1991), certo? Deu tempo de ensaiar? Como foi entrar para uma banda que j\u00e1 tinha um hist\u00f3rico e um jeito de fazer as coisas? [Nota: Mike pode ser visto tocando com o Dinosaur Jr., nesta turn\u00ea, no filme \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/11\/30\/tres-filmes-pre-grunge-metal-e-punk\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1991: The Year Punk Broke<\/a>\u201d]<\/strong><br \/>\nSim, sa\u00edmos direto em turn\u00ea, foi tudo muito r\u00e1pido. Eu n\u00e3o sabia o que estava fazendo. Foi muito esquisito. Eu n\u00e3o me sentia como parte da banda. Quando os conheci, eles pareciam caras normais, sabe? Mas n\u00e3o pensei muito sobre o significado de fazer parte de uma banda como aquela, o que aquilo representava. Quando cheguei em Massachusetts, tudo era muito diferente, as pessoas pareciam diferentes. Ent\u00e3o, eu apenas fingi saber o que estava fazendo, embora eu n\u00e3o tivesse a menor ideia. E acho que isso ficou bem evidente em alguns momentos. Depois conheci algumas pessoas na regi\u00e3o que me deixaram um pouco mais \u00e0 vontade. Mas n\u00e3o foi uma situa\u00e7\u00e3o f\u00e1cil, foi bizarro. Havia uma esp\u00e9cie de culto \u00e0 personalidade no entorno da banda, algo que n\u00e3o combinava comigo. As pessoas agiam de um jeito estranho e eu n\u00e3o entendia o porqu\u00ea.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"1991 - The Year Punk Broke\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LeCYXexOZEg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Murph deixou a banda alguns anos depois, ap\u00f3s a turn\u00ea do \u00e1lbum &#8220;Where You Been&#8221; (1993). No document\u00e1rio &#8220;Freakscene: The Story of Dinosaur Jr.&#8221;, ele conta a hist\u00f3ria de sua sa\u00edda da banda. Ele disse que falou pro J que estava fora, e o J respondeu algo como \u201ct\u00e1 bem, se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 se divertindo mais\u2026\u201d. E a\u00ed o Murph retrucou que \u201cessa banda nunca foi divertida\u201d. Sua experi\u00eancia na banda foi essa tamb\u00e9m?<\/strong><br \/>\n(Risos). Bem, eu me diverti um pouco. Mas lembro da \u00e9poca que o Murph saiu, J me ligou pra dar a not\u00edcia. Acho que o J queria que ele sa\u00edsse, porque Murph estava claramente insatisfeito. Pra mim era uma situa\u00e7\u00e3o diferente. Enquanto eles tinham come\u00e7ado a banda juntos, eu era apenas um contratado. Mas eu me dava bem com ele, apesar de sermos pessoas bem diferentes. As coisas correram bem entre n\u00f3s. O problema daquela turn\u00ea foi o seguinte: n\u00f3s todos odiamos tocar no Lollapalooza. Foram dois meses de inferno. E eu acho que o Murph odiou mesmo o Lollapalooza, sabe? Uma coisa \u00e9 fazer uma por\u00e7\u00e3o de festivais na Europa quando voc\u00ea est\u00e1 tocando numa turn\u00ea pr\u00f3pria. Mas quando voc\u00ea est\u00e1 fazendo uma turn\u00ea que \u00e9 estritamente um festival, do qual voc\u00ea \u00e9 apenas uma parte, e n\u00e3o \u00e9 de fato um show seu, e \u00e9 a mesma coisa todo dia&#8230; Todo mundo em um campo aberto que n\u00e3o \u00e9 uma cidade de verdade, ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o pode sair pra dar uma volta, voc\u00ea s\u00f3 fica em um trailer o dia todo esperando os 40 minutos que vai subir no palco pra tocar. Isso n\u00e3o tem nada a ver com rock. \u00c9 s\u00f3 um enorme circo corporativo, n\u00e3o tem nada de org\u00e2nico ou musical a respeito disso. N\u00e3o sei qual \u00e9 a opini\u00e3o de outros m\u00fasicos, mas acho que todos n\u00f3s na banda nos sent\u00edamos assim, de uma forma ou de outra, nessa \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ano passado, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/06\/07\/entrevista-philipp-reichenheim-diretor-do-documentario-fala-sobre-freakscene-the-story-of-dinosaur-jr\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">entrevistamos aqui no S&amp;Y o Phillip Reichenheim, diretor de &#8220;Freakscene: The Story of Dinosaur Jr.&#8221;<\/a>, e tamb\u00e9m cunhado do J. Perguntei a ele por que voc\u00ea n\u00e3o estava no filme, e ele me disse que tentou entrar em contato com voc\u00ea, mas nunca teve resposta. Gostaria de comentar algo?<\/strong><br \/>\nAcho que l\u00e1 por 2009, ele realmente entrou em contato comigo e trocamos algumas mensagens. Ele me passou a impress\u00e3o de que far\u00edamos algo, filmar\u00edamos algumas entrevistas e tal. E da\u00ed nunca mais ouvi falar dele, por uns tr\u00eas ou quatro anos, quando ele me contatou novamente querendo fazer as entrevistas. Eu fiquei, tipo: \u201cisso n\u00e3o pode ser s\u00e9rio\u201d. A coisa toda ia rolar quatro anos antes, a\u00ed nunca mais ou\u00e7o falar sobre o filme e de repente ele ressurge\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pois \u00e9, ele levou uns 10 anos pra conseguir completar o filme.<\/strong><br \/>\n\u00c9, foi mancada minha. Eu queria contribuir, mas agora j\u00e1 era. E tamb\u00e9m, desde que a banda voltou com a forma\u00e7\u00e3o original, ningu\u00e9m nunca mais falou comigo. Eu meio que apaguei essa parte da minha vida. \u00c9 esquisito. Parece que eles n\u00e3o querem falar a respeito, como se n\u00e3o tivesse sido legal a minha participa\u00e7\u00e3o na banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paralelamente ao seu trabalho com o Dinosaur Jr., no qual voc\u00ea ficou at\u00e9 1997 [quando a banda acabou, retornando em 2005 com a forma\u00e7\u00e3o original], voc\u00ea continuou trabalhando com Mark Lanegan nos seus discos solo. Vamos voltar uns anos no tempo e falar um pouco mais sobre o primeiro disco, \u201cThe Winding Sheet&#8221;. Mark conta no seu livro, \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/17\/livro-sing-backwards-and-weep-a-dolorosa-biografia-de-mark-lanegan\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sing Backwards and Weep<\/a>\u201d, que recebeu um adiantamento da Sub Pop para grav\u00e1-lo. Ent\u00e3o, resolveu aprender a tocar viol\u00e3o para compor as can\u00e7\u00f5es. Ele disse que aprendeu a tocar ao estilo \u201chomem das cavernas\u201d. Ainda assim, can\u00e7\u00f5es como \u201cWoe\u201d e \u201cWild Flowers\u201d s\u00e3o tocadas por ele sozinho no disco. O qu\u00e3o grande foi, para voc\u00ea, o desafio de transformar essas can\u00e7\u00f5es em algo mais pronto, fazer arranjos, enfim\u2026?<\/strong><br \/>\nQuando fez o primeiro disco, ele sabia uns cinco acordes, eu acho. E sua habilidade no viol\u00e3o sempre se manteve no estilo \u201chomem das cavernas\u201d. Mas ele sempre teve um conhecimento instintivo de m\u00fasica e de como ela funciona, al\u00e9m de ser um cantor e compositor brilhante. Ele tinha essa habilidade de escrever can\u00e7\u00f5es com os mesmos tr\u00eas acordes e fazer algo completamente diferente e \u00fanico em cada uma delas. Mas ele estava inseguro na \u00e9poca e queria que eu compusesse introdu\u00e7\u00f5es e transi\u00e7\u00f5es para que as can\u00e7\u00f5es parecessem \u201cm\u00fasica de verdade\u201d. Mas, sabe, eu tamb\u00e9m sou um guitarrista bem primitivo, autodidata. Talvez eu tivesse um pouco mais de facilidade que o Mark, mas sempre trabalhamos em parceria para transformar as can\u00e7\u00f5es em algo especial. Era um \u00f3timo processo, do qual eu gostava muito, pra falar a verdade.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mark Lanegan - House a Home [3-13-94]\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-TZL9rkYgaQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As grava\u00e7\u00f5es de \u201cWhiskey for the Holy Ghost\u201d (1994) foram marcadas por uma hist\u00f3ria que \u00e9 bem conhecida, sobre Mark ter ficado frustrado com o som e tentado jogar as fitas master num rio, com <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/02\/24\/entrevista-jack-endino-fala-sobre-novo-disco-solo-e-relembra-trabalhos-com-nirvana-bruce-dickinson-e-titas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jack Endino<\/a> (produtor do disco) impedindo-o. Voc\u00ea estava l\u00e1 quando isso aconteceu?<\/strong><br \/>\nAcho que eu n\u00e3o estava l\u00e1, o que \u00e9 surpreendente, porque trabalhamos nele durante muito tempo. Levou uns tr\u00eas anos pra ficar pronto, tivemos v\u00e1rios altos e baixos. Mark gostava de contar hist\u00f3rias repetidamente, que talvez n\u00e3o tenham sido t\u00e3o importantes para a produ\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum quanto ele fazia parecer. \u00c9 verdade que a coisa se tornou um pesadelo pra ele, porque ele costumava ouvir coisas que mais ningu\u00e9m ouvia, geralmente relacionadas \u00e0 forma como a voz dele se encaixava nas m\u00fasicas. Mas n\u00e3o me recordo deste acontecimento (da fita master). Me lembro de Jack Endino se virar pra mim e dizer: \u201ccara, ontem passamos 16 horas direto trabalhando aqui no Reciprocal [est\u00fadio de Seattle]\u201d. Eu s\u00f3 olhava pra ele e respondia: \u201ceu sei, eu estava aqui. C\u00ea tava prestando aten\u00e7\u00e3o mesmo, hein?\u201d. Mas esse \u00e1lbum teve uns cinco ou seis engenheiros de som diferentes [no disco, tr\u00eas profissionais s\u00e3o creditados como engenheiros de som \u2014 Jack Endino, Terry Date e Ed Brooks \u2014, al\u00e9m de John Agnello na mixagem e Bob Ludwig na masteriza\u00e7\u00e3o]. Come\u00e7amos no est\u00fadio Ironwood com o Terry Date, que produziu aquela banda\u2026 Aquela do \u201cCowboys From Hell\u201d&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pantera.<\/strong><br \/>\nIsso, Pantera. Obrigado. Come\u00e7amos a fazer um disco totalmente ac\u00fastico com ele, inspirado no \u201cAstral Weeks\u201d [\u00e1lbum de Van Morrison de 1968], e tudo estava indo muito bem. Tem um v\u00eddeo que algu\u00e9m subiu no YouTube dizendo que se trata das demos do \u00e1lbum, mas na verdade s\u00e3o as primeiras sess\u00f5es de grava\u00e7\u00e3o que fizemos com Terry Date. Ficamos uma semana trabalhando, apenas comigo no viol\u00e3o, esse baixista de jazz chamado Phil Sparks e o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/09\/14\/entrevista-thomas-andrew-doyle-tad-hog-molly-brothers-of-sonic-cloth\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tad Doyle<\/a> [da banda Tad]. Estava correndo tudo muito bem, mas a\u00ed a Sub Pop ficou sem dinheiro e um cheque que foi usado para pagar o est\u00fadio foi devolvido. Foi brochante, porque estava tudo indo muito bem, as m\u00fasicas estavam com um som incr\u00edvel. Tudo mudou depois disso, porque os Trees tiveram que sair em turn\u00ea e sofreram um acidente quase fatal, que deu perda total na van deles [a van que sofreu o acidente era a da equipe t\u00e9cnica, na qual Mark tamb\u00e9m viajava \u2014 os demais membros da banda estavam em outro ve\u00edculo]. O Mark voltou a beber muito e a usar drogas logo depois disso, a\u00ed tudo come\u00e7ou a dar errado. S\u00f3 pod\u00edamos ir para o est\u00fadio quando n\u00f3s dois est\u00e1vamos em Seattle. Nos reun\u00edamos para fazer duas ou tr\u00eas can\u00e7\u00f5es de cada vez. Fizemos uma com Ed Brooks gravando e Dan Peters [<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/07\/05\/entrevista-steve-turne-mudhoney-fala-sobre-os-30-anos-de-every-good-boy-deserves-fudge\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mudhoney<\/a>] na bateria. Depois outra sess\u00e3o com Mark Pickerel [baterista original dos <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/02\/05\/entrevista-gary-lee-conner\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Screaming Trees<\/a>] na bateria e Jack Endino gravando algumas faixas. Depois seguimos em frente com outras pessoas. A coisa n\u00e3o sa\u00eda do lugar. Mark pedia mais dinheiro pra Sub Pop e gastava tudo em drogas. Uma vez ele tinha ido fazer alguma coisa em Nova York e me ligou, falando: \u201ccara, voc\u00ea tem que vir pra c\u00e1 pra gravar\u201d. E eu falei: \u201co que mais voc\u00ea quer que eu fa\u00e7a? J\u00e1 gravei mais de 100 faixas de guitarra, baixo, \u00f3rg\u00e3o e harm\u00f4nica pra esse disco\u201d. A\u00ed o Mark chamou o J e o Kurt Fedora [m\u00fasico que j\u00e1 havia tocado com o Dinosaur Jr.] pra terminar o disco, e come\u00e7ou a espalhar uma hist\u00f3ria de que eu tinha desistido dele. Mas eu n\u00e3o tinha desistido de nada. \u201cCara, o maldito disco est\u00e1 gravado, voc\u00ea s\u00f3 precisa termin\u00e1-lo\u201d \u2014 o que ele finalmente conseguiu fazer depois disso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mark Lanegan - Whiskey For The Holy Ghost \/\/ DEMOS (1991)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-1ST5gyJpns?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Alguns anos depois, quando voc\u00ea e Mark fizeram &#8220;Scraps at Midnight&#8221; (1998), acredito que tenha sido o primeiro \u00e1lbum no qual ele estava limpo, rec\u00e9m-sa\u00eddo da reabilita\u00e7\u00e3o. Foi muito diferente trabalhar com ele nessas grava\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nFoi diferente e aproveitamos melhor. Trabalhamos mais colaborativamente nas composi\u00e7\u00f5es. Mark teve que reaprender a compor e a voltar a ser ele mesmo. Foi muito bom fazer esse disco, embora eu estivesse com alguns problemas de alcoolismo. Mas parei de beber pra trabalhar no \u00e1lbum e tudo correu muito bem, t\u00ednhamos uma atmosfera \u00f3tima. Foi revigorante. Tamb\u00e9m voltamos a ser amigos, foi muito legal. O processo todo foi mais r\u00e1pido tamb\u00e9m. Nos junt\u00e1vamos para compor, \u00edamos para o est\u00fadio e deu, estava feito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ele tamb\u00e9m conta no livro de mem\u00f3rias que, nessa \u00e9poca, tinha uma d\u00edvida de meio milh\u00e3o de d\u00f3lares com o IRS, a Receita Federal dos EUA, por causa de direitos autorais que recebeu por sua participa\u00e7\u00e3o no \u00e1lbum \u201cAbove\u201d, do Mad Season, pelos quais ele nunca pagou os impostos devidos. Ent\u00e3o, ele precisou fazer alguns discos pra ajudar a pagar essa d\u00edvida. Isso influenciou a forma como esse disco e o seguinte, \u201cI\u2019ll Take Care of You\u201d (1999), foram feitos? Voc\u00ea sentiu alguma press\u00e3o nesse sentido?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, na verdade \u00e9 a primeira vez que ou\u00e7o falar disso. Ele nunca mencionou nada a respeito. Bem, ele me falou alguma coisa nesse sentido, mas acho que nada espec\u00edfico. Deve ser por isso que ele n\u00e3o me pagou quase nada (risos). Musicalmente, posso dizer que o disco foi feito pelas raz\u00f5es certas. \u00c9 um \u00e1lbum puro, artisticamente falando. N\u00e3o era como se ele estivesse fazendo s\u00f3 pela grana. O ambiente era \u00f3timo durante as grava\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Depois de fazerem \u201cField Songs\u201d (2001) juntos e de uma participa\u00e7\u00e3o sua em uma faixa de \u201cBubblegum\u201d (2004) [\u201cHit the City\u201d na qual Lanegan divide os vocais com PJ Harvey], voc\u00eas s\u00f3 voltaram a trabalhar em parceria no \u00e1lbum \u201cImitations\u201d, de 2013. Como foi esse retorno ap\u00f3s cerca de uma d\u00e9cada?<\/strong><br \/>\nPermanecemos em contato ap\u00f3s \u201cField Songs\u201d. Fizemos uma turn\u00ea e fui o padrinho do primeiro casamento dele [com a cantora Wendy Rae Fowler]. Mas depois disso <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2002\/10\/10\/tres-cds-qotsa-the-vines-e-jon-spencer\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ele entrou para o Queens of the Stone Age<\/a>, e acho que foi nessa \u00e9poca que perdemos contato. Ele come\u00e7ou a ter problemas com drogas novamente e tal. Eu me mudei pra Fran\u00e7a e ficamos anos sem nos falar. E a\u00ed, do nada, ele me manda um e-mail dizendo que faria mais um disco de covers e me perguntando se eu gostaria de participar. Falei que sim, claro, mas eu j\u00e1 n\u00e3o estava tocando tanto quanto antigamente. Ele me tranquilizou, disse que teria outros guitarristas. E correu tudo bem. Eu n\u00e3o era mais o cara principal. Jeff Fielder gravou a maior parte das guitarras. Eu fiquei mais com o papel de checar se a vibe estava correta, dando pequenas contribui\u00e7\u00f5es aqui e ali. Mas realmente n\u00e3o me envolvi tanto quanto nos cinco discos que fizemos juntos anteriormente, nos quais ajudei a coproduzir tamb\u00e9m. Cheguei a falar pra ele: \u201ccara, voc\u00ea n\u00e3o precisa de mim aqui\u201d. E ele respondeu que tudo bem, ele s\u00f3 queria minha presen\u00e7a l\u00e1. Nos divertimos bastante, n\u00e3o faz\u00edamos isso h\u00e1 muitos anos. Demos boas risadas. N\u00e3o foi a mesma coisa que antigamente, mas foi bom, fiquei feliz de ter sido convidado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas tinham algum projeto em mente antes do falecimento dele?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Gostaria que tiv\u00e9ssemos, sabe? Estivemos em contato novamente nos \u00faltimos anos, algo pelo qual sou grato. Fiquei sabendo de toda jornada dele com o Covid, trocamos e-mails e falei que estava feliz por ele ter superado a doen\u00e7a. Fiquei chocado e devastado quando soube que ele havia partido. N\u00e3o t\u00ednhamos planos espec\u00edficos, embora ele tenha mencionado que, se eu tivesse alguma demo ou ideias para m\u00fasicas, eu poderia enviar para ele \u2014 o que eu fiz. Mas ele acabou n\u00e3o usando nada desse material.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vamos finalizar falando um pouco sobre seus \u00e1lbuns solo, desenvolvidos paralelamente ao seu trabalho com o Dinosaur Jr. e o Mark Lanegan. O primeiro deles foi \u201cWhere Am I?\u201d (1994), tamb\u00e9m com produ\u00e7\u00e3o de Jack Endino. Em termos de estilo, ele habita a mesma zona de seu trabalho com Lanegan. Quais suas impress\u00f5es e lembran\u00e7as da produ\u00e7\u00e3o do disco?<\/strong><br \/>\nEsse foi feito quase como uma demo. Eu finalmente havia come\u00e7ado a tentar compor novamente, algo que tive dificuldades de fazer logo que me mudei para Seattle. Cheguei a fazer uma demo com o J tocando bateria e o Kurt Fedora no baixo. E a\u00ed comecei a tocar com o Barrett Martin [baterista de Screaming Trees, Mad Season e Nando Reis, entre outros] no baixo e meu amigo David Kruger no violino. Usei meu pr\u00f3prio dinheiro pra ir pro est\u00fadio e chamei o Jack pra produzir, porque o conheci por meio do Lanegan. Ent\u00e3o foi muito r\u00e1pido, passamos uns tr\u00eas dias gravando tudo. A ideia era fazer uma demo pra tentar arranjar algu\u00e9m que tivesse interesse em lan\u00e7ar. Ao mesmo tempo, o meu amigo Chris Takino abriu a gravadora Up Records \u2014 ele era meu colega de apartamento nessa \u00e9poca. Ele queria lan\u00e7ar alguns discos e, embora tivesse algumas conex\u00f5es na Sub Pop, n\u00e3o conseguiu fazer com que lan\u00e7assem coisas como o Built to Spill, Violent Green e outras bandas que ele gostava. Ent\u00e3o ele come\u00e7ou a gravadora e acabamos lan\u00e7ando o meu material tamb\u00e9m. Como falei, era praticamente uma demo. E era algo bem curto, quase como um EP.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Arise\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EMEaLGekuAU?list=OLAK5uy_lkyYBuRvHq7GB7dPQc885XH0rxjv4czVM\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gosto muito de &#8220;What Would You Do&#8221; (2002), seu quarto \u00e1lbum. E acho que, ouvindo esse disco, as pessoas conseguem ter a no\u00e7\u00e3o exata de como o som nos \u00e1lbuns do Mark Lanegan tem muita influ\u00eancia sua. Esse \u00e1lbum soa quase como um disco dele, de certa forma \u2014 e falo isso como um elogio. Ou talvez aqueles discos solo do Mark devessem ter sido creditados a voc\u00eas dois como uma dupla. Entende o que quero dizer? O que acha disso?<\/strong><br \/>\nAgrade\u00e7o suas palavras, \u00e9 um grande elogio. O som de \u201cWhat Would You Do\u201d&#8230; Bem, quando est\u00e1vamos fazendo o primeiro disco de covers do Mark, \u201cI\u2019ll Take Care of You\u201d, lembro de gravarmos uma m\u00fasica chamada \u201cCreeping Coastline of Lights\u201d, uma cover da banda The Leaving Trains. E o Mark estava apaixonado pelo som que est\u00e1vamos conseguindo tirar \u2014 aquele estilo que conseguimos desenvolver, que era realmente algo muito bonito. N\u00e3o sei como descrever, mas havia algo a respeito do som daquele \u00e1lbum que me atra\u00eda. Quando fizemos \u201cWhat Would You Do\u201d, era naquele som que eu estava pensando, naquele estilo. E foi da\u00ed que o som desse disco veio, a forma como a minha guitarra soava, eu estava apaixonado tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, sim, definitivamente h\u00e1 uma conex\u00e3o entre o meu disco e o trabalho que fiz com o Mark. Um arrependimento que tenho \u00e9 que Mark nunca esteve envolvido nos meus projetos solos tanto quanto eu gostaria, apesar de ele sempre ter sido meu bar\u00f4metro musical. Como \u00e9ramos amigos, eu sempre mostrava minhas demos pra ele, porque eu sempre gostava de ouvir o que ele tinha a dizer. Se ele gostasse especificamente de alguma, era nessa que eu iria trabalhar. Era importante ter a aprova\u00e7\u00e3o dele, e era algo que ele fazia com frequ\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu \u00faltimo trabalho solo foi \u201cGone Out Of Your Mind\u201d, em 2006. E 10 anos depois, voc\u00ea lan\u00e7ou uma cole\u00e7\u00e3o de sobras, \u201cThe Uninvited\u201d. Depois disso, mais nada. Voc\u00ea tem planos de voltar a gravar?<\/strong><br \/>\nGostaria de poder voltar. Quando me mudei para a Fran\u00e7a, depois de fazer o \u201cGone Out Of Your Mind\u201d, uma das raz\u00f5es de ter me mudado foi que n\u00e3o havia mais interesse na minha m\u00fasica nos Estados Unidos. N\u00e3o conseguia marcar shows, fiz uns dois e ningu\u00e9m apareceu&#8230; Acabei entendendo isso como: \u201cOK, n\u00e3o existe p\u00fablico para o que estou fazendo\u201d. Como a minha esposa \u00e9 da Fran\u00e7a, pensamos que uma mudan\u00e7a para c\u00e1 talvez fosse um pouco melhor. Acabou sendo melhor para n\u00f3s, mas n\u00e3o para a minha m\u00fasica. Sinto que ainda h\u00e1 m\u00fasica em mim e gostaria de poder voltar a tocar, mas hoje isso n\u00e3o \u00e9 uma realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma pena, espero que voc\u00ea consiga retornar. Obrigado pela entrevista.<\/strong><br \/>\nObrigado a voc\u00ea. Ei, e me desculpe pela demora em dar retorno. O dia que recebi sua mensagem foi o mesmo do falecimento de Van e fiquei arrasado. Fico feliz de ver que h\u00e1 pessoas interessadas no meu trabalho. Agrade\u00e7o sua aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mark Lanegan, Mike Johnson and J Mascis - House a Home - 120 minutes House A Home - Feb 13, 1994\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ie9vymWC7oE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mark Lanegan - Creeping Coastline of Lights\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/B8hPSUu0htw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Where Am I?\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_mS9UUAKNyAo76mZKMLRza6Fi4trHTWRiQ\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leonardo Tissot (<a href=\"http:\/\/www.leonardotissot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.leonardotissot.com<\/a>) \u00e9 jornalista e produtor de conte\u00fado.\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/leonardo-tissot\/\">Leia outros textos de Leonardo no Scream &amp; Yell<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mike Johnson \u00e9 um talento pouco reconhecido. Integrante do Dinosaur Jr. durante a fase de maior sucesso comercial do grupo e pe\u00e7a fundamental na aclamada carreira solo de Mark Lanegan, o guitarrista vive h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada na Fran\u00e7a&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/02\/22\/entrevista-mike-johnson-relembra-carreira-solo-seus-anos-de-dinosaur-jr-e-sua-prolifica-colaboracao-com-mark-lanegan\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":63,"featured_media":72848,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1458,344,6567],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72841"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/63"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=72841"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72841\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":72893,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72841\/revisions\/72893"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/72848"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=72841"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=72841"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=72841"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}