{"id":72815,"date":"2023-02-20T00:20:36","date_gmt":"2023-02-20T03:20:36","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=72815"},"modified":"2023-03-29T15:45:45","modified_gmt":"2023-03-29T18:45:45","slug":"entrevista-hernani-heffner-da-cinemateca-do-mam-rj-fala-sobre-a-preservacao-do-audiovisual-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/02\/20\/entrevista-hernani-heffner-da-cinemateca-do-mam-rj-fala-sobre-a-preservacao-do-audiovisual-brasileiro\/","title":{"rendered":"Entrevista: Hernani Heffner, da Cinemateca do MAM-RJ, fala sobre pol\u00edtica cultural e a preserva\u00e7\u00e3o do audiovisual brasileiro"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos principais nomes no campo da preserva\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o do audiovisual brasileiro, Hernani Heffner pode ser chamado de um dos guardi\u00f5es da mem\u00f3ria do cinema nacional. Ele est\u00e1 \u00e0 frente do acervo da <a href=\"https:\/\/mam.rio\/cinemateca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cinemateca do MAM-RJ<\/a>, local que possui 75 anos de exist\u00eancia e mais de tr\u00eas milh\u00f5es de itens documentais ocupando tr\u00eas pr\u00e9dios no Centro do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Participante do \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/01\/20\/entrevista-raquel-hallak-e-francis-vogner-falam-sobre-o-retorno-ao-formato-presencial-da-mostra-de-cinema-de-tiradentes\/\">F\u00f3rum do Festival de Tiradentes \u2013 Encontros pelo Audiovisual Brasileiro<\/a>\u201d, organizado pela edi\u00e7\u00e3o 2023 da Mostra na cidade mineira, Hernani foi um dos autores da Carta de Tiradentes, documento oriundo do estudo feito por mais de cinquenta profissionais do audiovisual em diversas \u00e1reas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diagn\u00f3stico do atual cen\u00e1rio entre 2016 e 2022, juntamente com propostas para o futuro do setor, ser\u00e1 apresentado em documento destinado ao reconstru\u00eddo Minist\u00e9rio da Cultura. Nessa entrevista ao Scream &amp;Yell, Hernani Heffner faz uma an\u00e1lise do per\u00edodo citado e fala sobre a preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria do audiovisual em tempos digitais.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Novo Centro de Conserva\u00e7\u00e3o da Cinemateca do MAM\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FPMImcxm4mg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fazendo um paralelo entre este per\u00edodo desde 2016, passando pela ascens\u00e3o da extrema-direita em 2018, chegando \u00e0 pol\u00edtica de retrocessos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Cultura no Brasil, qual, para o senhor, \u00e9 o novo horizonte em rela\u00e7\u00e3o a preserva\u00e7\u00e3o do audiovisual?<\/strong><br \/>\nOs \u00faltimos sete anos, se a gente tomar como baliza o impeachment da presidente Dilma Rousseff, foram anos muito complexos, muito dif\u00edceis, muito refrat\u00e1rios, sobretudo ao setor cultural. Muito obscurantistas, no sentido de que n\u00e3o s\u00f3 o golpe parlamentar de 2016 j\u00e1 era um ato completamente antidemocr\u00e1tico, mas o que se sucedeu \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro ao assumir uma pol\u00edtica de governo n\u00e3o s\u00f3 refrat\u00e1ria, mas persecut\u00f3ria ao universo da Cultura, criou, digamos assim, uma esp\u00e9cie de vazio, uma paralisa\u00e7\u00e3o, uma in\u00e9rcia. E uma dificuldade de voc\u00ea pensar, se planejar, desenvolver estrat\u00e9gias, e acompanhar aquilo que \u00e9, talvez, a quest\u00e3o maior: nem o mundo nem a Hist\u00f3ria param por um ou por outro acontecimento particular. De que, em paralelo a todos esses anos muito dif\u00edceis, voc\u00ea tem duas quest\u00f5es maiores. A primeira delas \u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o do mundo digital e o seu j\u00e1 encaminhamento para uma nova etapa. A consolida\u00e7\u00e3o do mundo digital para quem \u00e9 do audiovisual se reflete, principalmente agora, na presen\u00e7a maci\u00e7a dos streamings, das plataformas de compartilhamento pagas de v\u00eddeos. Por outro lado, al\u00e9m dessa consolida\u00e7\u00e3o desse ecossistema audiovisual digital que hoje \u00e9 t\u00edpico do mundo contempor\u00e2neo, voc\u00ea tinha j\u00e1 os elementos em processo, em desenvolvimento. Eles v\u00eam a configurar muito rapidamente a supera\u00e7\u00e3o desse mundo digital que eu chamaria, simplesmente, de 2.0, para um novo mundo digital, para uma nova ecologia digital, que ser\u00e1, tendo como refer\u00eancia, a WEB 3.0. Isso,na verdade ser\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o virtual, ser\u00e1 o metaverso, ser\u00e1 a intelig\u00eancia artificial, ser\u00e1 a internet das coisas. Ser\u00e1, na verdade, uma automa\u00e7\u00e3o de um conjunto enorme de processos. E a gente ainda n\u00e3o tem a dimens\u00e3o de como isso impacta as a\u00e7\u00f5es cotidianas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como encaramos, ent\u00e3o, esse novo paradigma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o audiovisual?<\/strong><br \/>\nVou dar um exemplo muito simples: como voc\u00ea pode arquivar tudo que circula pela internet em termos de audiovisual? Por mais que voc\u00ea tivesse um milh\u00e3o de trabalhadores, eles n\u00e3o dariam conta disso porque, hoje, 80% dos seis zettabytes de informa\u00e7\u00e3o que trafegam diariamente s\u00e3o v\u00eddeos (um zettabyte corresponde a 1.000.000.000.000.000.000.000 de bytes). Ent\u00e3o \u00e9 humanamente imposs\u00edvel preservar isso. E a \u00fanica possibilidade de se fazer \u00e9 com a automa\u00e7\u00e3o desse processo. Ou seja, atrav\u00e9s da intelig\u00eancia artificial, voc\u00ea programar um computador, ou um servidor, uma nuvem, uma s\u00e9rie de estruturas da pr\u00f3pria internet para ir buscar, copiar, armazenar, catalogar completamente atrav\u00e9s de uma intelig\u00eancia artificial, e conservar em definitivo para um longo prazo. Seja em uma estrutura f\u00edsica, seja uma estrutura em nuvem, que tamb\u00e9m \u00e9 uma estrutura f\u00edsica. Ou seja, pela pr\u00f3pria estrutura da inform\u00e1tica, da cibern\u00e9tica, voc\u00ea consegue, talvez dar conta dos seis zettabytes de tr\u00e1fego di\u00e1rio. Agora imagina isso 365 dias por ano, em dez anos, etc. Mas j\u00e1 h\u00e1 essa possibilidade. L\u00f3gico que isso exige a compreens\u00e3o do que \u00e9 essa nova tecnologia, o dom\u00ednio dessa nova tecnologia. Exige voc\u00ea desenvolver protocolos para esse novo mundo. Como catalogar, como fazer meta dados, etc. Mas h\u00e1 um caminho. H\u00e1 um futuro. H\u00e1 uma esperan\u00e7a de voc\u00ea enfrentar a natureza do mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como lidar com a quest\u00e3o da preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria oriunda do mundo digital?<\/strong><br \/>\nO mundo digital se consolidou paralelamente ao mergulho do Brasil no obscurantismo. Houve um outro momento, que foi potencializado sobretudo pela pandemia da covid-19, que \u00e9 a mudan\u00e7a de h\u00e1bitos e a mudan\u00e7a geracional que ocorreu a partir daquele momento, daquele fen\u00f4meno, daquela suspens\u00e3o aparente da vida e da hist\u00f3ria, mas que, na verdade, levou a vida e a hist\u00f3ria para dentro de casa, para uma esfera que j\u00e1 era privada em grande medida, mas que se acelerou nessa dimens\u00e3o estritamente individual. O trabalho remoto, por exemplo, virou uma realidade. E isso significou, sobretudo, uma mudan\u00e7a de h\u00e1bito para as gera\u00e7\u00f5es mais jovens, que eu chamo, simplesmente, de gera\u00e7\u00e3o Tik Tok. Ela filma a si mesmo. Ela j\u00e1 n\u00e3o filma mais o mundo. \u00c9 uma invers\u00e3o de interesses frente a gera\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX que filmavam o mundo e n\u00e3o filmavam a si mesmas. Com essa nova dimens\u00e3o, que \u00e9 traduzido sobretudo pelas redes sociais, que tamb\u00e9m precisam ser preservadas de alguma maneira, e elas s\u00e3o digitais tanto quanto qualquer outro dado que trafegue pela internet, ou pelo celular. Isso significou, na verdade, uma postura diferente. Porque n\u00e3o se trata mais de uma mem\u00f3ria patrimonial geral de um pa\u00eds ou de uma mem\u00f3ria social de um determinado grupo, ou de um determinado territ\u00f3rio, mas se trata, ali, literalmente, da mem\u00f3ria individual das pessoas. E n\u00e3o h\u00e1 uma estrat\u00e9gia real, embora muitas dessas redes sociais prometam uma timeline, um feed infinito, n\u00e3o h\u00e1 uma estrat\u00e9gia real para preservar isso em um longo prazo. Para preservar a mem\u00f3ria das pessoas, que \u00e9 totalmente digital a essa altura. Esses dois universos, eles cresceram de uma forma estratosf\u00e9rica em um momento no qual o Brasil parou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como preservacionista do imenso acervo da Cinemateca do MAM-RJ, como o senhor avalia o modo como a retomada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Cultura se dar\u00e1 ap\u00f3s os \u00faltimos sete anos, desde a ruptura democr\u00e1tica do golpe parlamentar de 2016?<\/strong><br \/>\nSete anos \u00e9 muito tempo para qualquer coisa. Para qualquer atividade. Imagina voc\u00ea retomar o ritmo cotidiano da atividade. Mas, mais do que isso, imagina voc\u00ea ter que repensar uma estrat\u00e9gia de futuro, sendo que o futuro j\u00e1 chegou, j\u00e1 se instalou, j\u00e1 tomou conta de tudo, j\u00e1 mudou o paradigma. E voc\u00ea, agora, tem que correr atr\u00e1s do preju\u00edzo. A ruptura democr\u00e1tica que o Brasil sofreu n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma perda pol\u00edtica. Ela \u00e9 uma perda pol\u00edtica, social e cultural. \u00c9 uma perda da mem\u00f3ria individual das pessoas. As pessoas n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia disso, at\u00e9 porque est\u00e3o vivendo o processo, e \u00e9 muito dif\u00edcil, \u00e0s vezes, voc\u00ea tomar p\u00e9 do que voc\u00ea est\u00e1 vivendo no sentido mais amplo, em uma compreens\u00e3o mais sist\u00eamica, mais complexa. Mas, de fato, esse obscurantismo se deu em paralelo a muitos outros fen\u00f4menos, muitos outros processos que ocorreram, a rigor, no mundo inteiro e para os quais a resposta n\u00e3o \u00e9 simples, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, n\u00e3o \u00e9 barata. Isso significa que, do ponto de vista das institui\u00e7\u00f5es, e a\u00ed eu vou entrar na Cinemateca do MAM, voc\u00ea podia ter consci\u00eancia de que isso estava acontecendo, mas sua resposta a isso era sempre muito t\u00edmida porque, de um lado, embora a Cinemateca do MAM seja uma institui\u00e7\u00e3o privada, ela n\u00e3o \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o de governo, ela depende, como quase tudo no Brasil, do patroc\u00ednio cultural, da ren\u00fancia fiscal, das leis de incentivo, ou seja, de uma estrutura legal, de uma pol\u00edtica p\u00fablica que permite, inclusive, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es privadas assumir parte da tarefa, por exemplo, de fazer preserva\u00e7\u00e3o que, em princ\u00edpio, deveria partir do Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi esse per\u00edodo para o acervo da Cinemateca do MAM-RJ?<\/strong><br \/>\nEu te diria que os \u00faltimos sete anos da Cinemateca do MAM, curiosamente, e talvez at\u00e9 contraditoriamente, foram muito bons. Porque o arquivo conseguiu superar a crise l\u00e1 do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, conseguiu se estruturar paulatinamente para conseguir mais recursos. Hoje, a Cinemateca tem um patrocinador exclusivo, que \u00e9 a Samambaia Filantropia. Conseguiu convencer a dire\u00e7\u00e3o do Museu de que ela precisava de um espa\u00e7o maior, de uma estrutura maior. Ent\u00e3o, todos os acervos foram movidos da sede do Museu, no Aterro do Flamengo, para um novo espa\u00e7o, que na verdade s\u00e3o tr\u00eas pr\u00e9dios de sete andares no Centro do Rio de Janeiro. S\u00e3o pr\u00e9dios que t\u00eam vantagens t\u00e9cnicas, que t\u00eam vantagens de tratamento de acervo, que t\u00eam vantagens de espa\u00e7o e infraestrutura para a equipe de trabalho. Houve um grande investimento nesses tr\u00eas pr\u00e9dios de sete andares. Investimento de climatiza\u00e7\u00e3o, investimento de seguran\u00e7a, investimento de prote\u00e7\u00e3o ao acervo, investimento de mobili\u00e1rio, de material de insumos de conserva\u00e7\u00e3o. Investimento no aumento da equipe. E, de alguma maneira, esses sete anos representam uma pequena revolu\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria da Cinemateca do MAM considerando que \u00e9 um dos arquivos mais antigos do Brasil. A Cinemateca completa esse ano 75 anos exist\u00eancia. Ent\u00e3o, na verdade, \u00e9 uma hist\u00f3ria muito longa, cheia de altos e baixos, cheia de perip\u00e9cias. Sempre correndo atr\u00e1s das mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas que determinam as mudan\u00e7as de conserva\u00e7\u00e3o a certa altura, sendo que, para arquivos audiovisuais, para institui\u00e7\u00f5es de preserva\u00e7\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o esquece o passado. Voc\u00ea n\u00e3o troca o passado pelo presente ou pelo futuro, simplesmente. Voc\u00ea tem que continuar a conservar o passado, o presente e se preparar para o futuro. E eu acho que, com todas as dificuldades, com todas as restri\u00e7\u00f5es etc&#8230;, a gente conseguiu se organizar um pouco melhor para, na verdade, enfrentar n\u00e3o somente os desafios de conservar melhor o passado que acumulamos ao longo de 75 anos (s\u00e3o mais de tr\u00eas milh\u00f5es de itens documentais), mas come\u00e7amos a nos preparar para fazer frente ao futuro que vem por a\u00ed. A gente conseguiu encontrar uma central de digitaliza\u00e7\u00e3o l\u00e1 no espa\u00e7o. Come\u00e7amos a digitalizar acervos de v\u00eddeo magn\u00e9ticos, que s\u00e3o os mais volumosos. Estabelecemos uma parceria com a mapa link para digitalizar as pel\u00edculas de 16mm e 35mm. Retomamos o programa de co-produ\u00e7\u00f5es da Cinemateca. Na Mostra de Cinema de Tiradentes 2023 foi apresentada uma dessas novas co-produ\u00e7\u00f5es, que foi \u201cO Cangaceiro da Moviola\u201d (2023), filme dirigido por Lu\u00eds Rocha Melo, que \u00e9 uma co-produ\u00e7\u00e3o com a Cinemateca do MAM. No final do m\u00eas, vai estrear mundialmente no Festival de Rotterdam o \u00faltimo filme do J\u00falio Bressane, \u201cA Viagem do \u00d4nibus Amarelo\u201d (2023), que, tamb\u00e9m, \u00e9 uma co-produ\u00e7\u00e3o da Cinemateca do MAM. E a pr\u00e9-estreia brasileira vai ser na Cinemateca, em junho, dentro de um festival que a abrigamos. Enfim, retomamos uma s\u00e9rie de processos que j\u00e1 existiam anteriormente na hist\u00f3ria da Cinemateca, e instauramos outros. Por exemplo, a gente nunca teve uma central de digitaliza\u00e7\u00e3o. E come\u00e7amos a pensar o que \u00e9 esse mundo 3.0 que vem por a\u00ed. Como vamos trabalhar, por exemplo, os filmes que trabalhem realidade virtual, realidade aumentada? Como vamos conservar jogos eletr\u00f4nicos? Como vamos lidar com esse outro mundo que vai ser completamente diferente desse que j\u00e1 conhecemos e que vai ter que receber a nossa aten\u00e7\u00e3o porque vamos ter que conservar tudo isso que vem pela frente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O senhor citou a Samambaia Filantropias como parceiro financeiro da Cinemateca do MAM. Isso me fez pensar sobre outras possibilidades de parcerias, sobre o apoio de cineastas e, tamb\u00e9m, em como o Estado deve participar. Lembro de ter lido, por exemplo, sobre a funda\u00e7\u00e3o do Martin Scorsese nos Estados Unidos.<\/strong><br \/>\nO caso brasileiro, frente a o que ocorre nos Estados Unidos, \u00e9 muito diferente. Os Estados Unidos t\u00eam uma tradi\u00e7\u00e3o de filantropia que j\u00e1 tem 200 anos. Ou seja, qualquer milion\u00e1rio americano que se preze, ele tem que fazer filantropia. Caso contr\u00e1rio, ele \u00e9 malvisto socialmente, inclusive no meio de elite que ele frequenta. Ent\u00e3o, por isso que voc\u00ea ouve, a todo momento, que todos os artistas, todos os diretores, todos os escritores, todos os milion\u00e1rios, o dono da Apple, o dono da Microsoft, por exemplo, doam milh\u00f5es de d\u00f3lares para \u00e1rea de sa\u00fade, ou para a \u00e1rea de artes, ou a \u00e1rea de engenharia, ou a \u00e1rea de forma\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma tradi\u00e7\u00e3o. O cinema l\u00e1 nem se tornou, de fato, objeto de um investimento maior por parte da filantropia americana, com exce\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios membros da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica. Ent\u00e3o, voc\u00ea ouve muito falar no Scorsese, voc\u00ea ouve muito falar no Tarantino, que tem uma sala de exibi\u00e7\u00e3o em 70mm, por exemplo. E, na verdade, voc\u00ea n\u00e3o ouve falar em nada al\u00e9m de cineastas que s\u00e3o, tamb\u00e9m, cin\u00e9filos. Cineastas que v\u00eam do tempo da pel\u00edcula, de cineastas que, por trabalhar na ind\u00fastria norte-americana, conseguem ter milh\u00f5es de d\u00f3lares para investir publicamente nisso. Mas sempre dentro de um modelo que eu n\u00e3o acho um modelo mais adequado. Sobretudo o do Scorsese. Ele criou uma funda\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a World Film Foundation, que recebe os recursos, digamos assim, da fortuna pessoal do Scorsese, mas que faz os seus servi\u00e7os procurando monetizar os produtos finais. Ent\u00e3o, por exemplo, vai l\u00e1 na \u00c1frica, pega um filme africano, restaura esse filme, e se os africanos quiserem assistir, tem que pagar. N\u00e3o considero isso uma forma adequada de voc\u00ea, de um lado, resguardar o patrim\u00f4nio cultural, o patrim\u00f4nio cinematogr\u00e1fico, e de outro lado, dar acesso. Porque preserva\u00e7\u00e3o significa n\u00e3o s\u00f3 conservar, mas tamb\u00e9m dar acesso. N\u00e3o existe preserva\u00e7\u00e3o sem acesso. N\u00e3o se transforma isso em uma cadeia econ\u00f4mica t\u00edpica onde o produto final \u00e9 car\u00edssimo, e isso ocorre em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil. Se o Brasil quiser assistir l\u00e1 a vers\u00e3o restaurada de \u201cLimite\u201d (1931, M\u00e1rio Peixoto) tem que pagar. Mil d\u00f3lares por exibi\u00e7\u00e3o! Cinco mil reais por uma exibi\u00e7\u00e3o de um arquivo digital, convenhamos, \u00e9 fora de qualquer prop\u00f3sito para um pa\u00eds de uma economia como a brasileira. E para mim n\u00e3o \u00e9 nem o problema monet\u00e1rio, \u00e9 o problema filos\u00f3fico. Voc\u00ea vai pegar um patrim\u00f4nio, \u201cLimite\u201d \u00e9 um patrim\u00f4nio da humanidade tombado pela UNESCO, e novamente transformar em um produto caro e de elite? Tem alguma coisa errada nesse processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No Brasil, de fato, \u00e9 incomum ver filantropia voltada para arte.<\/strong><br \/>\nA tradi\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o \u00e9 essa. At\u00e9 porque aqui n\u00e3o existe filantropia em larga escala. A tradi\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o institucional. Mas, \u00e0s vezes, \u00e9 o Estado brasileiro, seja federal, municipal ou estadual, que desenvolve uma a\u00e7\u00e3o de resguardo, de salvaguarda, seja de uma igreja barroca, seja de um livro que est\u00e1 na biblioteca nacional, seja de um filme que est\u00e1 em algum arquivo, como, por exemplo, a Cinemateca do MAM. Essa estrat\u00e9gia \u00e9 que formou o patrim\u00f4nio cultural brasileiro. Que formou o patrim\u00f4nio audiovisual brasileiro, que, na verdade, criou condi\u00e7\u00f5es para a gente ter uma hist\u00f3ria cultural. Ent\u00e3o, eu acho que o modelo dos Estados Unidos n\u00e3o se adequa \u00e0 realidade brasileira. O modelo dos Estados Unidos \u00e9 um modelo muito problem\u00e1tico do ponto de vista conceitual. E passa uma ideia errada: a de que a gente tem que transformar o patrim\u00f4nio da humanidade em um grande com\u00e9rcio. E n\u00e3o \u00e9 por a\u00ed. A gente sabe que a Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira e as resolu\u00e7\u00f5es da UNESCO dizem que o patrim\u00f4nio cultural \u00e9 um bem comum da Humanidade e que tem que estar dispon\u00edvel para a humanidade usufruir. Toda vez que voc\u00ea cria algum tipo de barreira a essa frui\u00e7\u00e3o, na verdade voc\u00ea est\u00e1 negando esse princ\u00edpio, voc\u00ea est\u00e1 negando essa premissa. Voc\u00ea est\u00e1 criando, na verdade, uma dist\u00e2ncia entre todos n\u00f3s, todas as pessoas, toda a humanidade e os bens culturais que foram acumulados a\u00ed desde a antiguidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O fomento do Estado se torna imprescind\u00edvel, ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSim. O Brasil come\u00e7ou uma pol\u00edtica cultural nos anos 30 do s\u00e9culo passado. A Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira de 1936, se n\u00e3o me engano, j\u00e1 tem um cap\u00edtulo dedicado \u00e0 Cultura. E j\u00e1 naquele momento, o entendimento \u00e9 que isso \u00e9 uma tarefa de Estado. Por qu\u00ea? Porque o cidad\u00e3o comum n\u00e3o tem recurso para isso. Porque a empresa privada tem um outro objetivo. Porque, na verdade, eventualmente uma classe de milion\u00e1rios brasileiros, ela n\u00e3o tem a cultura do patroc\u00ednio, uma cultura de investimento direto, uma cultura de doa\u00e7\u00e3o necess\u00e1rios para voc\u00ea ter um outro tipo de arranjo aqui. Na aus\u00eancia, na omiss\u00e3o do vazio, o Estado brasileiro ocupou esse espa\u00e7o e assumiu essa tarefa j\u00e1 em 1937, por exemplo, quando se cria o antigo IPHAN (Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional), que hoje \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o chamado IBRAM, que tem l\u00e1 o IPHAN, e voc\u00ea pode dizer que isso tem quase um s\u00e9culo no Brasil. E que deu certo! Essa institucionaliza\u00e7\u00e3o p\u00fablica via estado deu certo! Salvou, por exemplo, as cidades hist\u00f3ricas de Minas Gerais, al\u00e9m de muitas outras coisas. Ent\u00e3o, a nossa tradi\u00e7\u00e3o, e voc\u00ea n\u00e3o pode ignorar que um s\u00e9culo j\u00e1 \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o, a nossa tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 via Estado. E eu acho que para a trajet\u00f3ria socio-hist\u00f3rica-cultural de uma na\u00e7\u00e3o como o Brasil, eu n\u00e3o vejo alternativa. N\u00e3o s\u00f3 porque tudo est\u00e1 estruturado nesse sentido, e mudar, digamos, essa estrutura, esse processo, significa desarrumar completamente o que existia e tentar arrumar uma outra dimens\u00e3o para botar no lugar. Talvez d\u00ea certo, talvez n\u00e3o d\u00ea certo. Ent\u00e3o, \u00e9 um risco grande. E se tratando de patrim\u00f4nio cultural, \u00e9 um risco maior ainda. E eu acho que fazer via Estado tem uma grande virtude que \u00e9 o comprometimento de toda sociedade com isso. Que, na verdade, \u00e9 o imposto de cada cidad\u00e3o que est\u00e1 sustentando o patrim\u00f4nio cultural brasileiro e, por isso mesmo, ele tem o direito de usufruir. Ele tem que aprender a valorizar, tem que aprender a perceber que aquilo tem um sentido, tem um uso, tem um valor. E que ele tem o direito de usufruir daquilo. E, por outro lado, como o Brasil \u00e9 um pa\u00eds continental, \u00e9 muito dif\u00edcil que isso se fa\u00e7a sem a presen\u00e7a do Estado. Eu acho que a grande distor\u00e7\u00e3o dentro desse processo \u00e9 que, durante muito tempo, s\u00f3 o Governo Federal fazia isso. E, na verdade, hoje, dentro do mundo digital, voc\u00ea tem que descentralizar tudo. Tem que trabalhar em rede e fazer com que estados e munic\u00edpios, esses, sim, sejam os grandes protagonistas, sejam os grandes atores. Porque eles t\u00eam maior agilidade, eles t\u00eam maior comprometimento, s\u00e3o mais pr\u00f3ximos desses patrim\u00f4nios. E, eventualmente, t\u00eam uma capacidade melhor de gerir os recursos, mesmo que eles venham do governo federal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Conversa com Hernani Heffner - Filmes na Quarentena II\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xXFD-vyPkuo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0 A foto que abre o texto \u00e9 de Leo Fontes\/ Universo Produ\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;O Brasil come\u00e7ou uma pol\u00edtica cultural nos anos 30 do s\u00e9culo passado.Essa institucionaliza\u00e7\u00e3o p\u00fablica via Estado deu certo! 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