{"id":72028,"date":"2023-02-02T15:30:35","date_gmt":"2023-02-02T18:30:35","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=72028"},"modified":"2023-03-13T02:36:10","modified_gmt":"2023-03-13T05:36:10","slug":"literatura-amora-de-natalia-borges-polesso-ganha-reedicao-caprichada-e-segue-atual-e-urgente-em-sua-sensibilidade-singular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/02\/02\/literatura-amora-de-natalia-borges-polesso-ganha-reedicao-caprichada-e-segue-atual-e-urgente-em-sua-sensibilidade-singular\/","title":{"rendered":"Literatura: &#8220;Amora&#8221;, de Nat\u00e1lia Borges Polesso, ganha reedi\u00e7\u00e3o caprichada e segue urgente em sua sensibilidade singular"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gabriel Pinheiro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amora \u00e9 uma fruta pequenina, que pode ser doce ou de uma acidez que trava o maxilar ao tocar a l\u00edngua. Quem j\u00e1 comeu direto do p\u00e9, provavelmente guarda na mem\u00f3ria a experi\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 pelo sabor, mas pela cor do sumo que escorre pelos dedos. Os borr\u00f5es arroxeados nas m\u00e3os e, quem sabe, na roupa. \u00c9 uma fruta que deixa marcas. Amora tamb\u00e9m \u00e9 uma palavra inventada. \u00c9 o feminino para o amor. E o amor &#8211; um amor m\u00faltiplo, tendo como elo o fato de ser vivido por e entre mulheres &#8211; transborda pelas p\u00e1ginas de &#8220;Amora&#8221;, volume de contos de Nat\u00e1lia Borges Polesso originalmente lan\u00e7ado em 2015, que ganha nova e caprichada edi\u00e7\u00e3o pela Dublinense, com um belo projeto gr\u00e1fico de Luisa Zardo, tr\u00eas contos in\u00e9ditos, e depoimentos das escritoras Cidinha da Silva e Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, al\u00e9m de posf\u00e1cios de Milena Britto e Luiz Mauricio Azevedo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Amora, vamos ao cinema hoje a noite?&#8221;. \u00c9 assim que as amigas Nat\u00e1lia se chamam, ela nos diz no pref\u00e1cio (que ainda traz o contexto da produ\u00e7\u00e3o e trajet\u00f3ria da obra) dessa nova edi\u00e7\u00e3o do livro. &#8220;Depois eu descobri que isso era comum. Amigas e namoradas se chamam de amora&#8221;. A partir dessa palavra inventada, Polesso constr\u00f3i aqui um itiner\u00e1rio \u00edntimo pelo amor entre mulheres, nas suas mais diversas formas e possibilidades. \u201cAmora \u00e9 pura fic\u00e7\u00e3o. Pur\u00edssima! Um trabalho cuidadoso de elabora\u00e7\u00e3o escrita (&#8230;). Amora tamb\u00e9m sou eu. Amora \u00e9 a minha vida, \u00e9 a vida das minhas irm\u00e3s das amigas, sapatas e bissexuais, das minhas amigas entediadas, das impossibilitadas de assumir, das enrustidas, das minhas amoras livres, das velhas amadas, das crian\u00e7as viadas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nat\u00e1lia divide as narrativas em dois conjuntos, \u201cGrandes e sumarentas\u201d e \u201cPequenas e \u00e1cidas\u201d. Na primeira e caudalosa parte do livro, est\u00e3o os textos mais narrativos, com um dedicado desenvolvimento de personagens. J\u00e1 no segundo conjunto, Polesso nos entrega textos breves, marcados pelo experimentalismo e por uma escrita po\u00e9tica. As primeiras vezes, seja um primeiro amor, a primeira experi\u00eancia sexual ou a primeira desilus\u00e3o amorosa; as delicadas rela\u00e7\u00f5es familiares, o dito e, sobretudo, o n\u00e3o-dito; as amarras de uma heteronormatividade que ainda se imp\u00f5e como regra e as tentativas de rompimento com esse padr\u00e3o; os espelhamentos poss\u00edveis entre diferentes gera\u00e7\u00f5es de mulheres; o amor puro e simples acontecendo, livre e espontaneamente. S\u00e3o muitas as formas do amor e do desejo l\u00e9sbico que Nat\u00e1lia Borges Polesso apresenta neste conjunto de contos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na narrativa que d\u00e1 t\u00edtulo ao volume, uma enxadrista mirim tem seu primeiro amor plat\u00f4nico e a primeira desilus\u00e3o amorosa com um garoto logo nas primeira p\u00e1ginas. Ela mal imagina que um segundo amor se avizinhava, mas por uma outra garota. \u201cAmora sabia o que era aquilo, mas n\u00e3o entendeu como podia ser\u201d. Noutro texto, aos dezessete, a protagonista ainda \u00e9 virgem. Ela se cansou de mentir para as colegas sobre sua primeira vez. \u201cJ\u00e1 n\u00e3o lembrava qual era a verdade da mentira que tinha contado e agora adicionava fatos aleat\u00f3rios\u201d. Quando, enfim, o dia t\u00e3o aguardado chega, ela percebe que todo o antes, o breve romance com aquele garoto que conhecera num bar onde matava aula, fora melhor do que o ato em si. Mas essa n\u00e3o ser\u00e1 a sua \u00fanica primeira vez. \u201cNenhuma das duas teve tempo de tirar o suti\u00e3. Foi tudo desajeitado, como s\u00e3o geralmente as primeiras vezes. Cheias de dentes que batem e movimentos de desencaixe\u201d. O peso do tempo se apresenta em um sens\u00edvel conto sobre um casal de idosas e os rituais di\u00e1rios que as acompanham ao longo dos anos: o cheiro do caf\u00e9 sendo passado e a melodia das gavetas abertas numa manh\u00e3 de domingo. &#8220;Nos olhamos para tentar entender como foi que chegamos ali. Nunca entendemos. Sempre entendemos. Somos muito quietas, sempre fomos do sil\u00eancio.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que mais surpreende em \u201cAmora\u201d \u00e9 o quanto o cotidiano \u00e9 protagonista das narrativas. Nat\u00e1lia se interessa pela vida acontecendo pura e simplesmente. Os pequenos gestos, os sorrisos e as l\u00e1grimas &#8211; de alegria, de choro, de gozo &#8211; compartilhadas entre quatro paredes. Cada conto \u00e9 como uma pequena janela para o \u00edntimo, para o pessoal. Ter esse vislumbre de relacionamentos homoafetivos como algo cotidiano segue tendo uma for\u00e7a po\u00e9tica e pol\u00edtica tremenda quase oito anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento da primeira edi\u00e7\u00e3o. Ainda que as narrativas orbitem dentro de um grupo espec\u00edfico, Polesso nos mostra como ele \u00e9 m\u00faltiplo. Cada personagem aqui \u00e9 um mundo pr\u00f3prio. Neste caleidosc\u00f3pio de experi\u00eancias, cabe a inf\u00e2ncia, a adolesc\u00eancia e a descoberta do desejo, cabe a vida adulta e a velhice, com suas marcas e o peso do tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAmora\u201d traz um olhar diverso para as in\u00fameras possibilidades da exist\u00eancia e do amor entre mulheres. Apesar do amargor do mundo, h\u00e1 dul\u00e7or (e um pouco de acidez, para equilibrar) nas amoras de Nat\u00e1lia Borges Polesso. Assim como as pequenas frutas, suas breves narrativas nos deixam marcas. N\u00e3o arroxeadas nas m\u00e3os, nos l\u00e1bios e na roupa, mas, ainda assim, marcas. Segue atual e urgente em sua sensibilidade singular.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Natalia Borges Polesso - Podcast #017\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fay2CYu5ZSg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/category\/literatura\/\">Leia sobre outros livros no Scream &amp; Yell<\/a><\/strong><\/p>\n<p><em>\u2013 Gabriel Pinheiro \u00e9 jornalista. Escreve sobre suas leituras tamb\u00e9m no Instagram:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@tgpgabriel<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cAmora\u201d traz um olhar diverso para as in\u00fameras possibilidades da exist\u00eancia e do amor entre mulheres. 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