{"id":71787,"date":"2023-01-20T01:05:43","date_gmt":"2023-01-20T04:05:43","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=71787"},"modified":"2023-02-12T00:28:32","modified_gmt":"2023-02-12T03:28:32","slug":"entrevista-raquel-hallak-e-francis-vogner-falam-sobre-o-retorno-ao-formato-presencial-da-mostra-de-cinema-de-tiradentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/01\/20\/entrevista-raquel-hallak-e-francis-vogner-falam-sobre-o-retorno-ao-formato-presencial-da-mostra-de-cinema-de-tiradentes\/","title":{"rendered":"Entrevista: Raquel Hallak e Francis Vogner falam sobre o retorno ao formato presencial da Mostra de Cinema de Tiradentes"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas anos \u00e9 muito tempo. Acrescente a esses trinta e seis meses uma pandemia juntamente a um governo negacionista e excludente. Al\u00e9m disso, dentro desse per\u00edodo, acostume-se com a ideia de que a pol\u00edtica de situa\u00e7\u00e3o cancela um Minist\u00e9rio da Cultura, encerra uma ag\u00eancia de fomento ao Cinema e desconsidera o potencial dessa ind\u00fastria lucrativa dentro de um pa\u00eds cuja riqueza cultural para o audiovisual \u00e9 palp\u00e1vel. Sim, tr\u00eas anos \u00e9 muito tempo. E com todos esses agravantes, atrasos e desmonte proposital, podem parecer tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse foi o per\u00edodo no qual, desde janeiro de 2020, a <a href=\"https:\/\/mostratiradentes.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mostra de Cinema de Tiradentes<\/a>, tradicional evento que, esse ano, chega \u00e0 sua 26\u00aa edi\u00e7\u00e3o (de 20 a 28\/01), aconteceu, assim como todos os outros festivais conscientes dos riscos da COVID-19, de modo apenas on line. Chegou a ser programada uma edi\u00e7\u00e3o presencial para janeiro do ano passado, mas toda a empolga\u00e7\u00e3o em poder voltar ao Cine Tenda, \u00e0s mostras ao ar livre na pra\u00e7a central da cidade, aos encontros cin\u00e9filos e aos ricos debates promovidos pelo festival precisou ser contida diante a variante Omicron, que cancelou o evento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raquel Hallak, coordenadora geral da Mostra e CEO da Universo Produ\u00e7\u00f5es, respons\u00e1vel pela organiza\u00e7\u00e3o, em entrevista ao Scream &amp; Yell, relembra a experi\u00eancia traum\u00e1tica de 2022. &#8220;Foi t\u00e3o traumatizante. A gente estava com tudo pronto. A estrutura, os preparativos. E nos deparamos com esse cen\u00e1rio da variante Omicron. Tivemos que desmontar tudo. Hoje, \u00e0s v\u00e9speras de come\u00e7ar (a edi\u00e7\u00e3o 2023), \u00e9 aquela sensa\u00e7\u00e3o: &#8216;Mas, gente, \u00e9 isso mesmo? Est\u00e1 acontecendo?&#8217; Porque \u00e9 um evento muito aguardado. Preparamos com tanto carinho j\u00e1 h\u00e1 tanto tempo. Desde setembro estamos envolvidos com essa Mostra. \u00c9 um momento hist\u00f3rico muito importante&#8221;, pontua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de Raquel, um dos curadores da Mostra, Francis Vogner dos Reis, aborda esse momento de voltar a Tiradentes trazendo uma leva de 134 filmes a serem exibidos; uma riqu\u00edssima sele\u00e7\u00e3o de filmes in\u00e9ditos na Mostra Aurora; uma homenagem aos cineastas Ary Rosa e Glenda Nic\u00e1cio (cuja carreira se construiu a partir da UFRB em Cachoeira), al\u00e9m do 1\u00ba F\u00f3rum de Tiradentes &#8211; Encontros pelo Audiovisual Brasileiro:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A ideia do F\u00f3rum \u00e9 chamar pessoas que sejam pesquisadores, cineastas, pessoas que fazem parte de entidades de classe, pessoas ligadas \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, muita gente que pensa e que faz cinema brasileiro nos seus mais variados setores. Na complexidade do campo que \u00e9 o cinema brasileiro. E o F\u00f3rum \u00e9 para pensar, de fato, o presente e o futuro a partir do que vimos nos \u00faltimos anos. Discutir pol\u00edticas p\u00fablicas. O futuro do ponto de vista material e pol\u00edtico do cinema&#8221;, explica Vogner.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Raquel Hallak, o foco principal do F\u00f3rum \u00e9 salientar a necessidade de di\u00e1logo visando uma reconstru\u00e7\u00e3o. &#8220;O que eu vejo de necessidade primordial chama-se vontade pol\u00edtica de fazer. Isso em todos os \u00e2mbitos. No munic\u00edpio, no estado e em \u00e2mbito federal. E da nossa parte do setor audiovisual, o desejo \u00e9 de trabalhar para somar. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil recriar um Minist\u00e9rio da Cultura. E por isso a ideia de realizar o F\u00f3rum \u00e9, pra gente, tamb\u00e9m ganhar tempo. Porque quando j\u00e1 chega um documento oficial legitimado para o setor, voc\u00ea n\u00e3o precisa ficar inventando muito a roda. Est\u00e1 ali. Agora, \u00e9 a forma como a gente vai conseguir fazer isso. O di\u00e1logo e a proximidade do MinC com a Ancine v\u00e3o ser muito importantes&#8221;, pontua a coordenadora geral da Mostra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos principais pontos de reconstru\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria do audiovisual brasileiro ap\u00f3s os quatro anos de desmonte do \u00faltimo governo, com aus\u00eancia do Minist\u00e9rio da Cultura e da Ancine, \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de que o cinema brasileiro tem for\u00e7as para continuar existindo. A simbologia do tema da Mostra Tiradentes 2023 dentro do Cinema Mutir\u00e3o vem denotar isso. &#8220;\u00c9 um momento hist\u00f3rico muito importante. Porque retoma o formato presencial da mostra nessa expectativa do encontro, da troca, apresentando uma sele\u00e7\u00e3o de filmes diferenciada. Porque s\u00e3o filmes que foram feitos em um cen\u00e1rio ainda pand\u00eamico. Filmes que foram feitos em uma aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas no Brasil. Ent\u00e3o, o tema do evento &#8220;Cinema Mutir\u00e3o&#8221; representa exatamente essa for\u00e7a que o Cinema tem. Desse gesto coletivo de, mesmo dentro de todas as adversidades, o Cinema continuou e continua&#8221;, comemora Raquel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 as homenagens a Ary Rosa e Glenda Nic\u00e1cio, cineastas que, apesar de mineiros, possuem uma forma\u00e7\u00e3o advinda do Rec\u00f4ncavo baiano, pontuam exatamente a valoriza\u00e7\u00e3o de um cinema feito em conjunto: &#8220;O tema \u00e9 Cinema Mutir\u00e3o e, em alguma medida, eles s\u00e3o um caso exemplar disso e de muita coisa. S\u00e3o dois cineastas que nasceram em Minas, mas que se fizeram l\u00e1 em Cachoeira, na Bahia, por causa de uma universidade p\u00fablica fundada no governo Lula. Um novo curso de cinema que mostra o deslocamento, tamb\u00e9m, de p\u00f3los de produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica e criativos para outros lugares que n\u00e3o \u00e9 mais a regi\u00e3o Sudeste, como foi nos anos 1990, por exemplo. Ary e Glenda s\u00e3o filhos disso. Eles s\u00e3o um caso exemplar do que \u00e9 o cinema brasileiro e como ele se faz na sua resili\u00eancia. Mas eu acho que, tamb\u00e9m, \u00e9 um farol do futuro&#8221;, reflete Francis Vogner.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse papo com o Scream &amp; Yell, Raquel e Francis aprofundam suas expectativas para esse retorno da <a href=\"https:\/\/mostratiradentes.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mostra de Cinema de Tiradentes<\/a> ao formato presencial na exuberante cidade mineira. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"26\u00aa Mostra de Cinema de Tiradentes | De 20 a 28 de Janeiro de 2023\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/k3CdVNFP-Qk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Raquel, tr\u00eas anos depois da \u00faltima edi\u00e7\u00e3o de 2020, a Mostra volta a acontecer em seu formato presencial, isso ap\u00f3s um per\u00edodo de confinamento pand\u00eamico e tendo a edi\u00e7\u00e3o 2022 modificada para o on line \u00e0s v\u00e9speras do seu in\u00edcio no ano passado. Como est\u00e1 essa expectativa?<\/strong><br \/>\nRaquel \u2013 A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a seguinte: &#8216;Nossa, n\u00e3o \u00e9 que \u00e9 verdade? Vai acontecer!&#8217;. \u00c9 um pouco isso. O ano passado foi t\u00e3o traumatizante. A gente estava com tudo pronto. A estrutura, os preparativos. E nos deparamos com esse cen\u00e1rio da Omicron. Tivemos que desmontar tudo. Mas a cada dia a gente toma um novo f\u00f4lego. Hoje, \u00e0s v\u00e9speras de come\u00e7ar, \u00e9 aquela sensa\u00e7\u00e3o: &#8216;Mas, gente, \u00e9 isso mesmo? Est\u00e1 acontecendo?&#8217; Porque \u00e9 um evento muito aguardado. Preparamos com tanto carinho j\u00e1 h\u00e1 tanto tempo. Desde setembro estamos envolvidos com essa Mostra. \u00c9 um momento hist\u00f3rico muito importante. Porque retoma o formato presencial da mostra nessa expectativa do encontro, da troca, apresentando uma sele\u00e7\u00e3o de filmes diferenciada. Porque s\u00e3o filmes que foram feitos em um cen\u00e1rio ainda pand\u00eamico. Filmes que foram feitos em uma aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas no Brasil. Ent\u00e3o, o tema &#8220;Cinema Mutir\u00e3o&#8221; representa exatamente essa for\u00e7a que o Cinema tem. Desse gesto coletivo de, mesmo dentro de todas as adversidades, o Cinema continuou e continua. E Tiradentes abrindo esse calend\u00e1rio em um cen\u00e1rio de recria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Cultura, em que a gente volta a ter a nossa casa para dialogar. \u00c9 uma renova\u00e7\u00e3o em todos os sentidos. \u00c9 um novo evento, porque \u00e9 on line e, tamb\u00e9m, presencial. \u00c9 a primeira vez que faremos essa vers\u00e3o h\u00edbrida. \u00c9, tamb\u00e9m, um momento de renova\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7a. Da gente poder estar ali pensando o audiovisual, tentando entender. Por isso, a ideia, inclusive, do F\u00f3rum para podermos revisitar e ter um senso cr\u00edtico sobre as pol\u00edticas p\u00fablicas como um todo, nesse momento em que temos a possibilidade de fazer reverberar o que a gente pensa, o que a gente acredita. E \u00e9 um momento de muita expectativa, mesmo. E tamb\u00e9m de muito desejo, de muita vontade de poder oferecer, mais uma vez, esse espa\u00e7o para o cinema brasileiro. Porque a nossa miss\u00e3o \u00e9 essa. \u00c9 promover, difundir, formar, materializar e reunir em um espa\u00e7o \u00fanico toda for\u00e7a da cadeia produtiva do audiovisual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ap\u00f3s um per\u00edodo de desmonte do cinema brasileiro, com a dissolu\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Cultura e da Ancine, aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas para o audiovisual, al\u00e9m de uma aus\u00eancia de vontade pol\u00edtica por parte dos que governaram o Brasil nos \u00faltimo seis anos, voc\u00ea \u00e9 otimista em rela\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3ximos anos?<\/strong><br \/>\nRaquel \u2013 Sou uma pessoa otimista. Sempre procuro enxergar as possibilidades. Tudo tem sa\u00edda. O que eu vejo de necessidade primordial chama-se vontade pol\u00edtica de fazer. Isso em todos os \u00e2mbitos. No munic\u00edpio, no estado e em \u00e2mbito federal. E acho que da nossa parte do setor audiovisual, o desejo \u00e9 de trabalhar para somar para que isso seja poss\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil recriar um Minist\u00e9rio da Cultura. A ideia de realizar o F\u00f3rum \u00e9, pra gente, tamb\u00e9m ganhar tempo. Porque quando chegar um documento oficial legitimado para o setor, voc\u00ea n\u00e3o precisa ficar inventando muito a roda. Est\u00e1 ali. Agora \u00e9 criar a forma de como a gente vai conseguir fazer isso. O di\u00e1logo e a proximidade do MinC com a Ancine ser\u00e3o muito importantes. Para a Mostra de Tiradentes desse ano, a gente est\u00e1 levando o Fabr\u00edcio Noronha, que \u00e9 o secret\u00e1rio de Cultura do Esp\u00edrito Santo e presidente do F\u00f3rum Nacional de Secret\u00e1rios de Estado de Cultura. \u00c9 uma representa\u00e7\u00e3o importante que teremos para ampliar essas vozes. Para ampliar a possibilidade de fazer reverberar o que discutiremos ali. Reverberar nos \u00f3rg\u00e3os e nas entidades de classe, principalmente. Ent\u00e3o, eu acredito. Sou otimista. Acredito na soma de esfor\u00e7os. Mas tamb\u00e9m acho que ningu\u00e9m vai fazer milagre. \u00c9 m\u00e3os \u00e0 obra. \u00c9 arrega\u00e7ar a manga e, a partir do desejo, do sonho, da vontade, da necessidade das mudan\u00e7as que v\u00e3o ser necess\u00e1rias, das adapta\u00e7\u00f5es, cada um fazendo sua parte, n\u00e3o tem como n\u00e3o dar certo. N\u00e3o tem como n\u00e3o ter resultados. A vontade pol\u00edtica e trabalho v\u00e3o ser duas premissas fundamentais para conseguirmos avan\u00e7ar nessas conex\u00f5es e nesses di\u00e1logos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O tema da Mostra desse ano \u00e9 Cinema Mutir\u00e3o, algo que simboliza muito da vontade de se fazer audiovisual em uma terra devastada por um governo predat\u00f3rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Cultura e ao Cinema. Realizadores conseguiram produzir durante esse per\u00edodo dessa forma, dentro de um esquema de mutir\u00e3o. Mas o suporte do poder p\u00fablico \u00e9 essencial nesse suporte.<\/strong><br \/>\nRaquel \u2013 Sim. N\u00f3s temos que ver o audiovisual como ind\u00fastria. E ser respeitado nesse campo de atua\u00e7\u00e3o. N\u00f3s precisamos de pol\u00edticas p\u00fablicas. Precisamos do governo. Isso no mundo inteiro. A Cultura n\u00e3o sobrevive sem pol\u00edticas p\u00fablica. N\u00e3o sobrevive sem fomento. Acabamos de passar por um momento que estamos considerando como at\u00edpico. Espero que a gente esteja virando a p\u00e1gina agora e iniciando um novo ciclo produtivo para o audiovisual, com uma nova perspectiva de di\u00e1logo, de pol\u00edtica, de acontecimento, mesmo. Essa estrutura que n\u00f3s vivemos foi uma estrutura muito fr\u00e1gil. E o cinema representa em suas imagens, em todos os sentidos, sejam elas em movimento ou documentais, exatamente o nosso tempo hist\u00f3rico que estamos vivendo. O cinema \u00e9 um reflexo da nossa sociedade. \u00c9 fundamental. N\u00f3s precisamos fomentar a mem\u00f3ria desse momento, do que a gente vai, inclusive, apresentar l\u00e1 em Tiradentes, e ver o que as imagens est\u00e3o nos dizendo. O Cinema \u00e9 fundamental enquanto ind\u00fastria. Enquanto parte de uma economia criativa. Enquanto parte da ind\u00fastria do entretenimento, que \u00e9 a que mais cresce no mundo. Uma ind\u00fastria que n\u00e3o polui, que aproxima povos e continentes, que gera interc\u00e2mbio, neg\u00f3cios, forma\u00e7\u00e3o. Mas precisamos de pol\u00edticas p\u00fablicas que sejam revigorantes. A proposta de abrir espa\u00e7o na Mostra de Cinema de Tiradentes para esse di\u00e1logo \u00e9 exatamente para cada um fazer a sua parte. A gente, enquanto profissional, cidad\u00e3o. E poder dialogar de uma forma que venha gerar frutos. Essa \u00e9 a grande expectativa. E acredito que isso vai acontecer.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-71789\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Forum1-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Forum1-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Forum1-copiar-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Forum1-copiar-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou o F\u00f3rum que ser\u00e1 realizado na edi\u00e7\u00e3o desse ano. Trata-se, de fato, de um evento que poder\u00e1 nortear os planos para o audiovisual nesse momento de retomada.<\/strong><br \/>\nRaquel \u2013 \u00c9 um cen\u00e1rio muito importante porque j\u00e1 estaremos ali com 134 filmes de 19 estados brasileiros. J\u00e1 tem uma representatividade. Abrimos, inclusive, para quem n\u00e3o poder\u00e1 estar presencialmente a participa\u00e7\u00e3o on line, tamb\u00e9m, para quem quiser colaborar. Ser\u00e3o mais de cinquenta profissionais que v\u00e3o canalizar isso no documento. Essas contribui\u00e7\u00f5es est\u00e3o vindo de todas as partes. Acreditamos que pode ser, realmente, um documento muito substancial para que tenhamos ali uma base de trabalho nessa reconstru\u00e7\u00e3o. Temos uma Secretaria do Patrim\u00f4nio criada. Temos as entidades de guarda com quem vamos dialogar. Temos o Ibram que cuida de patrim\u00f4nio. O Iphan, que cuida de patrim\u00f4nio. O CTAV que, dentro desse plano do Minist\u00e9rio da Cultura, vai ser a entidade canalizadora. Temos, tamb\u00e9m, a Cinemateca Brasileira. Temos toda essa possibilidade de encontros e de troca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Francis, no texto de divulga\u00e7\u00e3o da Mostra Aurora, voc\u00ea falou sobre n\u00e3o haver uma quest\u00e3o espec\u00edfica ou tend\u00eancias a unir os filmes selecionados, mas, sim, experi\u00eancias diferenciadas. Imagino que na escolha curatorial de sess\u00f5es nas quais se casam curtas e longas, esse peso tem\u00e1tico se fa\u00e7a mais presente. Como isso se d\u00e1 em sess\u00f5es individuais?<\/strong><br \/>\nFrancis \u2013 Nas mostras de curtas, como a Mostra Foco e a Mostra Panorama, esses casamentos para se compor uma sess\u00e3o possuem uma costura diferente. Nessa costura, voc\u00ea vai lidar com filmes cuja energia diferente deles, na rela\u00e7\u00e3o entre si, evidenciam alguma coisa dentro de um programa. No caso dos longas, isso \u00e9 diferente. Porque o longa, a sess\u00e3o dele tem somente ele. A gente pode pensar a sess\u00e3o da Mostra Aurora como de filmes que, em alguma medida, tenham uma rela\u00e7\u00e3o entre si. Mas eu acho que, nesse ano, como em todos os outros, a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o somos n\u00f3s necessariamente da curadoria que constru\u00edmos. At\u00e9 entendemos que esses filmes juntos podem dizer alguma coisa, podem revelar alguma coisa. Eles podem propor ou apontar para algum lado. Revelar uma certa complexidade da paisagem do cinema brasileiro em um outro ponto que talvez seja de di\u00e1logo. Mas isso n\u00e3o est\u00e1, digamos, no horizonte curatorial. Temos que procurar filmes que conversem. \u00c0s vezes, quando ajudamos a compor uma mostra como a Mostra Tem\u00e1tica, em que temos m\u00e9dias metragens, ela precisa passar pelo olhar dos programadores de curtas e de longas. E o m\u00e9dia n\u00e3o se inscreve, mas a gente convida. E a\u00ed, de fato, a gente acaba compondo uma sess\u00e3o com um m\u00e9dia e um curta que tenham a ver, que consigam estabelecer alguma rela\u00e7\u00e3o. Agora, nos longas, n\u00e3o necessariamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De fato, esse equil\u00edbrio na apresenta\u00e7\u00e3o das sess\u00f5es vem tanto da sele\u00e7\u00e3o quanto da programa\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nFrancis \u2013 Sim. E h\u00e1 ainda uma quest\u00e3o mais de programa\u00e7\u00e3o do que de curadoria: tem dias em que voc\u00ea tem dois filmes da Mostra Aurora, um em sequ\u00eancia do outro. Vamos imaginar que geralmente nas quintas e nas sextas-feiras, j\u00e1 indo para o final da Mostra. A gente nunca pega dois filmes barra pesada e bota um em sequ\u00eancia do outro. Ou termina o dia, na sexta-feira, com aquele filme mais \u00e1rduo, denso, pesado. Modulamos a intensidade da programa\u00e7\u00e3o. Se a gente come\u00e7a com um filme mais \u00e1rduo, mais denso, mais dif\u00edcil, na sess\u00e3o seguinte damos uma aliviada. Porque, geralmente, as pessoas assistem \u00e0 sess\u00e3o duas vezes. Ent\u00e3o fazemos uma modula\u00e7\u00e3o de tons, mesmo. \u00c9 algo que a programa\u00e7\u00e3o faz. E sinto que esse ano, de fato, \u00e9 claro que alguns filmes conversam esteticamente entre si. Alguns mais do que outros. Mas na programa\u00e7\u00e3o de longas, como a gente j\u00e1 conhece os dias da mostra que eles v\u00e3o passar, fazemos uma modula\u00e7\u00e3o de intensidades. Por exemplo, \u00e0s vezes \u00e9 um filme da Mostra Olhos Livres. &#8216;Qual filme colocamos aqui pra anteceder um filme da Paula Gait\u00e1n, por exemplo? Que filme vem aqui?&#8217; Pode ser um filme que conversa, mas pode ser um contraste. \u00c0s vezes, o contraste \u00e9 bom. Ent\u00e3o, a\u00ed \u00e9 uma quest\u00e3o de modular as intensidades em termos de um ponto de vista da programa\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que se conseguirmos estabelecer um di\u00e1logo entre duas propostas formais, pode ser muito interessante. Mas, \u00e0s vezes, em termos de programa\u00e7\u00e3o, um atrapalha o visionamento do outro. Voc\u00ea pega dois filmes que s\u00e3o muito parecidos e os coloca juntos na programa\u00e7\u00e3o, sendo ambos longas metragens, um pode atrapalhar o visionamento do outro porque voc\u00ea pega duas energias muito pr\u00f3ximas, dois projetos que s\u00e3o parecidos. Mas se voc\u00ea coloca dois filmes diferentes, que talvez tenham um outro ponto de di\u00e1logo, ou de intensidade, pode ser interessante. Por isso que eu penso que o trabalho de programa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante quanto o de curadoria porque ele ajuda com que vejamos, de fato, os filmes em um universo com tantos e tantos filmes. A costura das linhas de for\u00e7a, ela fica, de fato, para o trabalho da curadoria. Ou seja, para a proposi\u00e7\u00e3o conceitual, que vai estar em um livro, no cat\u00e1logo, que vai estar no debate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma pergunta um tanto clich\u00ea: como est\u00e1 essa expectativa para voltar ao Cine Tenda, para voltar aos debates, para voltar ao ambiente cinematogr\u00e1fico de Tiradentes ap\u00f3s tr\u00eas anos?<\/strong><br \/>\nFrancis \u2013 N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma pergunta clich\u00ea, n\u00e3o. \u00c9 uma boa pergunta. De fato, a gente entra esse ano com uma outra expectativa. Com outro humor. Lembro que em 2020, que foi a \u00faltima mostra presencial, foi particularmente um ano muito feliz no conjunto de filmes. Eram muito fortes os filmes naquele ano. Mas eu sentia que pesava sobre n\u00f3s um temor do que seria o futuro. Porque j\u00e1 tinha passado um ano do governo que havia assumido. E a gente viu o que aconteceu. O que seria dos pr\u00f3ximos anos? E logo vem a pandemia, e seguimos para o on line. E isso acontece no outro ano, tamb\u00e9m. A\u00ed, claro, como v\u00e1rios festivais, tivemos a resili\u00eancia de fazer essa transi\u00e7\u00e3o para o on line, s\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa. A expectativa, de fato, \u00e9 que&#8230; (pausa) assim, eu tenho uma experi\u00eancia de Tiradentes desde 2008, eu vou te falar&#8230; (pausa). Porque eu fui em 2008 para fazer uma cobertura para a Cin\u00e9tica. Era o segundo ano de curadoria do Cleber Eduardo. Foi o ano de lan\u00e7amento da Mostra Aurora. E a minha experi\u00eancia, desde ent\u00e3o, depois entrando na equipe e seguindo esse tempo todo, se tornou uma experi\u00eancia bastante ampla de Tiradentes. S\u00f3 um ano que eu estive fora, que foi 2019. Mas foi importante porque fui com um filme. Eu fui como roteirista e ator de &#8220;Os Son\u00e2mbulos&#8221; e lancei um livro. Ou seja, fui em outra perspectiva. Como parte da equipe de um filme e para lan\u00e7ar o livro. Durante todas as outras vezes, eu testemunhei essa coisa dos encontros e dos debates muito intensamente. E eu acho que muito se fez do cinema brasileiro a partir de encontros que eu vi ali, de conversas que vi ali. Algumas pessoas decidiram quais seriam as suas pesquisas. Algumas pessoas come\u00e7aram ali cobrindo festivais. Outros come\u00e7aram a escrever cr\u00edtica. Vieram do j\u00fari jovem e foram fazer cr\u00edtica. Dois realizadores se conheceram e tiveram um projeto em comum. Ou seja, esses encontros s\u00e3o muito fortes. E eu acho que o festival, t\u00e3o importante quanto a exibi\u00e7\u00e3o dos filmes, \u00e9 o que esses filmes desenrolam. Quais s\u00e3o os desdobramentos de uma sess\u00e3o? Tem o debate, mas tem outras coisas. Voc\u00ea fica em uma esp\u00e9cie de estado de exce\u00e7\u00e3o em que voc\u00ea fala sobre cinema durante oito dias. E vai voltar s\u00f3 depois de um ano. Ent\u00e3o, a minha expectativa \u00e9 muito grande. Porque \u00e9 um momento em que o cinema brasileiro \u00e9 tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Imagino que esse ano, n\u00e3o somente por representar um retorno ao formato presencial, mas pela realiza\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum, seja um momento ainda mais especial.<\/strong><br \/>\nFrancis \u2013 Verdade. Esse ano mais ainda por causa do F\u00f3rum. Esse ano voc\u00ea tem cineastas que v\u00e3o lan\u00e7ar seus filmes. Aqueles que j\u00e1 lan\u00e7aram e que v\u00e3o ter um outro di\u00e1logo sobre seus filmes que j\u00e1 foram lan\u00e7ados. Voc\u00ea tem um p\u00fablico que vai, inclusive gente que nunca foi. Estudantes que entraram nas universidades de cinema h\u00e1 pouco tempo. Voc\u00ea vai ter gestores p\u00fablicos. A ideia do F\u00f3rum \u00e9 chamar pesquisadores, cineastas, pessoas que fazem parte de entidades de classe. Pessoas ligadas \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Ou seja, voc\u00ea vai ter presente l\u00e1 em di\u00e1logo muita gente que pensa e que faz cinema brasileiro nos seus mais variados setores. Na complexidade do campo que \u00e9 o cinema brasileiro. E o F\u00f3rum \u00e9 para pensar, de fato, o presente e o futuro. A partir do que vimos nos \u00faltimos anos. A partir de experi\u00eancias mais anteriores ainda dos outros governos que podemos conservar ou que precisamos superar ou redimensionar. Discutir pol\u00edticas p\u00fablicas. O futuro do ponto de vista material e pol\u00edtico do cinema. Vai ter gente, tamb\u00e9m, com seus filmes. P\u00fablico, cr\u00edticos, jornalistas que estar\u00e3o testemunhando e vendo isso. Escrevendo sobre isso. Ent\u00e3o, a minha expectativa \u00e9 porque a\u00ed \u00e9 o Cinema de fato. H\u00e1 v\u00e1rias maneiras de se fazer cinema. E fazer cinema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 fazer filmes. Fazer cinema \u00e9 fazer isso. E o que gera mais entusiasmo em um processo de curadoria, para mim, \u00e9 voc\u00ea selecionar os filmes. Fazer curadoria dos filmes, claro, mas, tamb\u00e9m, voc\u00ea fazer a curadoria de gente. Porque v\u00e3o pessoas para debater. No F\u00f3rum, a ideia \u00e9 que o poder p\u00fablico, o novo governo, esteja l\u00e1 representado. O Minist\u00e9rio da Cultura e a Secretaria do Audiovisual. Ent\u00e3o, \u00e9 muita coisa para acontecer. \u00c9 muito filme que vai ser lan\u00e7ado, que vai vir \u00e0 luz agora. Alguns desses filmes, sabemos que nos acompanhar\u00e3o por um bom tempo, sua repercuss\u00e3o. Muita gente vai voltar a eles nos pr\u00f3ximos anos, alguns ser\u00e3o lan\u00e7ados, outros n\u00e3o. Ou seja, \u00e9 colocar as coisas em movimento. E eu acho que no on line, uma parte desse movimento foi interrompido. Todo mundo que vai estar l\u00e1 em Tiradentes, sendo os cr\u00edticos que estar\u00e3o l\u00e1, precisam elaborar crit\u00e9rios para lidar com os filmes, inclusive pensando pol\u00edticas p\u00fablicas. Porque quando voc\u00ea pensa pol\u00edticas p\u00fablicas, elas t\u00eam que ser pensadas a partir da experi\u00eancia. Claro que \u00e9 a partir de demandas do mercado, demandas da infraestrutura ou da superestrutura do cinema brasileiro, mas eu acho que a experi\u00eancia concreta de realizadores e realizadoras elas devem ser norteadoras de uma pol\u00edtica p\u00fablica. Como que voc\u00ea faz filmes mais baratos? Como que voc\u00ea faz um filme com um modo de produ\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 esse modo de produ\u00e7\u00e3o que concentra dinheiro no Rio-SP?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-71791\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Homenagem-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Homenagem-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Homenagem-copiar-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Homenagem-copiar-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Glenda Nic\u00e1cio e Ary Rosa s\u00e3o os cineastas homenageados esse ano. Com uma carreira que se iniciou h\u00e1 alguns anos a partir do curso de Cinema da UFRB, em Cachoeira &#8211; BA, os dois criaram uma filmografia em um dos mais dif\u00edceis momentos do audiovisual brasileiro. Imagino que essa resili\u00eancia tenha peso na escolha, principalmente com o tema Cinema Mutir\u00e3o na Mostra desse ano.<\/strong><br \/>\nFrancis \u2013 D\u00e1 pra pensar muita coisa a partir dessa homenagem ao Ary e Glenda. Tivemos a presen\u00e7a deles nos \u00faltimos anos na Mostra Olhos Livres e voltar com eles na homenagem desse ano \u00e9 importante. O tema \u00e9 Cinema Mutir\u00e3o e, em alguma medida, eles s\u00e3o um caso exemplar disso. Um caso exemplar de muita coisa. S\u00e3o dois cineastas que nasceram em Minas, mas que se fizeram l\u00e1 em Cachoeira, na Bahia, por causa de uma universidade p\u00fablica fundada no governo Lula. Um novo curso de cinema que mostra o deslocamento, tamb\u00e9m, de p\u00f3los de produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica e criativos para outros lugares que n\u00e3o \u00e9 mais a regi\u00e3o Sudeste, como foi nos anos 1990, por exemplo. Ary e Glenda s\u00e3o filhos disso. Ao mesmo tempo, a dupla tem um modo de produ\u00e7\u00e3o. E n\u00f3s tivemos a oportunidade de ouvi-los falar nos \u00faltimos anos, nos \u00faltimos debates, que esse modo de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 de responsabilidade criativa de um coletivo. Por exemplo, o fot\u00f3grafo Thacle (de Souza) e as atrizes falando coisas que s\u00e3o impressionantes como criadores, mesmo. Eles est\u00e3o com um tim\u00e3o nas m\u00e3os na hora de dirigir. Ary e Glenda, claro, se apresentam como diretor e diretora, mas, tamb\u00e9m, eles representam essa coletividade que se d\u00e1 nesse processo da Rosza Filmes. E para n\u00f3s, agora, isso \u00e9 fundamental. S\u00e3o cineastas que lan\u00e7aram seu primeiro filme em 2017 (N.E. \u201cCaf\u00e9 com Canela\u201d) e fazem v\u00e1rios filmes at\u00e9 ent\u00e3o. E passaram o per\u00edodo mais duro do cinema brasileiro nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. E mesmo assim, com resili\u00eancia, conseguiram fazer ainda filmes. Isso \u00e9 um fen\u00f4meno. Alguns foram financiados por pol\u00edticas p\u00fablicas e outros n\u00e3o. Ainda que n\u00e3o seja o ideal voc\u00ea fazer filmes sem dinheiro, foi o que foi poss\u00edvel. E fizeram coisas absolutamente formid\u00e1veis que particularmente me fascinam. Para mim, a dupla e a Rosza Filmes (N.E. Produtora de Ary Rosa e Glenda Nic\u00e1cio) s\u00e3o um dos grandes eventos do cinema brasileiro das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. E eu acredito que homenageados esse ano, eles s\u00e3o um caso exemplar do que \u00e9 o cinema brasileiro e como ele se faz na sua resili\u00eancia. E \u00e9, tamb\u00e9m, um farol do futuro. Ao mesmo tempo, a gente vai ter a oportunidade de reconhecer isso no presente, enquanto eles est\u00e3o produzindo, realizando uma coisa atr\u00e1s da outra. Acho que \u00e9 importante reconhecer isso. Homenagem, geralmente, \u00e9 visto como a algu\u00e9m que j\u00e1 tem uma obra de d\u00e9cadas. \u00c9 interessante reconhecer isso, tamb\u00e9m, mas no caso, reconhecer essa a roda que est\u00e1 girando a\u00ed, porque ela \u00e9 inspiradora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cinema Mutir\u00e3o \u00e9 o tema da Mostra desse ano. Algo que simboliza de modo ideal a vontade de se fazer cinema em um cen\u00e1rio desmembrado por um per\u00edodo de governo que n\u00e3o priorizava essa ind\u00fastria.<\/strong><br \/>\nFrancis \u2013 Mutir\u00e3o existe quando algo, digamos, socialmente, n\u00e3o funciona para a coletividade. Ent\u00e3o, voc\u00ea vai construir um bairro com casas em mutir\u00e3o quando aquilo \u00e9 uma demanda, mas o poder p\u00fablico n\u00e3o est\u00e1 respondendo. As pessoas se unem e fazem uma casa, constroem bases, puxam fios, encanamento, etc. Ent\u00e3o, o mutir\u00e3o existe em um contexto de necessidade. N\u00e3o \u00e9 o ideal, mas \u00e9 o que \u00e9 poss\u00edvel. E nesse poss\u00edvel a gente aprende um outro modo de ser enquanto sociedade. Uma outra maneira de exercer um cuidado, por exemplo, no caso de um mutir\u00e3o de casas, com a comunidade. Ningu\u00e9m est\u00e1 sozinho. As pessoas fazem as coisas em conjunto. Existe um modo de ser enquanto sociedade, e \u00e9 tamb\u00e9m um modo de fazer pol\u00edtica. Ent\u00e3o, quando voc\u00ea pensa em cinema mutir\u00e3o, a gente est\u00e1 pensando nessa resili\u00eancia que se d\u00e1 em um contexto de escassez. Ou seja, as pessoas n\u00e3o t\u00eam muita grana para fazer filmes, se juntam para fazer, mas h\u00e1 uma coisa interessante na ideia de cinema mutir\u00e3o, tamb\u00e9m: as responsabilidades criativas tamb\u00e9m s\u00e3o compartilhadas. Essa coisa da figura do diretor-autor, isso est\u00e1 superado do ponto de vista do artista pessoal que expressa sua subjetividade. Mas, a gente pode pensar na Rosza Filmes como uma esp\u00e9cie de sistema. Ou um trabalho de um grupo de filmes de um realizador como um sistema em que voc\u00ea trabalha coletivamente. Claro que vai levar o nome de uma diretora ou um diretor. O cinema do Adirley Queiroz, o cinema do Lincoln Pericles. Mas a gente sabe que eles n\u00e3o andam sozinhos e n\u00e3o fazem sozinhos. Quando eu ouvi do Thacle, em um debate do &#8220;Ilha&#8221;, que ele movia a c\u00e2mera de acordo com o orix\u00e1 de cabe\u00e7a de cada personagem, aquilo foi revelador. Isso veio do fot\u00f3grafo. Ent\u00e3o, assim, eu acho que o mutir\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 um modo de a gente pensar essas responsabilidades criativas, mas, tamb\u00e9m, \u00e9 um modo de pensar uma produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica que est\u00e1 menos ligada ao fracionamento da equipe e ao isolamento das fun\u00e7\u00f5es que o cinema industrial imp\u00f4s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Streaming e produ\u00e7\u00e3o em escala industrial<\/strong><br \/>\nFrancis \u2013 Voc\u00ea vai em sets, por exemplo, esses streamings em S\u00e3o Paulo, \u00e9 um modo industrial. Voc\u00ea precisa responder r\u00e1pido. E cada pessoa responde pelo seu setor. E muitas vezes nem se conhecem. Cada vez mais o cinema tem se feito em um outro tempo. Um tempo, \u00e0s vezes, mais longo que \u00e9 a pr\u00f3pria equipe que vai dizer que tempo que \u00e9 esse, que dura\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o que \u00e9 essa e como essas responsabilidades criativas s\u00e3o compartilhadas. Como que essas coisas funcionam. Ent\u00e3o, a ideia de cinema mutir\u00e3o vem disso, mas vem, tamb\u00e9m, de se criar, de se propor, de erguer bases novas e muitas vezes refor\u00e7ar aquelas que est\u00e3o fr\u00e1geis. \u00c9 preciso pensar no aspecto mais amplo do cinema mutir\u00e3o para al\u00e9m da realiza\u00e7\u00e3o de filmes, \u00e9 pensar, hoje, como que a gente junta for\u00e7as a partir de diferen\u00e7as? Porque as diferen\u00e7as elas podem muitas vezes criar caminhos muito distintos, como ajudar a compor uma coisa nova que precisa de olhares e de compet\u00eancias que s\u00e3o distintas. A diferen\u00e7a \u00e9 importante. No mutir\u00e3o, algu\u00e9m sabe fazer encanamento, outro \u00e9 eletricista, outro tem experi\u00eancia de pedreiro. Outra pessoa sabe fazer comida. Quando a gente pensa em cinema mutir\u00e3o, que \u00e9 essa rela\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as, voc\u00ea vai pensar juntamente em como n\u00f3s erguemos bases novas para o cinema brasileiro a partir dessas tentativas que tivemos nos \u00faltimos anos de destrui\u00e7\u00e3o de um campo. Como que a gente refor\u00e7a as antigas? Como a gente cria pol\u00edticas p\u00fablicas novas? Como melhoramos as antigas? Ou seja, isso vai se fazer na conversa. Isso vai se fazer coletivamente. \u00c9 claro que a gente chama pra conversar aqueles que s\u00e3o poss\u00edveis de se conversar. N\u00e3o vou chamar um especulador da bolsa, interessando em investir em cinema, para falar de pol\u00edtica p\u00fablica (risos). S\u00e3o s\u00f3 aqueles que tem um ponto em comum. E que permita que essa interlocu\u00e7\u00e3o entre as diferen\u00e7as possa acontecer. O cinema mutir\u00e3o vem muito nesse sentido. Ele fala da experi\u00eancia do cinema brasileiro e dessas mudan\u00e7as nos modos de se fazer, nos modos criativos. Mas fala, tamb\u00e9m, a nossa necessidade atual e urgente de repensar a sobreviv\u00eancia material do cinema brasileiro que passa por pol\u00edticas p\u00fablicas e que passa por um pensamento de qual vai ser a economia poss\u00edvel do cinema brasileiro. E a necess\u00e1ria. A poss\u00edvel agora e a necess\u00e1ria. A concentra\u00e7\u00e3o que a gente v\u00ea, por exemplo, em Rio e S\u00e3o Paulo, ou a concentra\u00e7\u00e3o de mercado, mesmo. Porque voc\u00ea tem o streaming, por exemplo. Ele concentrou a economia, digamos, em players, em grandes players. E como ficam os m\u00e9dios e os pequenos que n\u00e3o est\u00e3o fazendo streaming? O audiovisual vai ter que olhar para uma cadeia complexa. N\u00e3o adianta achar que vai reconstruir o audiovisual a partir do streaming. A gente pode at\u00e9 reconstruir uma parte do setor profissional, mas vai ter que repensar tudo isso. Porque n\u00e3o s\u00f3 nesses anos de Bolsonaro, mas de pandemia, os streamings ganharam um papel muito importante no sentido dessa concentra\u00e7\u00e3o e de um campo. Mas a gente vai ter que pensar em taxa\u00e7\u00e3o, em regula\u00e7\u00e3o, mil coisas. E de reconstruir o audiovisual para al\u00e9m e para aqu\u00e9m desse mercado de streaming.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"JUNTOS somos muitos\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qVHUAvAu4Zw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<div class=\"entry-content\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>. <\/em><\/p>\n<div data-wpusb-component=\"buttons-section\">\n<div id=\"wpusb-container-default\" class=\"wpusb wpusb-default  \" data-element-url=\"http%3A%2F%2Fscreamyell.com.br%2Fsite%2F2023%2F01%2F16%2Fentrevista-sidney-magal-fala-sobre-o-revisitar-de-sua-trajetoria-com-o-otimo-documentario-me-chama-que-eu-vou%2F\" data-element-title=\"Entrevista%3A%20Sidney%20Magal%20fala%20sobre%20o%20revisitar%20de%20sua%20trajet%C3%B3ria%20com%20o%20%C3%B3timo%20document%C3%A1rio%20%E2%80%9CMe%20Chama%20Que%20Eu%20Vou%E2%80%9D\" data-attr-reference=\"71752\" data-attr-nonce=\"8b2b51c70c\" data-is-term=\"0\" data-wpusb-component=\"counter-social-share\">\n<div class=\"wpusb-item wpusb-linkedin \"><\/div>\n<div class=\"wpusb-item wpusb-share \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Tr\u00eas anos depois da \u00faltima edi\u00e7\u00e3o presencial, a Mostra de Cinema de Tiradentes volta a acontecer na exuberante cidade mineira simbolizando a retomada da Cultura e do Audiovisual brasileiros\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/01\/20\/entrevista-raquel-hallak-e-francis-vogner-falam-sobre-o-retorno-ao-formato-presencial-da-mostra-de-cinema-de-tiradentes\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":71792,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[6544],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71787"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=71787"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71787\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":71869,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71787\/revisions\/71869"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/71792"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=71787"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=71787"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=71787"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}