{"id":71733,"date":"2023-01-13T02:09:52","date_gmt":"2023-01-13T05:09:52","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=71733"},"modified":"2024-11-04T17:56:31","modified_gmt":"2024-11-04T20:56:31","slug":"cinema-ruido-branco-de-noah-baumbach-e-interessante-exorbitante-e-entediante-e-merece-ser-visto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/01\/13\/cinema-ruido-branco-de-noah-baumbach-e-interessante-exorbitante-e-entediante-e-merece-ser-visto\/","title":{"rendered":"Cinema: \u201cRu\u00eddo Branco\u201d, de Noah Baumbach, \u00e9 interessante, exorbitante e entediante&#8230; e merece ser visto de maneira despreocupada"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-71734 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/whitenoise1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"741\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/whitenoise1.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/whitenoise1-202x300.jpg 202w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/marcelo.costa.5855\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jack Gladney \u00e9 um professor estrela (surrealidade j\u00e1 na primeira linha) da College-on-the-Hill, em Ohio. Sua especialidade s\u00e3o os \u201cEstudos de Hitler\u201d, curso que ele mesmo criou, e o fato de um de seus filhos se chamar Heinrich \u2013 Heinrich Luitpold Himmler foi um dos principais l\u00edderes do Partido Nazista, nomeado comandante do Ex\u00e9rcito de Reserva e General por Adolf Hitler \u2013 provavelmente n\u00e3o passaria batido por carniceiros culturais do novo s\u00e9culo, viciados em guerrilha virtual e cancelamento, mas Gladney \u201cvive\u201d nos anos 80, uma \u00e9poca, nas palavras de Jerry Senfield, sem limites, afinal, crian\u00e7as n\u00e3o apenas n\u00e3o usavam cintos de seguran\u00e7a como tamb\u00e9m eram transportadas na ca\u00e7amba dos carros (ou na \u00e1rea aberta dos porta-malas) sentindo o vento nos cabelos \u2013 e, bem, grande parte delas se transformou em um adulto supercuidadoso com os pr\u00f3prios filhos (quem sabe, at\u00e9 o Heinrich filho de Gladney).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gladney \u00e9 um dos personagens de \u201cWhite Noise\u201d, cl\u00e1ssico romance p\u00f3s-moderno de Don DeLillo lan\u00e7ado em 1985 (e editado no Brasil como \u201cRuido Branco\u201d pela primeira vez em 1987), vencedor do National Book Award for Fiction e presente numa lista da revista Time dos melhores romances em l\u00edngua inglesa escritos entre 1923 e 2005. Livro hist\u00f3rico da literatura made in USA, \u201cRuido Branco\u201d nunca tinha ganhado uma vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica porque 10 entre 10 pessoas acreditavam que a hist\u00f3ria era \u201cinfilm\u00e1vel\u201d, mas bastava encontrar um doido para tocar o projeto em frente (ok, na verdade alguns doidos), e Noah Baumbach assumiu o risco \u2013 mais ou menos, afinal, ap\u00f3s dois projetos elogiados para a Netflix \u2013 os excelentes \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/12\/26\/tres-filmes-extraordinario-assassinato-no-expresso-do-oriente-e-os-meyerowitz\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os Meyerowitz<\/a>\u201d, de 2017, e \u201cHist\u00f3ria de um Casamento\u201d, de 2019 \u2013, entregar um terceiro sem compromisso com bilheteria alivia o peso de, se tudo der errado, ter que hipotecar a vida para pagar os preju\u00edzos de um fracasso.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-71737\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/whitenoise4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/whitenoise4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/whitenoise4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A problem\u00e1tica da adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante correlacionada com a verborragia cl\u00e1ssica do texto de DeLillo, em que cada personagem \u00e9 um grande fil\u00f3sofo conversando animadamente em alto tom de voz consigo mesmo sobre as coisas mais importantes da natureza humana, e as mais mundanas e tacanhas tamb\u00e9m, sem nenhuma men\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio de import\u00e2ncia, uma farra deliciosa que vertida em palavras soa absolutamente vibrante devido \u00e0 ironia exacerbada (Oscar Wilde, o rei do cinismo, talvez ficasse chocado) que aquela d\u00e9cada new wave merecia (na expectativa de uma Guerra Nuclear e com um ator de Hollywood se elegendo presidente dos Estados Unidos da Am\u00e9rica), e que tanto antecipava <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/05\/12\/tres-series-high-fidelity-my-brillant-friend-chernobyl\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Chernobyl<\/a> quanto soa, 38 anos depois, um discurso atual\u00edssimo sobre o medo da morte ap\u00f3s uma pandemia global \u2013 Noah n\u00e3o escolheu esse desafio a toa, pode ter certeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o central, ent\u00e3o, seria como transpor esse universo surrealisticamente dondelillesco para o mundo da realidade dos 24 quadros por segundo sem soar excessivamente caricato e\/ou vazio, e Noah Baumbach optou pela sa\u00edda mais f\u00e1cil abra\u00e7ando a caricatura de uma maneira t\u00e3o intensa quanto esvaziante, o que n\u00e3o faz de \u201cRuido Branco\u201d, o filme, um completo desperd\u00edcio, mas o coloca na estante das obras a serem vistas com curiosidade desleixada \u2013 se voc\u00ea levar muito a s\u00e9rio talvez largue a trama antes da primeira meia hora&#8230; \u2013 para que ele seja deliciado a contento. Em sua f\u00e1bula caricatural pretensamente derivativa, Baumbach clona as cores fortes de Wes Anderson, o cinema pop de Steven Spielberg, o mundo dos sonhos de David Lynch, a adapta\u00e7\u00e3o pynchontesca de PTA, o atropelo de conversas de Woody Allen (que, tudo bem, Noah j\u00e1 incorporou como seu faz tempo) e o p\u00f3s-surrealismo de Spike Jonze (e Charlie Kaufman.. e Cameron Diaz) buscando soar o mais fiel poss\u00edvel ao livro \u2013 e, em algumas passagens, indigesto, delirante e confuso ao espectador (cuidado com as bad trips se for ver chapado).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria, dividida em tr\u00eas atos, flagra o professor Jack Gladney (Adam Driver excelente), sua esposa Babette (uma espirituosa Greta Gerwig) e seus quatro filhos (tr\u00eas de outros casamentos) vivendo em uma buc\u00f3lica casa estadunidense dos anos 80, com a televis\u00e3o ligada o tempo todo (entre s\u00e9ries e programas de acidentes a\u00e9reos) e discuss\u00f5es par\u00f3dicas se atropelando acerca de tudo e nada. O cinismo escorre da tela com cr\u00edticas vorazes ao hiper capitalismo (\u201cVoc\u00ea quer morrer por excesso de a\u00e7\u00facar e corantes ou por algo que causou c\u00e2ncer em ratos no laborat\u00f3rio?\u201d, pergunta a enteada ap\u00f3s Babette pegar um tablete de chiclete no supermercado, o reino da ilus\u00e3o, e ela responde: &#8220;Ou eu masco chiclete com a\u00e7ucar e corantes, ou sem a\u00e7ucar que faz mal aos ratos. Ou fumo&#8221;. A filha menor provoca: &#8220;Pare de mascar. Todos fazemos o que queremos, n\u00e3o? J\u00e1 pensou nisso?&#8221;. J\u00e1 pensou, leitor?). Jack \u00e9 um pai fofo que, no col\u00e9gio, se transforma em um professor magn\u00e9tico atraindo para si os mesmos holofotes que seu objeto de estudo atraia \u2013 um outro professor, Murray Siskind (Don Cheadle contagiante), quer criar um curso sobre Elvis Presley, e uma aula simult\u00e2nea de Gladney e Siskind falando ao mesmo tempo sobre o culto a personalidade de Hitler e Elvis \u00e9 um dos momentos mais impactantes da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-71736\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/whitenoise3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/whitenoise3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/whitenoise3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No segundo ato, um acidente com material t\u00f3xico libera uma imensa nuvem escura no ar, e o ambiente da casa ser\u00e1 trocado pela inseguran\u00e7a da vida em sociedade, com congestionamentos, acidentes, conversas sobre a vida alheia e tudo mais encharcado com momentos nonsense \u2013 a fuga de um acampamento, no melhor estilo \u201cpersegui\u00e7\u00e3o\u201d dos filmes de a\u00e7\u00e3o, \u00e9 hil\u00e1ria. Para o ato final, tanto Gladney e a esposa confrontam o medo da morte, a confus\u00e3o do relacionamento, a oferta de novas drogas, a viol\u00eancia do armamentismo, a nega\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e, enquanto DeLillo afunda seus personagens em suas neuroses at\u00e9 a \u00faltima linha do livro, Baumbach opta por um fechamento falsamente feliz e hollywoodiano \u2013 ao som da primeira m\u00fasica do LCD Soundsystem em quatro anos (ainda que seja imperdo\u00e1vel a falta de \u201cLost in The Supermarket\u201d, do Clash, na trilha, por mais \u00f3bvio que soasse). Ok, se o filme j\u00e1 n\u00e3o dependia de bilheteria, o ego n\u00e3o ia recusar a tentativa de brilhar na premia\u00e7\u00e3o da Academia, n\u00e9 mesmo (ainda que n\u00e3o v\u00e1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sensa\u00e7\u00e3o ap\u00f3s 2 horas e 16 minutos de proje\u00e7\u00e3o vista do sof\u00e1 (no cinema, provavelmente, seria outra coisa) \u00e9 a de que, realmente, \u201cWhite Noise\u201d era mesmo \u201cinfilm\u00e1vel\u201d, e ainda assim Noah Baumbach conseguiu tatear a ironia descarada presente no livro com certo tom po\u00e9tico \u2013 mesmo que dirigindo com a pata de um elefante (haveria outra maneira? Eis a quest\u00e3o). Ao mesmo tempo interessante, exorbitante e entediante, \u201cRu\u00eddo Branco\u201d \u00e9 um t\u00edpico filme que voc\u00ea pode amar e seu amor odiar (e vice-versa), o que dir\u00e1, provavelmente, mais sobre voc\u00eas mesmos do que sobre o filme. Uma pena que Noah tenha deixado de fora do roteiro uma das passagens hist\u00f3ricas do livro \u2013 t\u00e3o&#8230; Instagram: a do celeiro mais fotografado da Am\u00e9rica, que critica a mercantiliza\u00e7\u00e3o da realidade, afinal n\u00e3o se olha o celeiro pelo que \u00e9, mas como ele foi fotografado (sente certo deja-vu, caro leitor?) \u2013 adaptando o tema ao pr\u00f3prio filme: esque\u00e7a as alegorias e concentre-se no que ele \u00e9, um retrato do mal-estar que tudo que criamos causa em n\u00f3s mesmos, de redes sociais a doen\u00e7as, de pol\u00edticos de extrema direita a gente que n\u00e3o deveria ser famosa, mas \u00e9, de viol\u00eancia e obst\u00e1culos e comida ultraprocessada a, paradoxalmente, o medo da morte. Como diria o s\u00e1bio e cancelado Woody Allen, de maneira explicita, \u201ca vida \u00e9 cheia de solid\u00e3o, mis\u00e9ria, sofrimento e tristeza, e acaba r\u00e1pido demais&#8221;. Nos cada vez mais distantes anos 80, no s\u00e9culo passado, tudo que precis\u00e1vamos, fora alimento e amor, poderia ser encontrado em um jornaleco na fila do supermercado. Hoje est\u00e1 tudo aqui&#8230; na internet. E \u00e9 tudo t\u00e3o ru\u00eddo branco&#8230; t\u00e3o black mirror&#8230; t\u00e3o&#8230; <a href=\"https:\/\/www.theatlantic.com\/entertainment\/archive\/2014\/10\/the-author-of-white-noise-reviews-taylor-swifts-white-noise\/381771\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Taylor Swift<\/a> (!?). Mudou o mundo? Mudamos n\u00f3s? Realmente mudamos?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"RU\u00cdDO BRANCO \u2022 TRAILER OFICIAL\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CSS4nCCuoGs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a&nbsp;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Noah Baumbach conseguiu tatear a ironia descarada presente no livro com certo tom po\u00e9tico \u2013 mesmo que dirigindo com a pata de um elefante (haveria outra maneira? 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