{"id":71358,"date":"2022-12-14T01:49:55","date_gmt":"2022-12-14T04:49:55","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=71358"},"modified":"2023-04-10T02:40:46","modified_gmt":"2023-04-10T05:40:46","slug":"entrevista-banda-brasileira-independente-preta-e-periferica-a-pelos-lanca-seu-quarto-e-melhor-trabalho-atlantico-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/12\/14\/entrevista-banda-brasileira-independente-preta-e-periferica-a-pelos-lanca-seu-quarto-e-melhor-trabalho-atlantico-corpo\/","title":{"rendered":"Entrevista: Banda brasileira, independente, preta e perif\u00e9rica, a Pelos lan\u00e7a seu quarto e melhor trabalho, &#8220;Atl\u00e2ntico Corpo&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segredo muito bem guardado da cena alternativa mineira, a banda <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pelos.arte\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pelos<\/a> chegou ao seu quarto \u2013 e melhor \u2013 \u00e1lbum de est\u00fadio com o recente lan\u00e7amento de \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/1xW96cOztgwDwhBbW8IrC7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Atl\u00e2ntico Corpo<\/a>\u201d, um \u00e1lbum intenso de rock recheado de can\u00e7\u00f5es fortes e vers\u00e1teis que versam sobre o caos contempor\u00e2neo numa combina\u00e7\u00e3o m\u00e1gica de lirismo pol\u00edtico \/ social nas letras, guitarras altas no som, belos arranjos e acenos a outras sonoridades como o afrobeat e o funk soul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formada em 1999 no Aglomerado da Serra, periferia de Belo Horizonte, a Pelos hoje tem em sua forma\u00e7\u00e3o Robert Frank (voz, guitarra e piano), Kim Gomes (guitarra), Heberte Almeida (guitarra, viol\u00e3o, piano e voz), Thiago Pereira (baixo) e Pablo Campos (bateria). O \u00e1lbum \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/1xW96cOztgwDwhBbW8IrC7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Atl\u00e2ntico Corpo<\/a>\u201d foi produzido na Ilha do Corvo, est\u00fadio de Leonardo Marques, espa\u00e7o que tem sido celeiro de parte consider\u00e1vel da boa m\u00fasica produzida nas Geraes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conversa abaixo, Robert Frank, Kim Gomes e Thiago Pereira falam sobre \u201cuma banda brasileira, independente, preta e perif\u00e9rica\u201d, as inten\u00e7\u00f5es alimentadas com \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/1xW96cOztgwDwhBbW8IrC7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Atl\u00e2ntico Corpo<\/a>\u201d, o processo de composi\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum, influ\u00eancias art\u00edsticas, como \u00e9 ter a cidade de Belo Horizonte como fonte de inspira\u00e7\u00e3o, participa\u00e7\u00f5es especiais, planos futuros e mais. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Atl\u00e2ntico Corpo\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_kVdwgnlkdotpNy_txo0xonY3LybY2yD1k\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se a arte \u00e9 especular ao tempo, &#8220;Atl\u00e2ntico Corpo&#8221; \u00e9 um disco que soa, na mesma medida, belo e ca\u00f3tico, um fruto natural dos tempos tempestuosos em que estamos. Quais foram as inten\u00e7\u00f5es que voc\u00eas alimentaram para com o p\u00fablico a partir desse novo trabalho?<\/strong><br \/>\nThiago: Existe, de fato, a tentativa de espelhar um tempo nesse \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d; na verdade, tempos. Um primeiro, que entendo ser a trajet\u00f3ria de mais de duas d\u00e9cadas de atividades de uma banda brasileira, independente, preta e perif\u00e9rica e o lastro hist\u00f3rico e criativo contido nesse per\u00edodo. Muito antes de entrar na banda, de um ponto de vista pessoal e profissional, via a Pelos como um caso raro, uma das poucas bandas que permaneceram de um per\u00edodo que acho bastante interessante e diria, por que n\u00e3o, seminal, dessa ideia de \u2018cena independente em BH\u2019, algo que localizo com muita for\u00e7a a partir de 2005, 2006. Para al\u00e9m, do meu referencial de observa\u00e7\u00e3o, falo de um trabalho que nunca foi visibilizado de uma maneira que considero \u2018justa\u2019 ou \u2018coerente\u2019. Sempre li a Pelos como um projeto bem particular na m\u00fasica daqui, e do Brasil, e algumas medidas, muito pouco incensado. Ao mesmo tempo, sempre me inspirou esse material de que eles s\u00e3o feitos: resist\u00eancia, resili\u00eancia, amor \u00e0 causa \u2013 sendo esta causa, fundamentalmente, a arte que eles criam. Nesse sentido, estar na Pelos \u00e9 at\u00e9 meio chocante pra mim; ainda rola uma \u2018s\u00edndrome do impostor\u2019 pesada (risos). Mas, abusado que sou, estou topando tudo, e me lembro que, j\u00e1 em nossos primeiros encontros pra discutir a possibilidade de um novo disco, a ideia de retratar um tempo, um agora, e fazer disso um discurso s\u00f4nico e l\u00edrico foi uma baliza fundamental. \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o disso, certamente. E, honestamente, a quest\u00e3o do \u2018p\u00fablico\u2019 foi amplamente debatida tamb\u00e9m desde o in\u00edcio do processo, e ainda n\u00e3o sei se chegamos a uma conclus\u00e3o final. Acho que existe uma esp\u00e9cie de endere\u00e7amento mesmo no trabalho, mesmo na amplitude que acredito que ele tem: at\u00e9 onde sei, a audi\u00eancia da banda \u00e9 qualitativamente grande, no sentido que f\u00e3s de diferentes g\u00eaneros musicais gostam da Pelos, desde sempre, em todas as \u2018fases\u2019. Mas este \u00e9 um trabalho mais firmado na t\u00f4nica da negritude, em todos os sentidos: em m\u00fasica e discurso, pautado por um tempo de urg\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 estas quest\u00f5es. Assim, acredito (e desejo bastante) que as pessoas que se veem envolvidas nessa quest\u00e3o \u2013 e gostaria que fossem todas as pessoas, por motivos \u00f3bvios \u2013 podem se interessar pelo disco. \u00c9 certo que ele possu\u00ed \u2018statements\u2019, declara\u00e7\u00f5es por vezes belas e ca\u00f3ticas, como voc\u00ea se referiu, sobre e desse tempo. \u00c9 sim fruto de tudo isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Musicalmente esse \u00e9 o trabalho mais abrangente \/ diversificado do grupo. Tal fato \u00e9 percept\u00edvel nas diversas camadas sonoras que cada faixa tem. A inser\u00e7\u00e3o dos metais e elementos percussivos s\u00e3o bons exemplos para entender essa rela\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, como se deu o processo de composi\u00e7\u00e3o de \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d e em que momento voc\u00eas perceberam que seria de grande valia pensar nos arranjos dessa forma?<\/strong><br \/>\nKim Gomes: Na minha opini\u00e3o, \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d \u00e9 o disco mais maduro que a banda j\u00e1 produziu at\u00e9 hoje, fruto de um aprimoramento musical e pessoal de cada um de n\u00f3s. Acho que o primeiro passo para esta evolu\u00e7\u00e3o sonora da banda come\u00e7a no EP \u201c<a href=\"https:\/\/pelos.bandcamp.com\/album\/olho-do-mundo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Olho do Mundo<\/a>\u201d de 2012, onde gravamos com um trio de metais e usamos elementos percussivos eletr\u00f4nicos. Desde ent\u00e3o, al\u00e9m do tradicional (baixo, guitarra, batera e piano), algumas composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o pensadas e concebidas a partir de outros timbres ou instrumentos, seja num solfejo ou algo do tipo, ou s\u00e3o inseridos depois na grava\u00e7\u00e3o. \u00c9 natural da nossa parceria e afinidades de d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: O processo de composi\u00e7\u00e3o do disco, na minha vis\u00e3o, foi o momento mais marcante. \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d \u00e9 fruto da pandemia, em diversas de suas etapas, e isso seguramente contaminou o disco nesse processo inicial. De certa maneira, \u00e9 um trabalho que nasceu de conversas, cervejas, concord\u00e2ncias, cervejas, discord\u00e2ncias, revela\u00e7\u00f5es, cervejas, intimidades, mais cervejas&#8230; Tudo com uma intensidade meio febril, justificada pelo isolamento, pelo medo, etc. Foi um processo de fuga meio terap\u00eautico tamb\u00e9m. A\u00ed entra o processo de imers\u00e3o que fizemos em Casa Branca, pr\u00f3ximo de Belo Horizonte. Banda reunida em uma casa, por conta de compor, mostrar ideias, tocar, arranjar. Diria que uma parte substancial do que \u00e9 o disco veio dali. Acho que todos vamos nos lembrar, por exemplo, de \u201cFesta do Corpo Banto\u201d, que nasceu de um tema meio radioheadiano no teclado e virou uma esp\u00e9cie de afrobeat. A letra de \u201cSentimento Oce\u00e2nico\u201d veio de uma conversa minha com Robert, que depois amarrei com leituras minhas de Paul Giroy e Freud&#8230; e por a\u00ed vai. Em rela\u00e7\u00e3o ao \u2018resultado final\u2019, tudo foi bastante org\u00e2nico, natural, no sentindo de intuir que determinadas can\u00e7\u00f5es \u2013 e este \u00e9 um disco de can\u00e7\u00f5es \u2013 &#8216;pediam\u2019 outras camadas de sentido. Algumas coisas foram pensadas em est\u00fadio, na Ilha do Corvo, com o Leonardo Marques, e tanto ele como o pr\u00f3prio est\u00fadio foram fundamentais nesse processo de dimens\u00f5es s\u00f4nicas \u2013 gravar com ele tamb\u00e9m significou buscar a linda assinatura que ele possu\u00ed. Mas se bem me lembro, entramos pra gravar (e gravamos boa parte do material ao vivo, tocando juntos, o que tamb\u00e9m ajudou na constru\u00e7\u00e3o dessas paisagens, ambi\u00eancias e climas) j\u00e1 bastante \u2018arranjados\u2019, sabendo o que quer\u00edamos e como quer\u00edamos. \u201cFesta do Corpo Banto\u201d, por exemplo, j\u00e1 foi pensada em sua composi\u00e7\u00e3o com os metais e a percuss\u00e3o; j\u00e1 o mellotron em \u201cDela em Mim\u201d foi algo posterior, j\u00e1 na Ilha e suas imensas possibilidades&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Liricamente as composi\u00e7\u00f5es possuem um car\u00e1ter po\u00e9tico agridoce ao retratar com destreza a dor e a beleza vividas nos dias atuais. Esse exerc\u00edcio, ali\u00e1s, \u00e9 uma marca contumaz do grupo. Procurando mapear em como se d\u00e1 essa constru\u00e7\u00e3o, quais refer\u00eancias serviram de inspira\u00e7\u00e3o para que voc\u00eas constru\u00edssem essa identidade pr\u00f3pria?<\/strong><br \/>\nRobert: Penso que com o decorrer dos anos passamos a ficar muito mais abertos quanto as influ\u00eancias diversas que carregamos desde a inf\u00e2ncia e reconhecer que isso tamb\u00e9m faz parte de n\u00f3s enquanto artistas. \u00c9 fazer uma can\u00e7\u00e3o mirando numa aura nick caveana e acertar num Roberto Carlos setentista e estar tudo bem. Entender que essas belezas de encontros e desencontros criativos \u00e9 que constroem nossa identidade musical e uma experi\u00eancia coletiva \u00edmpar que nos faz estar juntos tanto tempo. E claro, isso s\u00f3 funciona porque somos uma banda onde integrantes se respeitam e sobretudo admiram o trabalho art\u00edstico uns dos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: Da minha percep\u00e7\u00e3o, a Pelos sempre foi uma banda preocupada com o texto, com as letras. Sempre curti as letras da banda. O que propus, em mim e para os outros, neste este trabalho foi o fato de trabalharmos apenas com o portugu\u00eas e afiar ainda mais um discurso, no sentido de \u2018botar pra fora\u2019, sem hermetismos ou grandes camadas ocultas de sentido, o que quer\u00edamos dizer agora. Pessoalmente, as que assino apenas letra, \u00e9 fruto de um exerc\u00edcio muito instigante de \u2018letrar melodias\u2019, coisa que n\u00e3o tinha h\u00e1bito de fazer. Obviamente acredito que s\u00e3o linhas vocais muito inspiradoras, e, importante, tudo se conectava dentro do contexto da cria\u00e7\u00e3o: n\u00e3o entendi o texto como divorciado de um riff, de um clima, de uma ambi\u00eancia criada por toda a banda. De alguma maneira, foi esse conjunto que guiou as letras, no final. Sobre inspira\u00e7\u00f5es, s\u00e3o muitas&#8230; O Brasil \u00e9 um pa\u00eds rico demais em letristas, poetas, bons textos, fora e dentro do contexto musical. De Cartola \u00e0 Mano Brown; de Aldir Blanc \u00e0 Renato Russo, passando por diversas outras refer\u00eancias. O grande exerc\u00edcio, creio, foi mapear nossas viv\u00eancias, percep\u00e7\u00f5es, desejos, em um discurso l\u00edrico coerente com o restante da obra. Gosto muito das letras do Robert e do Heberte no disco!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A faixa &#8220;Da Serra ao Bonfim&#8221; \u00e9 um passeio geogr\u00e1fico \/ cultural \/ social sobre Belo Horizonte. Qual a import\u00e2ncia de evidenciar essas caracter\u00edsticas \/ refer\u00eancias locais? E ainda: qual a papel a cidade exerce no fazer art\u00edstico da banda?<\/strong><br \/>\nKim Gomes: &#8220;Da Serra ao Bonfim&#8221; surge de um riff mais metal e antigo que eu fiz na \u00e9poca em que tocava na banda Cadelas Magn\u00e9ticas (banda que mistura p\u00f3s-punk, pontos de terreiro e noise com a poesia marginal de Cesar Gilcevi) e que se encaixou perfeitamente com a letra do Thiago e elementos mais swingados, como congas, cowbell e a guitarra \u00e0 la Nile Rodgers do Heberte. Thiago nos presenteou com esta epopeia, homenageando a trajet\u00f3ria da banda, referenciando nossos habitats naturais, lugares e pessoas muito importantes de BH e que devem ser celebradas todos os dias, como o Edmundo e Andrea da Casa Matriz (pai e m\u00e3e de todas as bandas independentes da cidade) e a travesti Cintura Fina, personagem da antiga boemia belo-horizontina, esquecida e apagada da hist\u00f3ria como muitas outras, mas que segue \u201caben\u00e7oando nossos rol\u00eas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: Como voc\u00ea mesmo aponta na primeira pergunta, esse \u00e9 um trabalho que tem sim um marcador temporal; assim como tamb\u00e9m possu\u00ed por vezes um espa\u00e7o de certa forma definido, mesmo que antes apenas imaginado. Para mim, por exemplo, \u201cAo Sul de Zona Alguma\u201d, que j\u00e1 estava pronta, gravada, se materializou na minha cabe\u00e7a quando fomos fazer as fotos de divulga\u00e7\u00e3o do disco, no alto do Aglomerado da Serra, talvez o ponto mais meridional de Belo Horizonte. Era naquele cen\u00e1rio que o texto na minha cabe\u00e7a foi encenado, mesmo sem conhec\u00ea-lo. J\u00e1 \u201cDa Serra ao Bonfim\u201d \u00e9 o contr\u00e1rio, a inten\u00e7\u00e3o de localizar chegou antes mesmo de escrever a letra. Queria fazer uma homenagem \u00e0 pr\u00f3pria Pelos, \u00e0 hist\u00f3ria da banda, da\u00ed localizar \u201cDa Serra\u201d (lar de Robert e Heberte) \u201cao Bonfim\u201d (onde o Kim mora), os tr\u00eas como os integrantes mais duradouros do grupo. Fiz numa ressaca fudida mas feliz, logo depois de chegar em casa da nossa primeira imers\u00e3o, escutando a base que fizemos l\u00e1. E de cara j\u00e1 existia o prop\u00f3sito dessa ser uma m\u00fasica festeira, celebrat\u00f3ria, um lado que quer\u00edamos afirmar pra caralho tamb\u00e9m. Ent\u00e3o ficou isso, um passeio, um panorama meio cinematogr\u00e1fico da BH que mais me interessa: boemia, noturna, acolhedora de viv\u00eancias m\u00faltiplas por vezes tidas como \u2018marginais\u2019. O texto cita ent\u00e3o refer\u00eancias \u00e0 pr\u00f3pria banda (\u2018estragos n\u00e3o sutis\u2019), locais sagrados para a m\u00fasica na cidade (o Matriz, de Edmundo e Andreia) e sugere canonizar a lend\u00e1ria travesti Cintura Fina como protetora de todos n\u00f3s. Nesse sentido, BH foi uma musa presente na cria\u00e7\u00e3o do disco tamb\u00e9m, nossas quebradas e muitos mundos constritos aqui.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"PELOS - L\u00c1GRIMAS BRANCAS\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fxXpWEQsx9Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra que se destaca \u00e9 &#8220;L\u00e1grimas Brancas&#8221;, can\u00e7\u00e3o pungente que aborda o racismo. Como se deu o processo de cria\u00e7\u00e3o dessa faixa e a ideia de estabelecer o di\u00e1logo \/ resposta a &#8220;L\u00e1grimas Negras&#8221; (Nelson Jacobina \/ Jorge Mautner)?<\/strong><br \/>\nRobert: \u201cL\u00e1grimas Brancas\u201d me veio como um presente, aqueles famosos sopros de inspira\u00e7\u00e3o que chegam \u201cdo nada\u201d. Antes mesmo de pensar a letra eu j\u00e1 sabia do que queria falar nela e mandei uma mensagem aos caras falando que estava fazendo uma m\u00fasica com esse t\u00edtulo e tem\u00e1tica. Levei um tempo pra traduzir em letra a n\u00e9voa criativa na minha cabe\u00e7a e penso que o resultado \u00e9 exatamente o da ideia inicial, trazer um di\u00e1logo-contraponto-quase homenagem \u00e0 obra prima de Mautner\/Jacobina. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/18\/tres-perguntas-pelos-lanca-o-impactante-clipe-de-lagrimas-brancas-dirigido-por-gabriel-martins\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Foi unanimidade escolh\u00ea-la como primeiro single<\/a>. Creio que o videoclipe para essa m\u00fasica, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/10\/06\/cinema-em-noite-de-celebracao-em-bh-gabriel-martins-fala-sobre-marte-um-e\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dirigido pelo Gabriel Martins (diretor de \u201cMarte Um\u201d, filme escolhido para representar o Brasil no Oscar 2023<\/a>) trouxe ainda mais for\u00e7a para o discurso da m\u00fasica. Uma bela tradu\u00e7\u00e3o visual e uma amplia\u00e7\u00e3o do sentimento que essa m\u00fasica nos traz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Musicalmente &#8220;Atl\u00e2ntico corpo&#8221; \u00e9 um disco de rock, mas que estabelece di\u00e1logo com outros ritmos como o afrobeat e soul. Acredito que essa miscel\u00e2nea seja fruto das diversas identidades que cada integrante traz. Recentemente, inclusive, voc\u00eas fizeram um show no qual evidenciaram suas bases musicais. Ent\u00e3o como seu deu a constru\u00e7\u00e3o desse show e como \u00e9, nos bastidores, o processo da parte instrumental das composi\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nKim Gomes: Fizemos em julho o show \u201cRefer\u00eancias\u201d, que faz parte de um projeto comemorativo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s d\u00e9cadas de atividade da Pelos, que inclusive segue em 2023, com shows e uma mostra-exposi\u00e7\u00e3o audiovisual dos nossos arquivos. A constru\u00e7\u00e3o desse show foi baseada em, democraticamente, montar um show em que expus\u00e9ssemos parte de nossos afetos musicais como m\u00fasicos e como parte da Pelos. Isso significou fazer vers\u00f5es de Bauhaus, Milton Nascimento, TV On The Radio, Simon and Garfunkel, Meta Met\u00e1, Radiohead, David Bowie, Stevie Wonder, Smashing Pumpkins e grande elenco&#8230; Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 parte pr\u00e1tica, os preparativos para os primeiros shows do \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d, em que temos 6 ou 7 m\u00fasicos de apoio, s\u00e3o sempre mais trabalhosos no sentido de organizar agendas e ensaios. Mas sempre contamos com excelentes profissionais da m\u00fasica ao nosso lado e temos um maestro na banda, que cuida das partituras e reg\u00eancia, que \u00e9 nosso benem\u00e9rito Heberte Almeida, a\u00ed a parte instrumental flui muito bem. Mas fizemos recentemente um show com formato \u2018m\u00ednimo\u2019, ou seja, apenas os cinco, e funcionou bem tamb\u00e9m, o que \u00e9 importante por quest\u00f5es de log\u00edstica, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: Vi essas identidades musicais de cada um de certo modo \u2018filtradas\u2019 e \u2018fragmentadas\u2019 em um processo coletivo. Fizemos inclusive playlists pessoais de refer\u00eancias poss\u00edveis para o \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d, como um m\u00e9todo, de maneira a entender o \u2018clima\u2019 que cada um tinha em mente para esse novo trabalho. Curiosamente, me pareceu um exerc\u00edcio bastante produtivo: volta e meia encontro as ambi\u00eancias que escutei nas listas de cada um vazadas no disco. Sobre a quest\u00e3o do rock: discutimos bastante internamente esse assunto, do fazer rock, do se identificar como algu\u00e9m do rock. Acho que de alguma maneira \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d tamb\u00e9m alcan\u00e7a essas crises de representa\u00e7\u00f5es. Acredito que \u00e9 comum entre n\u00f3s um desprezo absoluto por essa ideia de rock, capturada art\u00edstica e historicamente, em uma performance masculinizada, branca, primeiro mundista, rica, tosca, formul\u00e1ica. Algo que, na pr\u00e1tica, deu numa merda muito grande: o louvor ignorante e limitado pelo chamado \u2018classic rock\u2019 e a est\u00e9tica cafon\u00e9rrima que o circunscreve, etc; e, em \u00faltima e agonizante inst\u00e2ncia, a simpatia e o apoio \u00e0 figuras como Bolsonaro e lixos parecidos que representam os valores mais conservadores, racistas, homof\u00f3bicos, elitistas e escrotos poss\u00edveis. Somado a isso, uma falta de interesse ou de di\u00e1logo latente pelo lado mais hipster da chamada \u2018esquerda festiva\u2019 ou algo do tipo, que no mais produziu pouqu\u00edssimos discursos musicais que tematizassem a desgra\u00e7a em que nos enfiamos nos \u00faltimos anos; salvo raras e louv\u00e1veis exce\u00e7\u00f5es, no meu ponto de vista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na ala das participa\u00e7\u00f5es, Michelle Oliveira (cantora de bandas como Cromossomo Africano) faz um ex\u00edmio trabalho em tr\u00eas faixas (&#8220;L\u00e1grimas Brancas&#8221;, &#8220;Ao Sul de Zona Alguma&#8221; e &#8220;Festa do Corpo Banto&#8221;). Como se deu a aproxima\u00e7\u00e3o de voc\u00eas e quais as contribui\u00e7\u00f5es que ela trouxe para o resultado final do disco?<\/strong><br \/>\nKim Gomes: Eu pessoalmente conhe\u00e7o a Michelle h\u00e1 anos. Temos v\u00e1rios amigos em comum do conjunto habitacional IAPI localizado na Lagoinha, regi\u00e3o de BH em que nasci e resido at\u00e9 hoje. J\u00e1 t\u00ednhamos trabalhado com a Michelle no disco anterior, \u201c<a href=\"https:\/\/pelos.bandcamp.com\/album\/para-so-perdido-nos-bolsos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Para\u00edso Perdido nos Bolsos<\/a>\u201d (2016). Na ocasi\u00e3o ela gravou o coro e o solo na faixa &#8220;Fausto de Gueto&#8221;. Ela tamb\u00e9m faz diversas participa\u00e7\u00f5es na nossa outra banda irm\u00e3, a Diplomattas. Mas no disco \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d a participa\u00e7\u00e3o dela foi bem mais presente e importante para alcan\u00e7armos o resultado final que almejamos desde as nossas primeiras conversas regadas a muita cerveja, como disse o Thiago anteriormente. A Michelle \u00e9 incrivelmente talentosa e dona de uma voz bel\u00edssima e muito potente. No processo de grava\u00e7\u00e3o t\u00ednhamos uma ideia geral das partes onde entrariam as vozes e coros mas demos total liberdade para Michelle criar e interpretar as melodias do jeito dela, que acrescentou muito nas m\u00fasicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por fim quais s\u00e3o os planos futuros? Pretendem seguir na estrada?<\/strong><br \/>\nThiago: Soltar esse \u201cAtl\u00e2ntico Corpo\u201d no mundo, programar shows, mostrar o trabalho para o maior n\u00famero pessoas poss\u00edveis. O retorno at\u00e9 agora, tanto sobre o disco, quanto sobre os primeiros shows tem sido incr\u00edveis, emocionantes. Algo que inspira a tentar ampliar ao m\u00e1ximo o alcance de poss\u00edveis ouvintes ao trabalho. Esse \u00e9 um disco que traduziu parte de coisas importantes em nossas vidas que talvez vocalize as vidas de outras pessoas tamb\u00e9m. Chegar a\u00ed, atrav\u00e9s de audi\u00e7\u00f5es, shows, parcerias, \u00e9 um objetivo legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kim Gomes: Certamente seguiremos mostrando nosso trabalho pra geral e sempre em busca de parcerias e oportunidades que \u00e9 o que nos move espiritualmente e financeiramente enquanto banda.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Pelos | Festa do Corpo Banto\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/h5t8LfWJfy8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Pelos | Tema para um Homem em Queda\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TEhc5Q9nkg8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Pelos | Orum\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ci65NbZKTBA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0 escreve no Scream &amp; Yell desde 2014. A foto que abre o texto \u00e9 de Rafael Freire<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Atl\u00e2ntico Corpo&#8221; \u00e9 um \u00e1lbum intenso de rock recheado de can\u00e7\u00f5es fortes e vers\u00e1teis que versam sobre o caos contempor\u00e2neo numa combina\u00e7\u00e3o m\u00e1gica de lirismo pol\u00edtico \/ social nas letras, guitarras altas no som, belos arranjos e acenos ao afrobeat e ao funk soul\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/12\/14\/entrevista-banda-brasileira-independente-preta-e-periferica-a-pelos-lanca-seu-quarto-e-melhor-trabalho-atlantico-corpo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":71362,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1567],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71358"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=71358"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71358\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":71366,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71358\/revisions\/71366"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/71362"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=71358"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=71358"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=71358"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}