{"id":71227,"date":"2022-12-07T00:20:47","date_gmt":"2022-12-07T03:20:47","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=71227"},"modified":"2023-01-23T02:25:32","modified_gmt":"2023-01-23T05:25:32","slug":"literatura-lourenco-mutarelli-morreu-e-voltou-para-contar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/12\/07\/literatura-lourenco-mutarelli-morreu-e-voltou-para-contar\/","title":{"rendered":"Literatura: Louren\u00e7o Mutarelli morreu e voltou para contar"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gabriel Pinheiro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Voc\u00ea j\u00e1 parou pra pensar que embora esteja aqui e agora, ou ao menos acredite nisso, voc\u00ea pode ser s\u00f3 algo que esteja sendo escrito?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pompeu Porf\u00edrio J\u00fanior \u00e9 um contador de hist\u00f3rias. Clientes o pagam para que ele lhes conte aquilo que viveu no passado ou aquilo que observou entre o \u00faltimo encontro e o presente. Pompeu \u00e9 um &#8220;arquiteto&#8221; de universos que existem concomitantes ao nosso. Se estes universos s\u00e3o momentaneamente habitados por aqueles que escutam suas hist\u00f3rias, s\u00e3o muitos os fantasmas que tamb\u00e9m os povoam, t\u00eam resid\u00eancia fixa. Enquanto tece as linhas de suas narrativas, o personagem enfrenta os pr\u00f3prios dem\u00f4nios \u2013 e olha, n\u00e3o s\u00e3o poucos. &#8220;<a href=\"https:\/\/amzn.to\/3FKLW8X\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O livro dos mortos<\/a>&#8221; \u00e9 o novo trabalho de Louren\u00e7o Mutarelli, lan\u00e7ado pela Companhia das Letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pompeu \u00e9 Louren\u00e7o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como Pompeu, Mutarelli \u00e9 um ex\u00edmio contador de hist\u00f3rias. Mas se o autor tece hist\u00f3rias, sobretudo, a partir dos livros que escreve, o personagem as narra pessoalmente para clientes especiais. Numa esp\u00e9cie de sess\u00e3o de terapia invertida, eles pagam para ouvi-lo contar tanto aquilo que um dia viveu, quanto aquilo que observa hoje. O passado e o presente. A realidade passa a fazer sentido apenas quando mediada pelo olhar desse narrador ins\u00f3lito. A mulher desejada \u00e9 ainda mais desejada quando observada por Pompeu. At\u00e9 o gozo parece mais intenso quando filtrado pelo olhar do contador. &#8220;Voc\u00ea percebe como a minha cabe\u00e7a vai se perdendo? Percebe como salto de um assunto pro outro. Mas eu sempre amarro no final. \u00c9 quase um malabarismo mental. Uma coisa me leva a outra que me leva a outra\u2026 e assim vou indo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pompeu \u00e9 e n\u00e3o \u00e9 Louren\u00e7o. Mutarelli escreve neste novo trabalho uma &#8220;autobiografia hipnag\u00f3gica&#8221;. Hipnag\u00f3gico \u00e9 aquele estado entre a vig\u00edlia e o adormecer. Aquele momento de quase mergulho nos bra\u00e7os de Morfeu. Pois \u00e9 isso o que prop\u00f5e o autor na constru\u00e7\u00e3o da narrativa, num texto em que imagens on\u00edricas, surreais convivem com a aparente normalidade do estado das coisas; e a n\u00e3o-linearidade dos sonhos se apresenta tamb\u00e9m como marca do texto. Uma narrativa que \u00e9 permeada por duplos &#8211; a come\u00e7ar pelo pr\u00f3prio Pompeu-Louren\u00e7o -, acontecimentos aparentemente inexplic\u00e1veis e repeti\u00e7\u00f5es &#8211; tanto de temas, quanto de situa\u00e7\u00f5es. Como um sonho que nos persegue noite ap\u00f3s noite, h\u00e1 um forte car\u00e1ter c\u00edclico nas cenas narradas. Mas a cada repeti\u00e7\u00e3o parecemos encontrar uma pista sobre o porvir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O sono e o processo criativo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Louren\u00e7o n\u00e3o nos confidencia apenas aquilo que viveu, mas tamb\u00e9m aquilo que sonhou. E h\u00e1, ainda, uma terceira categoria: aquelas lembran\u00e7as que o autor n\u00e3o pode confirmar se realmente aconteceram ou se foram fruto de sua mente. &#8220;\u00c9 t\u00e3o dif\u00edcil eu recordar um sonho. Geralmente meus sonhos s\u00e3o t\u00e3o cotidianos, corriqueiros, que quando acordo n\u00e3o tenho certeza se foi um sonho ou algo real&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sono \u00e9 uma quest\u00e3o fundamental no cotidiano do autor, que reflete diretamente em seu processo criativo, nas imagens que constr\u00f3i em texto, recortes e desenhos. Por diversas vezes, seu narrador descreve as infrut\u00edferas tentativas de dormir. Uma das imagens mais constantes \u00e9 a de um espelho d&#8217;\u00e1gua. Espelho este que ele nunca consegue mergulhar. &#8220;O meu problema \u00e9 justamente com a transi\u00e7\u00e3o. \u00c9 t\u00e3o dif\u00edcil de explicar. Mas eu diria que \u00e9 isso. Tenho dificuldade em transitar entre a vig\u00edlia e o sono. Por isso essa minha ins\u00f4nia terr\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma honestidade brutal<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mutarelli \u00e9 de uma honestidade, por vezes, brutal em &#8220;O livro dos mortos&#8221;. S\u00e3o muitos os fantasmas que ele enfrenta nas rela\u00e7\u00f5es com o pai, com a m\u00e3e e com a companheira, a professora e escritora Lucimar Mutarelli, por exemplo, que tomam forma neste novo livro. &#8220;\u00c9 estranho porque odeio reviver meu passado. E por alguma raz\u00e3o tenho feito isso agora&#8221;. \u00c9 corajosa a maneira como o autor se abre ao desconhecido, se abre ao poss\u00edvel leitor, revelando traumas guardados e sofridos ao longo de anos, desde a inf\u00e2ncia at\u00e9 tempos recentes. &#8220;Venho tentando guardar coisas que n\u00e3o cabem mais em mim. Isso me consome. Tamb\u00e9m n\u00e3o consigo esquecer. (&#8230;) Acredito que por isso bebo cada vez mais e mais. Para anestesiar isso que me devora&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor narra tamb\u00e9m os dois infartos que sofreu em 2020. Em um dos infartos, o escritor sofreu duas paradas card\u00edacas. Louren\u00e7o morre duas vezes e \u00e9 ressuscitado. Os prontu\u00e1rios m\u00e9dicos das ocasi\u00f5es e de uma cirurgia posterior integram a narrativa, trazendo uma camada bem interessante entre o ficcional e o biogr\u00e1fico. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 nada l\u00e1. Mesmo assim posso garantir que algo veio comigo. (&#8230;) Algo veio em meu corpo. Veio da morte. (&#8230;) N\u00e3o sei o que \u00e9, mas sei que n\u00e3o \u00e9 bom&#8221;. \u00c9 importante destacar que, na ocasi\u00e3o do segundo infarto, este &#8220;O livro dos mortos&#8221; j\u00e1 estava praticamente pronto. Mas a experi\u00eancia de retornar da morte o obrigou a retomar o texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um mergulho na mente criativa do autor<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este novo livro \u00e9 tamb\u00e9m um enorme apanhado de tudo aquilo que povoa a cabe\u00e7a do escritor paulista. Louren\u00e7o mergulha na mitologia grega, na filosofia, no cinema, na literatura cl\u00e1ssica e contempor\u00e2nea, na m\u00fasica, entre outros. \u00c9 genial a maneira como ele digere e absorve um sem fim de refer\u00eancias, que passam a fazer parte de seu pr\u00f3prio universo criativo. Mutarelli faz um uso surpreendente das rodas de rodap\u00e9 no livro. Estas notas s\u00e3o quase uma obra \u00e0 parte. E s\u00e3o nelas que ele vai se aprofundar em diferentes manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e na rela\u00e7\u00e3o destas com seu trabalho. Sobre as notas, ele destaca no in\u00edcio do livro: &#8220;N\u00e3o visam explicar nada e tampouco contextualizar coisa alguma. Servem quase como ilustra\u00e7\u00f5es. S\u00e3o uma forma de dividir o que de mais marcante li em minha vida.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com &#8220;O livro dos mortos&#8221;, Louren\u00e7o Mutarelli nos entrega sua grande obra. Um volume que parece acumular tudo o que esse artes\u00e3o das imagens e das palavras construiu ao longo de mais de trinta anos de carreira, num trabalho que, acredito, n\u00e3o encontra par na cena brasileira hoje. Parece haver um pouco de cada uma de suas obras ali: os quadrinhos, os romances, as pe\u00e7as teatrais, os pap\u00e9is no cinema e seu trabalho nas artes pl\u00e1sticas &#8211; vale dedicar um momento, ali\u00e1s, \u00e0 arte da capa, criada a partir de caligrafia e recortes, pelo pr\u00f3prio. Sua &#8220;autobiografia hipnag\u00f3gica&#8221; \u00e9 genial por nos deixar com mais perguntas do que respostas. Assim como os sonhos, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Um quebra-cabe\u00e7a delirante e surpreendente.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-71230\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Mutarelli-Marcos-Vilas-Boas-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1059\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Mutarelli-Marcos-Vilas-Boas-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Mutarelli-Marcos-Vilas-Boas-copiar-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/category\/literatura\/\">Leia sobre outros livros no Scream &amp; Yell<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Gabriel Pinheiro \u00e9 jornalista. Escreve sobre suas leituras tamb\u00e9m no Instagram:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@tgpgabriel<\/a>. A foto de Louren\u00e7o Mutarelli \u00e9 de Marcos Vilas Boas)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mutarelli \u00e9 de uma honestidade, por vezes, brutal em &#8220;O livro dos mortos&#8221;. 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