{"id":71021,"date":"2022-11-24T00:46:39","date_gmt":"2022-11-24T03:46:39","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=71021"},"modified":"2023-01-13T02:12:43","modified_gmt":"2023-01-13T05:12:43","slug":"literatura-as-maravilhas-da-espanhola-elena-medel-e-um-pungente-romance-sobre-emancipacao-feminina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/11\/24\/literatura-as-maravilhas-da-espanhola-elena-medel-e-um-pungente-romance-sobre-emancipacao-feminina\/","title":{"rendered":"Literatura: &#8220;As maravilhas&#8221;, da escritora espanhola Elena Medel, \u00e9 um pungente romance sobre emancipa\u00e7\u00e3o feminina"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gabriel Pinheiro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 uma quest\u00e3o de dinheiro, tudo \u00e9 quest\u00e3o de dinheiro. Se a gente tivesse dinheiro, n\u00e3o digo de sobra, mas se tiv\u00e9ssemos algum, nossa vida seria mais simples.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste celebrado primeiro romance de Elena Medel, &#8220;As maravilhas&#8221; (2020), acompanhamos tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de mulheres espanholas. Na verdade, caminhamos \u2013 e, por vezes, marchamos \u2013 ao lado uma av\u00f3 e uma neta: vemos a terceira, o elo que liga essas mulheres, sempre mediada pelo olhar e pela mem\u00f3ria das duas. &#8220;As maravilhas&#8221; \u00e9 um romance sobre rela\u00e7\u00f5es: de sangue e familiares, de sororidade, de poder, de explora\u00e7\u00e3o no trabalho e de dinheiro. Esta \u00faltima rela\u00e7\u00e3o, que fundamenta um abismo entre classes, \u00e9 alvo de uma profunda e sens\u00edvel reflex\u00e3o pela autora. O livro chega com tradu\u00e7\u00e3o de Rubia Goldoni pela Todavia Livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAs maravilhas\u201d t\u00eam in\u00edcio em 2018. Alicia \u201cvasculha os bolsos e n\u00e3o encontra nada\u201d. Esta frase, que abre o romance, \u00e9 uma esp\u00e9cie de s\u00edntese da discuss\u00e3o que Elena Medel prop\u00f5e ao longo da narrativa. Como o dinheiro \u00e9 definidor das nossas rela\u00e7\u00f5es sociais, o que ele possibilita e, sobretudo, o que a sua aus\u00eancia impossibilita. A aus\u00eancia do dinheiro \u00e9 a causa de outras m\u00faltiplas aus\u00eancias: de conforto, de tranquilidade, de educa\u00e7\u00e3o, de afeto. A lista continua, talvez, infinitamente. \u201cPor causa do dinheiro teve que sair de casa antes do tempo, recriar no filho de outra o cheiro de sua filha\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alicia \u00e9 neta de Maria, a outra personagem que acompanhamos de maneira mais pr\u00f3xima na prosa de Medel. S\u00e3o duas mulheres que largam, em momentos distintos, a cidade onde vivem e o que as liga \u00e0quele espa\u00e7o. Ambas seguem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 capital espanhola, Madri. Os motivos dos caminhos trilhados pelas duas personagens s\u00e3o m\u00faltiplos e est\u00e3o entre a busca por algo e a fuga de algo. O que procuram e o que deixam para tr\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambas deixam para tr\u00e1s uma pessoa: Carmen, esta que \u00e9 uma filha e \u00e9 uma m\u00e3e. Mar\u00eda busca em Madri uma oportunidade de trabalho, de fazer dinheiro. A parca renda acumulada na jornada de trabalho, al\u00e9m de dar conta de sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia na capital, \u00e9 enviada para a m\u00e3e e o irm\u00e3o que cuidam de Carmen. \u201cA Carmen n\u00e3o sabe quem eu sou e eu n\u00e3o consigo descrev\u00ea-la. Quando me perguntam como \u00e9 o seu rosto, como s\u00e3o seus gestos, conto como \u00e9 o retrato que tenho na mesinha de cabeceira. Minha filha n\u00e3o se mexe, n\u00e3o fala comigo, n\u00e3o sabe quem eu sou. Est\u00e1 presa na fotografia.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os reflexos de uma vida marcada pela aus\u00eancia materna, marcam a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o que Carmen constr\u00f3i futuramente, ent\u00e3o, com a sua pr\u00f3pria filha, Alicia. Ap\u00f3s uma trag\u00e9dia familiar e uma reviravolta financeira, Alicia deixa para tr\u00e1s sua m\u00e3e, na busca por reescrever sua hist\u00f3ria, rompendo os la\u00e7os com o passado. \u201cAlicia achava que Sevilha e M\u00e1laga ficavam muito perto, que a obrigariam a viajar para casa todo fim de semana. Escolheu Madri.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O romance intercala cap\u00edtulos entre passado e presente de Mar\u00eda e Alicia, entre suas vidas em C\u00f3rdoba e em Madri: de 1969 a 2018, de 1975 a 1984 ou de 1998 a 2015, por exemplo. Enquanto constr\u00f3i a trajet\u00f3ria de cada mulher, a autora tamb\u00e9m faz um importante retrato do movimento feminista espanhol ao longo de cinco d\u00e9cadas. Medel exp\u00f5e as condi\u00e7\u00f5es trabalhistas e as rela\u00e7\u00f5es de abuso e de poder, entre mulheres e homens &#8211; de chefes a maridos. Especialmente nos momentos em que acompanhamos Mar\u00eda, vemos uma sens\u00edvel constru\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia pol\u00edtica da personagem, a partir de leituras e do conv\u00edvio com outras mulheres, que se reuniam para tratar de assuntos que pouco importavam aos seus companheiros, \u201cdiv\u00f3rcio, aborto, viol\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 f\u00edsica, mas verbal\u201d. Elena Medel diz, tamb\u00e9m, do silenciamento imposto ao feminino: \u201cQuando Pedro reproduz suas ideias &#8211; n\u00e3o as pr\u00f3prias, mas as que ela compartilha com ele &#8211; na roda de amigos e nota como s\u00e3o recebidas com respeito, Mar\u00eda sente orgulho.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elena Medel constr\u00f3i aqui um pungente romance sobre a emancipa\u00e7\u00e3o feminina, apesar de todos os obst\u00e1culos impostos pelo mundo dos homens e pelo mundo do trabalho, ambos controlados por denominadores comuns: o poder e o dinheiro. \u201cAs maravilhas\u201d se interessa por mulheres que \u201cn\u00e3o se chamam pelo nome, e sim pelo apartamento onde limpam\u201d. Mulheres que, muitas vezes, n\u00e3o conseguem integrar o movimento em defesa de seus direitos porque n\u00e3o podem perder um dia de sal\u00e1rio. \u201cAt\u00e9 para protestar \u00e9 preciso ter dinheiro\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Todavia ao vivo \u2014 Lan\u00e7amento de AS MARAVILHAS (tradu\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/b8PwmDiZXYI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/category\/literatura\/\">Leia sobre outros livros no Scream &amp; Yell<\/a><\/p>\n<p><em>\u2013 Gabriel Pinheiro \u00e9 jornalista. Escreve sobre suas leituras tamb\u00e9m no Instagram:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@tgpgabriel<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cAs maravilhas\u201d se interessa por mulheres que \u201cn\u00e3o se chamam pelo nome, e sim pelo apartamento onde limpam\u201d. 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