{"id":70728,"date":"2022-11-14T00:01:55","date_gmt":"2022-11-14T03:01:55","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=70728"},"modified":"2023-12-01T13:12:23","modified_gmt":"2023-12-01T16:12:23","slug":"entrevista-page-hamilton-num-papo-delicioso-sobre-politica-compasso-6x4-elis-regina-e-claro-helmet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/11\/14\/entrevista-page-hamilton-num-papo-delicioso-sobre-politica-compasso-6x4-elis-regina-e-claro-helmet\/","title":{"rendered":"Entrevista: Page Hamilton num bate papo delicioso sobre pol\u00edtica, fascismo, compasso 6&#215;4, Elis Regina e, claro, Helmet"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a>\u00a0<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCara, como est\u00e3o as coisas a\u00ed? Ouvi falar que t\u00e1 rolando um tumulto, uma rebeli\u00e3o\u201d. Page Hamilton, o homem que criou e comanda o Helmet, inverte a \u201cordem natural\u201d e come\u00e7a a entrevista fazendo uma pergunta ao jornalista. Era 1 de novembro de 2022, o segundo dia das manifesta\u00e7\u00f5es golpistas de caminhoneiros apoiadores de (e apoiador por) milicianos no pa\u00eds, em protesto contra a elei\u00e7\u00e3o leg\u00edtima de Luis In\u00e1cio Lula da Silva como presidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hamilton disse que o dono da head shop que frequenta, um brasileiro, estava \u201cextremamente tenso\u201d com o que acontecia no pa\u00eds naquele momento (e n\u00e3o era o \u00fanico brasileiro assim, claro), ao ponto de recomendar ao m\u00fasico que n\u00e3o viesse para os shows que sua banda tinha. Informado de que o pr\u00f3prio presidente derrotado nas urnas acabava de fazer um pronunciamento onde condenava os atos, Page levantou as m\u00e3os para o alto, perguntou \u201cqual \u00e9 a desse cara, \u00e9 ser uma c\u00f3pia ainda pior de um babaca como o Donald Trump?\u201d e disse que a banda \u201cvai de qualquer jeito\u201d. Um \u00f3timo come\u00e7o de conversa, mas Hamilton queria falar mais \u2013 muito mais!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Animado, e com disposi\u00e7\u00e3o e apar\u00eancia que n\u00e3o deixam entrever seus 62 anos ou os recentes problemas de sa\u00fade, o vocalista passou quase hora falando sobre m\u00fasicas novas, problemas pessoais, apoiar causas, fascismo, trilhas para cinema, David Bowie e outros assuntos, e ainda pegou a guitarra e o viol\u00e3o para mostrar detalhes das pr\u00f3prias composi\u00e7\u00f5es e ilustrar alguns de seus pontos de vista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das bandas mais peculiares do boom de rock pesado dos anos 1990, o Helmet esteve ativo entre 1989 e 1998. Depois de uma dissolu\u00e7\u00e3o tensa, a banda retomou as atividades em 2004, com Hamilton sendo o \u00fanico remanescente da forma\u00e7\u00e3o original \u2013 <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2008\/11\/23\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e chegou a fazer um grande show em S\u00e3o Paulo em 2008<\/a>. A forma\u00e7\u00e3o se estabilizou em 2010, com a entrada do baixista Dave Case, que se juntou a Hamilton, Dan Beeman (guitarra base, na banda desde 2008) e Kyle Stevenson (baterista nas fileiras helmetianas desde 2006). Mas passemos logo \u00e0 entrevista. Lembra que o entrevistado come\u00e7ou falando sobre certa \u201cc\u00f3pia ainda pior de um babaca como Trump\u201d? Ent\u00e3o\u2026<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Helmet - Life or Death\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wDwShhW9Qug?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu n\u00e3o ia perguntar nada do tipo, mas j\u00e1 que voc\u00ea trouxe o assunto \u00e0 tona com tanto interesse, vamos mergulhar nele. Uma pesquisa recente feita com mil pessoas em 12 capitais apontou que o rock \u00e9 ouvido por um p\u00fablico majoritariamente branco, mais velho e de maior poder aquisitivo, e uma das analistas do estudo at\u00e9 fala em uma suposta associa\u00e7\u00e3o entre o classic rock e bolsonaristas. E a gente v\u00ea algumas hist\u00f3rias tragic\u00f4micas, como caras de extrema direita achando que o Rage Against The Machine \u00e9 uma banda alinhada com o pensamento deles, esse tipo de coisa. Claro que isso \u00e9 um recorte de p\u00fablico, e n\u00e3o representa todo mundo. Mas o que voc\u00ea diria para um hipot\u00e9tico f\u00e3 do Helmet que tenha essa ades\u00e3o irrestrita \u00e0 extrema direita?<\/strong><br \/>\nBem, n\u00f3s estamos vindo de uma turn\u00ea com o Clutch pelos EUA e vimos que h\u00e1 uma grande porcentagem de MAGAs \u2013 esse povo do \u201cMake America Great Again\u201d, os apoiadores de Trump \u2013 no p\u00fablico. Eu acho que, quando uma banda fica grande\u2026 N\u00f3s experimentamos isso com o Helmet [quando a banda tinha mais sucesso comercial]: uma vez foi em Long Beach. Eu parei o show, mandei apontar as luzes para o cara e pedi que ele fosse tirado de l\u00e1. O cara que cuidava do meu amp na \u00e9poca chegou e disse pra mim que esse foi um dos momentos de que ele mais tem orgulho na vida, Teve outra vez em Cleveland, Ohio, na qual eu tamb\u00e9m parei o show e mandei ligar as luzes, porque tinha um cara fazendo essa merda (faz a sauda\u00e7\u00e3o nazista). A \u00faltima vez, essa tem uns tr\u00eas ou quatro anos: foi em Hamburgo, na Alemanha. Tinha um garoto, era um molequinho, e o lugar era um lixo total, um pardieiro assustador e maluco. Eu o peguei pelo bra\u00e7o e disse: \u201cei, cara, n\u00e3o \u00e9 assim que a gente agita. Eu amo todo mundo, e voc\u00ea \u00e9 livre para ficar aqui se conseguir coexistir em paz\u201d. A\u00ed ele saiu, e depois voltou, parecendo mais calmo, e ficou na boa o resto do show. O que eu diria para esses caras, e para esse tipo de f\u00e3 que voc\u00ea mencionou, \u00e9: eu n\u00e3o vou te dizer como votar, n\u00e3o vou te dizer no que voc\u00ea tem que acreditar, s\u00f3 vou te dizer que somos todos membros da ra\u00e7a humana. N\u00e3o t\u00f4 nem a\u00ed para suas afilia\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, a religi\u00e3o que voc\u00ea pratica ou a cor da sua pele. A n\u00e3o ser que voc\u00ea machuque mulheres e crian\u00e7as \u2013 ou n\u00e3o machuque PESSOAS, porra \u2013 a gente consegue conversar sobre qualquer coisa\u201d. Tenho certeza que em 99% dos casos vou conseguir mostrar que qualquer que seja a bobagem que essa pessoa est\u00e1 cuspindo, ela est\u00e1 equivocada. Tenho amigos, conhecidos, pessoas com quem trabalho, que s\u00e3o apoiadores do Trump, e quando eles v\u00eam dizendo isso ou aquilo, consigo mostrar para eles que n\u00e3o est\u00e3o falando a verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E isso sem ser proselitista.<\/strong><br \/>\nSim! \u00c9 claro que eu sou muito pol\u00edtico, mas eu n\u00e3o sou um cara t\u00e3o verbal quanto o pessoal do Rage [Against the Machine], e eu at\u00e9 tive essa conversa com o Zack [de la Rocha, vocalista do RATM] h\u00e1 muitos anos. Falamos sobre quando voc\u00ea sobe num palanque para defender uma causa. A n\u00e3o ser quando seja algo que \u00e9 \u00f3bvio, como ser a favor da escolha da mulher\u2026 Porque a\u00ed \u00e9 \u00f3bvio, \u00e9 o direito dela, o corpo dela n\u00e3o \u00e9 seu. Mas quando \u00e9 algo como, digamos, o caso de Leonard Peltier, que era um \u00edndio norte-americano que foi preso por assassinar dois agentes do FBI. Um dos meus amigos mais queridos, um cara que conhe\u00e7o desde os 10 anos de idade, \u00e9 um agente do FBI, hoje aposentado. Isso me fez investigar mais profundamente as informa\u00e7\u00f5es sobre o caso, esse amigo me passou at\u00e9 as transcri\u00e7\u00f5es do tribunal, li tudo que havia a respeito, e n\u00e3o havia nada que me fizesse olhar para o caso e acreditar de cora\u00e7\u00e3o que ele fosse inocente. Ent\u00e3o eu n\u00e3o apoio uma causa dessas (nota: Peltier foi condenado em 1977, dois anos depois do crime, e o processo que levou \u00e0 condena\u00e7\u00e3o foi bastante pol\u00eamico devido \u00e0 inconsist\u00eancias no argumento da promotoria e discrep\u00e2ncias nas evid\u00eancias. Peltier segue preso at\u00e9 hoje, apesar de j\u00e1 ser eleg\u00edvel para liberdade condicional). Deus aben\u00e7oe o Rage Against the Machine, porque eles fazem muitas coisas boas, mas eles apoiaram a causa pela liberta\u00e7\u00e3o de Peltier, que eu n\u00e3o apoiaria. Tudo que voc\u00ea ler, seja de fontes da esquerda ou da direita, voc\u00ea tem que fazer sua pr\u00f3pria investiga\u00e7\u00e3o e entender. Mas n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para fascismo! A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945, caralho! Parem! Parem com isso!\u201d Aqui nos EUA tem essa \u201calt-right\u201d, que quer um pa\u00eds exclusivo para pessoas brancas. E eu fico: (levanta a voz) \u201cesse pa\u00eds nunca foi branco! N\u00f3s roubamos essa terra dos ind\u00edgenas! Tipo, para! Eu sou descendente de imigrantes. Minha fam\u00edlia veio h\u00e1 250 anos da Esc\u00f3cia, o lado materno da fam\u00edlia era gal\u00eas, e o paterno, escoc\u00eas. E a fam\u00edlia do meu pai acabou tendo cherokees, que s\u00e3o a maior tribo ind\u00edgena dos EUA. Tenho bisav\u00f4 que vivia numa reserva ind\u00edgena, ent\u00e3o\u2026 O que Hitler fez na Segunda Guerra Mundial foi terrorismo estoc\u00e1stico: \u201cculpem os judeus\u201d. O que Trump fez foi terrorismo estoc\u00e1stico: \u201cculpem os mexicanos\u201d. Se voc\u00ea mandar os descendentes de mexicanos que nasceram nos EUA de volta ao M\u00e9xico, esse pa\u00eds desmoronaria! \u00c9 absurdo, absolutamente absurdo! Tantos dos avan\u00e7os art\u00edsticos e s\u00f3cio-culturais que aconteceram nos EUA vieram de afro-americanos. T\u00e1 ligado? Nossa m\u00fasica, que mudou o mundo, veio dos afro-americanos. O blues, o rock\u2019n\u2019roll, o jazz, o hip hop\u2026 t\u00e1 ligado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 engra\u00e7ado que, para muitas pessoas que foram adolescentes no come\u00e7o dos anos 90, como eu, parecia que viver\u00edamos em um mundo em que as fronteiras n\u00e3o teriam tanta import\u00e2ncia. O Muro de Berlim tinha ca\u00eddo, a Guerra Fria tinha terminado, houve a forma\u00e7\u00e3o da ent\u00e3o Comunidade Econ\u00f4mica Europeia. Havia esperan\u00e7a de que as coisas seriam diferentes. Em contrapartida, quem ouvia rock nessa \u00e9poca, tinha a impress\u00e3o que os EUA eram o pior lugar do Ocidente para se viver (risos), com bandas como o Bad Religion falando em terraplanistas e fan\u00e1ticos religiosos, quase todo o rap e hip-hop falando do racismo\u2026<\/strong><br \/>\nBom, ainda que eu n\u00e3o suba num palanque e n\u00e3o fale muito em pol\u00edtica, pelo menos n\u00e3o al\u00e9m do que cabe no Helmet, voc\u00ea pega uma can\u00e7\u00e3o como \u201cDriving Nowhere\u201d, que est\u00e1 no [\u00e1lbum] \u201cAftertaste\u201d (de 1997), e tem algumas observa\u00e7\u00f5es pessoais ali de quem nasceu nos EUA e tem pai republicano, m\u00e3e republicana, irm\u00e3o gay que tamb\u00e9m \u00e9 republicano, e irm\u00e3 republicana. Mas na \u00e9poca o conservadorismo tinha mais a ver com quest\u00f5es fiscais, e n\u00e3o sobre fazer um expurgo no pa\u00eds, entende? Trump falava coisas sobre os mexicanos serem traficantes e prostitutas, e outras merdas do tipo, e havia comediantes e comentaristas que diziam que esses coment\u00e1rios acabariam com ele. Mas n\u00e3o, havia pessoas que abra\u00e7avam e acreditavam nisso! Umas 70 milh\u00f5es de pessoas! Quer dizer, \u00e9 gente pra cacete! Ent\u00e3o sim, talvez n\u00e3o f\u00f4ssemos um pa\u00eds assustador, mas nos tornamos! Fomos de 300 milh\u00f5es de armas pr\u00e9-Trump para 400 milh\u00f5es. Ou seja, temos mais armas que cidad\u00e3os nesse pa\u00eds! (nota: a popula\u00e7\u00e3o dos EUA \u00e9 de cerca de 331 milh\u00f5es de pessoas, segundo estimativas de 2021). 400 milh\u00f5es de armas! N\u00e3o h\u00e1 necessidade para n\u00f3s, civis, termos uma AR-15 semiautom\u00e1tica, que \u00e9 arma que destro\u00e7ou crian\u00e7as no massacre de Uvalde, no Texas [em 24 de maio de 2022, onde 19 crian\u00e7as e dois professores foram assassinados]. Elas n\u00e3o puderam ser identificadas! Isso \u00e9 nojento! Eu cresci no sul do Oregon, e eu ca\u00e7ava (nota: a pr\u00e1tica \u00e9 legalizada e normatizada no Estado), ganhei uma espingarda calibre 12 no meu anivers\u00e1rio de 12 anos. Jamais pensei em apont\u00e1-la para um ser humano e, al\u00e9m disso, eu odiava ca\u00e7ar. Mas eu obviamente abriria m\u00e3o do meu direito de portar armas para salvar uma crian\u00e7a, sabe? Quer dizer, veja Sandy Hook, veja Parkland: todos esses tiroteios, s\u00e3o s\u00f3 crian\u00e7as indo para a escola! Elas n\u00e3o est\u00e3o machucando ningu\u00e9m! Temos problemas, sim, mas eles n\u00e3o se resolvem desfigurando o rosto de uma pessoa. Por mais idiota que eu ache que esse pessoal de extrema direita \u00e9, eu gostaria de sentar com eles e dizer que isso \u00e9 insanidade. Eu tenho at\u00e9 olhado umas casas na Espanha (risos), porque eu n\u00e3o sei se quero viver em um pa\u00eds com tantas armas, e tanta gente achando que est\u00e1 tudo bem apont\u00e1-las para outro ser humano, especialmente uma crian\u00e7a. Mas eu tenho f\u00e9 no ser humano, f\u00e9 de que conseguimos fazer a coisa certa. Conhe\u00e7o mais pessoas boas que pessoas m\u00e1s. N\u00f3s ainda somos mais numerosos que ele, mas eles s\u00e3o muito barulhentos e muito vocais. Donald Trump \u00e9 a pior coisa a acontecer a este pa\u00eds durante todo meu tempo de vida. \u00c9 a pior coisa! Ele n\u00e3o tem interesse algum em mim ou em qualquer outra pessoa, ele n\u00e3o tem interesse em fazer valer a constitui\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o tem interesse na democracia ou nos Estados Unidos. \u201cMake America Great Again\u201d significa \u201cvamos ver quanto dinheiro eu posso ganhar com esse pa\u00eds\u201d. Ele tem tantas pr\u00e1ticas de neg\u00f3cios suspeitos, que eu espero que sejam desbaratadas. Parece que ser\u00e3o, felizmente. Ele \u00e9 um ser humano terr\u00edvel, e queria perguntar \u00e0s pessoas que o apoiam \u2013 e muitas s\u00e3o pessoas boas! \u2013 como elas n\u00e3o se d\u00e3o conta que ele n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed para elas. Ele sequer cumprimentaria essas pessoas, o que dizer ajud\u00e1-las em quest\u00f5es fiscais ou pol\u00edticas. Eu estava acompanhando a elei\u00e7\u00e3o brasileira bem de perto, e, como eu disse, eu tenho f\u00e9 no ser humano, talvez essa elei\u00e7\u00e3o seja um sinal. Talvez isso influencie nosso pa\u00eds e n\u00e3o deixe o fascismo e outros merdas como esse [Viktor] \u00d3rban (primeiro-ministro da Hungria) tomarem conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bem, n\u00e3o sei se isso te d\u00e1 mais esperan\u00e7a, mas apesar de ainda ter muitos apoiadores, Bolsonaro teve rejei\u00e7\u00e3o recorde na nossa hist\u00f3ria. Nunca um presidente foi t\u00e3o rejeitado, tampouco derrotado na tentativa de reelei\u00e7\u00e3o. Mas como temos um limite de tempo, vamos falar de m\u00fasica (risos). Os shows do Helmet sempre foram muito intensos, muito mais que os discos. Inclusive voc\u00eas fizeram um show na praia quando vieram aqui pela primeira vez que foi lend\u00e1rio\u2026<\/strong><br \/>\n[empolgado] Em Florian\u00f3polis? Uau, essa \u00e9 uma das melhores mem\u00f3rias da minha vida! (nota: o show aconteceu em 1994, na praia de Canasvieiras, como parte do festival M2000 Summer Concerts, cujo bizarro lineup inclu\u00eda Cidad\u00e3o Quem, Dr. Sin, Anything Box, Deborah Blando, Robin S, Fito P\u00e1ez e o Helmet como headliner). Eu me lembro que me disseram que tinha umas 150 mil pessoas at\u00e9 o fim da praia, uma loucura!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"HELMET   BRAZIL 1994\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hT__YejEp7Y?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o lineup era uma loucura, cheio de tecnopop, dance music de FM e at\u00e9 um popstar argentino\u2026<\/strong><br \/>\nPois \u00e9, eu me lembro que esse argentino\u2026 como era o nome dele mesmo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fito P\u00e1ez.<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o, esse cara. Era quase classic rock. Me lembro dele, tocando com uma Les Paul branca. Eu pensava que, estando na Am\u00e9rica do Sul, o Brasil e a Argentina teriam coisas muito pr\u00f3ximas musicalmente. Porque, voc\u00ea sabe, voc\u00ea pega a nossa grande m\u00fasica, a Motown e o jazz, e a\u00ed pega a grande m\u00fasica brasileira, a bossa nova com \u201cGirl from Ipanema\u201d e todo o sucesso que fez\u2026 Isso nos influenciou! Willie Bobo pegou muita influ\u00eancia disso, Dizzy Gillespie fez umas coisas lindas cruzando o jazz com a m\u00fasica brasileira, e tinha um g\u00eanio como Tom Jobim, com esse vocabul\u00e1rio harm\u00f4nico imenso\u2026 Um dos meus crushes da vida \u00e9 \u2013 n\u00e3o sei se vou pronunciar certo \u2013 Elis Regina. Sei que ela j\u00e1 faleceu faz tempo, o disco dela com o Tom Jobim (\u201cElis &amp; Tom\u201d, de 1974) \u00e9 uma obra-prima (se emociona), \u00e9 incr\u00edvel\u2026 Um arrependimento que eu tenho \u00e9 de quando est\u00e1vamos em SP \u00e0s v\u00e9speras de pegar o v\u00f4o de volta para casa. De manh\u00e3, eu descobri que ia ter um show em algum lugar ao ar livre em que iam tocar Ant\u00f4nio Carlos Jobim, Dorival Caymmi e Chico Buarque. Esses tr\u00eas\u2026 Hm, n\u00e3o sei se eram eles. Chico com certeza. Dorival Caymmi j\u00e1 n\u00e3o tenho essa certeza\u2026 Mas enfim, ficamos todos \u201coh meu Deus! Isso nunca vai acontecer de novo na minha vida!\u201d Eu deveria ter cancelado o v\u00f4o e visto, e agora todos se foram\u2026 Opa, o Chico ainda est\u00e1 vivo, certo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao vivo e na ativa.<\/strong><br \/>\nEle \u00e9 fant\u00e1stico! Quando eu estive a\u00ed, comprei muita m\u00fasica. Ainda era CD na \u00e9poca, e dava para achar muita coisa que n\u00e3o se encontra aqui nos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando aos shows: vi alguns v\u00eddeos de apresenta\u00e7\u00f5es recentes de voc\u00eas, e parece que a energia continua alta. Eu falava dia desses com o editor do Scream &amp; Yell como tem sido dif\u00edcil escrever sobre shows, pois a maioria tem sido muito intensa, como se as pessoas estivessem precisando botar coisas para fora, quase uma catarse, tanto na plateia como no palco. N\u00e3o somos psic\u00f3logos, mas acho que podemos dizer que estamos todos saindo de um trauma coletivo p\u00f3s-pandemia. Voc\u00ea tem observado isso nos shows que voc\u00eas t\u00eam feito?<\/strong><br \/>\nNessa tour [com o Clutch] somos a banda de abertura, e eu nunca tinha sentido uma resposta como a que tivemos enquanto banda de abertura em toda a minha vida. No come\u00e7o pensei que era porque era uma combina\u00e7\u00e3o realmente boa de bandas, mas\u2026 Veja, eu tenho confian\u00e7a na minha banda, em 2019 comemoramos 30 anos de Helmet e fizemos 30 shows com sets de 30 can\u00e7\u00f5es na Europa, e 30 shows com sets de 30 can\u00e7\u00f5es nos EUA tamb\u00e9m. Ent\u00e3o foram 60 shows, dominamos um monte de can\u00e7\u00f5es, a banda est\u00e1 muito, muito entrosada. Eu amo os caras como irm\u00e3os musicais e estamos muito unidos, ent\u00e3o estamos em grande forma. Em Orlando, na Florida, tocamos pouco antes da passagem do furac\u00e3o [em setembro de 2022], e foi intenso! A plateia foi incr\u00edvel! Teve v\u00e1rios shows que se sobressa\u00edram para mim, como os de Charlotte, Toronto, Boston\u2026 Em Nova Iorque, tivemos uma plateia incr\u00edvel, mas o lugar era p\u00e9ssimo. Mas teve um show em Salt Lake City que foi intenso como nunca tinha sido por l\u00e1 (arregala os olhos). A plateia estava junto, sabe? Estavam ali com a gente\u2026 Em Oklahoma City, em Houston\u2026 Bem, ali o p\u00fablico \u00e9 sempre \u00f3timo, mas eles estavam dez vezes mais empolgados! Eu li que, p\u00f3s-pandemia, as pessoas est\u00e3o t\u00e3o prontas para m\u00fasica ao vivo, que quando v\u00eaem uma banda que \u00e9 boa no que faz\u2026 Porque olha, a gente \u00e9 estritamente m\u00fasica, sabe? N\u00e3o tem um \u201cespet\u00e1culo\u201d, eu obviamente tenho um cabelo muito bacana (passa a m\u00e3o na cabe\u00e7a desprovida de fios de cabelo), tocamos s\u00f3 de jeans, t\u00eanis e camiseta\u2026 As pessoas v\u00eam pela m\u00fasica, e ficam animadas demais com ela. Espero que, quando eu estiver a\u00ed, seja assim tamb\u00e9m. Sinto que tr\u00eas anos foram um tempo muito longo para ficar sem fazer turn\u00eas para mim. Eu passei por todo o tipo de quest\u00f5es pessoais e problemas de sa\u00fade, eu acabei sendo internado no hospital porque eu estava s\u00f3 usando muito disso (pega a garrafa de cerveja) e tinha parado de comer, tinha emagrecido a ponto de pesar s\u00f3 63 quilos, tiveram que abrir meu abd\u00f4men e fazer uma cirurgia\u2026 Quer dizer, eu estava um lixo! Eu vinha fazendo turn\u00eas desde 1989 \u2013 1988, se voc\u00ea contar meu tempo no Band of Susans. Ou seja, sempre fez parte da minha vida: tocar ao vivo, fazer um disco, compor para um filme, gravar uma trilhar, tocar em projetos, toquei com David Bowie (na turn\u00ea do \u00e1lbum \u201c&#8230; hours\u201d), toquei com Joe Henry (no \u00e1lbum \u201cTrampoline\u201d). Mas o Helmet \u00e9 uma banda ao vivo, sempre foi, e isso foi tirado de n\u00f3s, de uma hora pra outra. E isso me destruiu. Foi t\u00e3o, t\u00e3o duro pra mim. Tantas pessoas v\u00eam me dizer que viveram tempos dif\u00edceis na pandemia, e eu as entendo, sabe? Porque me pegou. N\u00f3s n\u00e3o somos como o Foo Fighters ou o Metallica, que t\u00eam zilh\u00f5es de d\u00f3lares e podem ir al e ganhar um milh\u00e3o de d\u00f3lares (ri). P\u00f4, a gente toca em clubes! (risos) Podemos ter plateias de 200 pessoas, ou de 1200, saca? Os promotores de shows tamb\u00e9m est\u00e3o tentando ganhar dinheiro, e t\u00eam muitas bandas precisando voltar a tocar, ent\u00e3o eles est\u00e3o tentando encontrar um equil\u00edbrio para ter show para todo mundo. Somos muito gratos por termos conseguido esses shows. Em julho abrimos seis shows da turn\u00ea conjunta do Korn e do Evanescence (nota: na verdade, foi em agosto), e agora tivemos essa turn\u00ea com o Clutch e o Quicksand, e tem essa coisa da Am\u00e9rica Latina a caminho. Ent\u00e3o eu concordo contigo: \u00e9 uma libera\u00e7\u00e3o. As pessoas est\u00e3o prontas para isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>(depois de uma brev\u00edssima pausa para Page pegar outra long neck, retomamos a conversa)<\/strong><br \/>\n<strong>Voltar \u00e0s turn\u00eas ajudou voc\u00ea a se sentir melhor depois de todo esse per\u00edodo pesado?<\/strong><br \/>\nMe sinto \u00f3timo. Fiz a cirurgia em 13 de julho, foram quatro horas com minha barriga aberta, um lance nojento, nem quero entrar em detalhes. Demorei muito para me recuperar, mais do que eu imaginava que seria necess\u00e1rio. Pensei que em poucos dias estaria de volta, mas depois de ficar aberto por quatro horas, todo cheio de pontos, n\u00e3o foi f\u00e1cil voltar a cantar. Certas notas faziam os pontos repuxarem, era doloroso. Mas \u00e9 esquisito, porque quando voltei, a cada show fui ficando melhor, cada vez melhor fisicamente. E me sentindo melhor tamb\u00e9m, mais forte a cada show, tamb\u00e9m emocionalmente. Eu me sinto completamente rejuvenescido. Financeiramente, vai levar uns dois anos para eu me recuperar: eu perdi dois filmes [que faria a trilha sonora], perdi toda a renda de turn\u00eas e de merchandising. Mas meu esp\u00edrito, minha alma musical\u2026 (se emociona) Estou trabalhando nessa pe\u00e7a, escrevendo essa pe\u00e7a para uma escola de Memphis, no Tennessee, que \u00e9 para a orquestra escolar mais antiga do pa\u00eds. Estou trabalhando em novas can\u00e7\u00f5es do Helmet, fiz um show com uns garotos em Nashville, no Tennessee, e foi sensacional. Quer dizer, faz sentido dizer que \u201cvoltei ao normal\u201d? Porque \u00e9 assim que me sinto. Deixa at\u00e9 eu bater na madeira para que continue assim (de fato, ele bate na mesa). Vamos para a Austr\u00e1lia e para a Nova Zel\u00e2ndia no ano que vem, e depois vamos gravar um disco novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E vamos falar desse disco, mas antes eu queria falar de outra coisa. Como voc\u00ea j\u00e1 deixou bem claro, voc\u00ea vai muito al\u00e9m do Helmet, com as trilhas, toda a sua hist\u00f3ria com o jazz e m\u00fasica avant-garde. Enquanto compositor, como s\u00e3o essas atividades para voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nEu obviamente tenho muitos amigos que t\u00eam bandas, e tudo que eles fazem \u00e9 a banda deles. Mas n\u00e3o tem como essa banda ser algo que preenche sete dias da semana deles, 365 dias por ano. Tem aquele per\u00edodo em que voc\u00ea faz um \u00e1lbum, e aquele outro per\u00edodo em que voc\u00ea sai de turn\u00ea. E o que voc\u00ea faz com o resto do tempo? Bem, para mim, uma das raz\u00f5es pela qual o Helmet nunca fica parado musicalmente \u00e9 que eu tenho todas essas outras coisas que me abastecem musicalmente. Eu vou para Nova Iorque no rev\u00e9illon e vou tocar em um pequeno show de jazz na v\u00e9spera do Ano Novo, vou tocar em alguns clubes de jazz em Connecticut e arredores, vou tocar em um show solo em que fa\u00e7o uma coisa mais jazzy misturada com alguma coisa do Helmet, a\u00ed rola uma can\u00e7\u00e3o dos Beatles\u2026 Isso \u00e9 realmente divertido para mim, e tudo que eu pego desses shows, o esp\u00edrito musical deles, \u00e9 isso que abastece o Helmet. E \u00e9 o Helmet que me permitiu fazer todas essas outras coisas. Eu tenho meu diploma de jazz, meu diploma de cl\u00e1ssico, e trabalhei e trabalhei e trabalhei nisso. Quando o Helmet come\u00e7ou a dar certo, digo musicalmente, quando tive a vis\u00e3o do que seria o som, com essa coisa da descida de afina\u00e7\u00e3o, n\u00f3s ganhamos dinheiro e viajamos pelo mundo. Isso abriu portas para mim. Posso tocar jazz, e at\u00e9 tocar num casamento (risos), o que quer que seja. Ent\u00e3o veio o lance dos filmes, porque as pessoas me conheciam do Helmet. Comecei a trabalhar com o grande compositor Elliot Goldenthal, ele me contratou para esse filme \u201cFogo contra Fogo\u201d (1996), com Robert De Niro e Al Pacino, e isso \u00e9 um mundo totalmente diferente. Eu fa\u00e7o uma m\u00e9dia de tr\u00eas filmes por ano. O \u00faltimo foi uma s\u00e9rie para a Netflix austr\u00edaca chamada \u201cTotenfrau\u201d, que \u00e9 uma s\u00e9rie em seis partes realmente intensa, e toquei guitarra em tudo. A trilha \u00e9 do mesmo compositor que fez a trilha para todos os filmes da s\u00e9rie de [tr\u00eas] filmes \u201cA Barraca do Beijo\u201d, que \u00e9 uma com\u00e9dia teen, e eu toco guitarra na trilha dos tr\u00eas tamb\u00e9m. Pro terceiro, o (compositor) Patrick Kirst me ligou quando eu estava dirigindo, e disse: \u201ceu preciso que voc\u00ea cante uma coisa!\u201d. Eu nem tinha comido ainda, mas cheguei em casa, liguei meu est\u00fadio, e ele me mandou uma p\u00e1gina de m\u00fasica, dizendo que eu tinha que cantarolar um vocalise. Era dif\u00edcil cantar no alcance que ele queria, e eu gravei uma oitava abaixo. Mandei pra ele, comi alguma coisa, e a\u00ed ele me ligou de volta dizendo que estava lindo, mas que o diretor queria uma oitava mais alta. Quando voc\u00ea faz um vocalise, voc\u00ea n\u00e3o tem muito apoio do diafragma, mas depois de tr\u00eas takes, consegui o que ele queria e mandei. Ele me disse que as pessoas ao redor ouviam e perguntavam: \u201cmas esse \u00e9 o Page Hamilton?\u201d (largo sorriso) Eu posso cantar bonito, se eu quiser (risos). Se voc\u00ea ouvir a m\u00fasica no final do filme e escutar esse vocalise lindo, esse sou eu. Yeah, o hardcore de Nova Iorque! (risos) Esse tipo de coisa \u00e9 uma del\u00edcia, eu adoro fazer isso! Me sinto sortudo por poder trabalhar em projetos desse tipo. Se eu s\u00f3 tivesse o Helmet, eu n\u00e3o sei. Quer dizer, eu amo o Helmet, mas se isso fosse tudo que eu tivesse musicalmente, n\u00e3o sei se eu ficaria t\u00e3o animado com ele como eu fico.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Helmet - Unsung (Official Music Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jBfygUiS50g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E com o Helmet tendo tantas mudan\u00e7as de lineup ao longo de sua hist\u00f3ria, voc\u00ea sente que ele ainda \u00e9 uma banda, em termos colaborativos, ou \u00e9 o \u201cseu\u201d projeto?<\/strong><br \/>\nOlhando pra \u00e9poca em que John (Stanier, baterista) e Henry (Bogdan, baixista) ainda estavam na banda, eles diriam: \u201c\u00e9 a banda do Page\u201d. Eles foram partes integrais, super importantes para o Helmet, e a banda n\u00e3o soaria a mesma sem eles. Mas\u2026 Eu sou o cantor, eu escrevo as can\u00e7\u00f5es, eu toco guitarra e fa\u00e7o os arranjos, mas eu ainda preciso de grandes m\u00fasicos que entendam o que estou fazendo. Uma pessoa pode ser um grande m\u00fasico tecnicamente e n\u00e3o entender o Helmet, sabe? As pessoas pensam que esse tipo de m\u00fasica \u00e9 simples, e absolutamente n\u00e3o \u00e9. J\u00e1 teve quem viesse at\u00e9 a gente falando que sabe tocar algumas de nossas can\u00e7\u00f5es, e normalmente eles n\u00e3o conseguiam passar da ponte (nota: \u201cponte\u201d \u00e9 como se chama uma se\u00e7\u00e3o contrastante de uma composi\u00e7\u00e3o, quase sempre usada para fazer o retorno ao tema original). Por exemplo, \u201cUnsung\u201d. Voc\u00ea quer tocar com a gente? Ent\u00e3o vamos l\u00e1, vamos tocar \u201cUnsung\u201d. A\u00ed o cara vem e pergunta: como voc\u00ea conta [os tempos]? E eu digo: n\u00e3o conto, eu sinto (cantarola o riff). \u00c9 6&#215;4, o tempo muda, mas eu n\u00e3o quero que pare\u00e7a que o tempo muda, quero que ainda pare\u00e7a igual. Testei diferentes pessoas, toquei com alguns m\u00fasicos bem conhecidos que n\u00e3o conseguiam tocar esse tipo de m\u00fasica. Mas as pessoas que conseguem\u2026 Voc\u00ea precisa ter essa sensibilidade r\u00edtmica, esse soul, esse groove, porque \u00e9 uma m\u00fasica bastante orientada pela levada. Rolou de tantos m\u00fasicos que eu admiro, que eu realmente curto \u2013 como o Dimebag [Darrell] do Pantera, o Jonathan [Davis] do Korn, ou o Chino [Moreno] dos Deftones, que disseram ser influenciados por mim, que disseram \u201csem voc\u00ea, nenhum de n\u00f3s estaria aqui\u201d, sabe? T. M. Stevens, o ex-baixista do Pretenders que j\u00e1 tocou com James Brown e Miles Davis (nota: e que fez um inesquec\u00edvel show para pouqu\u00edssimas pessoas no Teatro do SESI, em S\u00e3o Paulo, em 2010), ele veio no nosso \u00f4nibus um dia falando que ele tinha tocado num \u00e1lbum do Steve Vai que era cheio de coisas meio \u201cHelmetizadas\u201d&#8230; Eu tenho orgulho que esse vocabul\u00e1rio tenha sido inclu\u00eddo como parte do rock, sabe? E esse lineup tem me acompanhado h\u00e1 mais tempo que qualquer outro. Dave Case, que \u00e9 o cara mais \u201cnovo\u201d, est\u00e1 na banda h\u00e1 12 ou 13 anos. Isso \u00e9 mais tempo do que a exist\u00eancia do lineup original! E o Kyle est\u00e1 aguentando minhas xaropices h\u00e1 uns 16 anos, algo assim. Essa forma\u00e7\u00e3o soa incr\u00edvel! Algumas pessoas nunca v\u00e3o aceitar que exista outra forma\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja a original, mas se elas nos ouvirem, v\u00e3o falar \u201cuau, isso \u00e9 animal\u201d. J\u00e1 me disseram isso muitas vezes, que n\u00e3o tinham ideia de que f\u00f4ssemos t\u00e3o bons. Bem, abra a cabe\u00e7a, cara. Eu n\u00e3o vou fazer nada med\u00edocre ou que soe uma merda. Tem todas essas can\u00e7\u00f5es que eu escrevi e das quais tenho orgulho, e quero que elas soem fant\u00e1sticas. Tem uma disciplina envolvida, entende? Voc\u00ea tem que entender o vocabul\u00e1rio. Quando eu toquei com o Bowie, eu me diverti tanto, aprendi 30 can\u00e7\u00f5es em duas semanas e adorei de verdade, ele \u00e9 um dos meus her\u00f3is de toda a vida. Mas eu senti falta do Helmet. Porque nada preenche esse vazio para mim, n\u00e3o h\u00e1 nada parecido com isso. Tocar em filmes, tocar em programas de TV, produzir bandas, fazer jazz, eu adoro tudo isso, mas o Helmet \u00e9 muito, muito importante pra mim, sabe? Eu vou fazer enquanto eu conseguir. Eu posso estar desmoronando, j\u00e1 me abriram a barriga, arrebentei o joelho, j\u00e1 tive uma concuss\u00e3o na cabe\u00e7a, esse tipo de coisa (ri), mas enquanto eu puder subir num palco e tocar, eu vou fazer isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cada \u00e1lbum do Helmet tem sua identidade bem marcada, mas no \u00faltimo, \u201cDead to The World\u201d (2016), tem um certo sentido mel\u00f3dico, algumas sensibilidades pop \u2013 n\u00e3o pop mainstream, claro, mas tem algo mais arejado, que n\u00e3o era muito presente nos anteriores. Quase uma coisa de arena, at\u00e9, em uma ou outra can\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nConforme voc\u00ea melhora como cantor e melhora como compositor, voc\u00ea meio que tenta\u2026 Tipo, uma das can\u00e7\u00f5es que eu mais gosto no disco, \u201cRed Scare\u201d, tem esse lance meio \u201cStrap It On\u201d (\u00e1lbum de estreia do Helmet, de 1990), olha s\u00f3 (Page pega a guitarra e toca o riff). Eu estava descobrindo essa coisa r\u00edtmica, em que voc\u00ea tem [o compasso] 6&#215;4, as baterias s\u00e3o em 4, e eu toco em 3, um lance assim (batuca a frase de bateria). A\u00ed, enquanto est\u00e1 rolando esse ritmo, tem essa outra coisa (cantarola o riff), e fica entre 5&#215;5 e 5&#215;4. (empolgado) Essas s\u00e3o coisas que eu sinto! Como em \u201cLike I Care\u201d (can\u00e7\u00e3o de \u201cAftertaste\u201d) ou mesmo \u201cGive It\u201d (do \u201cMeantime\u201d, 1992), que \u00e9 exatamente o mesmo riff rearranjado ritmicamente (toca o riff). Ent\u00e3o eu estava dando um zoom nisso tudo, porque conforme eu fui me aprofundando nessa descida de afina\u00e7\u00e3o, fui descobrindo toda essa informa\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica, como acordes que ningu\u00e9m tinha usado antes no rock, Afinal, por que usariam? Eles n\u00e3o s\u00e3o nerds de jazz. Ent\u00e3o, em \u201cRed Scare\u201d eu ou\u00e7o essa melodia (toca a linha mel\u00f3dica na guitarra), mas os acordes s\u00e3o esses (toca o riff), e eu canto assim (canta um trecho da can\u00e7\u00e3o). A guitarra \u00e9 muito dissonante, mas eu canto de forma mel\u00f3dica. Porque eu sou um cara do jazz, a ideia \u00e9 fazer algo que tamb\u00e9m pode ser feita na m\u00fasica erudita, que \u00e9 tocar a mesma nota em cima de todos os acordes. Isso \u00e9 algo que rola desde o primeiro dia do Helmet, sabe? (pega o viol\u00e3o e exemplifica). \u00c9 o chamado \u201ccommon tone\u201d. Eu consigo tirar informa\u00e7\u00f5es mel\u00f3dicas disso, digo, eu realmente ou\u00e7o melodia ali. Eu escuto uma progress\u00e3o ou uma melodia, e penso em como posso harmonizar. \u00c9 como em uma pe\u00e7a para orquestra, voc\u00ea tem a melodia em cima e pode tocar qualquer acorde em baixo, dependendo de onde aquele acorde vai. Quanto mais eu experimento e mais eu trabalho em cima de coisas assim, mais meu vocabul\u00e1rio aumenta. Ainda s\u00e3o riffs de m\u00fasica pesada, claro, mas eu n\u00e3o queria ficar na mesma veia, sabe? Quero sempre experimentar com informa\u00e7\u00f5es harm\u00f4nicas e, honestamente, meu canto melhorou tanto depois de cantar em 3 mil shows! Fui melhorando, meu alcance se expandiu, e comecei a aprender o que consigo fazer com minha voz. Eu pensava que n\u00e3o conseguiria cantar certas coisas, em \u2018Unsung\u201d eu desgostava tanto do som da minha voz que dobrei o vocal. Fiz isso inspirado por John Lennon e Ozzy [Osbourne], eles dobram os vocais e s\u00e3o \u00f3timos! Mas enfim, \u201cUnsung\u201d j\u00e1 tinha esse vocal mel\u00f3dico, meio pop. At\u00e9 no \u201cStrap It On\u201d tinha uma coisa ou outra nessa linha, at\u00e9 que eu tive conversa com o Dave Sardy, que coproduziu o \u201cAftertaste\u201d, em que ele me disse que se eu dobrasse todos os vocais mel\u00f3dicos, eu tiraria a emo\u00e7\u00e3o deles. Eu entendi o que ele quis dizer: \u00e0s vezes voc\u00ea s\u00f3 precisa de uma voz, ser mais direto. \u00c9 bem a coisa de continuar a caminhar para a frente, porque eu me deparei com essa coisa linda, mas n\u00e3o quero ficar preso apenas a ela, sabe? Ent\u00e3o eu vou expandindo cada vez mais isso. Eu adoro tocar um lance bem \u201chomem das cavernas\u201d tipo \u201cRude\u201d, do \u201cStrap It On\u201d, mas eu amo tamb\u00e9m tocar algo como \u2018Red Scare\u201d, que \u00e9 super complexa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E isso vai ser algo que vai seguir no pr\u00f3ximo \u00e1lbum?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei o que esperar dele. Eu tenho uns esbo\u00e7os e algumas ideias. Por exemplo, eu escuto a batida de \u201cJive Turkey\u201d, dos Ohio Players, e des\u00e7o uma batida, e penso no que posso fazer com isso. Eu estou tomando notas o tempo todo, e acho que as letras est\u00e3o ficando mais narrativas. No come\u00e7o eu tinha essa coisa de fluxo de consci\u00eancia, eu queria que tudo fosse referido tr\u00eas vezes, tipo, eu estou dizendo algo que faz refer\u00eancia \u00e0 outra coisa e que se refere \u00e0 uma terceira coisa. Ningu\u00e9m sabe que caralho eu estou cantando (risos), e na metade do tempo, nem eu. Eu gosto muito do Frank Black, porque as letras dele s\u00e3o assim: Eu n\u00e3o tenho ideia do que ele est\u00e1 cantando, mas soa do cacete!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Helmet live - Role Model + In Person - The Met - Pawtucket, RI 6\/3\/22\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HiZ5FcJefEI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Animado, e com disposi\u00e7\u00e3o e apar\u00eancia que n\u00e3o deixam entrever seus 62 anos ou os recentes problemas de sa\u00fade, o vocalista passou quase hora falando sobre m\u00fasicas novas, problemas pessoais, apoiar causas, fascismo, trilhas para cinema\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/11\/14\/entrevista-page-hamilton-num-papo-delicioso-sobre-politica-compasso-6x4-elis-regina-e-claro-helmet\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":70729,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[6404],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70728"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70728"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70728\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78350,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70728\/revisions\/78350"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70729"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70728"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70728"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70728"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}