{"id":70504,"date":"2022-11-01T00:04:00","date_gmt":"2022-11-01T03:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=70504"},"modified":"2022-11-30T01:15:28","modified_gmt":"2022-11-30T04:15:28","slug":"entrevista-noah-landis-neurosis-fala-sobre-volta-ao-punk-com-sua-nova-banda-tension-span-e-relembra-inicio-de-carreira-com-o-christ-on-parade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/11\/01\/entrevista-noah-landis-neurosis-fala-sobre-volta-ao-punk-com-sua-nova-banda-tension-span-e-relembra-inicio-de-carreira-com-o-christ-on-parade\/","title":{"rendered":"Entrevista: Noah Landis (Neurosis) fala sobre volta ao punk com sua nova banda Tension Span e relembra in\u00edcio de carreira"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/LuizMazetto1986\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Luiz Mazetto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de mais conhecido do grande p\u00fablico por seu trabalho com a banda de post-metal Neurosis, em que \u00e9 respons\u00e1vel pelos teclados e sintetizadores h\u00e1 mais de 25 anos, Noah Landis sempre teve um p\u00e9 fincado no punk e no hardcore. Essa identifica\u00e7\u00e3o vai desde a influ\u00eancia direta de bandas como The Clash, Subhumans e Flipper em sua forma\u00e7\u00e3o musical at\u00e9 o fato de ter tocado guitarra e cantado na cultuada banda de punk\/hardcore <a href=\"https:\/\/christonparade.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Christ on Parade<\/a>, que lan\u00e7ou dois discos essenciais durante sua curta, por\u00e9m intensa carreira, entre 1985 e 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais recentemente, em meio \u00e0 pandemia de COVID-19, Landis voltou ao punk como m\u00fasico com a sua nova banda Tension Span, formada ao lado de velhos amigos da regi\u00e3o de San Francisco, onde vive at\u00e9 hoje, Matt Parrillo e Geoff Evans. O disco de estreia do trio, intitulado <a href=\"https:\/\/tensionspan.bandcamp.com\/album\/the-future-died-yesterday\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cThe Future Died Yesterday\u201d (Neurot Recordings)<\/a>, traz elementos de punk e post-punk cl\u00e1ssicos do fim dos anos 1970 e in\u00edcio dos anos 1980, mas passa longe de qualquer nostalgia, j\u00e1 que soa extremamente urgente e intenso e conta com letras contundentes de Landis, que poderiam parecer sa\u00eddas de uma obra dist\u00f3pica h\u00e1 alguns anos, mas soam apenas terrivelmente atuais em nosso tempo presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista abaixo, Noah fala sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o do disco, durante o isolamento social imposto pela pandemia, compara o momento atual do mundo com o in\u00edcio dos anos 1980, quando come\u00e7ou no punk, analisa como a sociedade faz com que as pessoas deixem de se importar, relembra seu in\u00edcio na m\u00fasica com o Christ on Parade, e revela quais discos mudaram a sua vida. Confira abaixo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PS: A entrevista foi feita no in\u00edcio de agosto, antes das <a href=\"https:\/\/www.loudmagazine.net\/neurosis-separaram-se-de-scott-kelly-em-2019-e-agora-condenam-a-admissao-de-culpa-do-musico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">revela\u00e7\u00f5es<\/a> do agora ex-vocalista e guitarrista do Neurosis, Scott Kelly, sobre ter cometido abusos contra sua fam\u00edlia, por isso n\u00e3o h\u00e1 perguntas sobre o assunto.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Prologue\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pbCLOpmTZKA?list=OLAK5uy_kcbe6CTqnBDT4rwCyuQD6yYYmVBeNTMvk\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Digo isso como um elogio, mas o disco do Tension Span soa como a trilha-sonora perfeita para esses tempos horr\u00edveis que estamos vivendo, seja com m\u00fasicas mais contemplativas como \u201cFilaments\u201d ou com faixas agressivas como \u201cVentilator\u201d. Concorda com isso? E qual era o sentimento principal entre voc\u00eas quando estavam criando o disco? Nas letras de algumas m\u00fasicas voc\u00ea faz questionamentos e afirma\u00e7\u00f5es como \u201cWhy is it so fucking hard to care?\u201d (\u201cPor que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil se importar?\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre), \u201cNobody Cares, No One Cares\u201d (\u201cNingu\u00e9m se importa, nenhuma pessoa se importa\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre), e \u201cWe\u2019re all taught no to care\u201d (\u201cSomos todos ensinados a n\u00e3o nos importarmos\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre). Esse era um sentimento comum entre voc\u00eas, o fato de uma boa parte das pessoas n\u00e3o se importar mais com as coisas?<\/strong><br \/>\nEssa \u00e9 uma pergunta muito boa. E \u00e9 interessante que voc\u00ea tenha pegado isso como uma linha que permeia algumas das letras, porque esse \u00e9 um sentimento muito antigo e conhecido para n\u00f3s, punks \u201cdas antigas\u201d. N\u00f3s tr\u00eas tocamos em bandas punk obscuras h\u00e1&#8230; eu montei o Christ on Parade em 1985 e eu sou um pouco mais velho do que os outros caras, mas era um tema para a gente naquela \u00e9poca. Se voc\u00ea olhar para algumas das m\u00fasicas importantes que vinham da cena anarcopunk daquela \u00e9poca, nos anos 1980, havia muito desejo para que as pessoas se importassem (risos). Tipo, ver o mundo colapsar \u00e0 sua volta e as pessoas apenas com olhares vagos. Ent\u00e3o \u00e9 um sentimento bastante familiar e \u00e9 triste, mas \u00e9 verdade que esse seja um tema muito, muito relevante hoje em dia. Como voc\u00ea disse, que o disco soe como uma trilha sonora perfeita para toda a disfun\u00e7\u00e3o e o colapso da sociedade que n\u00f3s vemos \u2013 e especialmente nos EUA, cara, em que as pessoas est\u00e3o deliberadamente divididas ao meio e simplesmente apenas se odeiam. Eu nunca vi nada assim. Eu cresci com o Ronald Reagan e nunca imaginei algu\u00e9m como o Donald Trump. N\u00e3o quero ir por esse caminho porque isso me deprime, n\u00e3o quero direcionar a conversa nesta dire\u00e7\u00e3o. Mas acho que h\u00e1 duas coisas, cara. Acho que h\u00e1 algo quintessencial com o qual n\u00f3s nascemos, n\u00f3s nascemos nos importando, e esse sentimento \u00e9 meio que arrancado da gente ao longo das nossas vidas. A m\u00fasica \u201cCracked Society\u201d fala sobre como a sociedade moderna realmente encoraja e recompensa quem deixa de se importar e tornam-se auto-centrados, querendo apenas subir escadas sobre outras pessoas. Eu apenas sempre me senti como as outras pessoas, sabe? Ent\u00e3o obrigado por perceber isso como um tipo de tema recorrente nas letras. Mas honestamente, cara, \u00e9 de partir o cora\u00e7\u00e3o. E uma das \u00fanicas maneiras que eu conhe\u00e7o para lidar com coisas assim \u00e9 escrevendo sobre elas \u2013 e como sou um m\u00fasico, eu escrevo m\u00fasica sobre isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 faz muito tempo que \u00e9 comum falar sobre um futuro dist\u00f3pico nas artes, seja em livros, filmes ou m\u00fasicas. Mas agora parece mais e mais que estamos realmente vivendo num presente dist\u00f3pico, como voc\u00ea fala nas letras de \u201cTrepidation\u201d, em que grita sobre a nossa \u201cDystopian Reality\u201d (\u201cRealidade Dist\u00f3pica\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre). Voltando ao que voc\u00ea falou sobre o Reagan, quando voc\u00ea come\u00e7ou a tocar hardcore nos anos 1980, o mundo estava num momento talvez similar ao atual, com Reagan nos EUA, Margaret Thatcher na Inglaterra, ditaduras por toda a Am\u00e9rica do Sul, a Guerra Fria, etc. Por isso, quero saber se voc\u00ea acha que as coisas est\u00e3o piores agora do que naquela \u00e9poca, com a pandemia, fascistas em todos os lugares, e a economia e a desigualdade atingindo n\u00fameros horr\u00edveis novamente?<\/strong><br \/>\nSim, sem hesitar eu digo que as coisas est\u00e3o piores agora. N\u00e3o sei como foi da \u00faltima vez que voc\u00ea esteve nos EUA. Onde voc\u00ea vive?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu moro em S\u00e3o Paulo. A \u00faltima vez que estive a\u00ed foi em 2019, em Nova York. Ent\u00e3o foi antes da pandemia.<\/strong><br \/>\nO que n\u00f3s temos agora s\u00e3o comunidades gigantes de tendas, de pessoas sem teto. Realmente gigantes. \u00c9 algo que voc\u00ea poderia esperar ver na \u00cdndia, por exemplo. Mas essas s\u00e3o pessoas que tinham vidas, fam\u00edlias, casas e empregos e tudo desmoronou para elas \u2013 e quando uma \u00faltima coisa desaba, voc\u00ea acaba sem uma casa. Esse tipo de estresse e dificuldade pode causar muitos problemas de sa\u00fade mental, com v\u00edcios, e as pessoas apenas meio que caem \u00e0 margem da sociedade e acabam l\u00e1. Ent\u00e3o isso \u00e9 algo realmente gigante que v\u00eam acontecendo nos \u00faltimos cinco anos neste pa\u00eds e n\u00e3o se pode esconder isso. H\u00e1 uma m\u00fasica no disco intitulada \u201cHuman Scrapyard\u201d que fala \u201cPara onde elas devem ir?\u201d. Sei que todos n\u00f3s estamos apenas muito pr\u00f3ximos de algo acontecer e fazermos parte disso, de viver em uma comunidade de tendas. E outra coisa que est\u00e1 muito, muito pior \u00e9 que parece metade do pa\u00eds em que eu vivo decidiu que n\u00e3o quer mais a democracia. Ent\u00e3o eles querem poder apenas jogar fora os votos, escolher o seu tirano e seguir. E todo o resto das pessoas apenas seriam esmagadas pelas rodas do movimento delas. Nunca imaginei que chegar\u00edamos nesses n\u00fameros, sempre tivemos isso, sempre tivemos nacionalistas, racistas declarados na pol\u00edtica, mas era sempre algo \u00e0 margem, era sempre algo como \u201caqueles caras s\u00e3o extremistas\u201d e n\u00f3s \u00e9ramos os extremistas do outro lado. E n\u00f3s nos encontr\u00e1vamos e lut\u00e1vamos contra os skinheads. S\u00f3 que agora isso cresceu para um movimento gigante neste pa\u00eds e \u00e9 algo aterrorizante de verdade. A minha namorada me mostrou um canal do Instagram, se n\u00e3o me engano, que traz apenas v\u00eddeos curtos de nazistas sendo socados na cara e \u00e9 a coisa mais satisfat\u00f3ria que eu j\u00e1 vi, fico apenas descendo a tela (risos). Mas \u00e9 real e est\u00e1 em um n\u00edvel totalmente diferente do que era nos anos 1980, quando era um jovem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aproveitando que estamos falando sobre coisas horr\u00edveis no mundo, gostaria de saber se o processo de criar e trabalhar neste \u00e1lbum te ajudou a navegar por esse per\u00edodo atual? A arte \u00e9 sempre um agente de cura, algo que nos ajuda em momentos dif\u00edceis, a lidar com a sa\u00fade mental. Por isso, queria perguntar se esse disco e a banda tamb\u00e9m foram uma forma para voc\u00ea lidar com tudo que estava e ainda est\u00e1 acontecendo no mundo? Porque algumas letras parecem apontar de maneira muito direta para a pandemia e tudo que veio junto, como, por exemplo, o trecho \u201cAnother day of dread and isolation and the inevitable capitulation\u201d, (\u201cMais um dia de terror e isolamento e a inevit\u00e1vel capitula\u00e7\u00e3o\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre) da m\u00fasica \u201cThe Future Died Yesterday\u201d. O disco e a banda foram uma maneira de lidar com tudo que estava acontecendo?<\/strong><br \/>\nA banda n\u00e3o come\u00e7ou com essa inten\u00e7\u00e3o, mas a m\u00fasica sempre \u00e9 isso para n\u00f3s. E n\u00f3s sempre tivemos diversas bandas e projetos ou tocando com amigos para gravar uma determinada m\u00fasica, apenas para compartilhar com os nossos amigos. Ent\u00e3o \u00e9 algo normal para n\u00f3s usar a m\u00fasica como terapia. Usar a m\u00fasica como uma forma de conversa, comunica\u00e7\u00e3o e express\u00e3o. Isso \u00e9 algo que sempre fizemos, n\u00e3o decidimos fazer isso com esse disco porque a porra do mundo est\u00e1 colapsando e caindo aos peda\u00e7os (risos). Foi literalmente isso, \u201co c\u00e9u est\u00e1 caindo, voc\u00ea n\u00e3o pode sair de casa e respirar o ar\u201d. Dito isso, logo ap\u00f3s eu me juntar aos outros dois caras da banda, que tinham basicamente escrito os esqueletos b\u00e1sicos das m\u00fasicas, em termos musicais, com guitarra, baixo, bateria e sintetizadores&#8230; Muita coisa do disco foi escrita antes de eu entrar para a banda, eles compartilharam comigo porque eles sentiram que o que eles estavam escrevendo, de forma deliberada ou n\u00e3o, estava tocando em algo muito familiar, que era esse punk dark, emocional, das bandas em que n\u00f3s tocamos e as bandas que n\u00f3s am\u00e1vamos nos anos 1980 e 1990. E uma vez que ouvi as m\u00fasicas, eles deixaram tudo muito aberto para mim, tipo \u201cVoc\u00ea pode contribuir da forma que preferir: pode tocar guitarra, baixo, teclado, o que que quiser\u201d. E depois que ouvi, eu pensei \u201cEsse disco \u00e9 \u00f3timo, mas precisa de uma voz. Precisa de algumas palavras que sejam bem pensadas e envolventes para fazer com que se conecte com as pessoas em seus cora\u00e7\u00f5es e mentes\u201d. E ent\u00e3o apenas comecei a escrever enquanto ouvia o disco e foi isso que saiu, cara. A resposta para a sua pergunta \u00e9 que sim, definitivamente o disco foi escrito para expressar a ang\u00fastia e a afli\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m o desgosto e talvez a esperan\u00e7a. Tudo isso surgiu para mim nas m\u00fasicas e ent\u00e3o tamb\u00e9m acabou saindo nas palavras.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-70508\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/TENSION-SPAN-DSF1014-bw-photo-by-Jorin-Bukosky-web-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/TENSION-SPAN-DSF1014-bw-photo-by-Jorin-Bukosky-web-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/TENSION-SPAN-DSF1014-bw-photo-by-Jorin-Bukosky-web-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pelo que entendi, voc\u00eas gravaram o disco separadamente durante o per\u00edodo de isolamento, sem que tenham se encontrado pessoalmente. Essa foi a primeira vez que voc\u00ea gravou inteiramente desta forma, longe dos outros integrantes? E como foi isso pra voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nSim. Bom, come\u00e7ou comigo sentado no sof\u00e1, com fones de ouvido com microfone ligados diretamente no computador, cantando as minhas ideias sozinho com as primeiras vers\u00f5es da mixagem \u2013 e ent\u00e3o as compartilhando com os outros integrantes por e-mail. Mas, na verdade, em um determinado momento n\u00f3s decidimos que ir\u00edamos colocar m\u00e1scaras e ir para um espa\u00e7o de ensaios e colocar um microfone. Assim eu estaria em um espa\u00e7o em que eu sentia que podia realmente ser barulhento e ter uma libera\u00e7\u00e3o pela minha voz e pelas palavras. Ent\u00e3o diria que a maior parte (dos vocais) do que est\u00e1 no disco foi feita desta maneira: em um pequeno computador que tinha as faixas e era apenas eu e um microfone em um armaz\u00e9m que usamos para ensaios. E h\u00e1 algumas faixas das minhas grava\u00e7\u00f5es no meu quarto que acabaram entrando nas m\u00fasicas como uma camada por tr\u00e1s dos vocais ou como um backing vocal, porque elas tinham uma determinada textura porque eram t\u00e3o lo-fi, que n\u00f3s meio que gostamos, ent\u00e3o acabamos usando. Mas \u00e9, essa foi a primeira vez&#8230; quer dizer, eu n\u00e3o sei, acho que foi a primeira vez. Putz, eu tenho 53 anos e toco em bandas punks desde os meus 15 anos de idade. Naquela \u00e9poca em que estava come\u00e7ando, em que estava aprendendo a tocar guitarra e conhecendo amigos que gostariam de fazer isso, tudo era feito em quartos, em por\u00f5es, em garagens. O primeiro espa\u00e7o de ensaio do Neurosis ficava no por\u00e3o da casa da m\u00e3e do Dave Edwardson (baixista e vocalista da banda). Ent\u00e3o n\u00f3s meio que sempre fizemos dessa forma&#8230; E devo dizer que muita da composi\u00e7\u00e3o do Neurosis \u00e9 feita nas madrugadas em nossos espa\u00e7os pessoais, cantando suavemente e compartilhando uns com os outros, ent\u00e3o n\u00e3o foi t\u00e3o diferente. Tudo se resume a fazer o melhor que voc\u00ea pode com o que voc\u00ea tem. E quando fizemos esse disco, t\u00ednhamos um acesso muito limitado e desafiador uns aos outros, ent\u00e3o fizemos o melhor que pod\u00edamos com o que t\u00ednhamos \u2013 mas eventualmente pudemos nos encontrar, a dois metros de dist\u00e2ncia um do outro, para poder cantar de maneira barulhenta na sala (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00eas tiveram a chance de tocar juntos como uma banda?<\/strong><br \/>\nEventualmente n\u00f3s conseguimos. Levou muito tempo&#8230; E vamos fazer isso mais vezes agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Legal. E est\u00e3o planejando fazer shows?<\/strong><br \/>\n\u00c9, isso \u00e9 o que precisamos fazer. Essa foi a primeira vez que a maioria de n\u00f3s escreveu um disco sem ter a ideia de toc\u00e1-lo ao vivo. Ent\u00e3o h\u00e1 mais camadas e faixas do que pessoas. Mas o que vamos fazer \u00e9 entender como fazer isso. Eu precisarei aprender algumas dessas partes e tocar guitarra, baixo ou o que quer que seja necess\u00e1rio para fazer acontecer. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o estou muito preocupado com isso, porque muitas vezes as grava\u00e7\u00f5es dos discos t\u00eam mais coisas do que voc\u00ea v\u00ea a banda tocando ao vivo. Penso no primeiro disco do The Clash, por exemplo, que tem todos os tipos de coisas legais. E ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea filmagens deles tocando e a energia e o poder est\u00e3o l\u00e1. N\u00f3s vamos entender como fazer isso acontecer, esse \u00e9 o nosso trabalho agora, porque as pessoas est\u00e3o animadas com o disco. Aqui mesmo na minha cidade, as pessoas querem que a gente fa\u00e7a shows. Preciso dizer que ainda n\u00e3o estamos exatamente prontos para tocar, mas estamos trabalhando nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como falamos h\u00e1 pouco, al\u00e9m de cantar voc\u00ea tamb\u00e9m escreveu a maior parte das letras do disco. Por isso, queria saber quais as suas influ\u00eancias nesse sentido, de escrever letras? H\u00e1 algum autor ou m\u00fasico que te influencie mais especificamente? Eu sei que voc\u00ea \u00e9 f\u00e3 do Nick Cave, por exemplo, que \u00e9 um autor e tamb\u00e9m escreve as pr\u00f3prias letras.<\/strong><br \/>\nEssa \u00e9 uma \u00f3tima pergunta e fico feliz que algu\u00e9m a tenha feito. Eu nunca realmente falo sobre isso. H\u00e1 muitas influ\u00eancias, voc\u00ea tem pessoas como o Nick Cave e o Leonard Cohen, cujas letras realmente me impactam de maneira profunda. Acho que quando era jovem uma das primeiras bandas punks com a qual fiquei obcecado foi o Subhumans. E a maneira como o Dick Lucas (vocalista da banda) escreve realmente me influenciou, ele \u00e9 muito sincero e as mensagens dele s\u00e3o muito diretas e claras. Mas ele tamb\u00e9m \u00e9, em ingl\u00eas n\u00f3s chamamos de \u201cwordsmith\u201d, o que significa que ele tem jogos de palavras nas letras que s\u00e3o espertos e legais. E isso sempre me pegou porque ativou a minha mente de alguma maneira, e acho que peguei uma parte disso como influ\u00eancia na minha primeira banda, Christ on Parade \u2013 eu fui muito influenciado pelo Dick Lucas e pelo Subhumans.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se eu vou ser honesto com voc\u00ea, outro&#8230; quer dizer, eu sempre vou ser sincero com voc\u00ea. Mas outro letrista que sempre achei muito poderoso \u00e9 o Roger Water, do Pink Floyd (risos). E muito disso tem a ver com o \u201cThe Wall\u201d (1980) e o conceito por tr\u00e1s do disco, a ideia da crise de identidade, e uma pessoa meio que se fechando porque a vida, a sociedade e as emo\u00e7\u00f5es eram uma tempestade enorme acontecendo na mente dessa pessoa que ela se torna disfuncional. E como isso \u00e9 colocado de uma forma po\u00e9tica e art\u00edstica nas letras, acho que isso realmente ficou comigo \u2013 e as coisas iniciais da banda tamb\u00e9m. Acho que nunca disse isso antes em voz alta numa entrevista, ent\u00e3o \u00e9 isso a\u00ed. Ent\u00e3o o Dick Lucas e o Roger Waters (risos).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Flipper - Live @ Channel 25 Studios, San Francisco, CA, 1\/26\/83\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RCfWy7OQZ8w?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea mencionou o The Clash, o Subhumans e agora o Roger Waters, todos artistas ingleses. Como voc\u00ea \u00e9 da Bay Area, na Calif\u00f3rnia, queria saber se as bandas punks da regi\u00e3o, como The Dicks, Dead Kennedys e Avengers, entre outras, influenciaram a sua forma de abordar a m\u00fasica, n\u00e3o s\u00f3 em termos de som, mas tamb\u00e9m em atitude.<\/strong><br \/>\nSim, todas elas (influenciaram). Eu era um jovem punk, comecei cedo, aos 12 ou 13 anos de idade, no in\u00edcio dos anos 1980. Eu estava t\u00e3o faminto e sedento por tudo que eu era como uma esponja: apenas ia e absorvia tudo de toda banda que pudesse ver. E o Dave Edwardson esteve comigo desde que nos conhecemos, no primeiro dia do Ensino M\u00e9dio. N\u00f3s \u00edamos a todos shows de punk que pod\u00edamos encontrar, e voc\u00ea tinha muitos porque San Francisco era logo ali do lado. O On Broadway, o Mabuhay Gardens, muitos espa\u00e7os em armaz\u00e9ns e galp\u00f5es que duravam pouco tempo, em partes muito ruins da cidade, muitos drogados e junkies e muitas bandas que vieram dos cantos obscuros do mundo em que viv\u00edamos, daquela cena. Acho que as coisas nunca mais ser\u00e3o daquele jeito. Dessas bandas (locais), deixe-me dizer para voc\u00ea quais eram as mais importantes para mim. O Flipper, eles eram uma banda de Berkeley, n\u00f3s frequent\u00e1vamos a Berkeley High School. Era uma cena menor do que a de San Francisco, mas era intensa. Porque Berkeley era realmente conhecida pelo movimento hippie. Ent\u00e3o quando \u00e9ramos jovens voc\u00ea tinha esses f\u00e3s do Grateful Dead o tempo todo, e foi por isso que nos tornamos punks, para ser algo muito diferente daquilo. O Flipper foi a primeira banda que me lembro, que eu entendia como anti-m\u00fasica, m\u00fasica que era dif\u00edcil e talvez injusta com quem est\u00e1 ouvindo porque h\u00e1 tanto barulho e coisas desconexas acontecendo. Mas eles tamb\u00e9m tinham um groove e riffs repetidos que pareciam um transe, em que voc\u00ea podia definitivamente se perder. N\u00e3o era algo t\u00e3o abrasivo e desarticulado como outras bandas, voc\u00ea pode pensar em bandas mais experimentais como Throbbing Ghristle e Coil, por exemplo, que tamb\u00e9m eram coisas muito intensas e que eu definitivamente tinha muito interesse em escutar. Mas poder ver o Flipper muitas vezes foi algo que, at\u00e9 hoje, me deixa um lugar quente no cora\u00e7\u00e3o por esse tipo de arte que eles faziam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra das minhas grandes favoritas era o Crucifix. Essa banda sempre foi muito pr\u00f3xima e importante ao que eu respondia emocionalmente. As m\u00fasicas deles me acordaram por dentro e fizeram eu me sentir exatamente como eu me sentia aos 15 anos. Deixa-me pensar&#8230; Os Avengers, na verdade, eram um pouco mais velhos do que eu. Ent\u00e3o pude v\u00ea-los, mas foi em um outro momento da carreira deles, n\u00e3o foi naquele primeiro momento fant\u00e1stico em que eles chegaram \u00e0 cena, eu era muito jovem nessa \u00e9poca. \u00c9 engra\u00e7ado porque eu sempre sinto que perdi muitas coisas, como se eu tivesse nascido tarde demais (risos). Mas depois de muitos anos estando em bandas, desde o in\u00edcio dos anos 1980 at\u00e9 a abertura do Gilman Street em Berkeley, o Christ on Parade fez o seu primeiro show l\u00e1 (no Gilman), todas essas coisas. Eu pude ver uma cena como um participante por muitos e muitos anos. E sempre senti que perdi muita coisa, mas est\u00e1 tudo bem. Porque os anos passam e aquele pequeno peda\u00e7o que voc\u00ea perdeu na verdade \u00e9 muito pequeno. Mas eu n\u00e3o vi os Pistols nem os Ramones, ent\u00e3o&#8230;(risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o \u00e9, havia bandas locais importantes. Outra banda da regi\u00e3o da Bay Area era o Social Unrest. Muitas dessas bandas faziam parte da primeira fase da Maximum Rocknroll (ic\u00f4nico fanzine punk), daquela compila\u00e7\u00e3o \u201cNot So Quiet on The Western Front\u201d (1982). Essa era uma grande reuni\u00e3o de bandas e tinha realmente muitas das bandas que eu e meus amigos, como o Dave Edwardson, est\u00e1vamos ouvindo naquela \u00e9poca. Ah, tamb\u00e9m vale muito tamb\u00e9m mencionar as bandas de \u201cpeace punk\u201d que existiam em San Francisco na \u00e9poca. Eu provavelmente seria repreendido por cham\u00e1-los de uma banda de peace punk, porque eles n\u00e3o gostavam de ser rotulados, eles eram muito s\u00e9rios e art\u00edsticos. Mas tinha uma banda chamada Trial \u2013 depois surgiu uma banda de hardcore com o mesmo nome, mas essa era uma banda de peace punk de Berkeley. Eles s\u00f3 tiveram alguns lan\u00e7amentos, mas eles eram realmente uma das minhas favoritas. Tinham letras muito obscuras, um som quase industrial, meio death rock, mas sem as fantasias. Havia meio que um sentimento de depress\u00e3o, mas tamb\u00e9m era muito bonito e r\u00edtmico. Tamb\u00e9m tinha uma banda chamada Atrocity. E havia irm\u00e3os em todas essas bandas, que eram da fam\u00edlia Borruso. Ent\u00e3o o John Borruso era o vocalista do Trial, sempre o admirei como um grande artista e um grande letrista, apenas por ter uma vis\u00e3o para a banda. Ele tinha uma irm\u00e3 chamada Sarah Borruso, que era vocalista do Atrocity. Isso vai ser meio dif\u00edcil para voc\u00ea encontrar, \u00e9 algo bem escondido nos registros da hist\u00f3ria. E ent\u00e3o se voc\u00ea for olhar a forma\u00e7\u00e3o do Crucifix, eles tinham um guitarrista chamado Matt Borruso. Ent\u00e3o esses tr\u00eas, que eram muito jovens na \u00e9poca, eram incrivelmente criativos. N\u00e3o sei se o que era, se era algo que vinha de fam\u00edlia (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sempre gosto de fazer essa pergunta. Por favor, me diga tr\u00eas discos que mudaram a sua vida e por que eles fizeram isso.<\/strong><br \/>\nOk, o primeiro que vem \u00e0 minha cabe\u00e7a, at\u00e9 porque esse \u00e9 o tipo de pergunta em que voc\u00ea n\u00e3o quer pensar demais, \u00e9 o \u201cAxis: Bold as Love\u201d (1967), do Jimi Hendrix. Acho que esse \u00e9 o \u00e1pice criativo dele. Nessa idade, entre os meus 13 e 14 anos de idade, eu estava experimentando muitas coisas que alteravam a mente \u2013 e obviamente ele (Jimi) tamb\u00e9m estava experimentando muitas coisas que alteravam a mente \u2013 e esse disco abriu totalmente uma nova janela quanto a novas formas de ver as coisas, de imaginar e de criar. Foi um disco muito importante para mim. No decorrer da minha vida passei muito tempo lendo livros sobre ele, lendo sobre as grava\u00e7\u00f5es, sobre o engenheiro de som do \u00e1lbum, porque sou fascinado por essas coisas. Ent\u00e3o esse \u00e9 um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo disco que me vem \u00e0 cabe\u00e7a \u00e9 o \u201cFrom the Cradle to the Grave\u201d (1983), do Subhumans. O lado B inteiro desse \u00e1lbum \u00e9 composto por uma m\u00fasica, a faixa-t\u00edtulo. Essa m\u00fasica \u00e9 uma realiza\u00e7\u00e3o em termos de composi\u00e7\u00e3o, como letrista e como vocalista. Para mim, \u00e9 como uma soma perfeita de tudo pelo que eu acreditava no punk. Para mim, o punk estava resumido nessa m\u00fasica, que era algo como \u201cNascido em um mundo de aliena\u00e7\u00e3o e lavagem cerebral\u201d. Mais uma vez, \u00e9 um tema recorrente, mas \u00e9 o quanto essa realidade \u00e9 desoladora. \u00c9 algo como \u201cVamos chamar as coisas como elas s\u00e3o, vamos falar a verdade para o poder, vamos tentar&#8230;\u201d. Deixe-me pensar em como dizer isso. \u00c9 uma dualidade: \u00e9 desolador e empoderador \u2013 \u00e9 as duas coisas. Sinto que esse disco expressa isso de uma maneira que \u00e9 muito poderosa para mim. Lembro de pensar \u201c\u00c9 isso, essa \u00e9 meio que a m\u00fasica definitiva. Eles conseguiram faz\u00ea-la\u201d. E muitas das m\u00fasicas do Tension Span meio que seguem pelo mesmo canal, em uma mesma linha. \u00c9 engra\u00e7ado porque acabei de pensar na semelhan\u00e7a entre o t\u00edtulo do disco do Tension Span, \u201cThe Future Died Yesterday\u201d, e \u201cThe Day the Country Died\u201d (1983), do Subhumans.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bom, de qualquer forma, o n\u00famero tr\u00eas&#8230; deixe-me pensar nesse por um segundo. Porque n\u00e3o tenho outra chance, s\u00f3 tenho mais um n\u00famero para preencher. O que \u00e9 dif\u00edcil, meu amigo, \u00e9 que a m\u00fasica \u00e9 t\u00e3o vasta e ilimitada, e sou um f\u00e3 e um estudante h\u00e1 tanto tempo, a minha vida toda&#8230; Ent\u00e3o poderia te dizer meu disco favorito do Johnny Cash ou meu disco favorito do Stevie Wonder. Acho que, se fizer sentido manter as coisas no mundo do punk, eu colocaria o \u201cLondon Calling\u201d (1979), do The Clash, nesta lista. Vou fazer isso, apenas para a entrevista n\u00e3o ficar presa nesse peda\u00e7o enquanto eu fico tentando apontar algo. H\u00e1 muita criatividade nesse \u00e1lbum. Para mim, o que \u00e9 mais importante em todo tipo de m\u00fasica \u00e9 pensar \u201cVoc\u00ea acredita? Voc\u00ea acredita quando escuta? Voc\u00ea acredita na pessoa tocando? Voc\u00ea acredita na pessoa cantando? Eles est\u00e3o tentando ser de uma determinada maneira ou est\u00e3o tentando fazer voc\u00ea acreditar que eles s\u00e3o de uma determinada maneira?\u201d Uma vez que voc\u00ea est\u00e1 tentando, ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o acredita. Penso que somos todos muito sofisticados como ouvintes e temos um bom senso sobre o que \u00e9 besteira ou n\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"subhumans-from the cradle to the grave\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jy5FMfTqf5k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa \u00e9 a \u00faltima pergunta. Voc\u00ea toca\/ tocou em bandas cultuadas, j\u00e1 fez turn\u00eas pelo mundo e est\u00e1 lan\u00e7ando um disco muito legal com alguns velhos amigos. Por isso, gostaria de perguntar do que voc\u00ea tem mais orgulho na sua carreira?<\/strong><br \/>\nBom, primeiro deixe-me dizer que eu tendo a n\u00e3o pensar muito nesses tipos de palavras. Essa \u00e9 a raz\u00e3o para isso: eu conheci muita gente que esteve em bandas quando eram jovens, e uma banda tem um determinado tempo de vida e depois acaba, e depois elas acabam virando cap\u00edtulos das vidas dessas pessoas, que muitas vezes ficam sempre olhando de volta para esse momento de juventude, poder e energia que elas tiveram e que n\u00e3o podem ter de novo. Sempre tomei uma decis\u00e3o muito deliberada de n\u00e3o olhar para a minha vida dessa maneira. Por isso, n\u00e3o olho para tr\u00e1s e penso \u201cH\u00e1 esse momento do qual tenho mais orgulho e que eu gostaria de capturar novamente com cada banda nova, com cada disco novo\u201d. N\u00e3o penso nisso dessa maneira. Mas tamb\u00e9m posso dizer que tenho orgulho de tudo. O fato de a minha primeira banda, quando eu era t\u00e3o jovem e com tanto entusiasmo na minha cabe\u00e7a, no meu cora\u00e7\u00e3o e na minha energia com a m\u00fasica, com o punk e com o ativismo, posso dizer que tenho muito orgulho pelo fato de as pessoas ainda verem o Christ on Parade como uma banda especial. Porque havia tantas bandas naquela \u00e9poca, todo mundo que eu conhecia tinha uma banda \u2013 at\u00e9 os irm\u00e3os e as irm\u00e3s dos meus amigos tinham bandas, e todos estavam fazendo shows. O fato de o Christ on Parade de alguma forma ter capturado o raio em uma garrafa de uma maneira que afetou as pessoas e que at\u00e9 hoje elas v\u00eam falar comigo sobre o quanto a banda foi importante e especial em suas vidas. Acho que sempre vou ficar um pouco satisfeito e orgulhoso que eu fiz algo certo. Porque quando eu estava falando antes sobre tocar m\u00fasica em que voc\u00ea acredita, as pessoas sabem quando voc\u00ea acredita. E eu fiz algo que era puro, verdadeiro e poderoso, de uma maneira que as pessoas acharam que era especial o bastante para lembrar e ainda apreciar tantos anos depois. Dito isso, a maior parte da minha vida, quase 30 anos, tem sido tocar com o Neurosis. E quando o Christ on Parade acabou e o Neurosis estava buscando incorporar teclados, samples e texturas, e eles me trouxeram para fazer tudo isso, esse foi o meu segundo foguete para express\u00e3o e criatividade. E eu diria que estimo mais isso do que tudo que j\u00e1 fiz, a m\u00fasica que fa\u00e7o com o Neurosis. Acho que olhando para tr\u00e1s tenho alguns discos favoritos, mas todos eles s\u00e3o especiais para mim. Nenhum \u00e9 igual ao outro, isso \u00e9 algo que sempre nos comprometemos, a n\u00e3o escrever o mesmo disco duas vezes, como algumas bandas fazem \u2013 e bandas que eu amo, como Mot\u00f6rhead, AC\/DC e at\u00e9 mesmo Slayer. E tudo bem, n\u00e3o h\u00e1 problema com isso, fico feliz em escutar todos os discos deles, mas escolhemos um caminho diferente, que era n\u00e3o escrever o mesmo disco duas vezes. E tenho orgulho de como conseguimos fazer isso, porque nos permitiu cruzar fronteiras para territ\u00f3rios de sons que ainda n\u00e3o conhec\u00edamos, para tentar ver que tipo de arte n\u00f3s conseguimos criar. No fim das contas, e isso pode se conectar com o Tension Span tamb\u00e9m, acho que o que estamos tentando fazer aqui \u00e9 fazer algo que importa em um mundo que talvez n\u00e3o importe. Quer dizer, quem sabe para onde essa porra de mundo est\u00e1 indo? Ent\u00e3o n\u00f3s podemos pegar todas as nossas experi\u00eancias e pensamentos profundos e canalizar isso em algo que, quem sabe, seja especial de alguma maneira porque diz algum tipo de verdade. \u00c9 isso que estamos fazendo. Com o Neurosis, \u00e9 uma verdade que voc\u00ea sente&#8230;quer dizer, algumas pessoas analisam as letras, com certeza, mas \u00e9 meio que uma percep\u00e7\u00e3o mais po\u00e9tica do sentimento. E de algumas maneiras pode ser um canal mais poderoso para esses pensamentos chegarem \u00e0s pessoas do que, digamos, as minhas letras no Tension Span ou no Christ on Parade. Mas tudo isso tem o mesmo objetivo final, que \u00e9 apenas se conectar com as pessoas. Quero me conectar com as pessoas da maneira como as pessoas que eu amo se conectam comigo, da maneira que me sinto quando leio as letras do Nick Cave ou escuto Rudimentary Peni. Para terminar, acho que talvez trocaria a minha terceira resposta na pergunta anterior pelo \u201cDeath Church\u201d (1983), do Rudimentary Peni. Porque esse disco apenas me faz sentir tudo quando o escuto: faz eu me sentir feliz e triste ao mesmo tempo (risos). \u00c9 apenas algo verdadeiro e puro. E \u00e9 isso que eu quero fazer. Quero expressar coisas que s\u00e3o verdadeiras e puras, com as quais as pessoas possam se conectar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Christ On Parade - Live \/\/ Tribal Area\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2pQMq9uKPr8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013&nbsp;&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/LuizMazetto1986\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Luiz Mazetto<\/a>&nbsp;\u00e9 autor dos livros \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Somos-Tempestade-Conversas-Sobre-Alternativo\/dp\/8562885339\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">N\u00f3s Somos a Tempestade \u2013 Conversas Sobre o Metal Alternativo dos EUA<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Somos-Tempestade-Conversas-Sobre-Alternativo\/dp\/8562885649\/ref=pd_lpo_14_t_0\/145-6204651-9007215?_encoding=UTF8&amp;pd_rd_i=8562885649&amp;pd_rd_r=0e02080e-01a3-422c-9e95-933a79ef9d17&amp;pd_rd_w=qJ5vJ&amp;pd_rd_wg=0obt1&amp;pf_rd_p=6102dabe-0e19-4db6-8e11-875a53ad30be&amp;pf_rd_r=K14PYCR8ZPPETTCCKYMH&amp;psc=1&amp;refRID=K14PYCR8ZPPETTCCKYMH\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">N\u00f3s Somos a Tempestade, Vol 2 \u2013 Conversas Sobre o Metal Alternativo pelo Mundo<\/a>\u201d, ambos pela Edi\u00e7\u00f5es Ideal. Tamb\u00e9m colabora coma a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.vice.com\/pt_br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Vice Brasil<\/a>, o&nbsp;<a href=\"https:\/\/cvltnation.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">CVLT Nation<\/a>&nbsp;e a&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.loudmagazine.net\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Loud!<\/a><\/em>&nbsp;<em>As fotos presentes no texto s\u00e3o de Jorin Bukosky.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"M\u00fasico norte-americano explica processo de cria\u00e7\u00e3o de \u201cThe Future Died Yesterday\u201d, disco de estreia da sua nova banda, que soa como a trilha perfeita para os tempos horr\u00edveis atuais.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/11\/01\/entrevista-noah-landis-neurosis-fala-sobre-volta-ao-punk-com-sua-nova-banda-tension-span-e-relembra-inicio-de-carreira-com-o-christ-on-parade\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":88,"featured_media":70507,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[6400,2436,6401],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70504"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/88"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70504"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70504\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":70511,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70504\/revisions\/70511"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70507"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70504"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70504"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70504"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}