{"id":70460,"date":"2022-10-28T13:52:36","date_gmt":"2022-10-28T16:52:36","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=70460"},"modified":"2023-02-13T09:25:32","modified_gmt":"2023-02-13T12:25:32","slug":"entrevista-vestido-de-amor-chico-cesar-defende-a-raiva-e-fala-sobre-representatividade-bolsominions-e-o-novo-disco-gravado-na-franca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/10\/28\/entrevista-vestido-de-amor-chico-cesar-defende-a-raiva-e-fala-sobre-representatividade-bolsominions-e-o-novo-disco-gravado-na-franca\/","title":{"rendered":"Entrevista: Vestido de amor, Chico C\u00e9sar defende a raiva e fala de representatividade, bolsominions e o disco gravado na Fran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com carreira iniciada nos anos 90, <a href=\"https:\/\/chicocesar.com.br\/vestido-de-amor-album\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Chico C\u00e9sar<\/a> foi conquistando, de maneira gradual, o seu lugar ao lado dos grandes \u00edcones da MPB. O sucesso do \u00e1lbum \u201cCuscuz Cl\u00e3\u201d (1996), impulsionado pelos mega hits autorais \u201cMama \u00c1frica\u201d e &#8220;\u00c0 Primeira Vista&#8221;, fez com que sua carreira decolasse \u00e0 n\u00edvel nacional \u2013 \u201cMama \u00c1frica\u201d reverbera at\u00e9 hoje em virtude de sua atemporalidade ao tratar de quest\u00f5es ligadas as agruras da maternidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De l\u00e1 para c\u00e1, Chico firmou parcerias bem-sucedidas, lan\u00e7ou outros discos de sucesso e correu o mundo, levando sua poesia que versa tanto sobre a import\u00e2ncia do amor, em suas mais variadas facetas, como tamb\u00e9m sobre a pol\u00edtica, adotando um discurso afrontoso a ordem capitalista e ao reacionarismo. Musicalmente, ele segue combinando sonoridades de matriz africana com rock, m\u00fasica eletr\u00f4nica, forr\u00f3, reggae e o que mais lhe inspirar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos, o m\u00fasico tem estado atarefado conciliando uma turn\u00ea ao lado de Geraldo Azevedo com novos trabalhos de est\u00fadio \u2013 em 2022 foram dois, \u201cO Canto de Macab\u00e9a ou A Hora da Estrela\u201d (em parceria com Laila Garin) e \u201c<a href=\"https:\/\/chicocesar.com.br\/vestido-de-amor-album\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vestido de Amor<\/a>\u201d. O \u00faltimo foi gravado e produzido na Fran\u00e7a por Jean Lamoot (Mano Negra) e conta com as participa\u00e7\u00f5es de Salif Keita e Ray Lema, \u00edcones da m\u00fasica africana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEsse disco celebra meu encontro, admira\u00e7\u00e3o e gratid\u00e3o pelo que a \u00c1frica me d\u00e1 e me faz ser. Como esse projeto foi feito na Fran\u00e7a com m\u00fasicos que trabalham com essas matrizes africanas, isso fica muito transparente e fico feliz que apare\u00e7a dessa forma.\u201d, resume Chico C\u00e9sar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conversa abaixo, Chico Cesar fala sobre a import\u00e2ncia de propagar o amor em tempos de \u00f3dio, conta sobre sua forma\u00e7\u00e3o musical e reflete sobre a profiss\u00e3o jornalista na atualidade. Fala ainda sobre o processo de grava\u00e7\u00e3o do novo disco, participa\u00e7\u00f5es especiais, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtico\/social do Brasil contempor\u00e2neo, o fato de sua m\u00fasica chegar a p\u00fablicos diversos, o legado de \u201cMama \u00c1frica\u201d na m\u00fasica brasileira, planos futuros e muito mais. Leia abaixo!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Flor de Figo\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LmOcoP1bbs8?list=OLAK5uy_lQoFAWEvNhFXRa1yHY2D9mZyrp-A2vnJU\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Vestido de Amor&#8221; \u00e9 um disco em voc\u00ea celebra o amor em suas mais variadas inst\u00e2ncias e soa como uma continua\u00e7\u00e3o natural do seu trabalho anterior: &#8220;O Amor \u00e9 Um Ato Revolucion\u00e1rio&#8221; (2019). Mas, em contraponto, o mundo segue ardendo em discursos de \u00f3dio. Se a arte \u00e9 a cura, qual a import\u00e2ncia de propagar essa mensagem atrav\u00e9s da m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nEu acho que todos n\u00f3s temos o direito a raiva. \u00c9 importante que os oprimidos possam expressar sua raiva. Eu pessoalmente n\u00e3o me lembro de j\u00e1 ter dito que arte \u00e9 cura. Escuto muito isso por a\u00ed. Mas acho que a arte est\u00e1 mais perto da loucura do que da cura. Acho que a arte tem mais a ver com aceita\u00e7\u00e3o da diversidade das m\u00faltiplas formas de ser no mundo. Quem cura mesmo \u00e9 a ci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Musicalmente o \u00e1lbum tem uma sonoridade diversificada, indo do forr\u00f3 ao reggae, passado pelo rock, ritmos latinos e de matriz africana. Essa marca, ali\u00e1s, voc\u00ea traz em sua carreira desde a sua g\u00eanese. Nesse sentido, como se deu a sua forma\u00e7\u00e3o musical e de que maneira ela direcionou \/ interferiu o seu fazer art\u00edstico?<\/strong><br \/>\nPenso que minha forma\u00e7\u00e3o musical come\u00e7a comigo escutando os aboios e os cantos de reisado do meu pai e a minha m\u00e3e cantando os hinos da igreja cat\u00f3lica. Come\u00e7a bem a\u00ed. A\u00ed depois a\u00ed vem as bandas de p\u00edfanos, as chamadas bandas caba\u00e7ais, passando na porta de casa. Os improvisadores com viola ou com pandeiro. Os repentistas nas feiras. E depois eu trabalhei dos oito aos quinze anos numa loja de discos. A\u00ed sim tinha tudo, n\u00e9? Tinha desde a banda de p\u00edfanos de Caruaru at\u00e9 Kraftwerk, grupo de rock industrial alem\u00e3o, que hoje \u00e9 conhecido como m\u00fasica eletr\u00f4nica, mas naquele tempo (os anos setenta) chamava-se rock industrial. No meio disso tudo tinha Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Beatles, Queen, Luiz Melodia&#8230; um pouco de tudo. Tinha tamb\u00e9m discos de Ray Conniff, que era uma m\u00fasica orquestral. Acho que \u00e9 da\u00ed que vem essa diversidade que o meu trabalho abra\u00e7a. Tem a ver com a minha escuta, que era uma escuta que abra\u00e7ou bastante coisa ainda bem jovem. A minha segunda inf\u00e2ncia foi toda a\u00ed, ou seja, dos sete aos quatorze, entrando na adolesc\u00eancia at\u00e9 os quinze foram oito anos de trabalho nesse lugar e foi fundamental pra mim porque era loja de discos e tamb\u00e9m de livros. Eu li muito nessa fase da minha vida. Livros did\u00e1ticos, mas tamb\u00e9m literatura latino-americana, literatura brasileira pra caramba, literatura nordestina. Um pouco de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Guimar\u00e3es Rosa entre outras coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea \u00e9 tamb\u00e9m formado em jornalismo, fator esse que, confesso, somente soube ao me preparar para essa entrevista. Sabendo disso, queria sua opini\u00e3o sobre a profiss\u00e3o hoje e, em especial, a ala cultural que gradativamente vem perdendo espa\u00e7o nas m\u00eddias tradicionais.<\/strong><br \/>\nA profiss\u00e3o de jornalista \u00e9 uma das mais antigas. Ele \u00e9 essa pessoa que \u00e9 encarregada de noticiar os fatos e isso nunca vai acabar, n\u00e9? E que acho inclusive que as novas m\u00eddias democratizam essa possibilidade da pessoa praticar o jornalismo cultural, fazer a cr\u00edtica, procurando se informar bastante, ver bastante espet\u00e1culos, ler livros, ler os outros cr\u00edticos, fazer um apanhado da obra dos artistas sobre o qual ele se debru\u00e7a naquele instante. Acho que isso n\u00e3o vai acabar nunca. Acho bom que (o jornalismo) vai se transformando com o tempo, com a nossa sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando a falar do novo disco, ele foi gravado na Fran\u00e7a, sendo produzido e mixado pelo franco-belga Jean Lamoot, respons\u00e1vel por trabalhos junto ao Mano Negra. De que maneira a mudan\u00e7as de ares geogr\u00e1ficos e a condu\u00e7\u00e3o do trabalho interferiu no resultado final?<\/strong><br \/>\nQuando n\u00f3s estamos longe de casa, fazendo as coisas com outras pessoas, o resultado vai ser diferente. E eu j\u00e1 tinha feito nove discos no Brasil, mas apenas um deles produzido por um produtor europeu, que foi o disco \u201cRespeitem Meus Cabelos Brancos\u201d, que fiz com o Will Mowat. Quando recebi essa proposta do selo Zamora, que \u00e9 franc\u00eas (baseado em Paris), para fazer um disco com um produtor europeu, para trabalhar sem os meus m\u00fasicos e fazer com m\u00fasicos locais, primeiramente eu fiquei um pouco assim: ser\u00e1 que isso vai dar certo? Depois eu me animei. Gosto de me entregar a situa\u00e7\u00f5es novas e foi muito legal porque foi um encontro de pessoas que n\u00e3o est\u00e3o nas suas casas, n\u00e9? Trabalhei com m\u00fasicos brasileiros como Natalino Neto, que tocou o baixo, e Z\u00e9 Luiz Nascimento que tocou a bateria, a percuss\u00e3o. Trabalhei tamb\u00e9m com m\u00fasicos africanos, como na participa\u00e7\u00e3o do Ray Lema. Mesmo estando longe de casa, gravando s\u00f3 can\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas, foi um processo maravilhoso. Jean Lamoot \u00e9 um produtor da escuta. Ele escuta muito o que o artista e os m\u00fasicos est\u00e3o produzindo, est\u00e3o fazendo. Escuta inclusive as coisas que n\u00e3o v\u00e3o entrar no disco e foi um processo muito interessante, muito respeitoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m do congol\u00eas Ray Lema, que voc\u00ea comentou e que participa de &#8220;Xang\u00f4, Forr\u00f3 e A\u00ed\u201d, o disco ainda tem o ic\u00f4nico mal\u00eas Salif Keita (em &#8220;SobreHumano&#8221;). Como se deu a aproxima\u00e7\u00e3o de ambos e quais as contribui\u00e7\u00f5es eles trouxeram para suas respectivas faixas?<\/strong><br \/>\nA primeira vez que ouvi a m\u00fasica de Salif Keita foi no come\u00e7o dos anos 90, na verdade. Ali do fim dos 80 pro come\u00e7o dos 90. Fiquei muito impressionado com a voz dele que, pra mim, \u00e9 uma voz que muito especial. Tal como a voz de Milton Nascimento e como ele usa essa voz dentro de uma estrutura de banda de m\u00fasica pop, sendo ele africano. Isso mexeu muito comigo, foi o que me fez dizer numa m\u00fasica (\u201c\u00c0 Primeira Vista\u201d) \u201cquando ouvi Salif Keita, dancei\u201d. Quando compus a m\u00fasica \u201cSobreHumano\u201d, agora durante a pandemia, h\u00e1 cerca j\u00e1 de dois anos, imediatamente pensei nele porque o modo mel\u00f3dico da m\u00fasica \u00e9 um modo muito da m\u00fasica do Mali, de onde o Salif vem. Ele sempre que pode vai quando toco em Paris. N\u00f3s j\u00e1 dividimos palco no Brasil tamb\u00e9m, no antigo Palace (em S\u00e3o Paulo), creio eu, e na mesma \u00e9poca, mais ou menos, depois que eu conheci fisicamente o Salif, ap\u00f3s ouvi-lo numa fita cassete, na mesma \u00e9poca que eu conheci o Ray Lema, que \u00e9 como se fosse um irm\u00e3o mais velho meu. A gente tem uma rela\u00e7\u00e3o de irm\u00e3o mesmo e ele que me disse que a m\u00fasica nordestina \u00e9 a m\u00fasica africana e que Luiz Gonzaga \u00e9 o mais africano dos artistas brasileiros. Ent\u00e3o isso me deu muita tranquilidade pra sentir que forr\u00f3 e a m\u00fasica africana n\u00e3o se op\u00f5em, n\u00e3o s\u00e3o coisas diferentes. Quer dizer, s\u00e3o coisas diferentes, mas que uma vem da outra, saiu de dentro da outra. Fico feliz ao perceber que todos os grandes \u00eddolos do forr\u00f3 s\u00e3o negros, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Jo\u00e3o do Vale, Pinto do Acordeon, os Tr\u00eas do Nordeste, Trio Nordestino&#8230; o menos negro deles \u00e9 o Dominguinhos que \u00e9 caboclo na verdade, n\u00e9? Ent\u00e3o tamb\u00e9m quando compus durante a pandemia \u201cXang\u00f4, Forr\u00f3 e A\u00ed\u201d imediatamente eu pensei em chamar Ray Lema pra cantar comigo. Ambos contribu\u00edram para suas respectivas can\u00e7\u00f5es, reescreveram a parte da letra em suas respectivas l\u00ednguas. E Ray Lema fez mais ao trazer sua banda pra tocar comigo essa m\u00fasica, pra que ela tivesse um, vamos dizer assim, um aspecto a mais da raiz africana, da rumba congolesa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chico C\u00e9sar - BOLSOMINIONS (clipe)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mLehHFCx8wQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A faixa &#8220;Bolsominions&#8221; \u00e9 uma ode afrontosa a corja fascista que tem, infelizmente, ganhado corpo no ide\u00e1rio nacional. Historicamente falando a sociedade brasileira sempre teve liga\u00e7\u00e3o a pautas reacion\u00e1rias e ao moralismo. Em tempos tenebrosos, mas tamb\u00e9m carregados de esperan\u00e7a, como voc\u00ea v\u00ea o Brasil contempor\u00e2neo? Quais as alternativas para sair desse grande fosso que estamos?<\/strong><br \/>\nO Brasil contempor\u00e2neo \u00e9 um Brasil que se revela em sua face de intoler\u00e2ncia. Um Brasil que a constitui\u00e7\u00e3o de 1988, de certa forma, tinha tentado silenciar atrav\u00e9s das vozes de outros Brasis, de um Brasil mais inclusivo. Esse Brasil que aparece agora \u00e9 um Brasil bastante intolerante, o Brasil do racismo, da misoginia, da homofobia. E sinto e penso que a democracia participativa, e n\u00e3o a democracia representativa, pode ser a grande sa\u00edda para esse Brasil. Para que os \u00f3rg\u00e3os que representam a sociedade civil (e n\u00e3o apenas o governo) tenham cada vez mais poder de decis\u00e3o. Para que a democracia chegue de fato ao cotidiano, a ponta da rua para que as associa\u00e7\u00f5es de moradores, os sindicatos, os \u00f3rg\u00e3os que representam a sociedade possam se sentir representados, possam representar o povo diverso que n\u00f3s somos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acaba de retornar de uma bem-sucedida turn\u00ea europeia. Como tem sido a receptividade do seu trabalhado no velho mundo? E, de forma geral, como tem sido o retorno aos palcos p\u00f3s-pandemia?<\/strong><br \/>\nEu tive a felicidade de fazer uma turn\u00ea muito bem estruturada, passando por v\u00e1rias capitais, cidades importantes da Europa como Santiago de Compostela na Gal\u00edcia, al\u00e9m de Madri e Barcelona, tamb\u00e9m na Espanha. Fiz Porto e Lisboa em Portugal. Londres na Inglaterra. Berlim na Alemanha. Marselha e Paris na Fran\u00e7a. Foi muito bacana! Uma primeira coisa que me salta aos olhos \u00e9 a qualidade de integra\u00e7\u00e3o que tem a comunidade brasileira na Europa, porque h\u00e1 de tudo: muitos estudantes, trabalhadores, gente que j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1 faz trinta anos e j\u00e1 tem filhos. E os filhos j\u00e1 t\u00eam amigos. Essa comunidade se integra muito e traz (o p\u00fablico) europeu tamb\u00e9m para os shows como forma de encontro. O brasileiro tem muito orgulho da cultura brasileira, sente falta, sente saudade e quer mostrar para o europeu a qualidade da nossa cultura. Como se fosse assim, olha, eu tenho algo muito especial pra te mostrar, vamos comigo? Vamos ver um show de Marisa Monte, de Caetano Veloso, de Seu Jorge, de Carlinhos Brown, de Chico C\u00e9sar&#8230; Ent\u00e3o a Europa acaba nos recebendo muito bem porque tamb\u00e9m \u00e9 trazida pela comunidade brasileira que aqui vive. Sinto que no momento p\u00f3s-pandemia h\u00e1 uma certa, vamos dizer assim, ansiedade, uma certa afli\u00e7\u00e3o das pessoas tentarem fazer tudo que deixaram de fazer durante dois anos e isso atrapalha um pouco, porque a pandemia de certa forma veio pra nos dizer pra desacelerar, n\u00e9? Mas \u00e9 o ser humano. Ele \u00e9 muito ansioso. Se tornou muito ansioso, se tornou muito (carente) da presen\u00e7a do outro que n\u00e3o teve durante dois anos. Ent\u00e3o as pessoas querem encontrar, querem abra\u00e7ar, querem ir pros shows, querem ir pras pe\u00e7as. Isso \u00e9 muito bom. S\u00f3 que de certa forma est\u00e1 tendo coisa demais e ainda n\u00e3o sa\u00edmos completamente da pandemia. Tudo bem, est\u00e1 todo mundo vacinado, ainda tem umas pessoas que usam m\u00e1scara e isso \u00e9 bom. Eu sinto que isso logo vai voltar a uma certa normalidade. Vamos dizer de menos movimento, menos ansiedade e tudo funcionando, mas dentro de um ritmo mais tranquilo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Pedrada\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uDPkjrEusTo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Recentemente a faixa &#8220;Pedrada&#8221; (presente no disco de 2019) ganhou uma vers\u00e3o potente do grupo de hardcore capixaba Mukeka di Rato. Em entrevista ao site Hits Perdidos, o F\u00eapas, vocalista do grupo, disse que os motivos que levaram a grav\u00e1-la foi que ela \u00e9 &#8220;mais punk do que muita m\u00fasica punk por a\u00ed&#8221;. Voc\u00ea chegou a ouvir? E ainda: o que voc\u00ea acha do fato de que sua m\u00fasica consegue chegar a locais onde n\u00e3o seja comum estar?<\/strong><br \/>\nSe h\u00e1 uma vantagem em ser m\u00fasico \u00e9 exatamente essa. N\u00f3s n\u00e3o precisamos estar onde o nosso trabalho est\u00e1. Ent\u00e3o ela se espalha, ela consegue estar em muitos lugares. Que um grupo punk fazer uma vers\u00e3o de uma m\u00fasica minha eu fico muito feliz. Adoro porque isso quer dizer que as coisas que estou dizendo falam pra outra gera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Falam pra outro p\u00fablico. A vers\u00e3o deles \u00e9 muito boa. Realmente muito boa, gosto muito. Uma vez encontrei um motorista de t\u00e1xi no Rio de Janeiro que virou pra tr\u00e1s assim e perguntou em que mundo viv\u00edamos eu e meus colegas de MPB. Porque ele falou, voc\u00eas s\u00f3 falam em amor, em apartamentinho, em sei l\u00e1 o que, em mar, praia, coisas bonitas, c\u00e9u, lua. Eu falei, n\u00e3o rapaz, eu acho que voc\u00ea est\u00e1 me confundindo porque eu j\u00e1 tinha feito \u201cRespeitei Meus Cabelos Brancos\u201d. \u201cMama \u00c1frica\u201d mesmo \u00e9 uma m\u00fasica que fala da mulher que trabalha. Eu dei meus argumentos pra ele Ele falou \u201c\u00e9, voc\u00ea \u00e9 diferenciado\u201d. Voc\u00ea \u00e9 diferente dos seus colegas porque \u201csinto que a MPB est\u00e1 se afastando da realidade\u201d. Eu disse pra: \u201cN\u00e3o \u00e9 verdade. Acho que voc\u00ea precisa ouvir mais, procurar direitinho, mas o fato \u00e9 que essa pauta das quest\u00f5es sociais est\u00e1 sendo dada pelo pessoal do rap\u201d. E citei Racionais, citei Tha\u00edde e DJ Hum. Ele concordou, mas disse: \u201cVoc\u00eas precisam ficar ligados\u201d. Um motorista de t\u00e1xi do Rio de Janeiro, hein? Voc\u00eas precisam ficar ligados para n\u00e3o perderem a conex\u00e3o com a realidade sen\u00e3o voc\u00eas v\u00e3o virar tudo bobinhos. Agradeci o conselho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua carreira est\u00e1 pr\u00f3xima de completar tr\u00eas d\u00e9cadas de bons servi\u00e7os prestados. Nesse \u00ednterim voc\u00ea conquistou n\u00e3o s\u00f3 p\u00fablico e cr\u00edtica, mas protagonizou tamb\u00e9m diversas iniciativas de sucesso como a bem-sucedida turn\u00ea com Geraldo Azevedo. No hall das realiza\u00e7\u00f5es ainda h\u00e1 algo que voc\u00ea gostaria de alcan\u00e7ar?<\/strong><br \/>\nSinceramente gostaria de ter mais 30 anos de carreira pela frente. Agora tenho 58 anos, 27 anos de carreira fonogr\u00e1fica. Ent\u00e3o mais 30 anos de carreira vai ser bacana. Porque a\u00ed eu vou poder experimentar muitas coisas, muitas forma\u00e7\u00f5es, fazer discos em v\u00e1rios lugares do mundo. Eu gosto de fazer colabora\u00e7\u00f5es com outros artistas. Sobre Geraldo&#8230; \u00c9 uma alegria imensa fazer viol\u00e3o e voz com Geraldo Azevedo, que continua na estrada. N\u00f3s vamos, inclusive, gravar um DVD em novembro, eu creio, na Concha Ac\u00fastica do Teatro Castro Alves, na Bahia. Para o m\u00fasico, pro artista, a idade existe, mas ela n\u00e3o \u00e9 exatamente determinante para a for\u00e7a, pra gana que voc\u00ea coloca no seu trabalho. Eu vejo isso em Ney Matogrosso, como vejo tamb\u00e9m em Tom Z\u00e9, em (Jards) Macal\u00e9, em Elza Soares. Eles s\u00e3o um grande exemplo pra mim.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Geraldo Azevedo e Chico C\u00e9sar - Dia Branco\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-2-IyPDI5ik?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Mama \u00c1frica&#8221; foi seu primeiro sucesso e acredito que a can\u00e7\u00e3o foi um divisor de \u00e1guas n\u00e3o s\u00f3 para a sua carreira, mas tamb\u00e9m para a m\u00fasica popular brasileira. E digo isso porque ela trouxe ao grande p\u00fablico tem\u00e1ticas ligadas a ancestralidade africana e as agruras da maternidade. Voc\u00ea n\u00e3o foi o pioneiro ao externar essa rela\u00e7\u00e3o, mas acredito que a faixa abriu um precedente para que a MPB de forma geral se atentasse as essas tem\u00e1ticas dali a adiante. Voc\u00ea acredita que a can\u00e7\u00e3o tenha, de fato, esse legado?<\/strong><br \/>\nEu penso que \u201cMama \u00c1frica\u201d trouxe representatividade. Acho que os meninos negros das periferias, os adolescentes, as crian\u00e7as, eles viram na TV, na Xuxa, no Faust\u00e3o, no Gugu, no J\u00f4 Soares, na TV em geral, um artista negro, baixinho, do cabelo amarrado pra cima e raspado dos lados, com as roupas coloridas falando sobre a m\u00e3e deles. Acho que \u00e9 representatividade. Se h\u00e1 um legado eu acho que esse \u00e9 um legado que vem se juntar ao legado j\u00e1 trazido e, talvez muito mais rico, de Jorge Ben, de Gilberto Gil e de tantos outros. Outro dia eu estava conversando com o Fi\u00f3ti e com Emicida, eles falaram desse legado pra mim que eu nem sabia que era importante assim. Eles falaram: \u201cOlha, Chico, quando voc\u00ea apareceu, aquilo abriu a cabe\u00e7a da gente mostrando que era poss\u00edvel ser, estar, ocupar dizendo as coisas que precisam ser ditas\u201d. Dizendo do meu jeito, n\u00e9? Com alegria, com humor, mas dizendo. Eu sinto que isso foi talvez a coisa mais importante que a m\u00fasica \u201cMam\u00e1 \u00c1frica\u201d trouxe, assim, a princ\u00edpio. Mas eu acho que tem tamb\u00e9m essa coisa de falar da mulher, com a sua dupla ou at\u00e9 tripla jornada de trabalho. A mulher sempre abandonada. Esse paralelo entre a mulher e o continente africano que \u00e9 tamb\u00e9m sempre abandonado, deixado de lado.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chico C\u00e9sar - Mama \u00c1frica (Remasterizado)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xKL_aJEcNJg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com o lan\u00e7amento de &#8220;Vestido de Amor&#8221; e a retomada da turn\u00ea pelo Brasil quais s\u00e3o seus planos futuros?<\/strong><br \/>\nCom o lan\u00e7amento de \u201cVestido de Amor\u201d e a grava\u00e7\u00e3o de do DVD viol\u00e3o e voz com Geraldo Azevedo eu tenho a\u00ed dois shows pra correr o mundo, n\u00e9? Pra rodar a estrada, vir pro Brasil e exterior. E tem um disco pra lan\u00e7ar com dois artistas argentinos que eu amo muito: Esteban Blanca e ROJOBARCELO. \u00c9 um disco que compus e gravei a minha parte com eles quando estive no Uruguai, antes de ir pra Fran\u00e7a. Mas eu pretendo mesmo \u00e9 viver um pouco, (cerca de) tr\u00eas meses, em cada lugar do mundo. Tr\u00eas meses no Uruguai, tr\u00eas meses na Europa, tr\u00eas meses na \u00c1frica, tr\u00eas meses no Brasil. Isso j\u00e1 d\u00e1 um ano, n\u00e9? Eu n\u00e3o sei se vou conseguir, porque \u00e0s vezes um lugar pode reivindicar mais que o outro, mas eu quero estar atento a n\u00e3o me estabelecer de um jeito, me fixar num lugar. Eu quero ser a cigana outra vez para o meu trabalho e para mim. N\u00f3s vamos tentar tocar o m\u00e1ximo poss\u00edvel de can\u00e7\u00f5es do \u00e1lbum novo como fizemos na Europa agora. Mas, obviamente, tamb\u00e9m vamos tocar can\u00e7\u00f5es que o p\u00fablico canta, da carreira toda, como \u201cMama \u00c1frica\u201d, \u201c\u00c0 Primeira Vista\u201d, \u201cPalavra M\u00e1gica\u201d, \u201cPedrada\u201d&#8230; vamos ver o que cabe, n\u00e9? \u00c0s vezes o show pode ficar muito longo. Vamos ver. Mas eu tamb\u00e9m quero, como disse, mostrar bastante coisas do disco novo. Eu aprendi um pouco com a Z\u00e9lia Duncan que, quando voc\u00ea lan\u00e7a um disco, voc\u00ea tem de tocar o disco ao vivo porque se voc\u00ea n\u00e3o cantar essas m\u00fasicas, o p\u00fablico nunca vai cantar. Vai ficar cantando sempre as m\u00fasicas anteriores. E acho que \u00e9 isso que nos mant\u00e9m vivos e, vamos dizer assim, gerando interesse. O fato de eu fazer coisas novas que dialogam com as coisas j\u00e1 feitas. O show \u00e9 isso. Esperem que eu tamb\u00e9m estou chegando cheio de amor pra dar literalmente (risos). Dar amor atrav\u00e9s da m\u00fasica assim. Estou com muita saudade de tocar em S\u00e3o Paulo (nota: <a href=\"https:\/\/www.sescsp.org.br\/programacao\/chico-cesar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Chico se apresenta no Sesc Pompeia nos dias 03 e 04\/11<\/a>). O Sesc Pomp\u00e9ia \u00e9 um dos meus primeiros palcos e \u00e9 um lugar que me formou inclusive como p\u00fablico. Eu frequentei muito o Sesc Pomp\u00e9ia, antes de gravar discos e depois tamb\u00e9m, pra ver shows, artistas, gente que admiro como Hermeto Paschoal, Paulo Moura, Arrigo Barnab\u00e9, Itamar Assun\u00e7\u00e3o, N\u00e1 Ozetti, Suzana Sales, Tet\u00ea Esp\u00edndola&#8230; e sempre que volto vem um pouco essa sensa\u00e7\u00e3o do paraibano, rec\u00e9m-chegado a S\u00e3o Paulo, indo ver os shows naquele lugar t\u00e3o bonito, t\u00e3o especial.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bastidores de &quot;Vestido de Amor&quot;, novo \u00e1lbum de Chico C\u00e9sar\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/S5HGfW6ghWs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0 escreve no Scream &amp; Yell desde 2014. A foto que abre o texto \u00e9 de Ana Lefaux.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Chico Cesar fala sobre a import\u00e2ncia de propagar o amor em tempos de \u00f3dio, conta sobre sua forma\u00e7\u00e3o musical e reflete sobre a profiss\u00e3o jornalista na atualidade. Fala ainda sobre o processo de grava\u00e7\u00e3o do novo disco\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/10\/28\/entrevista-vestido-de-amor-chico-cesar-defende-a-raiva-e-fala-sobre-representatividade-bolsominions-e-o-novo-disco-gravado-na-franca\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":70463,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2937],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70460"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70460"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70460\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":72726,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70460\/revisions\/72726"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70463"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70460"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70460"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70460"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}