{"id":7040,"date":"2011-01-21T18:59:52","date_gmt":"2011-01-21T21:59:52","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=7040"},"modified":"2017-12-28T13:28:36","modified_gmt":"2017-12-28T15:28:36","slug":"livro-so-garotos-patti-smith","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/01\/21\/livro-so-garotos-patti-smith\/","title":{"rendered":"Livro: S\u00f3 Garotos, Patti Smith"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-7041\" title=\"patti_sogarotos\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/patti_sogarotos.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/patti_sogarotos.jpg 350w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/patti_sogarotos-210x300.jpg 210w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\" http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano.\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gabriel Innocentin?i<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ela n\u00e3o sabe cantar, mas sabe amar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNova York \u00e9 um lugar dif\u00edcil, especialmente se voc\u00ea n\u00e3o tem dinheiro\u201d, disse Paul Auster em entrevista recente ao jornal argentino Clar\u00edn. O escritor falava sobre a \u201ccidade inabit\u00e1vel\u201d e os problemas de viver nela quando se \u00e9 feio e pobre. A impress\u00e3o \u00e9 outra quando se l\u00ea \u201cS\u00f3 Garotos\u201d, de Patti Smith.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo e o ambiente s\u00e3o diferentes, \u00e9 claro. Auster fala sobre o Brooklyn, em um per\u00edodo de recess\u00e3o econ\u00f4mica e paran\u00f3ia terrorista. Patti, sobre a Nova York do fim dos anos 60 e come\u00e7o dos 70, do lend\u00e1rio Chelsea Hotel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro da madrinha do punk soa mais como um romance de forma\u00e7\u00e3o, nos moldes de \u201cCr\u00f4nicas\u201d, de Bob Dylan. Ele tamb\u00e9m falava sobre a dureza dos tempos dif\u00edceis na Nova York bo\u00eamia dos anos 60. A impress\u00e3o que se tem \u00e9 que a Big Apple parecia bem legal se voc\u00ea fosse um artista com talento e um pouco de sorte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca da contracultura, a cidade soava mais acolhedora, mais aberta do que hoje, a julgar pelos relatos de ambos. Um simples corte de cabelo \u00e0 la Keith Richards era o bastante para uma menina pobre entrar na corte do papa da pop art Andy Wharhol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cS\u00f3 Garotos\u201d, Patti conta como uma garota seguiu a trilha dos beats e abandonou um razo\u00e1vel conforto familiar em busca do sonho de ser artista na cidade grande. A vida em Nova York n\u00e3o foi f\u00e1cil: fome constante, dificuldade em arrumar emprego e um teto. Ela romantizava a vida de artista, sonhando com priva\u00e7\u00e3o, sofrimento e maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 a\u00ed, nada de excepcional, n\u00e3o fosse pela apari\u00e7\u00e3o de Robert Mapplethorpe em sua vida. Melhor poupar o leitor de contar como os dois se conheceram, pois \u00e9 uma dessas hist\u00f3rias que vale a pena ser lida \u2013 entreg\u00e1-la assim seria estragar o prazer da leitura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com Robert, Patti p\u00f4de finalmente se tornar uma artista, embora tenha demorado alguns anos para encontrar o ve\u00edculo mais adequado para expressar suas emo\u00e7\u00f5es \u2013 a m\u00fasica. Parece sempre haver uma trilha sonora de fundo, tantas s\u00e3o as refer\u00eancias, al\u00e9m da devo\u00e7\u00e3o de Patti Smith \u00e0s can\u00e7\u00f5es \u2013 ela conta que ouvir \u201cStrawberry Fields Forever\u201d tr\u00eas vezes seguidas na jukebox lhe dava for\u00e7as para continuar a viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nem s\u00f3 de rock (\u201ca salva\u00e7\u00e3o adolescente em 1961\u201d) vivia Patti Smith. Obcecada por Arthur Rimbaud, ela desejava ser poeta quando adolescente e admirava pintores como Modigliani, Picasso, Frida Khalo, Diego Rivera, Fra Angelico e Albert Ryder. Not\u00e1vel, se a gente lembrar que ela n\u00e3o tinha nem 16 anos e n\u00e3o podia pesquisar esse tipo de coisa no Google.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Um pouquinho de cultura n\u00e3o faz mal<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que isto pode dizer sobre o rock feito no Brasil? Pense em Renato Manfredini Jr., professor da Cultura Inglesa, ligado no que havia de melhor no rock ingl\u00eas dos anos 80, o trovador solit\u00e1rio (al\u00f4, Bob Dylan), cercado de livros de Bertrand Russell e Rousseau. Pense em Agenor de Miranda Ara\u00fajo Neto, lendo \u00c1gua Viva mais de cem vezes, musicando trechos de Bukowski e cantarolando sambas de Cartola. Por que eles permanecem, apesar das cr\u00edticas? Porque eram bons no que faziam, porque deram duro para isso.<br \/>\nRenato Russo sobre \u201cV\u201d: \u201cEu me preocupo em fazer um texto que daqui a 200 anos, se a pessoa pegar, n\u00e3o vai precisar de nota de rodap\u00e9. O que implica que \u2018H\u00e1 tempos\u2019, por exemplo, \u2018disseste que se tua voz tivesse for\u00e7a igual \/ \u00e0 imensa dor que sentes \/ teu grito acordaria \/ n\u00e3o s\u00f3 a tua casa \/ mas a vizinhan\u00e7a inteira\u2019, pode ser uma vizinhan\u00e7a hi-tech em Nag\u00f3ia, Osaka, ou pode ser Vila Rica. Isso foi uma coisa com que sempre me preocupei, uma coisa que aprendi com Drummond e Pessoa, n\u00e3o querendo me comparar, \u00e9 claro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Noves fora a megalomania, fica a ambi\u00e7\u00e3o (infelizmente, existe Humberto Gessinger para provar que somente pretens\u00e3o e cultura n\u00e3o bastam. Por\u00e9m, quando n\u00e3o se tem talento, \u00e9 melhor ter algum conhecimento para n\u00e3o passar vergonha). Da\u00ed a tristeza pela falta de engenho e arte no rock cantado em portugu\u00eas. Daqui a 200 anos, quem vai ouvir o que toca nas r\u00e1dios de hoje em dia? Lob\u00e3o tem raz\u00e3o, como disse Ca\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o faltavam nem intelig\u00eancia nem f\u00faria \u00e0 Patti Smith, educada no sagu\u00e3o do Chelsea Hotel por Allen Ginsberg, Gregory Corso e William Burroughs. \u00c9 s\u00f3 reparar no verso que abre \u201cGloria\u201d, sua primeira m\u00fasica no disco de estr\u00e9ia, \u201cHorses\u201d: \u201cJesus morreu pelos pecados dos outros, n\u00e3o pelos meus\u201d. Quem se importa com o fato de que ela n\u00e3o sabe cantar?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Um elogio do amor<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo est\u00e1 careta, mas est\u00e1 c\u00ednico tamb\u00e9m. Por isso \u00e9 importante acreditar que hist\u00f3rias como a de Patti e Robert sejam poss\u00edveis. Aquele amor que faz os amantes crescerem e descobrirem o mundo, com toda a carga de desconfian\u00e7a, turbul\u00eancia e dor que isto pode trazer. Ou\u00e7a \u201cGodspeed\u201d, do disco \u201cEaster\u201d, de 1978.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 comovente que duas pessoas tenham permanecido sempre fi\u00e9is com tantas prova\u00e7\u00f5es. Mais comovente \u00e9 o pr\u00f3prio livro, uma prova de que nem a morte quebrou o amor de Patti e Robert. Ela prometera contar a hist\u00f3ria dos dois quando ele morresse. \u201cAprendi a ver com voc\u00ea e nunca fa\u00e7o um verso ou desenho uma curva que n\u00e3o venha do conhecimento que consegui durante nosso valioso tempo juntos\u201d, diz ela numa cartinha para ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 ler \u201cS\u00f3 Garotos\u201d, minha hist\u00f3ria de amor predileta na m\u00fasica pop envolvia John Lennon e Yoko Ono. Voc\u00ea sabe como \u00e9. Lennon foi a uma galeria em Londres e topou com a instala\u00e7\u00e3o de uma artista japonesa. Uma das \u201cobras de arte\u201d era simples: uma escada, e acima dela, uma lupa. John subiu, pegou a lupa e apontou para o teto. Estava escrito \u201cSim\u201d. Dali em diante foi paix\u00e3o fulminante. O mundo ganhou uma pol\u00eamica hist\u00f3ria de amor e, de brinde, a separa\u00e7\u00e3o da banda de Paul McCartney anterior aos Wings.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma esp\u00e9cie de Johnny &amp; June mais delicados, Patti e Robert s\u00e3o o outro lado da moeda: nenhum deles era famoso, viviam na mis\u00e9ria quando se conheceram e a ambi\u00e7\u00e3o dos dois s\u00f3 fez crescer a carreira art\u00edstica de ambos. \u201cAmor \u00e9 antes de tudo uma li\u00e7\u00e3o de utilidade\u201d, como disse Frank O\u2019Hara, poeta que cantou Manhattan como nenhum outro antes de Woody Allen.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cS\u00f3 Garotos\u201d \u00e9 para todos aqueles que ainda acreditam no amor. N\u00e3o o amor f\u00e1cil das telenovelas, das revistas de fofocas, das com\u00e9dias bobas hollywoodianas \u2013 mas o que envolve disciplina, compromisso, comunh\u00e3o. O amor que permite can\u00e7\u00f5es como \u201cGod\u201d, de Lennon, e \u201cBecause the Night\u201d, de Patti Smith e Bruce Springsteen.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A seu modo, Patti Smith nos ensina que amor n\u00e3o tem nada a ver com moral \u2013 \u00e9 uma experi\u00eancia espiritual, muito mais elevada do que um simples anel, muito mais elevada do que uma simples assinatura num papel. Tem mais a ver com aquilo de que falava o mit\u00f3logo Joseph Campell: \u201cum compromisso com aquilo que voc\u00ea \u00e9. Aquela pessoa \u00e9 literalmente a sua outra metade. Voc\u00ea e o outro s\u00e3o um s\u00f3\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E este amor deu origem a uma roqueira punk e a um fot\u00f3grafo de temas masoquistas, duas pessoas que estiveram em contato com muitos artistas norte-americanos de valor da segunda metade do s\u00e9culo XX. E a gratid\u00e3o de Patti Smith a Robert Mapplethorpe deu origem a um bel\u00edssimo elogio do amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o perco o sono esperando que aconte\u00e7a para mim, mas como um amigo adora dizer, vamos nos divertir com as pessoas erradas enquanto a certa n\u00e3o vem. E se ela chegar, quem sabe um dia tamb\u00e9m n\u00e3o escrevo um livro quando tudo que restar seja a mem\u00f3ria dos dias felizes.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-7042 aligncenter\" title=\"patti_smith_horses\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/patti_smith_horses.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"412\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/patti_smith_horses.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/patti_smith_horses-300x204.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Gabriel Innocentini (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@eduardomarciano<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/blogeurogol.blogspot.com\/\">Eurogol<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Um passeio no East Village e um show de Patti Smith, por Thiago Pereira (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/01\/15\/um-passeio-no-east-village-e-patti-smith\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Patti Smith \u00e9 o s\u00edmbolo de um tempo que n\u00e3o existe mais, por Marcelo Costa (<a href=\"..\/2006\/11\/03\/o-show-do-ano\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Patti Smith: &#8220;Land, 1975\/2002&#8221; (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/pattismithland.html\">aqui<\/a>) e &#8220;Tramplin&#8221; (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/patti_smith_tramplin.html\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Gabriel Innocentini\nS\u00f3 Garotos \u00e9 para todos aqueles que ainda acreditam no amor. 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