{"id":70349,"date":"2022-10-24T02:23:48","date_gmt":"2022-10-24T05:23:48","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=70349"},"modified":"2023-01-29T23:08:16","modified_gmt":"2023-01-30T02:08:16","slug":"entrevista-guto-goffi-festeja-40-anos-de-barao-vermelho-com-lancamento-quadruplo-e-fala-sobre-cazuza-frejat-suricato-e-tocar-ate-os-80","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/10\/24\/entrevista-guto-goffi-festeja-40-anos-de-barao-vermelho-com-lancamento-quadruplo-e-fala-sobre-cazuza-frejat-suricato-e-tocar-ate-os-80\/","title":{"rendered":"Entrevista: Guto Goffi festeja 40 anos de Bar\u00e3o Vermelho com lan\u00e7amento qu\u00e1druplo e fala sobre Cazuza, Frejat, Suricato e mais"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quarenta anos de estrada \u2013 e muitos outros vir\u00e3o, se a sa\u00fade permitir. Esse \u00e9 o esp\u00edrito por tr\u00e1s de \u201cBar\u00e3o 40\u201d, projeto que comemora as quatro d\u00e9cadas de exist\u00eancia da banda carioca Bar\u00e3o Vermelho. Dividido em quatro partes \u2013 \u201c<a href=\"https:\/\/links.altafonte.com\/barao40acustico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ac\u00fastico<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/links.altafonte.com\/barao40_bluesebaladas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Blues &amp; Baladas<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/links.altafonte.com\/barao40_sucessos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sucessos<\/a>\u201d e \u201cCl\u00e1ssicos\u201d \u2013, o projeto est\u00e1 dispon\u00edvel em \u00e1udio (nas plataformas de streaming) e v\u00eddeo (em uma s\u00e9rie especial produzida pelo Canal Bis) para o deleite de quem busca uma retrospectiva de um dos conjuntos mais simb\u00f3licos do rock nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 um momento maduro do Bar\u00e3o \u2013 mas tamb\u00e9m, se [a gente] n\u00e3o estivesse maduro com 60 anos, ia ser demais, n\u00e9?\u201d, brinca o baterista Guto Goffi, membro fundador do Bar\u00e3o, sobre o projeto e a nova fase da banda, iniciada em 2017 com a chegada de Rodrigo Suricato para os vocais. Acredite se quiser, caro leitor: o \u201cnovato\u201d j\u00e1 tem quase o dobro de tempo nos microfones da banda do que Cazuza, que ocupou o posto entre 1982 e julho de 1985. \u201cQuando o Suricato chega na banda como cantor, decidimos dar a camisa 10 para ele. Ele retribuiu dizendo que o time de cora\u00e7\u00e3o dele \u00e9 o Bar\u00e3o\u201d, diz Guto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ado ao longo do m\u00eas de setembro, o especial foi aberto com o epis\u00f3dio \u201c<a href=\"https:\/\/links.altafonte.com\/barao40acustico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ac\u00fastico<\/a>\u201d, que para Guto \u00e9 a primeira vez que o Bar\u00e3o se debru\u00e7ou sobre o formato desplugado de forma dedicada \u2013 na vis\u00e3o do baterista, a grava\u00e7\u00e3o do \u201cAc\u00fastico MTV\u201d que a banda fez em 1992 (e s\u00f3 foi lan\u00e7ado como DVD mais de uma d\u00e9cada depois) foi como se o Bar\u00e3o fosse \u201cjogar uma pelada na casa do Chico Buarque\u201d. \u201cNa \u00e9poca a gente estava fazendo dez anos e achamos que fazer um ac\u00fastico numa banda de guitarras ia matar a gente. Fugimos, mas acabamos fazendo o programa. S\u00f3 n\u00e3o investimos naquilo para ser um disco, diferentemente de agora\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista a seguir, Guto Goffi conta mais sobre o novo projeto e a turn\u00ea que o Bar\u00e3o tem feito pelo Pa\u00eds entremeando can\u00e7\u00f5es el\u00e9tricas e arranjos com viol\u00f5es. Aos 60 anos, ele tamb\u00e9m diz sonhar em seguir o exemplo dos Rolling Stones e tocar por mais duas d\u00e9cadas, mas acha dif\u00edcil concretizar a ambi\u00e7\u00e3o. \u201cO rock\u2019n\u2019roll \u00e9 que nem futebol de sal\u00e3o: \u00e9 correria, meu irm\u00e3o. Tem que correr, pegar a bola, marcar, receber, ir l\u00e1 fazer o gol, voltar correndo porque o outro time vai atacar. \u00c9 fren\u00e9tico, ent\u00e3o que estar bem de sa\u00fade\u201d, brinca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Epis\u00f3dios da hist\u00f3ria do Bar\u00e3o, como as sa\u00eddas de Cazuza e Frejat, as brigas com gravadoras e a rela\u00e7\u00e3o de amizade com outros grupos do rock brasileiro dos anos 1980 est\u00e3o na pauta. \u201cAcho que a nossa gera\u00e7\u00e3o do rock fez muito pouco esse exerc\u00edcio de frequentar as outras bandas. Sempre uma banda falava mal da outra, p\u00f4\u201d, reclama Guto, que lista ainda neste papo seus discos da ilha deserta e os bateristas que todo iniciante precisa ouvir (aten\u00e7\u00e3o, haters: Ringo Starr \u00e9 um deles).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cen\u00e1rio pol\u00edtico de 2022 n\u00e3o fica de fora da conversa \u2013 e o baterista nem pestaneja ao dizer, ao contr\u00e1rio do que alguns especulam nas redes sociais, que Cazuza estaria do lado certo nestas elei\u00e7\u00f5es. \u201cO Cazuza era um cara que combatia a caretice! Ele jamais estaria aliado a uma extrema-direita ou a gente que gosta de viol\u00eancia, que defende armas e guerras\u201d, diz.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Enquanto ela n\u00e3o chegar - Bar\u00e3o Vermelho\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/soYNyyxYBdM?list=PLEx1u1dVGbFyUWod06Gi4q7lnYUt7ZoOW\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Bar\u00e3o est\u00e1 comemorando 40 anos de carreira em 2022. No \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Brock-rock-brasileiro-dos-anos\/dp\/8573266007\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">BRock &#8211; o rock brasileiro dos anos 1980<\/a>\u201d, livro do Arthur Dapieve, voc\u00ea tem uma fala que marca muito o in\u00edcio do grupo: \u201cUm dia a gente era amigo de escola que combinou que ia ter uma banda\u201d. E quatro d\u00e9cadas depois, voc\u00ea ainda est\u00e1 na mesma banda. Qual \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o, Guto?<\/strong><br \/>\n\u00c9 engra\u00e7ado: 40 anos para uma banda de rock \u00e9 uma coisa quase imposs\u00edvel, \u00e9 muito raro de acontecer. Os Beatles duraram dez anos. N\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 quatro d\u00e9cadas em si, porque a quantidade de coisas que acontece no mundo e na nossa vida em cada uma dessas d\u00e9cadas \u00e9 gigante. \u00c9 assustador. Eu acabei de fazer 60 anos, comecei com 20 no Bar\u00e3o. Para n\u00f3s, \u00e9 uma felicidade ter esse tanto de oportunidades, ter essa terceira forma\u00e7\u00e3o, p\u00f3s-Frejat e com o Maur\u00edcio Barros por perto, dando continuidade a uma coisa que a gente construiu. O Maur\u00edcio foi meu grande amigo ali no in\u00edcio do Bar\u00e3o, quando viemos a S\u00e3o Paulo ver o show do Queen no Morumbi [em 1981], voltamos de l\u00e1 embasbacados e combinamos de fazer a nossa banda \u2013 e tinha de ser uma banda com um vocalista. Fomos n\u00f3s dois que escolhemos o nome Bar\u00e3o Vermelho e todo mundo que entrou foi convidado para entrar nesse tal de Bar\u00e3o Vermelho. O D\u00e9 foi o terceiro, depois o Frejat, por fim o Cazuza. A partir dali a gente viveu aquele sonho juvenil, ter uma banda de rock, foram os melhores anos das nossas vidas, pelo menos at\u00e9 a sa\u00edda do Cazuza. Depois a gente sustentou a segunda forma\u00e7\u00e3o, com o Frejat cantando. Ele \u00e9 um excelente cantor, mas no in\u00edcio as pessoas ficavam na d\u00favida, \u201cp\u00f4, mas sem o Cazuza n\u00e3o tem jeito\u201d. Teve jeito, o Bar\u00e3o prosperou nesse tempo todo, foram quase tr\u00eas d\u00e9cadas com o Frejat cantando. E com a sa\u00edda dele, n\u00f3s tivemos uma nova vers\u00e3o desse elo de irmandade que s\u00e3o as bandas de rock, apostamos numa terceira vers\u00e3o dessa mesma velha hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aproveitando que voc\u00ea tocou no assunto, queria falar dessa \u00e9poca que o Frejat assumiu os vocais. Em v\u00e1rios lugares, eu li que qualquer um dos quatro poderia assumir, n\u00e3o foi um processo natural o Frejat assumir. Como \u00e9 que foi isso?<\/strong><br \/>\nO Frejat era autor de muitas das m\u00fasicas do Bar\u00e3o em parceria com o Cazuza. Ele acha que o fato de ter composto as m\u00fasicas j\u00e1 trouxesse uma intimidade para ele cantar aquelas linhas mel\u00f3dicas. O pessoal conheceu essas melodias pela voz do Cazuza, mas o Frejat foi o criador de muitas delas. Mas sim, a gente fez um ensaio assim meio karaok\u00ea, em que todo mundo cantou. Eu lembro que o Maur\u00edcio cantou uma m\u00fasica, eu outra, o D\u00e9 tamb\u00e9m e o Frejat por \u00faltimo. E a\u00ed ele ficou sendo o novo vocalista, o porta-voz dessa forma\u00e7\u00e3o, j\u00e1 no \u201cDeclare Guerra\u201d (1986), que \u00e9 o primeiro disco sem o Cazuza. E nesse disco, o Maur\u00edcio tamb\u00e9m canta uma m\u00fasica, sinalizando que tamb\u00e9m tinha vontade de cantar tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando o Frejat decidiu sair, voc\u00eas fizeram esse karaok\u00ea de novo ou o Suricato j\u00e1 estava por perto?<\/strong><br \/>\nDessa vez, n\u00e3o. O Frejat saiu porque queria seguir com a carreira solo, n\u00e3o ia mais seguir com o Bar\u00e3o. Quando ele me disse, fiquei chateado para caramba, l\u00f3gico, mas perguntei se a gente podia continuar com o grupo. Ele me disse para ficar \u00e0 vontade, ent\u00e3o a primeira pessoa que eu convidei para voltar para a banda foi o Maur\u00edcio Barros. Ele saiu em 1987 do grupo e tr\u00eas anos depois, ele voltou ao Bar\u00e3o como m\u00fasico convidado. Ele n\u00e3o foi readmitido como s\u00f3cio diretor, membro oficial, ficou sempre como convidado, de 1990 at\u00e9 2017. Ele participou de todos os discos, todas as turn\u00eas, mas s\u00f3 em 2017 \u00e9 que teve de volta esse t\u00edtulo de dono do grupo, quando o Frejat decidiu sair. Ao fazer isso, eu acabei tirando o Maur\u00edcio do Frejat, porque ele era tecladista do Frejat solo o tempo todo, foi produtor dos discos, fazia m\u00fasicas com eles, mexeu essa panela toda. O Maur\u00edcio voltou com muita vontade, se juntando a mim, ao Fernando e ao Rodrigo Santos. A\u00ed o Rodrigo queria cantar, pediu para ser o cantor. Eu falei: \u201cp\u00f4, mas voc\u00ea j\u00e1 canta Bar\u00e3o por a\u00ed, toda semana tem voc\u00ea cantando Bar\u00e3o, qual vai ser a novidade pras pessoas?\u201d. Cantor careca n\u00e3o d\u00e1, pelo amor de Deus!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 basta o Phil Collins\u2026<\/strong><br \/>\nDeixa ele l\u00e1 que est\u00e1 \u00f3timo! E a\u00ed o Maur\u00edcio sugeriu o Rodrigo Suricato para ser o vocalista. Eu j\u00e1 tinha visto o Suri cantar na banda dele, achava interessante, achava que era uma grande revela\u00e7\u00e3o do rock dos \u00faltimos tempos no Brasil, n\u00e3o tinha visto ningu\u00e9m com aquela linguagem de guitarra e de cantar. Fiquei bem interessado: antes mesmo do Frejat sair do Bar\u00e3o, eu tinha recebido um v\u00eddeo do Suricato num camarim cantando \u201cFlores do Mal\u201d, uma m\u00fasica minha e do Frejat. Achei legal, mas isso foi um ano antes do Frejat sair, a\u00ed que o Maur\u00edcio foi lembrar do nome dele. Na hora, topamos, at\u00e9 porque o Suricato tem uma rela\u00e7\u00e3o afetiva com o Bar\u00e3o. Ele est\u00e1 chegando agora, mas j\u00e1 ama o Bar\u00e3o desde crian\u00e7a, os irm\u00e3os mais velhos compravam os discos, ouviam juntos em casa. Quando ele chega na banda, como cantor, decidimos dar a camisa 10 para ele, para cantar e tocar guitarra ali junto com o Fernando. E ele fala: meu time de cora\u00e7\u00e3o \u00e9 o Bar\u00e3o Vermelho. Essa afetividade tamb\u00e9m soma para gente criar uma rela\u00e7\u00e3o e as coisas come\u00e7arem a funcionar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_70351\" aria-describedby=\"caption-attachment-70351\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-70351 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/barao2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"519\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/barao2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/barao2-300x208.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-70351\" class=\"wp-caption-text\"><em>A biografia &#8220;Bar\u00e3o Vermelho: Por Que A Gente \u00c9 Assim&#8221; foi lan\u00e7ada em 2007; O box com tr\u00eas DVDs que re\u00fane o &#8220;Ac\u00fastico MTV 1991&#8221;, o &#8220;Balada MTV 1999&#8221; e o &#8220;MTV ao Vivo 2005&#8221; saiu em 2006<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para comemorar esses 40 anos, voc\u00eas est\u00e3o lan\u00e7ado um especial com quatro partes: \u201cAc\u00fastico\u201d, \u201cBlues &amp; Baladas\u201d, \u201cSucessos\u201d e \u201cCl\u00e1ssicos\u201d. Como foi chegar nesse formato, at\u00e9 porque tem um monte de blues do Bar\u00e3o que s\u00e3o cl\u00e1ssicos, como \u00e9 que funcionou isso?<\/strong><br \/>\nN\u00f3s come\u00e7amos pelo \u201cAc\u00fastico\u201d, foi algo que a gente sempre teve vontade de fazer. Chegamos a fazer um piloto h\u00e1 30 anos para a MTV, mas que nunca foi lan\u00e7ado como um disco de carreira\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00f3 saiu como DVD, n\u00e9?<\/strong><br \/>\n\u00c9, exatamente, chegou a sair num box que tinha esse pequeno Ac\u00fastico para a MTV, mas sent\u00edamos que ainda quer\u00edamos ter um disco nesse formato, ainda mais para aproveitar o talento do Suricato com os instrumentos de corda. Sab\u00edamos que ia vir um resultado bom desse encontro da obra do Bar\u00e3o com a sonoridade ac\u00fastica. Os primeiros ensaios foram ac\u00fasticos, e quanto tudo engrenou, percebemos que poder\u00edamos fazer quatro discos, trazendo o repert\u00f3rio do Bar\u00e3o da forma mais abrangente o poss\u00edvel para os dias de hoje. Se voc\u00ea fizer uma compara\u00e7\u00e3o n\u00famerica, a gente deve ter gravado em torno de 150 m\u00fasicas nesses 40 anos. Nesses quatro discos, temos 26 m\u00fasicas, \u00e9 um sexto de tudo que a gente fez. Sempre vai ser pouco, mas dentro do consenso e do bom exerc\u00edcio democr\u00e1tico, fomos conseguindo achar as m\u00fasicas que combinavam com cada tema e constru\u00edmos esse produto. Al\u00e9m dos discos, esse especial tamb\u00e9m virou uma s\u00e9rie do Canal Bis, chamada \u201cBar\u00e3o 40\u201d, com quatro epis\u00f3dios. E n\u00f3s vamos levar para a estrada esse material todo, ficamos muito felizes com o resultado. \u00c9 um momento maduro do Bar\u00e3o \u2013 mas tamb\u00e9m, se n\u00e3o estivesse maduro com 60 anos, ia ser demais, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 verdade\u2026<\/strong><br \/>\nE acho que as m\u00fasicas foram muito bem defendidas, n\u00e3o tem exibicionismo de ningu\u00e9m, tocamos para elas soarem grandiosas, bacanas. Tem v\u00e1rios arranjos novos, como o de \u201cMaior Abandonado\u201d na vers\u00e3o ac\u00fastica, bem diferente do original, mas poderoso, ainda mais com a participa\u00e7\u00e3o de Samuel Rosa. Outra foi \u201cPor Voc\u00ea\u201d, que tem o Chico C\u00e9sar e o Marcelo Caldi, no acorde\u00e3o. Os dois fizeram uma coisa de louco, levaram a m\u00fasica para outra esfera. Para mim, \u00e9 uma das grandes p\u00e9rolas desse encontro dos 40 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m do Samuel Rosa e do Chico C\u00e9sar, que voc\u00ea j\u00e1 citou, tem outras participa\u00e7\u00f5es nesse especial: o Frejat e a Jade Baraldo. Como foi convidar esses dois nomes? Foi tudo bem com o Frejat?<\/strong><br \/>\nO Frejat foi o primeiro nome que n\u00f3s pensamos. Pela hist\u00f3ria dele no grupo e tamb\u00e9m para mostrar que n\u00e3o havia nenhuma rusga entre n\u00f3s. Foi muito importante, generoso da parte dele ter aceitado, de certa forma ele avaliza essa nova forma\u00e7\u00e3o. E foi ele que escolheu a m\u00fasica, \u201cPro Dia Nascer Feliz\u201d, um grande hit dele. J\u00e1 o Samuel veio porque a gente queria ter algu\u00e9m da gera\u00e7\u00e3o posterior ao Bar\u00e3o \u2013 e isso ficou muito claro porque ele diz que n\u00f3s somos professores dele, quando ele ouviu \u201cMaior Abandonado\u201d no r\u00e1dio ele (percebeu que) teria chance de fazer can\u00e7\u00f5es em portugu\u00eas. Parece que foi um chamado para ele, ent\u00e3o foi muito bonito ter ele nessa nova vers\u00e3o. O Chico C\u00e9sar \u00e9 um craque da MPB, eu gosto dele desde o \u201cMama \u00c1frica\u201d, e ele tem uma atitude rock\u2019n\u2019roll nas redes sociais, batalhando as ideias dele, ent\u00e3o isso se comunicava muito com o Bar\u00e3o. A gente sempre prezou pela atitude, pela poesia, pela liberdade, isso sempre foi claro nas m\u00fasicas do Bar\u00e3o. E ele nos deu uma surpresa em \u201cPor Voc\u00ea\u201d. A\u00ed faltava uma mulher. A gente chegou a convidar a Paula Toller, mas ela estava ocupada nas datas que a gente ia gravar. E a\u00ed fomos pensando, at\u00e9 que o Suricato sugeriu a Jade Baraldo, que estava crescendo em popularidade, no trabalho dela. Eu n\u00e3o a conhecia, mas foi uma \u00f3tima surpresa. Achei que ficou muito parecido com aquele encontro dos Stones com a Christina Aguilera, que foi maravilhosa, ela mostra a calcinha ali cantando, p\u00f4, achei aquilo rock\u2019n\u2019roll demais. E depois \u00e9 que eu soube que a Jade foi a Bete Balan\u00e7o no musical \u201cCasas de Cazuza\u201d. As coisas foram se fechando, dando certo, e estamos a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dos quatro especiais, o primeiro \u00e9 o \u201cAc\u00fastico\u201d. O Bar\u00e3o tem \u00f3timos momentos ac\u00fasticos, mas acho que a marca do Bar\u00e3o s\u00e3o guitarras muito altas. Por que come\u00e7ar com o Ac\u00fastico? Foi de prop\u00f3sito?<\/strong><br \/>\nFoi. A gente tinha esse desejo do \u00e1lbum \u201cAc\u00fastico\u201d h\u00e1 muitos anos e sabia que ia rolar coisa boa. Na turn\u00ea, n\u00e3o d\u00e1 para fazer todo o show ac\u00fastico, mas vamos embutir o set ac\u00fastico dentro do show el\u00e9trico. Acho que vai ser uma surpresa para o p\u00fablico, mas depois a gente volta para o el\u00e9trico para dar aquela arrancada final, terminar o show l\u00e1 em cima. N\u00e3o tem como descalibrar o Bar\u00e3o, n\u00e3o tem por que esvaziar esse pneu.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bar\u00e3o Vermelho - Bete Balan\u00e7o (Acustico)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LqM5bTDq1-s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A gente falou bastante do \u201cAc\u00fastico MTV\u201d, que nunca saiu direito. Por que n\u00e3o saiu? Foi culpa da MTV?<\/strong><br \/>\nVou explicar: quando a Warner nos procurou, dizendo que a MTV queria fazer um \u201cAc\u00fastico MTV\u201d com a gente, n\u00f3s est\u00e1vamos fazendo dez anos de banda, de rock\u2019n\u2019roll. A gente n\u00e3o queria fazer uma turn\u00ea ac\u00fastica bem nessa marca. Achamos que isso ia matar a banda, p\u00f4, o Bar\u00e3o \u00e9 uma banda de guitarras. E a\u00ed n\u00f3s recusamos a oportunidade de lan\u00e7ar o disco naquela \u00e9poca. A\u00ed veio Gilberto Gil, Tit\u00e3s, todo mundo fez, maior sucesso, e o Bar\u00e3o ficou afastado porque a gente recusou. Era para o Bar\u00e3o ser o primeiro, mas poxa, comemorar dez anos de guitarra com um show ac\u00fastico no banquinho? Ia ser decretar a morte. Ent\u00e3o a gente fugiu do \u201cAc\u00fastico MTV\u201d, mas acabamos fazendo o programa. Fizemos uns tr\u00eas ou quatro ensaios, bolamos aqueles arranjos tipo \u201cBete Balan\u00e7o\u201d meio latino (assista acima), em que eu toco timbale, foi um show legal. Quem assistiu \u00e0 grava\u00e7\u00e3o curtiu demais. Virou um programa da MTV que foi exibido e acabou. Mas n\u00e3o foi algo pensado, a gente fez como se fosse ali jogar uma pelada na casa do Chico Buarque, s\u00f3 treinamos uma jogadinha e fomos. N\u00e3o investimos naquilo para ser um disco, n\u00e3o foram arranjos pensados, estudados, diferentemente desse \u201cAc\u00fastico\u201d de agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma coisa que chama a aten\u00e7\u00e3o na carreira do Bar\u00e3o Vermelho \u00e9 que, diferentemente de outras bandas brasileiras dos anos 1980, voc\u00eas fizeram um interc\u00e2mbio muito intenso com outros grupos. Voc\u00eas t\u00eam parcerias ou gravaram m\u00fasicas dos Tit\u00e3s, dos Paralamas, do Engenheiros, do Renato Russo\u2026 jogavam bola com todo mundo. Por que \u00e9 que voc\u00eas s\u00e3o assim?<\/strong><br \/>\nAcho que a nossa gera\u00e7\u00e3o do rock fez muito pouco esse exerc\u00edcio de frequentar as outras bandas. Sempre uma banda falava mal da outra, p\u00f4. Mas foi o seguinte: quando o Cazuza saiu do Bar\u00e3o, houve uma generosidade muito grande por parte dos outros membros de bandas, de quem escrevia, tinha facilidade com a palavra. Eles nos ofereceram m\u00fasicas, Frejat tamb\u00e9m procurou alguns m\u00fasicos, para a gente se resguardar de que o nosso primeiro disco sem o Cazuza n\u00e3o teria um decl\u00ednio na parte de texto. A gente tinha algumas m\u00fasicas com ele, mas ele levou v\u00e1rias para o primeiro trabalho solo, ficamos meio capengas, ent\u00e3o corremos atr\u00e1s. Eu fiz \u201cTorres de Babel\u201d e \u201cDeclare Guerra\u201d com o Ezequiel Neves, o Frejat pediu letra para o Arnaldo Antunes em \u201cEu T\u00f4 Feliz\u201d, que \u00e9 um funk genial, depois ele continuou a parceria com o Arnaldo em \u201cQuem Me Olha S\u00f3\u201d, um blues lindo. O Ant\u00f4nio C\u00edcero deu uma letra pra gente no \u201cDeclare Guerra\u201d, que se chama \u201cBagatelas\u201d, s\u00f3 mesmo um poeta da Academia Brasileira de Letras para usar uma palavra dessas. O Renato Russo passou \u201cBoomerang Blues\u201d pra gente, n\u00f3s fomos os primeiros a lan\u00e7ar\u2026 enfim, as pessoas foram generosas conosco. E junto a isso, come\u00e7amos a ganhar tempo para criar autonomia e andar sem o Cazuza, come\u00e7amos a ter uma abertura muito grande de letristas, tem J\u00falio Barroso, at\u00e9 mesmo a Clarice Lispector a gente musicou em \u201cQue Deus O Venha\u201d. A gente busca substituir essa qualidade de texto do Cazuza, de uma forma mais diversificada, at\u00e9 que eu comece a escrever. Quando a gente chega na fase do \u201cSupermercados da Vida\u201d, do \u201cCarnaval\u201d, eu j\u00e1 estou bem forte nessa parte de letra. Ali, a gente mostra para o Cazuza que a gente ia sobreviver, fazendo coisas com a nossa assinatura. Eu lembro do Cazuza ir no [est\u00fadio] Nas Nuvens quando a gente estava gravando o \u201cNa Calada da Noite\u201d, ele ouviu tudo, ouviu \u201cT\u00e3o Longe de Tudo\u201d, lembro dele falar: \u201cporra Guto Goffi, que letra linda do caralho\u201d. \u201cSonhos pra Voar\u201d ele tamb\u00e9m adorou. E a partir dali a gente ganhou autonomia para fazer nossas m\u00fasicas, sem aquela sombra do poeta genial que era o Cazuza, e o neg\u00f3cio flui.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Tit\u00e3s &amp; Bar\u00e3o Vermelho - [1988] Juntos (24\/12\/1988)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IDp-UZae6d4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Desses 40 anos, qual foi o momento mais dif\u00edcil da hist\u00f3ria do Bar\u00e3o? Imagino que seja a sa\u00edda do Cazuza\u2026<\/strong><br \/>\nCara, o o momento mais dif\u00edcil foi esse momento de hiato, em que a gente ficou parado e sem saber como mexer essa roda de novo para funcionar, j\u00e1 que a nossa exist\u00eancia estava muito atrelada \u00e0 disponibilidade do Frejat. A partir do momento que ele diz que vai sair, foi uma carta de alforria, ficamos livres para correr atr\u00e1s do que a gente queria. Acredito que esses momentos de p\u00e3o e \u00e1gua, para mim, s\u00e3o os mais tristes, as sa\u00eddas do Cazuza e do Frejat. Agora, por exemplo, se a sa\u00edda do Cazuza n\u00e3o tivesse acontecido, eu jamais teria me tornado letrista e teria feito a quantidade de letras que fiz depois que ele saiu do Bar\u00e3o. O Frejat n\u00e3o teria se tornado cantor. E o bacana disso tudo \u00e9 que se hoje o Cazuza e o Ezequiel estivessem a\u00ed, eles estariam participando dessa comemora\u00e7\u00e3o dos 40 anos. A gente construiu uma amizade muito boa dentro desse grupo, uma irmandade, uma fam\u00edlia mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00ea acha que o Cazuza estaria fazendo hoje? Tem muita gente que fica conjecturando que se\u00a0 estivesse vivo, ele votaria no Bolsonaro, ia apoiar a Lava-Jato\u2026 O que voc\u00ea acha que ele ia estar aprontando hoje?<\/strong><br \/>\nJamais, cara! O Cazuza era um cara que combatia a caretice! Ele jamais estaria aliado a uma extrema-direita ou a gente que gosta de viol\u00eancia, que defende armas e guerras. O Cazuza era o oposto disso. Ele era um poeta, um pensador social. Voc\u00ea v\u00ea as letras dele depois que ele sai do Bar\u00e3o, s\u00e3o letras pol\u00edticas, o poder de observa\u00e7\u00e3o dele da nossa sociedade. Ele provocava, ele conseguiu mexer com muita coisa. N\u00e3o conseguiu dinamitar a caretice, \u00e9 muito dif\u00edcil porque o Brasil \u00e9 um pa\u00eds muito conservador, a arte est\u00e1 na m\u00e3o da elite rica. S\u00e3o as pessoas que mexem a arte e s\u00e3o pessoas que n\u00e3o gostam de grandes mudan\u00e7as, s\u00e3o pessoas conservadoras. Mas o Cazuza estaria no front ainda, fazendo m\u00fasicas lindas. Ele poderia estar at\u00e9 cantando no Bar\u00e3o, sei l\u00e1, se ele enchesse o saco de cantar solo e decidisse voltar para o Bar\u00e3o. Esses dias, eu comentei com a Lucinha [Ara\u00fajo, m\u00e3e de Cazuza] que ele foi um cara muito precoce em tudo. A impress\u00e3o que eu tenho da passagem dele pelo Bar\u00e3o \u00e9 que foi um cometa, um meteoro. Tudo nele foi precoce: a descoberta da homossexualidade, o envolvimento com drogas, a passagem dele no Bar\u00e3o foi muito urgente, depois a partida para carreira solo. E eu comentei com a Lucinha disso: \u201cser\u00e1 que ele n\u00e3o sabia que o tempo dele ia ser m\u00ednimo aqui na Terra?\u201d. Poxa, eu j\u00e1 vivi quase o dobro do que ele. Eu fiz 60 anos, ele morreu com 33. D\u00e1 uma ang\u00fastia pensar sobre isso, um rapaz que foi ceifado da vida. Tem uma coisa muito s\u00e9ria, muito forte, mas ele conseguiu dizer muita coisa no pouco tempo que esteve aqui, porque ele era um ser iluminado, superior, tinha toda uma coisa\u2026 A escola da vida ele j\u00e1 sabia, n\u00e3o precisava ficar aqui sofrendo para aprender.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bar\u00e3o Vermelho - Rock in Rio -15.01.1985. (Show Completo.).\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8bbsCPKLnUM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pelo lado oposto, qual \u00e9 o momento que voc\u00ea tem mais carinho da hist\u00f3ria do Bar\u00e3o, algo que voc\u00ea gostaria de voltar a viver todos os dias?<\/strong><br \/>\nO momento de maior felicidade e intensidade \u00e9 esse in\u00edcio do Bar\u00e3o, com Cazuza, Frejat, D\u00e9, Maur\u00edcio, a gente ali o tempo todo juntos, numa nave que a gente n\u00e3o sabia para onde ia, mas tamb\u00e9m n\u00e3o importava. A gente estava naquele sonho juntos, vivendo as descobertas juvenis, tendo uma banda de rock, a gente tinha 18 anos, o Cazuza tinha 23, o D\u00e9 com 15 para 16. Arrisco a dizer que foi a melhor \u00e9poca das vidas de todos n\u00f3s, do Cazuza, do Frejat, do D\u00e9, minha, at\u00e9 do Ezequiel, do M\u00e1rio Almeida, que era o nosso empres\u00e1rio. Era um momento de muita luz para todo mundo, irradiava, acho dif\u00edcil algu\u00e9m ter tido momentos melhores do que aqueles. Mas para mim, esse momento agora tamb\u00e9m \u00e9 muito bom. Conseguir ver o Bar\u00e3o crescendo de novo, o trabalho que estamos fazendo desde 2017, levando nossa mensagem nessa terceira forma\u00e7\u00e3o, fico muito satisfeito de ver isso. O que eu quero \u00e9 s\u00f3 isso: morrer feliz, n\u00e9? O dia que chegar meu dia, eu vou poder dizer que fiz parte do sonho juvenil que se consagrou ao longo dos anos, pude viver e criar meus filhos com o dinheiro que a gente ganhou tocando m\u00fasica, com a profiss\u00e3o que eu escolhi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os Stones s\u00e3o uma das grandes inspira\u00e7\u00f5es do Bar\u00e3o. Se antes a gente n\u00e3o imaginava o Mick Jagger e o Keith Richards com 80 anos em cima de um palco, hoje eles est\u00e3o a\u00ed para provar o contr\u00e1rio. Sua meta \u00e9 chegar aos 80 tocando, que nem os dois?<\/strong><br \/>\nHonestamente? Maior inveja, se Deus me der essa oportunidade\u2026 mas acredito que eu n\u00e3o tenha esse f\u00f4lego todo n\u00e3o, de morrer com 80 anos tocando bateria. O Suricato j\u00e1 me perguntou isso, se eu aguento at\u00e9 os 80. Eu falei que se for tocando Bossa Nova, tocando com vassourinha, at\u00e9 d\u00e1. Mas o rock\u2019n\u2019roll, nessa pegada visceral, exige muito fisicamente da gente, de todo mundo que est\u00e1 na estrada. Hoje eu s\u00f3 viajo para os shows um dia antes. Se tem show em Porto Alegre no s\u00e1bado, na sexta eu j\u00e1 viajo, durmo e acordo l\u00e1, tomo caf\u00e9, fa\u00e7o uma boa prepara\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tenho mais aquele pique de acordar 4h30 da manh\u00e3, ir para o Gale\u00e3o, pegar v\u00f4o, chegar 11h da manh\u00e3 em Porto Alegre, fazer r\u00e1dio, almo\u00e7ar, passar som e chegar inteir\u00e3o para o show \u00e0s 0h. N\u00e3o tenho mais essa gasolina toda, mas com algumas precau\u00e7\u00f5es e carinho d\u00e1 para ir tocando bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem que fazer academia?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, eu n\u00e3o fa\u00e7o academia, mas procuro me alimentar bem, n\u00e3o exagerar muito nas drogas tamb\u00e9m, n\u00e9? Uma coisa evolu\u00edda, uma rela\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel com a bebida e com outras coisas, para poder ter um pouco de f\u00f4lego. O rock\u2019n\u2019roll \u00e9 que nem futebol de sal\u00e3o: \u00e9 correria, meu irm\u00e3o. Tem que correr, pegar a bola, marcar, receber, ir l\u00e1 fazer o gol, voltar correndo porque o outro time vai atacar. \u00c9 fren\u00e9tico, ent\u00e3o que estar bem de sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Bar\u00e3o sempre foi uma banda que teve muitos problemas com gravadoras, muitas tretas, at\u00e9 \u201cDeclare Guerra\u201d \u00e9 um pouco sobre isso. Nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, voc\u00eas tem organizado seus lan\u00e7amento por uma empresa de voc\u00eas, a NBV. Como \u00e9 viver essa fase em que voc\u00eas s\u00e3o donos da pr\u00f3pria carreira?<\/strong><br \/>\n\u00c9 muito bom. Eu fico satisfeito de ter feito parte da ind\u00fastria, foi uma escola para n\u00f3s, ter gravado na Som Livre, depois na Warner, mas realmente, ter agora a oportunidade de escolher os caminhos, viabilizar a entrada de capital para bancar determinado projeto, tudo isso \u00e9 muito bom. O bom da gravadora \u00e9 o que? A grana que eles p\u00f5e e os caras que est\u00e3o l\u00e1 e dizem que s\u00e3o especialistas em vender m\u00fasica, em criar sucesso. Mas na verdade, \u00e9 o dinheiro que faz isso. \u00c9 o investimento, \u00e9 a gravadora chegar e te levar no shopping para comprar umas roupas, te levar nos programas. O artista recebia um suporte que nunca teve. Mas a gente est\u00e1 mais vivido e tem dentro da nossa empresa o recurso para fazer os projetos andarem. Nesse nosso projeto, tivemos aporte de investidores, \u00e9 um mecenato, que \u00e9 uma coisa que a arte precisa muito. E tamb\u00e9m precisamos de apoio do governo, das leis de incentivo p\u00fablicas, a a arte precisa desse dinheiro. Fico muito feliz de ter pessoas que gostam do Bar\u00e3o e chegam junto para nos ajudar a realizar as coisas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_70352\" aria-describedby=\"caption-attachment-70352\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-70352 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/barao2022.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"556\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/barao2022.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/barao2022-300x222.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-70352\" class=\"wp-caption-text\"><em>Bar\u00e3o 2022: Mauricio Barros, Rodrigo Suricato, Guto Goffi e Fernando Magalh\u00e3es<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Guto, se voc\u00ea fosse para uma ilha deserta, quais seriam os cinco discos que voc\u00ea levaria com voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nMeu Deus, que pergunta dif\u00edcil\u2026 Eu tenho que escolher um dos Beatles. Adoro um monte de gente, mas n\u00e3o tem como n\u00e3o levar um dos Beatles. Vou levar um do Martinho da Vila, o \u201cMaravilha de Cen\u00e1rio\u201d, que eu adorava. Foi o primeiro disco que eu comprei quando era crian\u00e7a, a capa do Elifas Andreato. Vou levar o \u201cConstru\u00e7\u00e3o\u201d, do Chico Buarque, que eu ouvi muito, furei o disco mesmo. \u201cOs Saltimbancos\u201d, um disco da minha inf\u00e2ncia que tem muita import\u00e2ncia para mim. O dos Beatles, qual eu ponho? Vou de \u201c\u00c1lbum Branco\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 bom que \u00e9 duplo, voc\u00ea ganha mais m\u00fasicas\u2026<\/strong><br \/>\nHehehe, \u00e9 verdade. E pra fechar, o \u201cSelling England By the Pound\u201d, do Genesis. Mas p\u00f4, \u00e9 dif\u00edcil, tem o \u201cSynchronicity\u201d, do Police, o \u201cOne Man Dog\u201d, do James Taylor, discos do Bob Dylan. Cinco discos \u00e9 sacanagem, p\u00f4, tem o \u201cSecos e Molhados\u201d, que eu tamb\u00e9m quase furei, eu ouvia muito na adolesc\u00eancia, no playground, com vitrolinha. Tem muitos discos brasileiros que para mim s\u00e3o emblem\u00e1ticos, e depois \u00e9 que vem o rock para mim. Primeiro com Yes, Triumvirat, Emerson Lake &amp; Palmer, o pr\u00f3prio Kraftwerk, eu gostava disso em 1976, p\u00f4. Coisas precoces, o Led Zeppelin, o Pink Floyd, fora os caras de sempre, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, n\u00e3o d\u00e1 para esquecer essa galera. P\u00f4, da pr\u00f3xima vez voc\u00ea tem que me avisar antes ao fazer essa pergunta.<\/p>\n<figure id=\"attachment_70354\" aria-describedby=\"caption-attachment-70354\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-70354 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/barao1982.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"550\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/barao1982.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/barao1982-300x220.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-70354\" class=\"wp-caption-text\"><em>Bar\u00e3o 1982: Frejat, Guto Goffi, Cazuza, Mauricio Barros e D\u00e9 Palmeira<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vou continuar sacaneando, ent\u00e3o: para um adolescente de 12, 13 anos, que est\u00e1 come\u00e7ando a descobrir que bateria \u00e9 legal, eu queria que voc\u00ea indicasse cinco nomes para ouvir.<\/strong><br \/>\nVamos l\u00e1: para mim, o maior baterista de todos os tempos foi o Buddy Rich, um baterista de jazz, animal, um virtuoso. Ele come\u00e7ou desde os 2, 3 anos de idade. Ele tinha pais que eram atores, m\u00fasicos, ele sapateava j\u00e1 com 3 anos, e levou aquele rudimento de sapateado para a bateria, \u00e9 um assombro. O Gene Krupa, tamb\u00e9m, o Carl Palmer foi um baterista que eu curti demais. Tem um baterista brasileiro que eu me amarro, que \u00e9 meu amigo, o Robertinho Silva, um grande m\u00fasico. E pra fechar, o Billy Cobham. Tem muitos ritmistas fant\u00e1sticos\u2026 <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/07\/07\/especial-ringo-starr-80-anos-por-joao-barone\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">p\u00f4, precisa colocar o Ringo!<\/a> No especial dos Beatles, o \u201cGet Back\u201d, eu fiquei muito impressionado com o Ringo. A aus\u00eancia dele respeita os outros\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ele deixa os outros brigarem em paz!<\/strong><br \/>\n\u00c9. Depois, ele sobe ali no telhado, meu irm\u00e3o, ele entra e toca de uma maneira linda. Um dos outros vem sugerir que ele fa\u00e7a uma batidinha, ele aceita e j\u00e1 sai tocando. P\u00f4, o cara j\u00e1 sabia tudo que ia tocar! \u00c9 um baterista que tem esse estigma, ele e o Charlie Watts, muita gente acha que eles n\u00e3o s\u00e3o bons bateristas. Mas cara, a bateria n\u00e3o \u00e9 um instrumento de solo, as pessoas tem que entender que a fun\u00e7\u00e3o da bateria \u00e9 dar o ritmo para a banda levar a can\u00e7\u00e3o. Do in\u00edcio ao fim, os os bateristas que mais trabalham hoje s\u00e3o os que fazem isso, os que funcionam como um metr\u00f4nomo. Ele entra na m\u00fasica, toca, assina o nome, pega o dinheiro e vai. Agora, os caras que ficam fazendo virada pra caramba, p\u00e1 e n\u00e3o sei o qu\u00ea, esses trabalham pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Guto, pra gente fechar planos de 2022, o que que vem por a\u00ed nos pr\u00f3ximos meses? Al\u00e9m do Flamengo campe\u00e3o, \u00e9 claro (a entrevista foi feita antes da final da Copa do Brasil contra o Corinthians)\u2026<\/strong><br \/>\nO Flamengo \u00e9 uma grande paix\u00e3o minha, nossa, o Rodrigo Santos tamb\u00e9m adora. O Frejat \u00e9 Flamengo, o Cazuza era Flamengo. O que eu desejo mesmo \u00e9 que a nossa banda, o Bar\u00e3o, tenha caminho livre para andar, que a gente tenha sa\u00fade, se harmonize bem para ter prazer juntos na estrada. Desejo que a gente tenha grandes noites juntos e possa celebrar com o nosso p\u00fablico, reunindo essa tribo de novo para festejar conosco.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Amor Meu Grande Amor\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/g-2kKfWraWg?list=OLAK5uy_mbvqdoAy4_Z6cHMNS0ciKfweuA0pRZ2Oc\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas)<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista. Apresenta o\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/indieeldorado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>, na Eldorado FM, e escreve a newsletter\u00a0<a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais<\/a>. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Quarenta anos de estrada \u2013 e muitos outros vir\u00e3o, se a sa\u00fade permitir. Esse \u00e9 o esp\u00edrito por tr\u00e1s de \u201cBar\u00e3o 40\u201d, projeto que comemora as quatro d\u00e9cadas de exist\u00eancia da banda carioca Bar\u00e3o Vermelho.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/10\/24\/entrevista-guto-goffi-festeja-40-anos-de-barao-vermelho-com-lancamento-quadruplo-e-fala-sobre-cazuza-frejat-suricato-e-tocar-ate-os-80\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":70350,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4167],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70349"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70349"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70349\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":70363,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70349\/revisions\/70363"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70350"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70349"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}