{"id":69853,"date":"2022-09-26T00:03:00","date_gmt":"2022-09-26T03:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=69853"},"modified":"2022-10-20T18:33:07","modified_gmt":"2022-10-20T21:33:07","slug":"cinema-a-mulher-rei-une-acao-violencia-e-reflexao-cultural-e-historica-sobre-a-questao-escravocrata-e-patriarcal-na-africa-do-seculo-xvii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/09\/26\/cinema-a-mulher-rei-une-acao-violencia-e-reflexao-cultural-e-historica-sobre-a-questao-escravocrata-e-patriarcal-na-africa-do-seculo-xvii\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;A Mulher Rei&#8221; une a\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e reflex\u00e3o hist\u00f3rica sobre a quest\u00e3o patriarcal e escravocrata na \u00c1frica do s\u00e9culo XVII"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-69855 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/mulher2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"741\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/mulher2.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/mulher2-202x300.jpg 202w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante a semana que precedeu a estreia no Brasil de \u201cA Mulher Rei\u201d (\u201cThe Woman King\u201d, 2022), novo filme de Gina Prince-Bythewood (do tocante \u201cA Vida Secreta das Abelhas\u201d, 2008), alguns coment\u00e1rios na terra quase sem lei chamada internet tentavam menosprezar a import\u00e2ncia da obra, muitos deles criando a falsa ideia de que seria improv\u00e1vel que, nos vigilantes tempos atuais, algu\u00e9m ousasse falar mal de um filme estrelado por um elenco majoritariamente formado por mulheres, sendo todas elas negras, tendo Viola Davis como protagonista, e abordando a luta pela posi\u00e7\u00e3o feminina na sociedade patriarcal na, explorada pelo tr\u00e1fico de escravos, \u00c1frica do s\u00e9culo XVII.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A leitura desses coment\u00e1rios antes da sess\u00e3o poderia levar a uma ideia pr\u00e9-estabelecida seguindo essa presun\u00e7\u00e3o absurda de que uma obra de arte n\u00e3o pode ser julgada pelos seus m\u00e9ritos e defeitos nos anos em que o a &#8220;cultura do cancelamento&#8221; se tornou o novo fator de amea\u00e7a a reputa\u00e7\u00f5es. Felizmente, \u201cA Mulher Rei\u201d \u00e9 um filme que fica acima desse tipo de amea\u00e7a fr\u00edvola. O documento hist\u00f3rico que esse trabalho representa vai al\u00e9m disso. Trata-se, precisamente, de um marco para o cinema e delineia o norte que ele precisa seguir em termos tanto de oportunidades quanto de foco na real Hist\u00f3ria que necessita estar distante de negacionistas que tentam reescrev\u00ea-la \u00e0 sua conveni\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito isso, o adentrar no longa que representa o papel da vida de Davis nos traz uma constata\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel unir a um drama hist\u00f3rico com reflex\u00f5es reais que reverberam nos dias atuais, sequ\u00eancias de viol\u00eancia gr\u00e1fica em lutas coreografadas de modo preciso, al\u00e9m de uma estrutura de roteiro que abrange bem o desenvolvimento de seus personagens centrais, criando empatia, mas trazendo uma an\u00e1lise cr\u00edtica de suas atitudes. Na hist\u00f3ria, a general Nanisca (Davis), l\u00edder da unidade Agojie, formada por guerreiras que protegiam o reino africano de Dahomey, tem sua autoridade e equil\u00edbrio como l\u00edder questionados por si mesma quando seu ex\u00e9rcito inicia uma nova leva de treinamentos de promissoras guerreiras, dentre elas, Nawi (Thuso Mbedu), jovem que se recusa a aceitar preceitos machistas em sua fam\u00edlia e \u00e9 entregue pelo pai \u00e0s For\u00e7as Reais. Em paralelo, em risco de ver o reino que protege se amea\u00e7ado por guerreiros rivais, Nanisca mant\u00e9m a ofensiva de sua unidade. Por\u00e9m, o reconhecimento de um passado de brutalidade volta para assombr\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como retrato hist\u00f3rico, \u201cA Mulher Rei\u201d n\u00e3o esconde o fato de que o pr\u00f3prio reino de Daom\u00e9 era conivente com o tr\u00e1fico de escravos, uma vez que o filme traz momentos nos quais vemos a general, em reuni\u00e3o com o Rei Ghezo (John Boyega, vivendo um personagem que nos faz lembrar da cultura patriarcal ainda evidente ali), citar que eles mesmos venderam prisioneiros como escravos. A discuss\u00e3o da obra segue por esse reconhecimento do erro, mantendo para seu desfecho a previs\u00edvel, mas n\u00e3o menos emocionante, constata\u00e7\u00e3o da necessidade de mudan\u00e7a. Mas \u00e9 culturalmente em seu foco voltado para aspectos da raiz africana de seu povo que os pequenos detalhes da hist\u00f3ria escrita pela atriz Maria Bello (de \u201cMarcas da Viol\u00eancia\u201d, 2005, jovem cl\u00e1ssico de Cronenberg) e Dana Stevens (roteirista de \u201cCidade dos Anjos\u201d, 1997) saltam aos olhos do espectador, como quando vemos citados termos como Ogun e If\u00e1, conhecidos na religi\u00e3o de matriz africana e que se relacionam ao deus protetor daqueles que v\u00e3o \u00e0 guerra e ao or\u00e1culo divinat\u00f3rio, respectivamente.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-69856\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/mulher3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/mulher3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/mulher3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A primeira vez que eu ouvi falar das Agojie foi quando eu comecei a estudar o filme, na verdade. Eu sempre ouvi falar sobre as amazonas. Mas esse \u00e9 um nome vindo de colonizadores. Eu sabia sobre elas, mas bem vagamente&#8221;, explicou Viola Davis, que esteve no Brasil para divulgar o filme ao lado do seu marido, Julius Tennon, com quem produziu a obra. &#8220;Eu venho tentando com tanta vontade e de forma t\u00e3o consciente n\u00e3o usar a palavra &#8216;amazonas&#8217;, mas dar a elas seu nome real, que \u00e9 Agojie. E s\u00f3 houve um \u00fanico livro que encontramos e que as citam, que \u00e9 \u2018The Amazons of Black Sparta\u2019 (escrito pelo historiador Stanley Bernard Alpern), que se tornou nosso livro de refer\u00eancia em pesquisa&#8221;, relembra a atriz ao constatar o modo como a hist\u00f3ria por parte do colonizador sobrep\u00f5e de maneira agressiva a do colonizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA Mulher Rei\u201d, do mesmo modo como fez o fen\u00f4meno \u201cPantera Negra\u201d (2018) h\u00e1 quatro anos, ao dar protagonismo a um elenco majoritariamente formado por atores e atrizes afrodescendentes, se torna uma obra que crava sua import\u00e2ncia dentro do entretenimento, principalmente se levarmos em considera\u00e7\u00e3o o sucesso de p\u00fablico que a primeira semana em cartaz demonstrou \u2013 o filme custou US$ 50 milh\u00f5es e faturou at\u00e9 agora US$ 38 milh\u00f5es, tendo estreado no topo do ranking nos EUA no fim de semana de seu lan\u00e7amento (de 16 a 18 de setembro). Em aspectos cr\u00edticos do filme, essa informa\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 bilheteria se torna desnecess\u00e1ria a esse texto. No entanto, levando-se em considera\u00e7\u00e3o o que foi pontuado em sua abertura, \u00e9 importante que esse fato seja trazido aqui. Principalmente pela quest\u00e3o de que, como entretenimento e aspectos t\u00e9cnicos, o filme dirigido por Gina Prince-Bythewood \u00e9 de um impacto visual impressionante, mesmo possuindo uma estrutura narrativa tradicional e conhecida. E ao fazer-se valer da voz feminina contra aspectos como neglig\u00eancia afetiva e cultura do estupro, pontos trazidos de modo pungente em seu roteiro, sua for\u00e7a se faz ainda maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No aspecto de import\u00e2ncia da obra para as atrizes negras que a protagonizam, Davis traz opini\u00e3o bem contundente sobre o papel do filme nessa luta que visa dar oportunidades iguais a atrizes em Hollywood. &#8220;Elas t\u00eam uma chance de serem vistas de uma maneira que n\u00e3o nos v\u00edamos antes. N\u00e3o temos presen\u00e7a alguma em alguns dos maiores filmes. N\u00e3o estou apenas falando sobre ser vista nas telas, estou falando sobre serem vistas na vida. H\u00e1 muitas ocasi\u00f5es que o nosso poder n\u00e3o \u00e9 visto. Nossa beleza n\u00e3o \u00e9 vista. Nossas complexidades n\u00e3o s\u00e3o vistas. Eu acho que essa \u00e9 uma das raz\u00f5es por que voc\u00ea tem tantas quest\u00f5es que afetam mulheres negras. Porque n\u00e3o somos vistas de modo valoroso. Com as Agojie, elas se v\u00eam de modo valoroso. E esperan\u00e7osamente, de certa maneira, esse filme vai levar mulheres negras a encontrar aquele esp\u00edrito guerreiro que elas t\u00eam dentro de si. &#8220;, acredita Viola Davis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que se refere \u00e0 citada quest\u00e3o financeira de seu retorno como produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, Viola Davis salienta que \u201cA Mulher Rei\u201d pontua: &#8220;\u00c9 muito importante para mulheres negras verem que elas podem liderar as bilheterias mundiais. Que n\u00e3o se faz necess\u00e1rio existir uma presen\u00e7a masculina. Que nem mesmo se faz necess\u00e1rio existir uma presen\u00e7a branca. S\u00e3o apenas elas mesmas. Elas s\u00e3o as \u00fanicas. Elas s\u00e3o o foco&#8221;, finaliza a atriz. Como cin\u00e9filo, testemunhar esses ventos da mudan\u00e7a de uma ind\u00fastria notoriamente racista \u00e9 muito recompensador.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A Mulher Rei | Trailer Oficial | Em breve exclusivamente nos cinemas\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IK1sEiHodZg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ao dar protagonismo a um elenco majoritariamente formado por atores e atrizes afrodescendentes, \u201cA Mulher Rei\u201d se torna uma obra que crava sua import\u00e2ncia dentro do entretenimento\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/09\/26\/cinema-a-mulher-rei-une-acao-violencia-e-reflexao-cultural-e-historica-sobre-a-questao-escravocrata-e-patriarcal-na-africa-do-seculo-xvii\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":69854,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[6332,6331],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69853"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69853"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69853\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":69873,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69853\/revisions\/69873"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69854"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69853"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69853"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69853"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}