{"id":69684,"date":"2022-09-19T17:22:29","date_gmt":"2022-09-19T20:22:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=69684"},"modified":"2022-10-24T02:26:57","modified_gmt":"2022-10-24T05:26:57","slug":"entrevista-tati-bassi-devil-blues-apresentam-o-macumblues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/09\/19\/entrevista-tati-bassi-devil-blues-apresentam-o-macumblues\/","title":{"rendered":"Entrevista: Tati Bassi &#038; Devil Blues apresentam o macumblues"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lvinhas78\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tatidevilblues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tati Bassi &amp; Devil Blues<\/a> \u00e9 uma banda da Grande S\u00e3o Paulo que se prop\u00f5e a fazer o \u201cmacumblues\u201d: um rock \u2019n\u2019 roll coalhado de influ\u00eancias da umbanda e do blues. Como o pr\u00f3prio nome j\u00e1 entrega, a banda tem \u00e0 frente a vocalista Tati Bassi, que concebeu essa mistura e que pretende lev\u00e1-la adiante em shows e grava\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 que, por ora, apenas um single mostra um pouco dessa proposta. \u201cTudo O Que Vai Volta\u201d \u00e9 uma excelente can\u00e7\u00e3o, com alguns ares que lembram a \u201cmistureba\u201d que caracterizou a sonoridade mais interessante do rock brasileiro nos anos 1990. \u00c9 um belo e promissor single, mas chama a aten\u00e7\u00e3o o quanto ele difere de \u201cN\u00e3o Basta Querer\u201d, \u00e1lbum que Tati lan\u00e7ou, ainda sem os Devil Blues, em 2017. Apesar de seus m\u00e9ritos, era um trabalho bastante derivativo da sonoridade que influenciou a cantora \u2013 uma sonoridade pela qual ela mesma confessa n\u00e3o se interessar hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante a pandemia, Tati Bassi escreveu muitas m\u00fasicas, e aos poucos come\u00e7a a registrar essas can\u00e7\u00f5es, na companhia de Willian Navarro (baixo), Carol Vidal (guitarra), L\u00e9c\u00e3o Baptista (atabaque e percuss\u00e3o) e Leos Vibian (bateria). Um single \u00e9 pouco para saber se o macumblues entregar\u00e1 tudo o que pretende, mas a estreia promete.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tati Bassi tamb\u00e9m foi vocalista da banda As Radioativas (com quem lan\u00e7ou o \u00e1lbum \u201cCuidado Garota\u201d, em 2013, pela Baratos Afins). Mas esse \u00e9 o passado, e nessa entrevista para o S&amp;Y, ela fala bastante sobre o presente, e um tiquinho sobre o futuro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Tati Bassi &amp; Devil Blues - Tudo O Que Vai Volta (Official Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SkvfXSxNhcM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A diferen\u00e7a da sonoridade desse \u00faltimo single e seu primeiro disco \u00e9 algo que chama a aten\u00e7\u00e3o de cara. Voc\u00ea j\u00e1 tinha esse som na cabe\u00e7a, e montou a Devil Blues em torno disso, ou essa \u00e9 uma sonoridade de banda, que voc\u00eas todos criaram juntos?<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o, quando eu fiz o meu primeiro disco, eu queria tocar com m\u00fasicos incr\u00edveis. e consegui isso. O Gabriel Guedes, do Pata de Elefante, que produziu, tem o Bocato, o Thiago Petit, um monte de gente foda. S\u00f3 que eu ainda faltava alguma coisa minha. Tinha as m\u00e3os de outras pessoas envolvidas, e n\u00e3o era totalmente algo meu. Quando eu resolvi voltar a fazer um som, que foi em 2019 mais ou menos, eu queria fazer algo totalmente meu, que misturasse os tr\u00eas pilares da minha vida. Eu queria misturar o rock and roll, que foi de onde eu vim; o blues, que foi onde eu aprendi a cantar; e a umbanda, j\u00e1 que eu cresci dentro de terreiro, e tamb\u00e9m foi ela que me trouxe de volta para m\u00fasica. Eu queria os atabaques da umbanda com aquela coisa visceral do rock and roll, e a\u00ed nasceu o macumblues.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Chico Science &amp; Na\u00e7\u00e3o Zumbi tinha o Toca Ogan na percuss\u00e3o. E ele n\u00e3o tem esse nome \u00e0 toa, n\u00e9? Era ogan mesmo (nota: ogan \u00e9 quem toca o atabaque nas giras de umbanda). Embora a percuss\u00e3o da Na\u00e7\u00e3o fosse para um outro lado, ela tinha essa raiz afrobrasileira com uma guitarra suingada, que s\u00e3o dois elementos que eu vejo nesse single. Chico Science tamb\u00e9m foi uma influ\u00eancia para voc\u00ea, de alguma forma?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o diretamente. Mas indiretamente, acho que sim. Eu amo Na\u00e7\u00e3o Zumbi, e para mim, L\u00facio. Maia \u00e9 um dos melhores guitarristas do mundo. Eu sou obcecada, adoro, adoro! Meu top 3 de guitarristas, ali\u00e1s, \u00e9 L\u00facio Maia, Manuel Cordeiro e Gabriel Guedes. Pode ver que Hendrix nem entra (risos). Mas sobre a percuss\u00e3o: o L\u00e9c\u00e3o [Baptista], que toca comigo, \u00e9 ogan, e essa \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que sempre tive: n\u00e3o queria que fosse um percussionista na banda, e sim um ogan, para eu ter a for\u00e7a do terreiro dentro da minha m\u00fasica. Sem isso, eu n\u00e3o ia conseguir ter essa energia que para mim o mais importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou que foi no blues que voc\u00ea aprendeu a cantar. O blues brasileiro tem uma caracter\u00edstica, a meu ver, excessivamente reverente ao blues estrangeiro. Salvo algumas exce\u00e7\u00f5es, quase ningu\u00e9m traz o g\u00eanero para o Brasil: a enorme maioria usa a sonoridade e o imagin\u00e1rio do blues norte-americano, sem nada mais pessoal. Como voc\u00ea separa essa coisa t\u00e3o engessada que o blues brasileiro tem do seu canto e do seu som?<\/strong><br \/>\nEu saio dessa coisa engessada do blues brasileiro porque n\u00e3o gosto dele (risos). \u00c9 exatamente por causa disso. Escrevo sobre a minha realidade, sobre as coisas que vivo e sobre o que sou. Ent\u00e3o n\u00e3o adianta eu me basear no que acontece l\u00e1 fora. A gente tem influ\u00eancias, n\u00e9? Eu tenho Etta James tatuada no meu peito, mas eu n\u00e3o canto Etta James, por exemplo. Nunca vou poder me colocar dentro de uma situa\u00e7\u00e3o do que \u00e9 o blues l\u00e1 fora, sabe? Tento me colocar no que fa\u00e7o aqui, para mim. O que a gente faz no Brasil, musicalmente, \u00e9 t\u00e3o rico e t\u00e3o foda que n\u00e3o perde nada. Fui buscar no blues a sonoridade para trabalhar melhor a minha voz, mas dentro da minha m\u00fasica, quero colocar a brasilidade e quero transformar isso em algo que n\u00e3o ainda n\u00e3o foi feito, e que \u00e9 algo que eu t\u00f4 criando na minha cabe\u00e7a assim. Ent\u00e3o eu saio mesmo desse engessado de um jeito bem consciente e natural. Essa coisa do blues daqui ficar americanizado acho at\u00e9 meio cafona, na verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Noel Andrade gravou um disco com o Blues Et\u00edlicos em que eles regravam composi\u00e7\u00f5es de Ti\u00e3o Carreiro &amp; Pardinho em arranjos entre o blues e o folk. Ficou um trabalho bem interessante. Mas \u00e9 um caso bem fora da curva.<\/strong><br \/>\nSim, \u00e9 muito bom. Se fosse se aproximar do que caras como Robert Johnson e Muddy [Waters] faziam, esses caras do blues do Mississipi, eles contavam as hist\u00f3rias deles, de um jeito parecido com o que os caras da viola caipira faziam aqui, o pessoal do sertanejo de raiz assim. Talvez com essa linguagem a gente se aproximaria mais. Eu tenho uma m\u00fasica meio que pronta com a viola caipira, ali\u00e1s. Uma instrumental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse single \u00e9 parte de um \u00e1lbum?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Eu n\u00e3o vou gravar mais \u00e1lbum. Foi um acordo que fiz com a Monstro! de que eu vou lan\u00e7ar s\u00f3 singles agora. As pessoas n\u00e3o consomem mais um \u00e1lbum inteiro, n\u00e9? Infelizmente. Eu sou da gera\u00e7\u00e3o que pegava os discos e devorava inteiro: sentava para escutar, lia o encarte. As pessoas n\u00e3o fazem mais isso, ent\u00e3o vou na onda do que t\u00e1 sendo feito agora. Eu quero que a minha m\u00fasica chegue pro maior n\u00famero de pessoas poss\u00edvel, ent\u00e3o n\u00e3o adianta eu lan\u00e7ar um \u00e1lbum agora e ningu\u00e9m ouvir. Vou trabalhar de single em single, e depois, l\u00e1 na frente, quem sabe eu fa\u00e7o um apanhado e lan\u00e7o em vinil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou que, no primeiro disco, acabou n\u00e3o conseguindo a sonoridade que voc\u00ea queria. O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo para que esses singles n\u00e3o sofram do mesmo problema?<\/strong><br \/>\nT\u00f4 sendo eu mesma. Eu t\u00f4 buscando pessoas para trabalhar comigo que entendam que o que eu quero passar, porque minha cabe\u00e7a \u00e9 muito doida. Eu n\u00e3o toco nenhum instrumento, mas as composi\u00e7\u00f5es v\u00eam prontas para mim: vem pronta a bateria, a guitarra, vem pronto o baixo\u2026 Ent\u00e3o procuro trabalhar com quem compreenda minha cabe\u00e7a doida, que \u00e9 o caso dos m\u00fasicos que comp\u00f5em a Devil Blues, e tamb\u00e9m busco isso em quem vai fazer a produ\u00e7\u00e3o da m\u00fasica. Eu t\u00f4 fazendo o que eu quero fazer, e acho que \u00e9 por isso que t\u00e1 saindo t\u00e3o de verdade assim. \u201cTudo O Que Vai Volta\u201d \u00e9 uma m\u00fasica que eu tinha gravado, j\u00e1, no quarto aqui de casa, com meu ex-marido, que tamb\u00e9m era produtor. S\u00f3 que a\u00ed eu ficava ouvindo ela, pensando no quanto a letra \u00e9 foda, porque eu escrevi num momento totalmente cagado da minha vida, mas vendo que ela ainda n\u00e3o tava pronta. N\u00e3o tava do jeito que eu queria. Depois que eu voltei para umbanda e tive a certeza de que eu queria colocar isso na minha m\u00fasica, fui revisitar essa can\u00e7\u00e3o e a transformei no que t\u00e1 a\u00ed. Procurei trabalhar com uma produ\u00e7\u00e3o legal, e colocar o que eu queria colocar. Acho que \u00e9 por isso que t\u00e1 assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre a umbanda: nunca foi muito f\u00e1cil para as religi\u00f5es de matriz africana, mas a gente est\u00e1 agora num momento de \u00f3dio e preconceito muito presentes, at\u00e9 porque eles s\u00e3o institucionalmente incentivados. Voc\u00ea v\u00ea a sua m\u00fasica como tamb\u00e9m um ponto de afirma\u00e7\u00e3o e de resist\u00eancia para a sua religiosidade?<\/strong><br \/>\nA religi\u00e3o \u00e9 atacada constantemente, pelo preconceito e por ser de matriz africana. A gente sabe que tem um preconceito racial super envolvido nisso, e que n\u00e3o \u00e9 aceita por isso. Era \u201ca religi\u00e3o dos escravos\u201d, n\u00e9? Ent\u00e3o eles traziam tudo que podiam trazer para a Igreja Cat\u00f3lica para que fossem aceitos, o sincretismo acontecia por causa disso, para ser mais aceito pelos brancos. Ent\u00e3o \u00e9, sim, uma resist\u00eancia a isso, e eu acho que tudo na minha m\u00fasica \u00e9 resist\u00eancia: fazer m\u00fasica no Brasil j\u00e1 \u00e9 resist\u00eancia, fazer m\u00fasica em que voc\u00ea vai misturar uma religi\u00e3o que \u00e9 sempre atacada \u00e9 resist\u00eancia, ser mulher e fazer tudo \u00e9 resist\u00eancia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"TATI DEVIL BLUES - CONVIDADA Slam Resist\u00eancia - AGOSTO 2022\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Doxu381dFZY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Tati Bassi &#038; Devil Blues \u00e9 uma banda da Grande S\u00e3o Paulo que se prop\u00f5e a fazer o \u201cmacumblues\u201d: um rock \u2019n\u2019 roll coalhado de influ\u00eancias da umbanda e do blues.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/09\/19\/entrevista-tati-bassi-devil-blues-apresentam-o-macumblues\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":69686,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[290,6310],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69684"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69684"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69684\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":69687,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69684\/revisions\/69687"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69686"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69684"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69684"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69684"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}