{"id":69372,"date":"2022-09-14T02:06:17","date_gmt":"2022-09-14T05:06:17","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=69372"},"modified":"2022-11-09T23:32:49","modified_gmt":"2022-11-10T02:32:49","slug":"entrevista-de-garcom-a-jornalista-chegando-a-produtor-marcus-preto-revisita-sua-trajetoria-entre-coala-festival-gal-erasmo-tom-ze-e-muito-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/09\/14\/entrevista-de-garcom-a-jornalista-chegando-a-produtor-marcus-preto-revisita-sua-trajetoria-entre-coala-festival-gal-erasmo-tom-ze-e-muito-mais\/","title":{"rendered":"Entrevista: Marcus Preto repassa trajetoria de gar\u00e7om e jornalista a produtor de Coala Festival, Gal, Tom Z\u00e9, Erasmo e muito mais"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><br \/>\ncolaborou <a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante muito tempo, festival de m\u00fasica pop no Brasil precisava de grandes estrelas internacionais para chamar a aten\u00e7\u00e3o e entrar no calend\u00e1rio das pessoas. Mas desde o meio da d\u00e9cada passada, um evento com nome de animal australiano tem mostrado que essa receita pode ser diferente, dando destaque exclusivamente \u00e0 m\u00fasica brasileira. Em 2022, ap\u00f3s tr\u00eas anos de pandemia, o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/09\/13\/cinema-representante-do-brasil-no-oscar-2023-marte-um-e-um-filme-sobre-afeto-apoio-mutuo-e-compreensao-do-outro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Coala Festival<\/a> chega \u00e0 s\u00e9tima edi\u00e7\u00e3o acrescentando novos ingredientes a uma receita que tem sido copiada pelos quatro cantos do Pa\u00eds \u2013 \u00e9 s\u00f3 prestar aten\u00e7\u00e3o no calend\u00e1rio de festivais dos \u00faltimos meses. Entre as novidades, est\u00e3o o primeiro show da carreira de Maria Beth\u00e2nia em um festival, a revaloriza\u00e7\u00e3o de Djavan e a sensa\u00e7\u00e3o Bala Desejo, \u201ccriada\u201d pelo time do pr\u00f3prio evento \u2013 todos programados para se apresentar no Memorial da Am\u00e9rica Latina entre os dias 16 e 18 de setembro de 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por tr\u00e1s desse (e v\u00e1rios outros temperos do Coala) est\u00e1 um nome que passou muito tempo abaixo de manchetes e linhas finas: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/marcuspreto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcus Preto<\/a>. Com passagens pelas reda\u00e7\u00f5es da Revista da MTV, Rolling Stone e Folha de S. Paulo, h\u00e1 dez anos ele trocou as rotativas pela produ\u00e7\u00e3o musical. No caso do Coala, ele divide a curadoria com Gabriel Andrade, um dos \u201cmoleques incr\u00edveis\u201d que criou o festival em 2014. Mas h\u00e1 mais, bem mais, em uma carreira que come\u00e7ou quase por acaso, com \u201cTribunal do Feicibuqui\u201d (2013), pol\u00eamico compacto que uniu Tom Z\u00e9 a Emicida, O Terno e Trupe Ch\u00e1 de Boldo \u2013 na \u00e9poca, Marcus estava fazendo uma biografia do baiano e acabou se convertendo em produtor para ajud\u00e1-lo a responder as cr\u00edticas que sofreu por gravar um comercial para a Coca-Cola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como tamb\u00e9m foi por acaso o encontro com Gal Costa, de quem faz a dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica de shows e discos desde 2013 \u2013 Marcus foi atr\u00e1s da permiss\u00e3o para fazer um document\u00e1rio sobre o disco \u201cFa-Tal\u201d e saiu da casa da cantora com a miss\u00e3o de ajud\u00e1-la a pensar em um repert\u00f3rio novo. Ele \u00e9, talvez, um dos principais culpados pela boa fase de Gal nestes anos 2000, recuperando o repert\u00f3rio tropicalista ao mesmo tempo em que grava Maglore (\u201cMotor\u201d) e Mar\u00edlia Mendon\u00e7a (\u201cCuidando de Longe\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA Gal achava que a sofr\u00eancia da Mar\u00edlia tinha tudo a ver com disco (music), para ela \u2018I Will Survive\u2019 era uma sofr\u00eancia cantada na boate\u201d, conta. \u201cA gente adorava as coisas da Mar\u00edlia, mas jamais imaginei que a Gal fosse ter a ideia de pedir uma m\u00fasica pra ela\u201d. Essa, por\u00e9m, \u00e9 apenas uma das muitas hist\u00f3rias presentes na entrevista de quatro horas que Preto concedeu ao Scream &amp; Yell no meio de agosto, entre cervejas diferentonas e chocolate Lindt.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No extenso papo, retomando uma tradi\u00e7\u00e3o antiga deste site, o produtor relembra bastidores de trabalho e vida pessoal com nomes como Erasmo Carlos (\u201co cara mais legal da m\u00fasica brasileira\u201d, \u201cmas ainda fico com medo dele quando toca o telefone\u201d), Ala\u00edde Costa, Emicida (\u201cg\u00eanio de t\u00edtulo\u201d), Nando Reis (\u201cele vai ler essa entrevista!\u201d), Mallu Magalh\u00e3es, Paulo Miklos, Odair Jos\u00e9, Gilberto Gil, Caetano Veloso (\u201co hype\u201d)\u2026 e, ufa!, at\u00e9 o Bala Desejo, um \u201cDoces B\u00e1rbaros\u201d de 2022 que o paulistano da Zona Norte, \u201calfabetizado por disco brasileiro\u201d e apaixonado desde cedo por Rita Lee e Guilherme Arantes, ajudou a gestar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 s\u00f3: tamb\u00e9m tem hist\u00f3rias de jornalismo, da noite paulistana \u2013 antes de escrever, Preto dividiu bandejas no restaurante Spot, numa travessa da Avenida Paulista, por quatro anos com nomes como C\u00e9u, Andr\u00e9ia Dias e Marcos Mion \u2013 e an\u00e1lises sobre essa coisa que a gente gosta tanto chamada m\u00fasica brasileira, em que o Coala \u00e9 um ponto de partida. Uma conversa que pode parecer cheia de glamour, mas em que transparece o dia a dia. Ou, como ele pr\u00f3prio diz: \u201co glamour \u00e9 uma grande mentira; dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e9 t\u00e3o quebra-pedra quanto ser gar\u00e7om no Spot: tem gente que atrapalha, tem que engolir sapo, tem uma parte chatona para ter uma parte legal, \u00e9 igual qualquer trabalho\u201d. Com a palavra, Marcus Preto.<\/p>\n<figure id=\"attachment_69397\" aria-describedby=\"caption-attachment-69397\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-69397 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/discos.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"656\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/discos.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/discos-300x262.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-69397\" class=\"wp-caption-text\"><em>Alguns dos discos que s\u00e3o conversados nessa entrevista&#8230;. \/ Acervo Pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Para come\u00e7ar, vamos falar de Coala. O que voc\u00ea destaca da edi\u00e7\u00e3o de 2022? Como \u00e9 voltar a fazer um festival depois de quase tr\u00eas anos parado?<\/strong><br \/>\nMarcus: Vai ser \u00f3timo. Mas acho que antes de falar do Coala desse ano, vamos voltar uns passinhos nessa hist\u00f3ria. Eu fui no primeiro ano do Coala, em 2014, quando eu estava fazendo o \u201cVira Lata na Vira L\u00e1ctea\u201d com o Tom Z\u00e9. O Criolo me convidou, porque ele estava no \u201cVira Lata\u201d e falou que ia participar de um festival de m\u00fasica brasileira em S\u00e3o Paulo. Achei estranho, festival de m\u00fasica brasileira era um neg\u00f3cio que n\u00e3o existia em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Vou at\u00e9 dizer at\u00e9 mais: era um neg\u00f3cio que n\u00e3o existia nacionalmente, nesse formato de misturar jovens artistas e grandes nomes. O Coala \u00e9 um precursor\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: Opa, tem pol\u00eamica a\u00ed, porque tomamos uns tapas logo de cara. Bem, falando de 2014: fui e achei a curadoria muito doida, parecia algo que eu tinha feito. O lineup era Trupe Ch\u00e1 de Boldo, O Terno, Criolo, Tom Z\u00e9\u2026 e ainda tinha Charlie e os Marretas e o 5 a Seco. Das seis bandas, quatro eram artistas que eu tinha trabalhado no \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/16\/tres-cds-wado-apanhador-so-tom-ze\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tribunal do Feicibuqui<\/a>\u201d e no \u201cVira Lata na Via L\u00e1ctea\u201d \u2013 e tr\u00eas deles estavam no meu primeiro compacto (com o Tom Z\u00e9). Fiquei a fim de ir, fui e achei foda. Eu n\u00e3o sabia quem estava por tr\u00e1s, mas deu muito certo: o som era bom, o banheiro funcionava, os shows foram \u00f3timos e o p\u00fablico era muito legal. Eles conseguiram levar a MPB para um lugar adiante \u2013 pelo menos o que eu chamo de MPB at\u00e9 hoje, acho que facilita o entendimento. Logo depois, a Ver\u00f4nica Pessoa, empres\u00e1ria d\u2019O Terno naquela altura, me ligou e disse que quem estava por tr\u00e1s daquilo eram uns meninos de 20, 22 anos, \u201clegais demais!\u201d. Acabamos aquela liga\u00e7\u00e3o pensando em fazer um festival assim tamb\u00e9m. Eu tinha acabado de sair da Folha de S. Paulo (nota: Preto era setorista de m\u00fasica brasileira do caderno Ilustrada), estava super animado. Chegamos a fazer reuni\u00f5es para ter o Coelho Festival, um pl\u00e1gio do Coala. Logo depois a Ver\u00f4nica foi cuidar da vida dela, eu comecei a trabalhar com a Gal e obviamente n\u00e3o andou. Louco isso, n\u00e9? <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/17\/tres-shows-do-coala-festival-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">No segundo ano do festival<\/a>, eu n\u00e3o fui. Soube que n\u00e3o tinha sido muito bom: o [cantor] C\u00edcero era meu vizinho de baixo na Pompeia, e eu falei que ele tinha que ir no festival. Ele foi e n\u00e3o achou t\u00e3o legal. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/09\/09\/balanco-coala-festival-2016-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Em 2016, no terceiro ano<\/a>, apareceu uma mensagem no meu Facebook do nada: \u201cOi, n\u00f3s somos do festival Coala, e a gente queria chamar voc\u00ea para fazer parte\u201d. P\u00f4, eu ia plagiar os caras, \u00e9 bem mais f\u00e1cil fazer parte. Entrei no terceiro ano e conheci os moleques \u2013 e eles s\u00e3o maravilhosos mesmo. E foi uma reuni\u00e3o engra\u00e7ada: eles davam algumas sugest\u00f5es nas primeiras reuni\u00f5es e eu falava que o Coala n\u00e3o era daquele jeito. Eles se surpreenderam quando eu coloquei o espelho na cara deles, come\u00e7aram a ver coisas do festival que n\u00e3o estavam vendo, foi um processo muito rico. Quando voc\u00ea sabe quem voc\u00ea \u00e9, fica mais f\u00e1cil fazer uma curadoria amarrada e se diferenciar. Eu n\u00e3o sou e n\u00e3o quero fazer parte dos festivais do Brasil. O Coala n\u00e3o \u00e9 um festival tipo o Bananada, por exemplo. Ele tem uma l\u00f3gica paulistana que n\u00e3o funcionaria fora daqui. \u00c9 como aqueles eventos que acontecem no Rio e s\u00f3 fazem sentido l\u00e1. Se trouxer pra S\u00e3o Paulo, n\u00e3o funciona. O Brasil \u00e9 isso, n\u00e9? <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/08\/28\/em-belem-festival-se-rasgum-2014\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Se Rasgum \u00e9 um festival maravilhoso em Bel\u00e9m<\/a>, mas n\u00e3o sei se caberia tanto em S\u00e3o Paulo. O Coala faria sentido l\u00e1? Acho que n\u00e3o\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: N\u00e3o sei. A gente teve um primeiro momento de festivais independentes no Brasil, pr\u00e9-Fora do Eixo, que eram todos meio iguais. Eram festivais midstream, com artistas m\u00e9dios, nunca tinha ningu\u00e9m muito grande\u2026<\/strong><br \/>\n<strong>Capelas: E tudo era pautado pelo rock.<\/strong><br \/>\n<strong>Marcelo: Isso. A\u00ed quando o Coala come\u00e7a a dar certo, isso muda. O Coala talvez tenha, para os festivais, a mesma fun\u00e7\u00e3o que o Los Hermanos teve: validar o samba e a m\u00fasica brasileira para uma gera\u00e7\u00e3o que olhava o samba de uma maneira distante\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: O Coala MPBtizou o rock, de certa forma, nos festivais\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Hoje olho festivais no Sul, no Nordeste e mesmo aqui no Sudeste, e eles t\u00eam line-ups muito pr\u00f3ximos do que o Coala \u00e9 hoje.<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 muito incr\u00edvel voc\u00ea dizer isso. Eu n\u00e3o sou especialista em festival, o Bill [Gabriel Andrade, um dos s\u00f3cios do Coala] \u00e9 bem mais que eu. Eu sou nerd do que eu gosto, que \u00e9 m\u00fasica popular brasileira. Tento roubar tudo para a MPB. Fui alfabetizado por m\u00fasica brasileira, por disco brasileiro, o Brasil que tem esse lugar \u00e9 muito melhor. Na \u00e9poca da Folha, n\u00e3o me chamavam para festivais, n\u00e3o estavam nem a\u00ed para mim. Chamavam o Thiago Ney, porque os festivais eram mais jogados para o rock, chamavam o L\u00facio Ribeiro \u2013 tanto que depois ele foi ser o cara dos festivais. E agora eu estou frequentando muitos festivais como diretor da Gal, ela est\u00e1 fazendo todos os festivais. Houve um momento que ela ficou em d\u00favida se queria fazer, mas ela come\u00e7ou a ir e achou sensacional. S\u00f3 uma vez deu ruim, porque colocaram ela errado no lineup (risos). \u00c9 verdade, n\u00e3o \u00e9 piada: a Gal tocou entre a Ludmilla e a Gl\u00f3ria Groove. Deu pau, n\u00e9?<\/p>\n<figure id=\"attachment_69398\" aria-describedby=\"caption-attachment-69398\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-69398 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/gal_ceu.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/gal_ceu.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/gal_ceu-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-69398\" class=\"wp-caption-text\"><em>Com Gal Costa e C\u00e9u \/ Acervo Pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Parece que n\u00e3o aprenderam a li\u00e7\u00e3o do Erasmo no Rock in Rio 1985.<\/strong><br \/>\nMarcus: Exato! Lineup \u00e9 muito importante. Agora, para todo festival que quer a Gal, eu conto essa hist\u00f3ria. Naquela situa\u00e7\u00e3o, ela ficou vendida. Ningu\u00e9m a maltratou, mas n\u00e3o tinha a vibe, ela achou que n\u00e3o gostava de festival e n\u00e3o queria mais fazer. Expliquei que era caso isolado, e a\u00ed ela come\u00e7ou a gostar. E \u00e9 maravilhoso: uma cantora de 77 anos, da MPB, ainda que tenha uma origem roqueira, ela \u00e9 cl\u00e1ssica, n\u00e9? Mudou o perfil, faz completo sentido o que voc\u00ea est\u00e1 falando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: S\u00f3 que a\u00ed tem duas coisas. Existe um m\u00e9rito de voc\u00eas: a galera viu que \u00e9 poss\u00edvel fazer um festival tendo a Gal no lineup. Ou Gil, ou Caetano\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: Gil \u00e9 mais compreens\u00edvel de estar num festival, mas Milton\u2026 Milton foi meio revolucion\u00e1rio. Falo com o olhar meio de dentro, meio de fora\u2026 esse ano, tem Maria Beth\u00e2nia \u2013 e vai ser o primeiro festival da vida da Maria Beth\u00e2nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: A\u00ed a gente chega na minha pergunta. Vejo os festivais influenciados pelo Coala, colocando a MPB nesse lugar. E os lineups come\u00e7aram a ser muito parecidos, mas o Coala consegue fugir disso. O Coala consegue trazer Djavan e Beth\u00e2nia, que ningu\u00e9m tinha tido coragem de colocar. Como funciona isso na cabe\u00e7a de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nMarcus: Essa resposta eu tenho. Eu sinto que s\u00e3o bolas quicando. O Djavan \u00e9 uma bola quicando. Mas o que \u00e9 isso? Sinto que existe um grupo de artistas que foram pouco valorizados por um um per\u00edodo pelos cadernos culturais, pela cr\u00edtica. E h\u00e1 um momento em que eles passam a ser valorizados, \u00e9 o hype. O Caetano nunca perdeu o hype\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: O Caetano \u00e9 o hype.<\/strong><br \/>\nMarcus: Sim. Ele \u00e9 uma pessoa genial, tudo que ele faz \u00e9 incr\u00edvel, puta que pariu. At\u00e9 quando ele erra em pol\u00edtica, ele erra acreditando com tanta veem\u00eancia que faz a gente se perguntar se a gente \u00e9 que est\u00e1 errado. Mas nem todo mundo \u00e9 Caetano, e alguns s\u00e3o bolas quicando. O Milton, quando a gente escalou ele em 2018, estava quase virando esse Milton gigante que ele \u00e9 hoje. S\u00f3 que o pessoal do hype \u00e9 um pouco atrasado, e o Coala bancou. O que acontece \u00e9 que o p\u00fablico n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o atrasado quanto o pessoal do hype, o p\u00fablico j\u00e1 estava se conectando com o \u201cClube da Esquina\u201d de novo. Na minha \u00e9poca, o disco mais importante era o \u201cTransa\u201d. Depois, quando a gente fez a lista na Rolling Stone, era o \u201cAcabou Chorare\u201d. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/05\/09\/clube-da-esquina-eleito-melhor-album-brasileiro-de-todos-os-tempos-conheca-o-top-10\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Agora, [na vota\u00e7\u00e3o do Discoteca B\u00e1sica], \u00e9 o \u201cClube da Esquina\u201d<\/a>. \u00c9 \u00f3bvio que os discos n\u00e3o mudaram, est\u00e3o gravados h\u00e1 decadas, mas as pessoas mudaram. E eu saquei que o \u201cClube da Esquina\u201d ia virar, o Milton ia virar o cara mais foda da m\u00fasica brasileira. Acho que o Djavan est\u00e1 chegando nisso. S\u00e3o ciclos: consumiu-se Novos Baianos at\u00e9 enjoar, uma hora muda. Claro que n\u00e3o ser\u00e3o descartados, uma hora tudo volta. Mas acho que o Djavan est\u00e1 nesse momento agora, as pessoas est\u00e3o consumindo o Djavan \u2013 e isso n\u00e3o tem a ver com o que ele estava produzindo, mas com o que o p\u00fablico estava consumindo. Detectar isso \u00e9 fundamental. J\u00e1 a Beth\u00e2nia \u00e9 diferente: \u00e9 uma tentativa de quatro anos atr\u00e1s, e nunca rolou. Convencer uma mulher de personalidade t\u00e3o definida desde o come\u00e7o da carreira a fazer um festival era quase imposs\u00edvel. Fomos tentando, ano ap\u00f3s ano, a\u00ed veio a pandemia e conseguimos fechar. Vai rolar agora. E tem outra diferen\u00e7a: \u00e9 uma artista que todo mundo que vai no Coala conhece um pouco e quer muito ver, mas n\u00e3o tem dinheiro para pagar aquele ingresso, que \u00e9 caro. Como Milton \u00e9, como Marisa Monte \u00e9.<\/p>\n<figure id=\"attachment_69382\" aria-describedby=\"caption-attachment-69382\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-69382 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcus_milton_lo.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcus_milton_lo.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcus_milton_lo-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-69382\" class=\"wp-caption-text\"><em>Marcus Preto com L\u00f4 Borges e Milton Nascimento \/ Acervo Pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: O Milton tamb\u00e9m ficou mais pop nesse processo nos \u00faltimos anos. A turn\u00ea do \u201cSemente da Terra\u201d, que \u00e9 a turn\u00ea comunista do Milton, depois a turn\u00ea do Clube da Esquina\u2026<\/strong><br \/>\n<strong>Marcelo: Para mim, quando o Coala anunciou o Djavan, era \u00f3bvio que era uma bola quicando. Teve o disco do BID [\u201cJAH-VAN\u201d, de 2018], que teve uma repercuss\u00e3o muito boa. O Djavan sempre sofreu com as coisas das letras, n\u00e3o era uma coisa positiva, mas quando chega esse disco do BID, houve uma recep\u00e7\u00e3o boa das pessoas, e a\u00ed a galera come\u00e7ou a olhar diferente para ele.<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 engra\u00e7ado, porque s\u00e3o artistas que tem um repert\u00f3rio sofisticado e popular, muito tocados em bar. O Milton sofreu com isso tamb\u00e9m. E o jornalista, gente mais velha, da minha gera\u00e7\u00e3o, tem preconceito com esses caras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: A gera\u00e7\u00e3o anterior \u00e0 nossa \u00e9 bem pior\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 bem pior! As pessoas cagavam para esses caras. Lembro de chegar uma biografia do Milton em uma reda\u00e7\u00e3o que eu trabalhei e algu\u00e9m virar \u201cnossa, Milton?\u201d. Como se o Milton n\u00e3o fosse um dos maiores g\u00eanios da m\u00fasica mundial. Para essa pessoa, que era ignorante, o Milton era o cara da m\u00fasica do barzinho ou da formatura, \u00e9 \u201cCora\u00e7\u00e3o de Estudante\u201d, \u00e9 \u201cNos Bailes da Vida\u201d. A falta de conhecimento dos jornalistas da nossa gera\u00e7\u00e3o, da anterior, \u00e9 incr\u00edvel. O preconceito que havia com Gonzaguinha, outro exemplo, \u00e9 um neg\u00f3cio que n\u00e3o existe mais nessa gera\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 incr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: O que \u00e9 uma prova que eu n\u00e3o perten\u00e7o \u00e0 minha pr\u00f3pria gera\u00e7\u00e3o. (risos)<\/strong><br \/>\n<strong>Marcelo: Mas voc\u00ea tem uma alma velha, Capelas.<\/strong><br \/>\nMarcus: As gera\u00e7\u00f5es mais novas acham tudo diferente da gente. E tem aquilo: a minha gera\u00e7\u00e3o negou os anos 1980, mas a mem\u00f3ria afetiva recoloca as coisas no lugar. \u00c9 uma luta de gera\u00e7\u00f5es: a m\u00fasica fica, ela est\u00e1 gravada, e algu\u00e9m vai ouvir sem preconceito e parece at\u00e9 que \u00e9 outra m\u00fasica. O Djavan \u00e9 isso: estou ouvindo a discografia dele de novo e tem umas paradas incr\u00edveis nos anos 1970, claro, mas nos anos 1980 tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Como foi fazer esse convite para ele?<\/strong><br \/>\nMarcus: Em agosto de 2021, eu e os meninos do Coala est\u00e1vamos morando junto com o pessoal do Bala Desejo numa casa em Santa Teresa [Rio de Janeiro], para gravar o disco. A gente estava falando do Djavan, o Bill gosta muito dele, e a\u00ed o Guilherme Marconi, que \u00e9 outro s\u00f3cio, se agilizou. Eu n\u00e3o sou s\u00f3cio, sou contratado. O Guilherme \u00e9 muito r\u00e1pido, muito assertivo, e falou para irmos atr\u00e1s. Eu mandei um \u00e1udio para a Suzy Martins, empres\u00e1ria dele, que eu j\u00e1 conhecia. Ela respondeu com um monte de sen\u00f5es. Passou um tempo e eu insisti, acabamos fechando. Demorou, mas fechamos. E rolou um sofrimento: a gente fechou, mas n\u00e3o podia divulgar a partici\u00e7\u00e3o dele ainda. S\u00f3 \u00edamos soltar o terceiro dia, que era o dele, depois que a gente esgotasse os dois primeiros dias. Al\u00e9m disso, ele tinha algum show pr\u00f3ximo em S\u00e3o Paulo e ele n\u00e3o podia divulgar nada em S\u00e3o Paulo por um tempo. Logo na sequ\u00eancia disso, veio o Rock the Mountain [festival em Petr\u00f3polis] e fechou com ele depois, mas divulgou antes. Rolou esse sofrimento: a gente conseguiu convencer o Djavan a fazer festivais, mas [esse pioneirismo] n\u00e3o ficou na nossa conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: O Coala come\u00e7ou com um dia. Em 2018, vira dois dias. Agora, v\u00e3o ser tr\u00eas dias, com a sexta-feira, pegando hor\u00e1rio comercial para manter a filosofia do festival de n\u00e3o ir at\u00e9 tarde. Enquanto isso, alguns festivais de grande porte no Brasil n\u00e3o est\u00e3o fazendo edi\u00e7\u00f5es de tr\u00eas dias, fazem s\u00f3 dois e olhe l\u00e1. Como foi a decis\u00e3o de fazer esse terceiro dia?<\/strong><br \/>\nMarcus: S\u00e3o decis\u00f5es dos meninos do dinheiro. Eles tomam as decis\u00f5es e n\u00f3s vamos em frente. Eles sempre contam sobre a primeira edi\u00e7\u00e3o, que eles n\u00e3o sabiam como era fazer um festival. \u201cSe a gente soubesse, a gente n\u00e3o teria feito\u201d, eles falam. Eles ficaram no preju\u00edzo, na segunda edi\u00e7\u00e3o mais ainda, mas foram entendendo o que funciona, s\u00e3o muito bons. O Gui \u00e9 ligado na coisa do sertanejo: ele tem aquele know-how que n\u00e3o \u00e9 o know-how do coitadinho do indie. \u00c9 o know-how de gente que sabe fazer para gente exigente, chata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Sertanejo tem aquilo: \u00e9 um evento que se voc\u00ea n\u00e3o fizer dentro da expectativa, vai dar problema.<\/strong><br \/>\nMarcus: Total: o cara n\u00e3o \u00e9 condescendente com a banda, ele vai no evento para se divertir, \u00e9 uma festa. Se a festa n\u00e3o est\u00e1 boa, tchau. O Gui trouxe esse know-how para o Coala. Mas bem, eles foram entendendo que dava para abrir mais um dia, e o Memorial comporta a demanda. Mas agora n\u00e3o sei como vai ser: no futuro, vamos abrir mais um dia? Quatro dias? Uma quinta-feira?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Uma segunda? <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/23\/ao-vivo-rosalia-confirma-em-sao-paulo-porque-e-uma-das-artistas-mais-interessantes-de-sua-geracao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Rosal\u00eda abriu o precedente<\/a>\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: Uma segunda seria bom demais! \u00c9 expans\u00e3o. Talvez a gente poderia fazer dois Coalas por ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: As pessoas t\u00eam grana para isso?<\/strong><br \/>\nMarcus: O Coala n\u00e3o chega a ser caro\u2026 claro, no Brasil de hoje \u00e9 tudo caro. Mas se voc\u00ea for olhar o valor do passe ali, talvez seja mais barato ir nos dois dias do que na Rosal\u00eda, s\u00f3 que vendo sei l\u00e1 quantos artistas incr\u00edveis. Entende?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Por outro lado, tem a l\u00f3gica de ver xis artistas brasileiros, mas artista brasileiro vai estar por a\u00ed de novo. Artista internacional n\u00e3o.<\/strong><br \/>\nMarcus: Por isso acho que faz sentido o pensamento do sertanejo, que \u00e9 o de ir para uma festa. Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 indo ver os artistas, voc\u00ea est\u00e1 indo para o melhor lugar na cidade naquele dia ou final de semana. \u00c9 essa a l\u00f3gica: os shows s\u00e3o legais, com artistas brasileiros todos juntos, aqui eu t\u00f4 com os meus amigos, a gente vai beber at\u00e9 morrer, e ainda volta de metr\u00f4 para casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Sem falar que Gal, Milton, Djavan\u2026 s\u00e3o shows caros. Para ver um deles sozinho, voc\u00ea vai pagar caro.<\/strong><br \/>\nMarcus: Teve uma coisa curiosa nesse festival: quando anunciamos a Beth\u00e2nia, numa ter\u00e7a-feira, foi muito boa a venda. Ela foi a primeira artista a ser anunciada. Os meninos queriam anunciar a Gal logo na sexta-feira. Achei que ia dar errado, que n\u00e3o ia vender bem porque \u00e9 o mesmo p\u00fablico. Eu estava completamente enganado: as pessoas se atra\u00edram por ver as duas artistas no mesmo evento. A Gal est\u00e1 em todos os festivais, n\u00e3o \u00e9 raridade, mas quando a gente anunciou ela no mesmo evento que a Beth\u00e2nia, a gente vendeu mais do que antes. \u00c9 como se voc\u00ea juntasse as informa\u00e7\u00f5es na cabe\u00e7a das pessoas e pronto, elas sabem para que festa est\u00e3o indo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: \u00c9 uma coisa engra\u00e7ada das festas em S\u00e3o Paulo hoje: sempre rola uma lista com todas as bandas que voc\u00ea vai ouvir na noite. Acho chato: a gra\u00e7a para mim \u00e9 ser justamente surpreendido, sabe.<\/strong><br \/>\nMarcus: Mas rola uma conex\u00e3o do p\u00fablico, de [olhar um evento e] entender que \u201cesse mundo \u00e9 meu\u201d. As pessoas est\u00e3o precisando muito disso. A gente est\u00e1 nessa merda, ent\u00e3o ir em um lugar que se voc\u00ea for com um broche do Lula voc\u00ea n\u00e3o corre o risco de tomar tiro ou soco, p\u00f4, \u00e9 uma paz. Acho que tem essa parada da conjun\u00e7\u00e3o. \u00c9 o mesmo p\u00fablico. \u00c9 muito louco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Qual \u00e9 a sua expectativa para esse Coala, que \u00e9 o maior de todos? Al\u00e9m disso, tem v\u00e1rios nomes espetaculares, tem Gil\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: Era a Alcione, a\u00ed veio o Gil!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-69400\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/coala2022.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"938\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/coala2022.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/coala2022-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: A Alcione tamb\u00e9m era uma aposta mais ousada\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: Ela tamb\u00e9m era uma ideia antiga nossa: quer\u00edamos coloc\u00e1-la com algum artista jovem. A ideia inicial era com um artista que n\u00e3o existe mais, vamos dizer assim. Acabamos fechando com a C\u00e9u em 2022, mas a\u00ed a Alcione teve um problema de sa\u00fade, vai ter que operar e a\u00ed cancelamos as coisas. A\u00ed veio o Gil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u00c9 engra\u00e7ado pensar que voc\u00eas cogitaram a Alcione, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/07\/08\/alianca-faro-panorama-brasil-destaques-de-junho-de-2022\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a\u00ed vem agora a MC Tha e grava<\/a> um disco s\u00f3 com can\u00e7\u00f5es de Alcione, \u00e9 a bola quicando de novo.<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 a bola quicando o tempo todo, \u00e9 f\u00e1cil. Voc\u00ea deve se ligar [desse tipo de coisa] toda hora, \u201cpor que est\u00e3o falando esse cara?\u201d A [cantora] Mal\u00eda me chamou para dirigir um show dela: foi em casa, come\u00e7ou a cantar e sabia todo o repert\u00f3rio da Alcione. Perguntei de onde ela tinha tirado aquilo e ela disse que as amigas todas eram f\u00e3s. Ali eu saquei que a bola estava quicando: p\u00f4, a Mal\u00eda tem vinte e poucos anos. Por outro lado, \u00e9 engra\u00e7ado, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/09\/05\/balanco-a-5a-edicao-do-coala-festival\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o Gil \u00e9 meio onipresente no Coala<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Tem uma coisa interessante nessa chamada f\u00f3rmula do Coala. Tem os medalh\u00f5es da MPB. Tem nomes novos, mas que seguem essa est\u00e9tica de brasilidades, que pode ir de Rodrigo Amarante at\u00e9 Marina Sena. E tem uma presen\u00e7a forte do rap. Alguns rappers dialogam muito com essa tradi\u00e7\u00e3o da MPB, como Emicida e Criolo, mas esse ano voc\u00eas escalaram alguns nomes que n\u00e3o t\u00eam esse di\u00e1logo de forma \u00f3bvia, como o Black Alien, o BK. Como \u00e9 juntar esses pontos?<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 um cuidado como se faz numa discotecagem, \u00e9 a ordem dos fatores. \u00c9 o que eu falei da Gal entre a Ludmilla e a Gl\u00f3ria Groove. Naquele festival, tinha Silva no mesmo dia. Se fosse Gal, depois Silva, pode ir para a Ludmilla depois sem problema. Acho que o rap \u00e9 a m\u00fasica brasileira mais importante dos nossos tempos. Por isso fico roubando o rap para a MPB. O Emicida t\u00e1 meio que em tudo que eu fiz, ele est\u00e1 no \u201cTribunal do Feicibuqui\u201d, est\u00e1 no Paulo Miklos, est\u00e1 na Gal, est\u00e1 no Erasmo Carlos. \u00c9 um cara de bom tr\u00e2nsito, assim como o Criolo. No Coala, a gente tinha uma piada que era assim: \u201cputz, queremos fazer o show de algu\u00e9m da MPB, mas precisava de uma participa\u00e7\u00e3o? P\u00f4, ou pode ser o Tim Bernardes ou o Criolo\u201d. (risos). Eles cabem de fato em todos os shows, o Tim \u00e9 tropicalista como o Caetano, que pode estar com Odair Jos\u00e9 e Tom Jobim ao mesmo tempo, e o maior hit dele ser uma m\u00fasica do Peninha. E o Criolo \u00e9 naturalmente agregador das coisas. Ele nem vale muito como essa coisa do rap, porque ele \u00e9 do rap, mas ele \u00e9 tudo, \u00e9 inacredit\u00e1vel. A C\u00e9u tamb\u00e9m \u00e9 meio coringa, ela transita, ela funciona bem com todo mundo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_69384\" aria-describedby=\"caption-attachment-69384\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-69384 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcus_criolo_emicida.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcus_criolo_emicida.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcus_criolo_emicida-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-69384\" class=\"wp-caption-text\"><em>Com Criolo e Emicida \/ Acervo Pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O que me surpreendeu de uma maneira legal, na sua fala, \u00e9 essa liberdade. Eu fiz poucas curadorias, e a maioria delas era bem fechada num conceito. A da Heineken [sequ\u00eancia de shows no MAC USP em 2016] foi a mais pirada, porque teve Met\u00e1 Met\u00e1, raps, teve Warpaint, umas coisas gringas. E o engra\u00e7ado \u00e9 que a head do projeto, com quem eu tinha pouca rela\u00e7\u00e3o, me abra\u00e7ou justamente depois do show d\u2019As Mercen\u00e1rias. P\u00f4, foi a Mercen\u00e1rias que a surpreendeu!<\/strong><br \/>\nMarcus: P\u00f4, isso \u00e9 bonito. Curadoria \u00e9 isso: voc\u00ea at\u00e9 que j\u00e1 sabe os nomes, tem algo meio parecido, mas \u00e0s vezes aparece algo assim no meio\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: E o legal \u00e9 que voc\u00ea diz que no Coala tem total essa liberdade. Voc\u00eas t\u00eam essa liberdade que outros festivais n\u00e3o tem. Outros poderiam ter pensado em Djavan ou Beth\u00e2nia, mas voc\u00eas compram.<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 que esses moleques do Coala s\u00e3o muito incr\u00edveis. N\u00e3o sou de elogiar as pessoas n\u00e3o, mas eles s\u00e3o mesmo. Eles s\u00e3o muito abertos. Na hora que eu falei para o Bill de Alcione, ele s\u00f3 falou \u201cfoda, mano\u201d. J\u00e1 as ideias de artistas novos s\u00e3o principalmente dele. Quando eu era jornalista, ouvia muita m\u00fasica nova, mas agora fa\u00e7o isso bem menos, principalmente porque estou cuidando dos discos que estou fazendo. E \u00e9 por isso que o Coala funciona: o Bill \u00e9 um cara muito interessado na galera nova, ele ama rap, traz os nomes todos. O que faz as coisas caberem \u00e9 o encadeamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Isso me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Lineup de festival costuma ser show atr\u00e1s de show, e \u00e0s vezes entra um DJ. N\u00e3o \u00e9 o caso do Coala: tem meia hora de DJ entre cada show \u2013 e est\u00e1 no lineup j\u00e1. Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 para preparar palco, mas tamb\u00e9m \u00e9 para preparar a transi\u00e7\u00e3o. \u00c9 o Bll tamb\u00e9m quem vai atr\u00e1s os DJs, \u00e9 o pensamento dele. Assim como a ideia de come\u00e7ar o dia com um show forte \u00e9 dele. Eu achei estranho no come\u00e7o. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/09\/09\/balanco-coala-festival-2016-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">No meu primeiro ano, o dia come\u00e7ou com Silva<\/a> e ele j\u00e1 era muito grande na \u00e9poca. A gente quer que as pessoas cheguem cedo para curtir o festival. \u00c9 para consumir o festival inteiro \u2013 inclusive cerveja! Naquele ano, acho que veio a A\u00edla depois do Silva. Se fosse A\u00edla, depois o Silva, as pessoas n\u00e3o iam chegar cedo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Isso \u00e9 uma coisa que eu sempre valorizei no Coala, de colocar um artista j\u00e1 com um tamanho legal abrindo o dia. \u00c9 fazer a pessoa chegar cedo mesmo\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/08\/14\/saiba-como-foi-o-coala-festival-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">J\u00e1 teve Liniker ou Letrux sendo a segunda banda do dia, C\u00e9u<\/a>. Alguns artistas \u00e0s vezes n\u00e3o entendem porque est\u00e3o abrindo o dia, que costuma ser uma posi\u00e7\u00e3o meio desvalorizada. A\u00ed a gente explica, mostra como foi nos anos anteriores e fecha a conta na cabe\u00e7a deles. \u00c9 um lugar nobre. O artista entende que tem que trazer a galera cedo, e para isso \u201calgu\u00e9m foda tipo eu\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Estou lembrando aqui. Em 2018, come\u00e7ou com Francisco el Hombre, a\u00ed teve \u00c0ttooxx\u00e1, depois Academia da Berlinda\u2026 <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/09\/05\/balanco-a-5a-edicao-do-coala-festival\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e lembro que esse foi um show que ficou meio apagado<\/a>.<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 algo que se corre o risco ao adotar esse formato. Se colocasse a Academia primeiro e \u00c0ttooxx\u00e1 depois, n\u00e3o ia ficar apagado, mas ia ficar mais vazio. \u00c9 melhor que mais gente tenha visto? Acho que sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Vamos deixar o cap\u00edtulo Coala um pouco de lado e falar da tua \u201cobra\u201d agora.<\/strong><br \/>\nMarcus: P\u00f4, \u00e9 a primeira vez que algu\u00e9m junta esses discos (f\u00edsicos numa mesa) e chama de obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u00c9 um trabalho que come\u00e7a com o \u201cTribunal do Feicibuqui\u201d, que a gente j\u00e1 discutiu muito aqui.<\/strong><br \/>\n<strong>Capelas: Teve a entrevista com a Apanhador S\u00f3.<\/strong><br \/>\nMarcus: Lembro! A Batedor S\u00f3? Eles falaram de um jeito feio, fiquei puto na \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nota: em 2013, Tom Z\u00e9 gravou um comercial para a Coca-Cola e foi criticado na internet por ter se vendido a uma grande corpora\u00e7\u00e3o. As cr\u00edticas foram a deixa para a grava\u00e7\u00e3o de \u201cTribunal do Feicibuqui\u201d, um EP gravado junto com Emicida, O Terno, Trupe Ch\u00e1 de Boldo e Filarm\u00f4nica de Pasargada. Na mesma \u00e9poca, a banda Apanhador S\u00f3 lan\u00e7ava seu segundo disco, \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d, contendo a can\u00e7\u00e3o \u201cL\u00edquido Preto\u201d, uma esp\u00e9cie de anti-jingle para a Coca-Cola. E, em entrevista ao Scream &amp; Yell na \u00e9poca, o grupo criticou Tom Z\u00e9 pelo comercial e pelo EP, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/09\/01\/entrevista-a-nova-fase-do-apanhador-so\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">gerando uma discuss\u00e3o em uma das maiores pol\u00eamicas da hist\u00f3ria do site<\/a>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas vamos l\u00e1. Como voc\u00ea faz essa transposi\u00e7\u00e3o de ser um jornalista de m\u00fasica no principal jornal do Pa\u00eds para virar produtor?<\/strong><br \/>\nMarcus: Eu estava saindo, j\u00e1. Eu fui demitido [da Folha], na verdade. Mas \u00e9 legal falar antes como \u00e9 que eu entro no jornalismo. <a href=\"http:\/\/www.restaurantespot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eu era gar\u00e7om do Spot<\/a>, um restaurante aqui de S\u00e3o Paulo. A C\u00e9u era gar\u00e7onete comigo, a Andr\u00e9ia Dias era gar\u00e7onete comigo, o Leo Cavalcanti foi gar\u00e7om l\u00e1 depois de mim\u2026 vou me superar: o Marcos Mion foi gar\u00e7om l\u00e1 tamb\u00e9m!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: P\u00f4, voc\u00eas j\u00e1 bolaram a ideia de fazer um show especial \u201cnos tempos do Spot\u201d?<\/strong><br \/>\nMarcus: Eu tenho muito amor por aquele lugar, talvez a coisa mais importante que aconteceu na minha vida tenha sido o Spot. Eu conheci Caetano Veloso l\u00e1, Waly Salom\u00e3o l\u00e1, Antonio C\u00edcero l\u00e1. Real: o Waly era meu amigo, ele ia pro Spot me esperar na sa\u00edda. Eu conheci uma galera muito importante para a minha forma\u00e7\u00e3o, de um cara semianalfabeto que foi alfabetizado por LPs. Era muito doido: chegava um desses caras l\u00e1 e ningu\u00e9m os conhecia, mas eu colava na mesa e ficava ali conversando, querendo saber tudo, eu praticamente entrevistava o cara na mesa. Teve hist\u00f3rias maravilhosas. Teve uma vez que chegou a Lygia Fagundes Telles na fila. Eu comecei a arrancar as pessoas da frente, o gerente falava que tinha fila e eu respondi: \u201cp\u00f4, \u00e9 Lygia Fagundes Telles\u201d. Dai que ela volta um tempo depois com o \u201cInven\u00e7\u00e3o e Mem\u00f3ria\u201d (2000) autografado para mim. O livro ia sair s\u00f3 na semana seguinte, eu choro, \u00f3bvio. Conheci tamb\u00e9m muita gente da gera\u00e7\u00e3o mais nova, Z\u00e9lia Duncan, o Arnaldo Antunes, a Vanessa da Mata. Ali\u00e1s, tem essa hist\u00f3ria: eu conheci a Vanessa quando ela n\u00e3o tinha nem disco ainda. Um dia, do nada, ela chega e diz que estava sem produtora. Perguntou se eu queria ser produtor dela. Topei. Fiquei um ano com ela, sem saber nem direito o que fazer, fiz o show dela no Prata da Casa, com a curadora do Sesc Pompeia enlouquecida comigo, eu n\u00e3o sabia nada. \u201cECAD? O que \u00e9 isso?\u201d. Deu um ano, eu falei para a Vanessa seguir o caminho com algu\u00e9m que sabia das coisas, porque eu estava com ela e tinha que ainda trabalhar \u00e0 noite de gar\u00e7om. Imagina?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: E como \u00e9 que isso vai desembocar no jornalismo?<\/strong><br \/>\nMarcus: Um dia, o Ricardo Tet\u00e9, que \u00e9 m\u00fasico e escritor, me conta que estava escrevendo para a Revista da MTV. Ele era amigo de uma gar\u00e7onete do Spot. Olhei para a cara dele e falei: \u201cvoc\u00ea escrevendo numa revista? pode isso?\u201d. \u201cN\u00e3o, \u00e9 que o Antonio Prata est\u00e1 l\u00e1, ele \u00e9 o diretor de reda\u00e7\u00e3o\u201d. Os dois tinham estudado no Equipe, acho, em alguma dessas escolas chiques. Eu sou da Vila Maria, zona norte de S\u00e3o Paulo, \u00e9 outro universo. Pedi para o Ricardo me apresentar, afinal, o Waly Salom\u00e3o j\u00e1 tinha dito que meus textos eram foda. Isso foi em 2000, comecinho de 2001, eu j\u00e1 estava h\u00e1 quatro anos no Spot, imagina a ansiedade. No fim, o Ricardo n\u00e3o me apresentou. Cobrei e nada. At\u00e9 que um dia o Ricardo aparece no Spot e diz que o Antonio Prata saiu da revista. Tomei um porre, fiquei puto. Naquela \u00e9poca, tudo ficava aberto na Paulista de madrugada. Fui na banca, comprei a revista e tinha todos os emails das pessoas que trabalhavam l\u00e1. Mandei um email b\u00eabado direto para a chefa. Acordei, n\u00e3o lembrava que tinha mandado o email, mas tinha uma resposta dela: \u201cquero te conhecer\u201d. E assim eu virei jornalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Quem era a chefa?<\/strong><br \/>\nMarcus: Era a Monica Figueiredo, ela tinha feito a virada da Capricho nos anos 1980, 1990, deixou a coisa gigante. Ela \u00e9 filha do Abelardo Figueiredo, que era o cara que fazia os shows de Sinatra, Ella Fitzgerald para o Brasil nos anos 1960, 1970. E ela me contratou. Foi assim que eu entrei para o jornalismo, veja s\u00f3 que preparo! Fiquei dez anos na \u00e1rea da m\u00fasica. Em 2012, eu estava na Folha e bastante em atrito com a editora que estava l\u00e1. Ela queria sangue e eu n\u00e3o queria. \u00c9 s\u00e9rio: em 2011, tinha sa\u00eddo o \u201cRecanto\u201d, da Gal. O disco era todo composto e produzido pelo Caetano, eu ia fazer a entrevista. Antes de sair da reda\u00e7\u00e3o, a editora virou para mim e falou: \u201ceu quero sangue, v\u00ea l\u00e1 hein?\u201d. Eu j\u00e1 estava meio panicado, olha que loucura. A Folha \u00e9 uma press\u00e3o maluca. N\u00e3o sei como \u00e9 hoje, mas era. Obviamente, eu n\u00e3o trouxe sangue da entrevista. Se voc\u00ea for ler a mat\u00e9ria, \u00e9 maravilhoso: o texto diz uma coisa, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrada\/11736-quotgosto-de-ser-carregadaquot.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mas a linha fina e o t\u00edtulo dizem o oposto<\/a>. E com quem eu fui trabalhar depois? Com a Gal. Bem\u2026 naquela \u00e9poca, eu estava fazendo uma biografia do Tom Z\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: S\u00e9rio? Isso saiu?<\/strong><br \/>\nMarcus: N\u00e3o, \u00e9 uma biografia que nunca sair\u00e1. A hist\u00f3ria \u00e9 doida: no meu anivers\u00e1rio, fui para o Ritz com o pessoal da Folha comemorar. Chegou na roda uma menina que era a Fernanda Diamant, na \u00e9poca da Editora 34 \u2013 depois ela veio a ser mulher do Ot\u00e1vio Frias Filho [dono e diretor da Folha]. Eu n\u00e3o a conhecia, mas ela disse que o Ronaldo Evangelista estava fazendo uma biografia do Tom Z\u00e9, mas que, por algum motivo, ele decidiu n\u00e3o fazer. Eu abracei a causa. O Tom Z\u00e9 j\u00e1 me curtia porque eu tinha escrito coisas que ele j\u00e1 tinha gostado. Ent\u00e3o, toda quarta-feira, antes de ir para a Folha, eu ia para a casa do Tom Z\u00e9 fazer entrevistas. Eu tenho, sei l\u00e1, umas cem horas de entrevistas com ele. Uma hora, eu sa\u00ed da Folha, a press\u00e3o foi aumentando. Logo depois que eu sa\u00ed, um dia o Adriano Cintra me liga: \u201cp\u00f4, voc\u00ea viu que merda que rolou com o Tom Z\u00e9?\u201d. Era s\u00e1bado, eu tinha ido l\u00e1 na quarta, n\u00e3o estava sabendo de nada. \u201cA galera est\u00e1 acabando com ele no Twitter\u201d, falou o Adriano. Eu n\u00e3o uso Twitter: toda vez que usei, fui demitido ou fui quase demitido, ent\u00e3o parei de usar. Liguei para a Neusa [mulher de Tom Z\u00e9] e ela respondeu assim: \u201cTom Z\u00e9 est\u00e1 mais indispon\u00edvel do que Greta Garbo\u201d. Acabei indo l\u00e1 e ele estava com uma cara cabisbaixa, n\u00e3o queria mais fazer m\u00fasica, falou que ia parar. Depois ele desmentiu que disse isso, mas ele disse. Falei para ele: \u201cTom Z\u00e9, se voc\u00ea pegar essa gente que est\u00e1 te xingando, p\u00f5e m\u00fasica e canta. Faz que nem o \u2018Imprensa Cantada\u2019, remenda essa gente toda\u201d. Ele achou legal, mas achou melhor n\u00e3o, falou que tinha que chamar banda\u2026 Acho que na \u00e9poca ele estava com pouca grana, n\u00e3o ia ter como pagar m\u00fasica, produ\u00e7\u00e3o. Naquela \u00e9poca, eu tinha feito um frila para a \u201cSerafina\u201d [revista encartada na Folha de S. Paulo] sobre umas bandas novas. Era Trupe Ch\u00e1 de Boldo, Filarm\u00f4nica de Pas\u00e1rgada e O Terno. Falei pra ele que tinha feito essa mat\u00e9ria com tr\u00eas bandas que amavam ele, que citavam como refer\u00eancia, sugeri de cham\u00e1-los para gravar, mas sa\u00ed de l\u00e1 meio derrotado. No dia seguinte, \u00e0s cinco e meia da manh\u00e3, aqueles hor\u00e1rios de Tom Z\u00e9, toca o meu telefone: \u201cE a\u00ed, Marqu\u00edssimo, j\u00e1 ligou para os meninos?\u201d. E a\u00ed come\u00e7ou o \u201cTribunal do Feicibuqui\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Tribunal do Feicebuqui\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_lo3NqOgwC8NpQI5trtssvzZV8bJQRWWbg\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: A biografia, no fim, nunca vai sair\u2026 por que voc\u00ea virou personagem dela?<\/strong><br \/>\n<strong>Marcelo: O Tom Z\u00e9 \u00e9 um cara dif\u00edcil de acompanhar. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/09\/17\/entrevista-tom-ze\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">J\u00e1 entrevistei ele duas vezes<\/a>, e nas duas foi igual: eu fazia uma pergunta, ele abria uma resposta de dez minutos, em que ele viajava numa coisa completamente nada a ver. Na hora que ele fechava a pergunta, por\u00e9m, voc\u00ea percebia que ele tinha respondido, mas era um caminho doido.<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 por isso que eu tenho cem horas de grava\u00e7\u00e3o com ele. E as respostas dele n\u00e3o rendem aspas, \u00e9 dif\u00edcil de entregar a informa\u00e7\u00e3o. Ele nunca responde simplesmente que n\u00e3o foi a tal lugar, ele vai te explicar com uma hist\u00f3ria que explica porque ele n\u00e3o foi em tal lugar em tal \u00e9poca. E biografia tem disso: o Ruy Castro me disse uma vez que fazer biografia de gente viva era uma p\u00e9ssima ideia. Das duas, uma: ou voc\u00ea vai fazer um livro ruim ou vai brigar com a pessoa, se tem carinho por ela \u2013 e eu tenho carinho pelo Tom Z\u00e9. Acabei optando por nenhuma das duas coisas. \u00c9 isso: se voc\u00ea expuser sua vida real, voc\u00ea briga com um monte de gente que voc\u00ea ama. O Ruy Castro estava certo. Mas foi isso: eu fui fazer uma biografia e acabei fazendo o \u201cTribunal do Feicibuqui\u201d. Foi tipo o email para a M\u00f4nica Figueiredo, foi muito por acaso. E com a Gal foi igualmente por acaso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: S\u00e9rio? Conta melhor essa hist\u00f3ria.<\/strong><br \/>\nMarcus: Sim. A Dandara Ferreira achou umas imagens em v\u00eddeo do show \u201cFa-Tal\u201d l\u00e1 na Cinemateca Brasileira. O Leon Hirzsman filmou mais de uma sess\u00e3o na \u00e9poca e est\u00e1 l\u00e1 num copi\u00e3o, n\u00e3o sei se pegou fogo dessa vez, mas na \u00e9poca dava para ver. L\u00e1 tem muito material do \u201cFa-tal\u201d, sem \u00e1udio, mas o \u00e1udio a gente tem pelo disco. N\u00e3o sei se vai casar o mesmo dia do \u00e1udio com a imagem, mas algum \u00e1udio existe. E pensei em fazer um document\u00e1rio disso, ia ser foda. A\u00ed marquei uma reuni\u00e3o com a Gal, ela desmarcou. Marquei, ela desmarcou. Marquei de novo, ela desmarcou de novo. Eu n\u00e3o a conhecia, s\u00f3 tinha entrevistado umas vezes, mas a\u00ed marcamos at\u00e9 um dia que ela foi. Eu apresentei a ideia, ela achou bom, topou fazer, e a\u00ed eu me preparei para sair. A\u00ed ela: \u201cQu\u00ea isso? J\u00e1 vai embora? Paulista, n\u00e9? Falou de trabalho, acabou o trabalho, j\u00e1 quer ir embora\u201d. Ela tinha acabado de vir morar em S\u00e3o Paulo. A\u00ed a gente come\u00e7ou a conversar, uma hora deu uma brecha, a\u00ed eu me preparei para sair de novo, achei que estava alugando ela. \u201c\u00d3 o paulista de novo\u201d, ela reclamou. J\u00e1 que era pra ficar, fiquei e perguntei do disco novo, porque ela tinha feito o \u201cRecanto\u201d e o ao vivo do \u201cRecanto\u201d logo depois. Ela respondeu que ia fazer um disco de regrava\u00e7\u00f5es, uma coisa bem de cantora. Respondi: \u201cGal, n\u00e3o d\u00e1 para voc\u00ea lan\u00e7ar esse disco agora, voc\u00ea est\u00e1 vindo do \u2018Recanto\u2019, que te colocou de novo no seu lugar, um lugar de posi\u00e7\u00e3o m\u00e1xima na m\u00fasica brasileira, n\u00e3o d\u00e1 para voltar ao que era antes\u201d. Ela ficou meio assim, perguntou o que eu achava. Disse que ela tinha que fazer um disco de galera nova, trazendo novos compositores para fazer m\u00fasica para ela, bora abra\u00e7ar. \u201cAh, ent\u00e3o voc\u00ea vai ter que trabalhar!\u201d. E a\u00ed foi tipo a Vanessa da Mata me chamando para ser produtor dela. Fui para fazer um filme, acabei fazendo um disco \u2013 e obviamente que o filme n\u00e3o existiu. No fim das contas, s\u00e3o nove anos de parceria, j\u00e1 temos tr\u00eas discos de est\u00fadio, dois ao vivo, mais o do Gil e do Nando [\u201cTrinca de Ases\u201d]. E p\u00f4, a Rita Lee e a Gal Costa eram as minhas cantoras prediletas de sempre. O cantor predileto n\u00e3o era o Caetano, mas sim o Guilherme Arantes. Sou da Zona Norte de S\u00e3o Paulo, era Rita e Guilherme, n\u00e9?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gil, Nando e Gal - Trinca de Ases em &quot;P\u00e9rola Negra&quot;\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yXRL0j2GMJM?list=PLv0XU8-5-_6KJzt-6xebbss4qov6fjDxq\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Voc\u00ea nunca fez nada com o Guilherme, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nMarcus: N\u00e3o! O Guilherme est\u00e1 em v\u00e1rios discos meus, comp\u00f4s para v\u00e1rios discos. E eu fiz o projeto Na Sala de Estar no Sesc Pompeia com ele, foi muito bom. Mas disco, projeto grande, n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: O Guilherme \u00e9 uma bola que est\u00e1 quicando h\u00e1 um temp\u00e3o e ningu\u00e9m quer pegar. \u00c9 um caminh\u00e3o de hits que ele tem\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: Desde sempre eu tento, mas ningu\u00e9m pega, \u00e9 uma loucura. \u00c9 lindo, eu n\u00e3o sei, enfim, tem muita coisa, eu continuo nessa luta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas deixa eu perguntar: mesmo depois de ter feito v\u00e1rios discos com a Gal, voc\u00ea ainda se d\u00e1 um belisc\u00e3o quando ela t\u00e1 na tua frente? Porque j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma novidade\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: Tem nove anos que a gente come\u00e7ou. Essa reuni\u00e3o do Fa-Tal foi em agosto de 2013 e eu comecei logo no dia seguinte, com toda a sede do mundo. Cara, todo relacionamento chega uma hora que fica normal, porque voc\u00ea tem que lidar com o ser humano que est\u00e1 ali. Mas mesmo trabalhando com ela h\u00e1 um temp\u00e3o, quando ela canta uma m\u00fasica que eu nunca ouvi ela cantar eu volto a ser aquele f\u00e3, o tiete. As m\u00fasicas que eu estou acostumado a ver ela cantar viraram material de trabalho, \u00e9 normal \u2013 claro, com toda a grandeza que aquilo tem. Mas esses dias, por exemplo, ela cantou \u201cMil Perd\u00f5es\u201d numa live. Eu voltei l\u00e1 para a zona norte, aquilo est\u00e1 encapsulado num lugar da minha mem\u00f3ria afetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Eu tenho uma coisa bem nerd que \u00e9 ficar imaginando repert\u00f3rios para artistas. Tenho uma playlist que pensa como seria o Roberto gravando um disco \u00e0 la \u201cAmerican Recordings\u201d, do Johnny Cash. Voc\u00ea pode fazer isso na vida real com a Gal. Como \u00e9 isso na tua cabe\u00e7a? Como \u00e9 trazer compositores novos para ela cantar, seja em m\u00fasicas in\u00e9ditas, como a da Mar\u00edlia [\u201cCuidando de Longe\u201d], ou can\u00e7\u00f5es que j\u00e1 tinham sido lan\u00e7adas, como \u201cMotor\u201d, da Maglore, que estava meio solta num disco que pouca gente ouviu?<\/strong><br \/>\nMarcus: Eu fazia isso na \u00e9poca do Spot! Eu j\u00e1 tinha dez shows da Gal prontos na minha cabe\u00e7a quando eu era gar\u00e7om. \u00c0s vezes eu tinha que enrolar, nem sempre voc\u00ea tinha gente para atender, ent\u00e3o eu deixava a lista num cantinho, ia atender, voltava e anotava. Quanto \u00e0 Gal, posso falar de cada caso, porque \u00e9 algo muito menos te\u00f3rico e muito mais intuitivo. A intui\u00e7\u00e3o vem primeiro, depois vem o conceito. \u00c9 engra\u00e7ado, n\u00e9? Talvez outras pessoas sejam diferentes. Com a Maglore, por exemplo: eu estou vendo um show deles no Bixiga, no Mundo Pensante, e de repente come\u00e7a a tocar \u201cMotor\u201d. Na hora, mando um recado para ela direto do show: \u201cGal, estou aqui no show de uma banda que voc\u00ea n\u00e3o conhece, de um baiano, e tem uma m\u00fasica que \u00e9 muito \u2018Vapor Barato\u2019. Ouve a\u00ed\u201d. Mandei pra ela \u2013 com essa ressalva do baiano para ela j\u00e1 simpatizar mais \u2013 e ela: \u201clinda, vamos botar\u201d. N\u00e3o falei nada pro Teago porque desse primeiro \u201csim\u201d para a m\u00fasica estar no show pode tudo acontecer \u2013 e quase sempre o resultado \u00e9 n\u00e3o rolar. A banda vai tocar, vai entrar a voz dela, talvez n\u00e3o funcione, n\u00e3o entre no show\u2026 tanto que eu convidei o Teago pro show e ele n\u00e3o pode ir. A\u00ed o Helinho [H\u00e9lio Flanders] foi, filmou e o Teago meio que soube s\u00f3 quando aconteceu.<\/p>\n<figure id=\"attachment_69394\" aria-describedby=\"caption-attachment-69394\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-69394 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/helio_duda.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/helio_duda.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/helio_duda-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-69394\" class=\"wp-caption-text\"><em>Com H\u00e9lio Flanders, Teago Oliveira e Duda Beat \/ Acervo Pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: \u00c9 a hist\u00f3ria <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/track\/0Lk1WkkM7QPFjMZaPeQpQ4?si=7d0ebc1ee5bb4c0d&amp;nd=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que ele conta no \u201cAo Vivo\u201d da Maglore<\/a>.<\/strong><br \/>\nMarcus: S\u00e9rio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: O Teago conta que a Maglore est\u00e1 fazendo um show em S\u00e3o Lu\u00eds e de repente recebe um v\u00eddeo no celular com o H\u00e9lio falando assim: \u201camiga, Gal t\u00e1 cantando sua m\u00fasica\u201d.<\/strong><br \/>\nMarcus: Sim, foi isso mesmo. Essa m\u00fasica \u00e9 a cara dela. Depois, o Chico Chico gravou, a Pitty gravou. Inclusive quando a gente falou que ia gravar, o Rafael Ramos disse que a m\u00fasica ia estar no disco novo da Pitty. Mas a Gal j\u00e1 estava cantando, a culpa j\u00e1 n\u00e3o era mais minha. No caso da Mar\u00edlia Mendon\u00e7a, foi diferente. A ideia veio da Gal. Est\u00e1vamos no avi\u00e3o, pensando no que viria a ser o \u201cA Pele do Futuro\u201d. A Gal queria fazer um \u00e1lbum de disco music. Ela j\u00e1 queria que o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/06\/15\/a-fase-estratosferica-de-gal-costa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Estratosf\u00e9rica<\/a>\u201d tivesse sido um disco de disco music, s\u00f3 que a\u00ed o Kassin fez \u201chahaha, claro, daqui a pouco a gente faz\u201d e n\u00e3o fez. E o Pupillo, no \u201cA Pele do Futuro\u201d, acabou fazendo. Claro, a gente n\u00e3o ia fazer um disco inteiro de disco music, mas se ela tinha a vontade, vamos fazer. Acabaram sendo duas m\u00fasicas assim. \u201cSublime\u201d era um samba triste, do Dani Black, bem lento, e o Pupillo sacou que ali dava para fazer uma disco. E o pr\u00f3prio Dani Black gostou. Eu achei maravilhoso que o Dani depois ia poder gravar do jeito dele e as pessoas iam tomar um susto. A outra era m\u00fasica da Mar\u00edlia, \u201cCuidando de Longe\u201d. A Gal achava que a sofr\u00eancia da Mar\u00edlia tinha tudo a ver com disco music. Para ela, \u201cI Will Survive\u201d era uma sofr\u00eancia cantada na boate e pediu para a gente pedir uma m\u00fasica para a Mar\u00edlia. A Gal \u00e9 foda, sabe: \u00e0s vezes, ela te d\u00e1 uma ideia que voc\u00ea nunca teria coragem de dar para ela, porque ela ia dizer n\u00e3o e rir da sua cara. A gente adorava as coisas da Mar\u00edlia, mas jamais imaginei que a Gal fosse ter essa ideia. E voc\u00ea vai dizer n\u00e3o para uma ideia dessa? Claro que n\u00e3o: eu sa\u00ed do avi\u00e3o j\u00e1 ligando para o Paulo Monte, da Som Livre, para saber como fazia para falar com a Mar\u00edlia. Inicialmente, a Gal ia cantar sozinha, mas a demo da Mar\u00edlia era t\u00e3o boa que a Gal decidiu cham\u00e1-la para um dueto. Mas \u00e9 isso: cada coisa \u00e9 de um jeito. A Gal \u00e9 muito surpreendente, quando voc\u00ea acha que ela vai amar algo ela odeia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_69395\" aria-describedby=\"caption-attachment-69395\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-69395 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcia_marilia.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcia_marilia.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcia_marilia-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-69395\" class=\"wp-caption-text\"><em>Com M\u00e1rcia Castro e Marilia Mendon\u00e7a \/ Acervo Pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: A Gal vai cantar o \u201cFa-Tal\u201d no Primavera Sound, em novembro. De onde veio essa ideia?<\/strong><br \/>\nMarcus: Era uma ideia antiga, mas que a pandemia fez n\u00e3o acontecer: em 2021, ia fazer 50 anos das Dunas do Barato, as Dunas da Gal, em Ipanema, que inspirou todo aquele momento do \u201cFa-Tal\u201d. No final de 2020, quando as coisas estavam querendo melhorar, veio uma demanda de fazer o \u201cFa-Tal\u201d no Rio de Janeiro, era um projeto grande. Tinha que ser um show da Gal, ela era a musa daquele momento. A galera sa\u00eda da praia e ia para o Teatro Thereza Rachel ver a Gal, naquela \u00e9poca que Gil e Caetano estavam exilados. N\u00e3o deu certo porque a\u00ed veio a segunda onda. Mas achei foda: \u00e0s vezes, para o artista, \u00e9 dif\u00edcil refazer um neg\u00f3cio desses, a gente chegou a tentar que o Caetano fizesse um show do \u201cTransa\u201d no Coala \u2013 e \u00e9 claro que ele n\u00e3o quer fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: A gente tem um certo preconceito no Brasil. A Virada Cultura fez muito desses, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/05\/07\/especial-virada-cultural-2007\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o Macal\u00e9 foi incr\u00edvel<\/a>\u2026<\/strong><br \/>\n<strong>Capelas: O Erasmo fez o \u201cCarlos, Erasmo\u2026\u201d ao vivo no Municipal, foi uma coisa linda. Na \u00faltima Virada pr\u00e9-pandemia a gente teve a Joyce fazendo o \u201cFeminina\u201d \u00e0s 8h da manh\u00e3 na Bar\u00e3o de Limeira, vazio, mas uma coisa linda\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 de chorar. Eu vi esse da Joyce, eu vi v\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas ainda assim, vejo que muita gente tem preconceito, que as pessoas n\u00e3o querem fazer.<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 gente que n\u00e3o tem muito amor a esse neg\u00f3cio que a gente tem amor, o disco, o cl\u00e1ssico. \u00c9 a mesma Gal? N\u00e3o! \u00c9 a mesma banda? N\u00e3o! \u00c9 outro Brasil, se for igual est\u00e1 errado, tem que ser diferente mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: E o legal \u00e9 ser diferente. \u00c9 isso que voc\u00ea falou antes: as m\u00fasicas s\u00e3o iguais, mas as pessoas mudam. Sem falar que tem gente que ama o \u201cFa-Tal\u201d mas nasceu, sei l\u00e1, em 1990, e nunca iria ver esse show. Tem uma liga\u00e7\u00e3o emotiva com aquilo ali que pode transpor qualquer coisa da compara\u00e7\u00e3o, claro. \u00c9 esse objeto que para a gente \u00e9 uma coisa sagrada.<\/strong><br \/>\nMarcus: O Milton fez o show do \u201cClube da Esquina\u201d, que n\u00e3o \u00e9 o show do disco, exatamente, mas \u00e9 aquele universo, e eu chorei de cabo a rabo no show. \u00c9 lindo demais. Se voc\u00ea gosta de m\u00fasica, voc\u00ea gosta dessas coisas. Enfim, vieram com essa ideia do \u201cFa-Tal\u201d e n\u00e3o rolou. A\u00ed o Pedro Antunes, que est\u00e1 no Primavera Sound, me ligou para perguntar o cl\u00e1ssico: \u201ce a\u00ed, vamos fazer o Doces B\u00e1rbaros?\u201d, como se fosse muito f\u00e1cil. N\u00e3o ia ser eu que ia dizer que n\u00e3o ia rolar, mas enfim\u2026<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gal Costa | Motor (V\u00eddeo Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gGm1du2tOmM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Acho mais f\u00e1cil rolar um Doces B\u00e1rbaros do que o Jorge Ben fazendo \u201cA T\u00e1bua de Esmeralda\u201d.<\/strong><br \/>\nMarcus: Entre as impossibilidades, tem uma hora que \u00e9 imposs\u00edvel. \u00c9 t\u00e3o imposs\u00edvel ressuscitar a Elis Regina quanto o Raul Seixas. \u201cA T\u00e1bua de Esmeralda\u201d \u00e9 imposs\u00edvel, o Jorge \u00e9 um cara que n\u00e3o gosta de olhar para as coisas l\u00e1 de tr\u00e1s. Lembro que eu estava na grava\u00e7\u00e3o do \u201cAc\u00fastico MTV\u201d dele, porque eu tinha acabado de come\u00e7ar na revista. O cen\u00e1rio era lindo: umas transpar\u00eancias com uns retratos antigos, aqueles \u00f3culos lindos da capa do \u201cBen\u201d, de 1972, umas fotos muito legais. Ele chegou na hora, viu e perguntou: \u201co que \u00e9 isso aqui? pode tirar\u201d. Ele derrubou o cen\u00e1rio todo, n\u00e3o teve cen\u00e1rio, porque ele n\u00e3o quis. Um tempo depois, eu estava trabalhando na Folha, era j\u00e1 o final daquela MTV cl\u00e1ssica e resolveram fazer um Luau MTV com ele. Mostraram para ele como ia ser, claro. Na v\u00e9spera, o motorista errou o caminho e passou em frente ao local que ia ser feito o luau. Ele perguntou onde estava o palco. \u201cN\u00e3o, Jorge, n\u00e3o tem palco\u201d. \u201cAh, ent\u00e3o n\u00e3o vou fazer, n\u00e3o tem palco!\u201d. Os caras tiveram que levantar um palco de madrugada para ele fazer. E no fim das contas, ele n\u00e3o deixou lan\u00e7arem. Eu nem dei mat\u00e9ria sobre isso. Ainda na Folha, uma terceira hist\u00f3ria com o Jorge, porque ele \u00e9 uma figura divertid\u00edssima desse neg\u00f3cio, meio Roberto Carlos. \u00c9 dif\u00edcil entrevistar o Jorge, ele n\u00e3o gosta, mas eu insisti, insisti, insisti. Eu estava tentando convencer o empres\u00e1rio a falar bem na \u00e9poca que saiu aquela caixa dele com treze discos da Philips. \u201cP\u00f4, J\u00f9nior, \u00e9 bonito, t\u00e3o saindo os treze discos\u2026\u201d \u201cTreze?! Pelo amor de Deus n\u00e3o conta para ele que s\u00e3o treze sen\u00e3o n\u00e3o vai sair a caixa!\u201d (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Genial! Vamos voltar: ent\u00e3o o Pedro te ligou para fazer o Doces B\u00e1rbaros&#8230;<\/strong><br \/>\nMarcus: N\u00e3o ia ser eu quem ia falar para ele que n\u00e3o ia rolar. Ele foi tentar, mas percebeu que n\u00e3o ia rolar, ao menos n\u00e3o para esse ano. A\u00ed ele perguntou o que mais poderia rolar com a Gal. Contei dessa proposta de fazer uma revis\u00e3o do \u201cFa-Tal\u201d, mas n\u00e3o sabia se ela ia topar. At\u00e9 porque o \u201cFa-Tal\u201d era um show de teatro: um show 50% de voz e viol\u00e3o num teatro \u00e9 uma del\u00edcia. Agora, no Primavera Sound&#8230; A gente tem que repensar, talvez tenha que ser inteiro com banda, s\u00e3o shows diferentes. Tem que ter peso desde o come\u00e7o. Mas a gente ainda est\u00e1 definindo, os ensaios v\u00e3o ser imediatamente antes do show. Enfim: o Pedro gostou da ideia, eles negociaram, convenceram a Gal, e a\u00ed achamos que vai dar certo. Ela ficou com receio no come\u00e7o, \u201cp\u00f4, \u00e9 o \u2018Fa-Tal\u2019, eu n\u00e3o sou mais aquela\u201d. Jura, Gal? Ningu\u00e9m que estava no \u201cFa-Tal\u201d \u00e9 mais a mesma pessoa, inclusive muita gente morreu, \u00e9 uma nova vida, \u00e9 muito novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: \u00c9 engra\u00e7ado isso, porque \u00e9 a Gal indo para um novo estilo de festival, diferente do Coala. Mas ao mesmo tempo, a Gal vai levar um p\u00fablico diferente para o festival. Meu pai tem l\u00e1 seus 60 anos e est\u00e1 indo para ver a Gal e a Bjork.<\/strong><br \/>\nMarcus: S\u00e3o as duas que eu estaria indo para ver. Vai ser bonito. Com um pensamento de 2022, indo para 2023, e como show de festival. Se n\u00e3o o artista entra numa roubada, e a\u00ed ela n\u00e3o quer mais fazer. Tem que ser gostoso para ela, mas tamb\u00e9m para quem est\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Qual \u00e9 a diferen\u00e7a de produzir Gal ou Tom Z\u00e9 para produzir um artista novato? Voc\u00ea come\u00e7ou com os dois e depois \u00e9 que pegou artistas novos, como a Mallu\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: A Mallu eu j\u00e1 era apaixonado de entrevistar, ela \u00e9 muito impressionante, muito instintiva. Eu n\u00e3o sou instintivo: comigo, as coisas surgem na sensa\u00e7\u00e3o, mas depois vira pensamento. Eu gostava dela, queria fazer algo com ela, mas desse disco que a gente trabalhou junto [\u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/06\/30\/entrevista-mallu-magalhaes-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vem<\/a>\u201d, de 2017] eu fiz pouca coisa. Ela estava em Portugal e eu no Brasil, o Marcelo foi quem fez a dire\u00e7\u00e3o musical. Dos discos que eu fiz, esse \u00e9 o que eu menos fiz coisa, porque era \u00e0 dist\u00e2ncia, eu ia para o est\u00fadio com os m\u00fasicos do Brasil, era meio assim. Quero um dia poder fazer um disco com ela, de mergulho, esse foi pouco.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Paulo Miklos - A Lei Desse Tro\u00e7o\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4DJUXP8mgjo?list=OLAK5uy_mkjzRWFK4qkWO3LiHFzywa3FdnxBDnKkA\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: O que \u00e9 para voc\u00ea produzir um disco? Tem produtores que olham muito para o som, a est\u00e9tica do som, e tem produtores que olham muito para o repert\u00f3rio, caso, sei l\u00e1, do Nelson Motta com a Elis.<\/strong><br \/>\nMarcus: Eu fa\u00e7o aquilo que a gente chama de dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica, para facilitar. Mas \u00e9 um neg\u00f3cio que caiu em desuso, parece uma coisa de gravadora, como se precisasse ter um cargo. E dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica nem \u00e9 o que os caras de gravadora fazem hoje. A nomenclatura ficou toda estranha, e por isso eu coloco produ\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 mais claro na cabe\u00e7a das pessoas. Nunca vi <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2018\/04\/05\/algumas-palavras-sobre-o-miranda\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o [Carlos Eduardo] Miranda<\/a> trabalhar, mas me falaram que era parecido, menos da t\u00e9cnica e mais da produ\u00e7\u00e3o. Mas cada disco que eu fiz \u00e9 um emprego diferente. Com alguns, voc\u00ea faz acompanhamento de m\u00fasicos, d\u00e1 umas ideias, como foi o caso da Mallu, at\u00e9 porque ela tava ali na mesma casa que o produtor musical dela. Eu tinha muito pouca margem de manobra, eram as ideias deles e \u00e0s vezes eu colocava alguma quest\u00e3o que eu poderia contribuir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Paulo Miklos, por exemplo.<\/strong><br \/>\nMarcus: O Paulo j\u00e1 foi diferente. A Renata, mulher dele, por quem eu sou apaixonado, me procurou pelo Facebook. Disse que queria falar comigo, e come\u00e7ou a falar do disco. A ideia do disco que ele tinha na \u00e9poca era outra, na verdade. Disco \u00e9 isso, voc\u00ea vai mudando ao longo do processo. Depois de dois meses que a gente estava trabalhando, ele me chama para um caf\u00e9 e conta: \u201c\u00f3, vou sair dos Tit\u00e3s e esse vai ser meu primeiro disco p\u00f3s-Tit\u00e3s\u201d. Eu estava fazendo a Gal, levei ele e a Renata ao show do \u201cEstratosf\u00e9rica Ao Vivo\u201d, e apresentei os dois ao Pupillo. Ele amou o Pupillo e a\u00ed decidimos chamar ele. Inclusive, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/03\/16\/entrevista-pupillo-frevo-pode-ser-ouvido-o-ano-todo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">vamos falar do Pupillo<\/a>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_69392\" aria-describedby=\"caption-attachment-69392\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-69392 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/pupillo_miklos.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/pupillo_miklos.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/pupillo_miklos-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-69392\" class=\"wp-caption-text\"><em>Com Pupillo e Paulo Miklos \/ Acervo Pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: \u00c9 um parceiro frequente teu, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nMarcus: Eu conheci o Pupillo quando estava fazendo o \u201cCoitadinha Bem Feito\u201d (tributo masculino a Angela R\u00f4 R\u00f5), que foi logo depois do Tom Z\u00e9. O pessoal da Joia Moderna me chamou para fazer um disco de mulheres cantando. Eu quis fazer um disco de uma compositora. Disco de mulher cantora \u00e9 um clich\u00ea, n\u00e9? Quis fazer o contr\u00e1rio: uma compositora, s\u00f3 com homens cantando e pensei na \u00c2ngela R\u00f4 R\u00f4, ela \u00e9 incr\u00edvel. Era aquele esquema pau-de-sebo, em que cada um faz a pr\u00f3pria faixa, me manda e eu toco o barco. Era o esquema que rolava l\u00e1 na Joia Moderna. O Pupillo j\u00e1 tinha feito a do Lirinha, que ficou foda, incr\u00edvel. A gente se conhecia de vista da Tracks, uma loja de discos do Rio de Janeiro. Ele me lia na Folha, mas a gente n\u00e3o se conhecia propriamente. Nessa \u00e9poca, encontrei ele de novo no Sesc Pompeia e ele perguntou como estava o disco. Elogiei a faixa dele e contei que estava travado por causa do Otto. O Otto \u00e9 aquela pessoa que todos conhecemos e amamos: ele chegou a ponto de marcar com o Edgard Scandurra em S\u00e3o Paulo para gravar. A produtora comprou a passagem, ele entrou no aeroporto no Rio, uma menina que ele tava namorando na \u00e9poca ligou, ele saiu\u2026 e deixou o Edgard Scandurra esperando ele no est\u00fadio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O Otto \u00e9 maravilhoso, cara.<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9\u2026 eu pedi desculpa pro Edgard, foi foda. E contei isso para o Pupillo. Ele: \u201cdeixa que o Otto eu resolvo\u201d. E quatro dias depois tinha aparecido a m\u00fasica no meu email.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Pernambucanos se entendendo.<\/strong><br \/>\nMarcus: O disco saiu, chegamos a sair na capa do Estad\u00e3o, e a\u00ed o pessoal do Sesc Vila Mariana me ligou sugerindo fazer o show. Eles definiram os cantores, quais seriam, e eu falei que a \u00fanica coisa que eu fazia quest\u00e3o era ter o Pupillo como produtor do show. Como ia ter o Otto, falei que o Pupillo ia resolver inclusive essa parte. Depois disso, a gente se reencontrou, pois o Pupillo est\u00e1 no \u201cEstratosf\u00e9rica\u201d, porque o Kassin chamou ele para ser o baterista. Na mesma \u00e9poca, a Gal ia fazer um show cantando Lupic\u00ednio para a Natura Musical. O Kassin ia fazer a dire\u00e7\u00e3o musical, mas ele queria fazer dois, tr\u00eas ensaios, enquanto a Gal gosta de ensaiar muito, old school. Acho bonito, mas imagina o Kassin perder tr\u00eas semanas do est\u00fadio dele no Rio? A Gal ia ter que pagar todo o dinheiro da Natura para dar certo. Como n\u00e3o rolou com o Kassin, chamei o Pupillo. O Silva veio direto dos EUA para ser o tecladista, e fechamos a forma\u00e7\u00e3o com o F\u00e1bio S\u00e1 e o Guilherme Monteiro. E a\u00ed come\u00e7ou minha rela\u00e7\u00e3o com o Pupillo. O que eu quero dizer? \u00c9 que existe muito preconceito comigo porque eu n\u00e3o sou m\u00fasico. Antes do Spot, eu at\u00e9 estudei tr\u00eas anos de viol\u00e3o na Universidade Livre de M\u00fasica. Eu era ruim, ruim de uma vergonha enorme. Minha m\u00e3o direita era ruim de ritmo, embora a esquerda at\u00e9 fizesse uns acordes bonitos, de bossa nova. Se eu tivesse sido da gera\u00e7\u00e3o 2010, teria alguma fun\u00e7\u00e3o, porque dava para ser [um m\u00fasico meio] errado. Mas naquela \u00e9poca, m\u00fasico tinha que tocar bonito e eu desisti. E o Pupillo \u00e9 o \u00fanico cara que me aguenta: eu sou insuport\u00e1vel, mas ele me aguenta. Ele tem mais paci\u00eancia comigo. A gente briga, mas a gente resolve as coisas no mesmo dia. E ele n\u00e3o tem esse preconceito comigo. E ele respondeu que talvez fosse porque as pessoas t\u00eam muito preconceito com ele, porque ele n\u00e3o toca harmonia, ele toca ritmo. Talvez seja uma inconfid\u00eancia, mas talvez seja bom que as pessoas saibam disso. O Pupillo \u00e9 um cara brilhante, ele canta as notas do acorde, ele sabe muito de harmonia, talvez s\u00f3 n\u00e3o saiba tocar um viol\u00e3o t\u00e3o bem.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Coitadinha Bem Feito - As Can\u00e7\u00f5es de \u00c2ngela Ro Ro\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PLWYm8OokJ5eF_UaAz_-MlUnheTiWw87Wm\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O Raul [Seixas] era isso, n\u00e9? Ele n\u00e3o sabia muito de harmonia, mas sabia pedir\u2026 \u201cum solo de ovo frito\u201d, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nMarcus: Eu sou assim, mais ovo frito. O Pupillo n\u00e3o: ele canta as notas, ele sabe exatamente o que ele quer. E ele tem muito repert\u00f3rio: \u00e9 um cara muito bom, porque ouviu Roberto Carlos, Jovem Guarda, brega, ele n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o cara da banda mais legal dos anos 1990, ele \u00e9 um cara da lama. Ele est\u00e1 ali b\u00eabado, conhece todo aquele repert\u00f3rio, ao mesmo tempo que conhece pra caralho de m\u00fasica gringa, m\u00fasica eletr\u00f4nica, ele tem um repert\u00f3rio incr\u00edvel. Isso muitos produtores t\u00eam, mas paci\u00eancia para lidar comigo s\u00e3o poucos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: E voc\u00ea levou o Paulo Miklos para conhecer o Pupillo.<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 o que o Pupillo \u00e9 o par\u00eanteses mais importante de todos que eu posso fazer. Porque, de fato, \u00e9 o cara que est\u00e1 praticamente em tudo que eu fiz. No Erasmo ele \u00e9 produtor, na \u201cA Pele do Futuro\u201d \u00e9 produtor, no \u201cEstratosf\u00e9rica Ao Vivo\u201d ele \u00e9 produtor, no Paulo tamb\u00e9m. E no \u201cEstratosf\u00e9rica\u201d ele t\u00e1 como m\u00fasico. Mas a\u00ed tem mais coisa, a gente fez um do Erasmo recente de Jovem Guarda, a gente fez trilha de filme\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Vamos chegar l\u00e1, calma.<\/strong><br \/>\nMarcus: Mas \u00e9 isso: sempre \u00e9 meu plano A chamar o Pupillo. \u00c9 fundamental, e \u00e0s vezes d\u00e1 ruim, mas a qu\u00edmica da parceria \u00e9 muito boa hoje. Quantos parceiros j\u00e1 deram certo e depois deram errado? T\u00e1, mas vamos voltar ao Paulo Miklos. O disco todo foi feito na casa do Pupillo, em um processo em que o Paulo estava saindo dos Tit\u00e3s, fazendo filme, s\u00e9rie, X-Factor, ganhando kikitos e mais kikitos. O problema da pessoa ter m\u00faltiplos talentos \u00e9 que ela n\u00e3o consegue focar. E ele n\u00e3o focava no disco. Muitas composi\u00e7\u00f5es foram feitas no est\u00fadio, na nossa frente. As letras ele at\u00e9 trazia adiantadas de casa, mas as m\u00fasicas ele \u00e0s vezes trazia s\u00f3 um riffzinho e o resto acontecia no est\u00fadio. A parceria dele com o Tim Bernardes, eu tenho foto da hora dos dois sentados na escada, o Tim botando a melodia na hora. \u201cA Lei Desse Tro\u00e7o\u201d tinha esse riff de viol\u00e3o brasileiro, e o Emicida escreveu na hora, lembro dele sentado canetando tudo. E ele \u00e9 \u00f3timo de t\u00edtulo. \u201cA gente mora no agora\u201d \u00e9 um t\u00edtulo dele. \u201cTribunal do Feicibuqui\u201d \u00e9 dele, o disco da Ala\u00edde tamb\u00e9m \u00e9 t\u00edtulo dele. Ele diz que n\u00e3o \u00e9 bom de t\u00edtulo, os t\u00edtulos dele parecem tratados, mas ele diz que eu sou bom de editar os t\u00edtulos dele.<\/p>\n<figure id=\"attachment_69388\" aria-describedby=\"caption-attachment-69388\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-69388 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erasmo_tomze.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erasmo_tomze.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erasmo_tomze-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-69388\" class=\"wp-caption-text\"><em>Com Erasmo Carlos e Tom Z\u00e9 \/ Acervo Pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: E o Erasmo, como foi?<\/strong><br \/>\nMarcus: Esse \u00e9 um sonho. O Paulo Monte, da Som Livre, um dia me liga e pergunta: \u201cquer trabalhar com o Erasmo?\u201d. Antes disso, j\u00e1 tinha rolado dele fazer uma m\u00fasica para o disco do Paulo Miklos e tinha rolado uma m\u00fasica que eu tinha pedido para a Wanderl\u00e9a, de um disco que n\u00e3o aconteceu. Acho que 30%, 40% dos discos n\u00e3o acontecem. Seja por grana, ou porque as pessoas n\u00e3o querem mais. Eu sou f\u00e3 da Wanderl\u00e9a, n\u00e3o ou\u00e7o muito a fase 1960 dela, gosto mais da fase 1970, mas respeito a fase inicial. E eu queria fazer um disco setent\u00e3o dela, que \u00e9 pouco conhecido. O Erasmo j\u00e1 tinha passado por uma revaloriza\u00e7\u00e3o dessa fase, mas a Wanderl\u00e9a n\u00e3o. E ela tem discos muito legais, como o \u201cMaravilhosa\u201d (1972), o \u201cVamos que j\u00e1 vou\u201d (1977), feito com o Egberto Gismonti. Eu queria muito fazer e me ofereci. Naquela \u00e9poca, j\u00e1 tinha feito dois da Gal, j\u00e1 tinha feito Tom Z\u00e9, n\u00e3o era algo t\u00e3o aventureiro assim. A Wanderl\u00e9a topou e eu fui atr\u00e1s de repert\u00f3rio, fui mostrar umas m\u00fasicas novas e na reuni\u00e3o seguinte ela j\u00e1 sabia cantar. N\u00e3o sei se \u00e9 estudo ou se ela \u00e9 muito musical, e ai o Rafa [Rafael Ramos], da Deck, me chamou e perguntou se eu estava fazendo o disco da Wanderl\u00e9a. Disse que sim, eu e o Pupillo est\u00e1vamos. Comprei um \u201cMaravilhosa\u201d que custava uns R$ 300 e dei para o Pupillo s\u00f3 para convencer ele. E o Rafa pirou, a gente chamou uns m\u00fasicos incr\u00edveis, ia ter Davi Moraes, era uma equipe muito legal. Marcamos o est\u00fadio e a\u00ed a Wanderl\u00e9a por alguma raz\u00e3o ligou para o Rafael do nada e desistiu. \u201cRafa, n\u00e3o sei como falar com o Marcus, mas n\u00e3o quero mais fazer o disco, quero fazer um disco de chorinho\u201d. \u201cComo assim, Wanderl\u00e9a, eu quero fazer esse disco!\u201d. \u201cAh, mas ningu\u00e9m nunca me viu cantar chorinho\u2026\u201d. Bem, a\u00ed o Rafa n\u00e3o quis, eu tamb\u00e9m obviamente n\u00e3o quis. No fim das contas, acho que ela gravou esse disco de chorinho, est\u00e1 para sair. Mas n\u00e3o \u00e9 o disco que eu via para a Wanderl\u00e9a chegar chegando. Um repert\u00f3rio mais pop, mas num arranjo classudo setent\u00e3o bonito, s\u00f3 m\u00fasicas in\u00e9ditas. Acho que ela merece e n\u00e3o rolou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Que doideira isso.<\/strong><br \/>\nMarcus: Mas bem, Erasmo. Tinha uma m\u00fasica do Erasmo nesse projeto. Passou um tempo e o Paulo Monte, da Som Livre, me chamou. Eu fiquei maluco, porque eu sou muito f\u00e3 do Erasmo. Fui f\u00e3 dele depois de ser do Caetano, foi quando saiu aquela caixa maravilhosa, \u201cMesmo Que Seja Eu\u201d. Fiquei muito apaixonado, eu gostava muito da \u201cBanda dos Contentes\u201d (1976), \u00e9 um disco incr\u00edvel, gosto do \u201cProjeto Salvaterra\u201d (1974). E eu adoro os discos dos anos 1980 dele, o \u201cMulher\u201d (1981), o \u201cAmar Para Viver ou Morrer de Amor\u201d (1982), ali tem um monte de can\u00e7\u00e3o bonita, mas os arranjos s\u00e3o datados. Enfim, topei para o dia que o Erasmo quisesse, a hora que ele quisesse. O Paulo me passou o telefone dele e falou que ele ia me ligar. Meu Deus. O Erasmo \u00e9 um cara que eu fico nervoso at\u00e9 hoje quando toca o telefone, de n\u00e3o saber o que fazer, de nem saber atender. Imagina, tocar o telefone e estar escrito \u201cGal\u201d. P\u00f4, \u00e9 estranho, n\u00e9? E o Erasmo \u00e9 um cara que at\u00e9 hoje eu n\u00e3o sei bem como lidar. A Paula Lavigne fala que as pessoas tem efeito quando chegam perto do Caetano\u2026 bem, eu tenho efeito com o Erasmo, n\u00e3o perdi n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: E como foi essa liga\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nMarcus: Lembro que eu estava na casa do Silva, l\u00e1 em Vit\u00f3ria, porque eu ia fazer o \u201cBrasileiro\u201d, que tamb\u00e9m n\u00e3o rolou. A gente tinha feito o disco em que ele canta Marisa e depois \u00edamos trabalhar mais, mas n\u00e3o deu certo ali. Bem: toca o telefone e eu n\u00e3o sabia o que fazer. Eu nunca tinha falado com o Erasmo. Quer dizer, tinha entrevistado como jornalista\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Mas \u00e9 outra rela\u00e7\u00e3o, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 outra rela\u00e7\u00e3o. E foi muito doido esse dia da entrevista. O Erasmo me fez aprender a gostar de cerveja, porque eu n\u00e3o gostava de cerveja. Fui fazer uma entrevista com ele, na \u00e9poca da Folha, do disco \u201cRock\u2019n\u2019Roll\u201d (2009), que \u00e9 um disca\u00e7o. Tava calor, eu fui na casa dele e a gente estava sentado na parte de fora, perto da piscina. Ele me ofereceu uma cerveja, eu disse que n\u00e3o, a\u00ed ele: \u201cp\u00f4, ent\u00e3o acabou a entrevista!\u201d. Ele fala s\u00e9rio, \u00e9 muito bom de piada, \u00e9 dif\u00edcil sacar [que ele est\u00e1 brincando]\u2026 Eu aceitei, tomei a cerveja, estava um puta calor. Come\u00e7amos o papo, e a\u00ed ele foi servir mais cerveja. Eu recusei e ele: \u201cEnt\u00e3o acabou a entrevista, foi curta, n\u00e9?\u201d. A\u00ed foi\u2026 e eu acabei nunca mais n\u00e3o bebendo cerveja. G\u00eanio. Ele tem umas sacadas muito boas, ele \u00e9 muito legal. \u00c9 um gigante gentil, o apelido que a L\u00facia Turnbull deu para ele, \u00e9 a pura verdade. \u00c9 exatamente o que ele \u00e9. \u00c9 um cara amoroso, ele cuida da parada. Quando ele pede uma m\u00fasica para algu\u00e9m, ele fala assim: \u201c\u00f3, eu vou gravar. Se a m\u00fasica vier ruim, eu vou gravar. Estou pedindo uma m\u00fasica para o cara, o cara parou, pensou em mim, ent\u00e3o se eu pedi eu vou gravar.\u201d \u00c9 louco, porque ningu\u00e9m tem esse pensamento na ind\u00fastria. Ele \u00e9 muito ador\u00e1vel. E a\u00ed ele ligou pra mim, esse dia na casa do Silva, \u201c\u00f4 bicho, a gente ia fazer o neg\u00f3cio da Wanderl\u00e9a l\u00e1, n\u00e9? N\u00e3o aconteceu, ent\u00e3o vamos fazer o nosso!\u201d. Fui para a casa dele, ele me mostrou a m\u00fasica do Tim Maia (\u201cNew Love\u201d, que virou \u201cNovo Love\u201d). Quando o Tim Maia foi morar nos EUA, ele cantou a m\u00fasica em ingl\u00eas para uma namorada, gravou em cera e enviou para o Brasil. E a\u00ed todos foram se encontrar para ouvir l\u00e1 na Tijuca, nos anos 1950. Dava para ouvir, poucas vezes, porque depois o disco se desfazia, e o Erasmo disse que queria gravar essa m\u00fasica \u2013 em portugu\u00eas, ele ia fazer uma vers\u00e3o. J\u00e1 tinha essa. A\u00ed ele tinha uma da Marisa Monte, uma melodia dela, mas eu achei engra\u00e7ado porque parecia algo que eu tinha ouvido j\u00e1. Mandei pra ela e ela confirmou: a melodia tava no segundo disco dos Tribalistas. A\u00ed teve m\u00fasica do Camelo (\u201cSol da Barra\u201d), Nando Reis, Samuel Rosa, Arnaldo Antunes, teve m\u00fasica que ele fez sozinho. Teve \u201cSeu Sim\u201d, que a m\u00fasica \u00e9 da Adriana Calcanhotto, o Erasmo mandou uma letra gigante, ela fez um copidesque e botou m\u00fasica. E a\u00ed de novo eu chamei o Pupillo, porque eu sabia que ia ficar foda, que o Pupillo conhece os discos do Erasmo de cor, e a\u00ed fizemos duas vezes j\u00e1. Mas n\u00e3o sei se era essa a pergunta, enfim\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Acho que a ideia era materializar um pouco uma sensa\u00e7\u00e3o. Para n\u00f3s dois (eu e Capelas) e nossos leitores, todos f\u00e3s de todos esses artistas, a gente tem essa curiosidade de saber como \u00e9 trabalhar com esses caras.<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 engra\u00e7ado. Naquela \u00e9poca, eu estava bem pr\u00f3ximo do Caetano Veloso e da Paula Lavigne, eles estavam numa fase bem de m\u00fasica nesse per\u00edodo. Quando eu estava fazendo o \u201cTrinca de Ases\u201d, eu sa\u00eda dos ensaios e ia para a casa da Paula, e o Caetano estava sempre l\u00e1. Quando rolou a hist\u00f3ria do Erasmo, o Caetano falou: \u201cvoc\u00ea vai pirar, \u00e9 o cara mais legal do meio musical brasileiro\u201d. Olha essa frase: um cara que conhece todo mundo no meio musical. E \u00e9 a pura verdade. E tem aquilo, n\u00e9, as letras que a gente gosta (dos discos do Roberto) muitas vezes s\u00e3o s\u00f3 dele. As letras dos discos do Erasmo s\u00e3o praticamente s\u00e3o s\u00f3 do Erasmo, tem s\u00f3 pequenas participa\u00e7\u00f5es do Roberto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Um dos grandes momentos <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/09\/13\/alianca-faro-panorama-mexico-destaques-de-agosto-de-2022\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">do show que vi recentemente do Roberto<\/a> \u00e9 quando ele fala: \u201cessa daqui \u00e9 uma das maiores verdades que eu j\u00e1 compus com meu parceirinho Erasmo: tudo que eu gosto \u00e9 ilegal, imoral ou engorda\u201d.<\/strong><br \/>\nMarcus: Essa \u00e9 muito boa, n\u00e9? Essa letra \u00e9 obviamente do Erasmo. \u00c9 o tipo de coisa que, conhecendo ele, voc\u00ea saca que ele escreveria. E o Erasmo tem isso: todo mundo em volta \u00e9 muito apaixonado por ele h\u00e1 muito tempo. Ningu\u00e9m acha um saco, n\u00e3o: a galera cuida. O filho dele, o Leo, \u00e9 uma figura fundamental. O pior inimigo do artista \u00e0s vezes \u00e9 ele mesmo \u2013 na verdade, isso \u00e9 uma coisa do ser humano. Mas muitas vezes, sempre tem algu\u00e9m que sabota o cara, como a fam\u00edlia ou o empres\u00e1rio. O Leo [Esteves], o filho dele, \u00e9 o antisabotador: \u00e9 o cara que mais pilha o Erasmo para o lugar certo, leva, cuida. Ao mesmo tempo que pensa no bem-estar do pai dele, ele tamb\u00e9m pensa no artista incr\u00edvel que o pai dele \u00e9. \u00c9 muito raro, e \u00e9 muita sorte ter um filho assim \u2013 e o Erasmo merece essa sorte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O Renato Russo n\u00e3o deu a mesma sorte.<\/strong><br \/>\nMarcus: Poucas pessoas deram!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trailer Oficial Meu \u00c1lbum de amores\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/G4BEhY85DYM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Voc\u00ea chegou a falar do Arnaldo Antunes. E ele est\u00e1 no seu projeto mais recente, o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/18\/cinema-meu-album-de-amores-de-rafael-gomes-e-uma-deliciosa-comedia-romantica-sobre-amor-e-musica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meu \u00c1lbum de Amores<\/a>\u201d, que chegou aos cinemas em agosto.<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 um projeto novo-velho, eu j\u00e1 nem lembrava, nem o Arnaldo, nem o Odair. Cinema tem outro tempo, ainda mais com a pandemia no meio. O Rafael Gomes tinha me chamado para fazer a trilha do \u201cM\u00fasica Para Morrer de Amor\u201d, que originalmente era uma pe\u00e7a dele chamada \u201cM\u00fasicas Para Cortar os Pulsos\u201d. Aquela foi uma trilha que eu posso dizer que produzi real: as pessoas faziam ao vivo. Quase toda a m\u00fasica do filme acontecia ao vivo: tinha a Clarice Falc\u00e3o tocando viol\u00e3o pedindo dinheiro no MASP, tem o Tim Bernardes na Teodoro Sampaio tocando um neg\u00f3cio, tinha o Milton no Coala, que o menino invade o palco. Foi engra\u00e7ado: a gente avisou todo mundo, inclusive o pr\u00f3prio Milton, que o \u00cdcaro Silva ia invadir o palco no meio do show e gritar \u201cIsabela, foi muito bom te conhecer\u201d. No dia, combinamos com a produ\u00e7\u00e3o do Coala tamb\u00e9m. A gente s\u00f3 esqueceu de avisar o roadie do Milton! E a\u00ed entra o \u00cdcaro, o roadie come\u00e7a a olhar e fica sem saber o que fazer, e a\u00ed a galera do festival ficou meio sem saber se era o \u00cdcaro Silva\u2026 bem, esse foi o esp\u00edrito do filme. E a\u00ed o Rafael me chamou de novo, pensando num filme que ia ter trilha do Arnaldo Antunes, o Arnaldo at\u00e9 j\u00e1 tinha mandado a primeira m\u00fasica. Inicialmente, era uma s\u00e9rie de TV, mas eles decidiram transformar num longa. E a hist\u00f3ria \u00e9 sobre um menino branco que \u00e9 dentista e \u00e9 filho de um dentista, meio playboyzinho, assim, e de repente chega um menino preto na casa dele e se apresenta como irm\u00e3o dele, dizendo que o pai tinha morrido e tinha deixado uma casa no nome dos dois. E a\u00ed o cara diz que o pai do menino dentista \u00e9 o Odilon, um cantor popular dos anos 1970, que fez um disco s\u00f3, e a\u00ed ele come\u00e7a todo um processo de redescoberta. E tinha a trilha sonora original, que seria o disco desse Odilon. E a\u00ed a gente come\u00e7ou a produzir. E eu pensei: \u201cp\u00f4, o Arnaldo \u00e9 foda, mas ele n\u00e3o \u00e9 bem o esp\u00edrito\u201d. E a\u00ed eu chamei o Odair Jos\u00e9 para fazer junto com o Arnaldo, o Rafa achou foda, o Odair at\u00e9 participa do filme. E p\u00f4, o Odair \u00e9 um g\u00eanio, puta que pariu. Eu mandava para ele de manh\u00e3 o resumo: \u201cna m\u00fasica quatro, fulano brigou com n\u00e3o sei quem e agora est\u00e1 se jogando nas drogas e est\u00e1 trepando com todo mundo e nanana\u2026\u201d. No dia seguinte ou ainda no mesmo dia, chegava uma m\u00fasica pronta com a letra, com tudo que eu tinha dito. Eu mandava para o Rafa, o Arnaldo repetia a melodia e fazia a segunda parte, \u00e0s vezes mudava umas ideias. O Odair fazia m\u00fasica e a primeira parte, o Arnaldo a repeti\u00e7\u00e3o e o resto da letra. E a gente mandava pra galera da produtora, que \u00e9 gente de cinema, que n\u00e3o necessariamente pira em m\u00fasica ou tem fetiche no Odair, no dia seguinte todo mundo j\u00e1 sabia cantar as m\u00fasicas. O Odair \u00e9 um cara inacredit\u00e1vel, muito pouco valorizado. Minha primeira crise de p\u00e2nico na Folha tem a ver com isso. Eu fiz uma entrevista com ele, uma daquelas que eu tive que me controlar para n\u00e3o chorar porque foi um papo lindo, emocionante. Ele j\u00e1 tinha sido revalorizado por conta do livro do Paulo C\u00e9sar (de Ara\u00fajo, \u201cEu N\u00e3o Sou Cachorro, N\u00e3o\u201d), mas a galera do rock ainda n\u00e3o tinha abra\u00e7ado. Ele ainda estava na transi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tinha voltado a fazer coisas novas. Na hora que eu chego na reda\u00e7\u00e3o com a mat\u00e9ria, veio a facada. Naquela \u00e9poca, j\u00e1 n\u00e3o fazia sentido usar a palavra \u201cbrega\u201d, porque a entrevista tinha outro assunto. E a\u00ed chega a editora e fala: \u201c<a href=\"https:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2010\/11\/832731-agora-cult-odair-jose-grava-album-de-ineditas-e-quer-reconhecimento-artistico.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">p\u00f4, j\u00e1 botei o t\u00edtulo: \u2018Brega e Chique<\/a>\u2019\u201d. No carro, voltando para casa, comecei a passar mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Eu entendo essa ang\u00fastia.<\/strong><br \/>\nMarcus: P\u00f4, o t\u00edtulo desdizia toda a batalha que havia ali de compreens\u00e3o de uma pessoa. \u00c9 muito dif\u00edcil, \u00e9 muito coitadinho esse tipo de editor, de jornalista, que vai no chav\u00e3o. P\u00f4, vai ler primeiro o texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: \u00c9 o b\u00e1sico do jornalismo, n\u00e9? L\u00ea primeiro o texto pra depois pensar no t\u00edtulo, discutir a refer\u00eancia.<\/strong><br \/>\nMarcus: Ela foi brega, no caso, n\u00e9. Enfim: e bem, depois disso, fiz muitas coisas do Odair. Quando a Universal me chamou para fazer uma daquelas caixinhas de relan\u00e7amentos de artistas, que era \u201cDois Tons de \u2026\u201d, ou \u201cTr\u00eas Tons\u201d, eu disse que queria fazer uma de Cinco Tons do Odair. Acabou ficando \u201cQuatro Tons de Odair Jos\u00e9\u201d. S\u00e3o discos maravilhosos, com produ\u00e7\u00e3o do Hyldon, o Azymuth tocando junto\u2026 p\u00f4, \u00e9 lindo. Eu ajudei o Odair a tocar na Virada Cultural fazendo \u201cO Filho de Jos\u00e9 e Maria\u201d. Ele \u00e9 muito incr\u00edvel, eu queria ainda fazer mais coisas com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u00c9 meio doido falar nisso agora, mas as pessoas ainda est\u00e3o nessa de se surpreenderem com o Odai<\/strong>r.<br \/>\nMarcus: Eu acho que ele \u00e9 pouca coisa diferente do Raul Seixas. O Raul \u00e9 muito popular, mas \u00e9 isso: o Odair \u00e9 uma mistura de Raul com Nelson Rodrigues, \u00e9 um neg\u00f3cio muito rico, a galera n\u00e3o sacou ainda o que tem ali, n\u00e9? \u00c9 muito rico.<\/p>\n<figure id=\"attachment_69386\" aria-describedby=\"caption-attachment-69386\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-69386 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcus_caetano_ney.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcus_caetano_ney.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcus_caetano_ney-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-69386\" class=\"wp-caption-text\"><em>Com Caetano Veloso e Ney Matogrosso \/ Acervo Pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Uma pergunta b\u00e1sica: com quem voc\u00ea n\u00e3o trabalhou ainda e gostaria muito de trabalhar? Aquela pessoa que voc\u00ea largaria tudo na hora que o telefone tocar?<\/strong><br \/>\nMarcus: Tem gente que n\u00e3o vai ligar, alguns por umas raz\u00f5es e outros por outras. Tem muita gente que eu quase fiz\u2026 e tem uns g\u00eanios. A pessoa que mais me alfabetizou, marcou, sei l\u00e1, n\u00e3o tem bem uma palavra que explique, \u00e9 o Caetano. Mas o Caetano n\u00e3o precisa de mim para nada. Eu quero muito fazer Ney Matogrosso, acho que \u00e9 um cara inacredit\u00e1vel, muito bom, e que tamb\u00e9m historicamente ainda \u00e9 subestimado. Tem toda uma vertente que conhece ele como cantor, como figura do Secos &amp; Molhados, mas ainda tem muita gente que n\u00e3o d\u00e1 o devido valor para ele. Ele mudou a cabe\u00e7a de muita gente sem nem saber. Sei l\u00e1, eu vi shows dele no Olympia em que ele est\u00e1 dan\u00e7ando no palco, bem na ponta, com o p\u00e9 meio para fora, e tem um homem heterossexual passando a m\u00e3o nele, um tioz\u00e3o mesmo, e a mulher ali do lado, isso nos anos 1990. \u00c9 um cara que mexeu completamente com a sexualidade do Brasil desde 1973.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: E uma coisa \u00e9 mexer com a sexualidade do Brasil hoje, outra \u00e9 em 1973\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: Sim! E acho que o Ney Matogrosso tem sido muito pouco reconhecido. Ok, o Alm\u00e9rio fez agora o disco do Cazuza, ele \u00e9 influenciado de verdade pelo Ney, mas a galera n\u00e3o assume o Ney como uma refer\u00eancia, sendo que \u00e9 rid\u00edculo, porque quando voc\u00ea olha, voc\u00ea n\u00e3o para de ver o Ney na pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Eu acho que ningu\u00e9m ainda fez com o disco do Secos &amp; Molhados o que fizeram com o \u201cClube da Esquina\u201d ou o \u201cAcabou Chorare\u201d. Ele est\u00e1 num patamar alto, mas n\u00e3o subiu ainda.<\/strong><br \/>\nMarcus: Sim. E a\u00ed tem homofobia no meio, provavelmente. E quero dizer o seguinte: a galera da comunidade gay na m\u00fasica tamb\u00e9m n\u00e3o entende o Ney. O Ney, na vida dele, lutou uma luta na idade dele. Eu estava conversando com o Emicida disso esses dias: ele estava falando sobre o quanto a nova gera\u00e7\u00e3o da milit\u00e2ncia racial \u00e0s vezes n\u00e3o entendia o que o tiozinho l\u00e1 atr\u00e1s tinha feito e acabava se atropelando [nas cr\u00edticas]. Com o Ney, \u00e9 a mesma coisa. Para ser claro, estou falando da pol\u00eamica do Ney com o Johnny Hooker. A gera\u00e7\u00e3o do Ney lutou por igualdade, a do Johnny Hooker luta pela diferen\u00e7a. Na hora que ele fala \u201cgay n\u00e3o, eu sou um ser humano\u201d, ele estava reafirmando a luta por igualdade, para n\u00e3o morrer, para n\u00e3o apanhar, para ser bem recebido, num per\u00edodo hist\u00f3rico em que n\u00e3o havia Johnny Hooker, essa milit\u00e2ncia. A gera\u00e7\u00e3o nova luta pelas diferen\u00e7as, de poder dizer que \u00e9 viado sim, de poder dizer a diferen\u00e7a. \u00c9 muito foda, \u00e9 incr\u00edvel, \u00e9 um jeito novo de ver, mas na hora que isso anula o pensamento que lutou para as pessoas estarem onde est\u00e3o hoje, voc\u00ea est\u00e1 atirando no seu maior amigo, voc\u00ea est\u00e1 se autossabotando, est\u00e1 sendo seu pior inimigo. No geral, as pessoas n\u00e3o falam do Ney, sei l\u00e1, da mesma forma que a Marisa Monte falava da Gal ou a Nina Becker fala da Gal, como a Mariana Aydar e a Ana Ca\u00f1as falam da Elis. Por que n\u00e3o fala do Ney? Ningu\u00e9m se influenciou pelo Ney?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nota: em 2017, Ney Matogrosso concedeu uma entrevista para a Folha de S.Paulo na qual disse n\u00e3o se rotular como \u201chomossexual\u201d. \u201cQue gay o caralho! Eu sou um ser humano, uma pessoa. O que eu fa\u00e7o com a minha sexualidade n\u00e3o \u00e9 a coisa mais importante na minha vida\u201d, disse o cantor \u00e0 \u00e9poca. A declara\u00e7\u00e3o foi rebatida por Johnny Hooker, em sua conta no Twitter. \u201c\u00c9 inconceb\u00edvel ler a frase \u2018Que gay o caralho, eu sou um ser humano\u2019 no pa\u00eds que mais mata LGBTs do MUNDO(!!).\u201d, disse o cantor de \u201cFlutua\u201d. \u201cE em tempos de \u2018Gay \u00e9 o caralho\u2019 a \u00fanica resposta poss\u00edvel \u00e9 que vai ter gay pra caralho, vai ser gay pra caralho sim, cada dia mais gay, cada dia um level a mais igual Pok\u00e9mon.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: E nem precisa ficar s\u00f3 restrito \u00e0 MPB: o Ney \u00e9 quem faz a dire\u00e7\u00e3o do show do RPM que virou o \u201cR\u00e1dio Pirata\u201d e faz a banda explodir. \u00c9 o Ney que canta \u201cPro Dia Nascer Feliz\u201d e bota o Cazuza na roda.<\/strong><br \/>\nMarcus: O Ney \u00e9 esse cara: um cara fundamental na hist\u00f3ria, mas que as pessoas relegam a um lugar s\u00f3 de int\u00e9rprete. Ele n\u00e3o \u00e9 compositor, mas ele costurou as can\u00e7\u00f5es de outras pessoas de uma maneira incr\u00edvel, dando um significado diferente para quase todas elas, muitas vezes at\u00e9 maior. O Ney gravou Odair Jos\u00e9 nos anos 1970, na \u00e9poca que ele era desvalorizado. O Ney \u00e9 um neg\u00f3cio gigante e as pessoas n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o colocaram o disco do Secos &amp; Molhados no patamar que merece, como nem sequer os filhos do Ney assumem a paternidade. Mas \u00e9 isso: Ney, se o telefone tocar, \u00e9 na hora. Caetano Veloso, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: P\u00f4, e o Ney tamb\u00e9m \u00e9 um cara que decide tudo sozinho, como o Chico\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: Chico nem tem o que dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas talvez, desses, Chico seja quem mais precisa sair da zona de conforto.<\/strong><br \/>\nMarcus: Eu j\u00e1 tive essa pira de achar que o Chico precisa sair da zona de conforto, agora n\u00e3o acho mais. Isso foi muito na \u00e9poca do disco \u201cChico\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: No \u201cCaravanas\u201d, especialmente na m\u00fasica \u201cCaravanas\u201d, ele mostra que n\u00e3o est\u00e1 na zona de conforto. Se ele quiser, ele sabe o caminho.<\/strong><br \/>\n<strong>Marcelo: Como o \u201cCarioca\u201d, que \u00e9 um disca\u00e7o, e tamb\u00e9m tirou ele dessa zona. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/09\/07\/chico-buarque-caetano-veloso-marcelo-nova\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mas a\u00ed vem o disco \u201cChico\u201d<\/a>\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: Eu disse isso na \u00e9poca, que eram m\u00fasicas que pareciam sobras de discos anteriores, at\u00e9 pelos arranjos. \u00c9 uma quest\u00e3o de arranjo, n\u00e9, n\u00e3o de composi\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o bem acabadas e lindas, mas eu j\u00e1 n\u00e3o acho mais isso. As coisas s\u00e3o t\u00e3o c\u00edclicas, que daqui a pouco talvez seja esse arranjo valha mais. E eu n\u00e3o acho que o Chico tem que ser o Caetano, de jeito nenhum, talvez o Chico seja mais como o Jo\u00e3o Gilberto, que ficou l\u00e1 em um lugar s\u00f3 dele. Ele deve estar para lan\u00e7ar um disco em algum momento, est\u00e1 fazendo turn\u00ea. A m\u00fasica nova (\u201cQue Tal Um Samba?\u201d) parece um daqueles sambas estranhos do Paulinho da Viola, a letra \u00e9 pol\u00edtica, bem atual. O que \u00e9 zona de conforto? \u00c9 no arranjo, se for.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: E isso nem \u00e9 tanto ele\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: Sim, \u00e9 aquilo: ele quer chamar os amigos dele para fazer, e est\u00e1 tudo certo, porque \u00e9 o melhor jeito de fazer, ele deve ter chamado gente diferente antes que n\u00e3o deu certo e desistiu. E o Chico tem um m\u00e9rito forte: ele segurou muito a onda, junto com Martinho da Vila, a Beth Carvalho, daquele momento que todo mundo falava do PT, que o Pa\u00eds nunca tinha sido t\u00e3o roubado, a ladainha toda\u2026 eles estavam l\u00e1 e seguraram a onda. Mas voltando \u00e0 sua pergunta: com quem eu n\u00e3o trabalhei? Rita Lee eu nunca fiz nada, s\u00f3 como jornalista, porque ela parou antes de eu come\u00e7ar, infelizmente. \u00c9 a minha primeira. O Guilherme Arantes eu trabalhei, mas \u00e9 tudo enviesado: ele fez m\u00fasica para a Ala\u00edde Costa, duas para a Gal, uma para a Wanderl\u00e9a, que ele acabou gravando depois, para o Paulo Miklos. Eu nunca fiz um disco dele, seria um sonho, mas n\u00e3o sei como seria fazer um disco dele, porque ele sabe muito bem o que ele quer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: O \u201cCondi\u00e7\u00e3o Humana\u201d n\u00e3o seria meio que um disco nessa pegada?<\/strong><br \/>\nMarcus: Eu achei que fosse fazer isso no \u201cCondi\u00e7\u00e3o Humana\u201d, porque a Fernanda Couto, assessora dele na \u00e9poca, sabia do meu amor pelo Guilherme Arantes. N\u00e3o s\u00f3 o meu: \u00e9 o do Ganja, o Mano Brown, o Adriano Cintra, o Kassin, \u00e9 toda uma galera que pira nele. E a Fernanda Couto me chamou para tentar fazer uma coisa com o Guilherme, eu comecei uma rela\u00e7\u00e3o ali. Ele queria que eu supostamente ajudasse a levar pessoas para o disco. Achei demais, tinha acabado de fazer o \u201cTribunal\u201d, e achei que ele queria colocar jovens artistas espalhados por ali. E ele acabou colocando todo mundo na mesma faixa, virou um coro, \u00e9 o cr\u00e9dito que eu tenho no disco: arregimenta\u00e7\u00e3o do coro de \u201cOnde Estava Voc\u00ea\u201d. Mas \u00e9 isso: o Guilherme Arantes bate num lugar, tem uma beleza, \u00e9 um neg\u00f3cio incr\u00edvel. Esteticamente, \u00e0s vezes tem quest\u00f5es, em certos per\u00edodos, de arranjos que funcionaram melhor no passado\u2026<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Onde Estava Voc\u00ea - Guilherme Arantes (Video Clipe Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mQK93fVjpw0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: At\u00e9 as capas dos discos, que tem uma coisa meio sex symbol\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: Nos anos 1980, todos tinham, todas as capas, veja as capas das cantoras! Era para vender, era para ver o cantor gatinho e a cantora gostosa, era o que o p\u00fablico queria ver. \u00c9 o Roberto Carlos, s\u00e3o os discos da Gal, da Simone, da Joanna\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: At\u00e9 o primeiro disco da \u00c2ngela R\u00f4 R\u00f4, <a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/p\/angela-ro-ro-old-fashioned-cachaca\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que eu escrevi um texto sobre esses dias<\/a>, ela est\u00e1 linda naquela capa, talvez como nunca mais foi\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: Porque quiseram vender inclusive isso, mas tudo bem, porque aquele disco \u00e9 t\u00e3o bom, a capa inclusive \u00e9 linda, \u00e9 tudo lindo ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas com isso do Guilherme, a gente chega num ponto de artistas como Bob Dylan e Paul McCartney nos \u00faltimos anos. Os melhores discos do Dylan nos \u00faltimos anos foram os produzidos pelo Daniel Lanois, que faz o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/11\/09\/discografia-comentada-bob-dylan-parte-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cOh Mercy\u201d e o \u201cTime Out of Mind\u201d<\/a>, e a partir de ent\u00e3o o Dylan come\u00e7a a se autoproduzir. E o Paul, o \u00faltimo disco dele que vale a pena \u00e9 o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/06\/22\/discografia-comentada-paul-mccartney\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Chaos and Creation in the Backyard<\/a>\u201d, que \u00e9 produzido pelo Nigel Godrich, produtor do Radiohead. Depois s\u00e3o discos autoproduzidos. Acho que facilmente daria para tirar o Guilherme Arantes n\u00e3o de uma zona de conforto, mas de um lugar em que os excessos s\u00e3o aparados. O Dylan sabe disso, o Paul sabe tamb\u00e9m, mas talvez eles prefiram gravar sozinhos, porque eles sabem que se forem gravar outro disco com o Daniel Lanois ou o Nigel Godrich, eles v\u00e3o querer mexer em coisas que o Dylan e o Paul n\u00e3o querem, ent\u00e3o eles preferem evitar o confronto.<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 muito dif\u00edcil, a pessoa tem que estar a fim de fazer isso. \u00c9 a coisa da dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica: se eu conseguisse, poderia funcionar maravilhosamente bem, quando o cara topa. O Nando Reis, por exemplo, \u00e9 um sonho, \u00e9 um cara muito generoso na escuta e no di\u00e1logo, al\u00e9m de ser um \u00f3timo entrevistado, ele \u00e9 muito bom. Ele j\u00e1 d\u00e1 as frases prontas, ele \u00e9 muito bom, ele viaja com o jornalista. No \u201cTrinca de Ases\u201d, ele n\u00e3o queria que eu estivesse. Como isso come\u00e7a? Rolou um projeto do Jorge Bastos Moreno, um jornalista do Rio, e esse cara inventou um show com Nando Reis e Gilberto Gil em Bras\u00edlia. Eu n\u00e3o o conheci, mas todo mundo que conheceu \u00e9 apaixonado por ele. O [jornalista] Leonardo Lichote conta que rolavam uns saraus na casa dele, dizia que eram incr\u00edveis. Mas enfim: o Moreno fez esse show em Bras\u00edlia, que a Gal era convidada. Ela at\u00e9 perguntou o que poderia cantar, eu sugeri \u201cDois Rios\u201d, porque era bem Beatles, era a cara dela. Acharam bonito, e a\u00ed inventaram de fazer um show com os tr\u00eas. A Gal acabou me puxando, claro que eu queria, poxa, trabalhar com o Nando e o Gil. Eram caras que nunca iam me ligar. A\u00ec fui, fiquei entusiasmado. Quando cheguei para o primeiro ensaio, o Nando ficou meio assim. Ele era super querido como entrevistado, mas ele estava estranho ali. A\u00ed come\u00e7amos a trabalhar e, telepaticamente, a gente foi se entendendo. Temos dez anos de diferen\u00e7a de idade, e ele deve ter uns 20 de diferen\u00e7a para o Gil e a Gal, ent\u00e3o n\u00f3s \u00e9ramos mais pr\u00f3ximos em termos geracionais. Come\u00e7ou a rolar uma telepatia, e a gente sabia exatamente o que cada um n\u00e3o estava falando. Poxa, s\u00e3o dois apaixonados pelas duas figuras mitol\u00f3gicas, e ao mesmo tempo Gil e Gal s\u00e3o amigos, com idiossincrasias, cada um na sua. No segundo dia, isso foi t\u00e3o espont\u00e2neo que a Flora Gil falou pra ele: \u201ct\u00e1 vendo, voc\u00ea n\u00e3o queria que ele estivesse aqui, agora t\u00e1 adorando, n\u00e9?\u201d. E depois ele admitiu que foi um idiota, depois acabamos fazendo o disco do Roberto (\u201cN\u00e3o Sou Nenhum Roberto, Mas \u00e0s Vezes Chego Perto\u201d). P\u00f4, o Nando \u00e9 um autor de hits, ele sozinho consegue lotar in\u00fameros palcos, mas ele estava ali fazendo as coisas por amor ao Gil e a Gal. Ele \u00e9 um cara parecido com a gente. Isso aqui (aponta para a estante de discos) ele tem na casa inteira. Ele sabe a ficha t\u00e9cnica de tudo, ele tem tr\u00eas discos de cada. \u00c9 a pessoa que eu conhe\u00e7o que mais gosta e fica mais empolgada com o pr\u00f3prio trabalho. \u00c9 uma del\u00edcia n\u00e3o ter que estimular o cara, ter algu\u00e9m superapaixonado com voc\u00ea. \u00c9 muito foda trabalhar com gente assim, eu fiquei muito feliz de entender que um cara que \u00e9 capaz de chegar num lugar t\u00e3o grandioso no Brasil pode ser t\u00e3o elaborado como o Nando. \u00c9 o cara da gera\u00e7\u00e3o dele que mais entende o mercado hoje, consegue fazer o que quer dentro da m\u00e1quina. Isso para mim, sabe quem \u00e9? Caetano Veloso, tamb\u00e9m sempre foi assim.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"N\u00e3o Sou Nenhum Roberto, Mas \u00e0s Vezes Chego Perto\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_kvacEUWo47DA6WlV785Z6HOzH7tYte5UU\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: E o Nando \u00e9 um cara que as pessoas n\u00e3o entenderam bem ainda.<\/strong><br \/>\nMarcus: Ele ainda t\u00e1 esperando uma virada, ainda que j\u00e1 d\u00ea para ver alguns sinais. Anavit\u00f3ria, T\u00f3 Brandileone, voc\u00ea j\u00e1 v\u00ea eles olhando para o Nando de um novo jeito, \u00e9 algo que precisa de uma gera\u00e7\u00e3o para tirar a bagun\u00e7a do caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: \u00c9 engra\u00e7ado, porque o Nando \u00e9 o cara que est\u00e1 fazendo isso pela segunda vez. Ele fez isso para poder ir para a carreira solo.<\/strong><br \/>\nMarcus: E ele fez uma carreira solo, n\u00e9? Que artista solo\u2026 ok, o Arnaldo tem uma carreira impec\u00e1vel, mas \u00e9 diferente. Que artista solo hoje consegue amarrar tanta coisa quanto o Nando? Que saiu de uma banda, voc\u00ea pode at\u00e9 gostar mais do Arnaldo do que do Nando, mas poxa: ele vive exatamente do que ele quer. E na hora de fazer o disco do Roberto, p\u00f4, as refer\u00eancias do Nando eram aquele disco estranh\u00e3o do Bob Dylan (\u201cSelf Portrait\u201d, de 1970).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u00c9 o disco que o Greil Marcus escreve na Rolling Stone: \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2018\/03\/01\/dylan-com-cafe-dia-10-self\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que merda \u00e9 essa?<\/a>\u201d<\/strong><br \/>\nMarcus: As refer\u00eancias s\u00e3o elaborad\u00edssimas, \u00e9 um neg\u00f3cio muito bom. E p\u00f4, o Nando \u00e9 o cara que vai ler essa entrevista. De todo mundo que a gente falou aqui, ele \u00e9 quem vai ler. Ele gosta de ler, ele est\u00e1 interessado, ele quer saber o que falaram dele, no que falaram dos outros, no pensamento que foi elaborado. Isso \u00e9 muito raro num artista desse tamanho, j\u00e1 com 59 anos, com quatro d\u00e9cadas de carreira e muitos sucessos. Ele tem muitas vidas, porque a vida dos Tit\u00e3s \u00e9 gigante em termos de sucesso, e a vida solo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: E tem todo o cap\u00edtulo C\u00e1ssia, tem parceria com Skank, Cidade Negra\u2026<\/strong><br \/>\n<strong>Marcelo: E ele ainda tem todo o cap\u00edtulo Marisa Monte, que ele \u00e9 at\u00e9 um dos primeiros a estar ali com ela, depois \u00e9 que o Arnaldo vai para o Tribalistas.<\/strong><br \/>\nMarcus: Ele sempre foi esse cara nerd, que conhece os discos, e ele mostra v\u00e1rias coisas. Mas s\u00f3 para tentar encerrar, porque a hist\u00f3ria doida da dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e9 que cada trabalho \u00e9 muito diferente. No caso do Nando, ele queria fazer um disco de Roberto Carlos, ent\u00e3o envolve pensar no recorte. No caso da Gal, \u00e9 sempre ir atr\u00e1s de repert\u00f3rio, pensar a banda, o que o disco vai falar. E em alguns casos, como o do Adriano Cintra (\u201cAnimal\u201d, de 2014), ele tinha o disco inteiro em ingl\u00eas. S\u00f3 que ele queria lan\u00e7ar o disco no Brasil, ent\u00e3o eu sugeri fazer o disco todo em portugu\u00eas. E a\u00ed eu mandei para todo mundo fazer letras, tem de tudo nesse disco: Odair Jos\u00e9, Alice Caymmi, Kiko Dinucci. Ent\u00e3o cada caso \u00e9 um caso, \u00e9 quase uma profiss\u00e3o diferente. No caso de artistas mais novos, \u00e9 diferente tamb\u00e9m\u2026e banda \u00e9 uma roubada! Eu tenho que tatuar: \u201cn\u00e3o fa\u00e7a bandas!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Tem uma coisa que eu queria te perguntar sobre isso da produ\u00e7\u00e3o, da dire\u00e7\u00e3o. Em v\u00e1rias entrevistas recentes que fiz para o Scream &amp; Yell, ouvi muitos artistas exaltarem o fato de ter um produtor externo. S\u00e3o casos que v\u00e3o desde o Maur\u00edcio Pereira, que sempre foi independente <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/10\/mauricio-pereira-micro-entrevista-imperdivel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e recentemente gravou bastante com o Gustavo Ruiz<\/a>, at\u00e9 bandas como <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/07\/22\/gorduratrans-lanca-zera\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">gorduratrans<\/a> ou <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/26\/entrevista-glue-trip-fala-sobre-nada-tropical-o-seu-disco-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Glue Trip<\/a>, que lan\u00e7aram esse ano seus primeiros discos em que tamb\u00e9m tem um produtor no processo. Eu achei engra\u00e7ado, porque eu cresci numa gera\u00e7\u00e3o que a banda sempre queria se autoproduzir, brigando com as gravadoras e buscando seu espa\u00e7o. Como voc\u00ea, produtor, v\u00ea essa invers\u00e3o dos fatores acontecendo?<\/strong><br \/>\nMarcus: Eu n\u00e3o vejo invertido, vejo ainda a banda querendo se autoproduzir, embora ela ache que queira que algu\u00e9m a produza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Uma coisa meio freudiana?<\/strong><br \/>\nMarcus: Isso. Lidar com banda, pelo menos da minha experi\u00eancia, \u00e9 sempre um processo diferente. Quando voc\u00ea est\u00e1 lidando com o artista, \u00e9 sempre um processo de um para um. Ent\u00e3o, assim: voc\u00ea conversa com aquela pessoa e o seu argumento vai mexer na cabe\u00e7a da pessoa. O que acontece de diferente \u00e9 que voc\u00ea fala com um, mas \u00e9 um voto em cinco, seis, at\u00e9 mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: N\u00e3o \u00e9 uma democracia t\u00e3o simples.<\/strong><br \/>\nMarcus: N\u00e3o. E o produtor \u00e9 um intruso. A banda j\u00e1 tem uma din\u00e2mica entre si que funciona bem. Eles sabem bem como lidar com cada membro da banda, para anular alguma coisa. Ent\u00e3o o cara que est\u00e1 de fora chegando \u00e9 um idiota, ele \u00e9 o cara que jamais vai ser ouvido. Eu trabalhei com a Scalene, que foi muito bom, mas \u00e9 isso: a sensa\u00e7\u00e3o que eu sa\u00ed daquele trabalho \u00e9 a de que eu fiz pouca coisa, embora todo o come\u00e7o da hist\u00f3ria tenha vindo de mim. E trabalhei com o Bala Desejo, que o come\u00e7o partiu de mim e do Bill, do Coala, a gente teve muitas reuni\u00f5es. Tinha um grupo no WhatsApp que era eu, os quatro e o Jo\u00e3o, que era o empres\u00e1rio deles. De repente, come\u00e7aram a entrar v\u00e1rios n\u00fameros com DDD 21. Eu perguntei: \u201cah, quem s\u00e3o fulano e ciclano?\u201d \u201cAh, s\u00e3o uns caras que a gente conheceu n\u00e3o sei aonde e s\u00e3o muito legais, o outro que \u00e9 do audiovisual\u201d&#8230; e de repente o grupo tinha 50 pessoas. Tanto que eu entro como dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica e depois mudo meu cr\u00e9dito para supervis\u00e3o art\u00edstica. A dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e9 deles, eu sou uma dessas 50 pessoas que eles ouvem, embora o come\u00e7o tenha sido ali comigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: \u00c9 uma din\u00e2mica horizontal.<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 complicado\u2026 quer dizer, n\u00e3o \u00e9 complicado nem um pouco, eu \u00e9 que me sinto culpado. Eu fico ali participando, os caras est\u00e3o me pagando e \u00e0s vezes eu acho que estou fazendo pouco \u2013 embora, muitas vezes, eu esteja fazendo mais do que os caras queriam. Quando eu pego um trabalho, eu sempre acho que tenho que fazer muito. E a\u00ed, tanto no Bala Desejo quanto na Scalene, eu fiz muito menos do que pensei que ia fazer. Mas \u00e9 engra\u00e7ado: quem olha o disco da Scalene, por exemplo, acha \u00f3bvio que eu tenha trabalhado ali, porque \u00e9 um disco \u201cbrasileiro\u201d, mas eu acho que n\u00e3o. N\u00e3o estou falando mal do disco, acho \u00f3timo, e olha que eu n\u00e3o gosto muito de todos os discos que eu fiz n\u00e3o. N\u00e3o vou dizer quais\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Traz mais uma cerveja, Marcelo! (risos)<\/strong><br \/>\n<strong>Marcelo: Eu n\u00e3o gosto muito dos discos anteriores da Scalene, e eu fiquei muito frustrado quando eu fui v\u00ea-los no Coma, em Bras\u00edlia. O disco tinha sa\u00eddo semanas antes, mas eles n\u00e3o tocaram nenhuma m\u00fasica do disco. Eu ia ver o show, ia falar do disco, e a\u00ed eles n\u00e3o tocaram nada.<\/strong><br \/>\nMarcus: Na verdade, eles queriam fazer um disco brasileiro, uma coisa meio ac\u00fastica, com sucessos deles, para rodar mais festivais desse tipo\u2026 como o Coala. Olha como fecha a conta? \u00c9 uma pe\u00e7a que faltava e agora faz \u201cclack\u201d, sendo que eles t\u00eam o festival deles, o Coma. Mas \u00e9 isso: eles queriam fazer um disco ac\u00fastico com uma in\u00e9dita, e me mostraram algumas. Eu achei v\u00e1rias ideias deles muito boas, e a\u00ed eu falei que tinha que fazer um disco todo novo, nada de ac\u00fastico. Eles entenderam que o material era muito bom, a gente fez listas de refer\u00eancias, trocamos algumas coisas, mas na hora do est\u00fadio, foi outra coisa. Eu estava presente, eu fui todo dia, mas o processo foi deles. Isso me angustiou por culpa, porque de repente n\u00e3o era nem para eu ter ido, talvez eu j\u00e1 tivesse at\u00e9 feito minha parte na cabe\u00e7a deles. Ent\u00e3o, esse tipo de coisa me d\u00e1 uma coisa de n\u00e3o saber o que fazer. No disco da Juliana Linhares, eu n\u00e3o fui ao est\u00fadio, por exemplo, foi tudo remoto, porque ela estava no Rio, eu em S\u00e3o Paulo e est\u00e1vamos no meio da pandemia. Eu mandava refer\u00eancias, ela trocava, e o El\u00edsio [Freitas], que \u00e9 um puta produtor talentoso do Rio, que est\u00e1 em ascens\u00e3o, gravava aquilo. A Juliana me ligou na pandemia, quem apresentou a gente foi a Fabiane Pereira, radialista. Ela me ligou e falou: \u201colha, eu sou de Natal, sou atriz, mas queria fazer um disco de cantora, vim para o Rio ser atriz, mas sou cantora\u201d. Eu achei engra\u00e7ado porque parecia que ela estava me contando a hist\u00f3ria da Elba Ramalho, ela at\u00e9 ria. E a\u00ed eu falei para ela que tinha que fazer um disco \u00e0 moda daqueles discos de cantora de 1979. P\u00f4, \u201cFrevo Mulher\u201d, quando toca numa festa, a gente sabe o que acontece. Por que n\u00e3o tem um \u201cFrevo Mulher\u201d de 2021, 2022? \u00c9 a mesma coisa que eu falei para a M\u00e1rcia Castro, com quem eu fiz o \u201cAx\u00e9\u201d: a gente sabe o que acontece numa festa quando toca \u201cO Canto da Cidade\u201d, quando toca Olodum. Essas pr\u00f3prias artistas, a Daniela, a Ivete, a Margareth, foram no decorrer da carreira essa pot\u00eancia, mas cada uma delas optou por um caminho diferente. A Ivete foi ser uma diva internacional\u2026<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Scalene - Vai Ver \/ Furta-Cor (Clipe Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ix83197ARlY?list=OLAK5uy_nDYv1F3qNW0g5-GcSzY9S9NldFIzcBG5c\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: A Claudia Leitte foi seguindo ela\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: Sim\u2026 mas aquilo que essas tr\u00eas faziam l\u00e1 atr\u00e1s n\u00e3o tem quem fa\u00e7a. \u00c9 fazer novo, n\u00e3o \u00e9 copiar. \u00c9 transpor para a realidade de 2022, mas n\u00e3o necessariamente relido. Se for para ser relido, j\u00e1 tem o Baiana System. No disco da M\u00e1rcia, eu fui trabalhar junto com o (maestro) Letieres Leite. Eu n\u00e3o conhecia ele, conheci ele de olho, me apaixonei por ele no processo e pensei que a gente ia fazer muita coisa junto. E a\u00ed ele morre logo depois, foi horr\u00edvel. Mas bem: o Letieres e o Lucas Santanna entram no est\u00fadio e come\u00e7am a produzir. Esse disco foi bizarro: a M\u00e1rcia me ligou e disse que queria fazer um disco comigo \u2013 e eu juro que j\u00e1 tinha pensado nesse disco dela uma vez, b\u00eabado, saindo do (restaurante) La Tartine. A ideia de fazer um disco de ax\u00e9 com a pot\u00eancia de 2022. A M\u00e1rcia me ligou e eu disse: \u00f3, o plano A \u00e9 ter Letieres Leite e Lucas Santanna na produ\u00e7\u00e3o, no mundo ideal, Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Margareth Menezes nos feats. Ela me ligava com as novidades e eu ficava maluco, porque todo mundo topou. Nunca tinha acontecido isso! E valeu: eu adoro esse disco, mesmo, e s\u00e3o poucos os que eu adoro. Tinha o conceito amarrado, da mesma forma como teve o da Juliana Linhares, um disco de cantora da virada dos anos 1970, como Elba, C\u00e1tia de Fran\u00e7a, Amelinha\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: A pr\u00f3pria Gal est\u00e1 nessa virada, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 que ela j\u00e1 existia, n\u00e9, mas ela tem essa virada na carreira. Uma cantora que eu atenderia o telefone na hora, inclusive: a Faf\u00e1 de Bel\u00e9m. Mas eu acho que precisa rolar um neg\u00f3cio grande para ela, de boa produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Acho que o \u201cHumana\u201d j\u00e1 fez esse servi\u00e7o de reposicionar ela, mas ainda falta esse avan\u00e7o. E ela t\u00e1 quicando\u2026<\/strong><br \/>\n<strong>Capelas: T\u00e1 no disco da Nat\u00e1lia Matos, que \u00e9 uma cantora de Bel\u00e9m.<\/strong><br \/>\n<strong>Marcelo: O \u201cHumana\u201d recolocou ela at\u00e9 politicamente, agora falta dar o salto.<\/strong><br \/>\nMarcus: Mas acho que o \u201cHumana\u201d \u00e9 bolha. Como Faf\u00e1, ele \u00e9 menor do que coisas que ela fez anteriormente. \u00c9 um passo inteligente: \u00e9 reduzir para depois explodir. Para ela, tinha que ser um disco para o mainstream, bom num n\u00edvel que ela merece. Esse da Juliana Linhares causou coisas incr\u00edveis, sabe? A Daniela Mercury ligou e queria conhecer, queria gravar \u201cBombinha\u201d, que \u00e9 a m\u00fasica que abre o disco. E agora a m\u00fasica t\u00e1 para entrar na novela (\u201cMar do Sert\u00e3o\u201d), como tema da protagonista. \u00c9 doido: um artista novo, que t\u00e1 chegando, precisa de muito mais coisa para funcionar. N\u00e3o adianta ter um disco incr\u00edvel e n\u00e3o ter a roda girando do show, que sen\u00e3o o disco \u00e9 esquecido j\u00e1 na semana seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Que \u00e9 o grande problema da Natura Musical, para mim. A Natura faz muito bem toda essa primeira parte, de uma maneira maravilhosa\u2026<\/strong><br \/>\nMarcus: (interrompe) P\u00f4, ser\u00e1 que \u00e9 culpa sua? O edital novo tem um monte de itens sobre show\u2026 p\u00f4, se for culpa sua, obrigado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: A Natura \u00e9 maravilhosa. Eu amo e sou f\u00e3. S\u00f3 que eles se posicionam como gravadora, mas n\u00e3o basta lan\u00e7ar o disco. Tem que chegar na r\u00e1dio com o disco debaixo do bra\u00e7o, apresentar, fazer o meio de campo com ve\u00edculos (de midia e difus\u00e7\u00e3o), tem que fazer show. Eles fazem uma parte maravilhosa que \u00e9 permitir que o disco seja gravado, mas abandonam o disco \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcus: Total, total, \u00e9 isso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O Que Meus Calos Dizem Sobre Mim\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_nuwVhv6NvAgVYYmbuI2Q4Y2BOcvRiMbO4\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Um dos discos que voc\u00ea trabalhou esse ano <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/06\/15\/alianca-faro-panorama-brasil-destaques-de-maio-de-2022\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">foi o da Ala\u00edde Costa<\/a>. Como foi esse processo?<\/strong><br \/>\nMarcus: Eu tive a ideia no meio da pandemia, meio louco, lavando meus discos. \u00c9 aquilo, n\u00e9: eu estava desempregado, n\u00e3o tinha nada para fazer, porque era pandemia. Estava na letra A, logo no come\u00e7o (dos meus discos), cheguei na Ala\u00edde e comecei a ouvir os discos. Umas coisas estranhas, bonitas, fora do comum, e a\u00ed pensei logo que queria fazer uma coisa com ela. Mandei um aviso pro Emicida de uma live que ela ia fazer, ele achou maravilhoso, ela cantando Johnny Alf, e a\u00ed eu sugeri da gente fazer um disco da Ala\u00edde. E ele devolveu: \u201cmano, estou pensando nisso desde que voc\u00ea mandou aquele v\u00eddeo\u201d. A gente come\u00e7ou a fazer e virou o projeto. Batalhamos primeiro para ser, eu botei grana, e chegou num momento que n\u00e3o deu mais, at\u00e9 que chegou um impasse. E eu pensei que ia botar grana do meu bolso mesmo pra fazer, como se eu tivesse alguma. Recentemente, eu assisti o document\u00e1rio \u201cAmarelo\u201d e o Emicida conta ali a hist\u00f3ria da Ruth de Souza, que eles iam entrevistar, s\u00f3 que ele tinha uma turn\u00ea. E a\u00ed ela morre durante a turn\u00ea, sem dar a entrevista. O pensamento com a Ala\u00edde foi meio esse \u2013 \u00e9 prov\u00e1vel que eu morra antes da Ala\u00edde, porque ela \u00e9 bem melhor de sa\u00fade do que eu, mas eu queria fazer. No fim das contas, eu acho que esse disco da Alaide, \u201cO Que Meus Calos Dizem Sobre Mim\u201d, \u00e9 dos mais bem amarrados que eu fiz: o da Ju, o da M\u00e1rcia e o da Ala\u00edde. \u00c9 um disco que tem assunto, tem tema, tem uma proposta de discuss\u00e3o \u2013 seja para se divertir na pista, como \u00e9 o caso da M\u00e1rcia, ou discutir o que \u00e9 o Nordeste, como a Juliana. Nem sei porque eu t\u00f4 falando disso, \u00e9 a cerveja\u2026<\/p>\n<figure id=\"attachment_69390\" aria-describedby=\"caption-attachment-69390\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-69390 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/alaide_guilherme_juliana.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/alaide_guilherme_juliana.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/alaide_guilherme_juliana-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-69390\" class=\"wp-caption-text\"><em>Com Ala\u00edde Costa, Guilherme Arantes e Juliana Linhares \/ Acervo Pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: A gente estava falando do Bala Desejo. Como eles se <span style=\"color: #000000;\">reuniram<a style=\"color: #000000;\" <a=\"\" name=\"reuniram\"><\/a><\/span>?<\/strong><br \/>\nMarcus: A gente volta para o come\u00e7o da conversa, que \u00e9 o Coala. A gente anunciou a Beth\u00e2nia numa ter\u00e7a-feira. A\u00ed logo depois a gente anunciou a Gal, e todo mundo ficou gritando \u201cDoces B\u00e1rbaros\u201d na caixa de coment\u00e1rios. Isso foi numa fase da pandemia em que as coisas tinham dado uma melhorada, ainda era para ser a edi\u00e7\u00e3o de 2021, e a\u00ed fui encontrar os meninos na casa do Henrique Anacleto, que tamb\u00e9m \u00e9 produtor do Coala. Eles s\u00e3o muito astral, mas eu estava puto da vida com essa onda de Doces B\u00e1rbaros. A gente nunca teve a Beth\u00e2nia fazendo festival, a\u00ed tinha a Gal no outro dia\u2026 mas ningu\u00e9m falou de Doces B\u00e1rbaros quando tinha o Gil ou o Caetano. D\u00e1 para entender as meninas que reclamam de machismo. P\u00f4, porque que quando s\u00e3o as duas mulheres do quarteto que v\u00e3o fazer show, a galera n\u00e3o fica satisfeita? Que filha da putagem \u00e9 essa? E a\u00ed a gente ficou l\u00e1 pirando, e a\u00ed eu virei do nada e falei: \u201ce se a gente fizesse os nossos Doces B\u00e1rbaros? Sei l\u00e1, e esses moleques da Tereza Cristina?\u201d. Eu conhecia j\u00e1 o Z\u00e9 Ibarra da casa da Paula Lavigne e conhecia o Lucas. Eu tinha feito uma entrevista com a J\u00falia (Mestre) para o Amazon Music, mas a Dora (Morelenbaum) eu nunca tinha falado. O Bill achou foda, abriu o olho. \u00c9 doido, n\u00e9: os Doces B\u00e1rbaros tinham s\u00f3 dez anos de carreira quando se juntaram. Parece mais, mas olha que dez anos de carreira, n\u00e9? Bem, esses quatro tem carreiras independentes tamb\u00e9m, mas achei que poderia rolar \u2013 \u00f3bvio que eu e o Bill est\u00e1vamos b\u00eabados. No dia seguinte, o Bill falou para eu entrar na live da Tereza Cristina. E naquela hora os meninos do Coala estavam convidando a \u201ccomunidade hippie\u201d para fazer uma banda e participar do festival. A Tereza achou estranho, mas falou \u201cp\u00f4, deve ser verdade, \u00e9 perfil verificado\u201d. A\u00ed eu entrei, a Tereza me conhece e a\u00ed tudo se confirmou. Passa mais um tempo e o Z\u00e9 Ibarra me liga perguntando \u201ce se a gente lan\u00e7asse um single, s\u00f3 para ter algo no Coala, ser\u00e1 que eles topariam?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Mas a ideia era tocar o repert\u00f3rio dos Doces B\u00e1rbaros?<\/strong><br \/>\nMarcus: N\u00e3o, era s\u00f3 tocar algumas coisas deles. Doces B\u00e1rbaros era s\u00f3 a nossa onda, a inspira\u00e7\u00e3o de ter dois homens e duas mulheres, com aquela energia sexual e muito talento, muita beleza de voz e de m\u00fasica. Cada vez que eu os vejo ao vivo, isso se reafirma. Bem, o Z\u00e9 Ibarra me ligou e eu adiantei que topavam, mas disse que o Bill era tipo eu, que gostava de \u00e1lbum. \u201cSer\u00e1 que d\u00e1 para fazer um disco?\u201d, eu perguntei. Ele n\u00e3o sabia se tinha repert\u00f3rio, eu falei para o Z\u00e9 fazer o trabalho dele. Levei a proposta para os Coalas e eles toparam fazer na hora. Deu um match total e rolou, tanto que na grava\u00e7\u00e3o do disco, a gente morou junto. Estava eu, o Bill, o Henrique Anacleto, a Fernanda e o Gui, cinco pessoas do Coala, a mulher do Gui e a mulher do Bill, mais os quatro Bala Desejo, mais o menino que fez o filme, morando numa casa em Santa Teresa, foi bem hippie.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Embala Pra Viagem\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dqhCrK6Dirc?list=OLAK5uy_kocgQfpvqhb_olEVOAwrmzhMun2Qgezaw\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Voc\u00ea disse que estava no come\u00e7o e depois ficou meio de canto. Como foi esse <span style=\"color: #000000;\">processo<a style=\"color: #000000;\" <a=\"\" name=\"processo\"><\/a><\/span>?<\/strong><br \/>\nMarcus: A gente estava no come\u00e7o e tinha uma grande d\u00favida: o que essa banda vai falar? A gente ainda estava no momento da pandemia, de governo Bolsonaro com a galera cansada de lutar. E isso me remeteu a um momento que todos eles amam da m\u00fasica, que \u00e9 a era do desbunde, na ditadura militar. Come\u00e7o dos anos 1970, \u00e9 a \u00e9poca das Dunas da Gal: ou a galera foi exilada, ou foi presa, ou desistiu da luta e falou \u201cfoda-se\u201d. E esse foda-se era fumar maconha, ser feliz e trepar, e falar dessas coisas e da luta de um jeito meio escondido, \u00e9 outro jeito de lutar. \u00c9 lutar pela alegria, tamb\u00e9m: se a galera fica triste e derrubada n\u00e3o d\u00e1 para reagir e lutar. \u00c9 desbunde, tanto que tem essa palavra em uma ou duas m\u00fasicas. A gente come\u00e7ou a conceitualizar, at\u00e9 o nome chegou nisso, a\u00ed come\u00e7amos a falar da Ana Frango El\u00e9trico, e ela sofreu a mesma coisa que eu: ela seria a produtora do disco, mas eles s\u00e3o t\u00e3o exuberantemente talentosos na m\u00fasica que acabou n\u00e3o rolando. Imagina: o Lucas produziu o \u201cMeu Coco\u201d junto com o Caetano. Eles tomam conta, \u00e9 gente muito inteligente, gente muito jovem, eu tenho um lugar de gera\u00e7\u00f5es anteriores que \u00e9 muito diferente. Eles come\u00e7aram a fazer as m\u00fasicas, o repert\u00f3rio chegando, eu enchendo o saco dizendo que faltava uma \u201clove song\u201d, dizendo que tinha muita m\u00fasica triste. \u00c9 que eles s\u00e3o artistas, cantores e compositores, de uma m\u00fasica bonita, bela, exuberante. O Z\u00e9 \u00e9 Clube da Esquina, p\u00f4, ele est\u00e1 tocando com o Milton, n\u00e9? E o Lucas tamb\u00e9m, eu estava num dia l\u00e1 que eles gravaram com o Milton no primeiro disco da D\u00f4nica. A D\u00f4nica, embora tenha o filho do Caetano [Tom Veloso], \u00e9 total sobre Minas. \u00c9 rock progressivo, uai. E a Dora \u00e9 filha da bossa nova, n\u00e9, pai e m\u00e3e, o pai e a m\u00e3e acompanharam o Tom Jobim muitos anos. J\u00e1 a J\u00falia \u00e9 mais Rita Lee, ela \u00e9 a mais pop da parada. Ent\u00e3o, quase sempre \u00e9 sobre a beleza e a exuber\u00e2ncia e a musicalidade da can\u00e7\u00e3o brasileira. M\u00fasica alegre n\u00e3o entra nessas, \u00e9 muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Capelas: Depois de tudo isso, qual \u00e9 a pergunta que a gente devia ter feito e n\u00e3o fez?<\/strong><br \/>\nMarcus: Nenhuma. Tem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Vou fazer a pergunta piada, t\u00e1? Voc\u00ea tem saudade de ser jornalista?<\/strong><br \/>\nMarcus: N\u00e3o, nenhuma. Eu n\u00e3o gosto de escrever, eu descobri. S\u00f3 por isso. Eu fiz porque eu gostava de m\u00fasica e n\u00e3o sabia o que fazer com isso. M\u00fasica \u00e9 o meu norte desde a \u00e9poca do Spot, n\u00e9? Na ULM n\u00e3o era, engra\u00e7ado, n\u00e9? E voc\u00eas sabem disso: quantas coisas diferentes voc\u00eas conseguiriam fazer al\u00e9m de jornalismo musical tendo a m\u00fasica como a mat\u00e9ria prima?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Um monte.<\/strong><br \/>\nMarcus: Ent\u00e3o quando eu, semianalfabeto, virei jornalista, \u00e9 por causa de m\u00fasica. Quando eu semianalfabeto tecnicamente musical, virei diretor art\u00edstico, \u00e9 por causa da m\u00fasica. Eu sempre gostei de disco. A gente sempre olhou os discos al\u00e9m das can\u00e7\u00f5es, de tentar entender aquele conjunto. Com isso, a gente consegue fazer um monte de coisa na nossa vida. E como eu n\u00e3o sei fazer nada, facilita. P\u00f4, se eu tivesse feito faculdade\u2026 eu fiz dois anos de filosofia na FFLCH e abandonei. A\u00ed fiz tr\u00eas anos de m\u00fasica na ULM e abandonei. Quando eu vi que eu n\u00e3o tinha nenhuma faculdade, \u00e9 muito f\u00e1cil abandonar um neg\u00f3cio. Imagino que para jornalista que estudou o curso todo seja mais dif\u00edcil. Fazer jornalismo era uma boa ideia nos anos 1990, quando eu comecei a faculdade. Mas \u00e9 isso: voc\u00ea n\u00e3o saber fazer as coisas \u00e9 muito libertador, porque voc\u00ea acaba sabendo fazer as coisas, se voc\u00ea tiver um norte. O norte \u00e9 a m\u00fasica. E \u00e9 isso, a\u00ed vai fazendo: precisa pagar as contas. Assim que eu sa\u00ed da Folha, eu ainda vivi um ano e pouco como jornalista, e depois eu estava como jornalista e dirigindo coisas, o jornalismo foi mirrando. \u00c0s vezes pagava R$ 200, R$ 300 para uma mat\u00e9ria que consumia dias para ser feita. E o outro lado foi se apresentando melhor nesse aspecto, mas tamb\u00e9m mais gostoso, porque eu n\u00e3o gosto de escrever mesmo, eu sofro. Sei l\u00e1, al\u00e9m disso eu percebi que a dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica estava me querendo, \u00e9 bom amar e ser amado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u00c9 um lugar mais cool.<\/strong><br \/>\nMarcus: \u00c9 t\u00e3o sem glamour igual [o jornalismo]. \u00c9 t\u00e3o quebra-pedra igual, tipo o Spot, n\u00e3o tem diferen\u00e7a nenhuma; tem gente que te atrapalha, tem que engolir sapo, tem que fazer uma parte chatona para ter uma parte muito legal, \u00e9 isso, igual qualquer trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O Woody Allen fala muito disso: o filme na cabe\u00e7a dele \u00e9 maravilhoso, mas na hora que come\u00e7am a entrar as pessoas, o cara da fotografia, do figurino, os atores\u2026 e quando chega no final acaba virando outra coisa. Pode ser uma obra legal, mas normalmente n\u00e3o \u00e9&#8230;<\/strong><br \/>\nMarcus: A Rita Lee, quando eu a entrevistei uma das vezes, falou algo assim: ela pensava em parar um dia. Eu achei doido, como assim ela n\u00e3o gostava do que ela fazia? E ela falava: \u201ceu adoro fazer show, essa hora e vinte eu adoro. Mas para ter essa uma hora e vinte eu tenho que viajar e passar perrengue.\u201d E agora viajando com a Gal eu entendo: aquele momento que \u00e9 incr\u00edvel, que eu via do lado do espectador, aquela pessoa se ferrou muito para chegar ali, \u00e0s vezes viajou quatro cinco horas para chegar at\u00e9 o lugar do show, porque o aeroporto \u00e9 longe. Em Garanhuns, agora, foi isso. \u00c9 sair de hotel, vai pro hotel, pega mala, fecha mala\u2026 isso de glamour \u00e9 uma grande mentira. Tomara que as pessoas continuem acreditando porque \u00e9 bonito vender que \u00e9 glamour.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Eu falei isso recentemente. Eu e o Capelas <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/05\/28\/balanco-festival-casarao-festeja-22-anos-com-grandes-shows-de-emicida-dead-fish-terno-rei-otto-daniel-groove-e-o-tronxo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fomos recentemente para Porto Velho cobrir o Festival Casar\u00e3o<\/a>. Era a minha quarta vez. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/06\/06\/balancao-festival-casarao-2014\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Teve um ano que eu fui<\/a> e o Daniel Groove virou para mim e falou: \u201ccara, eu acho demais voc\u00ea estar aqui, porque voc\u00ea n\u00e3o precisava, e eu n\u00e3o sei o que voc\u00ea t\u00e1 fazendo aqui\u201d. E eu tamb\u00e9m n\u00e3o sabia, mas eu estava l\u00e1, mesmo sendo cansativo.<\/strong><br \/>\nMarcus: Para o artista \u00e9 isso tamb\u00e9m. E o exemplo f\u00e1cil \u00e9: fala para o estagi\u00e1rio que chegou na reda\u00e7\u00e3o agora que voc\u00ea est\u00e1 indo cobrir o Rock in Rio. Ele vai pirar, mas voc\u00ea sabe o que significa. No primeiro \u00e9 legal, mas no quarto? E no d\u00e9cimo? Voc\u00ea sabe que \u00e9 zero glamour cobrir o Rock in Rio, \u00e9 s\u00f3 roubada. [Com artista tamb\u00e9m]: aquela hora e meia que voc\u00ea fica em cima do palco, mas para chegar naquilo \u00e9 foda. E detalhe: depois tem a volta para casa. E todos os empregos s\u00e3o assim: dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica n\u00e3o \u00e9 mais cool que o jornalismo, fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u00d3tima frase para fechar.<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_69402\" aria-describedby=\"caption-attachment-69402\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-69402 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcus_adelaide.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"938\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcus_adelaide.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/marcus_adelaide-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-69402\" class=\"wp-caption-text\">Marcus Preto e Adelaide \/ Acervo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u2013 Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas)<\/a>&nbsp;\u00e9 jornalista. Apresenta o&nbsp;<a href=\"https:\/\/twitter.com\/indieeldorado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>, na Eldorado FM, e escreve a newsletter&nbsp;<a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais<\/a>. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<br \/>\n\u2013&nbsp;Marcelo Costa&nbsp;(<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a&nbsp;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"No extenso papo, retomando uma tradi\u00e7\u00e3o antiga deste site, o produtor relembra bastidores de trabalho e vida pessoal em hist\u00f3rias de jornalismo, da noite paulistana e da MPB\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/09\/14\/entrevista-de-garcom-a-jornalista-chegando-a-produtor-marcus-preto-revisita-sua-trajetoria-entre-coala-festival-gal-erasmo-tom-ze-e-muito-mais\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":69404,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1214,1018,967,102,6253,2597,1483],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69372"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69372"}],"version-history":[{"count":43,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69372\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":69634,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69372\/revisions\/69634"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69404"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69372"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69372"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69372"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}