{"id":69327,"date":"2022-09-12T16:14:05","date_gmt":"2022-09-12T19:14:05","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=69327"},"modified":"2023-06-05T04:08:39","modified_gmt":"2023-06-05T07:08:39","slug":"tres-livros-a-historia-invisivel-segunda-casa-e-baldomero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/09\/12\/tres-livros-a-historia-invisivel-segunda-casa-e-baldomero\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas livros: &#8220;A hist\u00f3ria invis\u00edvel&#8221;, &#8220;Segunda casa&#8221; e &#8220;Baldomero&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>textos por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gabriel Pinheiro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-69328 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/A-historia-invisivel-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"673\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/A-historia-invisivel-copiar.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/A-historia-invisivel-copiar-201x300.jpg 201w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cA hist\u00f3ria invis\u00edvel\u201d, de Sofia Nestrovski (F\u00f3sforo Editora)<\/strong><br \/>\nEm seu anivers\u00e1rio de sete anos, a pequena Sofia, no soprar das velas, fez um desejo. Tornar-se invis\u00edvel. Pedido feito, pedido realizado. &#8220;Finalmente ela estava invis\u00edvel e \u00f3rf\u00e3 e livre, como todas as crian\u00e7as do mundo sempre quiseram ser&#8221;. &#8220;A hist\u00f3ria invis\u00edvel&#8221; (2022), lan\u00e7amento da F\u00f3sforo Editora, \u00e9 a estreia de Sofia Nestrovski na fic\u00e7\u00e3o. Sofia \u2013 ou bisnaguinha ou papoula e ginkgo-biloba ou outro nome que seja bom de falar, ela se apresenta \u2013 acorda invis\u00edvel no mundo vis\u00edvel que habitava at\u00e9 ent\u00e3o. O mundo da rotina familiar, o mundo escolar. A escola que a ensinava a &#8220;deitar as horas uma em cima da outra e s\u00f3, um enorme sandu\u00edche de tempo desperdi\u00e7ado&#8221;. Mas, invis\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 neste mundo onde vivera at\u00e9 ent\u00e3o que a pequena quer permanecer. Ela n\u00e3o deseja andar impercept\u00edvel entre as demais pessoas. A invisibilidade \u00e9 a chave para que ela acesse um novo lugar, uma realidade que existe concomitante \u00e0 nossa, mesmo que n\u00e3o lhe demos a devida aten\u00e7\u00e3o. &#8220;Agora que Sofia era invis\u00edvel, era tamb\u00e9m em parte secreta, como s\u00e3o as aventuras e a vida \u00edntima dos animais que vivem numa casa de humanos&#8221;. Misto de f\u00e1bula e narrativa de aventura, &#8220;A hist\u00f3ria invis\u00edvel&#8221; remete ao cl\u00e1ssico &#8220;Alice nos pa\u00eds das maravilhas&#8221;, em sua protagonista curiosa e corajosa, que parte numa aventura onde at\u00e9 os seres e coisas mais banais ganham caracter\u00edsticas fant\u00e1sticas. &#8220;Arrume uma mochila e saia de casa para sempre, n\u00e3o precisa contar para ningu\u00e9m. \u00d3rf\u00e3 e livre, agora voc\u00ea \u00e9 uma de n\u00f3s&#8221;. Um mundo onde p\u00e1ssaros e sapos contam hist\u00f3rias profundas para a menina, sobre, por exemplo, a hist\u00f3ria das coisas, em um tempo em que nada ainda existia no mundo e tudo deveria ser reinventado a cada novo dia. &#8220;As coisas surgiam e desapareciam, para serem inventadas de novo, com outras formas no dia seguinte. Tudo era ainda sem borda nem recheio&#8221;. &#8220;A hist\u00f3ria invis\u00edvel&#8221; \u00e9 uma f\u00e1bula para todos. Na escrita sensivelmente po\u00e9tica de Sofia Nestrovski, embarcamos numa aventura tanto para os pequenos, quanto para os grandes. Mas, especialmente, para os grandes. Bisnaguinha nos pega pelas m\u00e3os e nos leva de volta \u00e0quele mundo que a vida adulta insiste em n\u00e3o mais nos deixar acessar. Um mundo enxergado e criado pelo olhar curioso da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<hr \/>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-69329 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Baldomero-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"657\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Baldomero-copiar.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Baldomero-copiar-205x300.jpg 205w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cBaldomero\u201d, de Leandro Rafael Perez (F\u00f3sforo Editora)<\/strong><br \/>\nBaldomero \u00e9 um personagem em desencontro. A come\u00e7ar pelo pr\u00f3prio nome, que vinha da rua onde nasceu e viveu por vinte anos, Baldomero Fernandez. A m\u00e3e achara o nome bonito, singular. Singular at\u00e9 que \u00e9: dif\u00edcil encontrar um par no meio da multid\u00e3o. Mas ele queria mesmo era se chamar Valdomiro em sua certid\u00e3o. Mais f\u00e1cil, mais familiar. Ali\u00e1s, alguns j\u00e1 o chamavam pelo diminutivo Val. At\u00e9 que um dia, um novo apelido surge repentinamente da boca de um parceiro, durante o sexo, &#8220;entre berro e sussurro, no intervalo das mamadas&#8221;, Bab\u00e1. Inflamado pelo desejo por tr\u00e1s dessas duas s\u00edlabas simples e repetidas, Baldomero desejar\u00e1 que outros o chamem por este nome. Ele \u00e9 o protagonista do primeiro romance de Leandro Rafael Perez, &#8220;Baldomero (ou Bab\u00e1, para os \u00edntimos, inexistentes)&#8221;, lan\u00e7ado pela F\u00f3sforo Editora. &#8220;Baldomero&#8221; \u00e9 um livro debochado e desbocado. Do palavr\u00e3o ao pajub\u00e1. Ironia pura. Seu narrador, colado rente \u00e0 pele do protagonista, acompanha das perip\u00e9cias sexuais do personagem \u00e0s suas dificuldades financeiras para se manter numa cidade grande. Na corda bamba entre os desejos e as obriga\u00e7\u00f5es, seu inusitado protagonista busca encontrar o equilibro. Escrito com m\u00e3o leve, tem ritmo e cad\u00eancia. Daqueles livros para ler numa sentada. &#8220;Decidiu agir nosso protagonista, se preservar, juntar o \u00fatil ao agrad\u00e1vel, pois. Sossegar o facho, dar um descanso \u00e0 glande esfolada de tanta putaria e arranjar um namoradinho&#8221;. Situada num passado indeterminado, sua narrativa traz, ainda, a nostalgia dos scraps do Orkut e da \u00e9poca em que o GPS era feito a m\u00e3o, desenhando um mapa no papel. Se h\u00e1 momentos em que Leandro nos fisga pelas gargalhadas, o romance caminha de forma muito natural entre o riso e a melancolia. &#8220;O peso de morar na zona sul, trabalhar no centro e estudar na zona oeste&#8221;, a dificuldade para conciliar o estressante trabalho num call center com o curso universit\u00e1rio e a parca renda para manter um aluguel dividido com uma colega. Leandro ainda olha com muita sensibilidade para a constru\u00e7\u00e3o social de Bab\u00e1, da inf\u00e2ncia at\u00e9 o beco sem sa\u00edda onde ele parece se encontrar no presente. A aus\u00eancia paterna quando crian\u00e7a, o entender-se como homem gay e a busca incessante por afeto. &#8220;Ainda est\u00e1 para nascer neste mundo quem se autoproclame viado sem ter sido xingado disso antes. Mais pra dentro do s\u00e9culo 21, Baldomero sentir\u00e1 carinho e tristeza frente aos memes de crian\u00e7a viada&#8221;. Intenso e fren\u00e9tico, &#8220;Baldomero&#8221; \u00e9 um mergulho num personagem em intensa desconstru\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o. Escrito numa prosa \u00e1gil, cabe uma mir\u00edade de temas neste breve romance de estreia de Leandro Rafael Perez, uma tragicom\u00e9dia que arranca l\u00e1grimas, ora de riso, ora de tristeza.<\/p>\n<hr \/>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-69330 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Segunda-casa-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"684\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Segunda-casa-copiar.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Segunda-casa-copiar-197x300.jpg 197w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cSegunda casa\u201d, de Rachel Cusk (Todavia Livros)<\/strong><br \/>\nM \u00e9 uma mulher de meia-idade casada com Tony. Juntos habitam uma casa \u00e0s margens de um p\u00e2ntano. Escritora e com uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima ao universo art\u00edstico, aquele n\u00e3o \u00e9 exatamente o espa\u00e7o onde a mulher um dia se viu: uma vida em isolamento, no contato profundo com a natureza. Num acordo com o marido, eles constroem uma segunda casa na propriedade. Nela, M passa, ent\u00e3o, a receber ali artistas para resid\u00eancias tempor\u00e1rias. \u201cEu precisava de certo grau de rela\u00e7\u00e3o, ainda que pouca, com os conceitos de arte e com as pessoas que acatam esses conceitos\u201d. \u201cSegunda casa\u201d (2021) \u00e9 o novo romance de Rachel Cusk, autora inglesa da celebrada trilogia \u201cEsbo\u00e7o\u201d. Com tradu\u00e7\u00e3o de Mariana Delfini, o livro \u00e9 lan\u00e7ado pela Todavia Livros. O texto de \u201cSegunda casa\u201d \u00e9 endere\u00e7ado a um homem chamado Jeffers. N\u00e3o temos contato com sua voz narrativa, apenas com a de M. \u00c9 como se nos coloc\u00e1ssemos, como leitores, no papel deste misterioso interlocutor. A conversa tem como assunto principal uma pessoa espec\u00edfica, o artista pl\u00e1stico L, que, em um tempo indeterminado, habitou esta segunda casa por um breve per\u00edodo. Ali\u00e1s, a indetermina\u00e7\u00e3o do tempo \u00e9 uma marca do texto. N\u00e3o sabemos muito bem em quando as a\u00e7\u00f5es narradas por M aconteceram e em qual momento ela as descreve para Jeffers. A escritora conhece L, primeiramente, por sua obra. Num contato repentino e arrebatador com o trabalho do pintor em Paris no passado, a mulher sofre uma esp\u00e9cie de rompimento consigo mesma, com suas certezas e cren\u00e7as. \u201cConheci sua obra quinze anos atr\u00e1s, quando ela me tirou da rua e me colocou no caminho para outro entendimento da vida\u201d. Muitos anos depois, ela convida L para visitar e habitar sua segunda casa. \u201cRecebemos, um ap\u00f3s o outro, uma boa quantidade de h\u00f3spedes aqui, que v\u00eam realizar seus pr\u00f3prios tipos de trabalhos. (&#8230;) As pessoas dizem muitas vezes que este \u00e9 um dos \u00faltimos lugares\u201d. De comportamento dif\u00edcil, por vezes, irasc\u00edvel, o contato com L, exp\u00f5e fraturas latentes na superf\u00edcie da vida da protagonista. M se v\u00ea em queda-livre numa espiral de obsess\u00e3o por aquele homem que ela quer tanto atingir quanto, sobretudo, por quem quer ser atingida. Ela encara um precip\u00edcio na tortuosa rela\u00e7\u00e3o que desenvolve com ele, amarga e dolorosa, marcada ora pelo sil\u00eancio, ora pela viol\u00eancia do discurso. \u201cA quest\u00e3o, Jeffers, \u00e9 que parte de mim queria ser destru\u00edda, ainda que eu temesse que toda uma realidade fosse colapsar junto, a realidade compartilha com outras pessoas e coisas\u201d. \u201cSegunda casa\u201d \u00e9 uma reflex\u00e3o poderosa sobre a for\u00e7a destrutiva da arte e suas estreitas rela\u00e7\u00f5es com o mal. O romance d\u00e1, ainda, mais um passo no processo de pesquisa e escrita da autora acerca de temas como a maternidade, o casamento, os pap\u00e9is sociais impostos ao feminino e a liberdade inerente reservada ao masculino em sua literatura.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Rachel Cusk \u2014 SECOND PLACE\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eagr-p52-H4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Gabriel Pinheiro \u00e9 jornalista. Escreve sobre suas leituras tamb\u00e9m no Instagram:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@tgpgabriel<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":" Na escrita sensivelmente po\u00e9tica de Sofia Nestrovski, Bisnaguinha nos pega pelas m\u00e3os e nos leva; Leandro Rafael Perez arranca l\u00e1grimas, ora de riso, ora de tristeza; \u201cSegunda casa\u201d \u00e9 uma reflex\u00e3o poderosa sobre a for\u00e7a destrutiva da arte&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/09\/12\/tres-livros-a-historia-invisivel-segunda-casa-e-baldomero\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":112,"featured_media":69331,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[6126,6241,6240,6127,2583],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69327"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69327"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69327\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":69334,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69327\/revisions\/69334"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69331"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69327"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69327"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69327"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}