{"id":68607,"date":"2022-08-17T01:00:56","date_gmt":"2022-08-17T04:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=68607"},"modified":"2022-10-24T02:26:00","modified_gmt":"2022-10-24T05:26:00","slug":"entrevista-paulo-andre-de-moraes-pires-fala-do-memorias-de-um-motorista-de-turnes-de-chico-science-nacao-zumbi-e-muito-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/17\/entrevista-paulo-andre-de-moraes-pires-fala-do-memorias-de-um-motorista-de-turnes-de-chico-science-nacao-zumbi-e-muito-mais\/","title":{"rendered":"Entrevista: Paulo Andr\u00e9 de Moraes Pires fala do \u201cMem\u00f3rias de Um Motorista de Turn\u00eas\u201d, de Chico Science &#038; Na\u00e7\u00e3o Zumbi e mais"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a>&nbsp;<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo que voc\u00ea n\u00e3o conhe\u00e7a o nome <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pauloandre.moraes.9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Paulo Andr\u00e9 de Moraes Pires<\/a>, \u00e9 seguro dizer que ele entrou na hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira, e de muitas formas: como o fundador e organizador do festival Abril Pro Rock, como um dos criadores da feira Porto Musical, e, principalmente como o empres\u00e1rio que articulou a jornada da m\u00fasica pernambucana dos anos 90 pelo mundo, especialmente a carreira de Chico Science &amp; Na\u00e7\u00e3o Zumbi (e tamb\u00e9m da Na\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a morte de Chico). E acredite, mesmo esse breve disclaimer n\u00e3o d\u00e1 conta da riqueza dessas experi\u00eancias. \u00c9 preciso trazer bastante contexto e informa\u00e7\u00e3o para entender o quanto tudo isso \u00e9 ainda maior do que parece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<a href=\"https:\/\/www.cepe.com.br\/lojacepe\/memorias-de-um-motorista-de-turnes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mem\u00f3rias de Um Motorista de Turn\u00eas<\/a>\u201d (2022), primeiro livro de Paulo Andr\u00e9, \u00e9 um primeiro passo na entrega desse contexto, e tamb\u00e9m um passo importante no resgate de uma mem\u00f3ria hist\u00f3rica que est\u00e1 longe de ser preservada como deveria. \u00c9 verdade que \u00e9 apenas uma primeira arranhada na mem\u00f3ria e na memorabilia coletada ao longo de d\u00e9cadas de trabalho ligados \u00e0 m\u00fasica, mas que j\u00e1 ajuda muito a entender a dimens\u00e3o daquela que, na opini\u00e3o de muitos, foi a \u00faltima vez em que uma gera\u00e7\u00e3o inteira veio com um trabalho novo, capaz de alterar os caminhos da m\u00fasica brasileira e de fazer milhares de pessoas olharem para um Brasil que elas nunca haviam visto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso espec\u00edfico de Chico Science &amp; Na\u00e7\u00e3o Zumbi, isso \u00e9 ainda mais verdadeiro. A influ\u00eancia de Chico vai muito al\u00e9m de trazer a alfaia para o rock e para a MPB. Muito, muito al\u00e9m. Chico resgatou a mentalidade de usar o local para falar com o global, e a ampliou a partir de uma obra art\u00edstica que, mesmo que breve e interrompida por sua morte em 1997, n\u00e3o encontra par no universo musical brasileiro. Com isso, criou um impacto na sua gera\u00e7\u00e3o e nas futuras, e ainda trouxe um universo cultural que envolvia design gr\u00e1fico, artes pl\u00e1sticas, Josu\u00e9 de Castro, caranguejos, sociologia, urbanismo e tecnologia apresentados dentro da mesma est\u00e9tica e poesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro de Paulo Andr\u00e9 nasceu de postagens nas redes sociais, a maioria delas feitas durante o confinamento imposto pela pandemia da Covid-19. O foco s\u00e3o suas turn\u00eas pela Europa com CSNZ, Cascabulho e Cabru\u00eara, al\u00e9m de trabalhos com Mestre Ambr\u00f3sio, Jorge Cabeleira e o Dia em que Seremos Todos In\u00fateis e outros, mais hist\u00f3rias da sua p\u00f3s-adolesc\u00eancia em S\u00e3o Francisco, EUA, onde viveu o auge das cenas de thrash e death metal na Bay Area. E ainda h\u00e1 espa\u00e7o para falar de algumas edi\u00e7\u00f5es do Abril Pro Rock.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As hist\u00f3rias s\u00e3o contadas em tom informal, como uma conversa em um bar. Isso colabora bastante para o envolvimento do leitor, mas faltou aproveitar o formato impresso para condensar algumas hist\u00f3rias, evitar repeti\u00e7\u00e3o de algumas informa\u00e7\u00f5es e talvez acrescentar fatos e detalhes a outras. Por isso, pode ficar dif\u00edcil ao leitor que n\u00e3o viveu a \u00e9poca entender a import\u00e2ncia de alguns personagens, ou mesmo saber mais precisamente sobre os protagonistas de determinadas hist\u00f3rias. Faltou tamb\u00e9m uma revis\u00e3o geral, j\u00e1 que o texto mant\u00e9m os erros de ortografia e concord\u00e2ncia comuns \u00e0s postagens em redes sociais. Ainda assim, essas quest\u00f5es n\u00e3o diminuem o livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Scream &amp; Yell aproveitou o lan\u00e7amento do livro para bater um papo com Paulo Andr\u00e9 e perguntar n\u00e3o s\u00f3 sobre seu debute editorial, mas tamb\u00e9m sobre mercado da m\u00fasica, ilus\u00f5es de carreira, potenciais subaproveitados e, claro, Chico Science.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-68609\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/memorias1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1041\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/memorias1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/memorias1-216x300.jpg 216w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que seu livro mergulha no passado, vale fazer a ponte com o presente: qual \u00e9 o legado da gera\u00e7\u00e3o manguebeat e de Chico para hoje?<\/strong><br \/>\nEu vejo um legado na cidade. Chico \u00e9 muito presente na cidade, apesar de n\u00e3o estar mais aqui. Todos os envolvidos no manguebeat est\u00e3o a\u00ed at\u00e9 hoje, fazendo show e excursionando: Otto, Fred 04, Siba, Cannibal. Mas sempre dou o exemplo de um cara que convidei para o Abril Pro Rock em 2000 e 2015, que \u00e9 Paulo Diniz (1940 &#8211; 2022). Quando converso com os mais novos, provoco se conhecem Paulo Diniz. E n\u00e3o o conhecem, mesmo produtores musicais e m\u00fasicos hoje o \u201capagaram\u201d. Nasci em 1967, e quando eu era menino, Paulo Diniz era mega, todo mundo o conhecia. Meu pai ouvia muito o poema de Drummond musicado: (cantarola) \u201ce agora, Jos\u00e9? A festa acabou, a luz apagou\u201d. Ele foi o rei desse universo de barzinho e viol\u00e3o at\u00e9 a metade dos anos 80. E se apagaram um cara como Paulo Diniz, que n\u00e3o teve, a meu ver, o devido reconhecimento nem ap\u00f3s a sua morte\u2026 Se at\u00e9 ele foi apagado da cena, imagina o Chico! Eu falo para Louise [Fran\u00e7a, filha de Chico], que quando eu fa\u00e7o as postagens sobre os anivers\u00e1rios das turn\u00eas estrangeiras, fa\u00e7o muito mais pela mem\u00f3ria do Chico. Porque se a galera n\u00e3o conhece e n\u00e3o se lembra de Paulo Diniz, que tocava muito, imagina de Chico Science e Na\u00e7\u00e3o Zumbi! Aprendemos na pele que m\u00fasica em novela n\u00e3o ajuda em nada. \u201cA Praieira\u201d na novela \u201cTropicaliente\u201d (1994) e \u201cA Cidade\u201d no remake de \u201cIrm\u00e3os Coragem\u201d (\u20181995). Para n\u00e3o dizer que n\u00e3o ajudavam em nada, acontecia de eu falar com um contratante que fechava com Gabriel, o Pensador e Skank, e contar pra ele que tinha m\u00fasica em novela. Mas era aquela m\u00fasica que tocava de vez em quando (risos). N\u00e3o adiantava ter tocado no Faust\u00e3o, ter tocado em J\u00f4 Soares. Tocamos em todos os programas a que a gente tinha direito na televis\u00e3o brasileira, e n\u00e3o levava p\u00fablico&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea come\u00e7ou como produtor e \u201cmotorista de turn\u00ea\u201d, era um cen\u00e1rio totalmente diferente para artistas novos. O que mudou?<\/strong><br \/>\nA comunica\u00e7\u00e3o t\u00e1 mais f\u00e1cil. Eu passava horas em trens, vans e tal, sem poder me comunicar, era tudo no telefone fixo. Mas na verdade, o Brasil retrocedeu em muita coisa. Eu diria que eu e outras pessoas que produziram nessa pandemia foram provocados por toda essa situa\u00e7\u00e3o. Eu nunca me imaginei passando por uma situa\u00e7\u00e3o financeira complicada como t\u00f4 agora, e que o Brasil fosse retroceder tanto. Um pa\u00eds desse, com o potencial tur\u00edstico que tem, e n\u00e3o ter um exemplo nem do Par\u00e1, nem de Pernambuco, da Bahia, do Rio ou de S\u00e3o Paulo, de uma cidade que atraia jovens turistas pela cultura. Vez ou outra eu encontro algum gringo aqui no centro de Recife, mas \u00e9 uma coisa bem rara. Apresento o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalh\u00e3es (Mamam), o Bairro do Recife, o Mercado S\u00e3o Jos\u00e9\u2026 Mas vejo outros lugares do mundo que n\u00e3o tem o mesmo potencial usarem a cultura de forma muito melhor para atra\u00edrem turistas. Mas retomando a sua pergunta: eu brinco que, se fosse para eu ganhar dinheiro naquela \u00e9poca [meados dos anos 90], eu teria montado uma banda chamada Ninfetas do Forr\u00f3, apelando mesmo, colocando meninas de 18 anos respons\u00e1veis por si pr\u00f3prias, e chamaria os amigos compositores para compor sob pseud\u00f4nimos e fazer um forr\u00f3 putaria. Porque, no final das contas, hoje voc\u00ea v\u00ea isso, pelas letras e visual. Era uma \u00e9poca em que havia v\u00e1rias bandas de forr\u00f3 estilizado: Mastruz com Leite, Brucelose, Mel com Terra, Calango Aceso e outras. Muitas delas tinham um dono, que era o Emanuel Gurgel, que pagava os m\u00fasicos como empregados e era propriet\u00e1rio das bandas mesmo. Ele saiu expandindo esse business no estilo mainstream, mas sem ser com uma major gringa, por todo o Nordeste, fazendo acordos com r\u00e1dios das cidades para tocar nelas, organizar o show e faturar. Eram dois mundos paralelos, esse e o mangue. Eu vi muitas carreiras desandarem porque o artista ou a banda achavam que era s\u00f3 fazer um contrato com uma grande gravadora que estava tudo certo. Pra voc\u00ea ter uma ideia, quando \u201cDa Lama ao Caos\u201d (1994) saiu, a gravadora me deu uma caixinha com 25 CDs, que acabou rapidamente, e eu tive que comprar mais CDs para continuar distribuindo para empresas e contratantes para o trabalho de divulga\u00e7\u00e3o n\u00e3o parar. Mesmo estando em uma grande gravadora, quem direciona a carreira \u00e9 voc\u00ea. Tem um v\u00eddeo do Central Park Summer Stage em que o Chico fala assim: \u201cfoi uma turn\u00ea armada pela pr\u00f3pria banda\u201d, e eu era mais um da banda. Nunca \u00e9 a gravadora, \u00e9 sempre a pr\u00f3pria banda. E hoje, mais do que nunca, tem que ser assim. As pessoas acham que s\u00f3 uma rede social e umas curtidas v\u00e3o colocar em algum lugar, e n\u00e3o vai. Ainda tem muito trabalho de estar no lugar certo e na hora certa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chico Science &amp; Na\u00e7\u00e3o Zumbi [feat. Gilberto Gil] Central park SummerStage - NY (1995)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FYX9RpZxRS8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Imagino que o t\u00edtulo do livro tem rela\u00e7\u00e3o com essa ideia, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nTotalmente. O t\u00edtulo \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o ao \u201cmercadinho\u201d \u2013 \u00e9 como eu chamo, porque n\u00e3o \u00e9 o grande mercado da m\u00fasica brasileira. \u00c9 a provoca\u00e7\u00e3o de dizer: sim, eu tamb\u00e9m era o motorista. Sim, eu tamb\u00e9m era o vendedor de CDs. Se a gente fosse pagar um motorista europeu para guiar a gente pela Europa, sobraria mais dinheiro para ele que para os integrantes da banda, entendeu? Trazendo para hoje, e retomando tamb\u00e9m sua pergunta anterior: eu digo aos mais jovens para n\u00e3o se desestimularem, porque \u00e9 um momento muito parecido com o in\u00edcio dos anos 90. O Brasil era uma terra arrasada pelo Collor, pelo confisco da poupan\u00e7a, ningu\u00e9m tinha perspectiva. Tanto que isso \u00e9 o que criou, na minha opini\u00e3o, um certo delay para m\u00fasica dos anos 90 se apresentar. Ela s\u00f3 se apresentou na virada de 92 para 93, com Gabriel o Pensador. Ironicamente, o Gabriel era filho da Belisa Ribeiro, que era assessora de imprensa do Collor, mas fez uma m\u00fasica chamada \u201cT\u00f4 Feliz (Matei o Presidente)\u201d, que gerou alguma repercuss\u00e3o para ele, apesar de a m\u00fasica n\u00e3o ter tocado muito. O Rappa tamb\u00e9m caiu nessa com a vers\u00e3o de \u201cCandidato Ca\u00f4 Ca\u00f4\u201d [do Bezerra da Silva, que participa da releitura], que n\u00e3o emplacou. Mas eu acho que a gente est\u00e1 de novo numa terra arrasada. S\u00f3 que tem outro lance: o mangue foi essencialmente perif\u00e9rico. Ele veio quando Chico Science, que era colega de trabalho de Gilmar Bolla 8, do Lamento Negro, vai visitar o centro cultural Daru\u00ea Malungo, em Peixinhos (bairro perif\u00e9rico de Recife, fronteiri\u00e7o ao seu hom\u00f4nimo de Olinda), e come\u00e7a a tirar um som com a galera. No in\u00edcio nem era Chico Science &amp; Na\u00e7\u00e3o Zumbi. E no Alto Z\u00e9 do Pinho tinha uma galera do underground que n\u00e3o colava com o pessoal do mangue, que eram os Devotos, ent\u00e3o Devotos do \u00d3dio, e o Faces do Sub\u00farbio. Eles eram jovens de periferia, sem dinheiro, e nenhum deles era ligado ao movimento negro, LGBTQIA+, movimentos sociais e \u00e0 pr\u00f3pria pol\u00edtica local. Hoje, os jovens dessas comunidades, e n\u00e3o s\u00f3 de l\u00e1, mas de todo o sub\u00farbio, a galera \u00e9 mais ligada, sabem muito mais dos direitos deles que essa gera\u00e7\u00e3o sabia. Essa \u00e9 outra grande diferen\u00e7a de hoje: \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o muito mais aguerrida em n\u00e3o repetir a vida dos pais e av\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse \u00e9 um lance que voc\u00ea aborda tangencialmente no livro, ao contar a hist\u00f3ria de como o Canhoto (tocador de caixa da Na\u00e7\u00e3o Zumbi, que foi expulso da banda ap\u00f3s a turn\u00ea do primeiro disco) sequer sabia onde ficava o Paraguai. A Na\u00e7\u00e3o mesmo era bem meio a meio, com Bolla 8, Gira, Canhoto e Toca vindo da periferia, e Chico, L\u00facio (Maia), Jorge (Du Peixe) e Dengue vindo de fam\u00edlias de classe m\u00e9dia. O Mestre Ambr\u00f3sio, at\u00e9 onde sei, tinha uma configura\u00e7\u00e3o parecida em sua origem, o mundo livre s\/a tamb\u00e9m. Esse di\u00e1logo entre classes parece que foi fundamental para a pr\u00f3pria identidade do mangue, mas que me parece muito dif\u00edcil de ocorrer hoje.<\/strong><br \/>\nAcho que a galera hoje \u00e9 mais aberta. E o mangue era uma exce\u00e7\u00e3o, era a galera mais aberta, mas a gera\u00e7\u00e3o deles n\u00e3o era assim. O underground era muito mais violento. Eu lembro do Documento Especial, ou Globo Rep\u00f3rter, alguma coisa assim, falando das tribos, da viol\u00eancia\u2026Eu lembro de um festival no Par\u00e1 que era Rock 24 Horas. Em 1992, teve umas gangues em Bel\u00e9m que brigaram para demarcar territ\u00f3rio, e at\u00e9 saquearam o palco. Foi mat\u00e9ria de abertura do Jornal Nacional! Era uma \u00e9poca de sequestros, uma coisa absurda. E o sub\u00farbio era completamente invisibilizado. Hoje tem muito mais empoderamento dessa galera na sociedade do que tinha naquele momento. O Alto Jos\u00e9 do Pinho e Peixinhos s\u00f3 apareciam nos jornais pela viol\u00eancia, tr\u00e1fico de drogas, assassinato. Eu considero Cannibal, Gilmar Bolla 8, Toca Ogan, l\u00edderes comunit\u00e1rios naturais dessas comunidades, e eles e a galera vieram, viraram o jogo, e mostraram que esses lugares tinham uma grande cultura. A\u00ed veio MTV, veio Band, e mostrou tudo isso. Mas essa escala social veio naturalmente do pessoal do mangue. Fico imaginando se esse pessoal do mangue tivesse na \u00e9poca esse potencial que existe hoje das redes sociais. Hoje voc\u00ea v\u00ea uma repercuss\u00e3o de uma turn\u00ea do Emicida ou da Marina Sena e vai vendo, em tempo real, os flyers dos festivais onde eles tocam, tem mais canais para disseminar a informa\u00e7\u00e3o e os resultados. Muitas dessas hist\u00f3rias que eu conto no livro, eu n\u00e3o pude contar naquela \u00e9poca. Era mat\u00e9ria de jornal no m\u00e1ximo, n\u00e9? Quando a gente voltava de uma turn\u00ea, procurava uns jornalistas para dizer tudo o que a gente tinha feito, trazia uma colet\u00e2nea gringa, um flyer, alguma coisa, mas nada tinha essa repercuss\u00e3o que tem hoje.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chico Science fala como conheceu Nick Cave\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vcaEC72gOow?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Paulo Andr\u00e9 conversa com Chico Science sobre Nick Cave em um van de turn\u00ea<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea fala em uma boa parte do livro dos perrengues que voc\u00eas passaram nas turn\u00eas, e que s\u00f3 a juventude permitiu que voc\u00eas dessem conta disso. Mas e quando a juventude acaba e o artista ainda est\u00e1 sem estrutura para fazer uma turn\u00ea com condi\u00e7\u00f5es dignas, mesmo depois de anos?<\/strong><br \/>\nAjuda muito quando voc\u00ea tem um entendimento do mercado. No exterior, por exemplo, eles s\u00e3o muito mais pr\u00e1ticos. Ningu\u00e9m vai te buscar no aeroporto, a n\u00e3o ser que seja um festival grande que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aquela perna de avi\u00e3o. Mas em geral, voc\u00ea vai chegar l\u00e1, com sua van, direto nos bastidores, se apresentar, se credenciar\u2026 O brasileiro tem um pouco disso de ter uma expectativa de que as coisas s\u00e3o maiores do que elas realmente s\u00e3o, n\u00e9? A gente come\u00e7a a entender que o mundo \u00e9 pequeno. Quando eu comecei a ir para o Womex, encontrava os radialistas, os jornalistas e os promotores dessas principais cidades por onde a gente havia andado, e eu pude perceber o quanto o Brasil era distante desse mundo, principalmente quem n\u00e3o era samba, MPB ou bossa nova, esse p\u00fablico do jazz adulto que consumia essa m\u00fasica brasileira mais comportada. A gente n\u00e3o se enquadrava em nada disso, Nessa quest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, acho que, se o Chico n\u00e3o tivesse tido um produtor-motorista-tradutor-vendedor de CD, talvez ele n\u00e3o tivesse chegado na Virgin Encyclopedia of Music, n\u00e9? A Virgin chegou no Brasil botando o maior dinheiro no Carlinhos Brown, inclusive para lan\u00e7\u00e1-lo no exterior, mas quem est\u00e1 na Virgin Encyclopedia of Music representando os anos 90 \u00e9 Tom Z\u00e9, Sepultura e Chico Science &amp; Na\u00e7\u00e3o Zumbi. Por isso que finalizo o livro dizendo que n\u00e3o importa o tamanho da van ou do ve\u00edculo, mas sim a forma como se dirige. Eu n\u00e3o tinha experi\u00eancia, n\u00e3o tinha trabalhado com nenhum grande artista antes, e a Sony come\u00e7ou a mandar uns empres\u00e1rios de bandas para falar com a Na\u00e7\u00e3o. Mandou o empres\u00e1rio de Elymar Santos, mandou um empres\u00e1rio de uma grande banda de pop rock brasileiro. Caras que eram vendedores de show, basicamente, sem planejamento de carreira. Eu chamava o Chico para presenciar a conversa, claro, e ele sempre dizia: \u201cmeu irm\u00e3o, a gente que vai fazer, velho. Tem que ser a gente. Eu n\u00e3o vou ficar na m\u00e3o desses caras\u201d. Era uma banda de nove pessoas, e \u00e0s vezes dava uns desesperos no Chico por causa de grana. Quando a gente ganhava muito bem, era uns R$ 10 mil, no carnaval do Recife. Isso dividido por nove. Ent\u00e3o a grana sempre era muito curta. Por isso que conto no livro que ele s\u00f3 para de falar em voltar pro emprego antigo quando chega o primeiro fax com convite para tocar na Europa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tinha um lado meio de mentoria com todo o pessoal da Na\u00e7\u00e3o, n\u00e3o? Porque, pra metade deles, pelo menos, era um universo totalmente impens\u00e1vel que foi se apresentando.<\/strong><br \/>\nEra um mundo completamente diferente para eles. Chico fazia uma lavagem cerebral na galera para faz\u00ea-los escutarem os discos, as coisas que estavam rolando ali [na Europa e nos EUA]. Mas para voc\u00ea ter uma ideia, o Canhoto tinha 18 anos e tinha sido pai com 15. Tocamos cinco dias consecutivos em Berlim e ele tocou os cinco dias com a mesma roupa, porque era o final da turn\u00ea e ele n\u00e3o queria gastar uma grana para lavar as roupas que j\u00e1 estavam sujas de quase dois meses de turn\u00ea. A gente ficava num Albergue da Juventude,e \u00e0s oito horas da manh\u00e3 chegavam umas senhoras para limpar os quartos, expulsando a gente de l\u00e1. Tinha que ir pra rua e s\u00f3 podia voltar \u00e0s 11:30 da manh\u00e3. A galera ia tomar o caf\u00e9 da manh\u00e3 e sair pra andar, e ele estava dormindo no jardim do albergue. N\u00e3o tava entendendo o que tava acontecendo naquele momento. Ent\u00e3o eu era meio como um irm\u00e3o mais velho, a galera n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o de nada. Eu tinha que chegar e falar, \u201cgalera, \u00e9 assim, assim e assim\u201d. Com toda paci\u00eancia do mundo. Hoje eu me considero o motorista de turn\u00eas aposentado. Tenho tr\u00eas filhos, e hoje minha paci\u00eancia toda est\u00e1 canalizada para eles, entendeu? \u00c0s vezes eu olho pra tr\u00e1s e digo: \u201cvelho. eu n\u00e3o sei como eu consegui fazer isso\u201d. \u00c9 coisa da juventude mesmo, voc\u00ea tem aquela garra de vencer tudo. As r\u00e1dios ignorando, as r\u00e1dios da cidade ignorando, as r\u00e1dios do pa\u00eds ignorando, e voc\u00ea dizendo: \u201cn\u00e3o velho, n\u00e3o pode ser\u201d. Acreditando. Se eu n\u00e3o tivesse esse background das cenas de rock de S\u00e3o Francisco, que eu vivi intensamente muito jovem, sem o dom\u00ednio do ingl\u00eas e tal, talvez eu n\u00e3o tivesse credenciamento suficiente para gerir a carreira do Chico, entendeu? Eu era uma das poucas pessoas a trabalhar com isso, e quando ele me disse: \u201cmeu irm\u00e3o, eu t\u00f4 precisando de ajuda\u201d, eu n\u00e3o perguntei quanto eu ia ganhar, muito menos qual seria o meu percentual. Ali se abriu uma oportunidade na minha vida. Eu n\u00e3o tinha conta para pagar, morava com minha m\u00e3e, e eu embarquei de cabe\u00e7a, me dedicando. N\u00e3o era s\u00f3 por dinheiro, n\u00e9? Era eu, eu sabia que ali tinha um futuro que ia dar em algum lugar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_68610\" aria-describedby=\"caption-attachment-68610\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-68610 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/chico_science-em-turne.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"517\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/chico_science-em-turne.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/chico_science-em-turne-300x207.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-68610\" class=\"wp-caption-text\"><em>Paulo Andr\u00e9 ao volante e Chico Science e Na\u00e7\u00e3o Zumbi em 1995 na Europa<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E esse \u00e9 um exerc\u00edcio duro de fazer, mas pra todo mundo que ouviu na \u00e9poca, \u00e9 um exerc\u00edcio inevit\u00e1vel: onde voc\u00ea acha que Chico estaria hoje, se a vida n\u00e3o tivesse sido interrompida?<\/strong><br \/>\nSe o Chico fosse vivo hoje, estaria interagindo e talvez produzindo artisticamente. A gente est\u00e1 falando do passado, mas eu gosto muito de trazer o hoje tamb\u00e9m, e digo no livro que o futuro n\u00e3o existe, ele est\u00e1 sendo constru\u00eddo hoje. Cada um \u00e9 o futuro. A galera tem uma ilus\u00e3o de que as coisas v\u00e3o acontecer, e eu digo que n\u00e3o, que elas s\u00f3 v\u00e3o acontecer se voc\u00ea fizer por onde agora. A galera da Na\u00e7\u00e3o era muito jovem, cara, e n\u00e3o se interessava por nada que n\u00e3o fosse ensaiar, tocar e receber, mas o Chico queria saber de cada coisa. L\u00e1 em Nova Iorque, a gente viu uma loja de uma franquia de roupas que era de um dos Beastie Boys, e do outro lado da rua, a Kim Gordon (Sonic Youth) tamb\u00e9m era s\u00f3cia de uma loja de roupa. Os Beastie Boys tinham a revista Grand Royal, o selo Grand Royal, o cara tinha essa loja. E o Chico, que era muito f\u00e3 dos Beastie Boys, via isso e ficava fissurado, isso tamb\u00e9m era uma grande influ\u00eancia. Ele falava: \u201cPaulo, meu irm\u00e3o, a gente vai fazer isso tamb\u00e9m\u201d. A gente tinha ideia de fazer nosso pr\u00f3prio selo, de cumprir os tr\u00eas discos de contrato com a Sony e depois fazer nossa pr\u00f3pria gravadora, deixar um contrato s\u00f3 de distribui\u00e7\u00e3o com a Sony. Porque o David Byrne quis lan\u00e7ar o disco nos Estados Unidos, mas a Sony Brasil s\u00f3 podia liberar para um selo de outro pa\u00eds s\u00f3 se a Sony desse pa\u00eds dissesse que n\u00e3o tinha interesse em lan\u00e7ar. No fim, a Sony lan\u00e7ou a gente nos EUA em um pacote que n\u00e3o era nossa onda. Era para um mercado gigante dos imigrantes latinos dentro dos Estados Unidos, que tinha sua pr\u00f3pria confer\u00eancia, suas revistas, programas de r\u00e1dios e tal, mas a l\u00edngua n\u00e3o abrigava as bandas brasileiras. A gente foi lan\u00e7ado com bandas incr\u00edveis, como os Fabulosos Cadillacs, da Argentina, o Desorden Publico, da Venezuela, e aquelas bandas da Argentina que imitavam meio Rolling Stones [nota: Paulo se refere \u00e0s bandas \u201crolingas\u201d, um subg\u00eanero do rock argentino extremamente popular nos anos 90 e 00, especialmente junto ao p\u00fablico das classes sociais mais baixas]. A gente n\u00e3o tinha a ver com aquilo, mas n\u00e3o tinha nenhum poder de decis\u00e3o. O David Byrne tinha lan\u00e7ado outros artistas que tinham mais a ver com a gente, como os venezuelanos Los de Abajo, a peruana Susana Baca, Los Amigos Invisibles\u2026 Teria sido muito melhor, mas quando voc\u00ea t\u00e1 numa grande gravadora, voc\u00ea n\u00e3o controla isso. Ent\u00e3o a hist\u00f3ria de a gente fazer o pr\u00f3prio selo era muito pra termos o controle dessa parceria, de escolher quem vai lan\u00e7ar na Europa, quem vai lan\u00e7ar nos Estados Unidos, coisa que eu fiz depois com DJ Dolores, com Cascabulho, Cabru\u00eara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Queria dar um breve desvio pro <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/05\/07\/balanco-abril-pro-rock-2016\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Abril Pro Rock<\/a>, porque o festival tem feito uma guinada cada vez mais forte para a predomin\u00e2ncia do metal e de outros sons mais pesados, e o livro fala da sua rela\u00e7\u00e3o com as bandas de porradaria da Bay Area nos anos 80. Imagino que essa mudan\u00e7a do Abril Pro Rock dialoga tanto com esse seu lado f\u00e3, ouvinte, como tamb\u00e9m com uma quest\u00e3o mercadol\u00f3gica.<\/strong><br \/>\nO que acontece, Leonardo, \u00e9 que a gente vai vivenciando e vai entendendo melhor o p\u00fablico. Em 1999, o Sepultura teve quase 7 mil pagantes no Recife, era uma banda mundial, tava sem Max [Cavalera], mas ainda no auge.10 anos depois levamos o Motorhead, que at\u00e9 hoje a galera me agradece por ter trazido. Foi a banda mais cara da hist\u00f3ria do festival, e depois dela, a gente tomou a decis\u00e3o de n\u00e3o mais gastar tanta grana em uma banda s\u00f3, mas dividir em duas ou tr\u00eas, porque nesse dia tinha s\u00f3 metade do p\u00fablico [do Sepultura]. \u00c9 porque eu n\u00e3o entendia o funcionamento do p\u00fablico. N\u00e3o entendia como \u00e9 que o Raimundos vendia 100 mil c\u00f3pias e era popular ali nos anos 90, e quando Devotos lan\u00e7a o disco pelo selo Plug, da BMG, em 1997, n\u00e3o vendeu nem 10 mil c\u00f3pias, mesmo aquele choque foda, com um discurso foda, que todo mundo se impressionava. A\u00ed eu saquei os playboys do rock, e at\u00e9 hoje \u00e9 assim. \u00c9 gente como a galera que eu conhe\u00e7o aqui de Recife, que vai para o Rio de Janeiro ver o Pearl Jam sozinho, mas n\u00e3o vai no Lollapalooza ver o Pearl. Jam com n\u00e3o sei quantas bandas mais. Eles saem de casa aqui para ir num bar que faz um tributo a Los Hermanos ou tributo a Pearl Jam, mas eles n\u00e3o v\u00e3o nos inferninhos ver a cena underground daqui. Era assim no Brasil inteiro, e ainda \u00e9. O rock underground brasileiro perde esse p\u00fablico que consome rock, mas n\u00e3o se mistura com underground. Foi ali nesse show do Motorhead que eu comecei a perceber. Em 2008, ano em que a Petrobras patrocinava, a gente conseguiu trazer na mesma noite o Bad Brains e o New York Dolls. Me lembro que a meia-entrada pro Abril Pro Rock custava R$ 30, e quem doava um quilo de alimento para n\u00e3o pagar o dobro pagava R$ 40, o chamado ingresso social. Em S\u00e3o Paulo, o show individual dessas bandas era uns 120 o ingresso inteiro. Mesmo assim, aqui a gente teve, sei l\u00e1, 2 mil pessoas num lugar para 15 mil, n\u00e9? Vi que o punk rock, o hardcore, n\u00e3o tinham o mesmo apelo que o metal tinha. Aqui j\u00e1 tivemos at\u00e9 Exodus e Brujeria na mesma noite, e vejo que quando a gente traz galera assim, vem caravana de Campina Grande, Caruaru, Fortaleza, Natal, Jo\u00e3o Pessoa, Aracaju. Move a regi\u00e3o toda. Ent\u00e3o a gente continua fazendo o Abril nessa pegada porque eu n\u00e3o tenho coragem de deixar de fazer. Isso movimenta esse underground nordestino. O p\u00fablico do metal \u00e9 o p\u00fablico mais fiel. Ele compra o ingresso, o vinil, o CD, ele compra a camiseta no show, ele vai para a tarde de aut\u00f3grafos. Diferentemente do f\u00e3 de um som mais beat, mais pop. Eu cansei desse business do midstream, de ter que segurar show e pagar mais para o cara n\u00e3o tocar de gra\u00e7a no Carnaval, porque se tocar, ningu\u00e9m vai pagar para ver o mesmo artista dois meses depois. Cansei disso, cara, desse business e de uma nova gera\u00e7\u00e3o de produtores que pensam diferente de mim. Por exemplo, eu sei o quanto \u00e9 importante voc\u00ea formar p\u00fablico em um festival. Se voc\u00ea \u00e9 uma banda dos anos 90, o p\u00fablico do festival \u00e9 na maioria jovem, e n\u00e3o t\u00e1 ali para ver tua banda dos anos 90. Mas voc\u00ea pode ir pro festival e formar esse p\u00fablico, mas nem todo mundo visualiza assim. Eu sou de uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o gozava nem de um circuito nem de um calend\u00e1rio de festivais em todas as regi\u00f5es do Brasil como existe hoje, e \u00e9 um circuito que pega esse midstream \u2013 BaianaSystem, Criolo, Johnny Hooker \u2013 e combina com grandes artistas da MPB. S\u00f3 muda a cidade e mais um pouquinho do line up, mas \u00e9 sempre aquele artista, aquela banda que lan\u00e7a um disco que repercutiu bem e que todo mundo vai levar naquele momento. A\u00ed eu comecei a ir na contram\u00e3o disso, depois de 25 anos do festival.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ocupa\u00e7\u00e3o Chico Science\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Wlfv0TxcSCE?list=PL017FEE35DE607CE1\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mesmo com tantas roubadas, perdas e promessas incumpridas, o livro tem um tom alegre. Uma alegria de vida mesmo. Ainda assim, queria saber se tem espa\u00e7o para arrependimento, seja do que voc\u00ea fez ou do que n\u00e3o fez.<\/strong><br \/>\nCara, meu \u00fanico arrependimento \u00e9 n\u00e3o ter ido nos anos 2000 pra Europa montar uma base l\u00e1. Era a \u00e9poca em que eu circulava muito pelos grandes festivais, e n\u00e3o ter montado uma base l\u00e1 para morar l\u00e1 por uns 10 anos e fazer essas turn\u00eas hospedando as bandas \u00e9 algo de que me arrependo. Os day offs das turn\u00eas, os dias sem shows, t\u00eam custo alto, sai bem caro hospedar e alimentar todo mundo. Mas fora isso, n\u00e3o me arrependo de nada, muito pelo contr\u00e1rio. Me lembro de uma vez que CSNZ foi tocar em um clube social l\u00e1 em Goi\u00e2nia, com Skank e Pato Fu. Fui pegar mais cerveja e mais \u00e1gua no camarim e levei uma caixa de papel\u00e3o para carregar tudo e abastecer a galera. E o empres\u00e1rio do Pato Fu me viu ali nos bastidores e falou assim: \u201cPaulo, n\u00e3o \u00e9 mais pra voc\u00ea estar fazendo isso, velho, carregando caixa de cerveja para banda no palco\u201d. E eu falei, \u201ce quem vai carregar se eu n\u00e3o fizer isso, velho? Eu tenho um roadie para oito caras no palco, n\u00e3o pode voar uma baqueta do tambor, n\u00e3o pode quebrar uma corda, porque o cara tem que estar ligado em oito no palco. Tem que ser eu, velho, eu n\u00e3o posso pagar um produtor assistente para carregar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para fechar: como foi a \u00faltima vez que voc\u00ea falou com Chico?<\/strong><br \/>\nA \u00faltima vez dele no palco n\u00e3o foi com a Na\u00e7\u00e3o Zumbi, foi com Antonio N\u00f3brega numa festa de Carnaval, com uma orquestra de frevo tocando um cl\u00e1ssico, \u201cMadeira que cupim n\u00e3o r\u00f3i\u201d. Na semana pr\u00e9-carnaval, na Avenida Boa Viagem, em Recife, tem um desfile de trios el\u00e9tricos, e n\u00f3s ir\u00edamos fazer, mas Chico morreu um dia antes. Ent\u00e3o, a \u00faltima vez que ele sobe no palco \u00e9 nessa festa, um s\u00e1bado antes. E a\u00ed, cara, era uma festa meio careta assim pra gente, e a gente saiu para dar um rol\u00ea no Landau dele, e nessa \u00faltima conversa, ele falava da gente ir pro Jap\u00e3o, que era algo que eu tava tentando, falava da terceira turn\u00ea na Europa. Ele tinha vindo de umas f\u00e9rias na Europa, e ele era de uma intensidade, Leonardo\u2026 Tem um videoclipe dos Beastie Boys de uma m\u00fasica que eu n\u00e3o vou lembrar agora (nota: \u201cMullet Head\u201d), que \u00e9 um videoclipe que aparece uns quatro cinco caras descendo uma montanha de neve de snowboard e s\u00f3 l\u00e1 embaixo no final, um dos caras tira aquela m\u00e1scara protetora do sol e os \u00f3culos, e voc\u00ea v\u00ea que era, se eu n\u00e3o me engano, o cara que morreu, o Ad-Rock (nota: na verdade, quem faleceu, e que \u00e9 de fato o personagem a quem Paulo se refere, foi Adam Yauch, o MCA). Enfim, era o baixinho. E a\u00ed a gente t\u00e1 num quarto de hotel vendo a MTV, Chico aponta para televis\u00e3o e fala: \u201cPaulo, um dia eu vou fazer isso a\u00ed, velho, eu vou descer uma montanha de snowboard\u201d. A\u00ed eu falei: \u201cs\u00f3 n\u00e3o vai se n\u00e3o quiser, cara\u201d. Quando ele tira f\u00e9rias Chico tava gamad\u00e3o numa menina que era de uma fam\u00edlia aqui de Recife mas cresceu em Paris. A gera\u00e7\u00e3o dos nossos pais falaria que ele tava \u201carriado dos quatro pneus\u201d pela mo\u00e7a. Ele foi, ficou um tempo, e a\u00ed tinha um amigo meu aqui que \u00e9 de uma fam\u00edlia que tem grana, j\u00e1 nessa \u00e9poca ele ia andar de snowboard na Europa quando era ver\u00e3o aqui. A\u00ed eu disse pra Chico: \u201ccara, Rodrigo t\u00e1 indo pra Europa, tu quer realizar teu sonho, vai ser agora, porque ele tem as pranchas, as roupas, e vai te ensinar e tal\u201d. E Chico desce, n\u00e9? N\u00e3o a montanhazona, mas uma \u00e1rea mais tranquila. Tenho as fotos dele todo sujo de neve com as quedas que levou, ele t\u00e1 junto com esse meu amigo, a namorada, e os amigos. E a\u00ed cara, v\u00ea essa coisa, n\u00e9? Porque \u00e9 foda, meu irm\u00e3o. Voc\u00ea perdeu um amigo em um auge da carreira que voc\u00ea convivia ali, que de todo mundo que voc\u00ea conhecia era o \u00faltimo cara que voc\u00ea queria que partisse naquele momento\u2026 Voc\u00ea v\u00ea essa: eu passei muitos anos achando que eu ia morrer cedo, porque com aquela din\u00e2mica, n\u00e3o sei velho&#8230; Eu fiquei t\u00e3o chocado assim de perder a parceria com um amigo que eu pensava que eu tamb\u00e9m ia morrer cedo, que a vida era isso mesmo. Era breve para todo mundo, mas depois, eu refletindo sobre a vida, eu digo que doideira, n\u00e9, o Chico, que tinha o sonho de andar de snowboard. O cara consegue, no apagar das luzes da vida, andar de snowboard, e no m\u00e1ximo tr\u00eas semanas depois, parte. Eu tenho na cabe\u00e7a um livro chamado \u201cInconformados\u201d, que seria sobre Chico Science &amp; Na\u00e7\u00e3o Zumbi, que eu s\u00f3 n\u00e3o tive condi\u00e7\u00f5es emocionais de botar no papel ainda. E \u00e9 um livro que acaba extremamente triste, n\u00e9, porque \u00e9 uma hist\u00f3ria interrompida ali assim na crescida. Essa hist\u00f3ria do sonho de andar de snowboard ajuda a hist\u00f3ria a acabar n\u00e3o de uma forma tr\u00e1gica e triste, mas de deixar as pessoas refletindo sobre a vida. O Chico n\u00e3o t\u00e1 mais aqui, ent\u00e3o eu sinto uma responsabilidade, n\u00e9? Eu at\u00e9 falei isso pra Louise: eu sei que se teu pai pudesse falar alguma coisa para mim, ele ia dizer: \u201cPaulo! Porra, caralho, velho, lan\u00e7a logo essa porra, meu irm\u00e3o! Pode contar isso, velho, por mim, meu irm\u00e3o. Fa\u00e7a isso, velho\u201d. Eu t\u00f4 ouvindo ele me dizer, entendeu?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"beastie boys - mullethead (instr.version) MCA gets wild!\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1035wEsQzzA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"CLUBE DO RISCO #43 com PAULO ANDR\u00c9 (ABRIL PRO ROCK)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0aZBwuokUm8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chico Science,  Um Caranguejo El\u00e9trico - Document\u00e1rio Na\u00e7\u00e3o Zumbi\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/j299EbU-UnQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"T01 E04: MANGUEBEAT | Esse som \u00e9 massa\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/e7lDtdp2Mck?list=PLzz9LGXTYxWzpaOaCk24o5WZd8ttep8Q5\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Livro traz hist\u00f3rias do fundador do Abril Pro Rock e do empres\u00e1rio que articulou a jornada da m\u00fasica pernambucana 90&#8217;s pelo mundo, especialmente de Chico Science &#038; Na\u00e7\u00e3o Zumbi&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/17\/entrevista-paulo-andre-de-moraes-pires-fala-do-memorias-de-um-motorista-de-turnes-de-chico-science-nacao-zumbi-e-muito-mais\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":68613,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[36,9,3],"tags":[6024,3706,6023,2511,6022],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68607"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=68607"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68607\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":68622,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68607\/revisions\/68622"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/68613"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=68607"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=68607"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=68607"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}