{"id":68456,"date":"2022-08-10T00:12:42","date_gmt":"2022-08-10T03:12:42","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=68456"},"modified":"2022-10-19T00:02:31","modified_gmt":"2022-10-19T03:02:31","slug":"mauricio-pereira-micro-entrevista-imperdivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/10\/mauricio-pereira-micro-entrevista-imperdivel\/","title":{"rendered":"Entrevista: Maur\u00edcio Pereira fala sobre seu novo disco, &#8220;Micro&#8221;, sobre filhos, S\u00e3o Paulo, Brasil e sobre ser artista independente"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um disco nascido na estrada, em teatros pequenos e grandes palcos, em subsolo de coworking, p\u00e1tio de hamburgueria vegana e quintal de hostel. Esse \u00e9 \u201c<a href=\"https:\/\/tratore.ffm.to\/micro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Micro<\/a>\u201d (2022), novo disco de Maur\u00edcio Pereira \u2013 aquele cara que fala na propaganda da operadora, \u00e9 o pai do Tim Bernardes e j\u00e1 tocou com o Andr\u00e9 Abujamra n\u2019Os Mulheres Negras. Gestado feito easy rider e gravado durante a pandemia, \u201cMicro\u201d re\u00fane doze can\u00e7\u00f5es do repert\u00f3rio solo de Pereira, gravadas entre o in\u00edcio dos anos 1990 e meados dos anos 2000, em formato quase-m\u00ednimo: apenas um duo entre o cantor e o guitarrista Tonho Penhasco, seu parceiro de longa data.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO \u2018Micro\u2019 nasceu como show de combate, despojado, para tocar em todos os lugares. Era guitarra e voz, duas passagens, um quarto de hotel simples, pedindo apoio da produ\u00e7\u00e3o local. Aos poucos, esse show funcional de estrada foi ganhando esp\u00edrito \u2013 e a gente percebeu que tinha que registrar\u201d, conta Maur\u00edcio sobre o trabalho, produzido por Gustavo Ruiz. Indica\u00e7\u00e3o de Tim Bernardes, Gustavo j\u00e1 havia sido respons\u00e1vel pelo mais recente disco de Pereira, \u201cOutono no Sudeste\u201d (2018), em uma experi\u00eancia que Pereira chama de \u201credentora\u201d. Agora, o produtor ajudou a dupla a chegar num resultado macro, passando longe da sonoridade magra de trabalhos \u201cac\u00fasticos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu e o Tonho somos de garagem, mas \u00e9 uma garagem de luxo. N\u00e3o abro m\u00e3o da excel\u00eancia est\u00e9tica. Se eu tiver uma l\u00e2mpada, fa\u00e7o ilumina\u00e7\u00e3o. Se tiver microfone, tem que soar bem\u201d, explica Pereira. \u201cE o Gustavo achou um microfone que me fez a minha voz soar que nem a Billie Holliday e achou um amplificador Fender Twin dos campe\u00f5es, que a Lucinha Turnbull tinha ganho do Gilberto Gil na turn\u00ea do \u2018Refavela\u2019. S\u00e3o equipamentos que botam os timbres em outro patamar.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-68469\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio_micro.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio_micro.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio_micro-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio_micro-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para chegar ao repert\u00f3rio, Maur\u00edcio fez uma sele\u00e7\u00e3o diversa, buscando privilegiar o trabalho de Tonho como guitarrista e tamb\u00e9m resgatar can\u00e7\u00f5es que, a despeito de terem duas ou tr\u00eas d\u00e9cadas, soam frescas. \u00c9 o caso da salsa \u201cPan y Leche\u201d, feita em pleno governo Collor, quando Tim Bernardes ainda estava no colo, mas que parece in\u00e9dita. \u201cEu estava tentando ser estrutural, mas a hist\u00f3ria \u00e9 c\u00edclica. Se voc\u00ea olhar para o Brasil de quando em quando, sempre vai ter um presidente com pinta de ditador, entregando o ouro. Eu cresci na ditadura, ent\u00e3o olhar pro governo e me sentir desamparado sempre esteve l\u00e1\u201d, explica o artista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa entrevista para o Scream &amp; Yell, Maur\u00edcio Pereira fala sobre \u201cMicro\u201d, os planos de recolocar o disco na estrada e o fato de ter hoje, como amigos m\u00fasicos, os filhos Chico e Tim Bernardes. \u201cComo pai, ter filhos artistas me preocupa, eles s\u00e3o pessoas p\u00fablicas, t\u00eam muitos haters na rede social, mas como artista eu aprendo muito com eles\u201d, diz. Tamb\u00e9m conta as hist\u00f3rias por tr\u00e1s de suas can\u00e7\u00f5es \u2013 incluindo \u201cTrovoa\u201d, que se tornou o hino de uma gera\u00e7\u00e3o. \u201cEla expressou coisas que eu mesmo n\u00e3o sei bem, foi meu inconsciente que colocou l\u00e1, mas ela bateu realmente para muita gente.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se l\u00ea a seguir \u00e9 um papo \u201cimenso, maior do que penso, \u00e9 denso\u201d, mas que evidencia o pensamento e a realidade de um artista que, h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, vive o que \u00e9 ser independente no Brasil. Que transpira S\u00e3o Paulo e j\u00e1 soube o que \u00e9 estar escondido, que foi redescoberto pela cena indie de Kiko Dinucci e R\u00f4mulo Fr\u00f3es, que pensa sobre o mundo que vive de maneira sens\u00edvel e atenta. \u201cUma das viol\u00eancias do mundo de hoje \u00e9 o excesso de informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 algo que dessensibiliza a gente. A gente normaliza muita brutalidade pelo excesso de informa\u00e7\u00e3o. Excesso de arte tamb\u00e9m: faz a arte virar n\u00e3o-arte, faz tudo ficar chapado\u201d, afirma. Pare, sente na poltrona e preste aten\u00e7\u00e3o, caro leitor: com a palavra, Maur\u00edcio Pereira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Fugitivos\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JUvdQJtQ_EY?list=OLAK5uy_lNoido0x_ojO38TGq8jctwC2udNaP3BMM\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vamos come\u00e7ar do come\u00e7o, Maur\u00edcio. Como \u00e9 que nasceu o \u201cMicro\u201d? E por que regravar o seu repert\u00f3rio?<\/strong><br \/>\nEu sou parceiro do Tonho Penhasco de longa data. Em todos os meus discos autorais desse s\u00e9culo, o Tonho era o primeiro cara que eu ia encontrar depois que tinha as can\u00e7\u00f5es escritas e os arranjos pr\u00e9-desenhados. Isso aconteceu no \u201cPra Marte\u201d (2007), no \u201cPra Onde Que Eu Tava Indo\u201d (2014) e no \u201cOutono no Sudeste\u201d (2018). O Tonho \u00e9 um parceiro que coloca a bola no ch\u00e3o, que p\u00f5e as cartas na mesa. Mas apesar da parceria, a gente tinha ido pouco juntos para a estrada. Quando eu precisava ir para a estrada de um jeito mais econ\u00f4mico ou mais conhecido, eu ia com o [Daniel] Szafr\u00e1n e fazia o show do \u201cMergulhar na Surpresa\u201d (1998), porque o Szafr\u00e1n conhece todo o meu repert\u00f3rio. Artista independente \u00e9 aquilo: voc\u00ea faz o show grande, com banda, para lan\u00e7ar o disco no Sesc. Depois o show cai na estrada\u2026 e voc\u00ea diminui a produ\u00e7\u00e3o. Eu sou muito independente, alternativo, n\u00e3o tenho bala, n\u00e3o costumo entrar em lei de incentivo para fazer o show circular. E na boa, eu sou vira-lata da estrada. E em 2014, acho, eu falei para o Tonho que a gente devia montar um show econ\u00f4mico para ir para a estrada. Guitarra e voz, duas passagens, um quarto de hotel simples, usando a minha produ\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo e pedindo apoio da produ\u00e7\u00e3o local. O \u201cMicro\u201d nasceu na estrada, como um show de combate, despojado, para tocar em todos os lugares, teatro pequeno ou grande. Com o \u201cMicro\u201d, a gente j\u00e1 tocou em subsolo de coworking, em quintal de hostel, em p\u00e1tio de hamburgueria vegana, tem muita experi\u00eancia assim. Mas na minha cabe\u00e7a tem um tro\u00e7o que vem desde sempre: se por um lado eu consigo trabalhar com um m\u00ednimo de grana, por outro eu n\u00e3o abro m\u00e3o da excel\u00eancia est\u00e9tica do show. Se eu tiver uma l\u00e2mpada, eu produzo ilumina\u00e7\u00e3o. Se eu tiver um microfone, ele tem que soar bem. O \u201cMicro\u201d era nessa l\u00f3gica: um amp de guitarra, um microfone pra minha voz e um repert\u00f3rio forte, bem tocado e bem cantado. Ca\u00edmos na estrada e tocamos um monte, dois, tr\u00eas anos, com o Tonho aumentando o repert\u00f3rio que ele tinha na m\u00e3o dele. Ent\u00e3o o \u201cMicro\u201d nasceu na estrada, com muita quilometragem, com todo o meu repert\u00f3rio \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para poder cantar em lugares que eu n\u00e3o ia sempre. Aos poucos, esse show funcional de estrada foi ganhando esp\u00edrito. Um dia, num ensaio, eu percebi uma coisa e o Tonho tamb\u00e9m: a gente estava cantando diferente. Somos bem c\u00e9ticos, mas rolou um esp\u00edrito nas can\u00e7\u00f5es. O que era uma can\u00e7\u00e3o bem tocada e cantada passou a ser arte, aquela coisa que voc\u00ea n\u00e3o tem mais controle da f\u00faria. Quando chegou a pandemia, t\u00ednhamos muitos shows marcados. Em 2020, eu e o Tonho ficamos muito recolhidos, mas muito juntos. A gente se ligava todo dia para conversar da vida, do sof\u00e1, da pol\u00edtica, do Brasil, da m\u00fasica, de outros m\u00fasicos. Quando as coisas come\u00e7aram a abrir em 2021, foi natural: senti que precis\u00e1vamos registrar esse repert\u00f3rio. E a\u00ed come\u00e7amos a ensaiar com cabe\u00e7a de disco. Imediatamente, eu chamei o Gustavo Ruiz, porque a experi\u00eancia que eu tive com ele no \u201cOutono no Sudeste\u201d foi redentora. N\u00e3o sou mais o mesmo cara gravando disco depois do Gustavo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que mudou com o Gustavo?<\/strong><br \/>\nAntes, eu mesmo produzia meus discos. Eu sou muito conciso. A minha tese \u00e9 que eu consigo fazer uma boa produ\u00e7\u00e3o de um disco, que n\u00e3o estrague a poesia e a delicadeza do meu trabalho. Com o Gustavo, \u00e9 arte fonogr\u00e1fica, \u00e9 est\u00e9tica, \u00e9 conhecimento. Antes, eu s\u00f3 tentava ir para o est\u00fadio de um modo barato, r\u00e1pido e correto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Est\u00fadio custa caro\u2026<\/strong><br \/>\nCusta caro, e sempre fui eu que paguei, e eu n\u00e3o gosto de est\u00fadio, do lugar. Eu tentava fazer um disco razoavelmente bom, correto, straight. Com o Gustavo, a grava\u00e7\u00e3o tem aquele calor de quem \u00e9 do ramo, de quem sabe buscar o microfone certo, de mixar assim, de achar um ambiente de grava\u00e7\u00e3o. Um dia eu preciso escrever sobre isso, porque as duas experi\u00eancias (\u201cOutono\u201d e \u201cMicro\u201d) foram al\u00e9m de tudo que eu tinha vivido. No \u201cOutono\u201d, ele fez a banda montar e desmontar os arranjos ao vivo no est\u00fadio. Isso deu um frescor para o disco. No \u201cMicro\u201d, a gente gravou na casa dele, que \u00e9 um est\u00fadio \u2013 hoje os est\u00fadios todos est\u00e3o na casa dos caras. Ele achou um megamicrofone, que fazia a minha voz soar feito a voz da Billie Holliday. E um [amplificador] Fender Twin, dos campe\u00f5es, que a Lucinha Turnbull tinha ganho do Gilberto Gil na turn\u00ea do \u201cRefavela\u201d. S\u00e3o equipamentos muito bons, que melhoram o timbre, que botam os timbres em outro patamar, junto com a sabedoria do Gustavo de como gravar. Eu expliquei para ele: o disco \u00e9 \u201cMicro\u201d, a gente t\u00e1 na estrada, \u00e9 muito austero, muito simples, mas poeticamente \u00e9 um disco gigante. E n\u00e3o \u00e9 viol\u00e3o e voz, n\u00e3o \u00e9 MPB, \u00e9 pop rock. O Tonho tem uma pegada particular, ele \u00e9 bom timbreiro. Ele sempre timbra bem, tem um timbre gordo, de guitarrista, de quem ouviu Jimmy Page, Hendrix, Allman Brothers. Eu expliquei tudo pro Gustavo: preciso de delicadeza, de uma coisa \u00e1spera. O refinamento est\u00e1 em trazer a aspereza com detalhe. \u00c9 micro, mas \u00e9 enorme, tem muita nuance no canto, vida que segue. Depois de gravarmos, o Gustavo falou pra gente mixar no Renat\u00e3o Coppoli, um cara da velha guarda, que tem uma mesa anal\u00f3gica na casa dele. O Renat\u00e3o foi quem mixou o primeiro disco d\u2019O Terno, o \u201cPra Marte\u201d, \u00e9 um cara que est\u00e1 h\u00e1 um temp\u00e3o na estrada. Ele mixa como rock\u2019n roll, sangue mediterr\u00e2neo. \u00c9 uma sabedoria que tamb\u00e9m veio do Gustavo, de sacar o produzido. Antes dele produzir o \u201cOutono no Sudeste\u201d, falamos muito de cinema, trocamos refer\u00eancias, falamos de m\u00fasica, do pai dele [o guitarrista Luiz Chagas], do Tonho Penhasco, do Martim, da Tulipa. Tomamos muito caf\u00e9, em uma intera\u00e7\u00e3o espiritual t\u00e9cnica. O Gustavo \u00e9 muito sens\u00edvel e, ao mesmo tempo, tem muito conhecimento t\u00e9cnico. O que ele fez no disco da Liniker, p\u00f4, ele produziu um disco de luxo! E eu disse para ele que eu e o Tonho somos de garagem, mas \u00e9 uma garagem de luxo. Ningu\u00e9m precisa saber que dentro do cap\u00f4 do disco tem dez terabytes de informa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. E ele sacou isso. O Gustavo \u00e9 um encontro que mudou minha vida. E foi uma sugest\u00e3o do Martim! Em 2017, eu ia gravar o \u201cOutono\u201d, estava pronto para me autoproduzir. E o Martim chegou para mim: \u201cP\u00f4, pai, n\u00e3o d\u00e1 mais para voc\u00ea gravar seus discos sozinho. \u00c9 legal? \u00c9, mas voc\u00ea precisa subir de patamar, precisa ambicionar\u201d. Ele me indicou uns caras. Achei o Gustavo legal, era mais pr\u00f3ximo, j\u00e1 conhecia o trabalho, estava em S\u00e3o Paulo. Falei pro Tim que ia ligar, mas n\u00e3o liguei. Uma semana, duas\u2026 de repente o Gustavo me liga. O Tim sacou que eu ia emba\u00e7ar, que ia acabar eu mesmo produzindo o disco, e foi l\u00e1 ligar pro Gustavo. A\u00ed eu saquei que tinha que ir para as cabe\u00e7as. Para mim, o custo \u00e9 um dilema na produ\u00e7\u00e3o dos discos. Eu me banco. No \u201cOutono\u201d, de forma casual, eu consegui muito escambo. Fiz uns pacotes, troquei favores, gastei pouqu\u00edssimo e fiz um disco grande. No \u201cMicro\u201d, tive que juntar uma grana, saiu mais caro que o \u201cOutono\u201d, por incr\u00edvel que pare\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quanto custou o \u201cMicro\u201d?<\/strong><br \/>\nOlha, vamos dizer\u2026 (respira). Discos tem dois pre\u00e7os, n\u00e9? O que a gente paga e o que eles custam de fato. Vamos dizer que at\u00e9 agora, eu tinha um dinheiro guardado, t\u00f4 devendo um tanto e vou recuperar. O \u201cMicro\u201d deve estar custando uns R$ 50 mil. Mas se colocar em valores reais, ele custa uns R$ 200 mil. Sempre foi isso. Eu gravava meus discos com R$ 10 mil, R$ 20 mil, R$ 30 mil. Mas se for colocar em valores reais, eles custam 100, 150 paus. A gente troca muito. Um produtor grava o disco, depois eu vou l\u00e1 e gravo o dele. Eu ajudo a conceituar discos, canto no disco dos outros. No Brasil, o showbiz n\u00e3o tem dinheiro, ent\u00e3o a gente troca muito. \u00c9 independente, estamos na pr\u00e9-hist\u00f3ria, mas trocamos muito. E o \u201cMicro\u201d \u00e9 um disco simples, que para ser bem feito ele custa caro. What you pay is what you get, ter bons profissionais, equipamentos, isso tudo custa. Eu nunca cresci com lei de incentivo, n\u00e3o tenho esse h\u00e1bito, eu cresci com bilheteria, desde a \u00e9poca dos Mulheres Negras. Lei de incentivo \u00e9 legal para quem \u00e9 de periferia, para quem \u00e9 fora do eixo Rio-S\u00e3o Paulo. Eu sou homem branco, macho, classe m\u00e9dia, ent\u00e3o eu me viro. Fa\u00e7o locu\u00e7\u00e3o, dou oficina, dou canja no disco das pessoas, produzo, ca\u00e7o uma grana e vou para cima do disco. N\u00e3o tem segredo. Se a gente fosse americano, em que tudo se paga, n\u00e3o tem escambo, mas onde o mundo alternativo gira dinheiro, o \u201cMicro\u201d custaria uns US$ 20 mil. \u00c9 isso: colocando na ponta do l\u00e1pis, um bom disco custa dinheiro.<\/p>\n<figure id=\"attachment_68462\" aria-describedby=\"caption-attachment-68462\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-68462 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Biel-25-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"497\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Biel-25-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Biel-25-copiar-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-68462\" class=\"wp-caption-text\"><em>Maur\u00edcio Pereira e Tonho Penhasco \/ Foto de Biel Basile<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um show dura mais do que o tempo do \u201cMicro\u201d, que tem pouco menos de 45 minutos. Como foi escolher esse repert\u00f3rio?<\/strong><br \/>\nTinha algumas m\u00fasicas bem lado-A [no repert\u00f3rio] que eu queria colocar, como \u201cImbarueri\u201d, \u201cDia \u00datil\u201d, \u201cPan Y Leche\u201d. Outras, como \u201cAndas Seca\u201d, \u201cDeixa Eu Te Dizer\u201d, \u201cN\u00e3o Adianta Tentar Segurar o Choro\u201d, foram m\u00fasicas que o Tonho chegou num desenho bacana de arranjo. Um dos motivos do disco \u00e9 poder registrar o trabalho do Tonho como pensador guitarr\u00edstico. A pr\u00f3pria \u201cUm Dia \u00datil\u201d, o Tonho falou pra mim: \u201cPereira, n\u00e3o tem que complicar. Eu vou fazer viol\u00e3o de fogueira, \u00e9 uma m\u00fasica reta\u201d. Mas \u201cUm Dia \u00datil\u201d tem tens\u00f5es harm\u00f4nicas, uma timbragem de rock\u2019n\u2019roll que envenena todo o passado dessa m\u00fasica, ent\u00e3o tinha que registrar. E tinha m\u00fasicas que achei que, na grava\u00e7\u00e3o original, eu n\u00e3o sabia cantar. Leva anos para saber como cantar uma m\u00fasica. \u201cTrovoa\u201d, quando eu gravei em 2007, eu n\u00e3o sabia cantar. Levou uns tr\u00eas, quatro anos para ter \u201cTrovoa\u201d na corrente sangu\u00ednea. Um dia vou gravar \u201cTrovoa\u201d de novo, como se deve. No show, a gente toca, mas no disco ela n\u00e3o t\u00e1. E tinha algumas can\u00e7\u00f5es que eu queria gravar de novo porque s\u00e3o atuais: falam do mundo violento, polarizado, grosseiro, com excesso de oferta de informa\u00e7\u00e3o. \u201cPan y Leche\u201d tem a ver com esse mundo, \u201cN\u00e3o Me Incommodity\u201d, \u201cUm Teco Teco Amarelo em Chamas\u201d. \u201cTeco Teco\u201d \u00e9 revolta interior transformada em poesia, \u00e9 f\u00faria, \u00e9 como se eu tacasse fogo no meu corpo e me atirasse contra um tanque na pra\u00e7a de Pequim. \u00c9 um quadro cl\u00e1ssico que tinha nos anos 1960. Mas eu n\u00e3o sou um cara desses: eu funciono muito pela po\u00e9tica. Nunca vou escrever uma m\u00fasica que vai dizer \u201ceu vou dar porrada em fascista nojento\u201d. Ent\u00e3o eu fa\u00e7o coisas na can\u00e7\u00e3o. \u201cTeco Teco\u201d \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o de f\u00faria, de inconformismo. \u201cPan y Leche\u201d \u00e9 \u201cabaixo a ditadura\u201d, \u00e9 \u201co povo unido jamais ser\u00e1 vencido\u201d. S\u00f3 que ela vem com do\u00e7ura, \u00e9 o jeito que eu consigo fazer. Enfim, \u00e9 essa a ideia do repert\u00f3rio do disco, tem coisas que entram por acaso, tudo misturado. Tem hora que eu olho e me pergunto se devia ter gravado \u201cImbarueri\u201d de novo. Mas p\u00f4, ela tem uma delicadeza nessa grava\u00e7\u00e3o que ela nunca teve, a leitura do Tonho \u00e9 sempre muito bonita, ent\u00e3o justifica tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma nuance simples e muito bonita desse disco \u00e9 o tempo \u2013 ou a atemporalidade. Quando voc\u00ea canta \u201capesar do presidente\u201d, em \u201cPan y Leche\u201d, tem essa atemporalidade. Como \u00e9 ver essa m\u00fasica de tr\u00eas d\u00e9cadas ainda fazendo sentido? \u00c9 bom ver a m\u00fasica resistindo ao tempo ou \u00e9 ruim ver que o Brasil n\u00e3o melhora?<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 pensei muito nisso. \u201cPan y Leche\u201d tem a idade do Martim, que tem 31 anos. Eu fiz a m\u00fasica com ele no colo, um pouco depois dele nascer. Na \u00e9poca, minha mulher tinha sa\u00eddo da licen\u00e7a maternidade e eu ficava em casa, cuidando do Martim e compondo o que veio a ser o \u201cNa Tradi\u00e7\u00e3o\u201d, meu disco de 1995. Depois que eu sa\u00ed d\u2019Os Mulheres, vi que ia entrar num mundo de pobreza, n\u00e3o ia ter grana para gravar e n\u00e3o sabia quando ia gravar um disco de novo. Meus discos autorais sa\u00edam de cinco em cinco anos, seis anos, ent\u00e3o eu pensava que ia levar muito tempo para gravar um disco. E o p\u00fablico era pouco. Ent\u00e3o, eu pensava que precisava fazer uma m\u00fasica em 1991, em 1992, mas que talvez ela s\u00f3 fosse ser escutada em 2020. Tinham que ser can\u00e7\u00f5es gerais, que funcionassem hoje e daqui a 50 anos, inclusive na sonoridade. \u00c9 por isso que meus discos n\u00e3o t\u00eam inven\u00e7\u00e3o: \u00e9 piano, baixo, bateria e guitarra, uma f\u00f3rmula que funciona em 1930 e 2030. E como \u00e9 que se faz uma can\u00e7\u00e3o dur\u00e1vel, um texto que dure? Isso foi algo que o velho Antonio Abujamra, pai do [Andr\u00e9] Abujamra, me falava: \u201cp\u00f4, voc\u00eas t\u00eam que ler os cl\u00e1ssicos!\u201d. Tem tudo a ver: num mundo que tem 10 bilh\u00f5es de livros para ler, se voc\u00ea ler a trag\u00e9dia grega, Shakespeare, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, os cl\u00e1ssicos, eles acabam englobando todo o resto. E foi essa a sacada: eu tenho que ser cl\u00e1ssico e essencial na hora de estruturar meus temas. Isso n\u00e3o se faz s\u00f3 com a cabe\u00e7a, mas com a intui\u00e7\u00e3o: joguei muita coisa fora porque achei que ia ficar datado. Sou at\u00e9 meio severo demais com a minha caneta, joguei muita coisa fora. Meu processo criativo \u00e9 duro, cruel, eu sofro para escrever, mas s\u00e3o m\u00fasicas que duram. \u201cPan y Leche\u201d \u00e9 isso: foi feita quando entrou o governo Collor. A gente sacava que ia ser um governo autorit\u00e1rio, economicamente neoliberal, com muito pouca defesa do povo. O Collor fechou a Funarte, fez um confisco, foi um governo duro para o cidad\u00e3o comum. Eu estava saindo dos Mulheres, sem saber para onde a minha carreira ia, inexperiente e com o moleque no colo. Eu sentei, me bateu o p\u00e2nico: \u201ccomo \u00e9 que eu vou alimentar esse cara? o que vai acontecer com o Brasil? o que vai ser feito da minha carreira?\u201d. S\u00f3 que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds t\u00e3o louco\u2026 eu tento ser estrutural, mas a hist\u00f3ria \u00e9 c\u00edclica. N\u00e3o \u00e9 m\u00e9rito meu, \u00e9 que a hist\u00f3ria \u00e9 c\u00edclica. Voc\u00ea pode pegar uma m\u00fasica do Lamartine Babo, de 1930, e ela funcionar em 1950, mas n\u00e3o em 1970, mas funcionar de novo em 2015. Isso \u00e9 da arte. \u00c9 por isso que tem m\u00fasicas dos Beatles, do Caetano, do Gil, tem \u00e9pocas que elas colam no tempo presente. E \u201cPan y Leche\u201d \u00e9 bem isso: se voc\u00ea olhar para o Brasil de quando em quando, sempre vai ter um presidente com pinta de ditador, entregando o ouro. Pode ser que o General Dutra tenha sido isso, a ditadura foi isso. Eu cresci na ditadura, ent\u00e3o olhar para o governo e me sentir desamparado sempre esteve l\u00e1. \u201cPan y Leche\u201d tem essa sensa\u00e7\u00e3o, e por isso ela cola bem hoje. Assim como \u201cN\u00e3o Me Incommodity\u201d cola. \u00c9 uma m\u00fasica que eu fiz h\u00e1 20 anos com o Edson Natale. Na \u00e9poca, eu estava puto que a banda larga estava chegando e a molecada estava baixando uma discografia inteira de uma vez. Um cara baixava cem m\u00fasicas em duas horas, mas gastava seis horas para ouvir. Eu n\u00e3o acreditava que a m\u00fasica pudesse ser uma commodity. Minha m\u00fasica tem que ser mastigada quarenta vezes, \u00e9 \u00e1lbum mesmo. Falei isso de bobeira e o Natale falou para eu escrever. E uma das viol\u00eancias do mundo de hoje acaba sendo o excesso de informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 algo que desensibiliza a gente. A gente normaliza muita brutalidade pelo excesso de informa\u00e7\u00e3o. Excesso de arte tamb\u00e9m: excesso de arte faz a arte virar n\u00e3o-arte, faz tudo ficar chapado.<\/p>\n<figure id=\"attachment_68463\" aria-describedby=\"caption-attachment-68463\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-68463 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio21.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"524\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio21.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio21-300x210.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio21-120x85.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-68463\" class=\"wp-caption-text\"><em>&#8220;Na Tradi\u00e7\u00e3o&#8221;, de 1995, e &#8220;Mergulhar na Surpresa&#8221;, de 1998<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Queria falar de outro efeito do tempo, Maur\u00edcio. Em \u201cUm Dia \u00datil\u201d, tem uma coisa bonita que \u00e9 a contraposi\u00e7\u00e3o entre \u201co pessoal l\u00e1 de casa, os meninos\u201d, e os \u201cmeus amigos m\u00fasicos\u201d. Hoje, os meninos, o Martim e o Francisco, s\u00e3o tamb\u00e9m os seus amigos m\u00fasicos. Como \u00e9 ter filhos como companheiros de profiss\u00e3o? Voc\u00ea for\u00e7ou a barra para eles tocarem ou queria, como o Paulinho da Viola dizia, que eles estudassem Medicina, Filosofia ou Engenharia?<\/strong><br \/>\nA\u00ed \u00e9 que t\u00e1: al\u00e9m do Chico e do Martim, que s\u00e3o m\u00fasicos, tem a minha filha Manuela, que \u00e9 atriz e dubladora. Minha preocupa\u00e7\u00e3o como pai n\u00e3o \u00e9 os caras serem famosos. \u00c9 o cara pagar aluguel, pagar o supermercado no fim de m\u00eas e ter uma rela\u00e7\u00e3o afetiva legal, levar uma vida razo\u00e1vel, com alguma felicidade, amar e ser amado. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o imaginava que algu\u00e9m ali dos tr\u00eas ia ser artista. Se bem que com o Martim dava para desconfiar. Quando ele abriu a boca pela primeira vez, ele n\u00e3o falou \u201cmam\u00e3\u201d ou \u201cpap\u00e1\u201d, ele falou \u201cm\u00faca\u201d. M\u00fasica. Ele queria botar o CD no CD player. Eu tive que ensinar, com dois anos ele j\u00e1 sabia usar o CD player. Ele foi estudar, tinha uma violinha, uma bateria, desde crian\u00e7a\u2026 com esse n\u00e3o tinha jeito. O Chico foi mais tarde, e no fim a Manuela tamb\u00e9m foi para as artes. Eu acho legal, porque ser artista \u00e9 uma profiss\u00e3o bonita, tesuda, a gente conhece gente legal, a gente expressa ang\u00fastias, trabalha muito o pensamento, est\u00e1 abra\u00e7ado com o mundo. Mas a profiss\u00e3o em si, o cotidiano, ele \u00e9 sangrento. \u00c0s vezes voc\u00ea n\u00e3o ganha dinheiro, passa tr\u00eas anos gestando um trabalho e ele fracassa. Ou \u00e0s vezes n\u00e3o fracassa, mas tamb\u00e9m n\u00e3o traz dinheiro e a gente continua tendo que pagar aluguel. A profiss\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil. N\u00e3o somos os EUA, em que um artista independente se sustenta com bilheteria e venda de disco, em que existe um midstream estruturado. Hoje tamb\u00e9m tem uma coisa que me preocupa mais: essa coisa da rede social, meio idiota, meio violenta, sem no\u00e7\u00e3o. Tem uma falta de respeito muito grande. Eu me preocupo muito com os meus filhos soltos na rua, sendo pessoas p\u00fablicas. Vejo os haters por a\u00ed, as pessoas se d\u00e3o ao direito de detonar qualquer coisa. P\u00f4, n\u00e3o gosta do trabalho? Vai buscar um artista que voc\u00ea goste. E artista \u00e9 muito um para-raio de desejos e frustra\u00e7\u00f5es das pessoas. Estou falando dos meus traumas de pai. Mas \u00e9 demais conviver com artistas interessantes como os meus filhos. O Martim, voc\u00ea v\u00ea, foi diretamente respons\u00e1vel por melhorar a qualidade dos meus discos ao me indicar o Gustavo Ruiz. Os tr\u00eas s\u00e3o caras que trazem muitas sugest\u00f5es, abordagens, modernidades que eu n\u00e3o conhe\u00e7o. Martim e Chico s\u00e3o artistas novos, t\u00eam jeitos de cantar, de se produzir, ent\u00e3o trocamos muita figurinha sobre produ\u00e7\u00e3o e caminhos est\u00e9ticos. Eu aprendo muito com eles e eles aprendem muito comigo. O Martim foi meu roadie aos 14 anos. Ent\u00e3o, com 14 anos, ele estava montando palco dos meus shows mais baratos \u2013 que s\u00e3o os shows mais dif\u00edceis de enfrentar \u2013, montando bateria, vendo o show l\u00e1 de tr\u00e1s, vendo como eu chamava a banda para improvisar. \u00c9 um know-how de oficina mec\u00e2nica que todo show tem e o Martim teve. \u00c9 por isso que ele \u00e9 t\u00e3o completo no sentido de oferecer um espet\u00e1culo, pensando no cen\u00e1rio, no comportamento, no trato com o p\u00fablico, na ilumina\u00e7\u00e3o. O Martim \u00e9 mais perfeccionista que eu, \u00e9 muito rigoroso, e est\u00e1 num patamar de p\u00fablico maior que o meu. Ele vivenciou coisas que eu n\u00e3o vou viver. Ser gravado por caras da MPB, os n\u00fameros, ele tocou no Maracan\u00e3! Eu vi uma foto dele tocando no Maracan\u00e3 e fiquei maluco. J\u00e1 o Chico \u00e9 outra experi\u00eancia, outra parada. Ele \u00e9 quase um folk, um menestrel, uma coisa de repouso. Na pandemia, como ele estava na mesma casa que eu, fizemos alguns shows juntos, online, e ele me produziu em algumas coisas. O Chico grava muito bem, ele tem a sonoridade na orelha. A gera\u00e7\u00e3o deles faz isso muito bem. E a Manuela, minha filha, tem um canal chamado <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/epifaniasnoturnas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Epifanias Noturnas<\/a>, ent\u00e3o ela me d\u00e1 muita dica de redes sociais, puxa minha orelha quando eu t\u00f4 sendo muito caipira. O legal de ter filhos no ramo \u00e9 que a gente discute coisas t\u00e9cnicas, mas com amor. Eles t\u00eam a liberdade de dizer que eu caguei, que eu fiz tudo errado, que t\u00f4 fazendo algo como se fazia em 1985, que hoje tem um aplicativo para resolver tudo isso. Podem me dizer que eu t\u00f4 vacilando no trato com meu p\u00fablico ou cantando uma m\u00fasica de um jeito pregui\u00e7oso. A gente tem conversas t\u00e9cnicas preciosas, eles t\u00eam muitas experi\u00eancias interessantes. Como pai, ter filhos artistas me preocupa, mas como artista eu aprendo muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tenho duas sensa\u00e7\u00f5es sobre a sua carreira, Maur\u00edcio. A primeira, talvez por ter visto muita TV, \u00e9 que voc\u00ea sempre esteve presente, seja na TV mesmo ou em propagandas. Eu n\u00e3o me lembro de um momento em que eu descobri que o Maur\u00edcio Pereira existia. Como \u00e9 que voc\u00ea v\u00ea isso?<\/strong><br \/>\n\u00c9 muito louco. Sou um artista que come\u00e7ou a carreira tarde, eu tinha 25 anos n\u2019Os Mulheres Negras. Com 25 anos, o Martim j\u00e1 tinha dois, tr\u00eas discos gravados. O Chico gravou com 18. E eu me formei como jornalista, cheguei a trabalhar, foi meio sem querer querendo que virei artista. Para mim n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil o trabalho art\u00edstico. \u00c9 diferente dos meus filhos, que foram criados no palco. Eles n\u00e3o t\u00eam tanto\u2026 trauma. Eu tive que mudar de profiss\u00e3o para ser m\u00fasico. E eu ca\u00ed na profiss\u00e3o cheio de contradi\u00e7\u00f5es: sou introvertido, n\u00e3o tenho um ego gigante expl\u00edcito. Ego impl\u00edcito eu tenho, n\u00e3o tenho ego murcho n\u00e3o, mas n\u00e3o sou pav\u00e3o. Eu tinha medo de avi\u00e3o, para mim era dif\u00edcil me mostrar, frequentar festas. E para fechar, eu sempre tive esse sonho meio \u201ceasy rider\u201d de cair na estrada. Acho que demorei para ganhar visibilidade. O Mulheres me deu certa visibilidade, mas depois eu fiquei muito tempo escondido. Nos anos 1990 e antes de existir essa cena indie, que mais ou menos eu acho que come\u00e7a em 2005\u2026 foram 15 anos que eu fiquei muito escondido. Fiz tr\u00eas discos nesse meio tempo: o \u201cNa Tradi\u00e7\u00e3o\u201d (1995), o \u201cMergulhar na Surpresa\u201d (1998), que \u00e9 um disco do meu cora\u00e7\u00e3o, um fracasso comercial, mas um disco que resistiu ao tempo, e o \u201cCan\u00e7\u00f5es Que Um Dia Voc\u00ea J\u00e1 Assobiou\u201d (2003). O que me botou na roda foi a cena indie. Foi R\u00f4mulo Fr\u00f3es, Kiko Dinucci, esse povo ali da primeira golfada do indie que come\u00e7ou a citar meu nome. O Kiko me convidou para gravar uma m\u00fasica no disco dele, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5gQm0JpiBBs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o Met\u00e1 Met\u00e1 gravou \u201cTrovoa\u201d<\/a>. Em 2008, a Casa de Francisca me convidou para fazer um show do \u201cMergulhar na Surpresa\u201d, dez anos depois que eu gravei o disco\u2026 e isso rendeu uma mat\u00e9ria de meia p\u00e1gina na Folha! Essa molecada (alguns n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o moleques) me abra\u00e7ou. Meus m\u00e9todos de sobreviv\u00eancia na profiss\u00e3o e na po\u00e9tica casavam muito com eles. Mas sei que a minha carreira \u00e9 meio desconjuntada. Outra coisa que faz diferen\u00e7a \u00e9 que eu sempre fui muito paulistano na maneira de me comportar, de sentir, de escrever. Nos anos 1990, S\u00e3o Paulo n\u00e3o era o lugar hegem\u00f4nico artisticamente no Brasil. Era o Rio. E os anos 1990 foram muito do manguebeat, do ax\u00e9\u2026 eu era um dos poucos caras, al\u00e9m do rap, que escrevia em idioma paulistano \u2013 e isso dificultava o meu trabalho chegar no Brasil. Por outro lado, os anos 1990 s\u00e3o transformadores para S\u00e3o Paulo. O mundo p\u00f3s-moderno p\u00f4s S\u00e3o Paulo no mapa, com a Parada Gay, a F\u00f3rmula 1 em Interlagos, a Mostra de Cinema, isso colocou S\u00e3o Paulo hegem\u00f4nica no fluxo de gente que passava por aqui. E eu vim nesse bolo, fui um krill grudado nesse mar. Esse movimento culminou com a cena indie, na primeira d\u00e9cada do 2000, porque tinha muitos sotaques diferentes no indie, muitos pernambucanos, muitos ga\u00fachos, sempre penso no J\u00fapiter Ma\u00e7\u00e3. E para mim era importante poder falar errado, ser mais \u00e1spero, coisa de S\u00e3o Paulo mesmo, n\u00e9? S\u00e3o Paulo abra\u00e7ou o indie porque a gente sempre viveu \u00e0 parte da lei de incentivo, da Rede Globo, das grandes gravadoras. A gente sobreviveu de algum modo, a cidade tinha dinheiro \u2013 e eu estava ali no subterr\u00e2neo dessa coisa. Sei que a minha poesia \u00e9 forte, sempre foi, mas eu estava escondido. Se o mundo n\u00e3o tivesse aterrissado em S\u00e3o Paulo, talvez a gente n\u00e3o estaria falando aqui agora. Devo muito a esses artistas do s\u00e9culo XXI que levaram meu nome, me chamaram para cantar junto, gravaram \u201cTrovoa\u201d, que prestam aten\u00e7\u00e3o nas minhas conversas. Troquei muito com eles, gravei com eles, troquei muito com os produtores. Eu renasci na m\u00e3o dessa cena indie. Mas n\u00e3o sei se respondi tua pergunta!<\/p>\n<figure id=\"attachment_68465\" aria-describedby=\"caption-attachment-68465\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-68465 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"528\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio2-300x211.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio2-120x85.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-68465\" class=\"wp-caption-text\"><em>&#8220;Can\u00e7\u00f5es Que Um Dia Voc\u00ea J\u00e1 Assobiou &#8211; vol.1&#8221;, de 2003; e &#8220;Pra Marte&#8221;, de 2007<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Respondeu! E antecipou a outra parte, que era sobre uma sensa\u00e7\u00e3o de que o Maur\u00edcio Pereira est\u00e1 sempre sendo redescoberto por algu\u00e9m.<\/strong><br \/>\nPara os iniciados, eu sempre existi. Sempre teve um p\u00fablico bem pequeno que me conhecia de longa data. Mas para muita gente, eu sou o pai do Martim. \u00c9 engra\u00e7ado: muita gente n\u00e3o associa eu ser locutor de propaganda, que \u00e9 um tro\u00e7o que eu fiz para sobreviver e me fez aprender um monte. Foi algo que mudou at\u00e9 meu jeito de cantar. Mesmo os caras da Vivo, para quem eu fiz muita propaganda, n\u00e3o conheciam direito minha carreira musical. Era muito longe do mundo das corpora\u00e7\u00f5es. E vice-versa: muito cara que me ouvia cantando n\u00e3o pensava que era o mesmo cara que fazia locu\u00e7\u00e3o. \u00c9 verdade, eu estou sempre sendo descoberto. Cada vez que o Martim faz um post sobre mim, ou o pr\u00f3prio Andr\u00e9 [Abujamra], aparece muita gente no Instagram come\u00e7ando a me seguir. \u201cP\u00f4, esse Maur\u00edcio Pereira a\u00ed\u2026 ele que era do Mulheres Negras? P\u00f4, ele que \u00e9 o pai do Martim? N\u00e3o acredito!\u201d. Ent\u00e3o, eu me sirvo de tudo que tem para conseguir um pouco mais de p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou da import\u00e2ncia de \u201cTrovoa\u201d na tua redescoberta. \u00c9 uma m\u00fasica singular na tua carreira. Para muita gente, \u00e9 um hino de gera\u00e7\u00e3o, uma m\u00fasica que brilha\u2026 tem gente at\u00e9 que s\u00f3 conhece \u201cTrovoa\u201d e n\u00e3o conhece o resto da sua carreira.<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 normal, normal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas tem duas coisas que eu queria saber dela. A primeira \u00e9 como \u00e9 a tua rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica depois da redescoberta, das regrava\u00e7\u00f5es. E a segunda \u00e9 que certa vez voc\u00ea definiu \u201cTrovoa\u201d como uma ode \u00e0 monogamia. Nesses tempos em que todo mundo fala mal da monogamia, queria entender esse sentimento.<\/strong><br \/>\n\u00c9, eu sou um tiozinho straight num mundo louco, n\u00e9? Num mundo que n\u00e3o tem mais s\u00f3 dois g\u00eaneros, n\u00e9? Eu venho de outra \u00e9poca. Mas uma vez que eu sou monog\u00e2mico, isso tem que ser legal pra caralho, sen\u00e3o n\u00e3o d\u00e1, n\u00e9? A monogamia n\u00e3o \u00e9 algo que a gente quer. \u00c9 algo que tem muita contradi\u00e7\u00e3o. Eu estou casado com a mesma mulher h\u00e1 trinta e poucos anos, mas eu venho me casando com ela ao longo desse tempo. Hoje isso \u00e9 mais claro, \u00e9 mais sossegado, mas quando voc\u00ea \u00e9 mais jovem, isso \u00e9 muito louco: os desejos trespassam a gente. N\u00f3s somos carregados de libido e desejo. N\u00e3o vou defender nada com unhas e dentes, porque o mundo \u00e9 misterioso e nada \u00e9 fechado. Mas \u201cTrovoa\u201d n\u00e3o \u00e9 bem sobre monogamia. Deixa eu contar a hist\u00f3ria dessa m\u00fasica. Se eu gravei \u201cTrovoa\u201d em 2007, eu devo ter feito ela em 2003, 2004. \u00c9 o tempo que eu levo para fazer um disco. Nessa \u00e9poca, eu estava muito agoniado, estava muito dif\u00edcil de trampo, o Chico era pequeno ainda. Em italiano, existe uma palavra para o que eu sentia na \u00e9poca: \u201csconvolto\u201d. A cabe\u00e7a estava girando muito, estava trovoando mesmo. Era uma \u00e9poca que eu tinha muita ang\u00fastia e muita ins\u00f4nia. \u00c0s vezes eu acordava cedo e sa\u00eda andando perto de casa, na zona oeste de S\u00e3o Paulo, para a Vila Ipojuca, para a Lapa. Era como se eu precisasse ver o cidad\u00e3o comum acordando, o \u00f4nibus passando, a padaria abrindo, cheirar o caf\u00e9, ver as pessoas saindo com ramela no olho, para conseguir me tranquilizar. E a\u00ed pintou a chance de fazer o \u201cPra Marte\u201d, numa das raras leis de incentivo que eu entrei, no Projeto Petrobr\u00e1s, que privilegiou artistas pequenos. A grana era pouca, mas era suficiente para fazer um disco. Fiz um repert\u00f3rio e pensei em gravar achando que aquele ia ser meu \u00faltimo disco, que n\u00e3o ia ter mais espa\u00e7o para mim. Ent\u00e3o eu ia gravar um disco com meus amigos, escrever desbragadamente e pronunciar tudo como paulistano. Era meu testamento e pronto, acabou, tchau, vou fazer outra coisa. S\u00e3o m\u00fasicas que eu escrevi de um jeito paulistano, n\u00e3o tem plural direito. \u201cTrovoa\u201d mesmo: eu n\u00e3o falo \u201cn\u00e3o vou ser teu amigo\u201d, eu falo \u201cnum v\u00f4 s\u00ea teu amigo\u201d. N\u00e3o t\u00e1 em portugu\u00eas, t\u00e1 em paulista. \u201cTrovoa\u201d claramente foi uma m\u00fasica que eu fiz andando, caminhando e somando imagens na minha mente, lembran\u00e7as, sentimentos, coisas que eu vi na minha frente, que eu imaginei, coisas que eu imaginava que poderiam acontecer em S\u00e3o Paulo, numa cidade grande. Eram situa\u00e7\u00f5es afetivas, que me davam alegria ou tes\u00e3o ou tristeza ou medo. \u201cTrovoa\u201d \u00e9 um fluxo, n\u00e3o tem muita explica\u00e7\u00e3o, s\u00e3o cinco minutos de m\u00fasica sem repeti\u00e7\u00e3o. \u00c9 tipo uma balada, meio Bob Dylan. Quando eu escrevi, era um rap: pus no computador uma base, era um rap. Eu dividia como rap. Mesmo sendo branco, eu ouvi bastante rap, \u00e9 uma m\u00fasica paulistana e S\u00e3o Paulo sempre me interessou. Mas a\u00ed eu pensei que n\u00e3o podia fazer rap. Ainda n\u00e3o se usava a express\u00e3o \u201clugar de fala\u201d, mas eu n\u00e3o queria pagar de turista. Um branquelo fazendo rap? N\u00e3o. Ent\u00e3o meti uma harmonia e deixei ela bem l\u00edrica, cantei ela como um descendente de mediterr\u00e2neos. Deixei ela mais l\u00edrica, mais doce, quase piegas em algum momento. Eu n\u00e3o imaginava que n\u00e3o ia dar certo. Afinal, foi um disco que eu escrevi em paulistano, uma m\u00fasica que n\u00e3o tem refr\u00e3o, n\u00e3o tem quadratura. Gravei, tudo bem. Quando o disco saiu em 2007, senti que as pessoas se emocionavam, mas era o meu p\u00fablico pequeno, o giro do \u201cPra Marte\u201d foi pequeno. Eu sabia que era um bom repert\u00f3rio, gravado com simplicidade. Era uma banda tipo Stones: baixo, bateria e duas guitarras, com o Tonho Penhasco e o Luiz Waack, que tocaram com o Itamar Assump\u00e7\u00e3o em \u201cSampa Midnight\u201d. Eu fiz quest\u00e3o de ter os dois para soar bem paulistano, ainda que eu tenha feito eles ouvirem muito James Taylor para escapar daquele Itamar todo. Eu queria um disco pop-rock, meio folk, minha refer\u00eancia para aquele disco era meio Stones. E a\u00ed \u201cTrovoa\u201d ganhou vida. A cena indie veio pin\u00e7ar essa m\u00fasica e ressignificou ela. Eu escrevi sobre Santa Cec\u00edlia quando Santa Cec\u00edlia ainda n\u00e3o era essa coisa. Tinha uma imagem na minha cabe\u00e7a, algu\u00e9m num bar em Santa Cec\u00edlia batendo a m\u00e3o num copo de cerveja. Quando eu era pequeno, eu morei no bairro, eu ia no sal\u00e3o de barbeiro no largo de Santa Cec\u00edlia, ia comprar brinquedo no Mappin. S\u00e3o cenas, s\u00e3o misturas e lembran\u00e7as. N\u00e3o sei, acho que \u201cTrovoa\u201d foi ressignificada por quem cantou e quem ouviu. \u00c9 uma m\u00fasica que fala de coisas cotidianas, fortes. E tem uma coisa sobre a psique da gente: \u00e9 uma m\u00fasica com um esp\u00edrito meio assim, \u201ceu sou legal, mas sou um idiota tamb\u00e9m. Ok, eu sou um idiota, mas eu mere\u00e7o o melhor. Claro, todo mundo tem que ser feliz, mesmo que voc\u00ea seja um cretino. Mesmo que voc\u00ea n\u00e3o saiba fazer, voc\u00ea faz. E a\u00ed quando voc\u00ea menos espera, a luz aparece\u201d. \u201cTrovoa\u201d \u00e9 isso: tentativa e erro, acerto, ela \u00e9 muito sincera, muito simples. \u00c9 um texto de palavras de m\u00fasica comum, de r\u00e1dio, na boca de um cara que tem uma caneta mais louca, como a minha. N\u00e3o tenho muita explica\u00e7\u00e3o para \u201cTrovoa\u201d, embora eu tenho te dado um monte de explica\u00e7\u00f5es. Acho que ela deve ter expressado coisas que eu mesmo n\u00e3o sei bem, que o meu inconsciente colocou l\u00e1, mas ela bateu realmente nessa gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_68467\" aria-describedby=\"caption-attachment-68467\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-68467 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"505\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/mauricio3-300x202.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-68467\" class=\"wp-caption-text\"><em>&#8220;Pra Onde Que Eu Tava Indo&#8221;, de 2014 e &#8220;Outono No Sudeste&#8221;, de 2018\u00a0<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou sobre \u201clugar de fala\u201d e isso me leva a uma pergunta que sempre quis te fazer. Como voc\u00ea olha para o nome Os Mulheres Negras hoje?<\/strong><br \/>\nOlha, \u00e9 complicado. Quando a gente criou o nome da banda, tinha muito a ver com o fato de que a minha gera\u00e7\u00e3o dos anos 1980 era muito tribut\u00e1ria da m\u00fasica negra. N\u00f3s, Skowa e a M\u00e1fia, Luni, Lagoa 66, todo mundo ouvia muito Prince, James Brown, Marvin Gaye, Afrika Bambaatta. Era um nome que parecia natural para o Mulheres. Dois branquelos, era um nome nadav\u00ea, mas era uma \u00e9poca de nomes loucos para as bandas: Paralamas do Sucesso, B\u00edquini Cavad\u00e3o\u2026 Era algo casual. A gente viu o nome na lombada de um livro, gostou, pronto. Era um mundo mais solto, mais frouxo, as pautas n\u00e3o tinham entrado em pauta ainda. Hoje, acho o nome complicado. As pautas s\u00e3o corret\u00edssimas e o mundo vai ter que se transformar. As piadas v\u00e3o ser diferentes. As pessoas v\u00e3o se referir \u00e0s outras de uma maneira menos agressiva, preconceituosa. O mundo est\u00e1 em transforma\u00e7\u00e3o e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para o mal, \u00e9 para o bem tamb\u00e9m. Vamos ter que achar outra soltura para lidar com quem \u00e9 diferente da gente. Estamos em guerra com conceitos, com certezas, com a ideia de que h\u00e1 apenas dois g\u00eaneros, guerra com o branco ser hegem\u00f4nico. \u00c9 guerra com tudo isso, mesmo para quem ainda n\u00e3o sabe. Hoje, o Mulheres Negras teria outro nome. Eu n\u00e3o sei, para mim \u00e9 um haikai, mas posso abrir a boca aqui e algu\u00e9m dizer que sou racista. H\u00e1 alguns anos, o Mulheres fez uns shows e algu\u00e9m peitou a gente na rede social, dizendo que era apropria\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o somos mulheres nem negras. Quando isso aconteceu, nem o Andr\u00e9 nem o Agnaldo, nosso produtor, que \u00e9 o terceiro mulher, nenhum dos dois estava por perto. E eu respondi o seguinte: em princ\u00edpio, a gente n\u00e3o \u00e9 racista. Aparece num show, vem ver o que \u00e9, analisa, debate e conversa com a gente. Estamos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea achar que a gente t\u00e1 ofendendo, oprimindo, a gente muda o nome ou acaba com a banda. N\u00e3o queremos atrapalhar. Mas a\u00ed a pessoa apagou o post e a discuss\u00e3o murchou. Mas na minha cabe\u00e7a, essa discuss\u00e3o n\u00e3o acabou, eu n\u00e3o sei mesmo. Hoje, o Mulheres n\u00e3o chamaria assim, seguramente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra curiosidade que eu sempre quis saber \u00e9 sobre as m\u00fasicas que voc\u00ea fez para a trilha do \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/02\/03\/entrevista-bruno-capelas-fala-sobre-o-castelo-ra-tim-bum\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Castelo R\u00e1-Tim-Bum<\/a>\u201d. S\u00e3o m\u00fasicas para o universo infantil, mas n\u00e3o s\u00f3 para as crian\u00e7as. Como \u00e9 compor esse tipo de trabalho?<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea matou uma charada a\u00ed. N\u00e3o sou especialista em crian\u00e7a, mas tive tr\u00eas filhos. Pela minha profiss\u00e3o, eu viajei muito, mas tamb\u00e9m fiquei muito em casa. Minha mulher assalariada ia trabalhar e eu ficava cuidando das crian\u00e7as. Eu levei muito no parque, troquei muita fralda, sei pegar, curar, dar de mamar, dar banho, conversar quando a crian\u00e7a chora, contar hist\u00f3ria. Fui pai tr\u00eas vezes full time. Tive que conversar com crian\u00e7a, e me enche o saco historinha piegas de crian\u00e7a, a borboletinha amarela. \u00c9 legal, claro, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Crian\u00e7a gosta de maluquice! Minhas letras para o \u201cCastelo\u201d s\u00e3o um pouco malucas, o \u201cCastelo\u201d j\u00e1 era maluco. Peguei carona e fui pop, entrei nessas brincadeiras, meio tresloucadas, jogos de palavras. \u00c0s vezes voc\u00ea fala uma coisa esquisita, \u201co caminh\u00e3o voou e caiu na cabe\u00e7a da pulga\u201d, e a crian\u00e7a d\u00e1 risada com isso. Acho que \u00e9 legal, tem muita produ\u00e7\u00e3o bacana para crian\u00e7a, o \u201cCastelo\u201d, do Palavra Cantada para c\u00e1 teve muita coisa boa. E muito da minha forma\u00e7\u00e3o musical veio dos Disquinhos dos anos 1950 e 1960, eu ouvi tudo aquilo ali, era o Braguinha, o Guerra Peixe, o Radam\u00e9s Gnatalli, era demais. Al\u00e9m disso, tem uma coisa que me interessa demais: deixar umas mensagens cifradas para os adultos, um feeling de escrever para a crian\u00e7a e para o adulto. Das quatro letras que eu escrevi pro \u201cCastelo\u201d, \u201cMorgana\u201d \u00e9 a que mais fala para o adulto, que se o cara ouvir toma um chacoalh\u00e3o. At\u00e9 porque quase sempre os pais est\u00e3o ouvindo junto, ent\u00e3o j\u00e1 que eles est\u00e3o ali, toma uma casca de banana tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para fechar, Maur\u00edcio, quais s\u00e3o os planos de 2022? Botar o \u201cMicro\u201d na estrada, deixar \u201cPan y Leche\u201d obsoleta de novo\u2026?<\/strong><br \/>\nQueremos deixar \u201cPan y Leche\u201d obsoleta de novo. Queremos que o Brasil tenha um presidente que a gente n\u00e3o precise pedir nada para ele. Que a gente tenha um governo que se preocupe com a popula\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 assuma pensando em erradicar a pobreza, pensando em respeitar opini\u00f5es diferentes. Vamos tornar o dia a dia do Brasil mais gentil, mais justo. O governo que a gente vive agora \u00e9 um pesadelo, mas eu n\u00e3o acho que ele vem do nada, n\u00e3o. \u00c9 um processo. Se pegar o Brasil de 1500 para c\u00e1, ele corre para o lado da injusti\u00e7a e da viol\u00eancia. Ent\u00e3o sim, vamos tentar fazer \u201cPan Y Leche\u201d obsoleta. E n\u00e3o \u00e9 que eu quero levar o \u201cMicro\u201d para estrada, eu quero voltar com ele para a estrada, porque esse \u00e9 um disco de estrada. Eu e o Tonho estamos ensaiando, falei pra ele esses dias: \u201ca gente precisa fazer aquelas viagens terrestres da gente. S\u00e3o Carlos via Piracicaba e Rio Claro, sabe?\u201d E na pandemia, meio sem querer, eu escrevi muito para me desafogar, porque eu estava muito angustiado. Eu vi que eu tenho repert\u00f3rio pronto para um autoral, j\u00e1 estou trabalhando alguma coisa, mas sou lento com isso. Ent\u00e3o em 2023, talvez, venha a\u00ed um trabalho autoral. Eu n\u00e3o sei como eu vou fazer, porque eu t\u00f4 sem grana, n\u00e3o vai ser um trabalho pequeno que nem o \u201cMicro\u201d, vou precisar de banda. Talvez eu lance cada faixa como um single e cada uma tenha uma forma\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 isso, n\u00e3o tem muito plano. \u00c9 botar o autoral pra andar e o \u201cMicro\u201d na estrada, num pa\u00eds livre.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trovoa - Tim Bernardes ft. Mauricio Pereira\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/V--f_18UPVc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Pra Marte - Maur\u00edcio Pereira, Sarau El\u00e9trico, jan22.\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kU6tnyDNKyQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mauricio Pereira, #outonoMICRO no #mOno_festival.\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9YvG8kxfRT0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@noacapelas<\/a>) \u00e9 jornalista. Apresenta o\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/indieeldorado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>, na Eldorado FM, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Raios-trov%C3%B5es-hist%C3%B3ria-fen%C3%B4meno-R%C3%A1-Tim-Bum\/dp\/8532311385\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Raios e Trov\u00f5es \u2013 A hist\u00f3ria do fen\u00f4meno Castelo R\u00e1-Tim-Bum<\/a>\u201d, editado pela Summus Editorial. 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