{"id":68380,"date":"2022-08-08T02:09:26","date_gmt":"2022-08-08T05:09:26","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=68380"},"modified":"2022-09-24T01:54:33","modified_gmt":"2022-09-24T04:54:33","slug":"entrevista-nobat-fala-sobre-mestico-um-disco-para-reconectar-raizes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/08\/entrevista-nobat-fala-sobre-mestico-um-disco-para-reconectar-raizes\/","title":{"rendered":"Entrevista: Nobat fala sobre &#8220;MESTI\u00c7O&#8221;, um disco para reconectar ra\u00edzes"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Natural de Belo Horizonte, Nobat \u00e9 um artista que completa em 2022 uma d\u00e9cada de bons servi\u00e7os prestados \u00e0 m\u00fasica. Em constante evolu\u00e7\u00e3o, o artista promove, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/06\/entrevista-luan-nobat\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dos primeiros EPs<\/a> passando pelos \u00e1lbuns \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/12\/02\/entrevista-nobat-fala-sobre-o-novato\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Novato\u201d<\/a> e \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/11\/22\/faixa-a-faixa-estacao-cidade-baixa-nobat\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Esta\u00e7\u00e3o Cidade Baixa<\/a>\u201d, um exerc\u00edcio instigante de transforma\u00e7\u00e3o sonora e po\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivendo o que talvez seja a melhor fase de sua carreira, Nobat acaba de lan\u00e7ar o ambicioso \u201c<a href=\"https:\/\/ingrv.es\/mestico-t8c-k\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">MESTI\u00c7O<\/a>\u201d (Under Discos), um \u00e1lbum que promove uma ode a esperan\u00e7a, caracter\u00edstica necess\u00e1ria para os tempos tenebrosos como estamos vivendo, envolvida entre a ancestralidade de ritmos africanos que convivem em plena harmonia com a m\u00fasica latina e a brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com produ\u00e7\u00e3o de Barral Lima, o disco foi gravado no est\u00fadio Ultra Music em BH e mixado \/ masterizado por Fernando Sanches, no lend\u00e1rio est\u00fadio paulistano El Rocha. Conta, ainda, com a colabora\u00e7\u00e3o de 20 musicistas, e participa\u00e7\u00f5es especiais de, entre outros, BNeg\u00e3o, Elza Soares (em uma das \u00faltimas grava\u00e7\u00f5es feitas por ela antes de falecer), Di Souza. Lulis e Mariana Cavanellas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista concedida por e-mail, Nobat fala sobre as inten\u00e7\u00f5es alimentadas com o novo disco, sua rela\u00e7\u00e3o com a africanidade, participa\u00e7\u00f5es especiais, a parceria com Di Souza (do bloco Ent\u00e3o Brilha!), a import\u00e2ncia de se manter a esperan\u00e7a de novos tempos viva, mercado independente, planos futuros e muito mais. Leia abaixo:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nobat - Me Deixa Sambar feat. Elza Soares &amp; BNeg\u00e3o (Clipe Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-fq08ea20AQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Num exerc\u00edcio inevit\u00e1vel de compara\u00e7\u00e3o, \u201cMESTI\u00c7O\u201d mostra, a meu ver, um novo Nobat. O seu interesse e pesquisa com os ritmos de matriz africana seguem ali presentes, mas com uma roupagem ainda mais pop e ensolarada. Nesse sentido, quais s\u00e3o as suas inten\u00e7\u00f5es com o novo trabalho?<\/strong><br \/>\nCompus esse disco num momento muito dif\u00edcil pra mim e pra muitas pessoas que botam f\u00e9 no Brasil, apesar da sua hist\u00f3ria fundada pela viol\u00eancia, pela viola\u00e7\u00e3o, pela invas\u00e3o. Era 2018 e o crescimento da onda conservadora se confirmava nas elei\u00e7\u00f5es daquele ano levando aos mais altos cargos do poder p\u00fablico os representantes mais leg\u00edtimos do racismo, da LGBTQIA+fobia, da misoginia, do negacionismo e de tudo que desmente o Brasil no qual acredito, que \u00e9 um Brasil que reconhece a complexidade da sua hist\u00f3ria, a necessidade das repara\u00e7\u00f5es sociais que nunca foram feitas da maneira justa e s\u00e9ria para que possamos tentar recuperar o m\u00ednimo de dignidade enquanto povo, enquanto possibilidade de na\u00e7\u00e3o. Acredito num Brasil que percebe em sua ancestralidade negra e ind\u00edgena, que s\u00e3o a base estrutural da nossa riqu\u00edssima cultura, a chave para um nosso futuro. Um Brasil que celebra sua principal voca\u00e7\u00e3o: a diversidade. \u00c9 uma coisa que podemos e devemos entregar como li\u00e7\u00e3o ao mundo. Compus m\u00fasicas para celebrar esse Brasil que idealizei, que poderia ter sido e nunca foi, atrav\u00e9s de sua m\u00fasica que a gente sabe de onde vem. Foi uma forma de salvar pra mim esse Brasil poss\u00edvel, me reconectar \u00e0s minhas ra\u00edzes e tamb\u00e9m oferecer \u00e0s pessoas que estavam por perto um pouco de coragem, de for\u00e7a, de descanso, de energia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda abordando a quest\u00e3o ligada a africanidade, como se deu a rela\u00e7\u00e3o com esse universo? E como, a partir da africanidade, voc\u00ea encontrou seu fazer art\u00edstico?<\/strong><br \/>\nEste \u00e9 um \u00e1lbum que celebra a nossa m\u00fasica e conta um pouco da minha hist\u00f3ria. A m\u00fasica brasileira, na tradi\u00e7\u00e3o da MPB e dos ritmos populares, \u00e9 essencialmente negra e ind\u00edgena, com contribui\u00e7\u00f5es da m\u00fasica portuguesa, \u00e1rabe e de outros lugares do mundo. Por essa raz\u00e3o, \u00e9 n\u00edtida essa presen\u00e7a africana no \u00e1lbum, como tamb\u00e9m \u00e9 forte a presen\u00e7a latina e nordestina. Foi uma forma de celebrar minhas ra\u00edzes e de estabelecer uma conex\u00e3o mais profunda com meu pr\u00f3prio universo e minha identidade. Essa musicalidade percorre meu corpo com muita naturalidade, me senti muito \u00e0 vontade para desenvolver minha autoralidade neste terreno, nada foi muito racional, a elabora\u00e7\u00e3o veio depois que fizemos tudo e revelou muita coisa, mas ao longo do processo, da composi\u00e7\u00e3o das can\u00e7\u00f5es \u00e0 constru\u00e7\u00e3o dos arranjos, tudo se deu com muita fluidez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O \u00e1lbum re\u00fane um time diversificado de feats que impressiona pela diversidade. Como se deu o convite para esse grande time e quais as contribui\u00e7\u00f5es foram trazidas desde o esbo\u00e7o inicial ao resultado final?<\/strong><br \/>\nO \u00e1lbum conta com a contribui\u00e7\u00e3o de mais de 20 m\u00fasicos e musicistas das mais diversas gera\u00e7\u00f5es, sotaques, estilos e esse era um desejo essencial do projeto. Se eu vou me dedicar a celebrar a m\u00fasica brasileira e nossa cultura, imposs\u00edvel faz\u00ea-lo de outra forma. N\u00f3s somos um povo diverso e \u00e9 por essa raz\u00e3o que nossa cultura \u00e9 t\u00e3o rica e t\u00e3o potente. Algumas ideias de colabora\u00e7\u00f5es surgiram desde a composi\u00e7\u00e3o nua e crua, como foi o caso da Elza em \u201cMe Deixa Sambar\u201d: quando terminei de escrever a can\u00e7\u00e3o, imediatamente pensei nela. Foi um longo trajeto at\u00e9 chegarmos ao \u201csim\u201d que a rainha me deu, que foi uma ben\u00e7\u00e3o c\u00f3smica, mas ela sempre esteve ali. J\u00e1 a Mariana Cavanellas por exemplo, que participa na faixa \u201cAqueles Homens\u201d, entrou aos 45 minutos do segundo tempo, depois que o disco j\u00e1 estava fechado, inclusive. Mari \u00e9 uma pessoa e artista com quem me conectei fortemente por volta de 2018, ela foi uma das primeiras pessoas a ouvir a can\u00e7\u00e3o. Sempre tive imenso respeito por ela como artista e v\u00ea-la se emocionar por esta m\u00fasica me emocionou tamb\u00e9m, dali nasceu a vontade de convid\u00e1-la pra essa parceria, por\u00e9m os caminhos da vida nos levaram \u00e0 lugares diferentes, veio a pandemia, eu me mudei de cidade, ela se tornou m\u00e3e e n\u00f3s nos afastamos. Nos reconectamos no seu anivers\u00e1rio em maio deste ano e o desejo de t\u00ea-la comigo nessa can\u00e7\u00e3o foi reacendido. Convidei ela em uma chamada de v\u00eddeo e em menos de uma semana est\u00e1vamos em est\u00fadio e em set, reabrindo a m\u00e1ster do disco para encaixar a voz dela e realizando uma viagem que s\u00f3 a arte \u00e9 capaz de realizar. Lulis que \u00e9 minha companheira participou de todos os meus trabalhos autorais, BNeg\u00e3o \u00e9 um grande e querido parceiro com quem sempre quis me conectar, alguns m\u00fasicos e musicistas que se somaram ao projeto como Marlon Sette foram fruto do que perceb\u00edamos de pot\u00eancia conforme os arranjos iam chegando. Foi tudo muito natural e diverso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nobat  feat. Mariana Cavanellas - Aqueles Homens (Clipe Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Fs1VOIVN7rs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No disco anterior, &#8220;Esta\u00e7\u00e3o Cidade Baixa&#8221;, voc\u00ea j\u00e1 tinha evidenciado como manifesta\u00e7\u00f5es culturais de BH (como o carnaval local) o transformaram pessoalmente. Nesse sentido, acredito que a faixa &#8220;Fortaleza&#8221; (parceria com o bloco carnavalesco Ent\u00e3o, Brilha!) soe como uma can\u00e7\u00e3o sobre autoafirma\u00e7\u00e3o e o amor, mas, tamb\u00e9m, seja uma forma de prestar homenagem a festa popular que cresceu de maneira exponencial nos \u00faltimos smod por aqui. Como foi o processo de composi\u00e7\u00e3o dessa faixa?<\/strong><br \/>\nQuando me perguntam sobre o que est\u00e1 acontecendo em Belo Horizonte eu sempre respondo: \u00e9 resultado de uma nova cidade que ressurgiu a partir de movimentos como a Praia da Esta\u00e7\u00e3o, o carnaval de rua e de luta de BH e o Duelo de MCs. Se a gente observar com carinho, tudo que est\u00e1 ultrapassando as fronteiras das montanhas de Minas s\u00e3o filhotinhos destes acontecimentos monumentais que tive a chance de presenciar, reverenciar e viver. O Ent\u00e3o, Brilha! pra mim, que amo carnaval, \u00e9 um acontecimento delirante, a alegoria ut\u00f3pica, a pot\u00eancia de acender as luzes das pessoas. De alguma forma, este disco bebe das mesmas fontes e se encontra com o bloco em lugares b\u00e1sicos e conceituais, do Maiak\u00f3vsky \u00e0 Caetano. Curiosamente o \u00faltimo carnaval que participei, em 2020, foi o mais marcante e bonito de todos, em cima do trilho do Brilha, foi fascinante, trabalhei junto com eles em alguns carnavais. Quando compus essa faixa, escrevi a letra em homenagem a um querido amigo, Marcelo Diniz, poeta, parceiro de composi\u00e7\u00e3o de \u201cC\u00e1rcere\u201d, que naquele momento estava se mudando para Fortaleza (CE). Fiz essa can\u00e7\u00e3o pra desejar for\u00e7a, coragem e pra que ele nunca se esquecesse da pessoa gigante que ele \u00e9. Pra que, naquele momento em que ele estaria longe dos amigos, dos amores, da fam\u00edlia, n\u00e3o deixasse que ningu\u00e9m reduzisse sua luz. Uma esp\u00e9cie de que nosso amor pr\u00f3prio \u00e9 nossa grande fortaleza, mas ao mesmo tempo uma brincadeira com o fato de agora esse amor estaria na capital do Cear\u00e1. \u00c9 uma m\u00fasica sobre acender a luz, sobre brilhar, naturalmente o Ent\u00e3o, Brilha! veio \u00e0 minha mente, assim como o Di Souza, um baita compositor que pra mim expressa a grandeza da arte nas mais amplas beiradas. \u00c9 uma artista sens\u00edvel e uma pessoa compromissada com quest\u00f5es muito caras pro nosso tempo, que incentiva reflex\u00f5es fundamentais nas pessoas que est\u00e3o por perto. Foi uma bel\u00edssima parceria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra faixa que chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 &#8220;Jovem&#8221; que funciona, de maneira pontual, como um guia de sobreviv\u00eancia para a juventude contempor\u00e2nea. Qual a import\u00e2ncia de transmitir essa mensagem em tempos turbulentos como os nossos? E ainda: como o jovem Nobat de outrora v\u00ea o cen\u00e1rio de hoje?<\/strong><br \/>\nSempre digo nos shows que essa faixa \u00e9 dedicada a jovens de todas as idades. At\u00e9 porque, pra mim, a juventude \u00e9 um estado de esp\u00edrito acima de qualquer coisa. Ningu\u00e9m neste pa\u00eds \u00e9 mais jovem que Tom Z\u00e9. E a faixa \u00e9 outra composi\u00e7\u00e3o feita em homenagem a um amigo querido que estava passando por um momento muito dif\u00edcil. Um cara da maior grandeza tendo sua cabe\u00e7a abaixada \u00e0 for\u00e7a pelas injusti\u00e7as desse mundo que muitas vezes fazem a gente desacreditar de quem somos, da pot\u00eancia que carregamos e do mundo de coisas que podemos fazer. Acabou se tornando uma mensagem a todas as pessoas que est\u00e3o passando por momentos dif\u00edceis, que perdem a cren\u00e7a de que \u00e9 poss\u00edvel mudar a rota, mudar o rumo, fazer diferente. Temos tempo, temos for\u00e7a, amanh\u00e3 \u00e9 sempre um novo dia e as coisas podem melhorar. Isso deve ser lembrado, das mais diversas formas, nas mais diversas vozes, porque se a gente n\u00e3o botar f\u00e9, existe um lado sombrio da sociedade, que vive da explora\u00e7\u00e3o das luzes, da usurpa\u00e7\u00e3o da for\u00e7a da vida, da for\u00e7a de trabalho, da terra, que vence. \u00c9 necess\u00e1rio reafirmar a esperan\u00e7a como quem reabastece a import\u00e2ncia da luta, mas como diz S\u00e9rgio Perer\u00ea: a gente luta \u00e9 pra ter paz, ningu\u00e9m quer viver lutando. O cen\u00e1rio hoje \u00e9 dif\u00edcil demais, principalmente pras pessoas jovens, sens\u00edveis, novas ou velhas. Principalmente pras pessoas negras, trans, pras mulheres, mas citando Kastrup, estamos num ponto de muta\u00e7\u00e3o importante, \u00e9 o fim de uma era, o decl\u00ednio de um modelo e todo decl\u00ednio \u00e9 tenebroso, horripilante, pois \u00e9 tamb\u00e9m um momento de reconstru\u00e7\u00e3o das refer\u00eancias, dos caminhos. Vivemos muitas consequ\u00eancias dessa reformula\u00e7\u00e3o social, inclusive existem j\u00e1 novas enfermidades sociais advindas da perda de refer\u00eancia, do colapso, da dificuldade do indiv\u00edduo se reconhecer no social pelo desmoronamento que estamos vivendo dos modelos antigos. Ao mesmo tempo, concomitantemente, novas ideias v\u00e3o brotando e aos poucos se estabelecendo. Estamos vivendo o come\u00e7o de um novo mundo. \u00c9 por ele que devemos lutar. \u00c9 por ele que vale a pena gastar a onde e botar f\u00e9. \u00c9 pelo futuro. A juventude precisa morar em alguma ideia de futuro, em alguma utopia de um mundo melhor, em algum sonho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cMESTI\u00c7O\u201d \u00e9 um \u00e1lbum que soa ainda mais amplo musicalmente gra\u00e7as a um grande time de m\u00fasicos de apoio, que ajudaram a criar uma am\u00e1lgama r\u00edtmica que se destaca. Para tanto, como foi o processo de composi\u00e7\u00e3o do disco? Quais foram os desafios (e prazeres) reunir um grande elenco para registrar cada faixa?<\/strong><br \/>\nO \u00faltimo compromisso que tive antes de entrar em isolamento social foi a grava\u00e7\u00e3o das guias (voz e viol\u00e3o) do \u00e1lbum em meados de mar\u00e7o de 2020. Tive que deixar ali todas as ideias, as expectativas e levar pra casa muito medo, ang\u00fastia, frustra\u00e7\u00e3o, mas como eu n\u00e3o gosto de passar muito tempo nesses sentimentos, resolvi ressignificar as coisas e propus ao produtor musical do \u00e1lbum, Barral Lima, que na \u00e9poca estava isolado no Rio de Janeiro, que fiz\u00e9ssemos alguns estudos e experimentos \u00e0 dist\u00e2ncia pra encontrar o caminho est\u00e9tico do disco e amadurecer nossa vis\u00e3o sobre o trabalho at\u00e9 que fosse poss\u00edvel voltar ao est\u00fadio. Fizemos alguns arranjos eletronicamente e fomos lapidando elemento por elemento, usando o tempo a nosso favor. Conforme as m\u00fasicas iam ganhando forma, pens\u00e1vamos na banda: essa faixa \u00e9 a cara deste baterista, isso aqui tem que ser feito por aquela percussionista, que tal convidar aquela pessoa pra esse piano. Dessa forma, a primeira metade do disco foi sendo constru\u00edda e em agosto de 2020 conseguimos entrar ao est\u00fadio pra gravar pista a pista as quatro primeiras faixas (\u201cMesti\u00e7o\u201d, \u201cMenina Er\u00ea\u201d, \u201cJovem\u201d e \u201cMe Deixa Sambar\u201d). Naquela altura, j\u00e1 t\u00ednhamos um pouco mais de no\u00e7\u00e3o do que estava acontecendo, j\u00e1 sab\u00edamos nos cuidar de certa maneira, mas ainda assim havia medo e fomos muito cuidadosos, o que trouxe certa estranheza no primeiro momento, mas foi rolando. Quando entrou setembro, a situa\u00e7\u00e3o da pandemia j\u00e1 estava bem mais controlada se comparada aos est\u00e1gios anteriores, da\u00ed foi poss\u00edvel dar um novo passo: fazer algumas faixas ao vivo pra esquentar e tornar mais org\u00e2nico o trabalho. Pra isso fizemos um primeiro teste em \u201cAqueles Homens\u201d com D\u00e9bora Costa na percuss\u00e3o, Richard Neves no piano, Barral Lima no synth bass e eu na voz e viol\u00e3o. Arranjamos e gravamos a m\u00fasica em uma tarde numa das sess\u00f5es mais absurdas que j\u00e1 vivi na m\u00fasica. Foi simplesmente inacredit\u00e1vel. Dali pra frente, t\u00ednhamos certeza que o processo precisava seguir na pot\u00eancia dos encontros, do olho a olho, na quentura do ao vivo no est\u00fadio e gravamos as demais faixas com a banda formada por Adriano Campagnani no baixo, Leo Pires na bateria, D\u00e9bora Costa na percuss\u00e3o, Egler Bruno na guitarra, Barral Lima nos pianos el\u00e9tricos e eu na voz e viol\u00e3o. Os sopros foram gravados no Rio de Janeiro pelo naipe comandado pelo lend\u00e1rio Marlon Sette e finalizamos o \u00e1lbum em S\u00e3o Paulo, no Est\u00fadio El Rocha, com o querido Fernando Sanches. Muita gente, muita hist\u00f3ria, muita m\u00fasica. E n\u00e3o foi a primeira vez, acho que n\u2019\u201dO Novato\u201d teve tipo essa quantidade ou quase. Gosto de estar cercado de pessoas, especialmente essa galera deliciosa que a m\u00fasica faz a gente conhecer.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nobat - Menina Er\u00ea (Clipe Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jVPCa0jEJ9M?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O novo disco \u00e9, na ess\u00eancia, uma ode \u00e0 esperan\u00e7a. Quais s\u00e3o as suas motiva\u00e7\u00f5es que o guiaram para trazer mensagens desta estirpe, mesmo que os tempos atuais sejam de grande dificuldade?<\/strong><br \/>\nAcredito que \u00e9 justamente pelo fato das coisas estarem dif\u00edceis que surge a import\u00e2ncia de reafirmamos a esperan\u00e7a, a alegria como ferramenta pol\u00edtica, o encanto, por que \u00e9 nessas horas que corremos o maior risco de entrar em momentos ainda mais tr\u00e1gicos. Muito do que estamos vivendo \u00e9 resultado da falta de cren\u00e7a na vida, no mundo, nos caminhos da humanidade que falhou brutalmente na condu\u00e7\u00e3o de seus rumos, na tomada de decis\u00f5es, na formata\u00e7\u00e3o da nossa malha social. Se o Brasil acreditasse em si, na for\u00e7a e na pot\u00eancia do povo que somos, na riqueza da nossa cultura, jamais ter\u00edamos elegido o atual presidente da rep\u00fablica e outros canalhas que surfaram nessa onda conservadora extremista que assolou o mundo. \u00c9 claramente um momento de crise, de v\u00e1rias crises, e agora \u00e9 hora de tentar compreender possibilidades de novos caminhos. Como dizia o lend\u00e1rio Beto Sem Bra\u00e7o: \u201cn\u00f3s fazemos festa pra espantar a mis\u00e9ria\u201d. O Brasil sempre teve problemas graves que nunca resolveu, nunca lidou, mas estamos com os movimentos cada vez mais organizados, mais atentos, elaborando, sofisticando e popularizando novos conceitos, colaborando na amplia\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de seus pares. Acho que o pr\u00f3ximo passo \u00e9 implementar essa vis\u00e3o no campo das pol\u00edticas p\u00fablicas e talvez agora teremos chance de trazer o que de melhor foi constru\u00eddo em termos de vis\u00e3o nos \u00faltimos anos para o centro do debate e da pr\u00e1tica, que \u00e9 o mais importante. O futuro precisa ser feminino, precisar trazer novas corporalidades, precisa ter a grandeza filos\u00f3fica dos povos origin\u00e1rios, precisa do povo negro. Precisamos sair muito ainda das bolhas, mas vejo muita pot\u00eancia se acumulando e sendo constru\u00edda, aos poucos sendo compartilhada. N\u00e3o podemos esmaecer agora, de forma alguma, \u00e9 um momento hist\u00f3rico e decisivo, mundialmente falando e acho que todo mundo que tem algo a oferecer e contribuir precisa se movimentar, seja um artista, um ativista, pensadores, espiritualistas, tudo. \u00c9 hora de nos mantermos firmes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pude acompanhar, a dist\u00e2ncia, parte do processo de cria\u00e7\u00e3o do disco e \u00e9 interessante observar o qu\u00e3o complexo \u00e9 para que um trabalho da magnitude de &#8220;MESTI\u00c7O&#8221; nas\u00e7a. \u00c9 preciso uma aut\u00eantica for\u00e7a tarefa, de v\u00e1rias frentes, aconte\u00e7a. Como artista independente que \u00e9, gostaria que voc\u00ea falasse sobre as dificuldades que envolvem o processo em si.<\/strong><br \/>\nOs desafios de ser artista no Brasil sempre foram imensos e eles aumentam dependendo de quem voc\u00ea for. Aquela velha hist\u00f3ria: se voc\u00ea \u00e9 rico, branco, homem cis, etc, vai haver muito mais acesso do que se voc\u00ea for uma pessoa negra n\u00e3o-bin\u00e1ria da periferia. Eu ainda tenho in\u00fameros privil\u00e9gios e n\u00e3o posso reclamar, mas n\u00e3o posso dizer de forma alguma que \u00e9 f\u00e1cil porque n\u00e3o \u00e9. V\u00e1rios artistas como eu, tem ideias grandiosas e tudo que acontece \u00e9 a gente precisar ir mutilando nosso projeto, apequenando-o pra caber nas condi\u00e7\u00f5es que o mundo oferece. Neste momento ent\u00e3o, a coisa t\u00e1 completamente assombrosa. Sou mineiro e brasileiro fazendo disco num per\u00edodo \u00e9 que o canalha do Romeu Zema e o genocida do Bolsonaro est\u00e3o no poder, destruindo a cultura, a ci\u00eancia e a educa\u00e7\u00e3o desse pa\u00eds. Acho que a primeira coisa que Lula deveria fazer caso seja eleito, inclusive, seria declarar luto pelas mortes da Covid, pelas perdas inestim\u00e1veis de artistas como Milton Gon\u00e7alves, Aldir Blanc, Jo\u00e3o Gilberto, Beth Carvalho, Moraes Moreira e tantos outros que se foram e n\u00e3o tiveram sequer uma nota de luto. Isso \u00e9 a cara do que esse pa\u00eds vira na m\u00e3o de gente t\u00e3o nefasta. Foi dif\u00edcil, tive que abrir m\u00e3o de muitas ideias, mas como tamb\u00e9m sou teimoso e consegui muito apoio da minha fam\u00edlia, de v\u00e1rios amigos e parceiros do projeto, conseguimos fazer muito. Desejo dias melhores porque pode ser muito melhor!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E, por fim, quais s\u00e3o os planos futuros? O que voc\u00ea espera alcan\u00e7ar a partir do disco?<\/strong><br \/>\nAgora a ideia \u00e9 lan\u00e7ar o disco, circular bastante, \u00e9 um projeto que nasceu da solid\u00e3o e do desejo do reencontro, ent\u00e3o quero muitos palcos pelo Brasil e pelo mundo. Quero muito viabilizar o vinil do \u00e1lbum e lan\u00e7ar outros clipes, o disco foi concebido inicialmente como \u00e1lbum visual, tenho tudo pronto: roteiro, parceiros e colaboradores de todas as cinco regi\u00f5es do Brasil, com as viv\u00eancias e olhares mais diversos, pra gente fazer um puta filme usando o disco como trilha sonora. Quero alcan\u00e7ar pessoas, \u00e9 tudo que quero.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mesti\u00e7o\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-oZKSzasP6A?list=OLAK5uy_mIysf0Sg9KgbtC9is9IGU-uqWK02_YIT4\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-68381\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/NBT-20220609-P1-CAPAMESTICO-V10-1-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/NBT-20220609-P1-CAPAMESTICO-V10-1-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/NBT-20220609-P1-CAPAMESTICO-V10-1-copiar-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/NBT-20220609-P1-CAPAMESTICO-V10-1-copiar-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0 escreve no Scream &amp; Yell desde 2014. A foto que abre o texto \u00e9 de Felipe Palma<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nessa conversa, Nobat fala sobre as inten\u00e7\u00f5es alimentadas com o novo disco, sua rela\u00e7\u00e3o com a africanidade, participa\u00e7\u00f5es especiais, a import\u00e2ncia de se manter a esperan\u00e7a viva, mercado independente, planos futuros e muito mais.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/08\/entrevista-nobat-fala-sobre-mestico-um-disco-para-reconectar-raizes\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":68382,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[3020,986],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68380"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=68380"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68380\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":68384,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68380\/revisions\/68384"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/68382"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=68380"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=68380"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=68380"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}