{"id":68048,"date":"2022-07-28T02:20:06","date_gmt":"2022-07-28T05:20:06","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=68048"},"modified":"2022-08-26T12:43:39","modified_gmt":"2022-08-26T15:43:39","slug":"entrevista-daniel-rezende-fala-dos-seus-livros-sobre-rock-alternativo-rock-feminino-e-neil-young","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/07\/28\/entrevista-daniel-rezende-fala-dos-seus-livros-sobre-rock-alternativo-rock-feminino-e-neil-young\/","title":{"rendered":"Entrevista: o escritor e cr\u00edtico musical Daniel Rezende fala dos seus livros sobre rock alternativo, rock feminino e Neil Young"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100016802896941\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Luciano Ferreira<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Doutor em Ci\u00eancias Sociais, professor da Universidade Federal de Lavras e pesquisador das \u00e1reas de Cultura e Consumo, Teoria Social do Gosto e Tribos Musicais, escritor, resenhista e dono do perfil <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/altrockbrasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">AltRock Brasil <\/a>no Instagram, Daniel Rezende \u00e9 um cara que n\u00e3o s\u00f3 respira m\u00fasica como est\u00e1 sempre disposto a falar sobre o assunto. Ele se diz um apaixonado pelo rock e \u00e9 autor de tr\u00eas livros que s\u00e3o verdadeiro deleite para quem curte ler resenhas, quer se aprofundar na cultura pop e conhecer mais sobre artistas e \u00e1lbuns: \u201cRock Alternativo: 50 \u00c1lbuns Essenciais\u201d (2018), \u201cRock Feminino\u201d (2019), e \u201cNeil Young: Um G\u00eanio em 50 Can\u00e7\u00f5es\u201d (2020).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Rock-alternativo-50-%C3%A1lbuns-essenciais-ebook\/dp\/B079K2GHVC\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rock Alternativo: 50 \u00c1lbuns Essenciais<\/a>\u201d (147 p\u00e1ginas) foi o primeiro livro de Daniel, que faz um apanhado, ao longo de cinco d\u00e9cadas, de \u00e1lbuns considerados fundamentais para entender o rock alternativo, com foco nos EUA e na Inglaterra, mas sem esquecer o Brasil. Na lista, discos de Fellini, Wire, Husker Du, Pixies, Sonic Youth e Joy Division, entre outros. \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/gp\/product\/B07SYL8VMW\/ref=dbs_a_def_rwt_hsch_vapi_tkin_p1_i2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rock Feminino<\/a>\u201d (190 p\u00e1ginas) busca apresentar um painel com algumas das principais artistas femininas no rock desde a d\u00e9cada de 60 at\u00e9 os dias atuais. Mais que simplesmente elencar uma s\u00e9rie de \u00e1lbuns, a proposta do livro \u00e9 mostrar a import\u00e2ncia e contribui\u00e7\u00e3o das mulheres dentro de um g\u00eanero musical marcadamente masculino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cantor e guitarrista canadense Neil Young \u00e9 o tema do terceiro livro de Daniel. Em \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/gp\/product\/B08QDV645P\/ref=dbs_a_def_rwt_hsch_vapi_tkin_p1_i1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Neil Young: Um G\u00eanio em 50 Can\u00e7\u00f5es<\/a>\u201d (137 p\u00e1ginas), Rezende seleciona 50 m\u00fasicas consideradas as mais influentes e representativas do &#8220;padrinho do grunge&#8221; num trabalho de imers\u00e3o na vasta obra do artista, sempre com refer\u00eancias interessantes. Em fase de prepara\u00e7\u00e3o de seu quarto livro, Daniel nos conta em primeira m\u00e3o sobre o tema desse novo trabalho e tamb\u00e9m discute sobre cr\u00edtica musical, formatos de m\u00eddia, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do rock e, claro, sobre o rock alternativo e Neil Young, um de seus \u00eddolos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-68050\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/danielrezende2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/danielrezende2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/danielrezende2-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/danielrezende2-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Daniel, voc\u00ea lan\u00e7ou \u201cRock Alternativo: 50 \u00e1lbuns essenciais\u201d, seu primeiro livro, em 2018. Quando voc\u00ea teve a ideia do livro j\u00e1 escrevia resenhas? Como \u00e9 que foi isso?<\/strong><br \/>\nEu sempre tive vontade de escrever sobre m\u00fasica. Pensei em ter um blog h\u00e1 uns dez anos atr\u00e1s, mas n\u00e3o rolou. Em 2016, eu comecei a escrever algumas resenhas de \u00e1lbuns no intuito de futuramente public\u00e1-las em algum formato. Mas foram poucas. A decis\u00e3o de escrever o livro foi meio repentina, ao ver as possibilidades de auto publica\u00e7\u00e3o pela ferramenta Kindle Direct Publishing, da Amazon. Como sempre fui aficionado por rock alternativo, ent\u00e3o a escolha da tem\u00e1tica do primeiro livro foi natural. N\u00e3o poderia existir outro tema com o qual eu tivesse mais familiaridade. Em tr\u00eas meses eu j\u00e1 tinha uma primeira vers\u00e3o do livro pronta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sendo um cara que escreve resenhas, voc\u00ea \u00e9 tamb\u00e9m um leitor de resenhas? E para al\u00e9m das resenhas, quais leituras\/autores te atraem?<\/strong><br \/>\nMinha leitura di\u00e1ria \u00e9 de resenhas. Desde a adolesc\u00eancia eu dediquei grande parte do meu tempo livre a colecionar revistas de m\u00fasica como a Bizz. Quando dava, eu comprava revistas internacionais como a New Musical Express, Mojo e Uncut. Com o crescimento da internet, tudo ficou mais f\u00e1cil, e passei a acompanhar os sites dessas revistas e de publica\u00e7\u00f5es exclusivamente virtuais como os sites Pitchfork, Stereogum, Paste Magazine, Brooklyn Vegan, The Quietus, Miojo Indie, Blog do Barcinski, Scream &amp; Yell, e v\u00e1rios outros. Isso foi essencial na minha forma\u00e7\u00e3o. E leio muitos livros sobre m\u00fasica tamb\u00e9m. Eu tenho facilidade de escrever, pois sou professor universit\u00e1rio e pesquisador da \u00e1rea de Sociologia do Consumo. S\u00f3 que a linguagem com a qual eu estou acostumado \u00e9 muito mais t\u00e9cnica, e eu tive que me adaptar a um estilo mais jornal\u00edstico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acredita que o p\u00fablico que consome m\u00fasica ainda se interessa em ler cr\u00edticas musicais\/resenhas ou elas servem apenas para m\u00fasicos e cr\u00edticos?<\/strong><br \/>\nAinda acho que existe um p\u00fablico que consome resenhas escritas e tamb\u00e9m no formato de v\u00eddeo. S\u00f3 que as coisas mudaram muito. Antigamente, era muito dif\u00edcil obter informa\u00e7\u00f5es sobre um artista que n\u00e3o fossem oriundas de um cr\u00edtico musical. J\u00e1 hoje em dia, as redes sociais e os servi\u00e7os de streaming cumprem tamb\u00e9m um papel de curadoria. Se esse papel \u00e9 bem feito e se isso contribui para a forma\u00e7\u00e3o musical j\u00e1 \u00e9 uma outra discuss\u00e3o. Para quem j\u00e1 tem uma bagagem desenvolvida ao longo dos anos, o streaming pode facilitar muito a busca por novidades e o garimpo por raridades, mas para quem n\u00e3o se engaja na busca por informa\u00e7\u00f5es o streaming pode ser limitante. O ouvinte n\u00e3o decide por si mesmo e n\u00e3o desenvolve compet\u00eancia cultural para refinar o seu gosto, ele simplesmente ouve de forma passiva e com baixo envolvimento. A rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica fica superficial demais, pois o ouvinte n\u00e3o conhece a fundo a hist\u00f3ria do artista, o contexto da concep\u00e7\u00e3o de um \u00e1lbum, as influ\u00eancias. Isso pra mim n\u00e3o funciona. (\u201cBig Time\u201d) O novo \u00e1lbum da Angel Olsen, por exemplo, que foi lan\u00e7ado m\u00eas passado. Saber que ela comp\u00f4s as m\u00fasicas ap\u00f3s ter decidido assumir sua homossexualidade e ter perdido seus dois pais num intervalo de meses faz toda a diferen\u00e7a para apreciar o drama que ela vivenciou e a carga emocional presentes nas can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que \u201ctodo cr\u00edtico musical \u00e9 um m\u00fasico frustrado\u201d?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o posso generalizar, mas no meu caso a frase se encaixa perfeitamente. Eu tentei ser m\u00fasico durante a \u00e9poca de faculdade, mas minhas limita\u00e7\u00f5es s\u00e3o imensas. E n\u00e3o me dediquei com a intensidade necess\u00e1ria para super\u00e1-las.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-68052 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/rockalternativo.jpg\" alt=\"\" width=\"408\" height=\"612\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/rockalternativo.jpg 408w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/rockalternativo-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 408px) 100vw, 408px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cUma era de muita informa\u00e7\u00e3o e pouca profundidade\u201d, est\u00e1 l\u00e1 no pref\u00e1cio do \u2018Rock Alternativo\u201d. Qual a tua inten\u00e7\u00e3o com essa frase?<\/strong><br \/>\nTem muito a ver com o que eu falei na terceira pergunta. Em todos os ramos da vida, a facilidade atual de obtermos informa\u00e7\u00e3o criou uma armadilha dif\u00edcil de escapar. \u00c9 l\u00f3gico que isso tem um lado positivo, \u00e9 ineg\u00e1vel. No entanto, as pessoas tendem a n\u00e3o se engajar como antigamente na busca por mais conhecimento. Elas preferem um resumo, um post breve, um v\u00eddeo de alguns minutos, e formam sua opini\u00e3o com base nisso. As redes sociais s\u00e3o um mundo t\u00e3o complexo que a gente prefere se inserir em bolhas e, consequentemente, n\u00e3o termos acesso a nada que destoe ou desafie nossas cren\u00e7as. \u00c9 um paradoxo dif\u00edcil de resolver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 poss\u00edvel perceber certo rigor, no sentido da concis\u00e3o em teus textos. Esse rigor em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cobjeto de estudo\u201d, tem a ver com a tua liga\u00e7\u00e3o com o mundo acad\u00eamico ou \u00e9 algo pessoal mesmo?<\/strong><br \/>\nAcho que os dois motivos que voc\u00ea citou ajudam a compor esse rigor. O mundo acad\u00eamico nos ensina que tudo tem que ser comprovado e justificado para que se encaixe na concep\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia. Foi o que eu quis fazer, por exemplo, na delimita\u00e7\u00e3o do que seria o conceito de rock alternativo logo no pref\u00e1cio do livro. No meu segundo livro, \u201cRock Feminino\u201d, tamb\u00e9m busquei deixar bem claro para o leitor quais os crit\u00e9rios de inclus\u00e3o de artistas que eu utilizei. Ele pode at\u00e9 n\u00e3o concordar, mas pelo menos ele vai compreender as raz\u00f5es das minhas escolhas. E esse rigor j\u00e1 \u00e9 tamb\u00e9m um tra\u00e7o da minha personalidade, sou muito organizado e racional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao mesmo tempo voc\u00ea consegue conciliar essa concis\u00e3o e rigor com uma linguagem totalmente acess\u00edvel e rica em informa\u00e7\u00f5es. A que atribui isso?<\/strong><br \/>\nProcurei seguir meus \u00eddolos da cr\u00edtica musical. Acho que aprendi por osmose de tanto ler revistas e livros sobre m\u00fasica e sobre cultura pop. E fiz quest\u00e3o de fugir do academicismo e da linguagem rebuscada, pois eu j\u00e1 convivo com isso no dia a dia da minha atividade de pesquisador. Queria me libertar disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O interessante em suas resenhas \u00e9 que elas s\u00e3o t\u00e3o abrangentes, com uma precisa contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, pol\u00edtica, social, abrindo portas para o leitor ou pelo menos mostrando algumas portas que ele pode abrir e expandir seu conhecimento. \u00c9 essa mesmo a inten\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nA inten\u00e7\u00e3o foi essa. Tentei balancear o texto: informa\u00e7\u00f5es e curiosidades eram essenciais, mas senti que era importante dar um toque autoral e colocar a minha interpreta\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas e das letras. N\u00e3o queria que as resenhas fossem apenas um compilado de informa\u00e7\u00f5es (embora essa organiza\u00e7\u00e3o e curadoria, por si s\u00f3, j\u00e1 sejam relevantes), o intuito foi dar um toque adicional e uma contribui\u00e7\u00e3o original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dos 50 \u00e1lbuns listados no teu livro \u201cRock Alternativo\u201d apenas dois s\u00e3o nacionais, voc\u00ea n\u00e3o acha que isso d\u00e1 uma certa discrep\u00e2ncia no resultado final? Alguma vez voc\u00ea pensou em fazer um livro s\u00f3 com \u00e1lbuns nacionais?<\/strong><br \/>\nEsse foi um dilema que enfrentei. Ser\u00e1 que seria melhor excluir os \u00e1lbuns nacionais? Eu achei que eu deveria consider\u00e1-los no escopo da mesma forma que todos os outros pa\u00edses. Tem dois brasileiros, dois australianos e s\u00f3 um canadense, por exemplo. A maioria \u00e9 inglesa e americana, e n\u00e3o poderia deixar de ser assim. Adoro a cena brasileira independente, especialmente da d\u00e9cada de 1980 e 1990. Eu vivenciei essa cena, fui a um monte de shows, e j\u00e1 passou pela minha cabe\u00e7a escrever um livro sim. Quem sabe no futuro? Os dois document\u00e1rios recentes sobre o rock alternativo brasileiro (\u201cTime Will Burn\u201d e \u201cGuitar Days\u201d) s\u00e3o imperd\u00edveis, n\u00e3o canso de assisti-los.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-68053 alignright\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/rockfeminino.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"639\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/rockfeminino.jpg 400w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/rockfeminino-188x300.jpg 188w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em 2019 voc\u00ea lan\u00e7ou \u201cRock Feminino\u201d, seu segundo livro. Como surgiu a ideia para a tem\u00e1tica, e comparando com o \u201cRock Alternativo\u201d, o processo de pesquisa e escrita foi o mesmo?<\/strong><br \/>\nDesde 2015, com o disco de estreia da Courtney Barnett, entrei de cabe\u00e7a na cena do indie rock feito por mulheres. Eu j\u00e1 era f\u00e3 de artistas como Kim Gordon, Kim Deal, PJ Harvey e Patti Smith. S\u00f3 que o disco da Courtney foi um divisor de \u00e1guas. Comecei a explorar e encontrei artistas fant\u00e1sticas: Adrianne Lenker (Big Thief), Snail Mail, Angel Olsen, St Vincent, Sleater-Kinney, e v\u00e1rias outras. E pensei que isso tinha que ser documentado. Ao pesquisar livros sobre mulheres no rock vi que as op\u00e7\u00f5es eram escassas. Como em tantos outros campos da vida, o espa\u00e7o para as mulheres no rock sempre foi limitado e carregado de preconceitos. Ent\u00e3o decidi escrever o livro n\u00e3o somente pela minha admira\u00e7\u00e3o pela obra dessas artistas, mas tamb\u00e9m como um manifesto pol\u00edtico que retratasse as dificuldades enfrentadas por elas ao longo da hist\u00f3ria e os feitos que elas alcan\u00e7aram. O processo de escrever esse livro foi bem mais longo e trabalhoso, pois eu tive que sair da minha bolha indie e buscar artistas relevantes de todas as vertentes do rock. O aprendizado foi incr\u00edvel!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cRock Feminino\u201d come\u00e7a a partir dos anos 60, com as Ronettes. Em termo de g\u00eaneros, considero com maior amplitude do que \u201cRock Alternativo\u201d. Voc\u00ea tem essa percep\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSim. A inten\u00e7\u00e3o foi essa. Tem soft rock, hard rock, punk, rock de arena&#8230; S\u00f3 que ainda assim eu talvez tenha deixado a desejar por n\u00e3o ter inclu\u00eddo artistas de alguns g\u00eaneros, como o heavy metal. Quem sabe numa edi\u00e7\u00e3o ampliada no futuro eu consiga tornar o livro ainda mais abrangente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Apesar do rock ser um espa\u00e7o dominado essencialmente por homens, artistas como Kurt Cobain, por exemplo, sempre se posicionaram contra o machismo reinante. Recentemente, at\u00e9 o Robert Plant declarou ter arrependimento de algumas can\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea acha que ainda existe certo tabu em rela\u00e7\u00e3o a isso dentro do rock?<\/strong><br \/>\nCom certeza. Mesmo no punk e no rock alternativo (que, na minha opini\u00e3o, s\u00e3o mais abertos e acolhedores do que o rock tradicional) a misoginia ainda est\u00e1 muito presente. Pode at\u00e9 ter melhorado de alguns anos pra c\u00e1, mas ainda \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o revoltante. Tem um relato assustador no livro sobre o disco \u201cDig me Out\u201d, do Sleater-Kinney (da cole\u00e7\u00e3o 33 1\/3), que descreve como os t\u00e9cnicos de som dos locais em que elas iriam tocar desprezavam totalmente a capacidade que elas tinham de opinar sobre quest\u00f5es t\u00e9cnicas. No Brasil, esse machismo na cena roqueira foi muito bem retratado no sensacional document\u00e1rio \u201cFa\u00e7a Voc\u00ea Mesma\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-68051 alignright\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/neil_young.jpg\" alt=\"\" width=\"408\" height=\"612\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/neil_young.jpg 408w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/neil_young-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 408px) 100vw, 408px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Veio 2020 e voc\u00ea lan\u00e7ou \u2018Neil Young: Um G\u00eanio em 50 Can\u00e7\u00f5es\u201d. Por que Neil Young?<\/strong><br \/>\nPorque ele \u00e9 o meu maior \u00eddolo. Simples assim. Se eu tivesse que escrever sobre um artista, minha primeira op\u00e7\u00e3o seria ele. E foi. Admiro o fato dele se posicionar politicamente com firmeza (mesmo que n\u00e3o concorde com tudo), a integridade art\u00edstica e a hist\u00f3ria de vida do cara. E quase tudo que eu gosto em termos musicais tem a ver com a obra dele: muita intensidade, avers\u00e3o ao preciosismo t\u00e9cnico e uma abordagem crua que valoriza a espontaneidade e o improviso. E optei por contar hist\u00f3rias da vida e a carreira dele por meio das can\u00e7\u00f5es mais importantes compostas pelo cara. Achei que seria f\u00e1cil selecionar 50 m\u00fasicas, mas at\u00e9 hoje me arrependo de umas 20 que ficaram de fora e mereciam ter entrado. Achei que a estrutura ficou bem legal. N\u00e3o \u00e9 uma biografia linear, mas d\u00e1 pra conhecer muita coisa sobre a trajet\u00f3ria do artista. E fica num formato ideal para o leitor degustar a obra dele enquanto l\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse processo de imers\u00e3o na vida e obra de Neil Young, voc\u00ea encontrou muita informa\u00e7\u00e3o curiosa, divertida, \u201ccabulosa\u201d. Poderia contar algo de inusitado que descobriu e at\u00e9 foi surpresa?<\/strong><br \/>\nForam muitas as descobertas. Uma das mais impressionantes \u00e9 o fato dele ter composto \u201cCowgirl in the Sand\u201d, \u201cDown by the River\u201d e \u201cCinnamon Girl\u201d num mesmo dia, enquanto ardia em febre no quarto de casa. Insano!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acredita que ainda \u00e9 poss\u00edvel que surjam \u00eddolos da envergadura de um David Bowie, Bob Dylan ou do pr\u00f3prio Neil Young?<\/strong><br \/>\nAcho que sim. N\u00e3o sei se veremos \u00eddolos desse tamanho ligados ao rock, mas, na m\u00fasica como um todo, est\u00e3o sempre aparecendo artistas que exercem um grande fasc\u00ednio nos f\u00e3s. Hoje em dia \u00e9 mais dif\u00edcil ser unanimidade devido aos meios infinitos de comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 como antigamente, em que os Beatles tocaram em hor\u00e1rio nobre na TV americana e se tornaram quase que imediatamente uma febre mundial. Al\u00e9m disso, \u00e9 tudo mais vol\u00e1til. Muitos artistas recentes gozaram de grande popularidade, mas n\u00e3o conseguiram sustent\u00e1-la por muito tempo. \u00c9 muita novidade aparecendo num ritmo fren\u00e9tico. Mas acho que ainda temos espa\u00e7o para grandes nomes que consigam atravessar gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que estamos falando de Young, imposs\u00edvel n\u00e3o entrar no assunto da retirada das can\u00e7\u00f5es do Spotify. Voc\u00ea acompanhou? O que achou?<\/strong><br \/>\nAcompanhei sim. Acho muito corajoso da parte dele. \u00c9 uma pena que a grande repercuss\u00e3o inicial n\u00e3o se propagou, e o fato acabou caindo no esquecimento. O cen\u00e1rio de dom\u00ednio de grandes plataformas no entretenimento em geral \u00e9 assustador, e nem um cara com o tamanho e a reputa\u00e7\u00e3o de Young consegue enfrentar isso sozinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E esse crescimento ano a ano das vendas do vinil e queda dos CD\u2019s, como voc\u00ea enxerga esses movimentos em rela\u00e7\u00e3o aos formatos de m\u00fasica? Voc\u00ea tem algum formato preferido?<\/strong><br \/>\nAcho muito legal o renascimento do vinil e de outras m\u00eddias f\u00edsicas. Pra mim isso reflete muita coisa: tentativa de escapar do meio digital e seus v\u00edcios, reconhecimento da experi\u00eancia \u00fanica que o formato oferece e at\u00e9 mesmo a busca por distin\u00e7\u00e3o social e reconhecimento entre os pares que s\u00e3o f\u00e3s do formato. \u00c9 simb\u00f3lico, mas tamb\u00e9m tem uma dimens\u00e3o funcional (qualidade do som e experi\u00eancia t\u00e1til com a capa e os encartes, por exemplo). Meu formato preferido \u00e9 o vinil, mas eu n\u00e3o entrei ainda nessa onda de reativar minha cole\u00e7\u00e3o. Tenho minha cole\u00e7\u00e3o de CD\u00b4s como um grande xod\u00f3 e uso muito o formato digital no dia a dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Daniel, teus livros falam essencialmente de rock, um g\u00eanero que \u201cmorre e revive\u201d constantemente. Como voc\u00ea v\u00ea o momento atual do rRock, aqui e l\u00e1 fora?<\/strong><br \/>\nO rock nunca vai morrer. Ele perdeu a hegemonia, e isso \u00e9 natural por causa dos ciclos geracionais. Hoje o rock n\u00e3o representa mais o jovem rebelde, quem cumpre esse papel s\u00e3o g\u00eaneros como o hip hop, a m\u00fasica eletr\u00f4nica e o funk. O que os \u201ctioz\u00f5es\u201d do rock n\u00e3o conseguem enxergar \u00e9 que o rock se reinventou e que tem muito artista incr\u00edvel lan\u00e7ando \u00e1lbum todo m\u00eas. Eu acompanho os lan\u00e7amentos e fico fascinado por tantos discos bons. Se voc\u00ea est\u00e1 aberto para novos sons e aceita o desafio de sair de sua zona de conforto existe um mundo de m\u00fasica nova boa para ser explorado (seja com o r\u00f3tulo de rock ou com qualquer outro).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra coisa que se comenta \u00e9 que o rock perdeu seu poder contestador, e que o hip-hop acabou assumindo essa \u201cbandeira\u201d. Voc\u00ea at\u00e9 comentou sobre isso numa outra entrevista. Voc\u00ea \u00e9 acha que \u00e9 algo c\u00edclico?<\/strong><br \/>\nAcho sim. Como falei na quest\u00e3o anterior. Voc\u00ea acha que um adolescente vai querer seguir o que os pais dele acham bom e recomendam? \u00c9 claro que n\u00e3o. Alguns podem at\u00e9 fazer isso, mas a maioria vai buscar por algo que \u00e9 diferente (\u00e0s vezes at\u00e9 oposto) do que seus pais curtiam. E isso \u00e9 realmente c\u00edclico. E agora temos um fator complicador: a nova gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o se prende a r\u00f3tulos como as anteriores. Muitos deles s\u00e3o on\u00edvoros e transitam entre v\u00e1rios estilos. Qual vai ser o impacto disso no pr\u00f3ximo ciclo geracional? N\u00e3o tenho ideia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea pensa em lan\u00e7ar os livros por alguma editora?<\/strong><br \/>\nPenso sim. Se algu\u00e9m me der abertura pretendo lan\u00e7ar por uma editora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Recentemente voc\u00ea comentou sobre uma imers\u00e3o na obra de Bob Dylan, tem livro novo a caminho? Qual o tema?<\/strong><br \/>\nFiz mesmo uma imers\u00e3o na obra do Dylan. Eu tenho essa mania de escolher um artista e entrar a fundo na obra dele, garimpando at\u00e9 as coisas mais obscuras. Depois do Dylan eu fiz isso com o Van Morrison. Confesso que quando fa\u00e7o isso me d\u00e1 uma vontade imensa de escrever um livro sobre o tema, mas no caso do Dylan nem cogitei. J\u00e1 tem tanta coisa escrita sobre ele. N\u00e3o sei como eu poderia acrescentar algo relevante. Eu j\u00e1 tenho um livro pronto, em processo de revis\u00e3o. Dessa vez vai sair por uma editora. Depois que finalizei o livro do Neil Young decidi que meu livro seguinte seria sobre um artista brasileiro. E escolhi uma das bandas mais importantes dos \u00faltimos anos no rock brasileiro: Los Hermanos, a banda mais amada e odiada do Brasil! O livro \u00e9 sobre o disco \u201cVentura\u201d, a obra-prima deles que completa 20 anos no ano que vem.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-68054\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/danielrezende3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"841\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/danielrezende3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/danielrezende3-268x300.jpg 268w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p>\u2013<em>\u00a0Luciano Ferreira \u00e9 editor e redator na empresa\u00a0<a href=\"https:\/\/www.urgesite.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Urge :: A Arte nos conforta<\/a>\u00a0e colabora com o Scream &amp; Yell.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Doutor em Ci\u00eancias Sociais e professor da Universidade Federal de Lavras, Daniel Rezende \u00e9 autor de tr\u00eas livros independentes: \u201cRock Alternativo: 50 \u00c1lbuns Essenciais\u201d, \u201cRock Feminino\u201d e \u201cNeil Young: Um G\u00eanio em 50 Can\u00e7\u00f5es\u201d\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/07\/28\/entrevista-daniel-rezende-fala-dos-seus-livros-sobre-rock-alternativo-rock-feminino-e-neil-young\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":91,"featured_media":68049,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[5950],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68048"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/91"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=68048"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68048\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":68058,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68048\/revisions\/68058"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/68049"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=68048"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=68048"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=68048"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}