{"id":67495,"date":"2022-07-07T03:11:35","date_gmt":"2022-07-07T06:11:35","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=67495"},"modified":"2022-08-29T01:50:19","modified_gmt":"2022-08-29T04:50:19","slug":"entrevista-o-duo-portugues-fado-bicha-lanca-ocupacao-seu-disco-de-estreia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/07\/07\/entrevista-o-duo-portugues-fado-bicha-lanca-ocupacao-seu-disco-de-estreia\/","title":{"rendered":"Entrevista: O duo portugu\u00eas Fado Bicha lan\u00e7a \u201cOcupa\u00e7\u00e3o\u201d, seu disco de estreia"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Renan Guerra<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fado \u00e9 um g\u00eanero constru\u00eddo em c\u00e2nones, regras e todo um mundinho bastante ensimesmado. J\u00e1 bicha \u00e9 um termo historicamente ofensivo para homossexuais, afeminados, transviados e travestis \u2013 nos \u00faltimos anos esse termo foi ressignificado pela comunidade LGBTQIA+ aqui e al\u00e9m-mar. Fados e bichas parecem t\u00f3picos que se atraem e se repelem. Se o fado \u00e9 cheio das f\u00f3rmulas, Am\u00e1lia Rodrigues tamb\u00e9m \u00e9 \u00edcone de dramaticidade e emotividade para tantas bichas. Quantas bichas a cantar fado seguem em diferentes arm\u00e1rios? Lila Tiago e Jo\u00e3o Ca\u00e7ador abriram essa porta e n\u00e3o t\u00eam medo de se aventurar nas subvers\u00f5es do fado em seu projeto Fado Bicha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dupla portuguesa lan\u00e7ou em 2022 seu disco de estreia, \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/0h3wngyXninQGP538i3oqJ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">OCUPA\u00c7\u00c3O<\/a>\u201d. Depois de anos de shows e projetos em que elas cantavam na noite, fazendo turn\u00eas em diferentes lugares \u2013 inclusive aqui pelo Brasil \u2013, elas enfim conseguiram lan\u00e7ar em disco todas essas experimenta\u00e7\u00f5es. Produzido por Lu\u00eds Clara Gomes, conhecido na Europa por seu trabalho de m\u00fasico eletr\u00f4nico sob o pseud\u00f4nimo Moullinex, \u201cOCUPA\u00c7\u00c3O\u201d \u00e9 como o pr\u00f3prio nome diz: uma invas\u00e3o sobre o g\u00eanero do fado, uma balb\u00fardia sobre as regras e os c\u00e2nones, para que as exist\u00eancias bichas passem a tamb\u00e9m cantar seus poemas, suas gl\u00f3rias e suas dores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Misturando fado, m\u00fasica eletr\u00f4nica, m\u00fasica pop, refer\u00eancias a Antonio Varia\u00e7\u00f5es e a grandes nomes do fado portugu\u00eas, Fado Bicha \u00e9 uma esp\u00e9cie de experi\u00eancia sonora, que coloca a melancolia do fado a cargo das experi\u00eancias dolorosas da vida de pessoas LGBTQIA+. A delicada dor de uma pequena crian\u00e7a que acha que vai morrer de AIDS na dolorosa \u201c1997\u201d ou o olhar debochado sobre as rela\u00e7\u00f5es que se d\u00e3o nos espa\u00e7os secretos cantada em \u201cCr\u00f3nica do Maxo Discreto\u201d, tudo isso comp\u00f5e esse pequeno di\u00e1rio de sinceridades da dupla. \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/0h3wngyXninQGP538i3oqJ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">OCUPA\u00c7\u00c3O<\/a>\u201d \u00e9 um disco que surpreende por sua humanidade e sua intensidade, marcada pela atitude das duas artistas de n\u00e3o fazer concess\u00f5es aos preconceituosos e aos caretas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lila Tiago e Jo\u00e3o Ca\u00e7ador conversaram com o Scream &amp; Yell via Zoom. Com fala calma e inteligente, a dupla contou mais sobre a carreira do Fado Bicha, suas rela\u00e7\u00f5es com o fado tradicional, suas influ\u00eancias brasileiras e todo o processo de cria\u00e7\u00e3o do disco \u201cOCUPA\u00c7\u00c3O\u201d. Confira o papo na \u00edntegra abaixo:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Fado Bicha - Cr\u00f3nica do maxo discreto\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/70Dd9MgM15A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra come\u00e7ar, queria falar um pouquinho sobre o disco. Acredito que esse \u00e9 um momento muito simb\u00f3lico para voc\u00eas de poder lan\u00e7ar um disco cheio, acredito que voc\u00eas devem estar tamb\u00e9m nesse momento de descoberta, do prazer que o disco saiu e as pessoas est\u00e3o ouvindo. Falem um pouco sobre as inten\u00e7\u00f5es de voc\u00eas nesse disco, j\u00e1 que esse trabalho celebra esse percurso que voc\u00eas vinham construindo nos palcos.<\/strong><br \/>\nLila Tiago \u2013 Sem d\u00favida. Olha, n\u00f3s j\u00e1 dissemos isso algumas vezes: n\u00f3s somos uma banda um cadinho at\u00edpica em v\u00e1rios sentidos. Em um deles, \u00e9 que j\u00e1 estamos juntas h\u00e1 5 anos, j\u00e1 fizemos quase 300 shows durante esses 5 anos e s\u00f3 agora \u00e9 que estamos lan\u00e7ando o primeiro \u00e1lbum, porque o projeto come\u00e7ou de uma forma muito \u2013 eu ia dizer despretensiosa, mas n\u00e3o ia ser exata, porque come\u00e7ou com pretens\u00f5es muito espec\u00edficas, s\u00f3 que n\u00e3o eram pretens\u00f5es profissionais ou profissionalizantes, ele come\u00e7ou com uma pretens\u00e3o pessoal muito intensa e muito pr\u00f3pria. N\u00f3s come\u00e7amos a fazer o projeto em um bar muito pequenino em Alfama, um bairro de Lisboa. Era um bar que se chamava Favela LX, que pertencia a uma bicha brasileira que \u00e9 imigrante c\u00e1 em Lisboa, um bar muito pequeno, onde ele dava palco a artistas emergentes queers. Eu n\u00e3o tenho forma\u00e7\u00e3o musical, nunca tinha cantado publicamente, ent\u00e3o o projeto come\u00e7ou assim de uma forma bem explorat\u00f3ria, bem experimental, e depois foi crescendo e fomos ocupando outros lugares e fomos tamb\u00e9m percebendo camada ap\u00f3s camada, dando novos significados aquilo que est\u00e1vamos a fazer. O que o projeto significava para n\u00f3s, mas tamb\u00e9m o que ele significava para as outras pessoas, o que ele significava no seio do Fado, o que significava no seio da m\u00fasica portuguesa em geral e foi se tornando mais denso e mais desenvolvido, tanto pol\u00edtica quanto artisticamente. E entretanto, em 2019, n\u00f3s conhecemos o Lu\u00eds, que \u00e9 um m\u00fasico eletr\u00f4nico muito conhecido em Portugal pelo nome Moullinex, e ele se interessou muito pelo que n\u00f3s faz\u00edamos, quis ajudar-nos e fizemos uma m\u00fasica com ele, que foi a \u201cLila Fadista\u201d, que lan\u00e7amos no final de 2019, quando est\u00e1vamos no Brasil. E depois ele sugeriu de fazermos o \u00e1lbum \u2013 n\u00f3s, nessa altura, j\u00e1 quer\u00edamos fazer um \u00e1lbum, j\u00e1 fazia sentido para n\u00f3s, s\u00f3 que nessa altura a ideia do \u00e1lbum seria gravar todas as m\u00fasicas que n\u00f3s vinh\u00e1mos cantando desde o in\u00edcio, era um caminho fazer esse esp\u00f3lio do nosso percurso at\u00e9 ent\u00e3o. Uma vez que eram fados que j\u00e1 existiam, e isso \u00e9 muito comum no universo do fado, cantar-se fados que j\u00e1 existem, de outras pessoas, escrever-se letras novas para melodias que j\u00e1 existem, e n\u00f3s faz\u00edamos isso tamb\u00e9m, mas obviamente com outro conte\u00fado e com outra express\u00e3o, e a grande maioria dos fados sobre os quais n\u00f3s pedimos autoriza\u00e7\u00e3o para cantar as pessoas que t\u00eam os direitos de autor nos negaram, e ent\u00e3o n\u00f3s ficamos assim um cadinho sem ch\u00e3o, porque t\u00ednhamos uma ideia do que quer\u00edamos fazer com o \u00e1lbum e de repente j\u00e1 n\u00e3o podia ser aquilo. E ent\u00e3o a ideia do \u00e1lbum foi um cadinho que dan\u00e7ando, meio que tentando perceber o que poderia ser, o que deveria ser, entretanto come\u00e7ou a pandemia logo no come\u00e7o de 2020, foi tudo abaixo durante muito tempo e eu meio que acreditei que nunca viria a acontecer. E depois no final de 2021, recome\u00e7amos a trabalhar com for\u00e7a no \u00e1lbum j\u00e1 com obviamente outras inspira\u00e7\u00f5es, coisas que escrevemos durante a pandemia, ideias para colabora\u00e7\u00f5es que tivemos tamb\u00e9m durante a pandemia. Foi um per\u00edodo muito intenso de quatro, cinco meses de composi\u00e7\u00e3o e depois de produ\u00e7\u00e3o e terminamos de fazer o \u00e1lbum no final de janeiro de 2022. Ent\u00e3o o \u00e1lbum acaba por surgir agora, passados cinco anos, ele tem tanto de confirma\u00e7\u00e3o do nosso percurso quanto de primeiro \u00e1lbum de uma banda que acaba de se formar, porque tem muitas coisas novas. H\u00e1 m\u00fasicas que seguem mais um c\u00e2none fadista da forma como o fado acontece nas casas de fado, do que se chama fado tradicional, embora possamos falar sobre isso, o que \u00e9 o tradicional, como tamb\u00e9m tem outras m\u00fasicas que divergem muito desse c\u00e2none, que v\u00e3o buscar influ\u00eancias tanto do ponto vista formal quanto do ponto de vista conceitual, do ponto de vista l\u00edrico, pessoas que chamamos para o \u00e1lbum que n\u00e3o est\u00e3o de todo relacionadas com o fado, ent\u00e3o ele tem muito disto: de passado e de futuro e n\u00f3s acabamos por sentir que tinha uma coes\u00e3o nessa linha temporal e gostamos muito dele por causa disso tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A rela\u00e7\u00e3o de voc\u00eas com o fado \u00e9 uma coisa que vem desde sempre? Eu acredito que o fado para voc\u00eas seja uma coisa natural, com a qual voc\u00ea j\u00e1 nasce acompanhando, por\u00e9m qual foi o momento em que voc\u00eas compreenderam que era a hora de ocupar esse g\u00eanero cantando viv\u00eancias que eram importantes para voc\u00eas e para os seus pares?\u2019<\/strong><br \/>\nJo\u00e3o Ca\u00e7ador \u2013 Eu acho que o momento em que entendi que podia ser um lugar confidencial da ocupa\u00e7\u00e3o foi meio que sem querer e meio que a trope\u00e7ar nessa possibilidade com o que a Lila tinha feito, j\u00e1 que a Lila come\u00e7ou o Fado Bicha sozinha. Ela fez duas apresenta\u00e7\u00f5es nesse bar, achei super interessante, entrei em contato para falarmos e meio que aconteceu assim casualmente, mas eu acho que essa pergunta \u00e9 super pertinente porque eu j\u00e1 cantava fado em casas de fado e j\u00e1 tocava h\u00e1 bastante tempo (ou h\u00e1 algum tempo) e j\u00e1 me relaciona com o fado desde o final da adolesc\u00eancia. Com os poemas, aquela ideia da impossibilidade do amor e a impossibilidade da vida que muitas bichas se identificam, mas essa ideia de poder ocupar o fado com as nossas narrativas \u00e9 uma coisa que por algum motivo ainda n\u00e3o tinha acontecido no fado, n\u00e3o pelo menos de uma forma expl\u00edcita, as pessoas cantarem fados com essas letras e essas narrativas. A ideia da permiss\u00e3o na arte parece que, depois de ela acontecer, era f\u00e1cil, pois sempre existiram m\u00fasicos e bichas fadistas e letristas bichas, \u00e9 o que n\u00e3o faltava, mas ningu\u00e9m tinha tido ainda essa permiss\u00e3o para escrever um fado objetivamente e declaradamente homoafetivo ou sobre uma pessoa trans, mas antes de algu\u00e9m fazer parece que n\u00e3o existia essa permiss\u00e3o ou essa possibilidade, n\u00e3o seria poss\u00edvel, ent\u00e3o lembro de cantar em casas de fado e de sentir um desconforto muito grande com as narrativas que podia cantar e que n\u00e3o podia cantar, e a forma como podia tocar fado e que n\u00e3o podia tocar, porque s\u00e3o regras muito estritas. Quando o Fado Bicha acontece eu meio que tropecei nisso e era algo que eu desejava h\u00e1 muito tempo sem saber que desejava, era uma coisa que eu queria fazer h\u00e1 muito tempo sem saber que podia, sabes? Ent\u00e3o de repente abre-se uma porta nova e de repente quando essa porta se abre vem um universo inteiro de coisas que tu queres contar, que tu queres falar, que queres cantar, e que tu precisas e que as pessoas precisam de fazer, e ent\u00e3o \u00e9 uma coisa \u201ctricky\u201d, parece uma coisa \u00f3bvia, claro que n\u00f3s temos que contar as nossas narrativas, mas ao mesmo tempo o sistema \u00e9 t\u00e3o perverso que nos coloca nesse lugar de acharmos que n\u00e3o temos permiss\u00e3o para existir artisticamente, musicalmente no fado. Ent\u00e3o a ideia de quando vi a Lila fazer as primeiras apresenta\u00e7\u00f5es do Fado Bicha meio que sem querer despontou e abriu esse universo novo para podermos ocupar o fado tamb\u00e9m, de uma forma sem concess\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E \u00e9 curioso a gente pensar nisso, pois o fado \u00e9 uma coisa que est\u00e1, historicamente, relacionado com as pessoas queer, a Am\u00e1lia Rodrigues, a dramaticidade, tudo isso \u00e9 t\u00e3o importante para as pessoas queer e \u00e9 muito dif\u00edcil voc\u00ea se desvencilhar disso e achar que esse espa\u00e7o tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 nosso, n\u00e9? Isso tamb\u00e9m \u00e9 um pouco assustador de como esses espa\u00e7os criam essas barreiras, e a\u00ed eu queria saber como foi que voc\u00eas lidaram com esses espa\u00e7os de canto do fado, se eles aceitavam voc\u00eas, se houve uma resist\u00eancia inicial, como est\u00e1 essa rela\u00e7\u00e3o hoje?<\/strong><br \/>\nLila: Olha, inicialmente, como n\u00f3s j\u00e1 dissemos, come\u00e7amos a fazer num bar que por acaso ficava em Alfama, mas n\u00e3o tinha rela\u00e7\u00e3o nenhuma com a comunidade do fado e n\u00e3o tentamos abordagem nenhuma, assim direta a comunidade do fado. At\u00e9 porque adivinh\u00e1vamos desde o in\u00edcio a resist\u00eancia e a rejei\u00e7\u00e3o que haveria. A verdade \u00e9 que n\u00f3s decidimos muito cedo no projeto que n\u00e3o ir\u00edamos fazer depender o nosso trabalho da valida\u00e7\u00e3o ou legitima\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m, nem da comunidade do fado, nem das nossas fam\u00edlias, porque acho que a certa altura percebemos que haviam muitas pessoas entusiasmadas com o nosso trabalho desde o in\u00edcio. Isso foi not\u00f3rio, por exemplo, a primeira vez que eu fiz ainda sem o Jo\u00e3o, uma noite de Fado Bicha \u2013 e eu chamei logo de Fado Bicha \u2013, s\u00f3 tinha amigos meus l\u00e1, eram umas 15 pessoas, depois na segunda noite o bar encheu, ficaram umas 30, 40 pessoas de fora tentando ouvir e o interesse foi crescendo, era not\u00f3rio que o exerc\u00edcio que n\u00f3s est\u00e1vamos a levar a cabo era interessante e entusiasmante para muitas pessoas, mas n\u00f3s tamb\u00e9m sab\u00edamos, e n\u00e3o era dif\u00edcil de adivinhar, que seria muito perturbador para outras tantas pessoas. E isso aconteceu principalmente no in\u00edcio quando n\u00f3s fizemos as nossas redes sociais, o que foi ainda uns bons meses depois de termos come\u00e7ado o projeto e houve assim uma torrente de \u00f3dio on-line, uma torrente vinda da comunidade do fado, principalmente de uma ou duas pessoas, mas muitas outras pessoas tamb\u00e9m nos escreviam mensagens privadas e mensagens p\u00fablicas; mas assim, um \u00f3dio muito visceral. E n\u00f3s temos tido algumas aproxima\u00e7\u00f5es ao mundo do fado tradicional, digamos. J\u00e1 fizemos uma sess\u00e3o de fotos numa casa de fado vadio que h\u00e1 em Lisboa, onde o Jo\u00e3o costumava tocar, j\u00e1 tocamos com uma fadista muito conhecida, que \u00e9 a Gisela Jo\u00e3o, que \u00e9 das nossas preferidas, cantamos num concerto dela, num festival de fado, mas porque fomos convidadas por ela, n\u00e3o pelo festival. S\u00e3o aproxima\u00e7\u00f5es muito t\u00edmidas, mas que pra n\u00f3s \u00e9 ok, ou seja, n\u00e3o \u00e9 uma coisa que nos preocupe pensar se somos aceitos, n\u00e3o somos aceitos, se somos consideradas fado, se n\u00e3o somos consideradas. Acho que em 2019 nos surgiu uma piada que resume um bocadinho a nossa postura: quando nos dizem que o que n\u00f3s fazemos n\u00e3o \u00e9 fado, n\u00f3s respondemos, \u201cn\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 fado, \u00e9 fado bicha\u201d. Ent\u00e3o \u00e9 um bocado essa postura, de n\u00e3o nos preocuparmos, pois n\u00f3s, obviamente queremos esticar o c\u00e2none, queremos for\u00e7ar um pertencimento a um patrim\u00f4nio, e o patrim\u00f4nio \u00e9 entendido por muitas pessoas, no senso comum, como um lugar de tradi\u00e7\u00e3o e de cristaliza\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas e \u00e9 um lugar err\u00f4neo, um lugar falacioso, pois qualquer pessoa que estude um bocadinho da hist\u00f3ria do fado saber\u00e1 que o fado j\u00e1 passou por muitas muta\u00e7\u00f5es, j\u00e1 teve muitas mudan\u00e7as na forma como \u00e9. J\u00e1 foi cantado ao piano, a guitarra portuguesa, por exemplo, \u00e9 um instrumento que surgiu muitas d\u00e9cadas depois de se come\u00e7ar a cantar fado, j\u00e1 foi dan\u00e7ado, quer dizer, o fado veio do Brasil e, a partir da\u00ed, dizer que o fado tradicional acontece na Mouraria e com uma viola de fado e uma guitarra portuguesa e que sempre foi assim \u00e9 uma mentira, e eu acho que a maioria das pessoas que diz isso sabe que est\u00e1 mentindo. E qualquer hist\u00f3ria de qualquer g\u00eanero \u00e9 feita de evolu\u00e7\u00f5es, de mudan\u00e7as, no fundo o c\u00e2none \u00e9 muito forte quando se cria uma identidade t\u00e3o forte de um g\u00eanero musical que perpassa uma comunidade ao longo do tempo. Isso \u00e9 uma experi\u00eancia t\u00e3o forte, t\u00e3o bela, que ela acaba por contaminar as gera\u00e7\u00f5es uma ap\u00f3s a outra e as gera\u00e7\u00f5es v\u00e3o tendo preocupa\u00e7\u00f5es diferentes, v\u00e3o tendo inspira\u00e7\u00f5es diferentes, mas esse patrim\u00f4nio, chamemos-lhe assim, consegue persistir ao longo do tempo, e ele n\u00e3o persiste ficando igual, n\u00e3o \u00e9? Ele n\u00e3o persiste ficando como uma fotografia velha numa gaveta que n\u00f3s tiramos uma vez por semana e fazemos exatamente igual, n\u00e3o, eu persisto e eu vivo precisamente porque as pessoas v\u00e3o apropriando dele e usando a sua maneira, usando seus corpos como filtro desse patrim\u00f4nio e eu acho que isso \u00e9 a coisa mais bonita. O maior elogio que n\u00f3s podemos fazer ao fado, nesse caso em particular, \u00e9 n\u00f3s estarmos a dizer \u201cn\u00e3o, o fado da forma que ele existe ou existia n\u00f3s n\u00e3o nos sentimos representadas nele, mas n\u00f3s gostamos tanto dele que n\u00f3s vamos fazer, vamos us\u00e1-lo para nos representar\u201d e eu acho que isso \u00e9 um elogio fant\u00e1stico ao fado ou a qualquer g\u00eanero musical. Ent\u00e3o \u00e9 isso que nos anima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No disco \u201cOcupa\u00e7\u00e3o\u201d voc\u00eas inclusive fazem esses di\u00e1logos do fado com outros g\u00eaneros, tem a m\u00fasica eletr\u00f4nica, tem essas trocas, queria entender como foi chegar nesses encontros, de entender o que misturar, o que trazer de novo, o que trazer de cl\u00e1ssico?<\/strong><br \/>\nJo\u00e3o: Acho que a premissa inicial e a nossa, eu diria, quase tend\u00eancia prim\u00e1ria \u00e9 criar alguma coisa sobre o fado, sobre a ideia do que s\u00e3o as melodias, as harmonias, aquelas balizas do fado, porque eu toquei fado durante muitos anos, a Lila ouvia muito fado, o pr\u00f3prio repert\u00f3rio que n\u00f3s come\u00e7amos a fazer no fado bicha est\u00e1 muito relacionado com o fado, ent\u00e3o a mat\u00e9ria prima \u00e9 o fado, mas depois n\u00f3s tamb\u00e9m somos um caldeir\u00e3o feito de muitas m\u00fasicas, de muitas influ\u00eancias. E, para al\u00e9m de n\u00f3s, o Lu\u00eds, o Moullinex, trazia um conjunto de ferramentas que nos interessava explorar, que ainda n\u00e3o t\u00ednhamos conseguido explorar ao vivo, porque era s\u00f3 a guitarra e a voz da Lila, ent\u00e3o nos interessamos muito por poder explorar esteticamente outras ferramentas, mais de eletr\u00f4nica, mas tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00f3. Usamos viola cl\u00e1ssica, mel\u00f3dica, efeitos na voz da Lila, que era uma coisa que me dava muito prazer sempre, efeitos na minha voz tamb\u00e9m, piano, ent\u00e3o interessava-nos romper com essa ideia da guitarra portuguesa e da viola como a \u00fanica forma verdadeira e aut\u00eantica de criar fado, ou de criar sobre o fado. E veio de uma forma um cadinho natural, as tantas pens\u00e1vamos ou era uma preocupa\u00e7\u00e3o se est\u00e1vamos a for\u00e7ar demasiado o fado ou se aquilo que faz\u00edamos j\u00e1 rompia demasiado com o fado, mas depois paramos de pensar sobre isso, e criamos essa ideia da ocupa\u00e7\u00e3o, era como se entr\u00e1ssemos em uma casa e voc\u00ea entra sem pedir licen\u00e7a, \u00e9 a premissa da ocupa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o estais a pensar naquilo que podes ou n\u00e3o fazer. E depois, trazer as outras ferramentas e as outras musicalidades vai de uma forma supernatural e tinha a ver com as nossas influ\u00eancias, aquilo que n\u00f3s ouv\u00edamos e gost\u00e1vamos e fazia sentido para cada m\u00fasica. Lembro que no processo de cria\u00e7\u00e3o dos arranjos, e mesmo da composi\u00e7\u00e3o, pens\u00e1vamos muito m\u00fasica a m\u00fasica, como se a m\u00fasica fosse um objeto cada uma, um objeto muito espec\u00edfico, e tent\u00e1vamos servir o melhor poss\u00edvel aquele conte\u00fado e aquela mensagem, aquele lugar, ent\u00e3o era vesti-la da melhor forma que consegu\u00edamos, e da forma mais espec\u00edfica para cada uma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lila: E tamb\u00e9m daquilo que t\u00ednhamos como possibilidade e como potencialidades, n\u00e3o s\u00f3 naquilo que n\u00f3s faz\u00edamos, mas os instrumentos que o Jo\u00e3o toca e depois as pessoas que t\u00ednhamos a volta tamb\u00e9m, o Lu\u00eds, mas depois as outras que fomos chamando. Foi um bocado reunir as possibilidades a nossa volta e trabalhar com o que t\u00ednhamos para cada lugar emocional e para cada can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu ia inclusive perguntar dessas outras pessoas que participaram do processo tamb\u00e9m. A gente tem diferentes nomes que participam do disco, eu acho que eles trazem esses di\u00e1logos com outras realidades, outras viv\u00eancias e eu queria saber como foi tamb\u00e9m essa troca com esses artistas parceiros.<\/strong><br \/>\nLila: Olha, foi muito bom. Todas essas pessoas s\u00e3o nossas amigas, j\u00e1 fizemos outras coisas antes. Para n\u00f3s era muito importante chamar outras pessoas queers que trabalham em Portugal, n\u00e3o apenas portuguesas, mas que trabalham e vivem em Portugal, para estar no \u00e1lbum, gostar\u00edamos ainda de ter mais pessoas, mas tamb\u00e9m n\u00e3o foi poss\u00edvel. E cada uma delas est\u00e1 no \u00e1lbum por algum motivo muito particular e que fazia muito sentido para aquela m\u00fasica. Por exemplo, a Symone de l\u00e1 Dragma, que \u00e9 uma cantora drag, que n\u00f3s j\u00e1 conhec\u00edamos e que \u00e9 nossa amiga, eu tinha esse poema que \u00e9 contra as touradas e que \u00e9 uma esp\u00e9cie de reflex\u00e3o que parte da minha experi\u00eancia \u2013 n\u00f3s moramos em Lisboa, mas a minha fam\u00edlia \u00e9 de uma aldeia no meio de Portugal, que se chama Ribatejo e que est\u00e1 muito ligada a tradi\u00e7\u00e3o tauromaquia, dos touros e etc, e ent\u00e3o \u00e9 uma coisa que eu convivi desde crian\u00e7a e que me perturbou e me perturbava desde crian\u00e7a. Meio que a m\u00fasica reflete um bocadinho, n\u00e3o s\u00f3 uma posi\u00e7\u00e3o \u00e9tica e pol\u00edtica sobre as touradas, mas tamb\u00e9m uma reflex\u00e3o minha da viv\u00eancia, dessa tradi\u00e7\u00e3o tauromaquia e dessa rela\u00e7\u00e3o com o patriarcado, e depois eu lembrei a Symone tamb\u00e9m \u00e9 do Ribatejo, da mesma regi\u00e3o que a minha fam\u00edlia, ent\u00e3o seria \u00f3timo trazer ela, pois ela tem uma voz lind\u00edssima e potente e trazer outra pessoa queer do Ribatejo pra cantar essa m\u00fasica conosco fez um sentido por causa disso. Depois, as Trypas Corass\u00e3o, que s\u00e3o a Tita Maravilha e a Cigarra, s\u00e3o duas artistas brasileiras que moram em Lisboa, e t\u00eam esse projeto chamado Trypas Corass\u00e3o, e tamb\u00e9m lan\u00e7aram o primeiro \u00e1lbum agora h\u00e1 uma semana, e eu escrevi aquele poema, o \u201cMedusa-me\u201d, no ano passado, e assim que acabei de escrever eu senti que queria ter a Tita cantando aquele poema comigo, pois ela enquanto mulher trans desenvolve muito artisticamente e criativamente aquele lugar de monstruosidade, e brinca muito com isso. Ent\u00e3o achei que seria maravilhoso e que se ligava muito ao trabalho delas, e tamb\u00e9m quer\u00edamos que fosse uma m\u00fasica assim mais com uma estrutura diferente, mais oper\u00e1tica de certa forma, ent\u00e3o chamamos a Tita e a Cigarra para fazer essa m\u00fasica conosco. Labaq fez o \u201cFado do Ci\u00fame\u201d conosco porque foi a primeira pessoa com quem tocamos, na altura est\u00e1vamos a fazer uma resid\u00eancia art\u00edstica e Labaq estava conosco \u2013 ela tamb\u00e9m \u00e9 brasileira, de Franca, e que mora em Portugal. Em \u201cFado do Ci\u00fame\u201d foi Labaq que sugeriu toda aquela parte eletr\u00f4nica e o bumbo e etc, e quando decidimos fazer o \u00e1lbum chamamos para ela fazer conosco. Alice Azevedo tamb\u00e9m veio porque era um fado sobre ela e ent\u00e3o achamos que quer\u00edamos ter a voz dela no \u00e1lbum, uma vez que est\u00e1vamos a cantar uma m\u00fasica sobre ela. Ent\u00e3o foi assim tudo um bocadinho meio que de ter essa no\u00e7\u00e3o de que quer\u00edamos ter essas pessoas no \u00e1lbum, at\u00e9 t\u00ednhamos sugest\u00f5es de ter algumas pessoas mais firmadas na m\u00fasica, pessoas j\u00e1 bem influentes, tanto em Portugal quanto no Brasil, e que poderiam entrar no \u00e1lbum conosco, pessoas que admiramos, mas n\u00f3s decidimos que n\u00e3o faria muito sentido. Quer\u00edamos que o primeiro \u00e1lbum tivesse esta sensa\u00e7\u00e3o de levantados do ch\u00e3o, h\u00e1 esse verso numa das m\u00fasicas, a \u201cEstourada\u201d. \u201cLevantado do Ch\u00e3o\u201d \u00e9 o nome de um livro do Jos\u00e9 Saramago, de quem eu gosto muito, e quer\u00edamos muito que tivesse essa sensa\u00e7\u00e3o de \u201clevantadas do ch\u00e3o\u201d e ent\u00e3o tamb\u00e9m tivesse essa sensa\u00e7\u00e3o de comunidade, que essas pessoas fizessem parte do \u00e1lbum, e por isso fomos chamando uma a uma se fizesse sentido para aquela m\u00fasica em particular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas j\u00e1 vieram pro Brasil em 2019, agora voc\u00eas est\u00e3o voltando j\u00e1 com o disco. Queria saber um pouco da rela\u00e7\u00e3o de voc\u00eas com a m\u00fasica brasileira, o que voc\u00eas escutam daqui e se voc\u00eas est\u00e3o animados de voltar pra c\u00e1, como est\u00e1 essa expectativa?<\/strong><br \/>\nJo\u00e3o: Para n\u00f3s a m\u00fasica brasileira tem uma influ\u00eancia forte, porque em Portugal a cultura queer nos ve\u00edculos mais mainstream, na r\u00e1dio, na televis\u00e3o, \u00e9 quase inexistente, ela existe, mas de uma forma perif\u00e9rica, e a m\u00fasica queer que nos chega do Brasil \u00e9 muito potente, diversificada e est\u00e1 num estado de progress\u00e3o muito a frente, em que j\u00e1 temos apropria\u00e7\u00e3o da palavra bicha, que j\u00e1 \u00e9 feita h\u00e1 muitos anos, o empoderamento de pessoas travestis que trazem muitas pautas, ent\u00e3o para n\u00f3s n\u00e3o havia como n\u00e3o beber dessa cultura e dessa for\u00e7a art\u00edstica que vem do Brasil. Da Linn [da Quebrada], da Elza [Soares], da Liniker, do Johnny Hooker, que n\u00f3s gostamos muito. Ent\u00e3o o Brasil tem essa import\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m porque quando come\u00e7amos o Fado Bicha come\u00e7amos no espa\u00e7o de uma pessoa bicha brasileira. E muitas pessoas brasileiras que se mudaram para Portugal nos \u00faltimos anos viram como uma grande cria\u00e7\u00e3o a ideia do Fado Bicha, acho que tamb\u00e9m se relaciona com a quest\u00e3o de n\u00e3o terem uma ideia muito cristalizada do que \u00e9 o fado, nem muito r\u00edgida, ent\u00e3o permitem-se muito mais a partir de uma forma diferente, \u00e9 deixar-se dialogar com esse exerc\u00edcio do fado e mud\u00e1-lo e plastific\u00e1-lo. Ent\u00e3o para n\u00f3s foi muito forte em 2019, Lila pode falar, se quiser, um bocadinho, dessa experi\u00eancia com as pessoas brasileiras, tanto de c\u00e1 quanto da\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lila: Em 2019 foi engra\u00e7ado porque n\u00f3s fomos ao Brasil inicialmente porque fomos participar da SIM S\u00e3o Paulo numa comitiva de bandas portuguesas. T\u00ednhamos dois shows dentro da SIM SP, ent\u00e3o n\u00f3s decidimos, meio assim a maluca, comprar viagens \u2013 ficamos quanto tempo? Tr\u00eas semanas, n\u00e3o foi?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o: Ficamos 20 dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lila: 20 dias de intervalo e escrevemos nas redes que ir\u00edamos para Brasil e que quer\u00edamos cantar em muitos lugares e de repente come\u00e7amos a receber imensas propostas, algumas mais a s\u00e9rio de casas de shows e outras s\u00f3 assim \u201cvenham aqui, venham acol\u00e1\u201d. Mas foi muito surpreendente para n\u00f3s a maneira como havia pessoas em lugares como, sei l\u00e1, Campo Grande, Uberl\u00e2ndia, que n\u00e3o s\u00e3o as principais cidades, as cidades com mais pessoas, mas tinham pessoas que seguiam as nossas redes, nosso trabalho. Baseadas nessas propostas, come\u00e7amos a montar uma mini turn\u00ea e acabamos por fazer oito shows em SP, BH e no Rio \u2013 acabamos por ficar s\u00f3 em tr\u00eas cidades, pois tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00ednhamos capacidade de fazer muitas viagens e nessas tr\u00eas cidades t\u00ednhamos amigos e poder\u00edamos ficar com eles, o que ajuda no n\u00edvel financeiro. E eu, principalmente, ia com algum receio, com muita vontade, mas com algum receio de que a nossa linguagem fosse dif\u00edcil, al\u00e9m de entender o nosso portugu\u00eas, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ou t\u00e3o f\u00e1cil assim, entender a nossa linguagem art\u00edstica, o fado, que as pessoas mais ou menos sabem o que \u00e9, mas acho que t\u00eam assim uma ideia muito obsoleta do que \u00e9 o fado. E depois ainda juntar toda uma linguagem queer que \u00e9 portuguesa, h\u00e1 pontos em comum com o Brasil, mas h\u00e1 coisas que tamb\u00e9m s\u00e3o diferentes, ent\u00e3o eu ia assim com algum receio de perceber se as pessoas iam conectar-se, ligar-se e entender a nossa linguagem e depois foi maravilhoso. Toda a nossa experi\u00eancia foi muito intensa, foram assim 20 dias muito intensos, porque fizemos muitas coisas, tivemos com muitas pessoas, sempre em casa de amigos, ent\u00e3o havia sempre coisas pra fazer, lugares para visitar. E h\u00e1 toda a quest\u00e3o da seguran\u00e7a que n\u00f3s vamos da Europa j\u00e1 com a cabe\u00e7a feita \u201ctens cuidado com isso, n\u00e3o podes tirar o celular, tens que ter cuidado com n\u00e3o sei o que\u201d, ent\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia emocional que mesmo que n\u00e3o aconte\u00e7a nada, tu vives sempre essa experi\u00eancia emocional de sentir-se sempre em perigo, h\u00e1 essa experiencia psicol\u00f3gica, e ent\u00e3o tudo junto acaba que foi mesmo muito intenso o per\u00edodo que estivemos no Brasil. Fomos numa festa na casa de Caetano Veloso, fomos em um lanche na casa de Cec\u00edlia Boal no Rio de Janeiro, fizemos coisas assim que nunca imaginamos que conseguir\u00edamos fazer. E os shows foram maravilhosos, sempre cheios, foram em lugares pequenos, mas sempre cheios, sentimos que as pessoas se ligavam muito facilmente naquilo que est\u00e1vamos propondo. N\u00f3s faz\u00edamos sempre tamb\u00e9m uma reflex\u00e3o da nossa postura obviamente enquanto pessoas portuguesas brancas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria de Portugal e do Brasil, ao colonialismo, ent\u00e3o n\u00e3o sei, eu senti que as pessoas se ligavam a n\u00f3s de uma forma muito mais emocional e emotiva do que eu esperava, e isso foi muito bom de sentir. E foi engra\u00e7ado porque eu j\u00e1 tinha estado em muitos pa\u00edses do mundo, mas nunca tinha estado no Brasil, e nunca tinha estado num lugar onde eu n\u00e3o estava em casa, mas eu tamb\u00e9m n\u00e3o estava no estrangeiro. Eu nunca tinha sentido isso, eu percebi que n\u00e3o estava em casa, n\u00e3o estava em Portugal, mas tamb\u00e9m n\u00e3o me sentia totalmente no estrangeiro, era um ponto de interm\u00e9dio. E \u00e9 bonito de sentir, ent\u00e3o estamos muito entusiasmadas pra voltar, agora nesse outro momento da pandemia, com o \u00e1lbum, acho que vai ser muito bonito!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Fado Bicha \u2013 \u201cPovo Pequenino\u201d | 1\u00aa Semifinal | Festival da Can\u00e7\u00e3o 2022\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mbnBY-UNzA4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Fado Bicha - Lila Fadista\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/33HL2g_cv64?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"ESTOURADA\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cc6EsHeDlRQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u2013 Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista e escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Faz parte do\u00a0<a href=\"http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNGttyQx5OWOAKRyi7iGq8E4oacvuw\">Podcast Vamos Falar Sobre M\u00fasica<\/a>\u00a0e colabora com o\u00a0<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/monkeybuzz.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFjG1FOw9vBGrawiUhocH4mshwTtw\">Monkeybuzz<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/revistabalaclava.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/revistabalaclava.com\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFqHswo4qEcyg8fw9VPM8IWsRH5oQ\">Revista Balaclava<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Depois de anos de shows e projetos em que elas cantavam na noite, fazendo turn\u00eas em diferentes lugares \u2013 inclusive aqui pelo Brasil \u2013, elas enfim conseguiram lan\u00e7ar em disco todas essas experimenta\u00e7\u00f5es\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/07\/07\/entrevista-o-duo-portugues-fado-bicha-lanca-ocupacao-seu-disco-de-estreia\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":67496,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[5843,47],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67495"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=67495"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67495\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":67919,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67495\/revisions\/67919"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/67496"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=67495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=67495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=67495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}